Antropologia e Imagens

As imagens de Arte Sacra: «Os beijos aos Ícones». (Actividade 4- estudo de caso)

Paula Maria Ferreira dos Santos Frade aluna nº803274

Universidade Aberta, Mestrado em Arte e Educação Antropologia e Imagens, Docente: Senhor professor doutor José da Silva Ribeiro

Dezembro de 2009

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Índice 1.Resumo 2. Introdução 3.Desenvolvimento A Arte Sacra/Ícones como Questão -O que é a arte sacra? «Uma Teologia em imagens?» -Entre arte sacra e não arte sacra A Arte Sacra/Ícones artísticos como Expressão -A ideia de belo e feio - A arte sacra como expressão de cultura A Arte Sacra/Ícones artísticos como mundo - O mundo na arte sacra (world on art) e O mundo da arte (artworld) 4. Síntese ou conclusão. 5. Referências bibliográficas

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1. Resumo O que é a Arte Sacra? Ousamos perguntar para que serve ou a que se destina. Que significados tem ou o que transmite? Com este trabalho pretendemos entender de que forma, a Arte designada de Arte Sacra, tem valor ou sentido para os Cristãos que vivem a sua religião de acordo com os princípios das sagradas escrituras ou dos evangelhos (Bíblia Cristã). Pretendemos abordar também a Arte Sacra como mundo e alguns dos seus aspectos referentes à artworld. Pretendemos perceber a Arte Sacra como expressão de cultura e identificar algumas das atitudes das massas populares que se identificam com ou alimentam do culto religioso de imagens. Pretendemos perceber de que forma as imagens se tornam ícones e com potencial para mudar ou moldar vidas humanas, para educar ou seduzir …Ícones que arrastam atrás de si multidões, capazes de seduzir aos afectos em abraços e beijos e no içar de lenços brancos em «adeus» de lágrimas. Ícones que desfilam em «passadeiras vermelhas» e repletas de ouro e prata, de notas de dinheiro e flores frescas ou de plástico envelhecido…e aos quais se prostram joelhos e se confiam destinos. Ídolos de madeira sem raízes vivas de uma árvore mas com raízes profundas numa cultura tradicional e humilde… Este estudo de caso fala dos ídolos religiosos do meu país… de duas imagens… «mãe» e «filho»… a mãe que tem por nome «Nossa Senhora de Fátima» e o filho «O menino Jesus»; imagens ou de talha ou de pedra ou impressas num papel… imagens que fazem parte da história de um povo e com as quais muitos de nós cresceu. Numa das minhas experiências de leitura, um texto de Geertz sobre o que é a Antropologia diz que a sociabilidade é o principal meio de pesquisa. Na sua perspectiva (interpretativa), a especificidade da Antropologia reside no estudo das experiências humanas, da alteridade, a partir de uma experiência pessoal. Assim, neste estudo que vos é apresentado existe uma base de inúmeras experiências da minha infância em família e na pequena aldeia onde passava o Natal. Na base deste estudo

