Quando Grãos de Areia se Transformam em Fios de Ouro

“Em última análise, só me parecem dignos de ser narrados os acontecimentos da minha vida através dos quais o mundo eterno irrompeu no mundo efêmero. Por isso falo principalmente das experiências interiores. Entre elas figuram meus sonhos e fantasias, que constituíram a matéria original de meu trabalho científico. Foram como que uma lava ardente e líquida a partir da qual se cristalizou a rocha que eu devia talhar.” “O mito é um degrau intermediário inevitável entre o inconsciente e o consciente. Está estabelecido que o inconsciente sabe mais que o consciente, mas seu saber é de uma essência particular, de um saber eterno que, frequentemente, não tem nenhuma ligação com o ‘aqui’ e o ‘agora’ e não leva absolutamente em conta a linguagem que fala nosso intelecto.” C. G. JUNG

© 2012 do autor

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Ficaha em confecção

COMISSÃO EDITORIAL Dirlene Ribeiro Martins Paulo de Tarso Martins Carlos Eduardo M. Bicudo (Instituto de Botânica - SP) Evaldo L. G. Espíndola (USP - SP) João Batista Martins (UEL - PR) José Eduardo dos Santos (UFSCar - SP) Michèle Sato (UFMT - MT)

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NOTA AOS LEITORES

Este livro nasceu de uma experiência insólita. Em 2002, como requisito necessá-

rio para o exame de qualificação para o doutorado na Faculdade de Educação da USP fui obrigado a escrever um memorial. Nunca senti atração por esse tipo de , texto, porém, a necessidade me fez pensar no assunto. Como não havia escapatória, pensei em fazer algo criativo e, então, pensei em escrever na terceira pessoa, distinguindo o Eu e o Ego, pois somente este é que se alimenta dos frutos doces e azedos da árvore da vida, e busquei referências na mitologia grega e na astrologia para tecer meu memorial. Não fazia ideia de como a banca examinadora poderia avaliar a minha transgressão. Felizmente, o professor Teixeira Coelho, professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA), e membro da banca, disse que o memorial era a melhor parte da Tese. Segundo ele, eu poderia jogar a Tese fora e ficar somente com o memorial. Aliás, ele sugeriu que o memorial estivesse na Tese, algo não usual, uma vez que, este recurso, costuma ser usado apenas na qualificação para que a banca possa melhor conhecer o candidato. Em 2003 aconteceu a defesa da Tese e o memorial ficou arquivado, perdido em um disquete. Em 2009, ministrei algumas palestras sobre mito-estória de vida, ou seja, como chamei a técnica usada na confecção deste livro, uma forma de biografia criativa. Durante os meses de novembro e dezembro daquele ano, aproveitando o encerramento do ano letivo e a desnecessidade de preparar aulas, resolvi rever o texto e acrescentar mais algumas linhas nesse frágil tecido. E agora, em agosto de 2012, acrescentei mais algumas experiências em minha mitoestória de vida. É importante esclarecer que a mito-estória de vida não passa de um exercício de autoconhecimento que integra a bio-estória do sujeito e mitologia. Qualquer uma pode ser utilizada (grega, hindu, indígena, africana etc.).

Neste livro, optei em utilizar informações contidas em meu mapa astral, interpretadas livremente, relacionando minha experiência vivida com os atributos da mitologia grega. Com esta narrativa mítica espero contribuir, de uma forma singela, com o processo de ressignificação e de reencantamento do mundo que marcam nossa experiência cotidiana neste limiar de uma nova era, a do reenvolvimento humano. São Carlos, 17 de agosto de 2012.

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CONLUIO O CONLUIO DOS DEUSES

cidade de São Paulo recebia a visita de Hermes, mensageiro de Zeus e psicopompo, e de Afrodite, deusa do amor, para acompanhar um difícil parto. A presença destes deuses foi necessária porque a gestação foi dissimulada de diferentes formas, desde a concepção, para que Ares, o fecundador ativo e destruidor do outro, porém, o guia espiritual do pai daquela criança, não tentasse uma última cartada para impedir aquele nascimento. Manter aquela gravidez por nove meses só foi possível graças a uma astuciosa resistência que contou com a colaboração plena de diversos deuses. O pai genético daquela criança nunca aceitou a ideia de ser pai e lutou até o último minuto para que isso não acontecesse. Seu sobrinho, enfermeiro em um posto de saúde da cidade, foi procurado pelo futuro pai que desejava por um ponto final na gravidez. O que ele não sabia, porém, é que o sobrinho já havia combinado outra coisa com a futura mãe e entregou para o tio um placebo dizendo trata-se de um forte abortivo. Ares e o futuro pai aguardavam ansiosos pelo resultado do “remédio”, mas os dias se passavam e o aborto não acontecia. Quando a gravidez chegou ao sexto mês, Ares estimulou o futuro pai a tirar satisfação com o sobrinho. Este, orientado por Hermes, conseguiu enganar novamente o tio. Desta vez, receitou um novo tratamento com plantas medicinais que seria “infalível”. Mesmo assim, tentou conformá-lo dizendo que nem sempre o tratamento “funcionava” quando a gravidez já estava em estado avançado. Por isso, pediu ao tio que fizesse um esforço e pensasse com carinho na ideia de ser pai. O tempo foi se exaurindo e as Moiras já tinham preparado o fio do destino daquela criança e, na hora estabelecida, uma do sexo masculino nasceu na cidade de São Paulo. De nada adiantou a força bruta de Ares. A astúcia de Hermes e o amor de Afrodite foram capazes de superá-la. Por causa dessa briga entre deuses, o céu da cidade de São Paulo, no exato momento em que a criança nasceu, apresentava-se com Mercúrio e a Lua na casa 3 do seu mapa astral, a casa da comunicação,
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Dia 17 de maio de 1966, às 23 horas e 25 minutos. Neste exato momento, a

enquanto Vênus e Saturno encontravam-se na casa 2, a casa dos valores e no signo de Peixes, indicando a importância da espiritualidade na formação daquela criança. Como aquela gravidez não era desejada, o planeta Plutão acompanhou aquele nascimento a partir da casa 8 – a casa regida por Escorpião – também conhecida como a casa das transmutações, o que gerou uma criança “plutoniana”, ou seja, indicando que aquela criança necessariamente se envolveria afetivamente com temas assustadores como o inconsciente, a morte, a mediunidade etc. O fato de nascer com a Lua na casa 3 (regida por Hermes/Mercúrio), mas no signo de Áries (Ares/Marte) era um forte indício de que a imaginação seria uma poderosa aliada daquela criança. Em primeiro lugar, tudo indicava que ela se tornaria uma pessoa acolhedora, protetora e com profundas ligações com as raízes familiares, sobretudo com a figura materna. Além disso, aquele menino provavelmente possuiria aguçada intuição e uma fértil imaginação, podendo se tornar, futuramente, um singular narrador, um contador de história e até, quem sabe, professor.

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HERMES, O CONDUTOR DAS ALMAS
para o menino era o avô paterno, um anarquista espanhol que veio para o Brasil durante a Guerra Civil em seu país. O pai se mantinha ausente da educação da criança e, nos poucos contatos que tiveram, quase sempre estava bêbado ou o agredindo física e moralmente. O avô, além do anarquismo, cultivava uma intensa paixão pelo espiritismo kardecista, o que o levou a criar na cidade de Tupã, no interior do estado de São Paulo, um dos mais importantes centros espiritistas da região. Sincronicidade ou não, o mapa astral da criança já fornecia pistas para se entender essa relação profunda com o avô, pois, sua casa 1 - considerada como a casa da identidade - e sua casa 2 - a casa dos valores - estavam fortemente influenciadas pelo signo de Peixes, um signo místico, sensível e esotérico. E como já foi assinalado, nesta última encontrava-se o planeta Saturno, reforçando uma ligação mais profunda com os antepassados. Aquela criança e o seu avô pareciam ter muitas dificuldades para lidar com a realidade do dia a dia. Era como se extasiassem na fantasia e considerassem o cotidiano banal demais para ser vivido ou aceito. Ambos pareciam ter uma predileção por locais silenciosos e vazios onde encontravam as condições adequadas para paixões introspectivas como a meditação, a leitura e a audição de música, por exemplo. Porém, em sua infância, o menino tinha um sonho recorrente. Sonhava quase que diariamente com cobras, ratos e fortes cachorros negros que tentavam atacá-lo. Depois de lutar bravamente, conseguia sempre vencer abrindo e quebrando as mandíbulas dos animais. E sempre acordava exausto depois desses sonhos. Num certo dia, sua mãe resolveu levá-lo em uma benzedeira. Após esse dia, esses sonhos foram se tornando mais raros, até desaparecem. Seu avô, um eterno defensor da não-violência, estimulava o neto a trocar seus brinquedos em forma de armas (espada de plástico, revólver de espoleta, entre outros) por livros ou mesmo por brinquedos mais lúdicos que alimentassem
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Com o passar dos anos, a figura masculina que se tornava referência e modelo

