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A IATROGÊNIA NA RELAÇÃO MÉDICOPACIENTE

Elida SÁ
Este trabalho aborda a iatrogênia na relação médico-paciente e mostra, ainda, a
evolução histórica dessa relação e a jurisprudência na área.
Unitermos: Iatrogênia, Relação Médico-Paciente

A relação médicopaciente já foi pautada na confiança do cliente e na consciência do
profissional. Hodiernamente, transformouse num contrato impessoal de prestação de
serviços, onde o contratante, consciente de seus direitos, exige eficiência e qualidade no
atendimento, indignandose com falhas, que por ventura ocorrem. E é no insucesso da
cura ou do tratamento que muitas situações jurídicas surgem.
Entre as ações nocivas da equipe de saúde, aparece a iatrogênia, pertencendo a uma
zona fronteiriça entre o quase lícito e o ilícito civil, terreno pantanoso que não possui
marcos jurídicos bem implantados, tem sido pouco analisada pela doutrina e pela
jurisprudência, mais divulgada, contudo, nos meios médicos e nos Conselhos Regionais
de Medicina.
Uma mulher asmática foi terapeuticamente induzida ao uso da cortisona. Durante sua
gravidez , ingeriu altas doses desta substância, dando à luz um feto com má formação, o
qual não sobreviveu. O uso deste fármaco era necessário para que saísse da crise, mas,
na época, não existiam estudos sobre seu efeito em gestantes. Assim, não se pode
afirmar ter havido erro médico, mas inegavelmente ocorreu um dano para o feto da
paciente.
Casos como este despertam a atenção para a questão da responsabilidade médica, não
apenas a decorrente de erros primários ou da omissão de socorro, mas a advinda do
simples atuar ou da falta de atualização do profissional com as últimas descobertas
científicas. As conseqüências adversas nos procedimentos terapêuticos e no diagnóstico,
a imprudência, em cuja gênese pode estar a onipotência do esculápio, devem ser objeto
de estudo jurídico.
De longa data, a responsabilidade médica preocupa o homem, traduzida em legislações
e relatos de punições aplicadas a estes profissionais, quando não lograram o sucesso
esperado pelo paciente ou seus familiares. Enquanto a atividade de curar ficou ligada
aos métodos divinatórios e a doença a culpas e pecados do paciente, não existia
responsabilidade.
O Código de Hamurabi, escrito na Mesopotâmia, por volta de 1.700 a. C., nos artigos
215 usque 223, disciplina a prática médica, tratando do insucesso com punições
diferenciadas, quando o dano é em homem livre ou em escravo. O Código de Manu, no
art. 695, atribui o pagamento de multa para médicos e cirurgiões que exerçam mal a sua
técnica. A Lei das XII Tábuas, como chegou até nós, não cuida do assunto.

quando a ciência ainda não oferece respostas precisas para o problema enfocado. Está mais próxima de uma imperfeição de conhecimentos científicos. propondo uma ruptura com o pensamento mágicoreligioso. com sua racionalidade. Clementino Fraga Filho. pois o procedimento proposto implica seqüela. ao cotidiano do indivíduo. esta relação passa a ensejar a aplicação do Direito. que cuida dos males provocados pela ação do médico ou pelo tratamento por este prescrito". remédio mortal nem conselho que o induza à perdição. e se coloque. enquadramse as lesões previsíveis e também esperadas. Bloon (1965). empregando correta e oportunamente os . por sua vez. porém inesperado. acima de tudo. para agradar. pelo que dizem e não dizem e pelo que fazem ou deixam de fazer" (Moraes. quesurge para viabilizar a vida comunitária. mesmo quando feito descomprometidamente pelo esculápio. agente e meio ambiente" (Scliar. e não imperícia.O Juramento de Hipócrates determina que não se administre. 1996). quando o conhecimento for insuficiente. entre os quais avulta o psicossocial e jurídico. pois para ele a doença estava ligada à realidade. pois o paciente não pode ser dissociado do contexto em que vivia antes de assumir o papel de doente. 1995). ou seja. que é a comunidade. citado no Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda. para o doente fragilizado. ressalta que: "um dos capítulos mais importantes da ciência médica atual é a iatrogênia. Samuel W. base do exercício profissional. É ainda o sábio de Kós que. Ele ocorre em todos os graus. Na realidade. Quando ocorre o insucesso da cura. aborda o dilema do melhor atuar. que "eram inegavelmente responsabilidade civil. conclui que o doente sofre as influências e pressões do grupo familiar a que pertence. penal e administrativa. O ATUAR MÉDICO A relação médicopaciente desenrolase em um campo complexo e dinâmico. agrupase o resultado previsível. troca os preceitos religiosos pela ética. no terceiro. 