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Transroca, o navio proibido Basta levar a sério o amor para descobrir, também nele, uma “iluminação profana”. Todos experimentam aventuras de amor muito semelhantes, a todos o Amor concede ou recusa dádivas que mais se assemelham a uma iluminação que a um prazer sensual, e todos pertencem a uma espécie de sociedade secreta, que determina sua vida interna, e talvez também a externa. Essa vida de todos e o amor de todos é mesmo fascinante. Faz com que histórias peculiares aparentemente comuns e ao mesmo tempo repetidas, sejam narradas, fotografas, filmadas ou simplesmente vividas como tem que ser a vida de todos. Amanda e Kall, também se amam. Um dia se encontraram e sentiram um pelo outro o sentido do amor que os uniu. O truque que rege esse mundo de coisas – é mais honesto falar em truque que em método – consiste em trocar o olhar histórico sobre o passado por um olhar político. “Abri-vos, túmulos; mortos das pinacotecas, mortos adormecidos atrás de portas secretas, nos palácios, nos castelos e nos mosteiros, eis o porta-chaves feérico, que tendo às mãos um molho com as chaves de todas as épocas, e sabendo manejar as fechaduras maus astuciosas, convida-vos a entrar no mundo de hoje...” é o que esse jovem escritor brasileiro Rodrigo Capella nos faz embarcar, segurando nas mãos uma chave (A chave da imaginação)... Amanda, uma doce mulher, como tantas. Kall, um homem típico, aparentemente com várias facetas, mas um detetive apenas, trás a tona o ar dos grandes e imortais mestres da investigação de todos os tempos. Kall é um profissional da investigação bem elaborado e preparado para desvendar tudo, ou melhor: todos os crimes. Poderia ser em Londres, em Paris, Nova York ou simplesmente São Paulo. Mas a história de Amanda e Kall, se passa em Perúsia Pequena e Perúsia Grande e em seguida do jardim da casa do casal para a tão sonhada viagem de lua-de mel rumo a um lugar ambicionado por dezenas de pessoas, Parja, simplesmente Parja! O autor em sua narrativa, nos embarca, num cruzeiro rumo a Parja, na mesma viagem de lua-de-mel que é só do casal, mas para nós o delírio de embarcar mesmo assim como degustadores de aventuras e emoção, o sentido maior dessa vida tem seu preço. No auge da viagem, todos os passageiros são surpreendidos por um assassinato numa cabine do navio. O clima de mistério, de intrigas e de suspeitos multifacetados é contagiante até as últimas frases quando então surpreendentemente Kall, revela o criminoso. Porque apunhalar um biólogo, renomado, famoso e que desperta em todos os passageiros fascínio? A resposta tão bem construída pelo autor, revela-nos o mundo de homens que matam por interesses, amor, futilidades, ciúmes e medos. O fato é que a viagem rumo a Parja continua e o segredo da felicidade encontramos na coragem de viver com emoção qualquer coisa que nos faz embarcar numa viagem apenas: pelo mar, pelo ar, pela imaginação... Ricardo Zimmer (cineasta e roteirista) Março de 2005 – Porto Alegre

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Amanda
Lembro-me do meu último caso, o qual envolveu a família Antunes, como se fosse hoje. Não por ter sido uma investigação complicada, mas sim por eu não ter conseguido escapar de um amor, de um amor à primeira vista. Nessa época, conheci Amanda, a filha do antigo prefeito de Perúsia Pequena, hoje governador do estado, e com ela desvendei um novo mistério: A Paixão. Hum... Entre esse último episódio e hoje passou-se muito, muito tempo. Atualmente, ela contempla os vinte e cinco anos e eu os trinta. Opa! Se eu estiver mentindo, você me perdoa, né? Bem, felizmente, essa pequena diferença não impediu nossos três meses de namoro, que resultariam num brilhante noivado. Nesse tempo, Amanda e eu nos encontrávamos bastante, acho que seis vezes por semana. Também nos comunicávamos por cartas. Foi em suas primeiras palavras, que ela mostrou mais uma habilidade, a escrita. Interessante, né?

Kall, estou apaixonada por ti. Desejo tê-lo em meus braços todos os minutos. Eu o amo. Sem você eu seria apenas uma mulher, mas com você sinto-me A mulher. Mil Beijos de sua amada, Amanda.

Isso sem mencionar as horas em que falávamos ao telefone. Parecíamos uma única pessoa. Eu morava em Perúsia Grande e ela em Perúsia Pequena, mas a distância entre essas cidades não foi um obstáculo para o nosso amor. É claro que, como todo casal, tínhamos algumas brigas, principalmente por ciúmes. Porém, foram discussões rápidas, que ocuparam poucas páginas na história de nossas vidas. Que meigo! Apesar de ser filha do governador, Amanda sempre dispensou os privilégios a que tinha direito, por exemplo, circular de limosine pela cidade. Ela dizia que sempre manteria a sua personalidade simples, sendo seu pai um governador ou um professor, como ele foi no início. Sem dúvida, essa atitude me fazia ter orgulho dela. Amanda era uma pessoa doce, carinhosa, delicada, dedicada, amável, culta e tinha um nome que significava tudo isso, Amanda. Longos cabelos loiros e uns significativos olhos azuis, que me faziam lembrar os de minha mãe. Uma pessoa de estatura média e de um jeito de falar encantador. Uma mulher cheia de riquezas externas, um belo rosto, e de riquezas internas, um bom coração. Profundo, né? * Nossa cerimônia de casamento foi impecável e bela. Amanda entrou com um vestido branco bordado a ouro nas mangas, acompanhada de seu pai, que vestia um

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smoking azul escuro. Os convidados presenciaram um evento rápido, porém, bastante emotivo. Os detalhes da festa estavam perfeitos, desde o bolo até as cadeiras e a cortina. Ao final, Amanda dançou uma valsa com seu pai e, em seguida, comigo. Estávamos felizes! Nossos beijos e sorrisos mostravam tal sentimento. Entramos numa limosine, comandada pelo nosso convidado Marquês, um antigo amigo da família, que sustentava cinqüenta e cinco anos e estava muito feliz por guiar o novo casal. Pelo menos era o que parecia (risos). Fomos para Perúsia Grande, para a casa da falecida minha mãe, onde passaríamos a morar juntos, afinal, agora estávamos unidos para sempre. Oh! Que meigo! Aliás, nesse mesmo dia, fizemos amor. Foi igual à primeira vez. Parecíamos dois jovens, descobrindo um novo mundo. Recordo-me firmemente desse episódio. Ele aconteceu no bosque de Perúsia Pequena, perto do lago e da floresta local. Foi um momento inesquecível para nós.
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Mais tarde, não me lembro a que horas da noite, tivemos uma leve refeição. Amanda abordou um assunto interessante, interessante para ela: - Gostaria de cultivar plantas em nosso quintal. - Claro, não vejo porque não. - Amanhã, eu irei ao mercado comprar algumas sementes – disse ela, entusiasmada.
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O dia amanheceu com o canto de alguns passarinhos, especificamente os sabiás, a grande paixão de Marquês, o que levou Amanda a mudar totalmente o seu comportamento, como acontece nos filmes meio non sense: - Malditos pássaros, vão cantar em outro lugar! - Calma meu amor, são só os pássaros de Marquês, não fazem mal a ninguém – disse ironicamente. - Eles me acordaram. Cuide para que isso não aconteça novamente. - Relaxe meu amor, esse canto é maravilhoso. Ela levantou-se e foi até o jardim, um lugar encantador, onde se podia encontrar vários tipos de plantas e flores. Marquês alimentava os pássaros: - Bom dia, Amanda. Ela estudou-o e disse bruscamente: - Livre-se desses pássaros. Marquês ficou paralisado e lançou uma pergunta inocente: - Por quê? Amanda deu uma resposta direta: - Não agüento mais o barulho deles. Eles me acordaram hoje de manhã! - Não vou me livrar deles. Kall e eu os apreciamos. Amanda não disse uma palavra e se retirou, dirigindo-se à cozinha. Marquês continuou no jardim. Parecia que ele conversava com os pássaros, parecia que eles compreendiam o que meu amigo dizia. *

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No dia seguinte, levantei e já encontrei a mesa do café arrumada. Amanda me provaria mais um dom, a culinária. Eita! - Resolvi fazer o nosso café-da-manhã. Espero que goste. - Está muito gostoso, Amanda. - Kall, eu preciso falar com você. - Claro. - É sobre Marquês. - Amanda, o que tem Marquês? Ele já está trabalhando há vários anos comigo. Se o assunto é novamente o canto dos pássaros dele, esqueça! Eu não irei dar um jeito neles. Minha mulher tentou pronunciar algo mas desistiu, pois sabia que era perda de tempo. Cinco minutos depois, encontrei Marquês no jardim da casa. Ele passava horas e horas nesse local. - Bom dia, Kall. - Bom dia, Marquês. - Você comeu bem no café? - Comi sim, Marquês. Tive uma bela refeição. A Amanda me preparou um café-da-manhã delicioso. - Espero que ela não tenha esquecido o seu suco de laranja. Você gosta muito dele. - Infelizmente, ela esqueceu, mas tudo bem. Vou lembrá-la da próxima vez. - Antigamente, quando eu preparava o café, o seu suco não faltava – disse meu velho amigo. Percebi, nesse momento, que estava diante de um conflito emocional, já que Amanda estava com ciúmes de Marquês e Marquês de Amanda. Por isso, resolvi caminhar pelas largas e inconfundíveis ruas de Perúsia Grande a fim de refletir sobre esse meu novo problema. Pensei nos momentos que tive com minha mulher e com meu amigo Marquês. E, por um instante, lembrei das boas ocasiões que tive com ambos. Até esse momento tudo estava muito feliz. Vivia alegremente com minha mulher e desfrutava da agradável companhia de Marquês. Estava tudo perfeito! Até que... Até que... um ciúmes bobo e, aparentemente sem importância, apareceu. O que poderia acontecer? Esse ciúmes seria algo passageiro? Para saber, eu teria que enfrentá-lo. E isso aconteceu logo quando voltei de minha caminhada. Encontrei ambos discutindo: - Amanda, eu já disse, Kall gosta que esse rádio amador fique aqui - pronunciou Marquês, colocando o objeto na mesa central da sala. - Agora, seu novo lugar é aqui - enfatizou minha mulher deixando o rádio amador sobre a mesa de canto. - O lugar dele sempre foi aqui - retrucou meu velho amigo. - Mas, agora não é mais - disse ela, elevando o tom de voz. Ambos começaram a levar o rádio amador para o lugar que consideravam correto. Eu estava imobilizado, estático com essa situação. Não acreditava que eles podiam chegar ao ponto de brigar pelo posicionamento de um objeto. De repente, escutei um barulho. Era um vaso que estava espatifado no chão, mas por sorte o rádio amador estava intacto. Amanda dirigiu-se ao nosso quarto e lá ficou por um longo tempo. Marquês estava preocupado e um pouco nervoso, por isso pediu-me uma conversa. - Aconteceu alguma coisa? – disse, tentando esquecer da discussão ocorrida entre ambos.

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- Kall, estou trabalhando para você há vários anos... - Claro. Diga-me o seu problema. Terei prazer em ajudá-lo. - O problema é que você não precisa mais dos meus serviços. Fiquei Pálido. Por que ele estava me dizendo isso? Não fazia sentido. Aliás, aquela briga não tinha sentido. Murmurei: - Quem disse? - Eu não preciso mais preparar o seu café-da-manhã e não posso mais colocar os objetos no lugar que estavam antes. Marquês não parecia o homem forte e saudável de sempre. Nesse momento, algo o incomodava. Só poderia ser o lugar que Amanda ocupava em minha vida. Mas, era natural que minha mulher quisesse fazer algo por mim, como um simples café-da-manhã. Marquês não parecia entender isso. Não estou dizendo que ela estava certa ou ele errado. Não é isso. Nesse momento, eu só queria que fosse tudo como antes, sem o tal ciúmes. Apesar de ter certeza que isso seria difícil, tentei amenizar a situação: - Foram apenas dois incidentes. Nada tão sério. - Foram graves discussões. Não tenho idade para discutir o dia todo. Tenho uma decisão para comunicá-lo. Temi que ele fosse embora, mas não podia impedi-lo. Então, indaguei: - E, qual é? - Eu pensei muito, e acho que não posso mais continuar aqui. - Eu não posso permitir isso! - É o melhor que tenho a fazer – retrucou ele. - E essa decisão é definitiva? - É, infelizmente, sim. - Para onde você vai? - Eu ainda não sei. - Só posso então desejá-lo boa sorte. - Obrigado. Não gostava de despedidas. E muito menos, quando elas eram definitivas. Mas, nada podia fazer. Teria que aprender a conviver sem Marquês, sem meu velho amigo. Ele me abraçou com muita força, retirou os seus pássaros, apanhou uma pequena mala e, sem se despedir de minha mulher, saiu da casa em que trabalhou por vários anos. Aliás, ele foi o primeiro empregado que a falecida minha mãe teve. Lembro-me, até hoje, das histórias que ela contava. E uma delas era a sobre Marquês. Ele chegou em plena primavera de um ano qualquer, com uma pequena mala e alguns passarinhos, procurando emprego, vindo do interior paulista. Minha mãe simpatizou de imediato com ele e mesmo sem precisar de ajuda para os serviço domésticos, contratou-o. - Não esqueça de me enviar notícias. - Não esquecerei, Kall. Estava sentindo-me estranho, diferente. Porém, não queria que minha mulher notasse algo de errado em mim. Amanda me abraçou, beijou-me e conduziu-me até a mesa da sala, onde o jantar estava servido. - Como está? - perguntou ela. - Ótimo – exclamei.
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Minha mulher e eu parecíamos estar vivendo uma nova vida. Amanda estava cada vez mais doce, delicada, forte, decidida, graciosa e segura. Era uma mulher completamente diferente. Estava uma noite bonita, toda estrelada. Resolvi ir até a varanda. Sentado na cadeira, tomei um café, que estava na temperatura adequada. Amanda foi ao meu encontro e perguntou: - Algum problema? - Nada, Amanda, é que não estou acostumado a tirar férias. - É isso mesmo? - Claro que sim, o que mais poderia ser? - Não sei, é que ultimamente você está estranho. - Estranho, eu? Bobagem! Na verdade, estava sentindo cada vez mais falta de Marquês. Lembrava dos bons momentos de nossa amizade. Ele me deu apoio nas épocas em que eu mais precisava, como na morte de minha mãe. Amanda e eu passamos a ter uma boa fase de convivência. Não estou falando que o nosso casamento melhorou com a saída de Marquês, não é isso, apenas Amanda e eu tivemos uma oportunidade para nos conhecer melhor. Eu dependia somente dela e ela de mim, parecíamos uma única pessoa. Eu a admirava cada vez mais. Amanda era uma fada para mim, parecia tudo um sonho. Mas, às vezes, quando lembrava de Marquês, ficava triste. Era difícil perder um grande amigo e companheiro. Ele não dava notícias e era impossível localizá-lo em Perúsia Grande, uma cidade enorme que podia ser comparada às grandes metrópoles mundiais.
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Estávamos, outro dia, na sala de estar. Ela assistia ao filme “Forrest Gump - O Contador de Histórias”, do diretor Robert Zemeckis, e eu estava realmente disperso: - Kall, o que você achou do filme? - Gostei bastante, trata-se de uma bonita história. - Você prestou atenção? – perguntou ela - Claro, quer dizer, mais ou menos. - Ultimamente, você está muito pensativo. Eu pergunto e você não responde. Às vezes, parece que você está em outro planeta. Está com saudades de Marquês? - Estou, não posso negar. Ele foi um grande amigo e já faz uma semana que não o vejo. - Deve ser difícil, Kall.
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O dia amanheceu, o sol estava mais lindo do que nunca e o céu totalmente azul. Amanda não estava em casa, tinha saído de manhã cedo, provavelmente para ir atrás de Marquês, provavelmente para percorrer toda Perúsia Grande atrás dele. Amanda passou por ruelas, por becos e por bairros antigos. - Você conhece esse senhor? – indagou ela, mostrando a foto de Marquês a um vendedor de frutas da avenida principal da cidade. - Nunca o vi em minha vida. Minha mulher foi repetindo várias vezes a mesma pergunta, que parecia já ter memorizado: Você conhece esse senhor? E nada, ela já estava a cinco horas procurando

