Com o conhecimento: Gabinete da Sr.ª Ministra da Educação SPZN SPN CGTP FENPROF PCP Bloco de Esquerda PSD CDS-PP Ex.

ma Srª Ministra da Educação Num tempo tão conturbado na educação importa reflectir sobre alguns aspectos em particular, que parecem escapar na discussão, por vezes acesa, sobre o modelo de avaliação, os prazos, e, por último, mas sempre em primeiro quando se trata de experienciar, os receptores, ou seja, os professores a avaliar, a saber os professores contratados. Relativamente ao modelo, considero-o no mínimo anedótico, por contemplar parâmetros de carácter pouco claro como atender às acções de formação, como se as pós-graduações, mestrados e até doutoramentos, realizados pelos professores e, em alguns casos, no exercício pleno das suas funções docentes, não fosse uma bem mais valia do que qualquer acção de formação, sobre qualquer tema, desde que possa “oferecer” créditos, que permitam aos professores efectivos progredirem na carreira. Depois, por contemplar a observação de aulas, passando, a meu ver, um atestado, ainda que nalguns casos tardio, e noutros póstumo, de incompetência aos muitos orientadores, metodólogos e professores de inúmeras Faculdades deste país, que durante anos acompanharam e avaliaram o desempenho dos professores estagiários, nas escolas e através das disciplinas pedagógicas, já para não desenvolver o tema sobre o investimento, ou desinvestimento (parece-me ser o ponto de vista deste Ministério), económico naquelas práticas. Quanto aos prazos parece-me importante relembrar a este Ministério que a lei que V. Ex.ª criou, mandou criar, ou lhe mandaram criar, dita, no artigo 17.º, ponto três, do Decreto Regulamentar n.º2/2008, de 10 de Janeiro, que a observação de aulas deve corresponder, e passo a citar “a uma unidade didáctica diferenciada.” Bem, lamento dizer, mas estamos já no final do segundo período e, considerando que me proponho, como sempre fiz, cumprir escrupulosamente as planificações, refiro que, na minha disciplina em particular, estarei ao longo do terceiro período exclusivamente na última unidade didáctica do programa. No que diz respeito à avaliação de desempenho dos professores, e na qualidade de professora contratada, não concordo com a referida avaliação por considerar: Primeiro - que as grelhas de avaliação já elaboradas por algumas escolas, bem como aquilo que é referido no ponto cinco, do artigo 30, do Decreto Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro, e ainda no ponto três do artigo 45.º do Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário, de 19 de Janeiro de 2007, determina a contabilização de acções de formação na avaliação, sendo tal consideração desapropriada, uma vez que os professores contratados são, na maioria

das vezes, rejeitados da sua participação nas mesmas, por aquelas privilegiarem os professores que precisam de créditos para ascenderem na carreira profissional. Segundo – os professores contratados não estão integrados na carreira, por isso, ainda que possam ser avaliados com as menções de Excelente e Muito bom, jamais poderão ver espelhados nos seus vencimentos e/ou progressão na carreira, por se encontrarem fora desta, e também por não estar, à partida, assegurada a sua colocação no ano seguinte, uma vez que muitos não reúnem as condições proferidas no ponto três do artigo 54.º do Decreto-Lei n.º20/2006, de 31 de Janeiro e reforçadas no capítulo VII do Aviso n.º5634-A/2007, de 23 de Março. Ainda de referir que o concurso relativo aos professores contratados, que reúnam, ou não, tais condições, em nenhum destes pontos refere que a sua apresentação a concurso está dependente da sua avaliação de desempenho. Deste modo, é importante atender ao modo de avaliação destes professores, por se encontrarem não apenas não integrados na carreira docente, não apenas por muitos deles estarem há mais de dez anos no Índice 151, não apenas por muitos deles estarem a muitos kilómetros das suas residências e das suas famílias, não apenas porque a eles cabe, na maioria das escolas, a leccionação das turmas que os professores efectivos rejeitam, não apenas por a eles caberem ficar com os piores horários lectivos, e não lectivos; não apenas por terem de leccionar em várias escolas para poderem assegurar o maior número possível de horas de modo a poderem no total terem um horário lectivo completo, nem que para isso tenham de estar em duas, três ou mesmo quatro escolas, mas, e, sobretudo, por todos aqueles que se revêem nestes pontos todos e mesmo assim não têm horário completo. Pergunto-me se não devia este Ministério parar por momentos (mesmo que sejam segundos) para se questionar sobre os índices de motivação destes professores. Há que atender ainda que existem também muitos professores, que ainda que estejam nestas condições, ainda investem na sua formação profissional, muitos já com mestrados, outros propondo-se a doutoramentos. Mas nada disto parece importar quando se fala de avaliação de desempenho. Importa assumir que é preciso que a avaliação aconteça, concordo plenamente com a Sr.ª Ministra. Que é preciso diferenciar quem realmente trabalha, investe, investiga, é assíduo, pontual, dinamizador, sem dúvida! Mas primeiro permita-me que eu me insira na carreira, depois que eu queira progredir na carreira e querendo submeta-me a provas que revelem o meu empenho. Mas não misture o meu desempenho enquanto docente com o desempenho dos meus alunos, as muitas outras motivações dos meus alunos, quando os mecanismos para os disciplinar na sala de aula já não são suficientes, e ser necessário que um aluno possa mesmo ousar insultar um professor em plena sala de aula para que não haja dúvidas em expulsá-lo da escola, não vá o assistente social ou outra entidade reclamar, quando o aluno apenas não leva o material necessário para trabalhar nas aulas, deita para o lixo o material que o professor planificou, organizou e fotocopiou para o ajudar a compreender um ou outro conteúdo programático de maior complexidade, dormir na sala de aula, recusar-se a ler um texto, ir ao quadro fazer um exercício, ou até mesmo resolver uma simples ficha de trabalho. Digamos que estas atitudes são um mal menor enquanto o aluno não agredir o professor verbal ou fisicamente. Mesmo nesta fase terei sempre uma linha SOS a meu dispor para me ajudar a superar a humilhação e até a violação da minha dignidade enquanto pessoa. Sr.ª Ministra, antes de legislar tente integrar-se nas muitas realidades escolares e não visite apenas as escolas pela mão dos seus presidentes. Esteja nas escolas com os professores. Permita-se de ir à sala dos professores e fale com eles, mas sobretudo ouçanos, porque não há ninguém neste país que saiba mais de educação, da escola, dos alunos que o professor. Nem mesmo os pais conhecem a realidade escolar, às vezes não conhecem os seus próprios filhos e remetem a sua educação para os professores. Muitas

