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OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO

DIGITAL

OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL
Revista de Direito Privado | vol. 53/2013 | p. 179 | Jan / 2013
DTR\2013\2573
Juliana Evangelista de Almeida
Mestre em Direito Privado pela PUC-MG. Especialista em Direito Civil pela PUC-MG. Professora de
Direito Civil, Empresarial, Consumidor e Digital da Funcesi. Coordenadora de Trabalho de Conclusão
de Curso da Fachi-Funcesi. Membro do Colegiado da Fachi-Funcesi.
Daniel Evangelista Vasconcelos Almeida
Graduando em Direito pela PUC-MG. Monitor de Introdução ao Estudo do Direito I e II da PUC-MG,
São Gabriel. Conciliador do Juizado Especial Cível das Relações de Consumo do TJMG.
Área do Direito: Civil
Resumo: Na sociedade da informação é cada vez mais presente a interação e a inclusão de
arquivos em meio digital. A Internet armazena e torna disponível uma série de dados e informações
de cada um. Após a morte de um usuário de alguma rede social, blog, entre outros, é de se
questionar o que deve ser feito com esses dados. O direito quer tutelar o centro de interesses que se
estabelece com o fim da personalidade desse usuário. Ante isso, é de se questionar o que deve ser
feito com todas as informações, deixadas ao longo de uma vida, após a morte de um usuário.
Discutem-se os rumos do que se denomina de testamento digital.
Palavras-chave: Direitos da personalidade - Testamento digital - Eficácia pós-morte dos direitos da
personalidade - Situação jurídica - Direito digital.
Abstract: In the information society is increasingly present the interaction and inclusion of files in
digital media. The internet stores and makes available a series of data and information from each
one. After the death of a user of any social network, blog, and others, what must be done with this
data should be questioned. Law wants to protect the center of interests that is established with the
end of this user personality. Before this, it should be asked what must be done with all this
information, left during a life after the death of a user. It discusses the direction of what is called digital
testament.
Keywords: Personality rights - Digital testament - Effectiveness postmortem rights of personality Legal situation - Digital law.
Sumário:
1.INTRODUÇÃO - 2.ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS DA PERSONALIDADE - 2.1Natureza
jurídica - 3.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E A MORTE - 4.A ERA DIGITAL - 4.1O direito e os
novos desafios face a era digital - 5.TESTAMENTO DIGITAL - 6.CONSIDERAÇÕES FINAIS 7.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. INTRODUÇÃO
A inovação tecnológica tem afetado de forma incisiva o ordenamento jurídico. Novos desafios se
apresentam aos operadores do direito. Questões antes, nunca questionadas, se põem ante estes de
modo intrigante. Assim é que o acesso à Internet alterou o modo de viver dos homens. Estamos
diante de um novo tipo de sociedade, a sociedade da informação. Nesse novo modo de viver, as
pessoas estão cada vez mais expostas a uma gama, antes inimaginável, de informações. Essas
podem ser de toda natureza, ou seja, notícias políticas, de entretenimento, de tecnologia, e ainda, de
amigos seus ou de pessoas que não se conhecem. O que se quer dizer é que hoje se tem acesso a
todo tipo de informações e, sente-se a necessidade de compartilhar cada vez mais informações,
sejam elas públicas ou referentes à intimidade. Fato é que uma pessoa, hoje, posta, mensalmente,
diversas informações na rede, sejam elas referentes a questões públicas, sejam relativas à sua vida
privada. Ante isso, é de se questionar o que deve ser feito com todas essas informações, deixadas
ao longo de uma vida, após a morte de um usuário.
No desenvolvimento desse artigo o objetivo é analisar o que deve ser feito com esses arquivos que
são deixados na rede ao longo de uma vida. Será que existe algum aspecto da personalidade que
deve ser tutelado pelo direito após a morte? Para isso irá se trabalhar no tópico dois
Páginaas
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e a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. 2. apesar de terem se validado nas proteções recebidas às liberdades públicas. de 1950. previstos nas constituições dos Estados. uma que negava a existência dos direitos da personalidade e outra que afirmava que os direitos da personalidade se constituíam em direitos subjetivos. uma vez que parte do pressuposto que existem “direitos inatos ao homem que são preexistentes à formação do Estado”. Para ele. com elas não se confundem.9 Mas a solução não se apresentou de forma tão simples como se afirma acima. e da escola histórica alemã que desenvolveu a teoria dos direitos subjetivos. tais quais os direitos subjetivos. todo direito fundamental é direito da personalidade. no tópico cinco algumas questões relativas aos arquivos digitais deixados ao longo de uma vida. mas nem todo direito humano é direito fundamental e direito da personalidade. destacam-se: “Textos fundamentais. dos estados americanos (1689). Tradicionalmente. a Declaração de Independência das colônias inglesas as América do Norte (1776). de 1789. afirmando. os direitos da personalidade – direitos subjetivos fundamentais tutelados pelo direito privado.5 que uma série de textos fundamentais surgem com o fito de se proteger essas liberdades públicas. Segundo Almeida8 a conjunção desses direitos nos apresentam como um organograma de círculos conscritos. ou seja.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL características essenciais dos direitos da personalidade. por fim. dentre eles. deveria ser protegida a todo custo. que considerava direitos naturais os de igualdade. portanto a sua existência. de 2000.1 Natureza jurídica Na doutrina civilística muito se discute sobre a natureza jurídica dos direitos da personalidade. ASPECTOS GERAIS DOS DIREITOS DA PERSONALIDADE A atual teoria dos direitos da personalidade recebeu contribuições do cristianismo que trilhou caminhos para o princípio da dignidade da pessoa humana. liberdade. do racionalismo que colocou o indivíduo no centro de todo o direito. todo direito humano é direito fundamental e direito da personalidade. uma negando que os direitos da personalidade possam ser direitos subjetivos e outra afirmando com se verá a seguir.3 A ideia era de proteger o indivíduo contra os abusos do poder estatal. no que se denominam liberdades públicas marcam-se três espécies de direitos a serem protegidos. manifestação da liberdade nas relações privadas. foi de fundamental importância a proteção das liberdades públicas que receberam tutela tanto em declarações internacionais. se formaram duas principais teorias. como o Bill of rights. na proteção dos interesses privados. proclamada com a Revolução Francesa. daí a formação de duas teorias contraditórias. os direitos fundamentais. E por fim. como das constituições de cada país. Acreditava-se que a vontade. têm-se os direito humanos que recebem a proteção em convenções internacionais. que esses direitos fossem protegidos.”6 Observe que no processo histórico para a formação dos direitos da personalidade. conforme Amaral. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. e nem todo direito fundamental é direito da personalidade. 2. No que concerne aos direitos da personalidade era essencial. Ainda se fará uma crítica à concepção da relação jurídica clássica. No embate para se estabelecer qual a natureza jurídica desses direitos é importante salientar que a doutrina civilística da época afirmava o dogma da vontade. segurança e propriedade. não se admitia a intervenção do Estado na vontade dos indivíduos. Assim. Nesse paradigma o direito natural atuou de forma decisiva para a proteção do indivíduo. a Declaração de Direitos de 1793. cada um com a sua peculiaridade. sem vícios do consentimento.1 Afirma-se2 que os direitos da personalidade em um primeiro marco histórico surgiram como liberdades públicas. 4 Destaca-se. ainda. do direito natural que cunhou a ideia de direitos preexistentes ao Estado. Assim. inerentes ao próprio homem. Página 2 . desta feita. Amaral. e. exceto para fazer cumprir essa vontade ou para se garantir que essa vontade nascesse de forma livre. a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. todos eles marcos fundamentais e históricos da construção teórica dos direitos da personalidade. No tópico quatro serão trabalhadas as principais características do que se tem denominado de “Era digital”. 7 afirma que os direitos da personalidade. No tópico três será trabalhado os direitos da personalidade e a sua aplicabilidade ou não aplicabilidade após a morte do titular deste. em 1948. matéria objeto de estudo da doutrina civilística. a Declaração Universal do Direitos do Homem.