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Marquês, e não obteve qualquer informação sobre ele. Passou por hotéis, lojas, pensões, casas de família. Não recebeu qualquer resposta significativa. Com isso, resolveu encerrar o seu primeiro dia de investigação. Parecia uma detetive de verdade. Ela chegou em casa tarde: - Oi Amanda, você está bem? - Claro que estou bem, apenas fui andar pela cidade. - Tudo bem. Só peço que me avise quando sair. Já estava preocupado, você nem almoçou em casa. - Sem problemas, da próxima vez eu aviso. No jantar, comemos uma pizza. Depois, recebemos, via correio, um panfleto da pensão Shalom, uma antiga casa de hospedagem da cidade. Amanda abriu um imenso sorriso. Ela sabia que esse poderia ser o local onde Marquês estaria hospedado. * No dia seguinte, Amanda acordou bem cedo e simplesmente saiu. Eu já desconfiava que ela iria procurar por Marquês e também sabia o quanto era importante para ela localizálo. Por isso, não me meti no assunto, fingindo que nada sabia a respeito. Queria também ver como Amanda conduzia uma investigação. Ela foi em direção a Pensão Shalom, um lugar pequeno, sujo e com pouca iluminação. Amanda mostrou a foto de Marquês ao recepcionista e perguntou: - Você conhece esse senhor? O recepcionista, um jovem loiro, de estatura mediana e olhos azuis, que se chamava Lucas, conduziu Amanda a uma sala. - Sra. Shalom, essa jovem de nome Amanda está perguntando por esse senhor - disse o recepcionista a uma mulher que aparentava ter sessenta anos, tinha rugas no rosto e usava óculos sem lentes. Lucas saiu e Sra. Shalom estudou , por um minuto, a foto que o recepcionista lhe mostrou. Amanda sentou-se numa antiga cadeira, que estava toda empoeirada. - Lucas já vai chamá-lo - disse Sra. Shalom. Nesse momento, minha mulher sentiu um ar de tranqüilidade. - Ele é seu parente? - perguntou a dona da pensão, curiosa. - Não, mas é um grande amigo. Poucos minutos depois, entraram Lucas e Marquês, que estava todo mal vestido. Amanda não se conteve de emoção e abraçou meu velho amigo por longos dois minutos. Sra. Shalom e Lucas deixaram eles a sós. Amanda, quase chorando, murmurou: - Volte, Marquês. A casa sem você não é a mesma. Kall e eu gostamos muito de você. - Eu também gosto de vocês. Nesse tempo que passei aqui, pude refleti muito sobre nossas discussões. Contudo, só voltarei se as nossas brigas acabarem. Kall gosta de nós dois. Por isso, acho que podemos acabar com nossas pequenas intrigas. - Claro, Marquês. Eu concordo. - Então, faremos um pacto simples. Vamos jurar que iremos dividir as tarefas da casa, com isso nunca mais iremos discutir. - Eu juro – disse Amanda. - Eu também juro.
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Sendo assim, no dia seguinte, acordei com os famosos sabiás de meu velho amigo. Fui até a varanda e o encontrei cuidando dos pássaros. Corri para abraçá-lo. Marquês tinha voltado! Por alguns segundos, fiquei tão emocionado que não pronunciei palavra alguma.Tudo parecia ter voltado ao normal. Com a exceção de um detalhe: Marquês não tinha mais ciúmes de Amanda e nem ela dele. Eles pareciam ter mudado completamente, pareciam velhos e eternos amigos. Passaram a prepara o almoço juntos: - Marquês, passe-me o sal, por favor? - Claro. O que você acha dessa salada? - Deve estar uma delícia. Parece que você não esqueceu de nada. Passaram a arrumar a casa juntos: - Pronto, Marquês, já limpei os quartos. Agora só falta cuidar da sala. - Eu faço isso. Passaram a lavar e passar roupas juntos. Enfim, passaram a dividir as tarefas da casa. Amanda passava a maior parte do tempo com Marquês. Não que eu estivesse com ciúmes, não é isso, o fato é que eu nunca tinha visto duas pessoas ficarem amigos tão rápidos.
*

Dias depois, recebi em casa um envelope, contendo duas passagens de navio para Parja, o destino de nossa tão desejada lua-de-mel. Só podia ser um presente do pai de Amanda. O navio ia sair do porto de Perúsia Grande e iria rumo à capital do estado de Lubus. Seria uma viagem inesquecível!

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Em Lua-de-mel
O navio chamava-se Transroca. Era de bandeira panamenha e estava todo iluminado, apesar de ainda não ser noite. Um grande desperdício de eletricidade. Vou fazer uma denúncia (risos). Tinha três andares, sendo o primeiro destinado aos espetáculos, aos esportes, à alimentação e ao comércio; o segundo ao quarto dos funcionários e à segunda classe; e o terceiro à primeira classe. Ele oferecia aulas de dança, polo aquático, relaxamento, ginástica, vôlei, futebol, tênis, enfim, todos os esportes e cursos alternativos possíveis. - Boa noite, senhor Kall, vou mostrar a sua cabine - disse o carregador de malas, que se apresentou com o nome de Osmar e que sustentatva uma estatura mediana. - Senhor Kall, essa é a sua cabine, qualquer problema é só me chamar. - Obrigado, Osmar. Para que horas está prevista a partida?- indaguei - Para daqui a uma hora, senhor. Nossa cabine era a de número cinco da primeira classe e estava localizada em frente a um elevador. Era um quarto com dois cômodos e um banheiro. O primeiro foi destinado ao nosso quarto e o segundo à uma sala de televisão. A vista era para o lado esquerdo do navio, onde ficava os salões destinados a alimentação. Ele era muito confortável e também arejado. Na gaveta de uma das cômodas, encontramos folhetos do Transroca sobre espetáculos, cardápios e um pequeno museu.
*

Fomos almoçar num dos restaurantes do navio, onde teríamos um show de mágica, com o Transroca dando os primeiros sinais de movimento. Sentamos numa mesa privilegiada, que já estava reservada para nós, onde acompanhamos minuciosamente o espetáculo, que recebeu o nome de Grande Brenaltis. Um ator do cinema italiano, de nome Nicolas Pioli, que certamente estava indo a Parja de férias, ocupava uma mesa próxima a nossa. Ele era um homem alto e moreno, aparentando uns quarenta e cinco anos. Numa outra, estava sentado um biólogo, de nome Gláucio, que usava traje de gala, demonstrando satisfação com a viagem. A mesa de número dois era do francês Rafael Benton e a quatro da indiana Lívia Densher. A cinco e a seis estão ocupadas, respectivamente, pela portuguesa Ana Pontes e pelo casal japonês Leda Hosaka e Edmundo Hosaka. E na sete, um pouco afastado de nós, estava a Sra. Shalom e um rapaz. Eles não paravam de olhar para nós. O restante das mesas estavam preenchidas por casais com crianças e por pessoas desacompanhadas. O navio mostrava-se lotado! Uma mulher que aparentava uns sessenta anos e um rapaz de vinte aproximaram-se da nossa mesa. Ela parecia ser simpática e culta; ele um típico aventureiro. A mulher inclinou-se em direção a Amanda: - Oi, como vai Marquês? - Oi, Sra. Shalom, tudo bem com ele. Sra. Shalom era a dona da pensão em que Marquês havia se hospedado e Lucas, pelo que Amanda me contou, era seu secretário. Não me surpreendi quando eles vieram até a

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nossa mesa. Seria apenas uma coincidência encontrá-los aqui? Só poderia ser, afinal, eles também deveriam estar de férias. - Você e Kall estão em lua-de-mel?- perguntou Sra. Shalom, curiosa. - Estamos. Você e Lucas ... - Não, não. Nós estamos a passeio - interrompeu a mulher. - Kall, eu acompanhei pelos jornais o seu último caso, o da família Antunes. Parabéns por ter conseguido resolvê-lo. - Obrigado, Lucas. É a primeira vez que você vai a Parja? - Sim, essa viagem foi um presente da Sra. Shalom. - Sra. Shalom, que número é a sua cabine?- perguntou Amanda. - Lucas e eu estamos na de número seis da primeira classe. E vocês? - Na número cinco – respondi. Interrompemos a conversa. Afinal, iria começar o tão esperado show de mágica do Grande Brenaltis. - Senhoras e senhores, - disse o rapaz encarregado de anunciar o espetáculo - vamos iniciar agora uma ótima apresentação. Peço aplausos ao Grande Brenaltis! Nesse momento surgiu o mágico, todo sorridente: - Caros espectadores, vocês vão entrar a partir de agora no campo da mágica. Onde tudo pode acontecer, realmente tudo! O mágico tirou um coelho da cartola e todos riram. Ele retomou a fala: - Bem, num show de mágica existem truques simples como esse e truques mais elaborados, mais brilhantes, como é o caso do meu próximo número, batizado por mim de mulher invisível. Os refletores iluminaram a assistente do mágico, que se apresentou com o nome de Sheila. De repente, o mágico a fez sumir. Foi realmente incrível, brilhante. Após cinco minutos, Sheila apareceu na porta principal do restaurante. Todos ficaram impressionados e Brenaltis foi aplaudido de pé, durante bastante tempo. Após a apresentação do mágico, a Sra. Shalom e o Lucas voltaram para a mesa de número sete. O mágico Brenaltis fez questão de se sentar conosco: - Kall, gostou do show? – perguntou-me ele. - Claro! Achei um espetáculo muito interessante. Você é um grande mágico e merecia estar nos palcos norte-americanos. - Obrigado, é bom receber elogios, ainda mais, de uma pessoa famosa como você. - Brenaltis, Amanda e eu gostaríamos que jantasse conosco. - Seria uma honra. O almoço começou a ser servido e o navio já tinha percorrido um bom caminho, balançando suavemente. - Brenaltis, fiquei realmente impressionado com o truque mulher invisível. Como você fez aquilo? - Kall, é um segredo de mágico – interrompeu minha mulher. - Certo, claro – concordei sorrindo. Nesse instante, sentou-se em nossa mesa a assistente do mágico. - Sheila, como é sumir por alguns minutos? - perguntou Amanda, curiosa. - É bárbaro! É uma experiência diferente – disparou Sheila.

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O mágico e sua assistente foram para a cabine. Em seguida, subiu ao palco o capitão do navio, de nome Marco, um homem de olhos verdes que usava um quepe azul engraçado. Ele fez um pequeno discurso, que não me trouxe novas informações: - Boa noite, o navio está indo rumo a capital do estado de Lubus, Parja. Espero que tenham uma boa viagem e que se divirtam bastante. Depois, Marco sentou-se em nossa mesa. - Boa noite, Kall. Boa noite, Amanda. Espero que vocês estejam gostando da viagem. Cuidarei para que tenham uma boa hospedagem em nosso navio. - Obrigado, capitão - agradecemos juntos. - Gostaria de convidá-los para um passeio pelo Transroca. O que acham? - Seria ótimo – respondemos.
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Conforme combinado, o capitão Marco nos levou para conhecer o navio. Não tínhamos reparado como ele era realmente extenso e bonito. Marco nos levou até a sala de máquinas. - Bem, essa máquina é umas das principais, pois controla, entre outras coisas, a velocidade do navio - disse o capitão, que começou a explicar o funcionamento de todo o maquinário. - Bom. Agora vou mostra-lhes a cabine de comandos – continuou ele. O capitão conhecia em detalhes todas as máquinas do Transroca. Ele parecia ter decorado o manual de funcionamento. Gaivotas, peixes e golfinhos compunham o restante do cenário, tornando o momento muito agradável. Quando andávamos pelo navio, encontramos a Sra. Ana Pontes. O capitão, que parecia conhecer a todos os passageiros, nos apresentou: - Sra. Ana Pontes, esses são Kall e Amanda. - Prazer, fico contente em conhecê-los. É a primeira vez que vocês fazem esse cruzeiro? – indagou a portuguesa. - Sim, e você? – retruquei. - Também, mas não será a última, pois estamos num navio encantador – destacou Ana. - Não será, com certeza. Mas, diga-me, como é Portugal? - perguntou Amanda. - É um bom país, com poucas desigualdades sociais. Foi uma pena não ter nascido lá. - Você nasceu no Brasil? - Sim, no nasci no estado de Ilmo e depois fui morar em Portugal quando tinha quatro anos. Meus pais nasceram lá. Lembrei de que o único local de parada do Transroca seria no estado de Ilmo e perguntei curioso: - Você nasceu perto da porto de Panarama? - Não, do outro lado do estado. - Você vai visitar a sua família quando fizermos a parada? - perguntou Amanda. - Não.
*

O capitão, que acabara de voltar da cabine de comandos, pronunciou: - Kall, gostaria de lhe apresentar uma pessoa. Gustavo Slick, o dono desse navio.

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- Gustavo Slick? – murmurei, surpreso. - Sim, você o conhece? - Claro! Ele foi meu colega na época de escola. Era um grande, grande amigo e, com certeza, será um prazer revê-lo. Gustavo Slick? Não poderia acreditar! O dono do Transroca? Como isso foi possível? Como? Ele estaria rico, agora? É bem provável! O capitão nos conduziu a uma cabine que se diferenciava das outras, não só pelo tamanho e conforto, mas também pela localização. Ela se encontrava distante das demais cabines do Transroca. Gustavo estava fazendo algumas anotações, provavelmente sobre os seus negócios. - Gustavo, o Kall deseja falar com você. Quando o capitão pronunciou meu nome, Gustavo parou de escrever por um instante: - Luís da Siqueira Velasque Júnior - gritou ele, ao lembrar de meu verdadeiro nome. - Gustavo Slick - retruquei, dizendo também seu nome completo. Gustavo e eu não nos víamos há aproximadamente treze anos, época em que completamos o terceiro colegial em Perúsia Grande. Ele era um grande amigo, sempre foi! Nos conhecemos aos onze anos de idade, por intermédio de nossos pais, que, por conincidência, também eram amigos. Nossa brincadeira preferia era pescar, nós adorávamos! Formávamos uma dupla dinâmica: eu conhecia os segredos de Gustavo e ele conhecia os meus. Mas, para minha surpresa ele falou de um assunto diferente: - Kall, lembra de quando brincávamos com os números? Nós gostávamos bastante. A velha brincadeira de acertar os números. Pois bem, eu lhe faço um desafio, agora: quais eram os meus números preferidos, os números que me fizeram ganhar na loteria? - Gustavo, não faço a menor idéia . Já faz muito tempo. - Você continua o mesmo de sempre, não mudou nada. Como anda a vida? - Vai bem. Resolvi o meu último caso, o qual envolveu a família Antunes, já há algum tempo e agora estou em lua-de-mel com minha mulher, Amanda. Nesse momento, Gustavo pediu para um garçom nos servir bebida. Amanda estava observando a lua, que, por ser tão bela, dava um show a parte. - E você Gustavo, o que tem feito? - Viajando pelo mundo e conhecendo as belezas que ele nos oferece. Atualmente, estou morando no Caribe. - E... como vão os negócios? – indaguei. - Estou investindo, comprei esse navio e também uma empresa que produz detergente. - Detergente? - Sim, esse é um bom negócio. A minha empresa é a terceira maior do setor e vamos expandir muito mais, até sermos a primeira. - Que bom, Gustavo, fico contente. Você merece tudo o que tem, e as mulheres, como vão? - Logo que você foi estudar na França, eu conheci Marisa, uma mulher linda, com olhos verdes e um metro e setenta de altura. Uma mulher incrível! Cheguei até a pensar que tinha encontrado a mulher de minha vida. Mas, com o tempo, ela mudou e começou a sustentar vícios incuráveis. Gustavo tinha tido várias mulheres na época de nossa adolescência, ele era o preferido delas. Sempre que havia um baile na escola, Gustavo era o primeiro a ser

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disputado pelas lindas colegiais de nossa escola. Ele adorava, principalmente, as loiras de olhos verdes. - Que triste, Gustavo, lamento muito – tentei consolá-lo. Meu amigo respirou fundo e continuou: - Mais tarde encontrei Camila, uma mulher não tão perfeita, mas dedicada e inteligente. É com ela que estou noivo há três anos. Eu resumo da seguinte forma: Camila não é ciumenta e eu também não sou. Essa é a minha história de amor. E você Kall, o que andou fazendo depois que foi para a França? A França foi e sempre será inesquecível para mim. Lá, estudei na FADEF, a Faculdade de Detetives da França, uma das mais conceituadas da Europa, e acumulei bastante experiência, a experiência necessária para ressolver casos complicados. Respondi a pergunta: - Depois, cursei uma outra faculdade, a Faculdade de Detetives de Washington, e acabei conhecendo o então desconhecido Sherlock Holmes. Não demorou muito para eu entrar na agência de detetives Sucess, uma das mais famosas do Estados Unidos. Quando adquiri um pouco de experiência fui convidado para resolver um caso juntamente com meu amigo Holmes. - E como foi trabalhar com o Sr. Holmes, Kall? - Foi muito produtivo. Com ele, acumulei técnicas e conhecimentos para solucionar os mais complicados mistérios. Sherlock sempre me dizia: “você precisa examinar tudo! Qualquer observação é importante! Não se comova com os depoimentos dos suspeitos”. Ele foi um verdadeiro mestre para mim. - Kall, o que você e Amanda estão achando da viagem? - Estamos gostando bastante, pois a experiência tem se mostrado muito interessante. - Contaram-me que você gostou do show de mágica do Grande Brenaltis. É verdade? - Sim, gostei muito, principalmente o truque mulher invisível. Nesse momento, Camila, a noiva de Gustavo, entrou no quarto. - Camila, quero lhe mostrar, ou melhor, apresentar um velho amigo meu. Gustavo nos apresentou e ela começou a conversar com minha mulher, que ainda estava na varanda, observando a magia da lua e se encantando cada vez mais. - Amanda, como é estar casada com alguém tão famoso como o Kall? - Ele é uma pessoa maravilhosa, um homem único. - Você está gostando da viagem? - Estou, Camila, está sendo uma cruzeiro maravilhoso.
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Gustavo continuava um verdadeiro amigo: atencioso, dedicado e companheiro. O enriquecimento não parecia ter influenciado em sua personalidade. Amanda e eu fomos para a nossa cabine com o objetivo de nos arrumar para o jantar, que seria servido às nove horas, no salão Holmier, localizado no primeiro andar do navio. Quando o relógio mostrava oito e quarenta e cinco, descemos e encontramos o salão bem decorado. O francês Rafael Benton sentou-se em nossa mesa: - Kall, nós iremos fazer alguma parada? - Sim, no porto de Panarama. Por quê? - Teremos tempo para conhecer as cidades que ficam ao redor do porto?