1996). estarseá diante de verdadeira escusa absolutória ou causa excludente da responsabilidade (Stocco. sempre que o profissional. vislumbrando o conceito de iatrogênia. analisando a relação médicopaciente. Aníbal Bruno. o beneficio do enfermo. pois atribuise "aos médicos e seus auxiliares serem iatrogênicos. modifica posicionamentos anteriores. para o caso. no segundo. mas que decorre do perigo inerente a qualquer procedimento. posto que o "insucesso parcial ou total da intervenção ocorre em razão de peculiar característica inerente ao próprio paciente e. Há de se enfatizar que a iatrogênia não se confunde com o erro médico. às decisões do seu órgão de classe e de seu vínculo empregatício. Irany Novah Moraes advoga a existência de três tipos de iatrogênias: "no primeiro. compondo e prevenindo conflitos. face às repercussões que tem na sociedade. um gesto. com a simulação ou com a máfé. num "esboço de um conceito ecológico de enfermidade. escudando a falibilidade do profissional. está sujeito às regras institucionais. encontram-se os resultados decorrentes de falhas do comportamento humano no exercício da profissão. em maior ou menor grau. do nulo ao óbito. segundo o qual a doença resulta da interação entre ser humano. se essa circunstância não for possível de ser detectada antes da operação. o médico. assevera que "há erro escusável. pode ser interpretado erroneamente. falas passíveis de suscitar o problema da responsabilidade legal do médico". Ambos estão inseridos num contexto mais abrangente.

pode gerar iatrogênia ou erro médico. . O dano para o paciente exsurge também pelo desconhecimento de fatores que. tais como: enfermeiras. O que o festejado autor denomina de erro escusável. Coisificar o enfermo. Para vislumbrar as conseqüências da infantilização e coisificação do doente. ao insistir num procedimento. saneamento. não detectados face a uma aparente conivência e despreocupação em identificálas. Este atuar com conseqüências perniciosas é preceituado por Hoirisch (1988) como "tudo que fosse originado no médico e por ele". que via o paciente como uma patologia. Pode emergir tanto no modelo assistencial. objetivase a constatação de uma situação. ensina William Saad Hossne (1995).conhecimentos e regras de sue ciência. convém citar o efeito provocado pelo abandono do paciente terminal pelo médico e pela família. a de Alexandria. não apenas do profissional. sobre o bem-estar físico. quanto no modelo pericial. transporte . dando importância às relações sociais e psicossociais.S. ministradas ao pé do leito do doente. Para melhor compreensão. No mesmo sentido. a certa onipotência do profissional acarreta prejuízo. somados. pouco com o segundo e nada com o terceiro". farmacêuticos etc. Entre elas. Pela escassez de artigos sobre o tema. Aliás. renda. nos preocupamos muito com o primeiro aspecto. parece que do mesmo mal padecem os juristas. Com razão. tanto da parte dos médicos quanto dos advogados. advir daí um resultado de dano ou de perigo" (Bruno. Na Grécia Antiga. lazer. critica o atuar médico e ressalta que "nós médicos. o dano provocado no paciente pela relativa ignorância. com visões antagônicas.M. trabalho. usando para isso mecanismos de onipotência". como se pode intuir. mas da própria ciência médica. embora. onde este é muito mais que uma simples entidade biológica. mental. psicólogos. reportandose ao conceito da O. mental e social. recebendo influências externas. 1956). quando as relações sociais comprovadamente podem ser o fiel da balança entre a falta de vontade de viver e o desejo de sobreviver. habitação. e voltado para o papel que o médico desempenha na sociedade a que pertence. não são raros os suicídios ocorridos em hospitaisescola. Esse é um conceito muito mais abrangente. emprego. ou seja. Panasco (1979). às vezes um laudo pericial mal interpretado pelo periciado pode até induzir a um suicídio. outros doutrinadores "faute du service" é a iatrogênia. nutrólogos. quando o doente busca a cura para seus males. mas o resultante das adequadas condições de alimentação. estando implícitas não apenas as influências exercidas pelo esculápio. onde não existe a procura da saúde apenas. acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde". sem humildade para admitir um equívoco cometido. que são exatamente as questões que mais causam efeitos iatrogênicos. induzindoo à depressão e ao suicídio. meio ambiente . não raro. várias Escolas de Medicina tiveram importância científica. pois o "médico tem tendência a negar suas limitações. mas por toda a equipe de saúde. depois de auras magistrais. e a de Kós. e não apenas a ausência de doença. educação. não podendo perder a individualidade. social e político". possa. vale lembrar que a Organização Mundial de Saúde define saúde como "completo bem estar físico. chega a uma conclusão falsa. o Conselho Federal de Medicina entende por saúde não "a ausência de doença. que é freqüentemente sacudida por descobertas de novas substâncias ou novos usos para fármacos já conhecidos.