Assim. erga omnes. além da concepção personalista da relação jurídica.11 Desta forma. Aquele pressuposto pode perfeitamente ser objeto de relações jurídicas. apenas o detentor da propriedade se relacionando com a mesma. que tem o dever de respeitar a propriedade alheia. além da teoria personalista. “Podemos destacar. Von Thur pondera ser inconveniente falar-se de qualidade jurídica na coisa acessória’. pois é possível estabelecer-se relações jurídicas entre pessoa e coisa. Dabin. objetos de direitos que podem ser titularizados. tomada a palavra no sentido vulgar. em suas lições admiráveis. Enneccerus. Tem-se. como na propriedade. de valores.”13 Com o fortalecimento da teoria afirmativista. abarcando a ideia de sujeição. Unger. que são realmente dignos de salvaguarda jurídica. ‘Acrescente-se a relação jurídica entre duas coisas. e não é identificável com a capacidade jurídica. Talvez os adeptos da concepção clássica afirmariam que o sujeito passivo seria a coletividade. não se está dizendo que a titularidade coincida com o objeto. Naves15 classifica essa corrente de pensamento como uma concepção personalista. Os direitos da personalidade podem ser vistos como aptidão genérica para contrair direitos e obrigações e podem ser atributos inerentes a qualquer ser humano. como muito bem diz Unger. Crome. apenas se está referindo a certos aspectos da personalidade. de bens. Ainda leciona que. “são aqueles entes dotados de personalidade jurídica. as teorias objetivistas e normativista. como no domicílio. e portanto. que estabelecem entre si um vínculo reconhecido pelo ordenamento como vicissitude ou efeito jurídico”. Zitelmann. quais sejam. esses autores negam a existência dos direitos da personalidade. Quando se estabelece os direitos da personalidade o titular do direito e o objeto a ser tutelado são idênticos. via de regra.14 Dessa forma. aquela que a admite a existência de direitos da personalidade. um sujeito ativo. A relação transcende. mas vulgarmente. Desta forma. os direitos da personalidade não têm como o objeto de tutela a própria pessoa. é o conjunto os atributos humanos. de aspectos. Juridicamente. Nela é necessária a existência de três elementos. Página 3 . ou seja. pois a teoria objetivista trata como sendo possível existirem relações tuteladas pelo direito sem a presença de dois sujeitos. portanto. Von Tuhr. há as teorias objetivista e normativista dentro da concepção clássica de relação jurídica. mas A. Um exemplo disso é o direito de propriedade. “a personalidade não poderia ser ao mesmo tempo aptidão genérica para a titularidade de direitos e objeto de direitos”. Para eles os direitos da personalidade não poderiam ser direitos subjetivos uma vez que para a existência desses direitos é necessários que o seu titular seja diferente do objeto a ser protegido. a personalidade é a qualidade da pessoa que em verdade é titular de direito e tem deveres jurídicos.”16 Vê-se que a concepção clássica de relação jurídica se demonstra falha. A primeira defende ser desnecessária a existência de sujeito passivo. numa outra acepção. e entre pessoa e lugar. As teorias que afirmam a existência dos direitos da personalidade se solidificam a partir da década de 50 do século passado. portanto. O Professor Evert Chamoun. Iellinek. como a que se verifica entre uma coisa principal e uma acessória.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL Conforme Tepedino10 os principais expoentes da teoria negativista são: Roubier. “Quer dizer que a palavra personalidade pode ser tomada em duas acepções: numa acepção puramente técnico-jurídica ela é a capacidade de ter direitos e obrigações e é. de parcelas. mas sim a coletividade de pessoas que devem respeitar esse direito. não sendo necessária a presença de um sujeito passivo. pois limita a relação jurídica à condição de os sujeitos terem personalidade. Quando se diz que há um direito subjetivo da personalidade. um sujeito passivo e um objeto. a personalidade é um conjunto de características individuais. o laço social. na tentativa de enquadrar os direitos da personalidade na categoria de direitos subjetivos e. admitido a sua tutela pelo direito privado. como os direitos da personalidade não se enquadram na categoria dos direitos subjetivos eles não recebem proteção do direito privado. Para se entender melhor essa situação é preciso relembrar que o que é relação jurídica em sua concepção tradicional. Ravá e Simoncelli. tenta-se enquadrar esses direitos na categoria dos direitos subjetivos. que se pode chamar acepção natural. que é um direito real.12 Para esses autores. o pressuposto de todos os direitos subjetivos e. ou seja. Savigny. assim. Os sujeitos dessa relação jurídica. segunda a concepção tradicional. expõe de maneira extremamente clara o tema: ‘A personalidade pode ser considerada do ponto de vista jurídico ou do ponto de vista vulgar. Thon. admite que eles tem duas acepções. que são objetos da personalidade sob o ponto de vista jurídico’.

