E S TRU TU RA DA M AT ÉRI A

introdução à mecânica quântica

Humberto Carmona 2007.2

Estrutura da matéria

1

3 - P ROP RI E DADE S OND U LATÓRI AS DA MATÉ RI A.
3.1 - Ondas de matéria
Hipótese de de Broglie (1924): para matéria também vale as relações de Einstein


E = hν e p = h/λ

de onde podemos extrair a frequência e o comprimento da onda associada a uma dada partícula (um elétron ou uma massa de 1 kg, por exemplo). 1. para um elétron com energia de 100 eV

√ λ = h/p = h/ 2mK ≈ 1, 2˚ A λ = h/p = h/mv ≈ 6, 6 × 10−25 ˚ A

2. para uma massa de 1kg a uma velocidade de 10 m/s

para se observar efeitos ondulatórios, assim como na ótica física, é necessária a condição

λ/a ≈ 1




onde a representa um comprimento característico do experimento. Assim é impossível a observação do caráter ondulatório para corpos de massa macroscópica, entretanto é possível para elétrons.

O caráter ondulatório da matéria foi observado experimentalmente, independentemente por Elsasser (1926), Davisson e Germer, e Thomson (1927), confirmando a hipótese de de Broglie. Um exemplo de desenho experimental:

θ = 50o 54V detetor reflexão de Bragg cristal d = 0.91A 25o φ = 65o

um máximo de interferência (reflexão de Bragg) acontecerá para

nλ = 2d sin(φ)





tomando n=1, e usando os valores de distância d e ângulo medido

Estrutura da matéria

2

λ = 2 · 0, 91˚ · sin(65o ) ≈ 1, 65˚ A A




Comparando com o valor previsto pela relação de de Broglie para elétrons com energia cinética de 54 eV √ λ = h/ 2mK =


encontramos uma ótima concordância.

2 · 9, 1 × 10−31 kg · 54 · 1, 6 × 10−19 J

6, 6 × 10−34 J

≈ 1, 65˚ A

3.2 Dualidade partícula-onda.
Na física clássica os modelos de partícula e de onda mostraram sucesso em diversas situações, por exemplo o modelo aplicado na teoría cinética dos gases, e o modelo de ondas no estudo da propagação do som. Isso tornou bastante difícil compreender o comportamento dual dos fótons e elétrons. A ambiguidade existente no comportamento dual da matéria é removida por uma unifiação dos modelos de corpuscular e ondulatório, através de uma interpretação probabilística da dualidade partícula-onda.

partícula interpretação probabilistica

onda

Essa unificação foi proposta primeiro por Einstein para fótons. A intensidade da luz de acordo com a teoría de Maxwell é dada por



¯ I = c ε0 E 2

(1)

¯ onde E é a amplitude média do campo elétrico da onda eletromagnética. Essa expressão deve ser igualada à expressão correspondente na interpretação quântica da luz I = hν c n

¯








(2) ¯ onde agora n representa a densidade média de fótons em uma da posição (número médio de fótons por unidade de volume). Igualando as duas últimas expressões temos ¯ E∝









(3) Essa quantidade é, portanto, proporcional à probabilidade de se encontrar um fóton no volume dV centrado na posição r .

ε0 n ¯ hν

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¯ “as ondas, cuja intensidade pode ser medida pela amplitude do campo elétrico E , podem ser vistas como ondas condutoras de fótons; essas ondas em si não tem energia - há apenas fótons - mas constituem uma grandeza cuja intensidade é proporcional ao número médio fótons por unidade de volume”
Note que E(r, t) é uma função da posição e do tempo, que deve ser solução das equações de Maxwell. Em uma dimensão, uma solução possível tem a forma de uma onda plana

E(x, t) = A sin



ou na forma complexa

2πx − 2πνt λ

(4)

E(x, t) = A ei(kx−ωt)

