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DIMENSÕES CULTURAIS DA GLOBALIZAÇÃO
O global hoje
Todas as grandes forças sociais têm percursores, precedentes, análogos e fontes
no passado. São estas as profundas e múltiplas genealogias (ver capítulo 3) que têm
frustrado a modernizadores inseridos em sociedades muito diferentes a aspiração de
sincronizar os seus relógios históricos. Este livro defende também a presença de uma
ruptura geral no teor das relações intersocietais destas últimas décadas. Há que explicar
esta perspectiva de mudança - melhor, de ruptura - e distingui-la de algumas das
anteriores teorias da transformação radical.
Um dos mais problemáticos legados da grande ciência social do Ocidente
(Auguste Comte, Karl Marx, Ferdinand Tonnies, Max Weber, Émile Durkheim) é nunca
ter deixado de reforçar o sentido de um momento singular – chamemos-lhe o momento
moderno – que pela sua aparência abre uma brecha profunda e sem precedentes entre o
passado e o presente. Reencarnada como o corte entre tradição e modernidade e
tipificada como a diferença entre sociedades ostensivamente tradicionais e sociedades
modernas, está por demais demonstrado que esta posição distorce os significados da
transformação e da política do passado. No entanto, o mundo em que hoje vivemos - em
que a modernidade anda decididamente à solta, por vezes acanhada e sentida de forma
desigual - implica seguramente um corte com todo o tipo de passados. Que espécie de
corte é este, senão o identificado pela teoria da modernização (e criticado no capítulo
7)?
Implícita neste livro está uma teoria de ruptura que toma os meios de
comunicação social e a migração como os seus dois diacríticos principais e interligados,
e explora o seu efeito conjunto sobre a obra da imaginação como característica
constitutiva da subjectividade moderna. O primeiro passo para o provar é que os meios
de comunicação electrónicos mudaram decisivamente o campo mais vasto dos meios de
comunicação de massas e outros meios de comunicação tradicionais. Isto não é uma
fetichização monocausal da electrónica. Esses meios de comunicação transformam o
campo da mediatização de massas porque oferecem à construção de eus imaginados e
de mundos imaginados novos recursos e novas disciplinas. É uma tese relacional. A
comunicação electrónica marca e reconstitui um campo muito mais vasto em que a.

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sem que percam o seu carácter de plausibilidade. visual e auditiva podem continuar a ser importantes. fornece recursos para toda a espécie de experiências de construção do eu em todo o tipo de sociedades e para todo o tipo de pessoas. E estes criam esferas públicas de diáspora. 2 . fenómenos que invalidam as teorias ancoradas na hegemonia continuada do Estado-nação como principal árbitro de importantes transformações sociais. Mas se a colocarmos em justaposição com o rápido fluxo de imagens. através da imediatidade da sua absorção no discurso público e através da tendência para os associar a sedução. computadores e telefones) e à maneira rápida como se move no seio das rotinas da vida quotidiana. televisão. Sempre portadora do sentido da distância entre observador e acontecimento. a comunicação electrónica é uma ferramenta para que cada indivíduo se imagine como um projecto social em curso. política. vemos imagens que vão ter com espectadores desterritorializados. através da tensão entre os espaços públicos do cinema e os espaços mais exclusivos do vídeo. os coreanos de Filadélfia vêem as Olimpíadas de Seul1988 através de emissões satélite da Coreia e em Chicago os taxistas paquistaneses ouvem cassetes de sermões gravados em mesquitas no Paquistão ou no Irão. documentários e outras formas de telemediatização informativa e de texto impresso. Ao mesmo tempo. a transformação do discurso quotidiano. não obstante. textos e sensações mediatizados. Quando os turcos que trabalham na Alemanha vêem filmes turcos nos seus apartamentos alemães. subverter e transformar outras literacias contextuais. Permite enredos de vidas possíveis imbuídas da sedução das estrelas de cinema e de fantásticos argumentos de filmes. a cosmopolitismo e a novidade. os meios de comunicação electrónicos (estejam eles ligados a notícias. provoca. vida familiar ou diversão e espectáculos) tendem a interrogar. como noticiários. Nos capítulos que se seguem vou atrás dos modos como a comunicação electrónica transforma mundos de comunicação e conduta preexistentes. Através de processos como a condensação de notícias em bytes audiovisuais. Graças à mera multiplicidade de formas que assume (cinema. A comunicação electrónica dá uma tessitura nova ao contexto em que o moderno e o global aparecem frequentemente como faces opostas da mesma moeda. temos uma nova ordem de instabilidade na moderna produção de subjectividades. Passa-se com o movimento o mesmo que se passa na mediatização. A questão das migrações de massas (voluntárias e forçadas) não é nada de novo na história humana.comunicação escrita e outras formas de comunicação oral.