Vale ressaltar que um fato jurídico é sempre um centro de interesses. fato jurídico é formado pelas relações entre pessoas naturais ou não naturais e por fatos da natureza. Quando se trata de direitos da personalidade o que se tem são centros de interesses que são tutelados pelo ordenamento jurídico. segundo a teoria da situação jurídica subjetiva defendida por Pietro Perlingieri24 é a relação entre situações subjetivas.º do CC/1916 (LGL\1916\1) e art. Portanto. Esse comportamento é o conteúdo da relação’. tenderá a ocorrer os efeitos previstos no preceito normativo. defendem que o direito deve ser posto pelo Estado. Há. Naves19 expõe que há autores que argumentam pela revisão da teoria tradicional. há centro de interesses tutelados pelo ordenamento jurídico. Como dito na teoria personalista. ele tende a produzir os efeitos descritos no preceito normativo da norma que o deu origem. diversos autores passaram a criticá-la. é necessário que o direito as proteja. só é relação jurídica quando o fato social se enquadra na hipótese de incidência de alguma norma vigente. serem tomadas como relação jurídica. a hipótese de incidência descreve uma situação abstrata que deve ocorrer para a incidência da norma. a partir do nascimento com vida (art. ou seja. 1. duas relações jurídicas em conexão funcional – relações de cada parte com o ordenamento jurídico’. Sobre o objeto da relação para essa teoria. o que reclama a existência de um objeto que seja diferente de seus titular. Isto posto. ‘Haveria. temos diversas relações que tem relevância para o mundo do direito sem que tenham uma norma regulamentadora para isto. Desta feita não e necessário o enquadramento dos direitos da personalidade como direitos subjetivos. é preciso fazer uma distinção entre fato e efeito. 542 do novo CC). conserva ou extingue direitos. visto que esta se demonstra falha em alguns quesitos. no caso. a concepção tradicional de relação jurídica não consegue abarcar todo o mundo fático. como existem situações juridicamente relevantes. Devido ao modal deôntico. Somente o liame entre pessoa e norma pode resultar em relação jurídica. mas que não tem um sujeito titular. Esta teoria se mostra satisfatória para respaldar as diversas situações que ocorrem no mundo fático. não há que se falar que o sujeito é elemento essencial da relação jurídica. Fato jurídico se encontra no mundo do ser. Portanto. Orlando Gomes assim explica a posição de seus adeptos: ‘Consiste na necessidade ou na faculdade de ter determinado comportamento regulado pela norma. mas seu titular ainda não existe. na situação jurídica. 2. todos doutrinadores positivistas. Esse é o elemento essencial da situação”. segundo Marcos Bernardes de Mello:21 “Se A é. na qual.22 Percebe-se. no contrato. conserva ou extingue direitos. enquanto que seus efeitos encontram-se no mundo do dever-ser. segundo Naves. que cria. desde que tenham relevância jurídica. Uma vez criado o fato jurídico. pois que o sujeito não é um elemento essencial para se ter uma relação jurídica.169 do nosso CC/1916 (LGL\1916\1) e art. Norma jurídica é a ligação por um modal de natureza deôntica de uma hipótese de incidência e um preceito normativo. modifica.23 A relação jurídica. é o exemplo dos nascituros “que podem até receber doação” (art. modifica. como tal.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL “A teoria normativista sustenta que o vínculo da relação jurídica trava-se entre sujeito e ordenamento.”17 Os defensores da teoria normativista. OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E A MORTE Os direitos da personalidade são entendidos como aqueles inerentes à pessoa humana. deve ser B. Os contatos entre pessoas são simples relações de fato. principalmente no que concerne a tutela dos direitos da personalidade. ou seja.º do atual CC)”. ou seja. Página 4 . Para que se possa definir a teoria da situação jurídica subjetiva. não sendo necessária a presença de dois sujeitos.18 são Domenico Barbero. portanto. portanto não dependem exclusivamente de um sujeito. ou seja. um interesse tutelado. Francesco Cicala e Hans Kelsen. para esta concepção. O que Pietro Perlingieri25 argumenta é que. 4. entre eles destaca-se Perlingieri20 que formulou a teoria da situação jurídica subjetiva. Na modernidade. um interesse que se manifesta em comportamento. Naves (2003) afirma que “Sempre há. Existem fatos que ainda não possuem um titular e que mesmo assim são jurídicos. devendo. ou seja. Esta teoria padece de efetividade. pois só se constitui “sujeito”. quando dois ou mais centros de interesses se relacionam se tem a relação jurídica. 3. Fato jurídico é aquele fato que tem relevância para o mundo do direito. as relações de fato tem relevância para o direito. a norma jurídica se caracteriza por ser. pois na prática. só há relação jurídica quando se têm uma norma regulamentadora. já que ele cria. desta forma.

não se teria uma ofensa direta a personalidade do morto. A primeira delas é a teoria do prolongamento da personalidade. mas simplesmente que aqueles parentes são colocados em condições de defender o sentimento de piedade que Página tenham 5 . naturalmente. É sabido que os direitos da personalidade são aqueles direitos inerentes ao ser. isso na concepção clássica de relação jurídica.30 A segunda teoria citada é a teoria da memória do falecido como um bem autônomo. 12 do CC/2002 (LGL\2002\400)?26 Várias teorias tentam dar resposta a isso.29 Ainda. novamente. Essa é a teoria basilar do direito português e guarda substrato nos arts. no direito português. ou seja. conforme Menezes Cordeiro34 os direitos da personalidade que o morto teria se vivo fosse. Com o intuito de resolver esta questão. ter”. nem se quer exigir uma tutela. mas sim da família. mas um direito da família. por estarem atreladas a concepção clássica personalista de relação jurídica. pois o direito está desguarnecido de um titular.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL com a morte há o fim desses direitos. não solucionam o problema da tutela post mortem dos direitos de personalidade. Essa teoria defende que a legitimidade para se proteger a memória dos mortos passaria para os familiares. afirmada por Diogo Leite de Campos. numa prerrogativa que o falecido não pode. neste norte.º do CC/2002 (LGL\2002\400). Ora. por vedação expressa do art. porém. se criaria um direito novo. uma vez que o titular desse direito já não existe? Antônio Menezes Cordeiro27 cita três teorias que considera as mais relevantes. A teoria esboçada por esse autor português não tem aplicabilidade em nosso ordenamento jurídico. sem que se tenha a pretensão de afirmar a existência de correntes doutrinárias claras e bem definidas. não significa que o direito à imagem se lhe transmita.35 Assim como na teoria da memória do falecido como bem autônomo. infelizmente. a memória. o que é tutelado pelo direito. Determinadas pessoas que se encontram em relação de parentesco com o extinto. por exemplo.28 que considera que a morte não extingue a personalidade por completo. Ante esse fato como compatibilizar a proteção dada há alguns aspectos da personalidade de uma pessoa que já morreu. Porém. Essa teoria sustenta que a família. esboçada. não é possível. por Oliveira Ascensão31 e Heinrich Ewald Horster. A terceira teoria trabalha com a idéia da tutela post mortem dos direitos da personalidade e foi denominada por Menezes Cordeiro33 de teoria do direito dos vivos. Contudo. não consentindo. Sá e Naves36 esboçam quatro teorias que tentam explicar os direitos de personalidade após a morte. surge um novo bem jurídico a ser tutelado. portanto. “A pessoa é sempre destinatária ou beneficiária de regras. quem seria o titular da memória violada? Não é possível a tutela de um direito autônomo segundo a concepção clássica de relação jurídica. “Com a morte da pessoa o direito à imagem atinge o seu fim. como auferir a violação a essa memória. Esclarecem que essa divisão se faz por razões didáticas. como faz. podem intentar as ações pertinentes. Essa teoria encontra dificuldades visto que seria um contra senso ter um direito sem um titular. o parágrafo único do art. nessa teoria também falta um titular do direito tutelado. ainda não se resolveu quem é o titular do direito. Apesar de haver a transferência de legitimação para a proteção do direito. 6. por não ser possível conceber um direito sem um titular. tutela-se. ou seja. portanto. algumas facetas da personalidade continuam a existir mesmo após a morte. Como se vê essa teoria tenta resolver o problema proteção dada a um direito de personalidade sem um titular criando um bem jurídico tutelado. Adriano de Cupis37 sustenta que. é possível se falar em direitos de personalidade de terceiros? É como se uma pessoa usurpasse para si uma vertente da personalidade do outro. Isto. exposição ou venda do seu retrato e. têm direito de consentir ou não na reprodução. qual seja. sem um titular. uma vez que. uma vez que não há um sujeito a ela correlato. A primeira teoria apresentada é a de que não haveria um direito da personalidade do morto. Ainda. essa teoria se torna inaplicável. com a morte. (…). 71 e 72 do Código Civil (LGL\2002\400) Português. se sentiria afetada com qualquer ofensa feita a ele.32 Para ela a personalidade termina com a morte da pessoa natural. se a personalidade termina com a morte. não são efetivas. atingida pela ofensa à memória de seu falecido membro. Todo direito subjetivo necessita de um sujeito que seja o seu titular. Neste caso a memória seria um bem jurídico autônomo. apesar de que insatisfatórias. por ter sentimentos de afetos para com o morto. atreladas à natureza jurídica dos direitos da personalidade como direito subjetivo tornam-se incompreensíveis juridicamente.

