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Dias Contados
Alberto Gonçalves sociólogo albertog@netcabo.pt

domingo, 30 de Março UMA CAMPANHA CHOROSA Até há pouco, pelo menos a julgar pelas aparências, os sucessivos "momentos históricos" do eng. Sócrates caracterizavam-se pela participação do primeiro-ministro neles. Agora, a História é feita pelos cidadãos anónimos com que o eng. Sócrates tem a sorte de privar. Antes de almoço, o nosso homem entrega uns prémios a uns empresários de Viseu e confessa: "Não há melhor forma de passar uma manhã de domingo do que com aqueles que querem construir um país melhor." Por acaso, consigo imaginar cerca de oitocentas formas preferíveis de passar as manhãs de Domingo, algumas envolvendo gente que nem sonha que o país existe. Mas eu não sou estadista. Um estadista autêntico também aproveita a tarde de domingo para oferecer dezasseis computadores a deficientes e proclamar: "Não podia haver nada mais tocante do que isto: o Estado e as empresas a distribuírem equipamento especial a pessoas especiais." Novamente, dou por mim a enumerar alternativas mais tocantes e a constatar a minha baixeza. A baixeza marca: para me comover, necessito de compositores austríacos falecidos há dois séculos ou americanos nascidos há um; o eng. Sócrates dá um passeio pelas Beiras e comove-se num ápice. As televisões mostraram-no, quase em lágrimas, entre empresários, doentes, estudantes, velhinhos e populares não especificados, aos quais levou as graças das Novas Oportunidades, do QREN e do PARES (não me perguntem). Os cínicos, claro, lembram a falta de emoção nos três anos anteriores. Os cínicos são tontos: o eng. Sócrates andou emocionado ao longo de praticamente todo o mandato. A diferença, conforme o próprio explica, é que "um político tem o dever de disfarçar os seus estados de alma". O eng. Sócrates, portanto, disfarçou enquanto pôde. Nas Beiras, não pôde mais, e assumiu a humanidade. Além disso, abriu um precedente que será constante em 2008 (que, a propósito da entrega de verbas comunitárias, o eng. Sócrates considera "o ano da rapidez") e em 2009 (que, a propósito do calendário eleitoral, o eng. Sócrates considera "o ano das legislativas"). A peculiar descida do IVA deu o mote: depois do "rigor" e da "modernidade", bonitos pechisbeques retóricos, temos pela frente largos meses de sentimento e compaixão "social", de pranto fácil e esbanjamento facílimo. Dito de outra maneira, temos o PS em campanha. Após a vitória de 2004, o dr. Vitorino avisou: "habituem-se". Não era preciso: já estamos habituados. Ou devíamos estar. quinta-feira, 3 de Abril NÃO OS CALARÃO! E É PENA Na segunda-feira, em Guimarães, uma docente colou fita adesiva em três alunos a fim de lhes moderar os ímpetos vocais. A estratégia, que merecia uma comenda pela eficácia e baixo custo, foi em vez disso interpretada como uma brutal agressão às criancinhas, com direito a pais em alvoroço, queixa-crime no Ministério Público, exposição ao PGR e, juro que ouvi na rádio, acusações de "sevícias" a menores. Por esta hora, é provável que uma junta de psicólogos já preste "apoio" aos três petizes, e que algumas almas delicadas aspirem a devotar os próximos dias 31 de Março, data da fita adesiva, ao sofrimento infantil na Terra.