a imaginação. O avô seguia, sem saber, os passos de Hermes, o deus que na infância reanimou um dragão morto e lhe deu asas. E, assim, o avô possibilitava ao neto o acesso às asas da imaginação. Apesar de sua idade avançada, apresentava um espírito jovial e alegre, venerando os vínculos familiares e a vida pastoril, além de sua iluminação também como psicopompo (condutor das almas). Hermes parecia ser o guia de ambos, do avô e da criança, e uma experiência que o menino nunca se esqueceu foi a morte do velho anarquista. Este, ao saber que estava com câncer no estômago e que teria apenas mais alguns dias de vida, pediu aos 14 filhos para visitá-lo, juntamente com os netos e netas. Para satisfazer o último pedido do velho anarquista, o menino e o seu pai viajaram para Tupã para se despedirem do avô, aquele que procurava religar, em vida, os segredos da Terra com os do Céu. O menino que nunca tinha visto um cadáver, e não se angustiava com questões metafísicas acompanhou com muita naturalidade tudo o que viu e ouviu naquele dia fatídico. A morte do velho anarquista, por ser alguém tão singular, só poderia ser polêmica, ou melhor, hermesiana. Deitado em sua cama, com alguns adultos em sua volta, o velho era observado por seu médico particular. O neto, ao lado de outras crianças, permanecia afastado do quarto, mas atento para não perder nenhum detalhe do que se passava lá dentro. Quando o médico disse que o velho havia falecido, vários parentes começaram a chorar e a se abraçar. Em seguida chamaram as crianças para se despedirem do avô. Porém, cerca de dez minutos depois da notícia do médico, o velho anarquista abriu os olhos, levantou um pouco a cabeça e disse, com uma voz trêmula, que ainda não havia chegado sua hora de partir. Ele apenas tinha sido conduzido por seus mentores para conhecer o local onde estaria definitivamente dentro de alguns minutos. Antes de morrer, olhou profundamente para o neto e, em seguida, para uma estante cheia de livros espíritas e espiritistas, ou seja, respectivamente, escritos por desencarnados (através de médiuns) e escritos por encarnados que dizem seguir a doutrina espírita (transmitida pelos espíritos para Kardec, no século XIX). O neto compreendeu intuitivamente a mensagem do avô e, durante cerca de três anos dedicou-se de forma obsessiva à leitura deles, devorando livros e
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revistas sobre o assunto até completar 15 anos de idade, quando este interesse diminuiu significativamente. Era como se a presença de Mercúrio no signo de Touro começasse, finalmente, a se manifestar. Por volta dos 16 anos de idade, passou a se dedicar ao prazer alcançado em atividades intelectuais. Passou a acompanhar, com avidez, a maioria dos eventos artísticos e culturais que ocorriam na cidade de São Paulo. Assim, gradativamente, foi se esquecendo da vida espiritual e dos ensinamentos do velho psicopompo.
ACOMPANHAR HEDONÉ OU ARETÉ: POR QUE NÃO CONSEGUIMOS ACOMPANHAR SIMULT AMBAS SIMULTANEAMENTE?

cinema uma única vez. Seu pai o levara para assistir King Kong, em meados da década de 1970. Mesmo assim, guardou para sempre a lembrança daquele acontecimento, pois o medo que sentiu e que o fez ficar segurando firmemente na cadeira, aguardando o momento em que apareceria na tela o macaco gigantesco, foi uma imagem-sensação inesquecível para ele. Depois que completou 15 anos e saiu da casa dos pais, sua vida tornou-se outra. Passou a conhecer os meandros da cidade de São Paulo sempre na companhia de Hermes, que lhe dizia onde deveria ir tranquilamente e onde precisava tomar cuidado. O jovem encantou-se com todo o mundo que Hermes lhe apresentou, sobretudo o do cinema. É claro que não abandonou o “mundo real” completamente, pois a força de Ananke sempre tentava oprimi-lo e o lembrava que necessitava conciliar o trabalho medíocre semanal em um laticínio, na periferia da cidade de São Paulo, e a paixão que cultivava pelo cinema. Foi no laticínio que encontrou a face corruptível de Hermes. Suas obrigações no laticínio eram realizadas sem o menor interesse: ralar restos de mussarela e vender como se parmesão fossem, desregular a balança para o produto parecer mais pesado, entre outras falcatruas que seu chefe o obrigava a fazer. Depois de alguns meses conseguiu outro emprego em uma fábrica de biscoitos, mas o emprego era também insuportável. Com frequência, vários funcionários cuspiam na massa ou colocavam ovos
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Antes de completar 15 anos de idade, o agora adolescente só tinha ido ao

podres nela. Sem falar que os biscoitos precisavam ser assados em um dia e embalados apenas no seguinte, quando estavam frios. Assim, eles eram assados e acondicionados em caixas plásticas onde passavam a noite esfriando. No dia seguinte, quando a fábrica era aberta, o espetáculo diário consistia em assistir às centenas de baratas que saltavam das caixas para se esconder em frestas na parede, ralos e outros esconderijos. E por falar em espetáculo, certo dia Hermes pediu ao irmão Dioniso para levar o jovem adolescente ao teatro. Este prontamente atendeu ao pedido e resolveu levá-lo para assistir, no Centro Cultural São Paulo, próximo da estação Vergueiro do Metrô, a um espetáculo muito interessante chamado “Tempestade em copo d’água”. Algumas horas antes do espetáculo, em visita ao pai, o jovem comentou ingenuamente que iria ao teatro pela primeira vez. Ares, ao ouvir aquilo, tentou convencer o pai a não deixar aquela experiência se concretizar. Assim, motivado pela brutalidade do deus, disse ao filho: “eu não gosto de teatro, por que você vai?”. Mesmo sem a aprovação do pai, o jovem foi ao teatro, dando início a uma relação conflituosa entre os dois, e que durou anos. A experiência foi muito estimulante e, a partir daquele dia, começou a assistir a todas as peças que entravam em cartaz como “Na carreira do Divino”, “Ubu-rei”, entre outras que estavam em cartaz. Entre seus 16 e 19 anos de idade, aproximadamente, o jovem morou na cidade de Santos e, para sobreviver, comprava roupas de cama, mesa e banho no bairro do Brás, na capital, e as revendia no Litoral. Boa parte do dinheiro que recebia usava para pagar a “pensão” onde morava e também para comprar discos e livros. Quando estava em São Paulo gostava de passear na “Baratos e Afins”, uma loja que vendia discos novos e usados e também em uma livraria, localizada entre a praça da Sé e a Liberdade, que vendia livros da editora Cultrix/Pensamento, por um preço bem acessível. Provavelmente era uma livraria da própria editora e os livros encalhados eram ofertados sobre uma enorme mesa na entrada da loja. Comprou, nesse período, vários livros de astrologia, psicologia analítica, esoterismo, filosofia oriental, budismo, meditação etc. Ele costumava ler no ônibus, mas não conseguia entender nem 10 % do que lia, apesar de, intuitivamente, se encantar com as palavras e desejar saber
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cada vez mais sobre tais assuntos. Por volta dos 20 anos de idade retornou para a capital paulista e foi na cidade de São Paulo que, em certa noite, conheceu duas mulheres extremamente bonitas. Elas se apresentaram: Hedoné e Areté, respectivamente, o prazer e a virtude. Ele acabara de sair de um espetáculo de teatro e se encaminhava para um bar no bairro do Bixiga, onde passava as madrugadas de Sexta para Sábado e, após ouvir o que as duas tinham para falar, nem pensou duas vezes para convidar Hedoné para acompanhá-lo. A partir daquela madrugada, a fascinação daquele rapaz pelo cinema e pelo vinho, recém-descoberto, aumentava. Ele começou a frequentar boa parte do chamado “circuito alternativo de cinema” de São Paulo: os Cineclubes Bixiga, GV e Oscarito, o Centro Cultural São Paulo, o Museu Lasar Segall, o MIS e o Sesc Consolação – na época denominado Sesc Vila Nova e que também exibia filmes em 35 mm, às segundas-feiras. Por não ter dinheiro, raramente frequentava as salas comerciais. Seu interesse por cinema o levou a fazer amizade com os gerentes dos três cineclubes principais da cidade e, assim, em pouco tempo, não pagava mais a “taxa de manutenção” para assistir aos filmes ali exibidos. Entre 1984 e 1987 assistiu a cerca de 500 filmes por ano. Em um velho caderno anotava o nome do filme, o ano em que foi produzido, o local onde o assistiu e algum comentário sobre o mesmo. Essa paixão que o contagiava o levou a pedir para um dos gerentes do cineclube Oscarito para trabalhar lá nos finais de semana. Um trabalho voluntário como esse não podia ser negado e, assim, até o fechamento definitivo do cineclube, ele trabalhou de graça nos finais de semana. Uma passagem curiosa dessa vivência hedonista como cinéfilo aconteceu durante uma das “sessões da meia-noite” promovidas às sextas-feiras e aos sábados como propedêutica para quem pretendia penetrar madrugada adentro nos bares do Bixiga. Em uma das sessões foi exibido o filme Solaris, de Andrei Tarkovsky. Naquela noite o público foi muito pequeno, algo em torno de dez pessoas tiveram coragem de pagar a “taxa de manutenção” para assistir ao filme. O jovem já o conhecia e não estava muito animado com a exibição. Tratava-se de um filme muito denso e demorado (quase 3 horas de duração) para ser exibido durante a
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madrugada. Mas como o filme estava programado deveria, portanto, ser exibido. O que ninguém esperava, porém, era que Pã, o filho de Hermes, aparecesse por lá para fazer uma pequena brincadeira e, assim, sem perceber, o “Mãozinha” (como era conhecido o projecionista do Cineclube) montou o filme invertendo a sequência de alguns rolos. Como cada um tem em média 20 minutos, cerca de 40 minutos após o início da exibição, quando deveria entrar o rolo número 3, houve uma alteração brusca na “história” pois entrou o número 6. Percebendo que algo estava errado, o jovem cinéfilo conversou com o “Mãozinha” e desceu da cabine de projeção – pois lá de cima não era possível escutar se alguém da plateia estava reclamando, como era rotina sempre que a projeção perdia o foco ou o som ficava com problemas – e foi até lá com o objetivo de pedir desculpas e explicar que o filme seria interrompido por alguns minutos para uma remontagem. Ao descer, porém, percebeu que havia um silêncio mortal na sala. Caminhou, lentamente, em direção à tela e percebeu que ninguém estava acordado. Voltou para a cabine e falou para o “Mãozinha” não se preocupar e continuar com a projeção. O filme, de difícil compreensão, tornou-se uma verdadeira obra surrealista com a alteração das sequências, ficando ainda mais incompreensível. Quando as luzes se acenderam e o público começou a acordar e a se retirar, ele dizia gentilmente para as pessoas: “Que belo filme, não? Tarkoviski é um gênio! Voltem sempre!”. Sua pouca habilidade com as coisas práticas da vida, sobretudo ganhar dinheiro, era compreendida no meio familiar como “preguiça” ou “ociosidade”. Poucos parentes conseguiam compreender sua pré-disposição para atividades contemplativas e introspectivas, ou atividades neg-ativas. Seus familiares não conseguiam entender porque um jovem de aproximadamente 18 anos de idade gostava tanto de cinema, sentia prazer em ler e escrever, interessava-se pela filosofia oriental e fazia passeios fáticos pela cidade ou pelo campo sem nenhum objetivo a ser alcançado (além do prazer vivido naquele momento), tirava fotografias de paisagens e animais... Em suma, trocava o sacrifício desesperador que se esperava de um adulto pela espera necessária para amadurecer um “sacro ofício”.