Morto ele. que se tenha um direito material preexistente. Logo. Nesse sentido. embora a personalidade não exista de fato. encontra-se despido de qualquer conteúdo. os direitos de personalidade projetam-se na família do titular. se há a possibilidade judiciária de se discutir ‘direitos’. conforme art. Como dito anteriormente na primeira teoria proposta por Sá e Naves. Ora. somente este tem o direito de ação contra o transgressor. Segundo essa teoria. ao que parece.º do CC/2002 (LGL\2002\400). Se não há essa possibilidade fática. assim afirma Caio Mario da Silva Pereira: “Não obstante seu caráter personalíssimo. portanto. ao companheiro. a fim de dispor sobre diversos direitos e garantias fundamentais. Mas sabe-se que o direito processual é tido como adjetivo. Essa corrente esta atrelada aos fenômenos recentes que dotaram a atual Constituição da República (LGL\1988\3) Federativa do Brasil de 1988. a qualidade de Constituição Cidadã. aos descendentes. embora essa já não mais exista.44 Como se vê.”43 Pois bem. com a morte da pessoa natural. 6. O que se quer afirmar é que essa teoria não se sustenta.42 A terceira teoria é a de que com a morte se transmitiria a legitimidade processual de medidas de proteção e preservação para a família do defunto. Se a titularidade couber à família. essa teoria afirma que. uma vez que define possível a existência de reflexos da personalidade do morto. Adriano de Cupis (2004) defende o surgimento de um novo direito após a morte com o intuito de solucionar a fundamentação da tutela judiciária. criado. de união estável ou de parentesco. Ao cônjuge supérstite. ou seja. é apresentada a teoria de que há tão somente reflexos post mortem dos direitos da personalidade. é possível haver uma faceta da personalidade sem que essa exista de fato. com a morte. aos ascendentes e aos colaterais até o quarto grau. O que ocorreu é que o ordenamento preocupou em proteger os direitos humanos e fundamentais. não haverá tal legitimação. Sobre isso. estaremos falando de direitos subjetivos. o direito que antes era de titularidade da pessoa. “Ao se dizer que há reflexos de direitos da personalidade (…).40 É um tanto quanto ilógico se pensar em um efeito sem que exista algo que lhe tenha dado razão. sendo que a mesma se extinguiu com a morte da pessoa natural. padecendo de eficiência. Para tanto. reconhecer à família legitimatio ad processum implica. para satisfazer à fundamentação da tutela judiciária”. ao que parece. Essa teoria se identifica com aquela anteriormente exposta. ele serve apenas como forma para a atuação do direito material. a teoria do prolongamento da personalidade. passa para a titularidade coletiva já que haveria um interesse público no impedimento de ofensas a aspectos que. tenta por fim apenas a legitimidade processual. sendo preciso.41 O nosso ordenamento não permite tal teoria. simplesmente.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL pelo defunto.39 Posteriormente. a carta magna se tornou extensa. de um direito novo. tal direito pode ser exercido por quem ao mesmo esteja ligado pelos laços conjugáis. Assim expõe Sá e Naves: “Ora. conferido a certos parentes depois da morte da pessoa. guarnecem a própria noção de ordem pública. em suma.46 é sabido que os direitos da personalidade são aqueles direitos inerentes ao ser.”38 Como se vê. Essa teoria não sustenta uma vez que afirma não se referir ao direito material propriamente dito. a família teria a legitimidade processual. Em vida. pressupõe-se que pode haver conseqüência sem causa”. é possível se falar em direitos Páginade 6 . é porque esses existem e alguém deve tê-los por titular. é apresentada a teoria de que. esta teoria não atingiu o cerne da questão. no mínimo. E sabemos que apenas à pessoa pode se atribuir direitos.”45 Por fim. assim expõe Sá e Naves: “não podemos concordar com o surgimento de um novo direito porque. afirmada por Diogo Leite de Campos. transmite-se a legitimatio para as medidas de preservação e defesa da personalidade do defunto. ainda que não sejam subjetivos. Trata-se. Porém essa questão da legitimatio já esta bem definida na nossa legislação. se a atribuirmos ao morto. posto que a personalidade cessa com a morte da pessoa natural. cujo ‘sujeito’ não é mais pessoa. tropeçamos no problema da intransmissibilidade dos direitos da personalidade. na possibilidade de haver direitos em questão.

