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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

Faculdade de Filosofia e Ciências humanas- FAFICH
Ciências Sociais 2014/2
Laurene Marquesane Oliveira da Silva

O Buriti Bom.
Trabalho

apresentado

à

disciplina

Sociologia da Literatura do professor
Ronaldo de Noronha, como requisito
mínimo para obtenção de nota e aprovação.

Belo Horizonte, 2014

nunca tivera notícia. e uma vez mais vemos Miguel ao volante de seu jeep – naquilo que se considera ser o 'presente' da narrativa –. o moço para no mesmo local em que havia descansado há um ano. à fazenda do Buriti Bom. ―Teso. Miguel voltava àquele lugar. Graficamente. Percebemos assim que a obra é quase toda contada por flashbacks. bem como do serão de despedida. uma vez que suas concepções e valores são alterados pela experiência da leitura. em maio. (ROSA. longe. ou seja. na manhã em que Miguel partira. moco da cidade grande que resolve voltar à fazenda um ano depois de ir embora. Logo após vermos Miguel dirigindo-se à fazenda de nhô Gualberto. 636) Ao volante de seu jeep. Toroso. Do mesmo modo. da família. tomando forma. quando viera a cavalo e travara conhecimento com nhô Gualberto Gaspar. deixando uma vaga promessa de retornar. A história é contada por Miguel. na casa-de-fazenda do Buriti Bom. desejava que de coração o acolhessem. As memórias de sua chegada à fazenda. onde passará a noite.‖ A passagem do tempo é relatada por meio de cenas ou . Miguel voltou ao jeep‖.2 O tempo na obra rosiana O tempo no conto O buriti. O conto começa com o regresso de Miguel à fazenda de iô Liodoro: Depois de saudades e tempo. Em alguns momentos. Dos de lá. há um ano: ―Maria Behú – foi a primeira pessoa que Miguel conheceu. Buriti vai crescendo. A reversibilidade temporal no texto de Guimarães Rosa exerce certo controle sobre o leitor. – fatos ocorridos no passado – alternam-se várias vezes.‖ Novamente seguem-se lembranças do serão de despedida. entanto. 1956. planejando passar a noite na Grumixã para seguir viagem até o Buriti Bom no dia seguinte. para em seguida relatar episódios acontecidos em seu primeiro dia de visita à fazenda. porém. desde ano. pertencente ao livro Corpo de Baile. Conquistado pelo desafio. agora. a narrativa toma outros rumos. alheia. a complexidade estrutural de Buriti faz com que o leitor leia em duas direções. quando do regresso de Miguel ao Buriti Bom: ―Relembrando a último. não é cronológico. p. e segue-se uma conversa acontecida entre Lalinha e Glorinha. seu interesse pelo processamento do texto tende a aumentar. há uma espécie de divisor de águas (ou capítulos). até entrar no jogo. Assim o leitor não pode apenas ―passar‖ pela obra. tornase. a narrativa volta ao seu início. no mecanismo da narrativa. então.

. Ao ver a cunhada inquieta com uma brincadeira sua. Após a morte de Maria Behú. Ele existia. p.. cristais de belo bisel..1956 p. e exultavam com o próximo nascimento de Jesus Nosso Senhor. só. uma decodificação não por parte do escritor. Que ficasse ainda. Lalinha ―Chegara em setembro. para o presepe.. vinham com balaios de musgo.‖.. tem o poder do encantamento. até à missa. Sabe-se também que ―No São-João fizeram uma espampã fogueira.‖ (ROSA.‖ (ROSA. penas coloridas de pássaros. A narrativa prossegue: ―Em fevereiro. a palavra.‖ Por meio do valor e riqueza advindos do desvio do uso convencional. que acontece em dezembro: Em certos dias. E era um modo de apenas acariciá-la com as palavras. Glorinha afirma: ―É primeiro-de-abril. as pessoas da família ―na vila ficaram os sete dias. p. – 'Chuva em setembro é chuva cedo.1956. ―dias marços‖.. Carregada de significados é ela que ―age entre o escritor e o mundo sensorial e extra-sensorial. do que um bom conselho de amigo. percebe-se ainda a referência a aspectos culturais.Grande. É ela que traz a tradição. só até a missa de mês.‖.‖ Ao narrador não escapa a lentidão do tempo. em Buriti. A grande beleza do texto de Guimarães Rosa reside na força da palavra: ―Diziam: o Buriti. 190). Ali o andar do tempo era diverso. surgia na varanda uma mansa gente – os pobres do mato. É a palavra na sua força e poder de criação que dá existência ao buriti.. ananases. 1956. 637). Além do decorrer dos dias. barbas-de-árvores. (ROSA.‖ Lalinha adia seu regresso à cidade: ―Sua partida apenas se adiara. 1956. o tempo limpou. Ao referir-se à árvore descomunal o narrador afirma: ―Aquele coqueiro crescido consolava mais do que as palavras procuradas num livro.] No mês do Natal.. p.‖ (ROSA. 631).. parasitas floridas.3 expressões significativas. mas do leitor.' – referiam.‖ Sentimo-nos tocados pela cena dos sertanejos pobres. [. frutas de gravatá. O mesmo narrador comenta uma conversa entre Lalinha e iô Liodoro: ―Ele falou. 638) . feito de modéstia e de inquietos bocejos.