(5)

com k = 2π/λ, ω = 2πν . Na interpretação probabilistica da dualidade partícula-onda essa função de onda deve ser usada para o cálculo das probabilidades desejadas.
A interpretação probabilística proposta por Born para a matéria é uma generalização da idéia de Einstein, e, de certa forma, uma generalização da idéia de de Broglie. Aqui, além de associar um comprimento de onda e uma frequência a cada partícula, associa-se a ela uma função de onda. Essa função deve ser solução da equação de Schrödinger, que trataremos em detalhes mais para frente. Em analogia à função de onda relacionada ao campo elétromagnético, E(x, t) em uma dimensão, a função de onda de Schrödinger é uma função da posição e do tempo, ψ(x, t) em uma dimensão, cuja amplitude ao quadrado,

|ψ(x, t)| dx , correponde à probabilidade de encontrar a partícula no
volume dx centrado na posição x. Aqui também podemos considerar a onda de Schrödinger como as ondas condutoras das partículas. Uma solução possível da equação de Schrödinger (que é uma equação de onda assim com as equações de Maxwell) também pode ser uma onda plana (para uma partícula livre), ou seja

2

ψ(x, t) = Ae





Note que da mesma forma que no princípio da superposição

i(kx−ωt)

(6)

E(x, t) = E2 (x, t) + E2 (x, t)







(7) a soma das amplitudes do campo elétrico leva a interferência de campos eletromagnéticos no ¯ cálculo de E , e consequentemente a observação de efeitos como difração de raio-X, assim também, como as soluções da equações da equação de Schrödinger também satisfazem ψ(x, t) = ψ1 (x, t) + ψ2 (x, t)







(8) levando ao o fenômeno de interferência de elétrons pela mecânica quântica. no cálculo de |ψ(x, t)| dx .
2 2

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Devido à essa interpretação probabilística, nota-se que as funções ψ(x, t) devem satisfazer1
+∞ +∞

|ψ(x, t)| dx =


−∞ −∞

2

ψ ∗ (x, t)ψ(x, t)dx = 1



(9)

3.3 O Princípio da Incerteza de Heisenberg

Na física clássica as leis básicas são deterministas, basta saber a posição e o momento de uma partícula em um dado instante para poder, usando a segunda lei de Newton, determinar a sua posição e momento em qualquer outro instante. Na física quântica, com sua interpretação probabilística, esse determinismo deve ser abandonado.
O indeterminismo na mecânica quântica é apresentado de maneira bastante expressiva pelo princípio da incerteza de Heisenberg: Não se pode determinar simultaneamente a posição e o momento linear2 de uma partîcula com precisão ilimitada. A seguinte relação deve ser válida

∆x∆px ≥ ¯ /2 h

(10)

O príncipio da incerteza pode ser deduzido a partir da interpretação probabilística da mecânica quântica, e reflete o fato de que ao se fazer uma medida em um sistema físico sempre alteramos seu estado.
Para ilustrar como surge o princípio da incerteza a partir das funções de onda, vamos construir uma função de onda a partir de superposições de ondas planas, como as apresentadas na eq. (6). Se apenas uma onda plana for usada,



ψ1 (x, t) = A1 ei(kx−ωt)

2 2

(11)

¯ temos um momento e energia exatamente definidos, p = h/λ = hk

¯ e E = hν = hω ,

respectivamente. Entretanto nesse caso, |ψ1 (x, t)| dx = |A1 | dx , e portanto, a propabilidade de encontrar a partícula em um volume dx centrado na posição x é a mesma para qualquer x entre -∞ e +∞. Assim, conhecer precisamente o momento leva a uma incerteza infinita na posição.
Vamos agora superpor outras duas ondas com momento e energia ligeramente diferentes, introduzindo incertezas no momento e energia da partícula, vamos acionar as seguintes funções de onda

ψ0 (x, t) = A0 ei[(k−∆k/2)x−(ω−∆ω/2)t] e ψ2 (x, t) = A2 ei[(k+∆k/2)x−(ω+∆ω/2)t] (12) ψ(x, t) = ψ0 (x, t) + ψ1 (x, t) + ψ2 (x, t) ψ(x, t) = ei(kx−ωt) cos
∆k 2 x

Assim, tomando A0 =1/2, A1 = 1 e A2 = 1/2, teremos




∆ω 2 t

(13)

1 2

as funções de onda na eq. (6) não satisfazem a condição (9), portanto não representam uma partícula localizada. o mesmo é válido para outros pares de variáveis conjugadas, como energia e tempo.

