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A PERSONAGEM FEMININA HELENA, DE MACHADO DE ASSIS

Neli Bissoli

RESUMO: Este estudo aborda a caracterização da personagem feminina no romance Helena, publicado por
Machado de Assis, em 1876. Mais voltado para o entrecho romanesco, o texto apresenta uma intriga
complicada, à base, de provavelmente, uma seqüência programada de acontecimentos surpreendentes, jogando
com o interesse do leitor até o final.
PALAVRAS-CHAVE: Helena; personagem; Machado de Assis.

Machado de Assis usa de uma fina elegância ao escrever, com rápidas pinceladas na

composição da personagem com muita descrição. Na narrativa brasileira, ele introduz a moda
do capítulo curto, quase uma cena, dirigindo-se sempre que possível ao leitor, como se ele
estivesse em constante diálogo.

FINA IRONIA E AS MULHERES ESPECIAIS
Os romances de Joaquim Maria Machado de Assis escritos após 1880 passam a

acentuar certa crítica social. Assumindo assim uma fina ironia quando focaliza certas questões
delicadas como casamento e adultério. Ele focaliza as personagens com espírito de análise.

Machado de Assis usa a ironia em Helena, quando Salvador e Camargo desempenham

uma mesma função social. Ambos tentam colocar suas filhas em situação de bem estar
econômico.
Machado de Assis acredita que nos indivíduos existem sempre intenções supostas para
objetivos reais.
Na criação romanesca machadiana estão presentes as mulheres especiais: dissimuladas,

ambíguas, sensuais, astuciosas; elas não têm a fragilidade da mulher romântica. Ele via a
mulher como um ser dominador.

Machado de Assis procura atribuir às mulheres nomes bem sugestivos: Capitu,

sugerindo a idéia de capitã, comandante; Sofia, sugerindo a idéia de sabedoria; Iaiá, tendo a
idéia de patroa (LAJOLO, 1980).

Mestranda em Letras: Literatura Brasileira, do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, professora da rede
municipal de ensino de Mar de Espanha. Professora orientadora: Nícea Helena Nogueira.

As personagens machadianas são profundamente brasileiras, ele evita falar de índios

coloridos e tipos regionais, ao contrário de José de Alencar, por exemplo, que escreveu
Iracema, O guarani.

A brasilidade de Machado consiste na fidelidade com que o romancista traz para seus
romances o ambiente da sociedade urbana brasileira, miniaturizada nos salões e grupos
humanos do Segundo Império e dos primeiros anos da República.

Machado de Assis recria em seus romances o mundo Brasileiro, a sociedade arcaica,
cujos hábitos antigos e cerimoniosos e cujas atitudes convencionais dissimulavam na boa
educação e nos modos polidos.
PERSONAGENS
Os primeiros capítulos do romance Helena têm como objetivo mostrar a personagem

principal em ação. Ela é bonita, dócil, afável e inteligente, era pianista, sabia desenho, falava
francês, entendia de costuras e bordados, lia admiravelmente e conversava com graça. “Havia

nela a jovialidade da menina e a compostura de há da mulher feita, um acordo de virtudes
domésticas e maneiras elegantes” (ASSIS, 1997, p. 30). Trata-se de um perfil ideal da figura

feminina, naturalmente calcado sobre uma visão, insustentável para os nossos dias, do papel
social reservado à mulher (CINTRA, 1997, p. 9).

Estácio tinha vinte e sete anos, era formado em matemática. Seu pai, o Conselheiro

Vale, tentara fazer com que ele despertasse interesse pela política, depois na diplomacia. Mas
nenhum desses projetos teve começo de execução. A política o aborrecia. Educado à maneira
antiga e com severidade e recato, viveu a vida de família. A vida política era turbulenta
demais para o seu espírito.
O Conselheiro Vale era pai de Estácio. Gostava de jogar partidas de voltarete na casa de

um desembargador, seu amigo. Ele não figurava em nenhum grande cargo do Estado, ocupava

elevado lugar na sociedade pelas relações adquiridas, educação e tradições de família. Seu pai

fora magistrado no tempo colonial. Tinha idéias políticas, colhidas nas fronteiras
conservadoras e liberais.
D. Úrsula era a irmã do Conselheiro. Contava com seus cinqüenta e poucos anos. Era

solteira e vivera sempre com o irmão, cuja casa dirigia desde o falecimento da cunhada.

Dr. Camargo era médico e velho amigo da família. Tinha 54 anos de idade, mesma

idade do Conselheiro. Era pouco simpático à primeira vista. Tinha as feições duras e frias, os
olhos perscrutadores e sagazes. Falava pouco e seco. Ele amava sobre todas as coisas e

pessoas uma criatura linda, Eugênia, sua filha única e a flor de seus olhos. Amava-a de um
amor calado e recôndito.
Seus sentimentos não vinham à flor do rosto. Tinha todos os visíveis sinais de um
grande egoísta; contudo, posto que a morte do conselheiro não lhe arrancasse uma
lágrima ou uma palavra de tristeza, é certo que a sentiu deveras. [...] Era difícil saber
se Camargo professava algumas opiniões políticas ou nutria sentimentos religiosos.
Das primeiras, se as tinha, nunca deu manifestação prática; e no meio das lutas de
que fora cheio o decênio anterior, conservara-se indiferente e neutral. Quanto aos
sentimentos religiosos, a aferi-los pelas ações, ninguém os possuía mais puros. Era
pontual no cumprimento dos deveres de bom católico. Mas só pontual;
interiormente, era incrédulo (ASSIS, 1997, p. 18).