nele os participantes. temos que as três teorias propostas por Antônio Menezes Cordeiro47 bem como as quatro teorias proposta por Sá e Naves48 não conseguiram resolver o problema da tutela post mortem dos direitos de personalidade. não deixarão de existir juntamente com a pessoa que a deu origem. sem a necessidade de conhecer inúmeros protocolos de acesso. Para ele. seja através de um celular.1 O direito e os novos desafios face a era digital O direito. porém. 24 horas. Um tanto quanto ilógico. Imagine que. Assim. A ERA DIGITAL A sociedade vem sofrendo grandes mudanças a partir da socialização do computador e da Internet. se o fato aconteceu hoje. No digital.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL personalidade de terceiros? Acredita-se que não. em qualquer lugar no mundo que tenha acesso a Internet. para que se tivesse acesso a um fato relevante para a sociedade era necessária a busca dessa informação em algum jornal. livro.49 qual seja. para.53 em 1970. a Situação Jurídico Subjetiva. são desguarnecidas de um titular. porém sobrevivem algumas produções do titular e há o interesse de se tutelar juridicamente tal situação. 4. Hoje. existem situações/fatos que são tuteladas pelo ordenamento jurídico devido sua relevância. com acesso a qualquer pessoa. Pensou-se que era necessária a criação de uma série de redes à longa distância interligadas. Desta forma. acessariam mais informações. é preciso se pensar na teoria de relação jurídica proposta por Pietro Perlingieri. passe a pertencer ao mundo jurídico . Noticia-se51 que em 1969 o Departamento de Defesa Norte americano pensou em criar um sistema para se proteger de um ataque nuclear russo. basta um click. Com a morte da pessoa natural cessa a personalidade. os aspectos da personalidade que se mantém após a morte figuram em um centro de interesse. Portanto. registrou o protocolo de transmissão/protocolo Internet. que poderão participar de situações jurídicas. entre outros. prenunciava o surgimento da sociedade da informação. executariam mais tarefas. seja através de um computador. em uma visão simples. 50 irão sobreviver. Com a era digital. surge para regular os fatos relevantes para uma determinada Página 7é sociedade. ou seja. para que um fato se torne jurídico. o que muitos denominam de sociedade da informação. imagens. ou seja. caso uma cidade viesse a sofrer um ataque. Para que se dê uma resposta a tal problema. Vivemos essa realidade. A coletividade não pode usurpar uma vertente da personalidade de outra pessoa. nessa sociedade teríamos dois relógios – o analógico e o digital. além de diminuir toda a distância de lugar e tempo. cada vez mais. Essa ferramenta permitiu que o usuário pudesse ter acesso aos mais variados serviços – textos. a Internet interliga as pessoas e proporciona acesso a diversas informações. Essas teorias não lograram êxito já que estão presas à teoria clássica subjetiva de relação jurídica. os fatos são publicados instantaneamente na rede mundial de computadores. 7 dias por semana. No analógico seguiríamos o mundo físico. Em uma breve notícia histórica.52 Alvin Tofler. esse espaço de tempo seria ilimitado. a informação é um bem precioso. sabe-se que a Internet é fruto da guerra fria. É certo que é interesse da sociedade proteger as faces da personalidade do morto. e sim ela aliada a velocidade de seu acesso. ou seja. Conforme visto anteriormente. Para exemplificar. Esse é o caso da tutela post mortem dos direitos da personalidade. Hoje. sons – de forma mais fácil. mas não só ela. nascida em 1989 em Genebra. No ano de 1973 o centro de pesquisa avançada da Universidade da Califórnia. Em um breve apanhado geral. código que permitiu que as diversas redes incompatíveis pudessem se comunicar entre si. entre outros. é possível se criar certas produções que. em um passado relativamente recente. revista. São verdadeiros centro de interesses. foram criadas pequenas redes locais (LAN – Local Area Network) posicionadas em lugares estratégicos dentro dos Estados Unidos e coligadas por meio de rede de telecomunicações geográficas (WAN – Wide Area Network). mas não quer dizer que esta se torna a detentora do possível direito da personalidade existente. por estarem na cloud computing. 4. essa não perdesse a comunicação com as demais. A popularização da internet como um meio de comunicação em massa veio com o World Wide Web (WWW) – a rede mundial. seria notícia do jornal de amanhã.

para que haja fato jurídico é necessária a incidência da norma jurídica no fato material. maior rede social do momento. para baixar uma música se levava aproximadamente 12 minutos. Tal prática acabou por revolucionar o mundo da arte. não consegue acompanhar as mudanças tecnológicas. se encaixe nas normas genéricas já impostas pelo Estado. 55 O direito digital deve dar respostas a esses novos anseios. contas de e-mail. plágio. Além de que hoje até nos celulares se tem Internet de alta velocidade. é comum entre os artistas realizarem lançamento de músicas/vídeos na Internet e disponibilizarem seu download gratuito. pelos conceitos abertos. Mas o que há é a necessidade de os diversos ramos do direito darem resposta aos novos anseios sociais.2012. pelas cláusulas gerais. antigamente. que conseguem acompanhar em tempo real as transformações operadas na sociedade. Hoje o Facebook.57 A Internet. entre outros. três deles são os maiores e há certo equilíbrio entre eles. proporciona uma série de serviços após a morte. Antes se usava aproximadamente 46 minutos de Internet por dia. A adaptação à mudança é uma exigência de sobrevivência da própria norma – esse é o desafio inserido pela sociedade da era digital. ou jurídico. cerca de 18. Diante disso. Efetiva é aquela norma que é observada e cumprida pelos diversos grupos sociais aos quais a norma é dirigida. segurança digital. a Internet mudou a sociedade. hoje se gasta poucos segundos. direito de imagem. não há a necessidade da criação de um novo ramo do direito – o direito digital.27 bilhões (33% da população mundial). segurança da informação. era detentor de quase 95% do mesmo. o site Blue Blus 56 fez um gráfico mostrando as mudanças na Internet desde 2002. posts em redes sociais. Para que essas normas sejam efetivas elas devem refletir a realidade social a qual estão inseridas. concorrência desleal. Em 2002. É uma nova forma de viver e deve ser refletida. como o download ilegal de músicas e vídeos. antes a primeira e maior rede social. em 10 anos esse número praticamente quadruplicou. atualmente se utiliza 4 horas. Compete ao poder legislativo filtrar os valores da sociedade editando normas.1% da população mundial). conhecida como pirataria. a Friendster. ainda. sabotagem. O que ajudou a difundir estes números foi a velocidade do acesso. uma vez que a atividade legislativa. 5. dentre outros. sendo possível o compartilhamento instantâneo de sua vida na rede mundial de computadores. redes sociais. portanto. Com o avanço do tempo aumenta-se a acessibilidade a este dispositivo. as peculiaridades que a Internet pode trazer devem ser tratadas de um modo especial dentro do ramo de direito ao qual afeta. eram 569 milhões de usuários (9. conta com mais de 900 milhões de usuários. Diante dessa nova realidade o direito sofre transformações em todas as suas áreas.500%. na era da informação. royalties. O número de sites subiu. que com o aumento da velocidade e do uso diário da Internet.54 é justamente a tensão entre a jurisdicização dos fatos naturais e a realidade social que está em constante evolução e mutabilidade. Assim. blogs. difundiram-se práticas ilícitas. e muito mais”. Página 8 . antes se levava mais de 16 segundos. Assim. Para mostrar esse avanço. Em se tratando de redes sociais também houve um aumento nos dados. existem diversos navegadores de Internet. processos contra hackers. aumentou-se a exposição de fotos pessoais.04. segundo Hans Kelsen. um navegador dominava o mercado. entre outros após a morte do usuário. Mais quais são os maiores desafios? “Garantir a privacidade. Vale ressaltar. proteção ao direito autoral. a grande instabilidade do direito. subindo para 2. acordos e parcerias estratégicas. Apesar da grande transformação operada na sociedade na era digital. cerca de 6 segundos. tinha 3 milhões de usuários. Como dito. jurisdicizando-o. Essas repostas podem ser dadas pelos princípios. cartões de aniversários a serem enviados por e-mail mesmo após a morte do usuário aos seus entes queridos. As páginas se carregam rapidamente. É certo que a própria Internet também cresceu bastante. atualmente. o que será feito com as fotos. de 3 milhões para 555 milhões de sites. Vale ressaltar também que com o aumento do número de usuário e do uso da Internet. “morrer nos dias de hoje não significa mais cair no esquecimento”. de propriedade intelectual. tais como homenagens. hoje está mais difundido. TESTAMENTO DIGITAL Segundo reportagem veiculada no Jornal Estado de Minas no dia 12.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL necessário que o fato material. Hoje. Naquele ano.