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A figura 1 mostra um gráfico da parte real dessa função de onda. Na figura 2 comparamos a função de onda com seu modulo quadrado. Podemos observar que ao introduzir uma pequena

¯ incerteza ∆p = h∆k no momento da partícula leou-se a um “confinamento” dessa em um volume do espaço (veja figura 1)




de onde tiramos que, nesse caso,



∆x = x2 − x1 =

4π¯ h 4π = ∆k ∆p




(14)

∆x∆p = 4π¯
h

∆k x1 = −π 2

∆k x2 = π 2

Figura 1 - Representação gráfica da parte real da eq. (13). Em verde temos , ψ0 (x, t) em azul ψ1 (x, t) , em vermelho ψ2 (x, t) e em preto a sua das três.

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Figura 2 - Comparação entre a função de onda e seu módulo quadrado.
Para verificarmos a desigualdade (10), precisamos adicionar mais do que apenas três ondas, precisamos adicionar infinitas, de tal forma que k varie continuamente, e os coeficientes Ai nas equações (12) e (13) se tornem uma função contínua, ou seja,3
+∞

ψ(x, t) =



−∞

A(k)ei(kx−ωt) dk




(15)

Se A(k) for uma função centrada em k = k0 com uma certa largura ∆k teremos uma onda localizada no espaço. Podemos testar essa idéia usando uma Gaussiana para A(k), nesse caso,
+∞

ψ(x, t) =

−∞

a − a2 (k−k0 )2 e 4 (2π)3/4

ei(kx−ωt) dk

corresponde a uma gaussiana com largura ∆k = 1/a . Para resolver essa integral, precisamos primeiro compreender que em geral a frequência é uma função do número de onda ω = ω(k) . Vamos assumir que essa função tenha um corportamento suave em torno de k0 , e expandi-la em série de Taylor em torno desse valor

dω dk k=k0

ω(k) ≈ ω0 + vg (k − k0 )

onde g expoente

v ≡

e ω0 = ω(k0 ) . O próximo passo na solução da integral é rearranjar o

a2 a2 (k − k0 )2 + i(kx − ωt) = − (k − k0 )2 − i(kx − ω0 t − vg (k − k0 )t) ⇒ 4 4

3

a integral em dk corresponde à soma de todas as condas planas para diferentes valores de k.

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a2 (k − k0 )2 − i(kx − ω0 t − vg (k − k0 )t) = − 4
+∞

a (x − vg t) (k − k0 ) − i 2 a

2

+

(x − vg t)2 − i(k0 x − ω0 )t ⇒ a2
2 2(x−vg t) a2 2

−∞

a − a2 (k−k0 )2 e 4 (2π)3/4

e

i(kx−ωt)

dk =

g a i(k0 x−ω0 t) − (x−v2 t)2 a e e 3/4 (2π)

+∞ −∞

e

−a 4

(k−k0 )−i

dk

finalmente resolver essa integral usando
+∞

e



−∞

−α2 (ξ+β)2

dξ =

π α

e teremos

ψ(x, t) =

Assim,

2 πa2

1/4

ei[k0 x−ω(k0 )t] e−

(x−vg t)2 a2

|ψ(x, t)| =


2

2 πa2

1/2

e−2

(x−vg t)2 a2

que, por sua vez corresponde a uma Gaussiana de largura ∆x = a/2 . Finalmente,



∆x∆k = 1/2 ⇒ ∆x∆p = h/2 . ¯

É possivel mostrar que usando um pacode Gaussiano obtemos o limite inferior para esse produto, e portanto a desigualdade na eq. (10) é válida.

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