Eugênia era de pequena estatura, tinha o cabelo castanho escuro e os olhos grandes e
azuis, era naturalmente elegante.
Padre Melchior, além de padre, era amigo da família.

Luís Mendonça era o melhor companheiro de aula de Estácio. Ele era folgazão e ativo
(torna-se namorado de Helena).
O Dr. Matos amigo da família era um velho advogado, que em compensação da ciência

do direito, que não sabia, possuía noções muito aproveitáveis de meteorologia e botânica, da

arte de comer, do voltarete, do gamão e da política. Gostava de criticar os liberais e
conservadores. O que ele mais gostava mesmo era jogar gamão depois do jantar.

A esposa do Dr. Matos era uma das belezas do Primeiro Reinado. É descrita, no

romance, como uma rosa sem viço, mas que conservava o aroma da juventude.

O Coronel Macedo tinha visto e vivido muito. Possuía imaginação viva, fértil e

agradável, devido a sua experiência. Tinha dois filhos, um rapaz de vinte anos, que estudava
em São Paulo, e uma moça de vinte e três anos, mais prendada que formosa.
D. Tomásia era a mãe de Eugênia e esposa o Dr. Camargo.

Salvador era pai legítimo de Helena. Possuía muito amor e muita esperança. Era pobre.

Salvador e Ângela, pais de Helena, de início, estavam ligados pela miséria e pelo amor.

Ângela, mãe de Helena, foge com Salvador (tinha vinte anos quando ela deixa a casa

paterna). Era um complexo de qualidades singulares. Capaz de suportar as maiores angústias,
era forte e risonha no meio das máximas privações. Ângela nasceu metade freira e metade
bailarina. Capaz das austeridades de um claustro, não o era menos das pompas da cena.
Moema era o nome da égua (nome indígena) que Helena gostava de cavalgar para ver

seu pai legítimo Salvador às escondidas. Helena cavalgava todas as manhãs até a casa de
bandeira azul a fim de conversar com seu pai e matar saudades, sem que ninguém soubesse.

A não consangüinidade de Estácio e Helena não basta para legitimar o casamento entre

irmãos meramente formais. E, além disso, o moço iria repartir o capital familiar com uma
estranha.
Segundo Luis Felipe Ribeiro: “Este é um pecado imperdoável na literatura do século XIX

e, por isto, encarrega-se o narrador de eliminar Helena, de forma a que, caprichos à parte, o
capital continue intocado e dentro do clã legítimo” (RIBEIRO, 1995, p. 245).

Salvador, o pai de Helena, em conversa com Estácio, conta que Ângela mentiu para o

Conselheiro, ela não disse o motivo da viagem de Salvador (que viajara para ver seu pai que
estava muito doente e à beira da morte). O Conselheiro também não sabia o nome dele.
Ângela diz, mais tarde, que Salvador estava morto.

O pai de Helena tentou emprego no colégio em Botafogo, em que Helena estudava, para

ficar mais próximo a ela, mas não conseguiu. Ângela morreu daí um ano.

Uma escrava do colégio servia de intermediária entre ambos. Salvador pagava essa

escrava para que pudesse ver a filha.
O romance Helena por ser, talvez, o primeiro que tenha por tema central as relações

jurídicas com arcabouço social, merece aqui interesse específico. Encontramos nele as raízes
do que a crítica chama de fase madura do escritor, que tem início com a publicação das
Memórias Póstumas de Brás Cubas. Em todos eles, as figuras femininas têm papel central,

ainda que o seu tanto disfarçado pela presença de um protagonista masculino. A problemática
do casamento sofre aí uma análise profunda.

A sua narrativa não parte da ilusão – o que é comum na ficção –, mas do seu contrário:

a narração é que pode gerar ilusão.

Segundo Antenor Rodrigues (2006), é importante lembrar que o ingrediente do amor e

morte é trazido à cena, inicialmente, pela citação de duas obras literárias de infeliz desfecho.

Helena conta ao irmão que vasculhara a sua estante em busca de um livro. Ele pergunta se
seria Paulo e Virgínia. Helena respondeu que encontrara Manon Lescalt. Estácio fez uma

exclamação de reprovação e disse que aquele não era livro para moças solteiras. Ela retrucou
e, quando percebeu do que se tratava, deixou-o de lado (RODRIGUES, 2006, p. 136).
O que surge nessa passagem são duas histórias de amor. Paulo e Virgínia morrem

apaixonados e Manon Lescault conta a saga da jovem sibarita que após ser presa e confinada
na Salpetriere, em Paris, é deportada para a América e morre em campos estrangeiros para
desespero de seu amado, o cavaleiro de Grieux. A atmosfera das duas novelas citadas recria
um clima de amor e morte, tal qual a história de Helena e Estácio (RODRIGUES, 2006, p.
136).