e não o que extraordinariamente possa acontecer. no juízo criminal. pois não é por ter perdido a saúde física que o doente automaticamente fica mentalmente enfermo. desconhecer este fato é desrespeitálo e ferir seus direitos. O procedimento terapêutico foi o correto. esse atuar será avaliado. em especial quanto à saúde pública. pois não se exige do médico anestesista que se abstenha de ministrar as drogas ordinariamente empregadas nas intervenções cirúrgicas. e sim dolo. na regularidade da conduta profissional. mesmo quando adota procedimentos aparentemente adequados. Ele tem o direito de optar pelo tratamento que melhor lhe convier. No entanto. que. pois. enfrentando questões científicas. reconhecer imperícia do cirurgião que opta por determinada orientação técnica recomendada por alguns e censurada por outros. colocálos à sua disposição e com isso formar uma parceria. Outro enfoque é do câncer de útero. Gauderer. não caracterizam a iatrogênia.151). após uma histerectomia. Infelizmente. Em que pese o brilhantismo do ilustre médico. exceto nos casos de cirurgia plástica. É dever do médico. pois "a finalidade é a mesma: médico e paciente conjuntamente empenhados em desenvolver planos terapêuticos. Aí surge a iatrogênia. dissertando sobre o papel do Médico. ou seja. pelo julgador. muitas vezes em situações adversas. A responsabilidade social permeia todo o Código de Ética Médica. para determinar se a terapia era a correta. nos casos de responsabilidade civil. a paciente se suicida. onde. assumindo risco profissional ao decidir se uma operação é ou não indispensável. para acalmar o doente administra substâncias inócuas. p. incite os médicos a empenharemse para melhorar as condições de saúde e dos padrões dos serviços prestados. A RESPONSABILIDADE O termo Responsabilidade vem do latim re spondeo (re prefxo deanterioridade: spondeo. à educação sanitária e à legislação referente ao tema. É claro que se deve considerar que a obrigação. é a capacidade de assumir . A internação e cirurgias desnecessárias. em face da busca desesperada pela saúde e pela cura. por não suportar sua incapacidade de procriar. apenas visando a lucro. por negligência. como se o doente não estivesse presente. com a consciência do atuar e do prejuízo que gera para o seu paciente. em vários dispositivos. sem considerar o consentimento do paciente num momento de emergência. penal e administrativa. assim o médico também não ausculta suficientemente os anseios do seu paciente. Tanto o professor como o médico se queixam com freqüência da falta de motivação ou obediência do aluno ou paciente (Gauderer. Questão diversa é o exemplo do médico que. é de meio e não de resultado. considerando os efeitos benéficos e nocivos. sem que haja informes desaconselhadores de tal conduta. esposar. mesmo sem dolo.quando os doutores professores explicam aos alunos o diagnóstico e o prognóstico. agindo. o compara a um professor que vai transmitir seus conhecimentos ao aluno. provocou dano. no campo da teoria do crime culposo. assim como o professor não costuma permitir ao aluno uma voz mais ativa no seu currículo escolar. Dessa interdependência emerge a importância do atuar médico para o Direito e para as relações sociais. como já entende a jurisprudência pátria. a opção pelo tratamento mais indicado. a previsibilidade objetiva exige a previsão do que normalmente. mas mesmo assim. assumir). Entende a jurisprudência que "não é possível. não podemos concordar com seu onipotente posicionamento. na tranqüilidade de um gabinete.