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Seu interesse por mitologia e por cinema era tratado como uma excentricidade por vários familiares, quase todos acostumados apenas com o excesso de vigília da vida ativa e os valores do trabalho produtivo desencantado. Como em todas as famílias têm uma, ele se tornou a “ovelha negra”, o “bode expiatório” (Pã) e para o seu pai e para alguns tios e tias aquele que nunca ia “ser alguém na vida”, “o que nunca ia ter nada”, o que “iria se perder nas drogas”, o que iria “virar assaltante ou veado”...

RECEBENDO E TRANSMITINDO O FOGO DE PROMETEU

Como Cronos não espera e sabe que por volta dos 22 anos de idade temos a

casa 6 (a casa do trabalho, da rotina, da organização etc.) pela frente, o encanto por Hedoné foi sendo desfeito. Areté, desprezada anos antes pelo rapaz, foi procurá-lo novamente. A deusa da virtude tentou conquistá-lo mostrando-lhe como era importante engajar-se em atividades sócio-políticas capazes de “transformar” de forma efetiva a realidade social. O aprendiz de herói, assim como Hércules, não sabia seguir o “caminho do meio”, como sugeriria algum sábio budista, e tendo se esquecido por completo de Hedoné, passou a ouvir e a seguir os conselhos de Areté. Foi quando acreditou ter encontrado a verdade absoluta. Como sua casa 6 estava no signo de leão, um signo de Fogo fixo, toda a experiência vivida, anteriormente, foi colocada entre parênteses e agora, com o orgulho solar, considerava-se uma nova pessoa. Filiou-se a um partido político de esquerda e participou de todos os movimentos sociais que apareceram em sua frente. Areté ficou feliz quando percebeu que o rapaz estava recebendo de Prometeu uma chama vermelha muito forte e, praticamente, não se lembrava mais de Hermes e Dioniso. Com esta chama em suas mãos, deixou a barba crescer para tentar apagar qualquer traço infantil em seu rosto, pois a partir daquele momento fazia questão de ser alguém sério e comprometido com a organização efetiva de um mundo racional, crítico e lúcido. Qualquer coisa que lembrasse o irracionalismo e a acriticidade de sua juventude deveria necessariamente ser combatido com violência.
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Além do crescimento da barba, cortou o cabelo para tentar adquirir uma aparência masculina, vendeu os discos que não eram de artistas engajados na luta social, queimou poesias, jogou fora o caderno onde anotava dados sobre filmes, destruiu fotos que o fizessem se lembrar de como era “alienado”... Em suma, ele precisava naquele momento se des-envolver do seu passado recente. Foi nessa época também que sentiu necessidade de fazer um curso superior “engajado” e “crítico”, três anos após ter concluído o ensino médio e dito para si mesmo que nunca mais queria saber de escola nenhuma. Com sua nova forma de ver o mundo, não conseguia entender como tinha coragem de sair do Cineclube e perambular com um grupo de “alienados” pelos bares do Bixiga até o dia clarear ou andar pela boca do lixo, onde costuma pernoitar no apartamento de uma amiga, na Rua Aurora, viciada em cocaína. Mas agora seria diferente. Ele tinha uma nobre missão a cumprir: levar a consciência crítica às pobres criaturas humanas, alienadas por um processo educativo “opressor” e “reprodutivista” e vítimas de uma “indústria cultural perversa” e “onipotente” da qual ele também havia sido uma vítima, mas, com a ajuda de Areté e de Prometeu, havia se libertado. Assim, mesmo antes de terminar seu curso de graduação em Geografia (1987-1992), foi lecionar em uma escola pública, em um bairro paulistano de classe média. Porém, como os alunos não demonstravam nenhum interesse por suas palavras, passou a taxá-los de “ociosos” e filhos da “classe exploradora” que não tinham compromisso com o saber científico e com a transformação social. Para alimentar sua heroicidade resolveu levar suas ilustradas palavras para a periferia e foi lecionar em uma escola pública em Itaquera, na zona leste da capital, no período noturno. Nessa escola, conheceu Sísifo e ficou fascinado com a sua dedicação e resolveu imitá-lo. Agindo como seu novo herói, suportava com orgulho as horas angustiantes dentro de um lotado vagão de metrô que o levava para a estação Aricanduva, onde tomava um ônibus, também lotado, até a escola. Mas acreditava que o sacrifício valeria a pena, pois além de ser uma escola que só foi construída após a reivindicação da comunidade local, os professores eram engajados na “luta” também.
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Estava feliz da vida o jovem amigo de Prometeu e Sísifo que praticamente pagava para lecionar. Mas, e daí? Para que dinheiro quando se acredita estar realizando uma ação tão importante: transformando jovens em pessoas des-envolvidas, ou seja: críticas, lúcidas e militantes efetivos contra a “opressão burguesa”, assim como ele acreditava ser. Suas palavras de ordem eram socialismo, luta, transformação... e, de forma arrogante, considerava-se um professor “crítico” e “progressista” comprometido com a transmissão de conteúdos revolucionários. Orgulhosamente se considerava o responsável pela formação de cidadãos conscientes e politizados capazes de romper com a “escuridão” do senso comum. Toda a sua necessidade de “luz” e de “pureza” fizeram com que ele se afastasse radicalmente do elemento Terra. Nesse momento de sua vida, passou a acreditar que poderia viver apenas do engajamento político. Eram as chamas dos movimentos sociais que o alimentariam. Por várias noites ficou acordado, pois achava que dormir era perda de tempo. A revolução socialista o chamava e precisava dele 24 horas por dia. O excesso de fogo em sua casa 6 fez com que ele não medisse cansaço no plano físico e, no plano mental, acreditasse piamente que o seu trabalho era uma tarefa muito especial e que não tinha valor. Literalmente, deu a vida (Sol) pelo trabalho. Ócio? Isso nem pensar. Isso era para pessoas preguiçosas, inúteis e dispensáveis. Enquanto isso, suas aulas “politizadas” eram preparadas com muito afinco para iluminar a pobre massa inculta. Porém, o abandonado corpo, num determinado dia, sentiu-se cansado. Nesse dia, o jovem herói abatido, como se uma águia comesse o seu fígado, diariamente, olhou para o canto da sala de aula onde estava Prometeu o observando e perguntou-lhe: “por que eles não aceitam o fogo que estou lhes oferecendo com tanto sacrifício?”. Sua frase, direcionada para Prometeu, foi como uma revelação: nesse momento, ele parecia tomar consciência de que agia de forma compulsiva e egocêntrica em relação ao trabalho e que não se permitia momentos de lazer e de ócio. Em outras palavras, revelava-se, diante de seus olhos, a sensação de que sentia culpa pelo prazer e que procurava, através do trabalho, esconder a mediocridade de sua vida interior. Era o excesso de des-envolvimento que estava lhe destruindo.
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NOVAS ASSOCIAÇÕES OS LAÇOS DE URANO: NOVAS ASSOCIAÇÕES E RUPTURAS

universitário, viveu com intensidade sua fantasia heróica. Seu comportamento era semelhante ao do gigante Skrymir, da lenda escandinava narrada por Jacob Grimm, que ao levar um golpe do martelo divino de Thor na cabeça, acorda e diz: “deve ter passarinho em cima da árvore; algum deve ter feito cocô na minha cabeça”. Por isso, nada parecia abalar suas convicções “racionais” e “coerentes”. Por volta dos seus 26 anos de idade, felizmente, as forças de sua casa 7, a casa de Libra, da busca do equilíbrio e da cooperação, começaram a se manifestar. Para ajudá-lo, seu mapa astral ainda trazia Urano, cuja arma é o laço, também nesta casa. Ao contrário de Zeus, seu neto, Urano quase não briga, mas procura envolver o inimigo e o trazer para o seu lado. E, para sua sorte, Urano conseguiu laçar o jovem herói e mostrou-lhe o valor da liberdade e da renovação de ideias. Mas um fato foi determinante nesse processo de metanóia. Ele estava segurando um livro chamado “A personagem de ficção”, de Décio de Almeida Prado e outros, quando sentiu todo o corpo tremer e perdeu por alguns segundos a consciência, saindo do seu estado de vigília. Ao retornar, percebeu que o livro havia sumido de suas mãos. Procurou em volta e não o encontrava. A única conclusão plausível era irracional demais: o livro havia sido desmaterializado de suas mãos. Contou essa experiência para algumas pessoas que o ironizavam e ainda diziam: “você fumou o quê?” tomou chá de cogumelo, foi?”. Não encontrando ninguém que entendesse aquela experiência, sem ironizálo, guardou-a apenas para si durante muito tempo. Porém, aquela figura que de tanta seriedade e comprometimento com as “mudanças sociais” e que pretendia viver da razão e para a revolução socialista, tornou-se mais compreensivo com os alunos e passou a enxergar atrás da apatia, da baderna hedonista dentro da sala de aula e da transgressão corporal às regras ascetas da escola, uma necessidade de espaço para a expressão das angústias e das formas banais de rir da vida, dançar e ser feliz.