às do leitor. Êle está batendo. tão claro. Dona Lalinha é uma linda mulher. é o som desse instrumento que dá aceso tanto às primeiras impressões do rapaz. De par em par de minutos. Imagino Glorinha casada comigo. que é fôfa. consequentemente. ela quase não fala. Ele começa relembrar sua despedida de Maria do Glória um ano antes ao ouvir o barulho do monjolo. Mulher de iô Irvino. Dotado de forte conotação sexual.4 O Buriti Bom O Buriti é escrito com base nas lembranças de Miguel. a bôca marcada de vermelho forte. a cintura que com as duas mãos se abarca. Se Dona Lalinha se despisse. Simples. Não se escuta sua pancada. além de muitos dos detalhes da vida familar do outro fazendeiro. por exemplo. devido à moral coletiva. Dona Lalinha. relativas aos habitantes do lugar. 627-8) Porém. todo o tempo. quanto às representações gerais dos interditos relacionados ao matrimônio: De repente. roubada. nhô Gualberto Gaspar. como será.] Sôbre o delicado. pela última vez. o monjolo range. não. tão môça. Um corpo diferente de todos. está certo. um corpo formoso. (ROSA. não sonho como seria. 1956. Quase como um monólogo. Pode observar mais nitidamente esse desequilíbrio pelo qual ―o próprio ser se põe conscientemente em questão‖: Eu podia gostar de Dona Lalinha? De Glorinha. Evita conversar. p. reconheceu. no mesmo quarto. Todo o mundo tem de afirmar que ela é honesta. como uma vertigem. Sempre uma mulher casada. remoto. direita. na sala jantar. Despir Dona Lalinha será sempre um pecado. Enquanto vai ganhando uma apatia . 1956. na mesma cama. os lindos pés. cunhada de Glória. quando. como é posível que o marido a tenha abandonado? [. é por seu intermédio que Miguel toma conhecimento da rotina. Ao retornar à fazenda em que esteve um ano antes. Percebemos isso na mesma situação rememorada por Miguel. mais fino. Tem de ser mais honesta do que tôdas. no aroz. esteve a conversar com Glória. eu é que ainda não tinha podido notar. de Maria Behú. (ROSA. Gônzeia. a imagem do passado é evocada. côr-de-rosa. amigo e vizinho de Liodoro. e. Mas então vem o sentimento de transgressão. mais alvo. uma beleza que não se sabe — como uma riqueza inesperada. que passa o tempo todo com o rapaz desde sua chegada ate a derradeira noite no Buriti Bom. Proprietário da Grumixã. 632) No início do conto também temos a interferência de outros agentes. p. na situação dela. enquanto Lalinha e Iô Liodoro jogavam a bisca. Eu teria de ter vivido para a merecer — desde a hora do meu nascimento. eu sei. o barulhinho do monjolo. ele é proibido de se casar com ela. o vivo do rosto. Comigo.