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- É claro! Teremos muito tempo para isso. - Chegaremos logo? - É bem provável. - Detetive, quanto tempo você vai ficar em Parja? - Não sei. Realmente, o Rafael não tinha lido os folhetos que informavam sobre a viagem à capital do estado de Lubus, mostrando-se pouco interessado no cruzeiro. Por que ele agiu dessa forma? Por que ele me perguntou sobre a parada no porto de Panarama? Por quê? O biólogo Gláucio se aproximou de nossa mesa e o francês se retirou. - Boa noite. O capitão Marco me disse que a Sra. gosta de plantas, é verdade? – perguntou ele. - Sente-se, por favor - disse Amanda, minha mulher. O tal biólogo aceitou o convite. - Eu adoro plantas, – disse ela, observando Gláucio - sempre gostei. Falei brevemente com o capitão, mas de qualquer forma fico contente que ele tenha conversado contigo. Soube que você descobriu a cura do vírus emoglion, como foi? - Esse fato aconteceu há algum tempo e se tornou uma grande descoberta. A melhor que já fiz em toda a minha carreira. - E como você fez essa descoberta?- perguntou Amanda, curiosa. - Estava fazendo os meus testes diários, quando resolvi misturar duas soluções que obtive. O resultado final foi um liquido transparente que impermeabiliza o vírus emoglion, sem causar dores ao portador da doença. - Amanda, você prefere qual tipo de plantas? - As que servem para a cura de doenças e você, Gláucio? - Gosto de todos os tipos. Amanda, gostaria de que você visitasse o meu mini laboratório, instalado na minha cabine. - Claro, seria uma honra. Quando posso ir? - Que tal amanhã de manhã? Começo a fazer experiências às sete horas. - Certo. Qual é a sua cabine? - A de número seis da segunda classe. - Estarei lá! Era incrível o interesse de minha mulher por plantas. Ela simplesmente adorava! Lembro-me de quando Amanda me pediu para cultivar algumas espécies em casa. Eu disse que tudo bem, afinal, elas iriam enfeitar e tornar o nosso quintal mais bonito.
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No término do primeiro dia de navegação, os passageiros comentavam a viagem. Na cabine de número seis da primeira classe, Sra. Shalom e Lucas conversavam: - Lucas, eu não sabia que Amanda era casada com o detetive Kall. - Eu também não, Sra. Shalom. O que achou dele? - Ele parece ser um bom homem, além disso é inteligente, bonito e educado. - Você está gostando da viagem? – perguntou o rapaz, mudando de assunto. - Sim, estou. O Transroca é um ótimo navio, pois oferece muito conforto e lazer. Esta sendo muito divertido, e você está gostando? - Claro, esta viagem é o sonho de qualquer recepcionista.

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- Lucas você não é qualquer recepcionista. E você sabe muito bem disso. - É verdade, Sra. Shalom. Perto das cabines quatro e cinco da segunda classe, o italiano Nicolas Pioli conversava com o francês Rafael Benton, um homem loiro, de um metro e setenta, que tendia a ser engraçado. - Nicolas, o que o Kall está fazendo nesse navio? - Nada de mais! Ele só está aproveitando a lua-de-mel. Por que a pergunta? - Por nada. - Vamos fechar o negócio, Nicolas? - Sim, Rafael, vamos sim! Tomara que ele dê certo. - Não tem como dar errado. - Eu espero que não. - Vou pegar os documentos. - Um brinde a esse acontecimento memorável, disse Nicolas, após assinar os papéis.
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A Sra. Ana Pontes e a Sra. Lívia Densher reuniram-se na porta de suas cabines, respectivamente as de números quatro e dois da primeira classe, uma de frente para a outra. - Lívia, o que achou do jantar? - Estava delicioso. E... você gostou? - Claro, quem não gostaria? - Ana, por que você não trouxe o seu filho? - Ele é muito novo, não iria aproveitar o cruzeiro. - Ele já tem quatorze anos – retrucou Lívia. - É, mas foi melhor ele ter ficado. - Claro, compreendo. - Lívia, mudando de assunto, o que você vai fazer amanhã? - O Transroca está oferecendo aulas de dança e vou frequentá-las, só para ver como é. E você? - Eu não sei ainda. - Vamos fazer juntas? Vai ser divertido. - Está bem, vamos sim.
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Amanda acordou às seis e meia e foi para a cabine do biólogo Gláucio. - Entre Amanda - exclamou ele. - Bom dia, Gláucio. - Bom dia, Amanda. Aproxime-se, eu estou cruzando duas soluções para dar procedimento á experiência. Minha mulher ficou observando os líquidos colocados em cima de uma mesa e o tal biólogo explicou minuciosamente os procedimentos que seriam adotados, apontando, ao mesmo tempo, para uma maleta de plantas que continha amostra de mais de quinhentas espécies. Amanda perguntou sobre o vírus emoglion e Gláucio fez mais alguns comentários

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sobre a sua descoberta, mostrando manchetes de jornais e revistas em que esse assunto foi abordado, inclusive a Science Time, uma consagrada revista norte-americana. - Amanda, - chamou o biólogo - esse livro é para você. Ele aborda todos os tipos de plantas usadas para a confecção de remédios. - Obrigada. - Você merece! Acho que terá um brilhante futuro se seguir uma profissão associada às plantas. Você pretende? - Não sei, a cada dia penso mais sobre o assunto, mas antes preciso me informar melhor. - Compreendo, Amanda. É muito importante o trabalho com plantas e, pelo jeito, é adequado a você. Ela acenou a cabeça, agradecendo, e ele propôs: - Vamos tomar o café-da-manhã? - Claro, vamos sim. Ambos foram ao salão Shilde, onde teriam uma refeição farta, com muitas frutas, pães e doces de diversos tipos. Encontrei-os sentados na mesma mesa. Sobre o que estariam conversando? Sobre plantas é claro, só poderiam falar delas. Sobre qual assunto eles conversariam se não fosse sobre plantas? - Bom dia, Amanda. Bom dia, Gláucio. - Bom dia, Kall - exclamaram ambos. O tal biólogo levantou-se cordialmente, provavelmente para voltar a sua cabine. - Como foi a conversa com o Gláucio? – perguntei. - Foi muito boa. Conversamos basicamente sobre plantas, sobre o vírus emoglion e sobre a carreira dele. Gláucio se formou na faculdade de Standart e fez estágios nos melhores laboratórios mundiais, por isso tem um bom conhecimento sobre plantas. Ela fez uma pequena pausa, respirou e prosseguiu: - Kall, ele disse que eu poderia ter uma boa carreira, se, por um acaso, seguisse alguma profissão ligada à plantas. - Amanda,você pretende? - Eu só estou pensando, ainda não tenho certeza.
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No corredor, Nicolas Pioli e o biólogo Gláucio conversavam: - Gláucio, é verdade que você está indo embora? - Estou. - Por quê? - Tenho coisas a fazer. - Onde? - Em Panarama. - O quê, por exemplo? - Nada de interessante. - Gláucio, você pode fazê-las no navio, eu peço que fique. - Por que você quer que eu fique? - Gláucio, você parece ser uma pessoa confiável. Queria poder conhecê-lo melhor. Só isso! - Infelizmente, a minha decisão é definitiva. - Gláucio, por que você vai abandonar o navio, justamente agora?

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- Já disse, tenho coisas a fazer. - Tudo bem, só peço que pense na hipótese de continuar a viagem. - Pensarei! – concluiu o biólogo.
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Poucas horas depois, o capitão Marco fez um pronunciamento que pôde ser ouvido de qualquer parte do navio, já que ele oferecia uma boa acústica: - Passageiros, dentro de dez minutos, vamos iniciar o desembarque no porto de Panarama, onde ficaremos aportados até às duas da tarde. Bom divertimento a todos. Iniciamos a decida do Transroca e em poucos minutos já estávamos no porto de Panarama, um local movimentado, devido a uma grande quantidade de navios. O Transroca organizou passeios coletivos para conhecermos as cidades de perto do porto e para visitarmos uma aldeia de pescadores. Após conhecê-la, entramos numa sorveteria, a sensação entre os habitantes de uma outra cidade, que tinha, segundo o último senso, menos de dois mil habitantes. No balcão da sorveteria, o tal biólogo Gláucio dirigiu-se à balconista: - Por favor, onde posso comprar açúcar? - Aqui!- exclamou ela, com entusiamo. Hum.... O biólogo estava parecendo uma formiga, uma formiga que não dispensa um açúcar (risos). Talvez ele fosse comer o alimento ou talvez fosse usá-lo em algum experimento. Só Deus sabe! Depois de um dia divertido, voltamos ao Transroca. Mais tarde, Amanda foi fazer uma aula de ginástica e eu fui fazer tênis, apesar de não ter alguma prática.

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Lenda interessante
Completaríamos um dia de viagem para Parja, uma cidade localizada na parte ocidental do estado de Lubus e que encanta a todos por sua beleza e magia. Ela é conhecida por suas praias e por lendas nativas, além dos verões quentes e secos. No dia de hoje, o tal biólogo, de nome Gláucio, iria fazer uma apresentação sobre as histórias e características de Parja. - Bom dia senhores. A pedido do capitão Marco, vou dar uma palestra sobre o nosso destino, a cidade de Parja. Ele começou: - Bem, Parja é uma cidade de colonização açoriana, surgiu em torno de ... O biólogo falou por vários minutos sobre a vegetação, o clima e as belezas naturais da capital do estado de Lubus, revelando, mais tarde, um pouco sobre as lendas dessa cidade: - Há muitos anos, antes da colonização no século XVII, Parja ainda era habitada por índios, precisamente os Iakimilis. Segundo estudiosos, existia também um espectro que detinha forças estranhas e que era responsável pela segurança da ilha. - Um espectro? - exclamou Sra. Shalom, surpresa. - Sim. - continuou o tal biólogo - Contam ainda que esse espectro expulsou os espanhóis, quando esses tentaram invadir a ilha de Parja. - Eu acho que o biólogo está influenciado por Shakespeare! – ironizou Nicolas Pioli. - Eu também acho, ele deve ter lido Hamelet. Só falta o Gláucio dizer que esse espectro morava num castelo – concordou Rafael Benton, quase rindo. - Deixe ele continuar. Parem de caçoá-lo - disse Lucas, concentrado nas histórias de Gláucio. - Bem. Esse espectro era idolatrado pelos índios, que habitavam a ilha....- prosseguiu o biólogo. - E o que aconteceu com o espectro? - perguntou Ana Pontes - Depois da construção da ponte Hercilino Lua, principal cartão-postal da cidade, o espectro se foi. E agora está vagando sem destino... - Você acredita nesta lenda?- perguntou Sra. Lívia Densher. - Esta lenda me foi contada por estudiosos. Pessoalmente, eu não acredito - respondeu ele. - Por que nos conta então? – questionou o italiano Nicolas. - Porque o capitão Marco me pediu para dar uma palestra. Achei essa história interessante e, por isso, estou relatando. - E o que aconteceu aos índios Iakimilis? – indagou o italiano Nicolas Pioli. - Segundo os estudiosos, os índios, em função do tempo, sofreram mutações e hoje em dia são bem parecidos com nós, os homens brancos. - Índio parecido com homem branco! Isso quer dizer que qualquer um de nós, pode ser índio? – perguntou Nicolas, assustado. - Segundo os estudiosos, isso é bem provável - concluiu Gláucio. Realmente, tinha sido uma palestra interessante. Não que tenha sido a melhor que já ouvi, mas, pelo menos, pude conhecer um pouco mais sobre a capital do estado de Lubus.

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Sobre sua vegetação, praias, costumes típicos, sobre uma estranha lenda e sobre um espectro... Ah! Um espectro. Seria verdade toda essa história? Seria?
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Os passageiros conversavam sobre a apresentação de Gláucio e sobre outros assuntos. O dono do navio Transroca falava com sua noiva Camila: - Gustavo, foi muito interessante a palestra. O Gláucio tem um bom conhecimento sobre Parja. - É verdade, ele é muito bom. - Meu querido, quando a gente vai se casar? – perguntou ela, mudando totalmente de assunto. - Não sei, por que essa pergunta agora? Por que a pressa? - Eu estava pensando se não seria bom a gente se casar aqui no navio. - Não sei, acho que não seria uma boa idéia. - Por que não? - Camila, vamos discutir isso depois, tudo bem? - Depois, quando? - Não sei, quando eu tiver tempo.
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O mágico Brenaltis queria aperfeiçoar o truque mulher invisível e foi ao encontro de sua assistente: - Perfeito. Um espectro! Sheila tive uma idéia. - Qual, Brenaltis? - O Gláucio falou sobre um espectro em sua palestra. Você lembra? - Claro, como esqueceria? Mas, onde você quer chegar com isso? - Bem, poderíamos usar essa informação para melhorar o truque mulher invisível. - Nem pensar, não vamos fazer isso. - Por que Sheila? Você acredita mesmo em espectro? - Acredito sim e, pelo que o biólogo disse, esse espectro pode estar em qualquer lugar, até dentro do navio. - Isso é besteira, é apenas uma lenda! - Mas, eu acredito - encerrou Sheila, com um tom de voz firme.
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Sra. Shalom e Lucas mostravam-se impressionados com a palestra: - Um espectro. Que incrível – pronunciou Sra. Shalom. - Você acreditou nessa história? - Claro, por que não acreditar? Mas Lucas, você acha que a Amanda descobriu alguma coisa quando foi à pensão? - Eu acho que não, por que essa pergunta? - Só por curiosidade. De repente, ela pode ter notado alguma coisa. - Eu acho que não, de qualquer forma é melhor a gente se aproximar dela.

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- Eu também acho. - Mudando de assunto, Sra. Shalom, você está sabendo do baile? - Que baile? - O baile à fantasia que vai acontecer em breve. - Que bom, eu não sabia. Vamos? - É claro que sim, não perderia por nada.
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Sra. Ana Pontes e Sra. Lívia Densher conversavam no bar. O navio balançava um pouco, mas nada que tornasse a viagem desconfortável. - O que achou da palestra, Ana? - Achei muito instrutiva. Agora, eu estou começando a gostar da viagem. Se você não pedisse, eu não teria vindo, você sabe disso, não sabe? - É, eu me lembro, mas eu sabia que você ia acabar gostando. -Realmente, você tinha razão. Prestei atenção em cada detalhe da palestra e fiquei encantada com a cidade. - Ana , será que o Kall está no navio para nos proteger? - Pode ser, Lívia, é bem provável. Ele provou ser um bom detetive ao resolver o seu último caso, aquele que envolveu a família Antunes. Você acompanhou esse mistério? - Não, eu estava viajando ao exterior, como foi? - O caso, conhecido como Enigmas e Passaportes, recebeu destaque em vários jornais. Ele aconteceu numa pequena cidade e foi considerado de difícil resolução por profissionais especializados. Não lembro muito bem dos detalhes.
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Nicolas Pioli estava na proa do Transroca, comentando com Rafael Benton a discussão que teve com o Gláucio. - Nicolas, porque você discordou do biólogo? - Eu não discordei, apenas emiti a minha opinião. Ele me irritou profundamente com aquela história de espectro.Gláucio tem muita imaginação para inventar uma coisa daquelas. - Pode ser, mas você levou aquela história para o lado pessoal. Não devia ter feito isso. - Por que não? - É que as pessoas podem achar que você tem alguma coisa contra aquele biólogo. Você tem? - Claro que não! - Nicolas, esse fato também pode influenciar na sua carreira. Você acha que alguém vai querer vê-lo no cinema depois disso? - Não seja radical, Rafael, aquilo que aconteceu não vai me prejudicar. Eu só expressei a minha opinião sobre aquela história. Infelizmente, ela foi contrária a do biólogo. - Pode ser, mas muita gente não pensa assim. Pensam que foi intriga sua. - Rafael, por que você acha que eu teria uma intriga com o biólogo? - Não sei. Teria? - Eu já disse que não tenho nada contra ele.