v. não ensejando responsabilidade civil ou penal. mastectomia. laringectomia. quando o vínculo contratual é com o Hospital. e a última traz embutida a questão da educação continuada. um parente que ministra ao enfermo um remédio não receituado. pela vida contra a morte" (Leal. A DIFERENÇA As ações médicas corretas. Existem fatos que eliminam a responsabilidade. inclusive para Estabelecimentos Hospitalares. até aonde vai um e onde começam os outros. exigível nas áreas civil e administrativa. e não cogitada na esfera criminal. advém de omissões voluntárias ou inobservância de cuidados considerados básicos. Léo Coutinho ensina que "a assistência médica é a única atividade prestadora de serviços em que o usuário. podem ser praticados por qualquer membro da equipe de saúde. a simulação. é partícipe e. o erro e dolo médico. Atualmente. Uma desses excludentes é a conduta do paciente. Na prática tornase difícil distinguir entre a iatrogênia. no exercício da atividade médica. prostatectomia etc. mesmo quando provoquem efeitos psicossociais indesejáveis. 1997). os Conselhos Regionais de Medicina têm reconhecido a responsabilidade de uma forma mais ampla. a força maior e o fato de terceiro. como. . João José Leal leciona que a liberdade da atividade médica e a repressão às condutas delituosas são exigências éticojurídicas e que "esta indispensável liberdade. imprudência ou imperícia. ou de uma omissão de cautela. a segunda geralmente provém de uma atividade positiva. segundo o entendimento do TJRJ. A responsabilidade criminal é mais restrita ainda. muitas vezes. está sob crivo diferente daquele que rege as responsabilidade criminal e administrativa. são iatrogênicas. não traduz uma imunidade profissional. O médico e o hospital não responderão pelo fato. apesar de as punições serem também mais brandas. 1994). nas questões médicas.as conseqüências dos atos ou das omissões. o principal responsável pelo êxito do tratamento. A responsabilidade civil.. que deixa de atender às prescrições. na esfera administrativa. O erro e a iatrogênia. quando um pianista perde a mão e deixa de têla reimplantada por falta de recursos técnicos do hospital que presta o primeiro atendimento. constituindo espécie particular de culpa". como já assinalado. trabalhando pela saúde contra a doença. A responsabilidade civil do médico "somente decorre de culpa provada. por exemplo. e é essa diferença que vai gerar responsabilidade civil. outra é o caso fortuito. de tomar os remédios ou de se abster da prática de atos. Essa participação é voluntária ou involuntária. em alguns casos apenas administrativa. como é notório. e não com o profissional. o paciente.g. Imaginem a questão da responsabilidade civil. os Tribunais estão estabelecendo verbas referentes a dano estético e moral no erro. a cura do paciente. O dever de indenizar decorre de negligência. cabendo ao médico atuar com o objetivo ético de buscar. É uma situação iatrogênica. penal e administrativa. mas sempre decisiva para o êxito terapêutico (Coutinho. com todos os recursos ao seu alcance. A primeira. histectomia. No entanto.