com Iô Liodoro. Assim é que certas injustiças sociais. ele vai narrando o divórcio de Lalinha e descrevendo as características fortes da personalidade do sogro dela: [. possui como amantes as mulheres de seus agregados. o patriarcalismo é reforçado e aceito como única condição de garantir a ordem em uns ―Gerais‖ desprovidos. 60). de certo. mas. mais que o comum dos outros. na sisudez dos antigos. como o adultério de D. 670). antigas instituições de poder continuavam sobrevivendo no sertão. 639) Iô Liodoro em nada diverge do modelo já cristalizado na cultura brasileira de grande latifundiário: um ―homem pelo coreto‖ (ROSA. entrecortada pela duração experiência na intensidade de seu sentimento por Maria da Glória. depois de tanto que enviuvara. no sertão rosiano. e ali permanecendo. com virtude estabelecida. na roça. era vasteza. como que não aceitando nem a ordem renovada. esposa do Inspetor. Por isso é que a percepção da natureza confere um sentido último ao lirismo . no legal: esa autoridade! Dentro das paredes de sua casa. Motivo pelo qual a nora viera para o Buriti Bom. de reservar mulher. Diferente é Gualberto. que para êle já podia parecer desordem. é fato decorrente de que. justamente. pelos seus. o poder público está ausente. Mesmo com a modernização do ambiente rural. as submete ao seu poder. E êle. entretanto. significa um prejuízo —. são justificadas pelos benefícios à família do marido traído. Mas prezava o inteiro estatuto de sua casa. ausente. mais forte que uma lei.] homem punindo pelos bons costumes. sobretudo na relação entre Nhô Gualberto e Miguel. A arquitetura narrativa da vivência afetiva de Miguel não é evocada linearmente. 1956. por natureza. p. (ROSA. bem como as instituições sociais que garantam direitos civis. como consequência. era uma adoração. Disso vem o rigor do sistema paternalista de proteção das camadas empobrecidas que. p. pouco se importando com as relações humanas ou com qualquer envolvimento emocional. Esse mando exercido. O tipo de coronelismo descrito na obra ainda era muito forte. Dionéia. p. que. não queria se casar outra vez. Somente que o amor dêle pela família. perante Deus e perante todos. Via diso. em seu casamento. por exemplo. Para iô Liodoro. 1956. o que. bem que carecia. Presente nas falas de várias personagens. Dona Lalinha tinha de continuar fazendo parte da família. de instâncias representativas que assegurem os direitos dos que necessitam de mais dignidade. dono de terras com atenções voltadas mais para as suas poses e para as necessidades que tem por prezar pela continuidade de sua raiz familiar — impossibilitada por ser ele estéril. encarado por todos à volta como uma autoridade carismática. 1956.5 desconfiada do interlocutor.‖ (ROSA. ―um esteio.

na sua relação com a viagem e no próprio narrar de Miguel como sua vivência constitutiva da subjetividade. a continuidade do existir. fora da vida ordinária. captação poética do real. (ROSA. destroi as margens que o contornam. Abraçava-a. pelo erotismo. ela tinha um vestido amarelo. p.. que é construída quando ele lembra e relembra: O amor não precisava de ser dito. por cima das roupas brancas. seja pela legitimação local de seu proceder. tinha gôsto. são. porque nelas se projeta o seu sertão interno. Tudo o mais me cansa. sòzinha. Como um movido em mente. na festa. em ―Buriti‖. Maria da Glória tinha encôrpo. como as estrêlas estando. Essa atividade humana. Tão linda quanto Dona Lalinha.6 de suas memórias. . resenha do sofrido por tantas lembranças — que uma. os signos que tornam essa experiência legível não permanecem separados. juntas. Maria da Glória ela era cadeiruda e seiuda. na dança e na troca dos pares. movimento do corpo que. com olhos brilhantes e pele bôa e pernas grosas — como as mulheres bonitas no sertão tinham de ser. também ser por isso a falta de questionamento a respeito das atitudes de Liodoro. ao romper seus limites. de maneira nenhuma: ensejam emoções que. como a bôca da gente se enche d’água e o corpo dêle Miguel latejava. Se forcarmos na articulação entre a linguagem e o silêncio na obra. Destarte. Maria da Glória tinha suor e cuspe. mas se configura como a celebração do baile da vida. não simboliza só a passagem do descontínuo ao contínuo. que. tinha cheiro.. Cingia-a pela cima da cintura. nega toda forma de isolamento. o erotismo expande a noção do limite e de sua experiência. 1956. exprimido pelo verbalizar inscrito na memória. 697) Se o erotismo se define pelo segredo e pela solidão. seja pela compreensão de que seu agir está na ordem de um movimento de vida que o excede. comunicam a todos o ultrapassar consciente do homem pelo próprio homem. temos que há um constante erotismo na trama. pelo abismo da descontinuidade que separa os seres. no qual a intermitência do interdito e da transgressão aprende. Transpondo a linha que demarca a fronteira de cada um.

. 2 v.7 Bibliografia ROSA. Olympio. Corpo de baile. João Guimarães. Rio de Janeiro: J. 1956.