Durante três anos, aproximadamente, o agora homem e dono de um título

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Além disso, passou a desconfiar que existissem coisas acontecendo ao seu redor e que não eram captadas pelos cinco sentidos. Com a ajuda do laço de Urano, seus jovens alunos deixaram de ser imaginados e tratados ora como sofredores e infelizes, ora como hedonistas alienados. O olhar crítico e opressor daquele inexperiente professor desmanchou-se diante de si quando percebeu que estava diante, realmente, de sua própria sombra. Aqueles alunos representavam tudo que ele viveu na companhia de Hermes e Dioniso e queria, desesperadamente, apagar de sua vida. E, ao completar 28 anos, encontrou-se com a casa 8, a casa das transmutações. E, para completar, Plutão ali também se encontrava. Assim, seria inevitável uma descida às profundezas do inferno. E a experiência que vivenciou foi singular. Em um momento em que se encontrava aflito, questionando seu papel como professor, perguntou para si mesmo: “quem sou eu para querer transformá-los? Será que é necessário lutar exaustivamente por uma sociedade perfeita e ordenada? Será que não sou eu quem precisa ser transformado?” Foi nesse instante que percebeu como tinha se tornado uma pessoa des-envolvida, ou seja, alguém sem envolvimento com o mundo concreto, que não aceitava a emoção e os sentimentos, que estava perdendo os vínculos com o próprio corpo, com a família, com as pessoas reais, ou seja, cheias de falhas e contradições e, sobretudo, com sua própria alma. Além disso, outros fatos insólitos começam a acontecer. Por exemplo, luzes se acendiam sem que ninguém apertasse os interruptores. Ou então, quando saia do quarto e se direcionava para o banheiro, a porta deste se abria sozinha. Também sonhava com o avô morto que lhe pedia para entrar em um corredor escuro e comprido. Sonhava também com um cemitério cujos túmulos eram enormes elefantes... E isso tudo sem nunca ter usado LSD ou qualquer outra substância psicoativa. Sem saber o que fazer, sentou-se em um banco no parque do Carmo e abaixou a cabeça na direção dos joelhos. Alguns minutos se passaram e ele sentiu uma mão fria em seu ombro esquerdo. Ao levantar o corpo, viu uma figura feminina lânguida como ele, e de olhos tristes. Em uma de suas mãos, um maço murcho de narcisos brancos. Enquanto o jovem a admirava, ela lhe disse:
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“você me acompanha?” Curioso com a questão, perguntou: “para onde?” E ela sem pestanejar respondeu: “oras, para o inferno!”. O jovem respirou fundo, olhou bem nos olhos dela e disse: “vamos! mas quem é você?” E assim foi que ele conheceu e ficou encantado com a meiga Perséfone, a filha de Deméter e esposa de Hades. Na descida para o inferno encontrou-se frente a frente com Mefistófeles e com o enfadonho Fausto. Ao olhar para este, sentia como se estivesse diante de um espelho. “Será que eu me transformei nisso?”, pensava. Perséfone, puxando-o pelo braço, fazia com que ele descesse cada vez mais. Dentro de um gigantesco salão, ela pediu para ele olhar para a sua esquerda. E ele viu um belo jovem segurando uma cítara. Perséfone, pausadamente, disse: “aquele é Orfeu e aqui esta para resgatar sua amada Eurídice. Por que você não faz o mesmo? Resgate o seu passado que você mandou para cá. Ele não foi destruído...”. Foi quando ele viu num canto escuro do salão uma taça de vinho, um caduceu e um envelope. Enquanto caminhava naquela direção, em sua mente vinham as imagens de sua juventude boêmia e tolerante com as imperfeições do mundo e das pessoas. Ao segurar em suas mãos o envelope, viu que era uma carta para ele e os remetentes eram Dioniso e Hermes. Além de solicitar que pegasse o caduceu e a taça de vinho, junto com a mensagem estava um poema atribuído a Borges, que ele já conhecia, mas nunca tinha o lido com tanta profundidade. Talvez, quando o leu, ainda não estivesse preparado para entender suas profundas palavras. Mas, nesse momento, do fundo do Tártaro, aquelas palavras tocavam-lhe a alma e o coração:
Se eu pudesse novamente viver a minha vida na próxima trataria de cometer mais erros não tentaria ser tão perfeito relaxaria mais. Seria mais tolo do que tenho sido na verdade, bem poucas coisas levaria a sério seria menos higiênico. Cometeria mais riscos – 22 –

viajaria mais, contemplaria mais entardeceres subiria mais montanhas, nadaria mais rios iria a mais lugares onde nunca fui tomaria mais sorvete e comeria menos lentilha teria mais problemas reais e menos problemas imaginários eu fui dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida claro que eu tive momentos de alegria mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente de ter bons momentos porque se não sabem, disso é feito a vida, só de momentos não percam o agora eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um paraquedas se eu voltasse a viver viajaria mais leve se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o final de outono daria mais voltas na minha rua contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças se tivesse outra vez uma vida pela frente mas não tenho tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

Após uma profunda pausa, ele disse para Perséfone com um sorriso no rosto que já se sentia preparado para voltar. Perséfone, então, deu-lhe uma semente de romã. A cada degrau que subia, a semente, em suas mãos, ia se transformando em uma pequena planta. Ao chegar à superfície, a primeira coisa que viu foi Dioniso brincando com algumas crianças enquanto o esperava sair das trevas. Ao ver Dioniso, entendeu que rir não significa ser alienado ou infantil, mas possuir outra maneira de encarar a vida. Feliz, ajoelhou-se no gramado e, ao mesmo tempo que contempla– 23 –

va os marrecos que nadavam no lago, tratou de plantar o pequeno pé de romã que trazia em suas mãos. Enquanto isso, algumas pessoas que passavam por ele falavam: “brasileiro é mole mesmo, não gosta de fazer nada!”; outros diziam: é isso aí! tem que trabalhar, mas tem que relaxar também!” e tinha aqueles que falavam: “as pessoas só vivem correndo, tem que parar um pouco, né!”. Ele apenas olhava para as pessoas e sorria. Nesse momento, um homem que o observava lhe disse: “cada um com seu tempo! Você já descobriu o seu tempo mágico?”. O homem estendeu a mão, ajudou-o a se levantar e partiu. O jovem tentou segui-lo, mas não conseguiu o acompanhar. Assim, gritou antes que ele desaparecesse: “qual é o seu nome?”. E uma voz vindo de muito longe respondeu: “Kairós... um dia nos reencontraremos...”. Ao perceber que estava na direção da saída do parque, aproveitou e caminhou sem pressa até a escola. Lá chegando, sentou-se com o diretor e pediu demissão. A transição de saturno começa a influir em sua vida. E sua nova preocupação era encontrar um emprego em que pudesse viver de forma mais espontânea e lúdica, sem excessos de criticismo ou lucidez, sem se preocupar tanto em adquirir e transmitir conhecimentos. Começava a perceber que conhecimento não significava sabedoria. E, ao voltar para casa, junto com a sombra do crepúsculo, ficou pensando: “Antes eu era uma pessoa criativa, hoje sou apenas crítica. Já fui alguém que vivia em um mundo lúdico, hoje quero construir um mundo lúcido. Antes eu tinha um grupo afetivo de amigos; e agora, sozinho, luto por mudanças efetivas. Será que não é possível unir essas duas vidas?”.
CÍTARA AO SOM DA CÍTARA DE ORFEU

ONG cultural que trabalhava com Folclore e Cultura Popular, no bairro do Bixiga, necessitava de um assistente de pesquisa. Até esse momento de sua vida, sua relação com o “folclore” tinha sido também ambígua. Em sua infância, apesar de ter nascido em São Paulo, morou em casas onde sua mãe sempre manteve uma pequena horta com ervas medicinais e aromáticas.
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Sincronicidade ou não, o fato é que um dia após pedir demissão, soube que uma