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está esse beijo «a um menino Jesus frio de pedra» após uma fila imensa de pessoas que a ele se dirigiam e ajoelhavam e o beijavam… «Natal não seria Natal sem esse beijo». E porque estamos no Natal… e porque estamos em Antropologia e imagens… partilho convosco esta viagem! Afinal que sentido tem esse ícone/arte sacra/imagem? Que poder tem? Quem instituiu essa prática? Sobre o regime icónico de uma imagem, «A compreensão icónica da imagem, porque não se refere directamente à realidade, mas sim a uma lei de interpretação da realidade, atesta uma forma cultural: remete-nos para universos específicos…». Porque têm tanto poder as imagens na nossa vida e tanto precisamos delas? Precisamos de uma foto de alguém que morreu para não ser esquecido… precisamos do registo fotográfico de um lugar para voltar lá… precisamos da imagem de um deus; de um ícone… talvez para acreditar nele…talvez precisemos do material… da imagem… e o que de verdade ou mentira terá essa imagem? Porque estamos no Natal e no Natal Cristão (aquele em que acredito…)… Feliz Natal para todos vós! E recebam este presente, este trabalho… «Beijos aos Ícones». 2. Introdução A necessidade do material, também existe na crença da existência de Deus e, é neste contexto que o homem artista cria desde os tempos da pré-história a representação física de Deus ou dos seus próprios deuses e a sua Arte Sacra para os servir e prestar culto. Segundo René Gardies, 2008, «A interpretação icónica implica, pois, uma forma de cumplicidade real ou suposta com o autor-produtor, baseada na compreensão comum de uma analogia ou de uma similitude. A compreensão icónica da imagem, porque não se refere directamente à realidade, mas sim a uma lei de interpretação da realidade, atesta uma forma cultural: remete-nos para universos específicos, convidando-nos a percorrê-los em busca de outras semelhanças» (p.127). Temos hoje inumeráveis imagens/obras de Arte Sacra provenientes das mais diversas épocas e culturas, bem como concebidas de acordo com os mais diversos estilos artísticos e Página 4

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culturais. Mas como vêem os cristãos esta relação ou atitude? Segundo a Palavra de Deus e as sagradas escrituras, como se definem estas práticas de culto? A Arte Sacra/Ídolos artísticos/Imagens cristãos existem? Podemos chamar-lhe assim? E a arte religiosa? Em que terreno se move? Estamos no ano de dois mil e nove e podemos dizer que a nível da espiritualidade, da religião e da cultura ou tradição de cultos e crenças ou adoração de imagens/ícones algumas coisas mudaram em relação ao século XVI e a partir das teorias de Martinho Lutero (1483-1546) ou de Calvino (1533), entre muitos outros críticos e opositores a alguns dos costumes e sistemas religiosos. Mas, perante inúmeras tradições e crenças que persistiram no tempo e ainda se cultivam na nossa cultura e tempo presente (como é o caso do beijo a imagens ou ícones), podemos dizer que existem raízes que provêem do passado e que têm força e direcção para uma continuidade futura; imagens, ícones, crenças, gostos e tradições que ditas de base cristã seguem caminhos de incongruência e em nada cumprem os princípios e as teorias ou «palavras sagradas» que as formaram. Segundo José Carlos Abrantes, «Ver uma imagem é investir um olhar, mas os olhares são construídos culturalmente. Cada olhar esconde um ser, um modo de estar, modos de pensar. Por isso o que é visto muda de pessoa para pessoa». O que vos trago aqui é um novo olhar… 3. Desenvolvimento A Arte Sacra como Questão -O que é a arte sacra? «Uma teologia em Imagens?» «“A arte, diz Bacon, é o homem acrescentado à natureza”, isto é, qualquer procedimento fruto da liberdade e da razão humanas – utilizado em vista de uma produção que testemunhe o saber-fazer do artesão ou, mais especialmente, do artista quando, neste último caso, as técnicas utilizadas visam satisfazer o sentimento estético ou artístico. A etimologia confirma