Longe de tentar dar uma resposta definitiva a tão complexas perguntas. o morto não possui personalidade. Já existem mecanismos que visam a interação do usuário mesmo após a sua morte. uma última atualização em um perfil. é preciso apresentar diversos documentos. a fim de se colocar um fim nestas?”58 Assim questiona-se se os representantes do espólio ou parentes do morto podem solicitar a retirada desses arquivos da Internet. que mesmo após a morte ou um último post. se podem restringir o acesso a determinadas pessoas a esses arquivos digitais. dentre eles a certidão de óbito do usuário. a sua imagem. já que esses conceitos estão atrelados à concepção clássica personalista de relação jurídica. que haja um direito autônomo.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL Quer-se refletir que mesmo após a morte do usuário. desprovido de um titular. conforme o caso. Caso a conta seja transformada em um memorial. Para tanto não é necessário que haja um titular de um direito para a proteção jurídica de determinado interesse relevante para o direito. Não se quer afirmar. possa solicitar a retirada dos arquivos pessoais dele. vc (sic) se incomodaria com tal fato? – Poderia haver no testamento uma autorização para quebra das senhas de Internet. mas para isso é necessário que o requerimento seja feito por um representante legal do falecido ou do seu espólio. como outrora. tal qual os direitos da personalidade. mas isso não implica que não haja um centro de interesses a ser tutelado pelo ordenamento jurídico. Ainda. Observe que todas as hipóteses ventiladas pelos servidores permitem que um terceiro. não se pode argumentar acerca de um reflexo da personalidade. pelo exposto até agora. uma vez que se estaria admitindo a existência de um direito sem um titular. etc. depois de uma minuciosa análise do servidor. os parentes poderiam solicitar em juízo o afastamento do sigilo das senhas das contas utilizadas pelo falecido. não se podendo falar em um direito do morto. somente os amigos terão acesso. imagem. dentre outros. Acontece que. honra. Assim. O modelo jurídico aqui adotado é o da relação jurídica como a corelação entre situações jurídicas subjetivas. entre outros. A Página relação 9 . além disso. continuarão disponíveis a acesso na rede. blogs. se há a possibilidade de violação da intimidade ou da privacidade daquela pessoa que já morreu em razão dos arquivos disponíveis na rede. representante ou não do morto. No Orkut 60 é preciso preencher um formulário e anexar a certidão de óbito do usuário. porém não se exige a comprovação de parentesco ou representação legal. para que pessoas ali designadas tivessem acesso às contas de redes sociais. Contudo esse procedimento só é feito em casos raros. são tutelados pelo ordenamento jurídico. tais como a privacidade e intimidade? Neste sentido. se podem ter acesso à conta de e-mail do falecido. Com a morte extingue-se a personalidade jurídica. Mecanismos como um último post em um blog. um último twitter. O desafio que se põe é a imortalidade de tais arquivos. um reflexo da personalidade do morto. se é possível deixar em um testamento autorizando a quebra de senhas de suas contas na Internet. que informa que o procedimento será demorado. para se apagar um conteúdo virtual de uma conta cujo titular já morreu cada rede social adota um padrão de conduta.63 Para acessar a conta de e-mail do Google64 cujo usuário é falecido exige-se que o representante legal envie diversos documentos. ou mesmo. há centro de interesses que deverão ser tutelados pelo direito. e as encerrassem após a morte do usuário? – Mesmo sem esta autorização testamentária. dentre eles a certidão de óbito. Bruno Zampier em seu blog postou os seguintes questionamentos que podem advir dessa situação: “– Os familiares teriam o direito de solicitar o afastamento do sigilo do email ou rede social de uma pessoa para comunicar aos amigos o falecimento desta? – Tal fato violaria os direitos da personalidade da pessoa morta. Tal medida visa preservar o centro de imputação de interesse que surge após a morte do usuário. mesmo após a morte. O F acebook 59 permite a retirada do perfil do ar ou que se transforme em um memorial.61 No Twitter 62 para remover um perfil de um usuário falecido é preciso que o requerente comprove o grau de parentesco com o falecido ou que seja responsável pelo espólio. é que a intimidade. entre outras.. como por exemplo. privacidade. dada a sua relevância jurídica.

são mais de 15. deve-se preocupar com o futuro de tal produção. o “Cadastro Nacional de Falecidos”65 e o “ Profiles de Gente Morta – PGM”. Eles permaneceram até que seja solicitada a sua retirada. há um centro de interesse a ser tutelado. post em redes sociais. a sensação de imortalidade por ser vivida por qualquer um. Como visto. Nos últimos anos o uso da Internet se intensificou. É possível fazer busca por nome. entre outros. Questionase. Existindo ainda a possibilidade de se requerer a certidão de óbito. como. Existem sites exclusivamente voltados para oferecer serviços de pesquisa dos arquivos digitais do morto. entre outros. visto que muito se produz virtualmente. Neste site estão cadastrados perfis de pessoas mortas. mesmo que não haja um direito subjetivo do morto a ser protegido pelo direito. mas sim. enviam dados do óbito. Com o advento da Internet é possível que alguns arquivos da pessoa. honra. uma vez que seria lembrado na posteridade. ou do seu espólio. acreditou-se ser possível a sensação de imortalidade àquele que deixou uma contribuição escrita. A grande questão é que estes arquivos digitais são de extrema relevância. nele é possível se colocar fotos e vídeos correlacionados com ele. após a morte. É certo que se houver a prévia autorização do morto para a retirada ou manutenção dos arquivos virtuais. Esse site conta com contribuições de cartórios e funerárias que sem autorização do morto ou de algum representante. como. os arquivos digitais sobrevivem. É oferecido também um espaço para homenagear o morto. É certo que essa problemática é de extrema importância para a atual sociedade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Sabe-se que a personalidade se extingue com a morte. O outro site relacionado. é