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Assim, desde criança, estava acostumado com os remédios caseiros para tosse, dor de barriga entre outros. Era parte de sua rotina ser benzido por uma vizinha idosa, principalmente quando tinha pesadelos, algo frequente em sua infância, como já foi narrado. Mas é claro que houve um momento em sua vida que passou a considerar a medicina da mãe fruto da “alienação” popular. Foi na fase em que seus maiores amigos foram Apolo e Prometeu. Assim, criticava exaustivamente a medicina popular irracional e defendia, em oposição, uma visão científica do mundo. Homeopatia, acupuntura e outras práticas alternativas, ele também olhava com desprezo. Mas como a missão de lutar contra a ignorância e as superstições estava se tornando algo de seu passado, não fazia mais sentido pensar o “folclore” como “coisa de alienado”, fruto da pobreza e da miséria socioeconômica ou como algo que deveria necessariamente ser superado. Assim, resolveu tentar a vaga de assistente de pesquisa. Foi nesse período também que começou a redescobrir o sabor alquímico da alimentação. A ideia de se alimentar de luta não mais o agradava e o gosto em mexer com a terra, cultivar verduras e legumes, preparar a própria refeição começou a tomar forma dentro dele. Uma experiência extremamente prazerosa que ele levou quase trinta anos para descobrir. Em relação à entrevista na ONG, Orfeu colocou-se à disposição. Com um olhar complacente, pediu ao rapaz para ficar tranquilo e deixar que ele, na hora, iria dizer-lhe como se comportar e falar. Orfeu, cantor e poeta, encantou de tal forma o entrevistado que, em poucos dias, o jovem começou a trabalhar na Abaçaí Cultura e Arte, pesquisando alimentação, lendas, músicas, danças, folguedos, entre outros fatos “folclóricos” de três regiões diferentes: Vale do Paraíba e Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, e a região da cidade de Três Rios, no estado do Rio de Janeiro. As pesquisas realizadas serviam de base para a montagem de espetáculos parafolclóricos que uniam música, dança e teatro. Na Abaçaí, além das pesquisas, tornou-se, também com a ajuda de Orfeu, um dos violonistas do grupo e se apresentou no espetáculo “Missa de Malungos”, organizado para as comemorações dos
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500 anos da América, apresentado-se em vários locais, como o Memorial da América Latina, o Teatro Municipal de Campos do Jordão, o Teatro Municipal de São José dos Campos e em várias igrejas da Grande São Paulo. Para sua manutenção, o grupo também organizava eventos culturais e artísticos. No período em que trabalhou na Abaçaí Cultura e Arte, participou da organização de dois eventos no SESC Pompéia, um deles denominado Arraial de Iguape, que reuniu músicos da região, espetáculos de dança, venda de artesanato e de comidas típicas. Ajudou na organização de outro evento com o SESC Carmo, na Praça da Sé, de difusão de danças folclóricas e parafolclóricas, além de algumas performances com os famosos “bonecões do Abaçaí” na inauguração do SESC Ipiranga e do SESC Itaquera, em meados da década de 1990. Durante os dois anos em que trabalhou na ONG, sua vida parecia encantada. Pela primeira vez sentia algo de mágico no trabalho que realizava. Seu salário também era irrisório, como quando lecionava. Mas o trabalho com arte e cultura permitia uma sensação muito diferente, como se uma centelha divina se acendesse no fundo de sua alma. Cada espetáculo tinha uma aura diferente. O calor e a solidariedade tanto do público que assistia aos espetáculos como dos demais membros do grupo criavam dentro dele um sentimento ambíguo de reconhecimento do seu próprio valor, aumentando sua autoestima, e, ao mesmo tempo, um forte desejo de amar e aceitar as pessoas, a natureza, sua cidade...
CULTIV TIVANDO O RETORNO DO MAGO: CRIANDO VÍNCULOS E CULTIVANDO A TERRA

USP), onde morava, um grupo ecológico chamado “espaço cotidiano”. Se, em sua vida prometéica, participou da coordenação do Centro Acadêmico por duas gestões seguidas, foi um dos reorganizadores da Associação de Moradores do CRUSP etc., nessa nova fase não encontrava mais interesse na “luta”. Nesse momento, ele queria abraçar outras ideias e projetos. Cooperar, enfim. Por isso, seu grupo ecológico precisava ser independente da Associação de Moradores, já que o espírito do grupo era o de cooperar com o órgão que administrava a moradia
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Além do trabalho na Abaçaí, ele criou no CRUSP (Conjunto Residencial da

estudantil, e também com a Associação, porém com autonomia e independência de ambos. Caso fosse vinculado a esta, necessariamente teria que lutar contra a COSEAS, como fazia politicamente a Associação, por razões internas do movimento estudantil, cuja palavra de ordem na época era “fora Sarney, Goldenberg e Wanderley”, respectivamente, o presidente da República, o reitor da USP e o coordenador da COSEAS. Assim, motivado por Hermes, o deus criador de vínculos, o grupo organizou a primeira experiência de coleta seletiva de lixo na moradia. Em todas as cozinhas do bloco F foram colocadas caixas de papelão para que os moradores interessados separassem metal, vidro, papel e plástico. No final de semana, um sucateiro vinha com a sua Kombi e levava o material coletado. Para armazená-lo durante a semana, a COSEAS construiu um pequeno “acondicionador” em frente ao bloco residencial. Alguns meses depois, a prefeitura do Campus fez um acordo com a Prefeitura Municipal de São Paulo para colocar containers coloridos na entrada da Universidade. O grupo aproveitou-se do momento e solicitou ao prefeito da Cidade Universitária que negociasse também um conjunto próximo à moradia estudantil. Assim, com a implantação dos containers, desativou-se a coleta nas cozinhas e os moradores passaram a levar diretamente o material reciclável até eles. Além desse trabalho, o grupo mantinha uma horta comunitária em frente ao bloco F com vários tipos de verduras e ervas medicinais e fez um projeto de arborização , do CRUSP com árvores frutíferas, plantando mudas doadas pela prefeitura do campus entre os blocos F e D e entre os blocos A e C. E como o espaço mais alquímico de uma casa é a cozinha, com frequência faziam “banquetes” em uma das cozinhas coletivas do CRUSP com os ingredientes da horta, assim como Hermes costumava fazer para , os demais deuses do Olimpo. E um de seus parceiros para estas cerimônias, era o dionisíaco Luis Miranda, hoje referência do humorismo brasileiro.

OS TRABALHOS DE HÉRCULES E OS LAÇOS DE ANANKE

Em 1995, quando estava com 29 anos de idade, sua casa 8, a casa regida por
escorpião, manifestou-se profundamente em sua vida. Mas a sua casa das
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transmutações estava no signo de Virgem, o que indicava também muito trabalho, sobretudo burocratizado e minucioso. Foi nesse momento de sua vida que leu nos classificados de um jornal que uma organização, que não se identificava no anúncio, precisava de animadores culturais para trabalhar em Interlagos. A única exigência era ser graduado em algum curso superior. Como estava sob a influência de Plutão, seu poder intuitivo estava muito apurado. Logo imaginou que a organização seria o SESC e resolveu se inscrever. Após uma bateria de entrevistas, testes, redações etc. um novo trabalho se descortinou em sua frente. Ingenuamente, imaginou que estava no paraíso, realizando o trabalho de sua vida. Ele nem sequer imaginava que aquela passagem por Interlagos era apenas uma trama necessária para se atingir uma transformação ainda maior, costurada pelas linhas das Moiras e pré-figurada pelos astros. Três ou quatro meses se passaram e o novo emprego começou a ficar angustiante. Sem se dar conta do que estava acontecendo começou a sentir falta da relação fratriarcal e dionisíaca presente no trabalho de pesquisa e criação de espetáculos na Abaçaí - apesar da constante falta de recursos. Em seu novo emprego era forçado a um trabalho sem imaginação, sem prazer e extremamente estressante, pois, além do cansaço com a longa viagem de trem e ônibus para chegar até lá, as atividades que precisava realizar eram dignas apenas para voluntariosos heróis, e não para simples mortais. Diariamente precisava suportar um ativismo enlouquecedor para atender cerca de 5000 crianças, além da organização excessivamente burocrática e dos chefes que nunca estavam satisfeitos com o resultado obtido e falavam: “aqui é necessário matar um leão por dia!”. Mesmo assim, nas lacunas existentes, e antes que o estresse tomasse conta de seu corpo e de sua mente, organizou alguns eventos que o deixaram realmente satisfeito. Um deles foi denominado “Passaporte da cidadania: o direito à cultura, ao esporte e ao lazer”, realizado para comemorar o sexto aniversário do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e que envolveu um número significativo de entidades sociais da zona sul da cidade de São Paulo; uma exposição denominada “fique por dentro dos répteis”, montada com o apoio do zoológico de São Paulo
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no interior de um escorregador cuja forma é a de um jacaré gigante, projetado pela arquiteta Marcia Maria Benevento. Quando este trabalho de “animação cultural” se descortinou em sua frente, ainda vivendo as amarguras do processo seletivo, imaginava aquele ambiente de trabalho como a materialização das palavras de Platão, em Fedro:
Ah! Por Hera, que lindo lugar para parar um pouco! O plátano cobre um espaço tão grande quanto sua altura. E este pimenteiro silvestre, como é grande e quão maravilhosa sua sombra! E assim todo florido, o lugar não poderia estar mais perfumado. E o fascínio ímpar desta fonte que corre sob o plátano, o frescor de suas águas: basta a ponta do pé para dizê-lo. E diga-me, por favor, se o ar puro que aqui se respira não é apetecível e extraordinariamente agradável. Clara melodia de verão que faz eco ao coro das cigarras. Porém, o requinte mais precioso é o deste gramado que, com a suavidade natural de seu declive, permite que, quando nele se deite, a cabeça fique perfeitamente à vontade.