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esta noção de saber-fazer. O latim ars e o grego teknê estão na origem do termo moderno. Essas palavras designavam todas as actividades resultantes de uma aptidão não inata, mas adquirida por meio de uma aprendizagem apropriada em vista de uma ciência, técnica ou profissão. (…) O sentido mais frequente relaciona-se com a estética e designa aquilo que outrora se denominava as “ belas-artes”; as formas clássicas da arte assim entendida permitiam defini-la pelo seu esforço em produzir beleza, mas a sua evolução no decurso dos últimos decénios, assim como as dificuldades encontradas quando se tratava de definir uma beleza pura que pudesse valer para todas as culturas e todas as épocas, levaram os estetas contemporâneos a renunciar a qualquer alusão ao belo». (Durozoi e Roussel, 2000, p.36). Se analisarmos o termo Sagrado verificamos que Sagrado; «Qualifica, por oposição a profano, aquilo que se referencia à sua separação do mundo vulgar: nesta qualidade, o sagrado é objecto tanto de fascínio como de repulsa. No vocabulário especificamente religioso, refere-se ao culto e participa do divino, por oposição à ordem simplesmente humana». (Durozoi e Roussel, 2000, p.340). Ainda em relação ao conceito Sagrado convém distinguir entre Arte Religiosa e Arte Sacra. A diferença está fundada não tanto nos caracteres intrínsecos de ambos e na inspiração de cada uma, mas no destino da obra artística. Existem obras de arte de profunda inspiração religiosa e que, não obstante isto, não são destinadas ao culto, e portanto, não devem ser consideradas propriamente como sendo Arte Sacra. A Arte Sacra (de culto) é aquela arte religiosa (de devoção) que tem um destino de liturgia, isto é, aquela que se ordena a fomentar a vida litúrgica nos fiéis e que por isso não só deve conduzir a uma atitude religiosa genérica, mas há-de ser apta a desencadear a atitude religiosa exigida pela Liturgia, quer dizer para o culto divino. A Arte Sacra pode ser considerada uma «teologia em imagens». Por exemplo, uma pintura a óleo pode provocar um sentimento religioso, mas pode não ser adequado que se celebre o culto religioso perante ele. Porém, consideramos que não existe uma arte puramente sacra ou puramente religiosa, de culto ou de devoção. O sentido da imagem de culto é que Deus se faça presente e esta presença é impossível definir com Página 6

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exactidão como veremos mais adiante ao referirmos a influência da estética e de diferentes períodos da «História de Arte» na representação da figura ou imagem de Cristo crucificado. -Entre arte sacra e não arte sacra Na definição ou procura do sentido deste conceito, debruçamo-nos na «Bíblia Sagrada». Que sentido tem este livro ou as «Sagradas Escrituras» para os Cristãos? O nome Bíblia foi usado pela primeira vez por Crisóstomo no século IV. É derivado de «Biblos», uma palavra grega que significa livros. Lemos «no rolo do Livro» em Salmos 40:7. :«Embora tivesse havido tantos autores humanos, a unidade, simplicidade e singularidade da Bíblia indicam que houve uma só mente atrás de todas, e era a divina. “Toda a Escritura é divinamente inspirada” (IITim. 3:16). É como a construção dum grande prédio, em que muitos operários estão empregados. Cada um sabe bem o seu ofício, porém todos dependem do plano do arquitecto» (John Men, 1977, p.29). Na história da igreja e das grandes reformas da igreja católica destacamos alguns nomes como ;“Jean Cauvin, dito Calvino (começou, a partir de 1533, uma vida de pregação a favor da Religião reformada). A doutrina religiosa de Calvino assenta fundamentalmente nos seguintes princípios: regresso à Bíblia como fonte primeira da fé; crença na predestinação e concepção da graça de inspiração agostiniana. (Durozoi e Roussel, 2000, p.61). Outro nome igualmente valioso é o de Martinho Lutero (1483-1546); monge alemão e reformador religioso que denuncia os abusos da autoridade eclesiástica e ergue-se contra a «venda das indulgências» nas suas «95 teses» que consagram a sua ruptura com o Vaticano (1517). O pensamento teológico de Lutero assenta, no essencial, nas seguintes afirmações: a Bíblia é a única autoridade em matéria de fé; o homem só pode ser libertado do pecado original pela fé e pela graça divina, o que provoca a salvação para um certo número e a condenação eterna para os outros (…). (Durozoi e Roussel, 2000, p.242).