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Eram nove horas da noite. O segundo jantar do cruzeiro seria servido nesse momento. O capitão Marco foi ao palco para fazer mais um pronunciamento, um pronunciamento mais longo e mais interessante do que o primeiro: - Boa noite, senhores. O nosso dia de navegação foi um sucesso e já estamos a uma boa distância de Parja. No entanto, segundo a marinha brasileira, poderemos encontrar fortes ventos e até mesmo uma tempestade nos próximos dias de navegação. Mas, fiquem tranqüilos, nosso navio Transroca está equipado com a máxima segurança. Bom, agora o nosso companheiro Osmar, homem encarregado da programação do Transroca, quer dizer algo. Uma tempestade? Esta não! Não era uma bom sinal. Seria o fim do cruzeiro? Uma tempeste poderia estragar tudo. Ela realmente não seria bem-vinda. O jovem Osmar, um homem magro e estatura mediana foi ao palco: - Boa noite. Espero que vocês estejam gostando da programação do navio. Ela foi preparada especialmente para vocês. Amanhã, teremos campeonato de ping-pong, dardo e tiro ao prato. Além, é claro, do sensacional baile à fantasia. Portanto, divirtam-se! Eu até seguiria o conselho do Osmar, se não fosse a vinda de uma possível tempestade. Uma tempestade? Eu odeio tempestades! - Kall, - exclamou Amanda - nós iremos a esse baile à fantasia? - Claro querida, por que não iríamos? - Mas, nós esquecemos de trazer as fantasias. - Posso pedir ao Gustavo. - Claro! Seria ótimo se ele emprestasse. - Irei falar com ele amanhã. Nesse momento, o tal biólogo sentou-se em nossa mesa. - Parabéns pela palestra, estava realmente muito interessante - exclamou Amanda. - Obrigado, mas teria sido melhor se o italiano não tivesse atrapalhado. - Você sabe por que ele começou a fazer aquelas brincadeiras? – perguntei, curioso. - Kall, é isso que eu gostaria de saber. Não fiz nada a ele, realmente eu não sei porque Nicolas fez aquilo. Mas me digam, vocês vão ao baile à fantasia? - Acho que sim. - disse Amanda - Mas nós não trouxemos as fantasias. O Kall vai ver se o Gustavo pode nos emprestar. - Amanda, – exclamou o tal biólogo - se vocês quiserem eu tenho uma fantasia. Posso emprestá-la a vocês. - Mas você não vai ao baile? - perguntou minha mulher. - Não, eu não gosto de festas. Eu deixo a roupa com vocês. - Obrigado, Gláucio - exclamou Amanda, com um ar de felicidade. - Vocês podem pegá-la comigo amanhã de manhã, quando estarei fazendo experiências. É só ir até a minha cabine e pegar a roupa. Kall, se você quiser visitar o meu laboratório, ficarei honrado. - Eu tenho que procurar o Gustavo. Deixarei a ida ao seu laboratório para uma próxima oportunidade. - Certo, e você Amanda? - Irei com o maior prazer, Gláucio. Às sete horas da manhã? - Claro Amanda, estarei esperando-a - concluiu o biólogo.

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No dia seguinte, pontualmente às sete horas da manhã, minha mulher foi a cabine de Gláucio e eu fui ao encontro de Gustavo para conseguir mais uma fantasia para o baile. - Amanda, a maioria dos detergentes são iguais e possuem a mesma fórmula. Estou fabricando algo inovador, você vai ver - relatou Gláucio. - Impressionante. Esse detergente já é conhecido por algum fabicante ou alguma empresa? - Não, ainda não. Estou terminando a fórmula. Devo conclui-la hoje. - Como esse detergente vai se chamar? - Inicialmente de Struss. - Por que Struss? - Ele é a base de......e isento de..... - Ah!

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Sangue no navio
A minha mulher Amanda saiu da cabine do tal biólogo e o deixou à vontade para que ele realizasse novos testes. Até que: - Eureca! - gritava ele, empolgado com se tivesse encontrado uma fórmula nova. Seria essa a descoberta do mês, do ano, da década, do século ou do milênio? Se sim, o tal biólogo teria o nome citado em todos os veículos de comunicação e com certeza seria mais conhecido do que nunca. Nesse momento, a fama parecia fazer parte do destino dele. Até que... De repente, ouvi-se um barulho na porta. O tal biólogo abriu e, imediatamente, foi surpreendido com uma facada no coração e, em seguida, com mais outra. Ele sangrava muito, já estava morto, antes de levar uma terceira e última facada. O quarto foi totalmente revirado. O assassino estaria atrás de alguma coisa?
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Mais tarde, a morte de Gláucio era o principal assunto do Transroca. Nicolas Pioli e Rafael Benton estavam tomando o desjejum: - Soube da tagédia, Nicolas? - Não, o que aconteceu? - O biólogo, aquele que deu uma palestra sobre Parja, morreu hoje de manhã. - Sério? - murmurou Nicolas, surpreso. - Sério, encontraram o corpo agora pouco. - Quem o encontrou? - Não sei, por quê? - Curiosidade. Já sabem como ele morreu? - Ainda não, não examinaram o corpo.
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Sra. Shalom andava pelo quarto, conversando com Lucas: - Que coisa horrível! - exclamou ela – Gáucio era tão jovem para ter esse fim. - Realmente, ele era uma boa pessoa, pena que se foi - disse Lucas, aterrorizado. - Nossa viagem vai ser interrompida por causa disso? - Acredito que não, Sra. Shalom. - Não será mais a mesma, não é? - É verdade, mas, aos poucos, iremos superar isso. - Sra. Shalom, o que você fará hoje? - Não sei, ainda não decidi. E você? -Hum.... Ainda estou refletindo a respeito.
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Lívia Densher mostrava-se muito aflita e desabafou com Ana Pontes: - Pela segunda vez! Só acontece isso comigo.

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- Calma , Lívia, aquilo já é passado. Viva o presente e aproveite a vida. - Viver o presente? Como? Faz muitos anos que eu não consigo tirar férias tranquilas. - É verdade, mas tente relaxar, pois você está muito traumatizada. Eu sei que é péssimo viver esse acontecimento novamente, no entanto, pense num fator positivo. Pense que ele não aconteceu com você. - É verdade, foi menos ruim dessa vez. - É melhor você dormir um pouco – aconselhou Ana. - Tem razão, eu estou um pouco nervosa e preciso relaxar.
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O Mágico Brenaltis acabava de receber um comunicado: - Brenaltis, disseram-me – pronunciou Sheila, sua assistente - que você dará um novo show. - Um novo show? Quando? - No baile à fantasia. - No baile à fantasia? - Isso, mesmo. Eles querem um truque novo e nós não temos muito tempo. - Eles quem? - O público. - Certo, podemos incorporar o espectro para aperfeiçoar o truque mulher invisível. O que você acha? - Não, eu já disse que não vou fazê-lo. - Tudo bem, então me dê uma sugestão. - Eu não tenho agora, mas podemos encontrá-la. - Já sei, podemos usar a morte de Gláucio. - Você ficou louco? - Não, olhe só, podemos.... – o mágico começou a descrever os detalhes.
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Na cabine de Gustavo, o dono do navio Transroca: - Pode entrar, capitão Marco, temos muito o que conversar - disse Gustavo, um pouco nervoso e com as mãos tremendo. - Claro! Eu compreendo - concordou o homem. - Você já tem idéia do que aconteceu, certo? Pois bem, temos que tomar providências rápidas e urgentes. - Gustavo, o melhor a fazer é contratar um detetive. Mas quem? – perguntou Marco, preocupado. - Já sei. Kall! – exclamou o dono do navio, um tanto afoito. - Kall? Ele está em lua-de-mel. - Eu sei, mas não me custa tentar contratá-lo. Capitão, você pode pedir para Osmar, vir até aqui? - Farei isso, depois a gente continua a conversa. - Osmar. - exclamou Gustavo - Preciso de um favor simples. - Sim, mas qual? - Quero que você peça para o Kall vir até aqui.

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- Só isso? - Quero que ninguém saiba que ele vem. Ninguém! Entendeu? Cuide disso para mim. - Cuidarei.
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Amanda conversava com Camila, noiva de Gustavo. Elas pareciam velhas amigas: - Camila, tenho um pressentimento. - Qual, Amanda? - Acho que Kall será contratado como detetive para solucionar a morte do biólogo. - Pode ser, mas por que você acha isso? - Kall é o único detetive que está no navio e, além do mais, tem muita experiência. - É bem provável, mas, você acha que ele irá aceitar o caso? - Acho que sim, só ele pode solucionar! - É verdade. Kall é um bom detetive, na verdade, o melhor que conheço.
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Camila foi dar uma volta pelo navio e Amanda voltou para a nossa cabine. - Minha mulher, Osmar acabou de passar aqui e me disse que Gustavo deseja falar comigo. - Ele vai querer contratá-lo para desvendar do biólogo – afirmou minha mulher. - É, provavelmente. - A que horas você vai encontrá-lo? - Antes do almoço. - Amanda, gostaria de saber a sua opinião. - Kall, faça o que você acha que tem de ser feito.
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Conforme o combinado, fui até a cabine de Gustavo: - Kall, vou direto ao assunto. Você já está sabendo da morte do biólogo Gláucio. Pois bem, quero contratá-lo para resolver esse caso. É claro, se você concordar, o que acha? - Sinto muito, Gustavo. Estou em férias, na verdade, em lua-de-mel. Demorei muitos anos para viver esse momento e quero aproveitar todos os segundos dele. - Mas, meu amigo, você é o único que pode me ajudar e, além disso, a morte de Gláucio não pode ficar sem alguma solução. - Gustavo, eu estou em lua-de-mel – insisti. - Nós somos velhos amigos, estou pedindo-lhe um favor, nunca pedi antes. - Gustavo, vamos encerrar essa conversa. Tudo bem, eu aceito o caso. Contente? - Obrigado, Kall, não sei como lhe agradecer. - Quero interrogar a todos os suspeitos antes do baile à fantasia, quero um mapa do navio, com as cabines, casa de máquina e sala de comandos, e quero também os documentos, com dia e hora que cada passageiro fez a reserva. Entendido? - Claro, providenciarei tudo. Quando você quer começar a interrogar os passageiros? - Dentro de meia hora. Quero o salão do café-da-manhã fechado. Só entra quem eu

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autorizar. - Quem você quer interrogar primeiro? - Quem encontrou o corpo? - Osmar. - Certo, começarei por ele. - Tudo bem, Osmar estará no salão do café-da-manhã dentro de meia hora. - Bom, o restante chamarei quando tiver o mapa das cabines. - Certo, até mais tarde e muito obrigado – disse Gustavo.
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Já em minha cabine, Amanda perguntou: - Kall, você aceitou o caso, não foi? - Aceitei, não pude negar o pedido de um velho amigo. - Eu entendo, você fez o que achou certo. - Claro, Amanda, a morte de Gláucio não pode ficar sem solução. - Quando você vai começar a desvendá-la? - Dentro de quinze minutos. Vou tomar primeiro o depoimento de Osmar, já que foi ele quem achou o corpo. - Boa sorte, Kall. Nesse instante, mais um Até Que... veio em minha mente. O primeiro foi quando Amanda, minha mulher, e Marquês, um velho amigo meu, começaram a ter ciúmes. Agora, era um Até Que... diferente. Mais chato e irritante do que o primeiro. As minhas férias estavam boas e divertidas Até Que... um tal biólogo morreu e eu, o único detetive do navio Transroca, aceitei a desvendar o caso.

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Começando a investigar
Fui ao Hilde, o salão do café-da-manhã, para me encontrar com Osmar. Ele estava sentado num dos bancos e ao me ver ofereceu um drinque. Recusei, olhei ao redor e percebi que o ambiente estava muito limpo, limpo até demais. Não havia sinais de que nesse local seria realizado um baile. Notei, nesse momento, que o evento teria sido transferido de salão para que eu pudesse conduzir as investigações. Osmar estava um pouco nervoso com a minha presença: - Eu não o matei. Eu juro! - Calma, meu rapaz. Comecei a fazer as perguntas de rotina, perguntas, que embora fossem tolas, mereciam ser formuladas, pois podiam revelar pistas interessantes. Esse foi mais um ensinamento de meu mestre Sherlock Holmes. - Qual é o seu nome completo? - Osmar Mentona. - Há quanto tempo trabalha para Gustavo? - Há muitos anos. - Conhecia a vítima? - Só de nome, nunca falei com ele pessoalmente, pois não o conhecia. Eu não o matei, eu juro! - Calma, ninguém está acusando-o. Só estou apenas colhendo algumas informações. Há que horas encontrou o corpo? - Às oito e meia da manhã, acho que era isso. - Como estava o quarto? Algo chamou sua atenção? - Estava revirado. - O que você foi fazer no quarto do biólogo? - Ele me chamou e eu fui ver o que Gláucio desejava. - O biólogo adiantou qual seria o assunto? - Não. - Foi a primeira vez que ele o chamou? - É, foi a primeira. - O que você encontrou quando entrou no quarto? - Uma cena horrível. Gláucio estava caído no chão de costas com dois furos de facada no coração e mais um de raspão. Acho que era isso. - Certo, Osmar, gostaria de ver o quarto de Gláucio e depois, imediatamente, o corpo. - Claro, Kall. O corpo está num freezer, um freezer grande que temos no porão do Transroca. Achei que seria prudente colocá-lo lá. Mas, o quarto continua do jeito que eu encontrei. Não tirei nada do lugar! - Só mais uma pergunta: Osmar, seu quarto é o de número dois da segunda classe, certo? – perguntei, olhando no mapa do navio Transroca. - Certo, é esse mesmo. - Ele é bem perto do quarto de Gláucio, não é? - Mais ou menos, o de Gláucio era o seis, também da segunda classe.