Porém, a experiência vivida naquele maravilhoso lugar foi muito diferente. Isto só ajudou a fortalecer um sentimento de aversão à cidade de São Paulo. Quando este sentimento topofóbico se apoderou dele definitivamente - e com a força de Plutão, o príncipe das trevas na casa 8 - conseguiu romper finalmente com os laços de Ananke que o prendiam à cidade onde nasceu. Sempre que pensava na possibilidade de se mudar, os laços de Ananke o seguravam. Mas, agora, a ruptura parecia inevitável e conseguiu o que para muitos é impossível: abandonar em definitivo a cidade hercúlea de São Paulo, cidade onde nasceu e morou por quase trinta anos. Os astros sabiamente colocaram Vênus no lugar certo e na hora certa para criar nele uma poderosa vontade de se (re)envolver com o mundo e ser capaz de compreender as sábias palavras de Hémon, em Antígona:
Sábio é o que não se envergonha de aceitar uma verdade nova e mais sábio é o que a aceita sem hesitação. Quando a tempestade cai sobre a floresta, os abutres que se curvam à ventania resistem e sobrevivem, enquanto tombam gigantes inflexíveis. Domina a
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tua cólera e cede no que é justo. Jovem que sou, sei que o que digo vale muito pouco: acho que o ideal era nascermos todos sábios, sem precisarmos aprender nada de ninguém. Mas como isso acontece raramente, é bom ouvir opiniões contrárias.

Assim, ao aprender a ouvir os outros, foi seduzido pelas palavras de um animador cultural residente em São José do Rio Preto e resolveu trabalhar no interior. Depois de tanto refletir se a experiência seria válida, resolveu pedir transferência e ocupar uma vaga de animador cultural no SESC daquela cidade. Também foi fundamental para essa decisão duas experiências na capital, classificada por ele como “cidadania paranóica”. A primeira foi vivida enquanto ele ainda cursava as disciplinas do mestrado (1993-1996): ao tomar um ônibus, em frente à Faculdade de Educação da USP percebeu o início de uma discussão entre uma estudante e o cobra, dor. Este não tinha cinco centavos para dar de troco e pediu para a estudante aguardar alguns minutos. Ela se enfezou e começou a gritar que o troco era direito dela e o queria imediatamente. O cobrador, até esse momento, falava sem se exaltar que daria o troco, mas ela precisava esperar um pouco. Aí começou o discurso da estudante: “eu sou cidadã e exijo ser tratada como cidadã...”. O cobrador, então, retrucou: “se você quer ser tratada como cidadã aprenda a tratar os outros com mais educação, você estuda para quê?...”. O jovem mestrando não sabia o que fazer e ficou apenas observando, mas, felizmente, um senhor estava no ônibus e num momento de “iluminação divina” tirou do bolso da camisa uma moeda de cinco centavos e a entregou para o cobrador. Este a entregou para a estudante que, finalmente, sentou-se no fundo do ônibus e ficou murmurando o resto da viagem, reclamando por não ser tratada como “cidadã”. E a segunda experiência o envolveu diretamente. Havia na USP na década , de 1990, um estudante que perambulava pelos prédios da Faculdade de Filosofia da USP falando sozinho pelos corredores. Ele era muito parecido com o Zé Ramalho, cantor e compositor. Algumas pessoas diziam que ele ficou daquela forma após a conclusão do seu mestrado em Ciências Sociais; outras, que ele nunca estudou regularmente e que sempre foi daquele jeito. O importante, po– 31 –

rém, foi que, em 1996, nosso herói, que já até possuía um título de “mestre em Educação”, vivia uma rotina bem singular na cidade de São Paulo: levantar entre cinco e meia e seis horas da manhã, tomar um ônibus do bairro do Butantã até a Av. Rebouças; em seguida, andar até a estação Pinheiros e tomar um trem até a estação Jurubatuba e, enfim, tomar outro ônibus até o SESC Interlagos onde trabalhava. E, numa certa manhã, na estação de Pinheiros, por volta das sete horas, lá estava o estudante que falava sozinho. Quando chegou o trem, ambos entraram no mesmo vagão. Inspirado por algum vento, o “falador” o seguiu e se sentou ao seu lado. Depois de alguns minutos começou a falar que era da coordenação do Movimento Sem Terra na região sudeste e que estavam cadastrando estudantes universitários para invasões no estado de São Paulo e queria cadastrá-lo. O então animador cultural do SESC agradeceu o convite e lhe disse que eram justas as reivindicações do movimento, mas preferia apoiá-lo de outra forma. Suas palavras ofenderam o “militante” que, muito mais enfezado que a jovem sem troco, começou a gritar dentro do trem que ele era um “burguês” e que na USP só tinha “burguês filhinho de papai”. Assustado com a agressividade daquele passageiro, o jovem animador cultural tentou manter-se calmo e atento caso o “militante” tentasse agredi-lo fisicamente. Para complicar a situação, aquele era um ano eleitoral e ele se dirigia ao SESC com um pequeno broche de apoio a um candidato a vereador chamado Elias Lilikã, cuja plataforma era voltada basicamente para a comunidade GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes). O broche tinha a forma de uma fita (semelhante a das campanhas contra a AIDS) com as cores do arco-íris (signo do movimento GLS). Ao ver o broche, o “militante” exteriorizou todo o seu preconceito e começou a gritar dentro do trem: “pessoal, olha que bichona! Esse cara defende gay! A bichona defende gay! Do movimento sem terra ele não quer saber, mas anda com fitinha gay!”. Para a sua sorte, o trem chegou à estação Santo Amaro e o “militante” desceu resmungando. O jovem continuou sua viagem para o trabalho, mas com uma importante decisão em sua mente: mudar o mais rápido de São Paulo, a capital do desenvolvimento, da paranoia e da esquizofrenia.
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Foi nessa época também, devido a influência de Plutão em seu mapa astral, que o jovem mestrando descobriu o Reiki, uma técnica de imposição das mãos criada supostamente por um monge budista japonês chamado Mikao Usui, no final do século XIX. O contato foi da seguinte forma. Em um certo dia, no SESC Interlagos, encontrou sobre a mesa um panfleto de uma outra unidade, o SESC Carmo, divulgando um evento sobre o Reiki. O jovem ficou curioso para conhecer aquela terapia que parecia ser uma forma de se energizar como também energizar outras pessoas sem fazer esforço físico. Até esse momento, ele associava “energizar” com mexer o corpo e experiências similares. Na época, até brincou que era uma forma perfeita de energização para pessoas “ociosas” e “preguiçosas” como ele. Porém, ao se informar sobre a “especialização” na técnica, ele ficou decepcionado com os valores e com as explicações que recebeu. A ideia de pagar por um ritual iniciático para abrir seus canais de comunicação com o sagrado parecia mais charlatanismo do que outra coisa. Mas o ciclo das transmutações plutonianas estava apenas começando...
ENVOLVIMENTO NOS BRAÇOS DE AFRODITE: O (RE)ENVOLVIMENTO PUER/SENEX

significado da palavra Tempo Livre. Esta deixou de ser um conceito acadêmico para ser algo vivido. Foi quando, então, lembrou-se do velho Kairós, o homem que ele conheceu alguns anos atrás. Em São José do Rio Preto não precisava mais desperdiçar cerca de 5 horas por dia para se locomover pela cidade apenas para ir de casa ao trabalho e vice-versa. Em apenas 15 minutos ele se dirigia a pé até o trabalho e podia voltar para almoçar em casa, quando quisesse. Os dias no interior pareciam muito mais longos e saborosos. Nos primeiros meses de vida na cidade sentiu-se perdido sem saber o que fazer. Seu corpo ainda guardava as marcas da correria hercúlea vivida na cidade de São Paulo e se sentia como um viciado em drogas em crise de abstinência. Mas ele sabia também que precisava resistir e se acostumar com o novo tempo. E, para
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Com sua transferência para o interior aprovada, descobriu depois de 30 anos o