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Martinho Lutero_ «O teu Deus é aquilo a que o teu coração se agarra e em que confia» (Richard Osborn, 1997, p.71), tese que reforça a de Montaigne (1533-1592)- «O homem é demente. Não é capaz de criar uma simples larva, mas cria deuses à dúzia» (Richard Osborn, 1997, p.73). Seguindo esses princípios cristãos de encontrar a verdadeira resposta na fonte primeira e sagrada; «A Palavra de Deus nas Sagradas Escrituras», tentamos verificar de que forma existe coerência entre as mesmas e a Arte Sacra. Desta forma verificamos a imperativa ordem de monoteísmo e a proibição da representação material ou figurativa do «espiritual» (e esta última parte refere tanto a nível de Deus, como de anjos, demónios ou outras identidades espirituais) e da proibição à atitude de lhes prestar culto (ou homenagem ou sacrifícios) … De «Os Dez mandamentos»; «Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso que visita a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem. E faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos». (Êxodo 20:3-6) A Bíblia fala-nos precisamente desse desejo ou dessa necessidade que o homem tem do material e do transformar o espiritual em físico ou imagens de culto. Fala-nos por exemplo de «O bezerro de ouro»; «Mas, vendo o povo que Moisés tardava a descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: levanta-te, faz-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egipto, não sabemos o que lhe terá sucedido. Disse-lhes Arão: tirai as argolas de ouro das orelhas de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas e trazei-mas. Então, todo o povo tirou das orelhas as argolas e as trouxe a Arão. Este, recebendo-as das suas mãos trabalhou o ouro com buril e fez dele um bezerro fundido». (Êxodo 32: 1-4)

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Mas, encontramos também nela o que Deus pensa da criação da Arte Sacra ou da criação da imagem de ídolos: De «Contraste entre o Senhor e os ídolos»; «Porque os costumes dos povos são vaidade; pois cortam do bosque um madeiro, obra das mãos do artificie, com o machado; com prata e ouro o enfeitam, com pregos e martelo o fixam, para que não oscile. Os ídolos são como um espantalho em pepinal e não podem falar; necessitam de quem os leve porquanto não podem andar. Não tenhais receio deles pois não podem fazer mal e não está neles o fazer o bem» (Jeremias 10: 3- 5). E nas Escrituras Sagradas Deus critica a atitude do homem que de tal forma age, identifica-o como «estúpido», «ignorante» e «vaidoso» e refere as suas obras como «mentira», «sem vida», «vaidade» e «obras ridículas» «sem utilidade» mas capazes de «confundir os seus seguidores»; «Todo o homem se tornou estúpido e não tem saber; todo ourives é envergonhado pela imagem que ele mesmo esculpiu; pois as suas imagens são mentira, e nelas não há fôlego. Vaidade são, obra ridícula no tempo do seu castigo, virão a perecer» (Jeremias 10: 15). «Todos os artificies de imagens de escultura são vaidade, e as suas coisas mais desejáveis são de nenhum préstimo; e suas mesmas testemunhas nada veêm, nem entendem, para que eles sejam confundidos. Quem forma um deus e funde uma imagem de escultura, que não é de nenhum préstimo? Eis que todos os seus seguidores ficarão confundidos pois os mesmos artificies são de entre os homens; ajunte-se todos e levantem-se; assombrar-se-ão e serão juntamente confundidos. O ferreiro faz o machado, e trabalha nas brasas, e o forma com martelos, e o lavra com a força do seu braço; ele tem fome, e a sua força falta e não bebe água e desfalece. O carpinteiro estende a régua, emprega a almagra, aplaina com o cepilho, e marca com o compasso; e faz o seu deus à semelhança de um homem, segundo a forma de um homem, para ficar em casa. Tomou para si cedros ou toma um cipreste ou um carvalho, esforça-se contra as árvores do bosque; planta um olmeiro, e a chuva o faz crescer. Então servirão ao homem para queimar» (Isaías 44:9-20). Nas Sagradas Escrituras são descritas as fases de execução das imagens ou obras pelo homem e são mencionados também alguns utensílios, materiais e técnicas de as elaborar: «O artificie funde Página 9