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- Eu pergunto: Osmar, você escutou algum barulho? - Não Kall, não escutei nada. Infelizmente, não escutei. - Você estava onde na hora do crime? - Na minha cabine, preparando a programação de hoje. Estava quase terminando quando Gláucio me chamou. - E qual é a programação de hoje? – tentei descontraí-lo. - O baile à fantasia será o principal evento, mas temos também...... O pânico inicial de Osmar era muito, mas muito estranho. Ele parecia um pássaro sem pena, quer dizer, sem asa (risos).
*

Fui ao quarto do tal biólogo assassinado. O ambiente estava todo revirado, com livros e revistas jogados no chão, roupas esparramadas e vidros quebrados por todo lado. Parecia uma cena de filme! Um filme de mistério, no qual um detetive altamente qualificado tem que solucionar algum crime. Mas, o que eu via era real e, além disso, eu era o detetive encarregado de buscar uma solução. Apanhei um livro que estava perto da cama do biólogo e resolvi folheá-lo. Era muito grande, um verdadeiro almanaque que trazia textos sobre as principais plantas medicinais. Estava intacto! Nenhuma folha tinha sido arrancada. Observei um outro, intitulado A vida das plantas, e encontrei uma página dobrada. Abri e achei uma foto, um belo retrato da portuguesa Ana Pontes. Uma foto de Ana Pontes! Hum.... Que foto! Eu aposto R$ 50 como ela não veio parar aqui sozinha. Quer apostar? O retrato tinha uma dedicatória, uma dedicatoria que poderia solucionar uma dúvida, uma dúvida cruel: “Com amor para Gláucio”. Com amor? Duas hipóteses surgiram: talvez eles fossem amantes ou talvez fossem namorados. Ao fundo do retrato estava a pensão Shalom, local onde meu amigo Marquês ficou hospedado. A Sra. Ana Pontes teria passado férias lá ou ela teria sido dona do local? Sei lá, vai saber! Guardei a foto no bolso, afinal poderia ser uma pista. Será que o assassino estava procurando esse retrato quando revirou o quarto do biólogo? O cheiro do cadáver de Gláucio ainda estava no ar e o sangue dele podia ser facilmente identificado no chão da cabine. No quarto, só havia duas impressões digitais: as de Osmar, o homem que encontrou o corpo, e as minhas, o homem que estava tentando achar o assasssino. Isso é óbvio! O assassino não seria idiota a ponto de deixar suas marcas. A porta da cabine mostrava-se intacta, não havia qualquer sinal de arrombamento. Como o assassino teria entrado? Ele só poderia ter feito isso se conhecesse muito bem a vítima, somente com essa condição é que o tal biólogo abriria a porta. Mas, talvez o tal biólogo não precisasse fazer isso, talvez a porta já estivesse aberta. Não a porta principal, mas sim uma outra, a que servia de ligação para a cabine ao lado, a cabine de Rafael Benton. Coloquei a mão na maçaneta e constatei que ela realmente estava aberta. Por quê? O Rafael conhecia o morto? Anotei o nome dele num pedaço de papel, pois o rapaz teria que me dar uma boa explicação. Osmar levou-me para ver o corpo de Gláucio. O homem havia sido brutalmente assassinado, com duas facadas no coração e mais uma de raspão. Quem poderia ter feito isso? Quem? E por quê? Por que teriam matado um biólogo?
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Voltei ao restaurante do café-da-manhã, que estava fechado para interrogatório, e pedi para chamarem Rafael Benton. O francês rapidamente sentou-se numa mesa à direita do bar. O depoimento dele seria útil, útil para pelo menos esclarecer porque a porta de ligação estava aberta. - Rafael Benton - disse ele ao ouvir a minha primeira pergunta. - Conhecia a vítima? - Não. - Mas, eu vi você conversar com Gláucio na noite passada. O que foi aquilo? – indaguei. - É verdade. Só conversei com ele uma vez. - E qual foi o assunto? - Nada demais, apenas conversamos sobre a carreira dele. - Fui ao quarto de Gláucio e verifiquei a porta de ligação de vocês estava aberta. Você sabia disso? - Não, não sabia. Ele deve tê-la aberto. - Gláucio tinha a chave? - Não sei, ele era muito estranho. - Estranho! Como assim? - O biólogo fazia experiências a bordo de um navio. Você acha isso normal? - Rafael, você me disse que não sabia da porta de ligação. Certo? - Certo. - Pois bem, de acordo com as regras do Transroca, a chave dela só pode ser retirada na recepção com a autorização dos dois hospedes vizinhos. Como você explica isso? - Kall, eu já disse e repito: eu não sabia que essa porta estava aberta. - Onde você trabalha? - Sou vendedor de imóvel. - Há quanto tempo? - Cinco anos. - Você escutou algum barulho no quarto de Gláucio? - Não, por quê? - Ele levou uma facada de raspão, provavelmente, porque tentou reagir. Deve ter gritado antes de levar as duas facadas no coração, você não acha? - Acho, seria natural que ele gritasse. - Mas, você não escutou nada, não é mesmo? - Não, eu não escutei nada. - Onde esteve na hora do crime? - Dormindo - E você não ouviu gritos? - Não, já disse que não. Meu sono é pesado, muito pesado. Sono pesado? Que meigo! Ele realmente deve dormir como um leão (risos). O francês parecia esconder algo, alguma coisa me dizia isso. E a porta de ligação? Segundo Osmar, o homem responsável pela programação do Transroca, ela somente pode ser destrancada com a autorização dos dois hospedes vizinhos. Rafael poderia ter me dado uma explicação mais convincente.

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O italiano Nicolas Pioli, que discutiu com o Gláucio durante a palestra, foi o próximo a depor. Ele teria que me falar sobre o espectro e sobre alguns outros fatos que, embora de menor importância, tomaram um grande tempo de nossa conversa. - Por que você ficou irritado quando o biólogo comentou sobre a possível existência de um espectro? - Eu não acredito nisso, trata-se de uma besteira, uma grande besteira! Histórias desse tipo são inventadas e, consequentemente, não existem. - Você conhece Rafael Benton? - Não, por quê? Deveria? - É que vocês reservaram cabines no mesmo dia e hora, e ainda escolheram quartos bem próximos. Por um minuto, pensei que fossem amigos - comentei, analisando os documentos de reserva de cabines do navio Transroca, que me foram fornecidos pelo Gustavo. - Foi coincidência, pura coincidência. Eu não o conheço, não o conheço. Eu juro! - Tem certeza? - Claro que sim, confie em mim. Se você confiar, eu posso ajudá-lo nessa investigação. - Pode? Como? Você sabe quem matou Gláucio? – perguntei surpreso. - Claro que sei, foi o tal espectro. O biólogo disse que ele poderia estar vagando pelo navio. Pois bem, foi o espectro quem cometeu o assassinato. Kall, eu falo a verdade, você pode acreditar. - Nicolas, você trabalha em quê? - Sou um ator de cinema italiano. - Já fez filmes sobre espectro? - Não, por quê? – ele respondeu, surpreso. - Curiosidade. Você me disse que não acredita em espectro. Por que acha que ele matou Gláucio? - Intuição, uma grande intuição. Posso assegurar-lhe que foi o espectro quem matou Gláucio. - Que motivos ele teria? - Não sei, vai ver que ele não gostou da palestra do Gláucio – disse o italiano, ironicamente. - E você estava onde quando Gláucio morreu? - Andando pelo navio. - Tem esse costume? - Não. - E porque foi andar na hora em que Gláucio morreu? - Tive vontade. - Conhecia a vítima? - Não. - Conversou alguma vez com ele? - Só uma. - Qual foi o assunto? - Pedi para a ele não ir embora. - Por que fez isso? - Queria conhecê-lo melhor. Gláucio era uma boa pessoa, tínhamos muita coisa para conversar. - Sobre o quê, Nicolas?

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- Sobre sua carreira. Percebi que a carreira era a vida dele. - E ele queria sair do navio? - Queria ter ficado no porto de Panarama. - Para fazer o quê? - Não sei, ele disse que tinha algumas coisas a fazer. - Depois que ele decidiu ficar no navio, vocês voltaram a conversar? - Algumas vezes. - Nicolas, então por que você disse que não o conhecia? - Kall, por um simples motivo: para conhecer uma pessoa, preciso conviver muito tempo com ela, conhecer os hábitos dela e saber do que ela é capaz. Conversei poucas vezes com o Gláucio, por isso, faço questão de repetir: eu não o conhecia! - E como ele era? - Era uma boa pessoa, que gostava de fazer descobertas e de viver a própria vida. - A própria vida? – exclamei, curioso. - Sim, ele ficava horas do dia fazendo experiência e gostava do que fazia. Tenho a certeza de que ele gostava de viver. - Nicolas, você me disse que não o conhecia, como afirma que Gláucio gostava do que fazia? - Gláucio sempre se mostrou muito alegre, gentil e simpático. Um homem predestinado a realizar novas experiências a todo instante e uma pessoa talentosa e humilde, qualidades fundamentais para se constituir uma boa carreira. Você não acha, Kall? - O que você sabe mais sobre o biólogo? – perguntei, sem respondê-lo. - Nada, apenas o que eu lhe contei. Eu já disse e repito: convivi poucos dias com Gláucio, tempo insuficiente para se conhecer realmente uma pessoa. - Então por que você afirmou que ele gostava de viver? - Parecia que ele gostava. - Como assim, parecia? - Não sei, Kall! De repente, o tal biólogo sentiu uma imensa vontade de ficar no porto de Panarama. Muito estranho! Por que o Nicolas Pioli pediu que ele não ficasse? Qual seria a verdade? Eu tinha que descobri-la o mais rápido possível.
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Após darem o depoimento, Nicolas Pioli e Rafael Benton comentavam a atuação de Kall: - Rafael, tenho a certeza de que o detetive já sabe que nós nos conhecemos. - Como? - Ele descobriu que fizemos as reservas no mesmo dia. - Como Kall soube disso? - Ele tinha os documentos de reserva das cabines. - Certo, Nicolas, o melhor que temos a fazer é esquecer isso. O que um simples fato como esse poderia alterar as investigações? - Em nada, você tem toda razão. O que ele te perguntou? - O detetive fez somente algumas perguntas de rotina, nada demais. Rafael, você arriscaria um palpite sobre quem é o assassino?

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- Não, e você arriscaria? - Sim, o assassino de Gláucio é o espectro. - Espectro? - exclamou Rafael, um pouco surpreso. - Sim, não há dúvidas, foi o espectro. - E por que o espectro mataria o biólogo? - Porque ele não mataria? – perguntou o italiano, ironicamente
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Depois, interroguei o mágico, o grande Brenaltis, o homem do truque mulher invisível. Decidi fazer a ele apenas umas perguntas de rotina com o objetivo de montar uma ficha detalhada sobre o misterioso e inteligente mágico. - Meu nome é Ledem Brenaltis. - Há quanto tempo trabalha com mágica? - Dez anos. - E como mágico no navio Transroca? - Há quatro anos, pois antes eu trabalhei em vários circos, circos famosos. - Em quais cidades? - Trabalhei em muitas, não saberia dizer quais, foram realmente inúmeras. - O truque mulher invisível tem alguma coisa a ver com o espectro citado por Gláucio na palestra sobre Parja? - Claro que não, não tem nada a ver. O truque já existe há muito tempo. - Brenaltis, como surgiu o mulher invisível? - Eu não sei, foi de repente, muito de repente. - O que você estava fazendo quando o biólogo morreu? - Aperfeiçoando o truque. - O que ele vai ter de novo? - Ainda não sei, estou fazendo testes, apenas testes. O truque mulher invisível surgiu de repente! Essa não, só poderia ser uma piada. Por que ele não me contou sobre a origem desse número mágico? O que estava acontecendo? Todos os passageiros, até agora interrogados, pareciam estar escondendo algo. Onde estaria a verdade?
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O mágico Brenaltis falou com sua assistente Sheila sobre o depoimento. - Como foi, Brenaltis? - Foi tudo bem. - O que Kall queria saber? - Ele perguntou o meu nome completo, quanto tempo eu trabalho com mágica, quanto tempo eu trabalho no Transroca. Perguntas desse gênero, perguntas fáceis de se responder. - Ele perguntou sobre o truque mulher invisível? - Perguntou, claro que perguntou. Kall queria saber se esse truque estava relacionado com o espectro citado por Gláucio. - E o que você disse? - Que não tinha nada a ver.

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- Ele perguntou onde você trabalhou antes? - Perguntou, e eu disse que não saberia informar.
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Comecei a chamar os passageiros da primeira classe. Iniciei pela Sra. Lívia Densher. Estávamos na parte da tarde e o Transroca navegava para, em poucas horas, completar mais um dia de viagem rumo ao sul do Brasil. A Sra. Lívia tinha algumas coisas para me esclarecer, algumas coisas que ainda estavam muito estranhas. - Quantos anos? - Trinta e cinco. - Sra. Densher, trabalha em quê? - Exportação - De qual tipo de produto? - Detergente. - Há quanto tempo você trabalha com ele? - Sempre trabalhei. - A Sra. já viajou outras vezes de navio? - Não. - Tem certeza? - Claro que tenho, por quê? - É que no dia em que embarcamos no navio Transroca a Sra. foi cumprimentada por todos os empregados e até mesmo pelo capitão Marco. Por um minuto, pensei que a Sra. já tivesse viajado nesse navio – disse, lembrando-me de alguns fatos que ocorreram quando Amanda e eu entramos no Transroca. - Não, nunca fiz isso. - Então porque você disse “a mesma de sempre” quando, no dia do embarque, Osmar lhe perguntou qual era o número de sua cabine? – questionei, precionando-a para que ela revelasse a verdade. - Isso é uma calúnia, uma acusação grave e um tremendo absurdo. - Tem certeza? - Claro que tenho. Detergente? A Sra. Lívia Densher trabalhava com exportação de detergente! O Gustavo, dono do Transroca, também comercializava esse produto. Lembro-me quando ele disse que sua empresa era a terceira do setor, mas que em breve seria a primeira. Quem falta trabalhar com detergente? Quem? A Sra. Ana Pontes foi a próxima a depor e teria que me falar sobre aquela foto que eu encontrei num dos livros do tal biólogo. Aquele retrato poderia ser realmente uma pista e eu precisava de algumas explicações. - Sra. Pontes, quantos anos? - Quarenta e três. - Trabalha em quê? - Sou vendedora de imóveis aposentada. - Você estava onde na hora do crime? - Dormindo, pois me deitei tarde na noite anterior. - Você fuma?

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- Sim, por quê? - Qual marca? - Smeek Gum. - Conhece a Sr. Lívia Densher? - Não, por quê? - É que vocês chegaram juntas ao navio no dia do embarque. - Foi coincidência, pura coincidência. - Conhecia a vítima? - Não, eu não conhecia o Gláucio e também não conheço a Lívia Densher. Satisfeito? - Já viu Gláucio nos jornais ou na televisão? - Não, eu não vejo esses veículos de comunicação. - Sra. Ana Pontes, como explica o fato de eu encontrar essa foto no livro de Gláucio? – questionei, mostrando um retrato. - O que isso quer dizer? – exclamou ela, um pouco transtornada ao ver a foto. - Ao ler a dedicatória, na qual está escrito “Com amor para Gláucio”, uma perguta me passou pela cabeça: afinal, vocês eram irmãos ou namorados? Diga-me a verdade! - Kall, essa foto nunca existiu. Tudo isso é uma armação, uma grande e irresponsável armação. - Uma armação? - Sim, fizeram isso para me incrimimar, tenho a certeza disso. Essa foto é uma montagem. Mande para a perícia que você vai ver que eu não estou mentindo. - Quero a verdade. Essa informação pode comprometer as minhas investigações, a Sra. tem a consciência disso? Tem? Eu já sei a verdade, quero apenas uma confirmação. Ele era seu irmão ou namorado? Diga logo! - Tudo bem, se vai ajudar, eu direi. O Gláucio era meu irmão. Satisfeito? - Vocês já foram alguma vez a pensão Shalom? - Não. - Então porque essa foto foi tirada em frente dela? - Estava passando pelo local e o nome me chamou atenção. - Você tirou a foto em frente a pensão Shalom só por causa do nome? – perguntei, surpreso. - Sim, como já disse, o nome me chamou atenção. - Você gostava de seu irmão? - Claro, quem não gosta de um irmão? - Durante os dias em que ele esteve no navio, eu reparei que vocês não conversaram uma única vez. Se vocês não se falaram, é porque tinham divergências, eu pergunto: quais? - Nenhuma, eu gostava dele. Eu amava o meu irmão! - Acho que seria mais natural você ter me dito que odiava o seu irmão pelo simples motivo dele ter sido o preferido da família e sempre estar em destaque. Isso despertou um ódio em você, não despertou? - Kall, por que afirma isso? - Intuição de detetive. Se um filho é famoso, o irmão fica com ciúmes. É simples, prático e funciona. - Você acha que eu seria capaz de matá-lo por causa de ciúmes? - Sra. Pontes, eu ainda estou investigando o caso. Ela fez uma pausa e disparou:

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- É só detetive Kall? - É, pode ir. Uma foto da Sra. Ana Pontes em frente à pensão Shalom! Certamente, isso era uma pista, só poderia ser. Estaria o assassino atrás dessa foto? Por quê? A justificativa apresentada pela Sra. Ana era muito estranha. Ela disse que tinha tirado a foto em frente à pensão, pois o nome havia lhe chamado a atenção. Era difícil acreditar nisso, muito difícil
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Ana Pontes e Lívia Densher conversaram sobre a investigação de Kall, bebendo apenas um gole de wisk cada uma. - Ana, o que achou do interrogatório? - Não sei, o Kall me fez apenas perguntas difícieis, mas acho que consegui responder. - Ana, o detetive está desconfiado que eu já viajei nesse navio. - Você tem certeza? - Tenho, absoluta. Ele viu o Osmar conversar comigo no dia em que cheguei. - Lívia, o Kall descobriu o que aconteceu com você há dez anos? - Espero que não, não seria bom que ele soubesse. - Realmente, não seria nada bom - concordou Ana. - Lívia, Kall perguntou se você fumava? - Não, por quê? - Ele me perguntou e quis saber até o nome da marca. Acho que o assassino era fumante. Só pode ser. E tem mais: Kall tem certeza de que eu a conheço. - Ana, por essa eu já esperava. O mistério estava ficando cada vez mais complicado, pois todos pareciam estar escondendo alguma informação. No entanto, eu já contava com esse e outros obstáculos. Afinal, se todos falassem a verdade eu não seria contratado para solucionar o caso. Seria?
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Sra. Shalom, a dona da pensão que leva o mesmo nome, foi a próxima a se sentar na cadeira, anteriormente ocupada por Ana Pontes, Lívia Densher, Nicolas Pioli, Rafael Benton e pelo mágico Brenaltis. O meu bloco de anotações já estava com quase todas as páginas ocupadas. A cada pessoa que eu ouvia, eu encaixava uma peça no quebra-cabeça e completava uma linha de raciocínio, talvez não fosse a linha correta, mas pelo menos era um começo, um grande começo. Estava cansado de fazer as mesmas perguntas, mas sabia que elas eram necessárias e que, na maioria das vezes, ajudariam na solução do caso. Quando era possível, eu variava na escolha das questões a serem formuladas, mas isso não ocorria com frequência. - Sra. Shalom, Marquês ficou hospedado em sua pensão. Correto? - Sim, mas não por muitos dias. - Há quanto tempo a Sra. tem aquela pensão? - Cinco anos. - Ela já teve outros donos? - Já, a pensão foi construída há seis anos e eu a comprei do engenheiro que a construiu. - Como se chama esse homem?