um o do médico. Seu cardiologista receita anticoagulante. mesmo sem registros de efeitos adversos nas experiências realizadas. por desconhecer a gravidez. passou a ser um erro médico. O atuar do profissional que despreza informação importante não é iatrogênico. a sua prescrição. por medo de demissão. na modalidade imprudência. quando o erro é de fato notório. carreando para si o dever de indenizar. agiu com negligência. provocando uma inundação na bexiga. civil ou criminalmente. as bulas recomendam cuidado na prescrição de determinadas substâncias nos três primeiros meses da gestação. Vale consignar o procedimento adotado na tireoidectomia. constatase uma tendência dos tribunais de somente punirem. Essa. cujos efeitos sobre o feto não estão definidos. DA JURISPRUDÊNCIA Além da escassez de acórdãos sobre o tema. praticou uma iatrogênia. Se isso ocorrer. saltando aos olhos até do leigo. e o doente se suicida. sangra anormalmente. A partir do momento em que foram descritos e se descobriu a relação de causa e efeito. um paciente com problemas na próstata e enfartado. obliterando o orifício da uretra. lhe conte a verdade. Merece análise o comportamento de mulheres grávidas que escondem do empregador essa condição. se o doente não for adequadamente preparado para receber a informação. Enquanto não se soube da ação teratogênica desse fármaco. seus efeitos deviam ser considerados iatrogênicos. o entendimento jurisprudencial condenou o profissional por desconsiderar o quadro clínico anormal da paciente. Está claro que houve erro. Se o urologista não verificou a anotação no prontuário. pois o operado ficaria com voz fina. receitada para mulheres grávidas. houve erro. Nesse caso. no entanto. outro o do Laboratório que produzia e vendia a substância. Está claro que a atitude da empregada exime de responsabilidade o empregador. tem-se uma iatrogênia. e o urologista fez punções na próstata para biópsia. em decorrência da medicação. Hodiernamente. que. fazendo avaliações dos efeitos adversos e que se omitiu. Aquele. Se. quando não se pode cortar o nervo recorrente. houve erro do urologista. na forma do Código de Ética. não tinha como obedecer aos dispositivos legais aplicáveis. Este. que tinha a obrigação de realizar estudos experimentais.Um procedimento terapêutico pode iniciar iatrogênico e transformar-se em erro. aberrante. agiu culposamente. como. se o nervo tiver um trajeto anômalo e o médico não estiver familiarizado com essa anomalia. devemse considerar dois aspectos. O paciente declara estar preparado e pede que o médico. para gestantes. pode ser até criminoso. visando a evitar possíveis ações de responsabilidade civil. Em ambos os casos. mesmo sendo do seu conhecimento resolveu fazer. não podem trabalhar com Raio X e na medicina nuclear. não devem ser expostas a radiações. A revelação brutal do diagnóstico e prognóstico pode transformar-se em possante indutor de suicídio. Contudo. com coagulação no seu interior. Nesse sentido. obrou com imprudência. Isto aconteceu com a talidomida. protegida pelo axioma de que a . por ser desconhecida a ação teratogênica. por exemplo. mas. Esse o atende a ele. e não iatrogênia. ou seja. e na falsa avaliação do estado psicológico do enfermo ou sua inadequada preparação para ciência de seu estado. permitindo às famílias das crianças afetadas pela substância o sucesso nas ações indenizatórias.

6) denomina de uma conspiração do silêncio". esses fatos ocorrem constantemente. não podem mais ser aceitas (Leal. Ações penais ou civis são julgadas improcedentes. Fatalmente. A regulamentação profissional não obriga a educação continuada nem a constante atualização. não comporta indenização para a vítima. absolvendose o mau profissional. on peut avec quelque raison dire qu' en fait il faudra une faute professionelle grave pour que la responsabilité d'un médicin soit engagée sur avis conforme des experts" Afirmativas como a de João José Leal de que "tornase difícil (senão impossível) apurar. onde a tecnologia anda a galope. em prejuízo da vítima..arte de curar é ciência inexata da qual podem decorrer imponderáveis numa evolução desfavorável. prevê como crime a falsa perícia. sendo os pretórios severos na exigência da prova da imperícia ou da desídia (Rodrigues. No entanto. que deve socorrerse de um experto. p. no art. à ce point de vue. pois esta. p.. a habitualidade ocorre constantemente. que exclui a imperícia. Ressaltase que o Código de Ética veda o acobertamento de erro ou de conduta antiética de colega. Surge. casos de erro ou de negligência médica. Mas ao juiz cabe decidir entre o erro médico e a iatrogênia. Na área civil a repetição é irrelevante para eximir a responsabilidade. após um plantão de 24 horas. cit. de conduta negligente e imperita. coerente com a dinâmica da vida moderna. dentista ou farmacêutico. através do processo investigatório eficaz e idôneo. apesar de verdadeiras. onde o esculápio foi absolvido. o Código Penal. conseguese obter um laudo positivo. não deve passar in albis outros aspectos que fazem parte do dia-a-dia urbano. 