vezes, na maioria das vezes, não estamos apenas no papel de professores, mas, sobretudo, de educadores, e o discurso é o de um pai, um irmão mais velho, e até de um avô. Se nos ouvem? Ouvem. Algumas vezes até modificamos as suas vidas, ainda que nem sempre vivamos perto deles o tempo suficiente para visualizar a operacionalização dessas mudanças. Contudo, hoje a desmotivação, o descontentamento rouba-nos a disponibilidade para os ouvirmos, os aconselharmos. Preocupamo-nos mais com as nossas carreiras ou para alguns de nós pré-carreiras, ou para outros de nós, pseudo-carreiras o ambiente degradante da educação, das escolas, dos alunos, da disciplina ou indisciplina destes… Enfim. Sou contratada há cerca de 12 anos e registo na pele mais kilómetros que aqueles que alguma vez farei à volta do mundo em turismo e carreguei até há bem pouco tempo a esperança de me orgulhar um dia de me ter sacrificado tanto por esta profissão, de ter dado sempre mais a ela que à minha família, de ter estado mais tempo em frente a um computador a enviar por e-mail informação científica e cultural aos meus alunos do que a conversar com os meus amigos, de ter prescindido nuns casos e adiado noutros projectos pessoais, para poder ter tempo para a escola e estar mais disponível para os meus alunos. Hoje não estou desmotivada ou desinteressada pelo exercício da docência, mas profundamente surpreendida pela ignorância que reina neste país sobre o que é a escola e teimam classificá-la como uma empresa. Mentira! Na escola não existe apenas informação, formação, instrução, saber e tudo o resto que vá nesta linha. Existe partilha de afectos, emoções, alegrias, solidariedade e muitas vezes tristezas, solidões… E é nisto que a maioria de nós aposta nas escolas quando estamos em sala de aula, nos intervalos, na cantina, no bar, na biblioteca… Roubamos momentos com os colegas e amigos na sala de professores para muitas vezes deixar que os nossos alunos terminem tarefas que deveriam ser cumpridas no contexto sala de aula, ou em casa, e ainda porque o aluno precisa de falar connosco por sentir a nossa sensibilidade e saber que pode confiar. E nós que fazemos? Não olhamos para o relógio a pensar no intervalo que não teremos, nos compromissos familiares, ou nos trabalhos que tenho de finalizar para o dia seguinte. Ficamos ali…com os ouvidos atentos e profundamente envolvidos na história e prontos a interferirmos com os nossos conselhos se solicitados. Não imagina o quanto isso faz a diferença para muitos deles. Tenho poucos anos de serviço, mas nem eu própria sei quantas vezes isso me aconteceu e ao assumi-lo não o faço por vaidade, mas porque considero estar no exercício das minhas funções enquanto educadora, ainda que ninguém mo exija. Não precisamos que nos digam por escrito, com carga legal, que devemos empenharnos para que os nossos alunos não desistam, para que os nossos alunos trabalhem connosco e tenham sucesso. Sempre o fizemos Sr.ª Ministra. E se alguns de nós não correspondeu a estas acções são muito pouca Sr.ª Ministra e aqui há um ponto em comum, pois há alguns destes noutros sectores profissionais e até governamentais…e nem por isso se desacredita todo o sector. Reflicta profundamente sobre esta realidade que bem sei não ser a sua, mas é a da maioria de nós. A comunicação com o Ministério da Educação deve ser feita na horizontal Sr.ª Ministra, caso contrário não haverá consenso e a educação irá brevemente naufragar. Atenciosamente, Francelina Clara Pires Amaro Fialho

Vila Real, 14 de Março de 2008