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Suspeito que muitas dessas almas sejam as que acharam exageradas as reacções ao célebre vídeo do telemóvel. Segundo certa corrente de pensamento, ou de ausência dele, uma adolescente que ataca a professora é um caso pontual ou o reflexo (inocente) de uma sociedade violenta. No limite, é um exemplo louvável. Para a parte do país que leva a sério o dr. Daniel Sampaio, a indomável menina do Michäelis simboliza um tempo novo, um tempo que em boa hora trocou as medonhas funções da "velha" escola por um discurso carregado de "valências" e "afectos", um tempo que aboliu a vil disciplina em nome da "igualdade", um tempo dedicado a "compreender" as crianças e os seus "anseios". De facto. Há as que anseiam por brincar com telemóveis e as que, de acordo com dados públicos, traduzem os "afectos" em armamento variado. Todas, sem excepção, devem ser compreendidas. Primeiro, porque as doçuras da contemporaneidade assim o exigem. Depois, porque o tabefe ou a faca são argumentos superiores à fita adesiva, esse adereço reminiscente de uma época selvática e felizmente em extinção. sexta-feira, 4 de Abril 'AVANTE!' RUMO AO PASSADO Passam 40 anos sobre o início da Primavera de Praga, essa tentativa de "desviar" as "laboriosas massas" da "senda do socialismo". Por sorte e obra da "amizade e cooperação com a União Soviética" e mais uns "amigos e aliados", o "imperialismo", a "reacção", o "fascismo", etc., não vingaram. À época, diga-se, certos "comunistas e trabalhadores" locais adoptaram uma "posição condenatória" da "intervenção" estrangeira, mas logo compreenderiam "que se tratou de uma acção decisiva" para a "liberdade do povo trabalhador", "a construção de uma sociedade sem classes", etc. O fundamental é que a "classe operária", o "povo da Checoslováquia", etc., puderam prosseguir "o caminho luminoso para o comunismo", o "internacionalismo proletário", etc. As citações acima foram retiradas de várias edições do Avante! em 1968, disponíveis no "site" onde o PCP republica as edições clandestinas do jornal. São úteis para recordar o pavor com que os comunistas portugueses viram o "desvio" checo e o entusiasmo, singular entre os seus congéneres europeus, com que saudaram a ordem restabelecida. A Primavera de Praga também ajuda a seguir, por comparação, o caso de Cuba, cujo caminho luminoso enfrenta hoje uma ameaça vagamente parecida. Os imperialistas, pelo menos, já oprimem os nativos da ilha com telemóveis, leitores de DVD e Internet. A má notícia é que, em lugar da amizade soviética, a resistência dos cubanos só tem do seu lado a múmia de Fidel e um punhado volátil de jagunços. A boa notícia é que agora podemos acompanhar os factos no Avante" livre, sendo "factos" e "livre" óbvias forças de expressão. sábado, 5 de Abril SALTO NO CONHECIDO A Entidade Reguladora apurou que a RTP, tutelada pelo Governo, dedica uma extraordinária quantidade de tempo ao Governo (56,23% na secção política dos "telejornais"). O facto de haver sempre ingénuos disponíveis para se espantar com estas ninharias podia ser discutido no Prós e Contras, subordinado ao tema "Os (Recorrentes) Descobrimentos Portugueses". Um dos intrépidos descobridores é o dr. Menezes, que viaja imenso e se queixa de que o "seu" PSD é maltratado pela informação da RTP (uns pífios 17%). O dr. Menezes queixa-se de barriga cheia. Se existe uma remotíssima hipótese de um dia alcançar o poder (e, dados os imponderáveis do mundo, existe), a obscuridade é o único método viável. Por inerência do cargo e estilo pessoal, na estação pública o eng. Sócrates não sairá de antena até Outubro de 2009. Na medida em que há "fundos" para generosamente distribuir e "desígnios" para repetidamente anunciar, o facto favorece-o perante os que acreditam no Paraíso (a maioria) e prejudica-o junto dos que duvidam. Já o dr. Menezes não está sujeito a tais oscilações. Logo que ele ou algum elemento da sua notável corte surgem no televisor, o resultado é: 1) uma frase que faz as pequenas manchetes e as grandes anedotas do dia seguinte; 2) uma calamidade garantida.

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Houve um período em que o dr. Menezes pareceu notar os efeitos que suscita e atenuou a exposição pública. Foi, tragicamente, um período breve. Devido a péssimos conselheiros ou masoquismo, o homem que se define como um "salto no desconhecido" e lamenta que os críticos não o conheçam (sobretudo no que respeita às viagens), decidiu dar-se a conhecer. Agora, para cúmulo, através de fins-de-semana na província, a "ouvir Portugal" e traçar "um diagnóstico ao país profundo". Naturalmente, a queda do PSD nas sondagens não promete parar. É verdade que os "média" não dão a melhor "imagem" do dr. Menezes. Excepto os media que, à semelhança da RTP, quase não dão "imagem" nenhuma. Se gostasse um bocadinho de si mesmo, o dr. Menezes devia atacar os canais privados. Se gostasse muito de si mesmo, o dr. Menezes devia aproveitar a inclinação viajante, sumir para um daqueles desertos longínquos que tanto aprecia e regressar, de mansinho, na véspera das eleições. O país profundo, embora desertificado, não basta: aí, além de ouvir Portugal, o dr. Menezes ainda se arrisca a que Portugal o ouça a ele. |

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