uma comunidade que reúne pessoas interessadas pela morte. data da morte. esses podem ser requeridos pelos representantes legais do morto. sobrevivam e fiquem disponíveis a todos. por exemplo. de centros de interesses. vez por outra. Não há um prazo de validade para esses documentos. twitters. Os interesses dos membros dessa comunidade são de investigar as causas da morte. direitos autorais. mesmo após a sua morte. o que dá resposta à ofensa de arquivos digitais deixados pelo morto. É o que já vem acontecendo em alguns cartórios. Na antigüidade acreditava-se que para se tornar imortal era necessário se tornar um herói. esses arquivos têm relevância jurídica e devem ser tutelados pelo ordenamento jurídico. Existe a possibilidade de se enviar e-mails para os amigos da pessoa falecida. mas sim entre situações jurídicas. A Internet cria algo que só era imaginável em filmes de ficção científica. para tanto. honra. redes sociais. são consultados da possibilidade de se fazer um testamento com senhas de contas de e-mail. entre outros. com o advento da Internet. no qual. uma vez ofendidos tais arquivos. por exemplo. Há ainda remissão do perfil de rede social que o morto possuía. por exemplo. além dos gostos pessoais do falecido. É preciso se preocupar com o destino dos arquivos digitais após a morte do indivíduo. Para tanto a idéia de relação jurídica como a correlação de situações jurídicas consegue dar tal resposta. que não pressupõe a existência de sujeitos. privacidade. “Profiles de Gente Morta”. segundo a concepção clássica personalista de relação jurídica.66 O Cadastro Nacional de falecidos é uma espécie de cemitério virtual. Em Página 10 . detentores de direitos subjetivos. ou. em algum livro. Após. tudo o que for publicado. causa da morte ou pela identificação do perfil. é possível pesquisar brasileiros que já morreram. fotos. porém. Desta forma. Existem detalhes a respeito da idade. Não há esquecimento na Internet. Há centro de interesses que devem ser tutelados pelo ordenamento jurídico e estes compões a situação jurídica. um grande guerreiro. Assim é a relevância jurídica do testamento digital. Trata-se de uma situação jurídica a ser tutelada pelo ordenamento. intimidade. ainda. ficarão expostos mesmo após a morte do usuário. ou seja. atualmente. currículo. Em todos os casos é enviado o nome completo e a data do falecimento. a imagem. não é possível falar. Hoje. a sensação de imortalidade. por exemplo.000 profiles. No Brasil destacam-se dois exemplos. de um direito sem titular. privacidade. informações. uma não liberdade imposta a todos de respeitar. haveria direitos da personalidade do morto a serem tutelados? Como se demonstrou. 6. dado os centros de interesses que podem compor. por quem aquele houver indicado. que. velório e sepultamento.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL jurídica estabelecida não é entre dois sujeitos. quais sejam.

Belo Horizonte: Del Rey. 78. CUPIS. Tratado de direito civil português: parte geral. 7. e atual. vol. Diogo Leite. 7. Os arquivos digitais após a morte do indivíduo são situações jurídicas a serem tuteladas pelo ordenamento. Teoría do fato jurídico – Plano da existência. HORSTER. Os direitos da personalidade na era da informática. São Paulo: Saraiva.com. Adriano de. 2006. jul. I. ed. A categoria dos direitos da personalidade. Direito e internet. rev. tais arquivos possuem relevância jurídica e é interessante que o titular desses arquivos manifeste o seu interesse sobre o futuro de sua produção digital. 12. Estado de Minas: caderno de informática. PINHEIRO. Coimbra: Almedina. SÁ. 2004. 5. Página 11 . Rio de Janeiro: Renovar. 2003. FIÚZA. A parte geral do código civil português. Como dito. atual. 2. BRANT. Direito civil – Teoria geral. 12. TEPEDINO. ed. Introdução crítica às categorias jurídicas relacionais: relação jurídica e situação jurídica no direito privado. intimidade. KELSEN. dado os centros de interesses que podem compor.. III. Perfis do direito civil: introdução ao direito civil constitucional. 2003. ed. Rio de Janeiro: Forense. Campinas: Romana Jurídica. Gustavo. PERLINGIERI.-jun. Âmbito Jurídico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA. 2. PAESANI. n. Disponível em: [www. Gustavo. Lisboa: Policop. Francisco. Maria de Fátima Freire de. rev. BITTAR. Juliana Evangelista de. César. 9-29. NAVES. por Maria Celina Bodin de Moraes.2012. CORDEIRO. 2012. 4. Direito civil: curso completo. ed. 1992. 6. Marcos Bernardes de. Bruno Torquato de Oliveira. 2004. 2000. Lisboa: Almedina. 2005. Instituições de direito civil: introdução ao direito civil. 2002. Os direitos da personalidade. RT. honra. Caio Mário da Silva. 2012 AMARAL. São Paulo: Ed. e ampl. 2003. Rio de Janeiro: Renovar. vol. Coimbra: Coimbra Ed. NAVES. t. XIII. 2006. abr. Pietro. Direito digital. 2010. privacidade. Acesso em: out. 42. Belo Horizonte: Del Rey. In: FIÚZA. Rio Grande. NAVES. 2006. 6. Silvio Romero. Teoría pura do direito. ed. ed. BELTRÃO. 2007. Liliana Minardi. 2. ed. p. ed. HERANÇA DIGITAL. 1992. Cássio Augusto Barros. B.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL decorrência disso aumentou o número de arquivos digitais disponíveis para acesso. Bruno Torquato de Oliveira. César. 2. PEREIRA. Direitos da personalidade: de acordo com o novo código civil. Manual de bíodireito. ed. por exemplo. Belo Horizonte. Revista de Direito Privado. A tutela da personalidade no ordenamento civil-constitucional brasileiro. Antonio Menezes. Hans. Direito civil: atualidades. Eduardo C. Direito civil introdução. 2009. Patrícia Peck. Maria de Fátima Freire de. José de Oliveira. 20. por Eduardo C. São Paulo: Martins Fontes. Temas de direito civil. ed. ASCENSÃO.. O que se quer dizer é que é relevante se fazer um testamento digital. 2010. São Paulo: Atlas. Lições de direitos da personalidade. Heinrich Ewald. 9. São Paulo: Atlas. MELLO. SÁ. entre outros. Carlos Alberto. BITTAR. Bruno Torquato de Oliveira (coords). Os direitos da personalidade.ambito-juridico. ed. São Paulo: Saraiva. Belo Horizonte: Del Rey. In: TEPEDINO. 1999. Rio de Janeiro: Renovar.br]. teoria geral do direito civil. como. Rio de Janeiro: Forense universitária.04. CAMPOS. 2011. B. ed. 2. direitos autorais. ed.