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- Não me lembro, comprei há muito tempo. - Antes de ter sido adquirida pela Sra., a pensão já funcionava? - Acho que sim. - Onde esteve na hora do crime? - Não estava fazendo nada. - Nada? Como assim? - É, nada. - O Lucas é seu .... – provoquei, mudando de assunto e tentando obter uma confirmação. - Não, ele é apenas um amigo meu, um grande amigo meu. - Ele trabalha para a senhora? - Sim, ás vezes. - Como assim? - Lucas é um amigo que, quando eu preciso, me auxilia na recepção. O relacionamento entre a Sra. Shalom e o Lucas era realmente muito, muito estranho. Afinal, uma patroa, por melhor que fosse, não proporcionaria uma viagem a seu empregado. Proporcionaria? O próximo a depor foi Lucas, o suposto funcionário e amigo da Sra. Shalom. Essa seria uma boa oportunidade para descobrir se eles eram somente bons amigos ou se estavam tentando esconder alguma coisa, por menor que ela fosse. O curioso é que ambos estavam dormindo na mesma cabine. Creio que essa não era e nunca será uma atitude normal para dois amigos, e sim para..... - Nome completo? - Lucas Navara. - Idade? - Vinte e sete anos. - Trabalha em quê? - Não tenho um emprego fixo, trabalho às vezes para a Sra. Shalom. - Conhecia o Gláucio? - Não muito, falei apenas uma vez com ele. - E sobre o quê? - Sobre a carreira dele. - Há quanto tempo você conhece a Sra. Shalom? - Sete anos. - Já foi alguma vez a Parja? - Não. - E a Sra. Shalom? - Que eu saiba não. - Você fuma? - Fumo. - Qual marca? - Skill Era incrível como praticamente todos os passageiros do navio Transroca tinham conversado com Gláucio sobre a carreira dele. O tal biólogo deveria ter realmente uma carreira muito interessante a ponto de despertar a curiosidade dos outros.
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A Sra. Shalom olhava pela janela de sua cabine, quando Lucas a cutucou para iniciar uma conversa: - Kall perguntou a você sobre Marquês? - Sim, Lucas, e ele quis saber também informações sobre a pensão, além do nome do engenheiro que a construiu. - O engenheiro? – perguntou Lucas, surpreso - Sim, o detetive queria saber o nome de quem construiu a pensão. Estranho, não é? - E o que você disse? - Falei que não lembrava. Lucas, e o que Kall perguntou a você? - Se eu já tinha ido a Parja, mas respondi que não. Depois, perguntou se você já tinha estado lá. - E o que você disse? - Que não sabia.
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Olhei para o meu bloco de anotações e constatei que a maratona de interrogatórios já estava chegando ao fim. Faltavam apenas três pessoas para eu ouvir: Marco, Gustavo e minha mulher Amanda. Numa investigação, temos que conversar com todas as pessoas, principalmente as que conhecemos há muito tempo, como Gustavo e Amanda. Iniciei pelo capitão e deixei os outros dois para uma próxima oportunidade. - Meu nome é Marco Alis. - Há quanto tempo você comanda esse navio? - Muitos, muitos anos. - Algum passageiro que está agora no Transroca já tinha viajado nele antes? - Apenas o Gustavo. - Ninguém mais? - Não, por quê? - Nem mesmo a Sra. Lívia Densher? - Não, essa é a primeira vez que a vejo. - Estranho. Quando ela chegou ao navio, você foi cumprimentá-la como se já a conhecesse. - Engano seu, Kall. Eu a cumprimentei como uma desconhecida, apenas isso, como uma desconhecida. - Tem certeza? - Claro, detetive. Por que eu mentiria para você? Provavelmente, essa não seria a primeira viagem da Sra. Lívia Densher no Transroca. A minha intuição de detive dizia-me que esse fato merecia ser investigado, minuciosamente investigado. Ele poderia revelar-me detalhes importantes e uma linha de raciocínio relevante para a resolução do caso. Gustavo sentou-se na cadeira, sustentando um ar de preocupado e, ao mesmo tempo, de surpreso. Mas, eu precisava conversar com ele, precisava fazer algumas perguntas que não puderam ser feitas a outras pessoas. - Amigo, você quer me interrogar? - É só uma rotina, algumas informações estão faltando. - Claro, nesse caso, vá em frente.

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- Gustavo, há quanto tempo você tem esse navio? - Sete anos. - Ele já pertenceu a algum outro dono? - Já, por quê? - Segundo minhas investigações, algum crime aconteceu dentro desse navio há muito, muito tempo, provavelmente uns dez anos. Você confirma? - Como soube disso? - Gustavo, ao longo dos interrogatórios, tive a certeza de que a senhora Lívia Densher já tinha viajado no Transroca. - O que isso tem a ver com o crime que você diz ter ocorrido? - Gustavo, perguntei para a Lívia Densher se ela já tinha viajado nesse navio. Para minha supresa, não obtive uma resposta positiva. Você acha que alguém negaria uma viagem de navio sem motivos? - Não, Kall, claro que não. Você tem razão. - Gustavo, quero que você responda: houve um outro assassinato nesse navio há alguns anos? - Calma, vou lhe contar. Antigamente, quando o Transroca pertencia ao Sr. Peter Korda, aconteceu um crime. - Por que você não me contou isso no começo da investigação? - Achei que não era importante. - Claro que é importante. Isso muda tudo! Como era o Sr. Korda e o que aconteceu nesse navio? Gustavo me deu detalhes das características do antigo proprietário e continuou: - Uma tentativa de assassinato. - O quê? Uma tentativa de assassinato? - Isso mesmo, Kall. Uma tentativa de assassinato. - E quem foi a vítima? - A Sra. Lívia Densher. - E o assassino? - Uns dizem que ele é o espectro citado por Gláucio na palestra, outros afirmam que ele morreu. Há quem diga que o assassino ainda está vivo. - Gustavo, você acredita na história do espectro? - Sinceramente, eu tenho as minhas dúvidas. - Como foi a tentativa de assassinato? - Lívia Densher levou três facadas, mas o motivo ainda é desconhecido. - Exatamente como Gláucio. - Isso mesmo, com a diferença de que nele duas facadas foram no coração. - Você tem como provar o que disse? – perguntei, fazendo algumas anotações no bloco. - Infelizmente não, mas pode confiar em mim. - Gutavo, como soube disso tudo? - O Osmar me contou. - Ele trabalhava para o Sr. Korda? - Sim, foi o primeiro emprego dele. - Terei que interrogá-lo novamente.

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Então quer dizer que a Sra. Lívia Densher sofreu uma tentativa de assassinato? Por que ela não falou sobre isso? Quem seria esse tal de Peter Korda? Teria ele alguma ligação com o assassinato do tal biólogo? Cinco minutos depois, Osmar, o homem que encontrou o corpo do biólogo Gláucio, voltou para um novo depoimento. Dessa vez, ele mostrou-se mais tranqüilo e teria que me dar algumas informações sobre o Peter Korda. A investigação já se prorrogava por muito tempo e eu estava com bastante sono, mas sabia que tinha que prosseguir. - Kall, em que posso ajudá-lo? - Osmar, você trabalhou para o Sr. Korda? - Sim. - Soube que a Sra. Lívia Densher foi quase assassinada nesse navio. Você confirma? Há quanto tempo foi? Dez anos? - Confirmo. Exatamente, há dez anos. - Quer me contar algo mais sobre esse epsódio? - Não sei muito mais do que isso. - Só mais uma pergunta: Gustavo disse-me que algumas pessoas sustentam a hipótese de que o espectro tentou matar a Sra. Lívia Densher, você acredita nessa história? - Acredito – disse o encarregado pela programação do navio. - Esse mesmo espectro pode ter matado Gláucio? - Claro, por que não?
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Osmar foi rapidamente ao encontro do Gutavo e perguntou: - Você confia no Kall? - Claro, ele é o detetive ideal para esse caso. - Será mesmo? - Com certeza. O que ele perguntou a você no segundo depoimento? - Ele pediu apenas para eu confirmar que a Sra. Lívia Densher sofreu uma tentativa de assassinato há dez anos. - E você confirmou? - Claro, Gustavo, por que não confirmaria? - Você fez bem.
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Acabei os depoimentos ao anoitecer, pouco antes do inicio do baile à fantasia, marcado para as nove. Faltava apenas fazer algumas perguntas para a minha mulhe. Seria difícil, mas eu tinha que interrogar Amanda. - Oi Kall, como foi a investigação? - Foi muito boa. Ela se estendeu por um tempo muito superior ao previsto, pois tive que interrogar a todos os suspeitos. Essa é a parte mais demorada da investigação. - O que você conseguiu descobrir? - Que a Sra. Lívia Densher sofreu uma tentativa de assassinato há dez anos, quando viajava nesse navio. Ela levou três facadas! - O mesmo número de Gláucio. Será que isso tem alguma ligação?

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- Talvez, ou também pode ser mera coincidência.Amanda, alguma vez o Gláucio disse que temia a morte? - Não, nunca. Ele dizia que gostava de viver e que valorizava e muito a vida. - Ele mencionou se tinha inimigos? - Não, certa vez ele me disse que gostava de todo mundo. - Ele fumava? - Não, pelo menos na minha frente, ele nunca acendeu um cigarro, por quê? - É que, no dia em que visistei o quarto dele, encontrei um toco de cigarro perto da cama. - Deve pertencer ao assassino, não é? - Possivelmente. Você é a primeira pessoa com quem falo sobre isso. Até agora eu mantive segredo, pois essa pode ser uma prova muito importante. Mas, sobre o quê Gláucio e você conversavam? - Sobre a carreira dele e sobre os testes que ele estava fazendo. - Testes? - Sim, de um novo detergente que iria se chamar Struss. Nesse momento, flashes passaram pela minha cabeça. Lembrei que Gustavo tinha uma empresa que comercializava esse produto e que a Sra. Lívia Densher também trabalhava com detergente. Seria apenas uma coincidência? Fiquei reflentindo e disparei uma pergunta: - E o que tinha de mais esse novo detergente? - Era um produto que ainda não podia ser encontrado no mercado. Gláucio estava descobrindo algo realmente inovador. - Ele chegou a concluir a fórmula? - Não, creio que não. Quando eu deixei o escritório, ele ainda estava fazendo testes. Mas, por que a pergunta? Você acha que a descoberta da fórmula está relacionada com a morte de Gláucio? - Não sei, estou tentando juntar algumas pistas. Amanda, você se importaria em ir comigo ao quarto do biólogo? - Não, Kall. Você quer saber se ele concluiu a fórmula? - Isso mesmo! Fomos ao quarto do biólogo. O relógio informava que já estava tarde, muito tarde, e que em breve o baile iria começar. - Kall, está tudo revirado. Não há vestígios da experiência de Gláucio. Era o que eu temia ouvir. Acenei com a cabeça para baixo, concordando com a triste notícia. Ao mesmo tempo, bateram na porta. Era Osmar: - Kall, deixaram essa carta para você na recepção. - Certo. Obrigado, Osmar. Abri o envelope e rapidamente comecei a lê-la: - “Caro Kall, soube que sua mulher se encontrou inúmeras vezes com o biólogo Gláucio. Mas, fique tranqüilo, pois eu não acredito que um detetive famoso como você tenha sido traído...” Traído? Que brincadeira era essa? Só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto. Amanda não seria capaz de fazer uma coisa dessas. Ela não faria isso comigo. Continuei a ler a maldita carta: - “...Agora, mudando de assunto, você não teria motivo para esfaquear o biólogo. Teria?”

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Essa não! Só faltava isso. Alguém, que eu não sabia quem era, estava me acusando de ter matado o tal biólogo. Quem teria me mandado uma carta dessas? Só podia ter sido o assassino. E por quê? Eu teria que descobrir o mais rápido possível. Aos poucos os pensamentos perderam força e Amanda aproximou-se de mim: - Kall, algum problema? - Amanda, o problema é essa carta. Minha mulher demorou alguns minutos para entender a mensagem que estava escrita, mas foi rápida para pronunciar umas palavras: - Kall, é tudo mentira, uma grande calúnia. - Eu sei Amanda, acredito em você. - Quem mandou a carta? O assassino? - Pode ser, mas por que ele faria isso? - Para forçar você a desistir do caso. - Mas, eu nunca irei abandoná-lo - disse firme, com toda a força. - Eu sei, Kall. Não seria justo você desistir agora. Pensei, por longos momentos, naquela maldita carta que recebi. Afinal, por que me mandaram ela? Por quê? Certamente para eu dessistir da investigação. Amanda estava mais do que certa. Mas, isso não iria acontecer. Agora, eu teria mais coragem e mais força do que nunca. Voltamos para a nossa cabine, tomamos um banho e nos arrumamos para o próximo evento do navio Transroca, o baile à fantasia.

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Baile à fantasia
Estava tudo pronto para o evento mais esperado da viagem: o tal baile à fantasia. Em alguns momentos, acreditei que o evento não seria realizado, uma vez que o tal biologo morreu. Mas, o salão Merlin, localizado no andar térreo do navio Transroca, recebeu uma bela decoração para o evento e todos compareceram ao baile. O capitão Marco subiu ao palco para fazer, como sempre, um rápido pronunciamento, mas acabou se alongando um pouco: - Boa noite, senhores passageiros, peço desculpas pelo ocorrido, mas tenho a satisfação de falar que já estamos tomando providências. Como vocês devem ter percebido, o detetive Kall foi contratado para desvendar o assassinato de Gláucio e as investigações já começaram, por isso, peço que todos colaborem com o detetive. De qualquer forma, não podemos voltar ao porto de Perúsia Grande, de onde partiu o navio, pois o porto mais próximo é o de Parja, justamente o nosso destino. Fiquei emocionado com as palavras e cheguei até a acenar com a cabeça para baixo, agradecendo. Marco fez uma pequena pausa e continuou: - Preparamos para hoje um evento especial, do qual vocês se lembrarão para sempre. Além do baile à fantasia, teremos a apresentação do grande mágico Brenaltis. Portanto, divirtamse e brinquem à vontade! Segundos depois, o capitão Marco foi aplaudido e cedeu o lugar ao mágico Brenaltis, que subiu ao palco com sua assistente Sheila. Ele pronunciou algumas palavras: - Senhores, para essa noite, resolvi aperfeiçoar o truque mulher invisível, apresentado em meu último show. Mas, antes de começar o espetáculo, gostaria que fizéssemos um minuto de silêncio em homenagem ao biólogo. Todos concordaram e, em seguida, Brenaltis executou, com poucas modificações, o truque mulher invisível. Mas, a reação do público foi a mesma da primeira apresentação: aplausos e mais aplausos. O mágico acrescentou apenas algumas vozes, que pronunciavam, atrás do palco, palavras estranhas e incompreendíveis. Teria ele se inspirado no tal espectro do biólogo? Antes que eu pensasse numa resposta, Brenaltis pediu silêncio a todos para explicar o funcionamento do evento: - O baile à fantasia será da seguinte forma: todos dançarão com todos. Como todo mundo está fantasiado, ninguém vai saber com quem está dançando. Vai ser muito divertido, vamos em frente! A banda começou a tocar e os passageiros do Transroca se espalharam pelo salão. Cada um foi para um lugar e eu me separei de Amanda. Realmente não sabia com quem estava dançando. Mas, tinha uma boa pista: a pessoa trajava uma roupa de espectro. Só podia ser Nicolas Pioli, o ator de cinema italiano. Afinal, se não fosse ele, quem poderia ser? Ninguém. O homem vestido de espectro, que causou espanto a todos pela ousadia em sua fantasia, era realmente Nicolas Pioli. Que motivos teria ele para matar Gláucio? Por que Nicolas mentiu quando perguntei se ele conhecia Rafael Benton? Os pares foram trocados. Comecei a dançar com uma pessoa vestida de cavaleiro medieval. Ela tinha estatura média, cabelos encaracolados que estavam por fora da máscara e olhos pretos. Era Rafael Benton, vizinho de quarto do biólogo Gláucio. Por que ele mentiu sobre a porta de ligação? Que motivo Rafael teria para matar Gláucio? Mudei novamente de parceiro e comecei a dançar com uma faca humana, isso mesmo, uma faca