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a imagem, e o ourives a cobre de ouro e cadeias de prata forja para ela. O sacerdote idólatra escolhe madeira que não se corrompe e busca um artificie perito para assentar uma imagem esculpida que não oscile» (Isaías 40:19-20). «Prata e ouro são os ídolos deles, obra das mãos de homens. Têm boca e não falam; têm olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem; têm nariz e não cheiram. Suas mãos não apalpam; seus pés não andam; som nenhum lhes sai da garganta. Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e quantos neles confiam» (Salmo 115:4-8). Nesta última referência verificamos o desagrado de Deus perante a realização de obras e da crença nelas. Encontramos nas escrituras um outro exemplo do culto de idolatria, a de «Ídolos do lar; Mica e os ídolos da sua casa»: «Havia um homem da região montanhosa de Efraim cujo nome era Mica, o qual disse à sua mãe: os 1100 ciclos de prata que te foram tirados, por cuja causa deitavas maldições e de que também me falastes, eis que esse dinheiro está comigo; eu o tomei. Então, lhe disse a mãe: bendito do Senhor seja meu filho! Assim, restituiu os 1100 ciclos de prata à sua mãe, que disse: de minha mãe dedico este dinheiro ao senhor para o meu filho para fazer uma imagem de escultura e uma de fundição, de sorte que, agora, eu to devolvo. Porém ele restituiu o dinheiro à sua mãe, que tomou 200 ciclos de prata e os deu ao ourives, o qual fez deles uma imagem de escultura e uma de fundição; e a imagem esteve em casa de mica e, assim, este homem, Mica, veio a ter uma casa de deuses; fez uma estola sacerdotal e ídolos do lar e os consagrou a um dos seus filhos, para que lhe fosse por sacerdote» (Juízes 17: 1-5 ). Esta passagem fala-nos do engano de por vezes o homem apesar de ter «boas intenções» e se considerar no «caminho certo» em relação ao seu lado espiritual não age em conformidade com «A Palavra Sagrada» e deixa-se confundir pelo dinheiro e pelo desejo material dele. Em relação a estas atitudes e sentimentos anteriormente descritos, a Bíblia fala-nos de bênçãos para quem cumpre a «Palavra Sagrada» e fala-nos também de maldições para quem age em contrário (maldições que seguirão o homem até à sua quarta geração); De «As doze maldições»: «Maldito o homem que fizer imagem de escultura ou de fundição, abominável ao Página 10

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Senhor, obra de artificies, e a puserem em lugar oculto» (Deuteronômio: 27-15). «E terás por contaminados a prata que recobre as imagens esculpidas e o ouro que reveste as tuas imagens de fundição; lançá-las-ás fora como coisa imunda e a cada uma dirás: fora daqui!» (Isaías 30: 22). «Tornarão atrás e confundir-se-ão de vergonha os que confiam em imagens de escultura e às imagens de fundição dizem: vós sois nossos deuses». (Isaías 42: 17)

A Bíblia rejeita igualmente a criação de deuses semelhantes aos que observamos existirem em diversas civilizações antigas como por exemplo na civilização egípcia. «Portanto, porquanto, tendo conhecimento de Deus, não O glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível. Bem como de aves, quadrúpedes e répteis» (Romanos 1:21-23). As escrituras fazem uma alusão constante à idolatria e aos efeitos nefastos (maldições) que provocam no homem. Também em relação à civilização egípcia temos a descrição «Das dez pragas do Egipto» e por conseguinte da consequência da atitude do homem idólatra. «Castigo divino para com os egípcios. Por causa dos pensamentos estúpidos, inspirados na sua maldade, que os extraviaram ao ponto de prestar culto a répteis irracionais e animais desprezíveis, enviaste-lhes, como castigo, uma multidão de animais irracionais, para que compreendessem que, conforme o pecado, assim é o castigo»(Sabedoria 11: 15-16). «Castigo progressivo dos egípcios. Por isso, também àqueles que loucamente viveram no mal, os fizeste sofrer pelas suas próprias abominações, pois se extraviaram demasiado nos caminhos do erro, tomando por deuses os mais vis e repugnantes animais, deixando-se enganar como crianças sem raciocínio. Por isso, como a meninos sem razão, lhes deste um castigo que os pôs a ridículo. Mas não se emendaram, sofrerão um castigo digno de Deus. Irritados pelo sofrimento causado por esses animais, e vendo-se castigados por aqueles que tomavam por deuses, reconheceram como Deus verdadeiro aquele que outrora recusavam conhecer. Por isso, caiu sobre eles a condenação final » (Sabedoria 12: 23-27). Página 11