isso, Kairós foi um grande aliado. Ao reencontrá-lo em Rio Preto, em uma praça no centro da cidade, Kairós lhe contou a história de Éros e Psique. O novo animador cultural do SESC Rio Preto se apaixonou pela história que era mais ou menos assim: O filho de Afrodite estava envolvido com a jovem, mas esta nunca podia vê-lo. Quando ela, através de uma artimanha, rompe o acordo, eles se separam, se des-envolvem. Mas, após realizar alguns trabalhos sugeridos por Afrodite, eles se envolvem novamente, ou seja, se reenvolvem, mas de uma forma muito mais profunda e franca, diferente do primeiro envolvimento. E o re-envolvimento passou a ser a meta que estabeleceu em seu novo emprego. Para isso, contribuiu bastante o ambiente de trabalho menos competitivo e mais fraterno daquela unidade do SESC. Lá conseguiu finalmente encontrar uma paz de espírito ou o ócio necessário para se re-envolver com o seu corpo e desamarrar os laços que o prendiam ao passado hercúleo. E, como o ano de 1997, em seu mapa astrológico, estava destinado a ser muito criativo, tudo conspirava a seu favor. Com a ideia de re-envolver as pessoas, em pouco tempo conseguiu organizar eventos com idosos, com crianças, com artistas plásticos da cidade e chegou a editar dois livretos: “Dinorah do Valle, uma vida dedicada à história e à memória de Rio Preto” e o “Guia do Blues”. O primeiro foi uma homenagem a uma das mais importantes jornalistas da cidade e, o segundo, uma tentativa de difundir e valorizar os diferentes estilos de Blues na cidade. Conseguiu também organizar uma das primeiras experiências de bate-papo online com artistas, na cidade. Com o apoio de um provedor de acesso à internet, conseguia colocar os artistas que se apresentariam na unidade em contato com o seu público, horas antes da apresentação. O primeiro foi com o músico Loop B, cujo trabalho mistura música eletrônica e percussão em sucata e, o segundo, com o cantor, compositor e repentista Jorge Mello, parceiro de Belchior em diversas composições. Apesar da ambiência mais afetual vivida no município, seu organismo não conseguiu se acostumar ao calor da cidade e, no final daquele ano, ao surgir a possibilidade de uma nova transferência, dessa vez para o SESC São Carlos, localizado em uma cidade também acolhedora, porém, com um clima físico mais
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agradável, tratou logo de conseguir o apoio necessário para começar a trabalhar na cidade conhecida como a “Capital do Clima”. Apesar de atuar como animador cultural, em São Carlos seu trabalho concentrou-se na área da Comunicação. O que não foi nenhum problema, pois no mestrado ele havia sido Coordenador de Comunicação da Associação de Pós-Graduandos da USP e, nas outras unidades do SESC onde trabalhou, sempre se envolveu com as pessoas desse setor. Muitas vezes, ele mesmo projetava o material de divulgação dos eventos que coordenava ou, quando tinha mais tempo, produzia todo o material em seu computador e, o responsável do setor, apenas tinha o trabalho de fechar o arquivo e encaminhá-lo para a gráfica. Assim, apesar de não se envolver diretamente com a organização de eventos, o trabalho que realizava o agradava muito. Porém, no mês de maio de 1998, quando uma animadora cultural da unidade entrou em férias, ele conseguiu organizar um evento denominado Mostra SESC de Música Eletrônica, reunindo alguns dos mais significativos grupos brasileiros. Além dos espetáculos, durante o evento foi lançado o Guia SESC de Música Eletrônica, um levantamento histórico deste gênero musical. Mas o que mais o agradava era editar um livreto chamado Cinefilia, que além de trazer a programação de cinema da unidade, trazia informações sobre a história do cineclube e outros assuntos relacionados com a sétima arte, sua antiga paixão.
DESCOBERT MORTE A RE-DESCOBERTA DA MORTE E O ENCONTRO COM NETUNO

Aos 32 anos de idade os aspectos ígneos da casa 9, a casa dos estudos filosófi-

cos, das viagens e da verdade, começou a se manifestar com mais força em sua vida, além das forças de seu ascendente, no signo de Aquário. E tudo seria maravilhoso se sua casa 9 não estivesse no signo de escorpião, o que não o liberava completamente da força de Plutão. Esta foi importante para que o jovem animador cultural descobrisse o outro e também a morte, os dois mistérios terríveis que o homem não é capaz de entender, como podemos perceber em Antígona:

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Muitas são as coisas prodigiosas sobre a terra, mas nenhuma mais prodigiosa do que o próprio homem. Quando as tempestades do sul varrem o oceano, ele abre um caminho audacioso no meio das ondas gigantescas que em vão procuram amedrontá-lo: à mais velha das deusas, à Terra eterna e infatigável, ano após ano ele lhe rasga o ventre com a charrua, obrigando-a a maior fertilidade. A raça volátil dos pássaros captura, muita vez, em pleno voo. Caça as bestas selvagens e atrai para suas redes habilmente tecidas e astuciosamente estendidas a fauna múltipla do mar, tudo isso ele faz, o homem, esse supremo engenho. Doma a fera agressiva acostumada à luta, coloca a sela no cavalo bravo, e mete a canga no pescoço do furioso touro da montanha. A palavra, o jogo fugaz do pensamento, as leis que regem o Estado, tudo ele aprendeu, a si próprio ensinou. Como aprendeu também a se defender do inverno insuportável e das chuvas malsãs. Vive o presente, recorda o passado, antevê o futuro. Tudo lhe é possível. Na criação que cerca só dois mistérios terríveis, dois limites. Um, a morte, da qual tenta escapar. Outro, seu próprio irmão e semelhante, o qual não vê e não entende...

A partir do momento que conseguiu romper com os laços de Ananke, além dos vínculos com sua cidade natal, outras rupturas seriam também necessárias, mas ele não sabia disso. E, assim, sentiu a dor da ruptura pela primeira vez quando o seu melhor amigo em Rio Preto, aquele que o convenceu a ir para o interior, envolveu-se em um acidente automobilístico. Foi uma situação muito diferente daquela vivida com a morte do avô. A morte do velho anarquista havia sido mágica e os vínculos entre eles de certa forma nunca foram rompidos. Agora era diferente. Sentia no peito a dor da separação e não conseguia entender o que estava acontecendo. E como estava vivendo as forças da casa das viagens e dos estudos, a casa de Sagitário, passou em um concurso para o doutorado na USP. Assim, sua “casa das viagens” foi vivida com viagens semanais para a capital, durante 2 anos seguidos. A impossibilidade de conciliar o trabalho no SESC e o doutorado fez com que ele tivesse que pedir demissão e viver com uma bolsa de estudo até meados de 2003. Para completar, começava a aparecer em seu mapa a força de Posseidon, a mesma que destruiu o labirinto de Minos, através do planeta Netuno. E essa força é, por natureza, criativa e caótica. Durante o doutorado, conseguiu emprego em duas faculdades do interior.
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Mas a experiência não foi muito boa. Em ambas foi mandado embora. Em uma delas lecionava uma disciplina denominada “História da Educação I” e o conteúdo enfatizava a educação Grega e Romana. Na elaboração de seu plano de aula, alguns autores se tornaram obrigatórios, como Hesíodo e Homero. Para discutir a escola de Epicuro, ou melhor, criar a ambiência desta escola, todos os meses, em uma das aulas, os alunos comemoravam o aniversário de alguém. Além da festa, algumas atividades como Jogos Cooperativos, dinâmicas de grupos etc. aconteciam na aula. Quando algum vídeo era exibido, os alunos levavam um confortável tapete e diversas almofadas, e se esparramavam pelo chão. Tudo isso irritou a coordenadora do curso, uma doutora em Educação pela UNICAMP e ele , foi demitido no final do ano letivo com o argumento de que o MEC não aceitava nada daquilo que ele permitia em sala de aula. E na outra faculdade lecionava no curso de Arquitetura uma disciplina denominada “A cidade: aspectos sociais e antropológicos”. Ele havia recebido um convite do coordenador do curso para ministrar esta disciplina cujo objetivo era fazer os alunos descobrirem o outro, o valor da diversidade. Ele ficou fascinado com a proposta da disciplina e do curso como um todo, pois os alunos do curso de Arquitetura tinham aulas de teatro, de técnicas circenses, andavam em cadeiras de rodas pelas ruas da cidade, entre outras formas não convencionais de técnicas pedagógicas. Tudo isso era para que os alunos pudessem vivenciar o espaço urbano e não apenas pensá-lo. Em sua disciplina, fez um projeto para os alunos interagirem com os idosos, com as crianças, com os deficientes físicos, com os gays entre outros grupos humanos. O trabalho de campo era realizado em uma praça no centro da cidade onde os alunos procuravam compreender como ela era vivenciada e imaginada por cada grupo que a frequentava diariamente. O trabalho final dos alunos seria a organização de uma exposição com desenhos da praça a partir das perspectivas e sonhos levantados durante a vivência com os usuários. Esta exposição ficaria na faculdade e também na praça. O grupo de alunos que levantava a “praça” das crianças estava elaborando um projeto que tinha até teleférico. A “praça” dos idosos era um pouco diferente. Tinha muito verde e segu– 37 –