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humana. Quem se fantasiaria de faca para ir a um baile à fantasia? O assassino de Gláucio? A Sra. Lívia Densher? Sim, a Sra. Lívia Densher. Era ela! A mulher que sofreu, há dez anos, um atentado enquanto viajava no Transroca. Loira, cabelo liso, olhos verdes e um bonito sorriso. Essa bela mulher teria matado o Gláucio? Por quê? Afinal quem seria o verdadeiro assassino de Gláucio? Trocamos de parceiros. Dancei, nessa etapa, com um homem vestido de capitão. Só podia ser o Marco. Mas, quanta originalidade!! Será que Marco trabalhou como capitão para Peter Korda, o primeiro dono do navio Transroca? Será que ele já tinha feito algum cruzeiro para Parja? Seria ele o responsável pelo assassinato de Gláucio? Mas, quais os motivos? Vingança? Vingança de quê? O capitão sustentava uma barba muito cerrada e tinha quase um metro e noventa de altura. Por que matariam o tal biólogo? Só por que ele tinha uma grande carreira? Claro que não! Depois, dancei com uma bruxa. Magra, um metro e sessenta de altura, olhos cor de mel. Só podia ser a Sra. Ana Pontes. Mas por que ela estaria vestida de bruxa? Para impressionar? Por quê? Demos um passo para a direita, depois outro para a esquerda. Estávamos acompanhando as batidas da música. Ela teria matado o irmão? Por quê? Por ciúmes? Claro, que não! Então, por quê? O Transroca navegava pelo Oceano Atlântico e se mostrava muito tranquilo, sem balançar e sem atrapalhar o baile. Parecíamos dançar num bar de Perúsia Pequena ou de Perúsia Grande. A animação era geral, ninguém queria parar um só minuto. Foi nesse ritmo que eu troquei de parceiro e comecei a dançar com uma pessoa vestida de smurf. Era Lucas, companheiro de quarto da senhora Shalom. Só podia ser ele! Ele teria assassinado brutalmente o biólogo com duas facadas no coração? Por quais razões? Para pegar a fórmula do novo detergente Struss? Claro que não! Eu estava me torturando ao buscar uma solução, mas não encontrava uma linha de raciocínio. A música acabou e, rapidamente, todos trocaram de par. Já estávamos dançando há mais de três horas e eu logo percebi que o meu novo parceiro era o Gustavo, um homem de estatura média, olhos pretos, cabelos liso de mesma cor e um predominante sorriso, que denunciava a sua animação. Ele seria o assassino? O motivo estaria ligado com a compra do navio Transroca? Ou com o Sr. Peter Korda? Nesse momento, uma idéia passou-me pela cabeça: utilizar o rádio do navio para conversar com Marquês sobre o Sr. Peter Korda. O rádio amador, aquele que provocou uma briga entre Amanda e Marquês sobre o local onde ele deveria ficar, estava na casa da falecida minha mãe e poderia me colocar em contato com meu velho amigo. Enquanto eu refletia sobre essa possibiliade, mudamos de par. Um homem vestido de mágico? Era o Brenaltis. Ele também era um suspeito. Aliás, todos os passageiros do Transroca eram suspeitos. Qualquer um que estava dentro desse salão poderia ter matado o tal biólogo. Por que Brenaltis se inspirou no espectro para aperfeiçoar o truque mulher invisível? Só para chamar a atenção do público? Os motivos para ele ter matado Gláucio estariam relacionados com a mágica? O meu penúltimo parceiro estava fantasiado de mickey. Era Osmar, o responsável pela programação do Transroca e o homem que encontrou o corpo de Gláucio. Mas, ele poderia ter matado o biólogo? Eu não arriscaria essa hipótese. O Gláucio era muito mais forte do que Osmar. Só se o biólogo fosse envenenado e depois esfaqueado. Agora sim, a

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hipótese poderia ser aceita com mais faciliade. Mas, qual seria a causa do envenenamento? O detergente que o Gláucio estava fabricando? Será mesmo? Creio que não. Na última música, eu dançaria com a Sra. Shalom, que estava usando roupas de fada. Demos um passo para frente e outro para trás. A música já tinha acabado, mas todos continuavam a dançar. Seria ela, a culpada pela morte do tal biólogo? Seu motivo estaria relacionado com a pensão Shalom? Talvez! Eu tinha que saber mais informções sobre essa tal pensão e Marquês poderia me ajudar nisso. Acabamos de dançar às quatro horas da manhã. O baile à fantasia estava muito agradável e divertido, todos os passageiros pareciam ter gostado bastante. Para mim, o evento configurou-se num momento de pura reflexão, observação dos fatos e levantamento de hipóteses e perguntas que ficaram vagas. Infelizmente, o que o capitão Marco disse não chegou a acontecer, pois dancei com alguns passageiros do Transroca, e não com todos. Foi uma pena, pois o baile poderia certamente se prolongar por mais tempo. O capitão Marco subiu ao palco para novamente pronunciar algumas palvras. Ele estava gostando de fazer isso: - Senhores, espero que tenham se divertido bastante. Decidimos, há poucos minutos, premiar a melhor fantasia do baile. Bom, vou direto ao assunto: o prêmio vai para ... Um silêncio predominou no salão do baile. Alguns passageiros mordiam as unhas, outros rezavam. Eu simplesmente olhava e observava o que estava acontecendo ao redor. Até que.. o Capitão Marco anunciou o grande vencedor: - A Sra. Lívia Densher. Os aplausos se estenderam por um minuto e a Sra. Lívia, que trajava uma roupa de faca, mostrava-se eufórica, a ponto de soltar um grande e forte grito. O capitão concluiu: - Tenho a honra, nesse momento, de chamar a grande vencedora. A Sra. Lívia Densher subiu ao palco, sustentando um sorriso amarelo, e recebeu uma placa que trazia a seguinte inscrição: “ Parabéns. Você é o grande vencedor da noite.” Marco fez sinal para Lívia discursar, mas ela rejeitou e, por insistência do público, disse apenas algumas palavras: - Boa noite, fico muito feliz por ter recebido esse prêmio. Obrigada a todos. - Você merece Lívia, você sabe disso - disparou Marco, sorridente. Ao ouvir essas palavras, Lívia, que se mostrava nervosa, ficou trêmula e desmaiou. Gritos, passageiros nervosos, pessoas andando de um lado para o outro. A vencedora foi rapidamente levada ao ambulatório, uma sala ampla com equipamentos modernos, localizada na parte térrea do navio Transroca. Instantes depois, recebi um cutucão nas costas, que chegou a doer um pouco, devido á força utilizada. Era o capitão Marco: - Kall, a Sra. Lívia Densher deseja vê-lo no ambulatório. Assustei-me com o pedido. O que ela queria falar comigo? A Sra. Lívia Densher desejava confessar alguma coisa? Alguma coisa realmente importante para o andamento das investigações? - Vamos? - perguntou o capitão. - Claro, vamos sim. * No ambulatório, a Sra. Lívia Densher pronunciou: - Por favor, deixe-nos a sós, capitão.

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- Sra. Densher, a senhora está melhor? Em que posso ajudá-la? – indaguei. - Já estou bem. O motivo de sua vinda aqui não é o desmaio, e sim um assunto muito delicado que quero tratar contigo. - Vá em frente! - Eu preciso lhe mostrar uma coisa – disse ela, abrindo a blusa e apontando para três cicatrizes. Seriam as marcadas deixadas pelas facadas que ela levou há dez anos? Antes que eu perguntasse, a Sra. Lívia rapidamente veio com a resposta: - Kall, estas são as marcas do atentado que eu sofri. - A Sra. Densher tem algo mais para me contar? - Não, eu só queria confirmar uma história que você já sabia. Não tenho mais nada a dizer. Retornei ao baile e cheguei a tempo de ouvir mais um discurso do capitão: - Caros, passageiros. Podem ficar tranquilos, pois a Sra. Lívia Densher já se encontra em bom estado. Tenho um outro assunto para falar. Há algum tempo, alertei vocês sobre a possível vinda de uma tempestade. Pois bem, recebi um comunicado da marinha brasileira, informando que em poucas horas encontraremos com ela.
*

Quando o baile terminou, Amanda e eu fomos convidados para um evento muito estranho, estranho até de mais: um casamento. Gustavo, dono do navio, e Camila iriam se casar na cabine dele. Mas, não seria um casamento oficial, afinal não havia um padre dentro do navio. Seria apenas um casamento simbólico e rápido, que provavelmente seria oficializado quando chegássemos a Parja. Gustavo estava sorridente, Camila só faltava gritar de alegria. Amanda e eu fomos os padrinhos, os únicos padrinhos. Muito estranho, pois o normal é que se tenha dois padrinho e duas madrinhas. Após o casamento, fomos a cabine para descansar algumas horas. Estávamos no meio da madruga e uma pergunta me incomodava profundamente: Por que Gustavo se casou no meio de uma investigação?

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Tempestade
Acordamos com um grande sol batendo na janela, com certeza já eram mais do que meio dia. Dormimos bastante, o suficiente para repor as energias gastadas no dia anterior. Não havia qualquer sinal da tempestade mencionada pelo capitão. Amanda e eu decidimos caminhar pelo Transroca: - Kall, você está muito estranho. Algo perturbou você na noite do baile? - Durante todo o evento, pensei no assassinato de Gláucio e busquei algumas respostas, que infelizmente ficaram vagas. - Tenha calma, senão você vai ficar neurótico. - É verdade, se é que eu já não estou. Mas, esse caso mostra-se muito complicado, preciso ainda juntar muitas peças no quebra–cabeça. - Você conseguiu chegar a alguma conclusão? - A Sra. Lívia Densher finalmente confirmou que sofreu um atentado há dez anos – disse, lembrando das três cicatrizes. - O que você pretende fazer sobre isso? - Vou pedir informações a Marquês. - Sobre a Lívia? - Sobre a Lívia, sobre a pensão Shalom e sobre Peter Korda, o antigo dono desse navio. - Sobre a pensão Shalom? – espantou-se Amanda. - Sim, sobre a pensão Shalom, onde Marquês ficou hospedado. O mistério pode estar relacionado a esses três tópicos: Sra. Shalom, Lívia Densher e Peter Korda. - Com isso você vai solucionar o caso? - Talvez. - Mas, como você vai falar com Marquês? - Pelo rádio do Transroca. Nós também temos um rádio amador em casa e Marquês poderá usá-lo – disse, lembrando mais uma vez da briga em que ele e minha mulher tiveram ao decidirem a localização do objeto. - Quando vai ser a comunicação? - Espero que seja agora a tarde, antes da provável.... Não pude completar a frase. Alguém bateu na porta e eu tive que abri-la: - Sim. - O Gustavo deseja vê-lo na cabine dele. - Agora, Osmar? - Sim, vamos? - Só vou apanhar o meu chapéu. Fomos ao local indicado e Gustavo já aguardava a minha chegada: - Entre, Kall. - disse o dono do navio - Chamei você para tratar de dois assuntos. - Claro, pode falar. - Primeiro, eu queria saber se tivemos progresso nas investigações. - Não, infelizmente, continuam na mesma. - Kall, eu queria pedir-lhe um favor. - Qual? - Que você solucionasse esse crime antes que chegássemos a Parja. Eu não queria que a polícia local se metesse no caso.

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- Farei o possível. -Kall, se precisar de alguma coisa me procure. Não podemos perder tempo, entendido? - Gustavo, eu preciso usar o rádio da cabine de comandos do navio. - Claro, eu vou providenciar. Você precisa usar agora? - Se for possível. Minutos depois, Marco entrou na cabine de Gustavo e ouviu uma ordem: - Capitão, Kall precisa usar o rádio amador da cabine de comandos. - Pois não, acompanhe-me Passei as instruções necessárias para o capitão Marco localizar Marquês e tentamos fazer um primeiro contato, mas o aparelho sofria interferência: - ZZZZ Tentamos novamente e o resultado foi o mesmo: - ZZZZ Após mais algumas tentativas, conseguimos um retorno: - Alô, Marquês falando. - Aqui é o Kall. - Vou deixá-lo a sós – disparou o capitão, retirando-se da cabine de comandos do Transroca. - Kall, há quanto tempo! - Meu amigo, o que anda fazendo? - As mesmas coisas de sempre, e você, como anda a lua-de-mel? - Está sendo ótima, só tivemos um problema, na verdade, um assassinato. - Assassinado? Como? - Sim, um homem levou três facadas, uma de raspão e duas no coração. - Nossa, Kall! E não me diga que ... - Sim, Marquês, eu sou o detetive do caso. Queria pedir umas informações a você. Fomos surpreendidos por uma interferência: - ZZZZ Mas, ela foi passageira: - Pode falar, Kall. - Eu gostaria que você investigasse a Pensão Shalom, aquela em que você ficou hospedado, mas também a Sra. Lívia Densher e um tal de Peter Korda. Se possível, retorne-me antes do anoitecer. - Farei o possível.
*

Estávamos quase na hora do lanche da tarde e o sol se mostrava muito, muito quente. Era incrível imaginar que poderíamos ter uma tempestade. Sra. Shalom conversava com Lucas: - Soube que aquele detetive usou o rádio do navio. - Com quem ele pode ter falado? – perguntou Lucas, curioso. - Com Marquês, aquele homem que ficou hospedado em minha pensão. Com certeza, Kall tentou me invertigar. - Mas, ele pode ter falado de assuntos pessoais.

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- Lucas, eu acho pouco provável que, no meio de uma investigação, um detetive entre em contato com uma pessoa para falar assuntos pessoais. - É, você tem razão. Mas, será mesmo que ele tentou investigá-la? - Tenho certeza absoluta.
*

Nesse momento, a Sra. Ana Pontes e a Sra. Lívia Densher comentavam sobre a tempestade, a tempestade citada pelo capitão Marco: - O que é pior do que uma tempestade? - É sofrer um atentado – respondeu Lívia Densher, ironicamente. - Você mostrou as cicatrizes ao Kall? - Mostrei, ele tinha que ver o que fizeram comigo! - Você acha que realmente teremos uma tempestade? - perguntou Ana, curiosa. - Não sei, o dia está tão bonito, é provável que não se tenha. - É verdade, seria melhor, pois as pessoas dizem coisas horríveis sobre ela.
*

Amanda e eu estávamos no bar do Transroca, quando o capitão Marco se aproximou: - Kall, estão querendo falar contigo no rádio. Fomos até a cabine de comando e, antes do anoitecer, meu amigo retornou: - Alô, Marquês falando. - O que você conseguiu descobrir? - Que a Sra. Shalom comercializava insulina. - Como? A Sra. Shalom comercializava insulina? - Sim! - Algo mais? Começou a despencar uma chuva, uma chuva fote. O dia, que realmente estava muito bonito, parecia ter virado trevas. Tivemos uma pequena interferência e, após alguns minutos, Marquês respondeu: - Descobri que a Sra. Lívia Densher sofreu um atentado há dez anos e que Peter Korda ... Uma interferência interrompeu a conversa e o céu dava sinais de que realmente presenciaríamos uma tempestade. Meu amigo ficou alguns minutos sem responder e eu tentei um contato: - Marquês, Marquês, o que você quis dizer? Não obtive uma resposta, mas as informações passadas por meu amigo me fizeram refletir: A Sra. Shalom comercializava insulina? E Peter Korda? O que Marquês tinha descoberto sobre o antigo dono do Transroca? O quê? O navio Transroca balançou bastante e, aos poucos, a tempestade foi chegando. Os passageiros correram para a cabine e ninguém ficou ferido. Opa!
*

Após a tempestade ter ido embora, Nicolas Pioli e Rafael Benton se encontraram:

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- Nicolas, nossa viagem vai terminar em breve. Você acha que o Kall descobrirá o assassino? - O assassino já está descoberto. É o espectro, só pode ser ele. Mas, diga-me Rafael, o que você achou da viagem? - Achei boa, apesar do assassinato, ela estava muito divertida. O baile à fantasia foi espetacular, você gostou dele? - Gostei, foi muito divertido. - Que bom!
*

O mágico Brenaltis estava com sua assistente Sheila: - Você acha que o pessoal gostou do novo truque mulher invisível? – perguntou ela. - Claro, acho que sim, afinal ele foi muito aplaudido. - É verdade, para mim foi o melhor momento do navio. - Melhor do que o baile? - questinou Brenaltis. - Claro, sem dúvida. Eu só lamento uma coisa nessa viagem: a morte do biólogo. Ele não merecia o que aconteceu. - Sheila, a gente morre quando tem que morrer e essa foi a vez dele. - É, pode até ser, mas o que você está achando da investigação do Kall? - Acho que ele está muito devagar, tomará consiga desvendar o mistério até o fim da viagem.
*

Amanda e eu estávamos em nossa cabine, ela veio em minha direção: - Kall, descobriu algo? - Que a Sra. Shalom comercializava insulina. - Insulina? - Isso mesmo, por quê? - Estava lendo um livro, na verdade uma biografia do biólogo Gláucio, e descobri que ele era diabético. - Você está tentando ligar isso ao fato de a Sra. Shalom ter comercializado insulina? - Estou, Kall, será que ele estava realmente preparando um novo detergente? - Amanda, porque essa desconfiança agora? - Eu acho que o Gláucio estava descobrindo a cura da diabete. - Como assim? - As plantas que ele usava nos experimentos eram para fins medicinais e não para se obter um detergente. Sendo diabético, Gláucio iria descobrir a cura da diabete e não a fórmula de um novo detergente, concorda? - Claro, como você chegou a essa conclusão? - Kall, quando eu perguntei a ele quais os integrantes que compunham o novo detergente, Gláucio disse com bastante ênfase que o composto era isento de açúcar. Achei muito estranho. Afinal, por que uma pessoa iria falar que um detergente era isento de açúcar? - Brilhante, Amanda! Por que você não me contou isso antes? - Eu não achei que fosse necessário.