Helena e Estácio se gostam, mas ela tenta arquitetar essa situação: “aceita” o suposto

casamento com Mendonça; casamento este de conveniência. O que colocaria em risco a nova
situação, cuidadosamente arquitetada, e revelaria à sociedade o cálculo de que se originara.

Ela arquiteta a aceleração do matrimônio de Estácio e Eugênia, de forma a construir uma
situação estável e de pouco perigo para todos. É o que pedia a moral da época, não o que
aconselharia a autenticidade amorosa.
NO CONTO, UM ESBOÇO DE HELENA
O conto “Frei Simão” (ASSIS, 2007) também de Machado de Assis, relata um rascunho

do romance Helena. Frei Simão era um frade da ordem dos beneditinos, que também sofre

por amores de uma linda moça chamada Helena. Mas seus pais não consentiram à união dos
dois apaixonados.
Helena era uma bela moça órfã de pai e mãe, prima de Simão; que haviam por sua

morte deixada ao pai de Simão o cuidado de educarem e manterem.

Simão e Helena se apaixonaram; mas seus pais não aprovaram esse namoro. Quando o

pai de Simão descobriu, logo arrumou um jeito de fazer com que Simão se distanciasse de

Helena. Então, enviou Simão para a província, para a casa de seu amigo Amaral, inventando
um pretexto para que ele ficasse por lá um bom tempo. Os dois apaixonados choraram,

ficaram muito tristes na esperança que essa viagem durasse pouco. Mas conseguiram arrumar
um jeito de se corresponderem e escreveram cartas amorosas um ao outro, o que durou pouco,
pois, os pais de Simão descobriram que eles se correspondiam.

Seus pais não deixavam que as cartas chegassem até eles. Obrigaram Helena a se casar

com um honrado lavrador. E enviaram a Simão uma longa carta. Simão a recebeu, leu-a
trêmulo e pálido, a notícia que Helena tinha morrido.

Simão ficou arrasado e resolveu se dedicar à ordem religiosa. Entrou então para o

convento.
Tempos depois, ele foi obrigado a ir à província natal em missão religiosa. Nessa

viagem, aproveitou para visitar seus pais e seguiu para o interior onde faria sua pregação. Já

ao final da pregação entrou na igreja um casal; que depois de tomarem água benta, colocaramse ambos em lugar donde pudessem ver facilmente o pregador.
Ouviu-se um grito, era Helena que acabou por desmaiar. Frei Simão teve que parar seu
discurso, enquanto temeu ao acidente, pode ver o rosto da desmaiada, era Helena. Frei Simão
continuou seu discurso, este por sua vez era sem nexo, sem assunto, um verdadeiro delírio.

A pobre Helena não resistiu à comoção. Dois meses depois morreu, deixando o marido

inconsolável. O delírio de Frei Simão durou por alguns dias, recolhido ao convento, tornou-se
ainda mais solitário e taciturno, morrendo em seguida. A cela de Frei Simão de Santa Águeda

esteve por muito tempo fechada. Só se abriu algum tempo depois, para dar entrada a um
velho; que nada mais era o pai de Simão. A mãe tinha morrido. Ele também se finda doido,
tanto quanto frei Simão de Santa Águeda.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluí-se que o conto Frei Simão é um rascunho do romance Helena.
Helena morre de amores, mas sem que o encontro amoroso real se concretize entre os
pressumíveis irmãos, ainda que a lei não o proibisse.

No romance Helena as personagens são focalizadas dentro de uma visão de análise.

O interesse social e econômico é notável quando ambos os pais de Helena e de

Eugênia querem que suas filhas se casem com Estácio, no qual tem uma situação favorável
em ambos os sentidos.

Machado de Assis cria mulheres que são tidas como um ser dominador. A figura
feminina tem papel central em suas obras. Ele recria o mundo brasileiro, a sociedade arcaica,
cuja boa educação e os modos polidos são visíveis.

Helena e Estácio estabelecem um clima de amor e morte, em que ela prefere, em um

final melodramático, a morte.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSIS, Machado de. Frei Simão. A garganta da serpente. Disponível em:
<http://wwwgargantadaserpente.com/coral/contos/massis_freisimao... >Acesso em: 14 de
junho de 2007.
______. Helena. 4. ed. São Paulo, 1997.
CINTRA, Ismael Ângelo. Apresentação (Helena). In: ASSIS, Machado de. Helena. 4. ed. São
Paulo, 1997.
LAJOLO, Marisa. Machado de Assis. São Paulo: Abril Educação, 1980. (Coleção Literatura
Comentada).
RIBEIRO, Luís Felipe. Mulheres de papel: um estudo do imaginário em José de Alencar e
Machado de Assis. Niterói: UFF, 1996.

RODRIGUES, Antenor Salzer. Machado de Assis, caracteres e destinos. 2006. 1727.
Dissertação (Mestrado em Letras: Literatura Brasileira) – Centro de Ensino Superior de Juiz
de Fora, Juiz de Fora, 2006.

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