rança. Por seu lado, a praça dos portadores de deficiência física tinha um novo traçado e passeios sem buracos. Os alunos pareciam envolvidos no projeto e também as pessoas que frequentavam a praça, pois estas se espantavam quando descobriam diferentes opiniões e todas tão coerentes. Os idosos, por exemplo, ficavam admirados com a imaginação das crianças e se comoviam com a dificuldade dos portadores de deficiência física, que era diferente da que eles enfrentavam. Essa descoberta do Outro mexia profundamente com todos. Mas, durante as férias escolares, no meio do ano letivo, a coordenadora pedagógica da faculdade se rebelou contra o caos netuniano que, em sua opinião, em nada se assemelhava a um curso de Arquitetura. Por isso, demitiu o coordenador do curso, alterou a grade curricular e afastou todos os professores que “brincavam” ao invés de lecionar. E, o mais engraçado, com o mesmo argumento da outra faculdade: o “monstro” MEC não aprovaria um curso de arquitetura como aquele. Mas o ciclo de Escorpião não havia se encerrado e, como a Morte é um de seus mais importantes atributos, uma nova separação se fez presente em sua vida. Dessa vez com o pai. Quando ambos (pai e filho) pareciam que finalmente iriam se entender, um câncer no sistema digestivo do velho seguidor de Ares veio para selar aquela separação. Era mais um castigo por desafiar Ananke e os seus laços. Para coroar o processo, sua morte ocorreu no dia do renascimento (mais um atributo plutoniano), no Domingo de Páscoa de 2001. Porém, o que talvez seja o aspecto mais importante dessa relação paradoxal capaz de reunir as forças esotéricas e caóticas de Netuno foi a redescoberta do Reiki e da espiritualidade. Se em 1996 ele não se encantou com o Reiki, a força de Netuno que costuma acompanhar cada um de nós por volta dos 38 anos, já começava a se manifestar nele e, nesse momento de sua vida, praticamente o conduziu ao ritual, mesmo pagando 500 reais por ele. E, ao passar pelo ritual iniciático do Reiki (nível I), ele notou que ao seu lado havia três grupos bem definidos de pessoas: o com graves problemas de saúde (câncer no útero, câncer de mama etc.) que buscavam no Reiki uma forma de amenizar seus sofrimentos; o grupo dos que tinham parentes doentes e, como o primeiro, queria amenizar o problema de seus entes queridos e, por fim, o grupo daqueles que trabalhavam
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com “terapias alternativas” e queriam se especializar em mais uma técnica para oferecer em suas clínicas. Ele era, portanto, o único que estava lá para fazer a iniciação de forma desinteressada, levado apenas pela curiosidade. Com seus amigos brincava dizendo que foi fazer a iniciação sem segundas intenções a não ser “matar o tempo com mais dignidade”. Assim, ao invés de fazer uma viagem, ir ao cinema, por exemplo, foi participar de um caro ritual. Durante vários meses, porém, ele não teve coragem de aplicar Reiki em outras pessoas. Aliás, nem falava para as pessoas com quem convivia na Universidade que era reikiano. Ele tinha receio de perder o emprego na faculdade onde lecionava e também de ser ironizado pelos colegas da USP onde fazia o seu doutoramento. Assim, ele se contentava em sentir, egocentricamente, a agradável aplicação de Reiki. Quando o Reiki foi incorporado definitivamente em sua vida, começou a aplicá-lo em familiares e em alguns conhecidos. E depois de várias vivências com a energia universal, resolveu disponibilizar na internet algumas de suas experiências. Isso o fez perder alguns amigos, sobretudo os marxistas, mas, por outro lado, conheceu pessoas espiritualizadas e sensíveis que o ajudaram a pensar, sentir e agir no mundo de uma outra forma, valorizando a hierofania no cotidiano. O mais importante, porém, é que agora ele não era mais um amyEtos (um não iniciado) e poderia dar continuidade ao trabalho do velho anarquista e kardecista. Possivelmente, o seu principal diaktoros (guia, mensageiro) nesses anos todos, ora aparecendo na figura de Hermes, ora de Dioniso, ora de Orfeu... Mas esse caminho que escolheu não é totalmente seguro ou sem desafios. Certo dia, resolveu mandar uma mensagem para a lista de discussão dos pósgraduandos da USP sobre o Reiki, particularmente, sobre uma técnica que intuiu para trabalhar a energia universal com grupos, denominada Mandala Reiki, e que hoje é conhecida como Terapia Vibracional Integrativa (TVI). Após postar a mensagem, recebeu uma resposta mais ou menos assim: “como é que permitem que uma bobagem como essa circule em uma lista de pós-graduação”. Se isso tivesse acontecido anos antes, sentiria vergonha de sua ousadia, mas, nesse momento, sua atitude foi mais simples. Apenas começou a rir da resposta, pois, de certa forma, não esperava por nada diferente. Ele sabia que as mudanças na Academia
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são lentas, novos paradigmas podem ser incorporados, mas apenas na forma de ideias, nunca na forma de vivência. Ainda em 2001, criou com alguns amigos o Centro de Estudos e Vivências Cooperativas e para a Paz, onde além do Reiki, a comunidade podia usufruir de aulas de hatha-yoga, danças circulares, meditação etc. E com a lua no signo de Áries, ou seja, com uma sensibilidade heróica para defender seus princípios e valores, resolveu que precisava falar em espiritualidade ou em práticas numinosas com educadores ou em sala de aula. Se não fizesse isso seria um eperopeutes (enganador). Assim, resolveu transformar sua Tese de doutorado em uma das primeiras pedras de uma longa jornada que teria pela frente, em busca de um lugar koinos hermes (onde possa compartilhar o achado de Hermes, os tesouros encontrados). Articulando as informações que passou a receber do mundo espiritual com o estudo de autores ocidentais tais como Edgar Morin, Gilbert Durand, C. G. Jung, Mircea Eliade, entre outros, tentou elaborar argumentos científicos para defender sua Tese, onde propôs a noção de animagogia, uma educação espiritualista cujo objetivo básico seria o (re)envolvimento do ser com a comunidade, com a natureza, o Outro e, sobretudo, com a sua própria alma. Curiosamente, depois de muitos anos, (re)encontrou-se com o espiritismo kardecista e, possivelmente, com o seu avô, que nos trabalhos mediúnicos se manifestava com o nome de Tupã, usando a forma de um índio com postura altiva e voz grave. Este “índio” nunca disse abertamente que era o seu avô paterno, mas deixou, por várias vezes, sinais que o fez pensar nessa hipótese. Esta experiência o extasiou e teve uma ideia singular. Fazer estudos de História Oral com os espíritos, o que chamou de espiritologia. Como um discípulo de Hermes, unir comunicação e espíritos não era nenhum empecilho mental. Aliás, paradoxos são sempre estimulantes. Assim, se a técnica de História Oral era algo que dominava desde a graduação, e que usou e abusou dela quando trabalhou na Abaçaí Cultura e Arte e também em seu mestrado, por que não a utilizar para entrevistar seres incorpóreos? Assim, em 2003, no mesmo ano em que defendeu o seu doutorado, terminava a coleta de depoimentos dos espíritos sobre o Reiki e outras terapias com– 40 –

plementares. Entre os anos de 2003 e 2005, ainda vivendo sob a influência de sua casa 9, organizou o material e o transformou em alguns livros que foram impressos e também distribuídos pela Internet. Mas a influência de saturno também se fez notar em seu novo emprego: professor de idosos, em uma instituição pública. A partir de agosto de 2003, após passar em um concurso público em que se inscreveu no último dia, começou uma nova experiência profissional lecionando para pessoas acima de 60 anos de idade. Graças a essa experiência tão gratificante, voltou a acreditar na educação. Mas não mais aquela educação militante, que fala em revolução e em mudanças; mas uma educação para a paz, para a harmonia, para a convivência e a troca de experiências... Enfim, os sinais da influência saturnina, estimulando o repouso e a cooperação entre os diferentes. E Graças a essas singulares experiências, em 2005, Hermes e Dioniso acharam que ele já estaria pronto para conhecer um dos espíritos mais transgressores e anarquistas que já se manifestaram mediunicamente: o “preto-velho” pai Joaquim de Aruanda. Não foi a toa que esse período que já manifestava indícios da casa 10, também conhecido como a busca do dharma. Por isso, a racionalidade e o trabalho sob a influência de Cronos, se bem incorporada, pode ser muito produtiva. E essa força, junto com a consciência da infinitude que adquiriu em sua fase anterior, fez com que escrevesse vários livros, engatando um atrás do outro, e quase todos refletindo a relação nascimento/morte e sobrevivência. E um dos fatos mais curiosos e singulares foi receber um e-mail de um antigo amigo que trabalhou com ele no SESC Interlagos comunicando que tinha achado em uma gaveta a cópia de um livro infanto-juvenil escrito por ele em 1992. Sua expressão de alegria foi contagiante, pois o original havia se perdido em uma pane no computador e não imagina que poderia resgatar aquele texto escrito quando tinha um pouco mais de 20 anos de idade. O texto foi redigitado e, 20 anos depois, em 2012, transformado em livro. Acaso ou não, justamente quando o Brasil novamente sediava um evento, denominado, agora, Rio + 20. Recuperar aquele texto foi, sem dúvida, um presente dos deuses. E o seu nome não poderia ser outro: Rede da esperança.
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E o que mais se pode esperar da vida? A única certeza é que por volta de 2016, quando estiver completando 50 anos de existência, terá com mais força a companhia de Urano, já que a influencia de sua casa 11, a casa de aquário, a casa do seu ascendente cada vez mais ativa em seu cotidiano. E este re-encontro com Urano, o deus que não luta, mas que laça os inimigos e os traz para o seu lado, pode fazer que seu retorno a Ítaca seja realizado de forma serena e tranquila, ao contrário do que vivenciou Ulisses. Com a força de Urano atuando em sua vida, quem sabe todo o trabalho até aqui realizado possa ser divulgado e expandido sem que seja preciso sair do colo de “Penélope”, aguardando, pacientemente, o momento de “Telêmaco” descer do céu para mais uma aventura pela Terra.

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“sinto-me contente de que minha vida tenha sido aquilo que foi: rica e frutífera. Como poderia esperar mais? Ocorreram muitas coisas, impossíveis de serem canceladas. Algumas poderiam ter sido diferentes, se eu mesmo tivesse sido diferente. Assim, pois, as coisas foram o que tinham de ser; pois foram o que foram porque eu sou como sou. Muitas coisas, muitas circunstâncias foram provocadas intencionalmente, mas nem sempre representaram uma vantagem para mim. Em sua maioria dependeram do destino. Lamento muitas tolices, resultantes de minha teimosia, mas se não fossem elas não teria chegado à minha meta.” C.G. JUNG

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Adilson Marques – é doutor em Educação pela USP e autor, até o momento de 33 livros. Reside em São Carlos onde leciona na Universidade Aberta da Terceira Idade e coordena o projeto Homospiritualis, voltado para a difusão da cultura de paz e da diversidade religiosa no município. Publicou, entre outros: “Psicosofia: sabedoria espiritual para um mundo em regeneração”; “Nas trilhas indeléveis de Hermes: topofilia, memória e educação ambiental”; “O reiki, a TVI e outros tratamentos complementares”; “História Oral, Imaginário e Transcendentalismo: Mitocrítica dos ensinamentos do espírito Pai Joaquim de Aruanda”, Contatos: asamar_sc@hotmail.com

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