21 MELLO. Bruno Torquato de Oliveira (coords..brunozampier. p. 16 Idem. 18 Idem. 2003. Rio de Janeiro: Renovar. Op. Juliana Evangelista de. 5 AMARAL. ed. Francisco. 8 e 9. 17 Idem. Marcos Bernardes de. XIII. In:______. 14 NAVES. ed. p. 15 Idem. Perfis do direito civil: introdução ao direito civil constitucional. 8 ALMEIDA.com. Belo Horizonte: Del Rey.br/]. Maria de Fátima Freire de. 4 ALMEIDA. 8. 78. 13 Idem. Internet postmortem. 2. Juliana Evangelista de. Âmbito Jurídico. cit. jul. Acesso em: 18. Juliana Evangelista de. Francisco. 12. Rio Grande. p. 2 AMARAL. Op. Juliana Evangelista de. cit. p. 1 ALMEIDA. p. 22 Op. p. 10 TEPEDINO. 3 Abaixo se verá que os direitos da personalidade não se confundem com as liberdades públicas. ed. 7. Acesso em: out. SÁ. cit. Temas de direito civil. 23 Idem. Op. In: FIUZA. cit. Pietro. NAVES. 1999.). Bruno. 11 ALMEIDA. 6. Teoria do fato jurídico – Plano da existência. n. 20 PERLINGIERI. César.ambito-juridico. 2002. São Paulo: Saraiva. Direito civil introdução. 17 e 18. Disponível em: [www. 6 Idem. 2012. 2006. Introdução crítica às categorias jurídicas relacionais: relação jurídica e situação jurídica no direito privado. Op. 28. 254. A tutela da personalidade no ordenamento civil-constitucional brasileiro.com. em: [www. 18. Página 12 . cit.04.2010.2012.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL ZAMPIER. 19 Idem. 2003. 12 Idem. Gustavo. p. A categoria dos direitos da personalidade. Disponível br/site/2011/08/internet-post-mortem]. 9 Ideia abstrata que consegue dar maior efetividade a proteção da vontade de cada indivíduo em suas relações privadas. Rio de Janeiro: Renovar. Bruno Torquato de Oliveira. Rio de Janeiro: Renovar. 7 Idem. Direito civil: atualidades.

42 “Art. 12. 1992. ed. Op. Op.º A existência da pessoa natural termina com a morte.. presume-se essa. em casos nos lei autoriza a abertura da sucessão definitiva. para requerer as providências a que o número anterior se refere. 71 (Ofensa a pessoas já falecidas) 1. p. Os direitos da personalidade. 2. ed. e atual. 2. Pietro. 2. 2009. Op. 3. cit. Rio de Janeiro: Forense. ed. 29 “Art. III. cit. Manual de biodireito. 12. Belo Horizonte: Del Rey. ascendente. Direito civil – Teoria geral. 1992. A parte geral do Código Civil (LGL\2002\400) português.” 43 PEREIRA. Bruno Torquato de Oliveira. para requerer as providências previstas no n. Caio Mário da Silva. 2. Diogo Leite. 44 Art. Op. Em se tratando de morto. Se a ilicitude da ofensa resultar da falta de consentimento. 39 SÁ. ed. Coimbra: Coimbra Ed. 6. p. t. 2004. Página 13 . cit. ou qualquer parente me linha reta.” 30 CAMPOS. Coimbra: Almedina. 2 do artigo anterior o cônjuge sobrevivo ou qualquer descendente. 153-154. do CC/2002 (LGL\2002\400): “Em se tratando de morto. Bruno Torquato de Oliveira. 243.” 27 CORDEIRO. cit. Campinas: Romana Jurídica. p. vol. Antonio Menezes. teoria geral do direito civil. Heinrich Ewald. irmão.. e reclamar perdas e danos. NAVES. parágrafo único. Tem legitimidade. em casos nos lei autoriza a abertura da sucessão definitiva. José de Oliveira. 32 HORSTER. 31 ASCENSÃO. 2007. Parágrafo único. Maria de Fátima Freire de. Instituições de direito civil: introdução ao direito civil. neste caso. conjunta ou separadamente. 38 Idem. 33 CORDEIRO. Pode-se exigir que cesse a ameaça. só as pessoas que o deveriam prestar têm legitimidade. sobrinho ou herdeiro do falecido. ed. rev. 515. NAVES. Antonio Menezes. 40 Idem. Diogo Leite.º A existência da pessoa natural termina com a morte. 26 “Art. 2. ou a lesão. 76. 34 Idem. sem prejuízo de outras sanções prevista em lei. ou qualquer parente em linha reta. terá legitimação para requerer a medida prevista neste artigo o cônjuge sobrevivente.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL 24 PERLINGIERI. ou colateral até o quarto grau. 2004. 28 CAMPOS. quanto aos ausentes. 35 “Art. cit. Tratado de direito civil português: parte geral. Op. 20. ibidem. ou colateral até o quarto grau”. Lições de direitos da personalidade. I. Adriano de. 25 Idem. 37 CUPIS. 2000. p. terá legitimação para requerer a medida prevista neste artigo o cônjuge sobrevivente. 6. Os direitos de personalidade gozam igualmente de proteção depois da morte do respectivo titular. 41 CAMPOS. Diogo Leite.” 36 SÁ. por Maria Celina Bodin de Moraes.. Lisboa: Almedina. Maria de Fátima Freire de. presume-se essa. a direito da personalidade. quanto aos ausentes. Lisboa: Policop.

59 HERANÇA DIGITAL.08. Não há prazo de validade para tal armazenamento. 2006.2012. 46 Idem. 49 PERLINGIERI. Internet postmortem.pgmsite. Por meio deste artifício. cit. Op. cit. 63 HERANÇA DIGITAL. NAVES. Direito digital. cit. Cloud computing é o armazenamento de dados na rede mundial de computadores. Maria de Fátima Freire de. Teoria pura do direito. 4. 7. Liliana Minardi. 50 Tradução: computação em nuvem. Hans.com. Bruno Torquato de Oliveira. Estado de Minas: caderno de informática.bluebus. Acesso em: 18. ed. Op. 66 Disponível em: [www. ed. p.org. Bruno Torquato de Oliveira. 47 CORDEIRO. Belo Horizonte. Op. 2011. portanto pode ser feito a partir de qualquer dispositivo que tenha acesso à rede. Op.com.OS DIREITOS DA PERSONALIDADE E O TESTAMENTO DIGITAL 45 SÁ. Página 14 . O acesso a cloud computing tem os mesmos requisitos de acesso à Internet. 5... cit. 58 ZAMPIER. Disponível em: [www. cit. ed. Antonio Menezes. 60 Site de relacionamento social.br/site/2011/08/internet-post-mortem/].br/esse-infografico-mostra-o-quanto-a-internet-mudou-nos-ultimos-10-anos-veja/]. cit. 71.04. 51 PAESANI. p. cit. 77.br]. Direito e internet.com. 62 Microblog digital. 2012. Op. Op.brunozampier. 48 SÁ. Patrícia Peck. Bruno. 12. 64 Idem. 56 Disponível em: [www. 54 KELSEN.br]. a Internet. 61 HERANÇA DIGITAL. São Paulo: Atlas. NAVES. Maria de Fátima Freire de. Op. 57 HERANÇA DIGITAL. Patrícia Peck.falecidosnobrasil. não há termo nem condição resolutiva. 53 PINHEIRO. São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Saraiva. 52 Idem. 65 Disponível em: [www. os dados armazenados em um servidor poderão ser acessados de qualquer lugar e a qualquer tempo. Pietro. 55 PINHEIRO. Op. cit.2012.