tanto pessoas como imagens encontram-se muitas vezes por acaso. notícias radiofónicas. por vezes. a imaginação saiu do particular espaço expressivo da arte. mas como aquelas que parecem impelir (e. vista neste contexto.Em suma. como a televisão por cabo em algumas partes dos Estados Unidos. Claro que muitos espectadores podem não emigrar. um parente. Nem as imagens nem os espectadores cabem em circuitos ou audiências que facilmente se confinam a espaços locais. não como forças tecnicamente novas. Nos capítulos que se seguem. em que chefes ferozes implantavam a sua perspectiva na vida social criando assim enérgicos movimentos de transformação social. Esta relação amovível e imprevisível entre acontecimentos mediatizados e audiências migratórias define o âmago da ligação entre a globalização e o moderno. E muitos acontecimentos mediatizados são de alcance fortemente local. mostro que a obra da imaginação. Juntas. As pessoas vulgares começaram a dar provas de imaginação na sua prática 3 . baseio-me em três distinções. Primeiro. Neste sentido. fora das certezas do lar e do cordão sanitário de efeitos mediáticos locais e nacionais. um colega de trabalho que não esteja a caminho de qualquer outro lugar ou já de volta para casa. nos cultos de personalidade e nos movimentos messiânicos de outrora. ou espectáculos de televisão importantes que se mantêm inteiramente incólumes a outros acontecimentos mediáticos vindos de longe. Mas poucos são os filmes. poucas são as pessoas que não têm um amigo. nem é puramente emancipadora nem inteiramente disciplinada: é um espaço de contestação no qual indivíduos e grupos procuram anexar o global às suas próprias práticas do moderno. Mas agora já não se trata de indivíduos particularmente dotados (carismáticos) a injectar imaginação onde ela não cabe. mito e ritual para passar a fazer parte da actividade mental quotidiana da gente vulgar de muitas sociedades. a comunicação electrónica e as migrações marcam o mundo do presente. Entrou para a lógica da vida corrente de que com assinalável sucesso tinha sido segregada. E. no mundo de hoje. nacionais ou regionais. portador de histórias e de possibilidades. criam irregularidades específicas porque espectadores e imagens estão em circulação simultânea. compelir) a obra da imaginação. Claro que encontra precedentes para tal nas grandes revoluções. (…) Obra da imaginação Quando afirmo que a imaginação no mundo pós-electrónico tem um novo papel significativo.

para as vidas de muita gente vulgar. Exemplo deste facto é a mútua contextualização de movimento e mediatização. levam a força glacial do hábito ao ritmo acelerado da improvisação. Tamil Nadu e Palestina. que considera que o mundo moderno está em vias de se transformar numa jaula de ferro por obra das forças da mercantilização do capitalismo industrial e da regulamentação e secularização generalizadas do mundo.quotidiana de vida. para mitografias diferentes das disciplinas do mito e do ritual de tipo clássico. Transformando e alargando ligeiramente dois termos importantes de Albert Hirschman. como nos recordam os campos de refugiados da Tailândia. Existe um vasto e respeitável corpo de textos. Para os migrantes. O ceme desta diferença é que estas novas mitografias são atestados de novos projectos sociais e não apenas contraponto das certezas da vida quotidiana. nomeadamente dos críticos da cultura de massas pertencentes à Escola de Frankfurt e já avançado na obra de Max Weber. A segunda distinção é entre imaginação e fantasia. Alex lnkeles e muitos outros) teve larga aceitação a ideia de que o mundo moderno é um espaço de 4 . das cassetes e dos vídeos. Aqui. dos jornais e do telefone. as imagens. Quem quer mudar-se. quem já regressou e quem preferiu ficar raramente formula os seus planos fora da esfera da rádio e da televisão. Outros são arrastados para novos cenários. Para um grande número de pessoas. quem já se mudou. passando por Talcott Parsons e Edward Shils até Daniel Lerner. como memória e como desejo. Etiópia. riqueza e oportunidades. nacional e global. Mas em todos os casos estas diásporas trazem a força da imaginação. podemos falar de diásporas de esperança. Nunca como agora tantas pessoas parecem imaginar rotineiramente a possibilidade de elas ou os seus filhos viverem e trabalharem em lugares diferentes daquele em que nasceram: é esta a fonte do aumento da taxa de migrações a todos os níveis da vida social. os textos. diásporas de terror e diásporas de desespero. muitas vezes porque as circunstâncias em que se encontram são intoleráveis. E depois há os que se deslocam em busca de trabalho. os modelos e as narrativas que chegam pelos meios de comunicação de massas (nos seus modos realista e ficcional) traçam a diferença entre as migrações de hoje e as do passado. tanto as fórmulas de adaptação a novos ambientes como o estímulo para sair ou voltar são profundamente afectados por um imaginário mediático que frequentemente transcende o espaço nacional. lealdade e saída. É que estas pessoas deslocam-se e têm que arrastar consigo a imaginação para novas maneiras de viver. Entre os teóricos da modernização das últimas três décadas (de Weber.