299). O art. cometidos no interior de um consultório ou de uma sala de cirurgia". sem autorização legal ou excedendolhe os limites. abandonar o posto antes da chegada do substituto. 282 do Código Penal dispõe: exercer. No mesmo sentido. contudo. Somente quando o erro é patente. o caso do médico que não pode. face ao corporativismo da classe médica. valendose do entendimento de Museud et Tunc: " il faut bien d'ailleurs reconnaître que les médicinsexperts ont une tendance certaine à exonérer leurs confrères et. op. A falta de fronteiras definidas traz problemas para o julgador. 1977). 342. Para fins de tipificação deste crime exigese a habitualidade. De quem é a responsabilidade pelo que ocorrer nessas condições de pressão e de estafa: do médico que praticou o ato ou da instituição que não providenciou seu substituto? Inegavelmente está ocorrendo uma mudança no posicionamento dos pacientes e de seus familiares. Eles agora não se conformam mais com a singela explicação de que ocorreu . cit. a questão: quais são esses limites? Ensina Celso Delmanto que "tais limites se encontram fixados na legislação especial própria de cada profissão. ainda que a título gratuito. a imprudência e a negligência. Administrativamente. a profissão de médico. então. Foi o caso analisado pelo TACrimSP. por exemplo. por não submeter acidentado a exame de raio X. se tem outro conceito. vai esbarrar no que Panasco (op. no entanto. a prática reiterada. Pela timidez dos juízes em fixar limites civis e penais. como. No entanto. ou seja.

entre leigos. The Free Press. com a maior divulgação dos conhecimentos médicos. das relações médicopaciente. provocando danos desnecessários à população a que atendem. entre outras. para tirar proveito do risco criado. O aparecimento de legislações específicas para pessoas vitimizadas pela sociedade. ou não sabem com quem reclamar. inclusive com o surgimento de uma Associação de Vítimas de Erros Médicos. qual seja. c) a crise institucional que fez bons profissionais da saúde trabalharem em condições tão adversas. o psicopata (Decreto n° 24. Samuel. BLOON. a Promotoria de Defesa dos Direitos Humanos (PDDH).842. b) o silêncio dos inocentes que. de 13-7-90).559. Cabe ação do médico contra o cliente por danos morais? E se o paciente incentiva que o médico arrisque um tratamento novo e pioneiro. Claro que existe o outro lado da questão: o dano causado ao médico pelo processo administrativo.01. de 03-7-34). apenas conclamar a meditar sobre: a) o silêncio de médicos que acobertam os erros e omissões de colegas. em nome de um corporativismo absurdo. de 11-9-90). absolvendo quando a negligência pela vida humane é patente. não pode fazêlo de cobaia? Nosso objetivo não foi esgotar o tema. da mesma forma que a da divulgação das "Declarações de Direitos" dá margem a movimentos de conscientização e mobilização comunitárias. ampliando os seus instrumentos de defesa. e) a importância. existe uma tendência a não se aceitarem desculpas esfarrapadas. Em Belo Horizonte. por sua humildade e hipossuficiência financeira. 1996 p. história da medicina na literatura.078. que se especializa em receber denúncias sobre possíveis erros médicos.uma fatalidade. Hodiernamente. para a sociedade. Moacyr. Não importa que o profissional seja absolvido. Companhia das Letras. onde a conduta de um exime a responsabilidade do outro ou o médico mesmo com o consentimento do paciente. não podem reclamar. como o consumidor (Lei n° 8. 33. o menor (Lei n° 8. A paixão transformada. d) a timidez do Judiciário que deixa ao desalento as vítimas de erro médico que batem à sua porta.069. foi criado um órgão do Ministério Público. a possibilidade de reencontrar a sua saúde? Tratase de torpeza bilateral. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SCLIAR. o portador de deficiência física (Lei n° 7. 1965 . O movimento popular contra esses erros vem recebendo ampla cobertura da imprensa. de 04. The Doctor and his patient New York.94). sobre este pesará sempre a mácula da suspeita sobre sua competência e procedimento. civil ou penal. o idoso (Lei n° 8.853/89). traz novos enfoques para a questão dos direitos do paciente.

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