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Rafael Benton encontrava-se em sua cabine, a de número cinco da segunda classe: - Meu Deus, o que é isso? Ele olhou para o lado, pensou durante alguns segundos e concluiu: - Essa não! É a faca do assassino de Gláucio. Rafael colocou o objeto num pano branco e foi ao meu encontro. Era realmente a arma do crime, a faca que tinha tirado a vida do tal biólogo. Nesse momento, o mistério tomou um novo rumo e mais uma pista foi descoberta. - Rafael, amanhã eu terei que interrogá-lo novamente. - Claro, Kall, vou ajudá-lo no que for preciso. Amanda e eu fomos dormir mais cedo, pois o dia de amanhã seria realmente muito agitado. Algumas pessoas deveriam ser interrogadas novamente para que outras informações fossem apresentadas. Durante o dia de hoje, minha mulher mostrou-se uma bela detetive, com raciocínio rápido e preciso. Ela estava ajudando e muito no andamento das investigações.

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Explicando...
Hoje, eu iria interrogar o Rafael Benton e a Sra. Shalom. Algumas peças estavam faltando no quebra-cabeça e tinha a certeza de que esses dois passageiros poderiam me esclarecer alguns pontos, pontos relevantes para eu traçar uma linha de raciocínio definitiva e solucionar o mistério que ainda rondava o navio Transroca. Comecei a conversar com o Rafael: - Como a faca foi parar em sua cabine? - Kall, eu estou tão espantado quanto você. Eu não sou o assassino, não sou. Acredite em mim! Não sei como ela foi parar lá, apenas a encontrei. O asssassino deve tê-la colocado. - Há que horas você a encontrou? - Não me lembro. - Rafael, normalmente você deixa a porta destrancada quando sai da cabine? - Não tenho esse hábito, mas ontem eu a deixei . - E justo no dia em que apareceu a faca? - É, foi coincidência, pura coincidência. Rafael ficou algum tempo refletindo e depois me fez uma pergunta simples, mas que já era esperada: - Como andam as investigações? - Sem novidades! - Você já sabe quem é o assassino? - Ainda não. - O que falta para solucionar o caso? - Algumas informações. A Sra. Shalom, que ocupava a cabine de número seis da primeira classe, foi a segunda a dar um depoimento: - Como a Sra. explica o fato de ter comercializado insulina? - Kall, isso aconteceu há muito tempo. Eu precisava ganhar dinheiro e aceitei trabalhar com isso. - E o Lucas, também traficava? - Não. Ele não.... - Acho que a Sra. tem algo a me contar, não tem? - Tudo bem, cansei de esconder. Estava na hora de falar a verdade. A história é muito longa, mas vou tentar resumi-la. Há alguns anos, fui casada com um homem, um homem que era dono de um dos mais importantes jornais da cidade. Por isso, as ameaças eram muito frequentes e tivemos que fugir. Mas, ele adorava a cidade e sempre retornávamos. Um dia, ele apareceu assassinado. Até hoje, não descobriram quem fez isso. Depois desse epsódio, fiquei transtornada e me casei novamente. Não demorou muito para o meu segundo marido morrer. Sem dinheiro e dependendo de parentes para sobreviver, entrei para o comércio de insulina. Comecei a ganhar muito dinheiro e comprei a pensão Shalom, que me sustenta até hoje. - A Sra. vendia insulina dentro da pensão? - Não, nunca fiz isso. Kall, eu comprei a pensão e, logo depois, parei de trabalhar com esse produto - Sra. Shalom, vamos falar de Lucas, o seu acompanhante de quarto.

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- O que tem ele? - Você acabou de me relatar que teve uma vida sofrida. Eu pergunto: por que então financiaria a viagem de um simples empregado? - Kall, ele não é um simples empregado, ele é ... - Seu filho. - Como assim? - Sra. Shalom, o Lucas é seu filho! - Como você descobriu? - Na ficha de inscrição do Transroca consta que o sobrenome de Lucas é Shalom. Você cometeu um erro primário: esqueceu de falsificar o sobrenome dele, não foi? - Kall, depois que parei de comercializar insulina, comecei a ter depressões e alucinações, não conseguia dormir direito. Resolvi, então, para acabar com esse sofrimento, adotar um filho. Que problema eu teria se adotasse um filho? - A Sra. concorda que teria motivos para matar o biólogo? - Quais? - Um diabético precisa de insulina para sobreviver, mas o biólogo estava terminando a fórmula da cura da diabete. Se ele a concluísse, a Sra. perderia o comércio da substância. - Está certo, eu perderia. Mas não o matei . Juro! - A senhora acabou de confirmar que ainda trabalha com insulina. - Eu não disse nada. As perguntas já acabaram?
*

Minha mulher estava ansiosa para que o mistério chegasse ao fim: - Kall, você já sabe o nome do assassino? - Quase Amanda, falta pouco, muito pouco. - O que você descobriu sobre a senhora Shalom? - Ela confessou que conercializava insulina e que Lucas é seu filho adotivo. - O quê? - Isso mesmo! - Quando você vai anunciar o nome do assassino? - Provavelmente, só no último dia de navegação. - Boa sorte, Kall. Não tive tempo para agradecer, pois o capitão Marco bateu na porta: - Kall, o Gustavo deseja vê-lo o mais rápido possível. Fomos até a cabine dele e o dono do Transroca foi direto ao assunto: - Pedi para você concluir as investigações antes que o navio chegue a Parja. Lembra-se disso? - Lembro. - Pois bem, como andam as investigações? Já as concluiu? - Andam bem, acho que estou no caminho certo. - Caminho certo? Como assim? - É isso mesmo, estou no caminho certo. - Você vai conclui-las até quando? - Provavelmente no último dia da viagem. - Quem são os suspeitos?

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- Todos. - Todos? - Sim, todos são suspeitos. - Até eu? - Eu disse todos, Gustavo. Sem exceção! - Por que você quer que eu resolva esse caso antes de chegarmos a Parja? - Eu já respondi a essa pergunta. Eu não quero que a polícia local se envolva no caso. - Polícia local? Tem certeza disso? - Claro, Kall, por que não teria? - Com base em minhas investigações, eu posso afirmar que o Transroca não estava dando lucro. Uma boa estratégia para se livrar dele é matar alguém, não é? Com isso, o navio seria apreendido e você não teria que pagar as dispesas dele, que por sinal são muito altas. - Você está me acusando de assassinato? - Apenas estou levantando uma hipótese, como muitas outras. Gustavo, você concorda com o que eu falei? - Essa seria uma maneira rápida para eu me livrar do Transroca, mas eu nunca seria capaz de matar uma pessoa. Kall, eu quero que você resolva o mais rápido possível, pois se a polícia local interferir no caso, o assassinato será amplamente divulgado na imprensa e isso poderá provocar a minha falência. - Gustavo, por que você comprou o navio de Peter Korda? - Achei que seria um bom negócio, mesmo tendo ocorrido a tentativa de assassinato da Sra. Lívia Densher. Durante alguns anos, o Transroca me deu muito lucro, mas depois eu não tive muita sorte e estou colecionando dívidas. - Como era Peter Korda? - Uma pessoa boa. - Por que ele vendeu o Transroca a você? - Não sei, Peter não especificou os motivos. - Ele tinha quantos anos? - Acho que beirava os trinta.

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Nada mais do que a verdade!
O capitão Marco pediu aos passageiros que eles comparecessem ao salão Shilde, onde eu iria concluir o mistério e anunciar o nome da pessoa que matou o tal biólogo. A viagem iria terminar em breve e eu tinha pouco tempo para explicar a minha linha de raciocínio. O capitão Marco não perdeu a chance e subiu mais uma vez ao palco para fazer um outro discurso: - Senhores passageiros, espero que tenham se divertido bastante. Como vocês puderam presenciar, aconteceu um assassinato no Transroca e .... Mas, o capitão foi interrompido pelo italiano Nicolas Pioli, que exclamou: - Vamos logo ao nome do assassino! Subi ao palco e iniciei a minha explicação: - Comecei a investigação quando fui à cabine de Gláucio. Nessa oportunidade, encontrei vidros quebrados no chão, denunciando que o biólogo estava fazendo alguma experiência. Alguns livros estavam esparramados pela cabine. Folhei um e achei uma foto da Sra. Ana Pontes, com a seguinte dedicatória: “Com amor para Gláucio”. Pensei que eles pudessem ser irmãos ou namorados. Ana confirmou-me a primeira hipótese. Por isso, constatei que ela teria motivos para assassiná-lo, já que Gláucio era o filho mais querido dos pais, por ter se destacado na profissão. Não demorei muito também para saber que o Gustavo tinha motivos para esfaquear o Gláucio. O Transroca estava falindo e com a morte de um passageiro, Gustavo teria o navio apreendido e não precisaria mais pagar as despesas dele. Gláucio ficava o dia inteiro fazendo experiências e, por isso, Gustavo não teria dificuldades para matá-lo. - Diga logo quem é o assassino! - disse Nicolas, impaciente - Descobri também que Peter Korda tinha sido o antigo dono desse navio. Lembrei da conversa que tive com Rafael Benton no primeiro dia de viagem. Ele perguntou-me se o Transroca faria uma parada e onde ela seria. Achei o fato muito estranho, pois uma pessoa que viaja de navio normalmente conhece o percurso que ele fará. Logo suspeitei que o Rafael estava escondendo alguma coisa. Ao longo das investigações, tive a certeza de que ele era o Peter Korda, o antigo dono do Transroca. Que motivos Rafael Benton, ou melhor Peter Korda, teria para matar Gláucio? Essa pergunta permanece, até o momento, sem resposta. - O Rafael é o assassino? – indagou o capitão Marco. - Calma, capitão. Em um determinado momento, descobri que a Sra. Shalom, a dona da Pensão Shalom, comercializava insulina. Quando comentei isso com Amanda, ela lembrou da experiência do biólogo e disse que ele não estava descobrindo a fórmula de um novo detergente, e sim a cura da diabete. Para chegar a essa conclusão, Amanda se baseou na seguinte informação: Gláucio havia dito que o novo detergente era isento de açúcar. Amanda refletiu e levantou uma questão interessante: por que uma pessoa diria que um detergente era isento de açúcar? A essa descoberta, eu acrescento o fato do biólogo ter comprado açúcar no porto de Panarama. Certamente, esse produto estava sendo usado, de alguma forma, na nova fórmula, embora o tal biólogo dissesse que ela era isenta de açúcar. Com isso, descobri que a Sra. Shalom teria motivos para assassinar o tal biólogo, afinal se ele descobrisse a cura da diabete, ela poderia deixar de trabalhar com tráfico de insulina. Mas, e Lucas, o companheiro de quarto da senhora Shalom? Ele me disse que estava

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viajando, pois a Sra. Shalom havia pago o cruzeiro como uma forma de premiação pelos serviços prestados por ele. Uma mentira! Lucas é na verdade um filho adotivo da Sra. Shalom. Tive a certeza quando olhei a ficha de inscrição dela no Transroca. No documento, constava o sobrenome Shalom logo após o nome de Lucas. Um erro primário, que me fez levantar uma hipótese: Lucas poderia ter matado o biólogo como forma de agradecer a tudo o que a Sra. Shalom fez por ele. Talvez por temer que isso fosse acontecer é que a Sra. Shalom escondeu a verdadeira identidade de Lucas. - Kall, diga logo quem é o assassino de Gláucio. Não estou aguentando de tanta curiosidade - insistiu o italiano. - Bom, a arma do crime foi encontrada na cabine de número cinco da segunda classe, a de Rafael Benton, ou melhor Peter Korda. Era a faca que foi usada para matar o biólogo Gláucio. Agora, chegou a hora de eu falar o nome da pessoa responsável pelo esfaqueamento. Há alguns anos, Gláucio ainda era um biólogo desconhecido e tinha como parceiro de experiências Bruno Kiesk, um jovem recém–formado na Faculdade de Medicina da Califórnia, nos Estados Unidos. Após muitas experiências, Bruno e Gláucio encontraram a cura do emoglion, um famoso vírus que se multiplica no organismo humano. Com essa descoberta, os dois ficariam teoricamente famosos, mas não foi o que aconteceu. Por ter mais anos de experiências, Gláucio destacou-se mais, recebendo todos os créditos pelo feito. Bruno sonhava em ser o melhor biólogo do mundo, mas ao ver que isso não estava se tornando realidade, decidiu cometer suicídiu. - Kall, pare de contar histórias. Diga logo quem é o assassino – insistiu Nicolas, mais uma vez. - A mulher de Bruno ficou muito chocada com a morte dele e jurou vingança, jurou matar o Gláucio, pois considerou que o biólogo era o culpado pela morte de seu marido. A esposa de Bruno soube que Gláucio iria fazer um cruzeiro no navio Transroca e acreditou que seria a melhor oportunidade para matá-lo. Ela tem o nome falso de Lívia Densher. Foi ela quem matou o tal biólogo. A esposa de Bruno soube que, há dez anos, uma mulher chamada Lívia Densher havia sofrido uma tentativa de assassinato no navio Transroca. Com isso, fez três cicatrizes em seu corpo e se transformou fisicamente para se parecer com a verdadeira Lívia. Depois disso, ela só teve que falsificar a carteira de identidade e utilizar o nome Lívia Densher. Comecei a desconfiar quando ela me chamou ao ambulatório, após ter sofrido um pequeno desmaio no baile à fantasia. Afinal, eu não sou médico! O que um detetive poderia fazer no ambulatório? Nada. Ela queria que eu visse as cicatrizes para se fingir de vítima e complicar as minhas investigações. O primeiro sinal de que ela estava usando uma identidade falsa foi dado quando ela me disse que teria trinta e cinco anos de idade. Ora, se esse crime aconteceu há dez anos, a verdadeira Sra. Lívia Densher deveria ter quarenta e cinco, conforme me informou o meu velho amigo Marquês. Mas, como a falsa Lívia conseguiu matar o biólogo? Foi muito simples. Ela entrou no quarto do Rafael Benton e se escondeu dentro da cabine dele. Enquanto o biólogo realizava as experiências, ela bateu a mão na porta de ligação como se quisesse entrar. Gláucio pensou que era o Rafael e, como tinha uma cópia da chave, imediatamente abriu a porta. Nesse momento, Lívia encravou a faca em seu coração por duas vezes seguidas. A marca de raspão foi apenas tapeção, pois o biólogo não reagiu ao assassinato. Se ele fizesse isso, impediria o crime, pois era muito mais forte do que a falsa Lívia. Mas, por que a faca apareceu no quarto do Rafael? Por um simples motivo: antes que eu descobrisse, a falsa Lívia já tinha a certeza de que ele era o

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Peter Korda e que, consequentemente, era um dos suspeitos do assassinato. Ela precisava se livrar da arma e acreditou que essa era realmente a melhor oportunidade. Com isso, concluo as investigações. Acredito que essa linha de raciocínio é a mais prudente para a solução do caso, mas confesso que outras existem e sempre existirão. Confesso também que alguns mistérios terminaram sem uma explicação lógica, mas isso é compreensível. Afinal, se um mistério fosse totalmente lógico, ele não seria um mistério. * Nunca saberei dizer qual tipo de negócio Nicolas Pioli e Rafael Benton estavam concluindo dentro do navio Transroca ou por que Ana Pontes não viajou com o filho. Muito menos posso afirmar quem foi o autor da maldita carta que me acusou de ter matado o tal biólogo e por que havia um toco de cigarro dentro da cabine de Gláucio. Uma investigação sempre termina com uma ou outra pergunta vaga e essa não foi diferente. Chegamos ao porto de Parja no horário marcado. A falsa Sra. Lívia Densher foi levada para uma delegacia local e Amanda me deu um presente, um presente inesquecível: ela finalmente estava grávida.