É demasiado simplista. Comunidades Imaginadas.religiosidade decrescente (e maior cientismo). pois não operam apenas ao nível do Estado-nação.). o capitalismo impresso pode ser um meio muito importante de grupos que nunca se conheceram começarem a pensar-se como Indonésios. Esta posição. Tais confrarias podem constituir-se a propósito do desporto e do internacionalismo. C. especialmente do cinema e do vídeo. I. Cambridge. O erro funciona a dois níveis. e internacionalmente em torno do aiatolá Khomeini mais ou menos pela mesma altura. como tão claramente demonstram os efeitos transnacionais dos Jogos Olímpicos. pode criar confrarias de veneração e carisma. (1990). B. A recepção colectiva dos meios de comunicação de massas. Neste passo.A. 2005. Os condomínios e os prédios albergam videoclubes 1 Appadurai. 5 . baseia-se num requiem prematuro à morte da religião e à vitória da ciência. (…) A terceira distinção é entre o sentido individual e o sentido colectivo da imaginação. Lutz. “Topographies of the self: praise and emotion in Hindu India”. baseia-se na noção de que os processos mecânicos de reprodução reprimem severamente a gente comum que busca trabalho industrial. Parte do que os meios de comunicação de massas tornam possível. A um outro nível. é errado presumir que a comunicação electrónica é o ópio do povo. & Abu-Lughod. Primeiro. Como tão bem demonstrou Benedict Anderson2. que apenas começa a ser corrigida. (eds. menos diversão (e lazer cada vez mais regulamentado) e de inibição da espontaneidade a todos os níveis. um grupo que começa a imaginar e a sentir coisas em conjunto. tão interligadas e dotadas de tão grande mobilidade. in. nos anos setenta e oitenta. como as que se formaram regionalmente em torno da deusa indiana Santochi Ma. Indianos ou Malaios. Há muitas linhas nesta ideia. Há novas religiosidades de toda a espécie que demonstram que a religião não apenas não morreu como pode até ter mais consequências do que nunca nas políticas globais de hoje. (1983). A. Language and the politics of emotion. Cambridge University Press. Lisboa. 2 Anderson. Mas outras formas de capitalismo electrónico podem ter efeitos semelhantes ou mesmo mais fortes. é o que noutro lugar chamei «comunidade de sentimentos»1. é importante salientar que falo de imaginação como propriedade de colectivos e não apenas como uma faculdade do indivíduo dotado (que é o sentido em que tacitamente é tomada desde o florescimento do Romantismo europeu). crítica e prazer colectivos. Edições 70. linhas que unem teóricos tão diferentes como Norbert Elias e Robert Bell. mas há também nela algo de fundamentalmente errado. por causa das condições de leitura.

2004. 13-20. Lisboa. comissões de apoio político. 6 . pp. Teorema. Dimensões Culturais da Globalização.em sítios como Catmandu ou Bombaim. Clubes de fãs. Arjun (1996). emergem em culturas comunicacionais provincianas como no Sul da Índia. Appadurai.