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Dos livros Apócrifos (Livros que o Concílio de Trento, em 1546, declarou inspirados, embora não fizessem parte do Cânon do AT estabelecido pelos judeus da Palestina. Os católicos chamam esses livros de «deuteronônicos», isto é, pertencentes ao «segundo cânon»): «Os ídolos, inferiores aos astros_ O Sol, a Lua e as estrelas brilham e cumprem a função de ser úteis. Também o relâmpago, tão belo ao faiscar, o vento que sopra em qualquer região, e as nuvens, que recebem de eus a ordem de percorrer toda a terra, cumprem a missão que lhes foi dada. Quando o fogo é enviado do céu para consumir as florestas das montanhas, faz o que lhe foi ordenado. Os ídolos não se podem comparar, nem em beleza, nem em poder a estas maravilhas. Eis porque não se deve crer nem dizer que são deuses, visto que não lhes é dado fazer justiça nem conceder benefícios aos homens. Por isso, sabendo que não são deuses, não tenhais medo deles. Eles não podem amaldiçoar nem abençoar os reis. Não podem mostrar no céu sinais às nações, não brilham como o Sol, nem alumiam como a lua. Mais do que eles valem os animais, porque, refugiando-se nos seus esconderijos, podem salvar-se a si mesmos. Não há, portanto, qualquer prova que mostre que são deuses; por isso, não os temais. Como um espantalho num meloal o não guarda, assim, do mesmo modo, esses deuses de madeira dourada ou prateada. Esses deuses de madeira dourada e prateada assemelham-se a um espinheiro num jardim, sobre o qual vêm poisar todas as aves, ou então, a um cadáver lançado em lugar tenebroso. Pela púrpura e pelo linho que sobre eles se desfazem, reconhecereis que não são deuses. Acabarão, afinal, por ser devorados e hão-de tornar-se o opróbrio do país. Melhor é, então, a condição do homem honrado que não tem ídolos, pois assim estará sempre isento de opróbrios» Baruc (6: 59-72). «Os ídolos são coisas vãs. Mas mais infelizes são aqueles que puseram a sua esperança em coisas mortas, os que chamaram deuses à obra de mãos humanas: ouro e prata trabalhados com arte, figuras de animais ou alguma pedra inútil, obra de mão antiga. Imaginemos um carpinteiro: corta com uma serra um tronco fácil de trabalhar, tira-lhe cuidadosamente toda a casca, trabalha-o habilmente e faz dele um utensílio para uso comum. Com o que sobrou da sua obra, prepara a comida com que fica saciado. O último Página 12

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desperdício que não serve para nada, um pau torto cheio de nós, ele toma-o e, nas horas de lazer, trabalha-o, modela-o com arte para distrair-se e dá-lhe as feições de um homem, ou a figura de um animal desprezível; depois cobre-o de vermelho, pinta-o de cor encarnada e faz desaparecer todos os seus defeitos. Enfim, prepara-lhe um nicho adequado, coloca-o na parede e fixa-o com um prego; toma precauções para que não caia, sabendo que ele não pode valer-se a si mesmo, pois é uma estátua que precisa de ajuda. Não se envergonha de falar com aquele objecto sem vida; mas, quando lhe reza pelos seus bens, pelo seu casamento e pelos filhos, pede saúde a quem é fraco, pede vida a quem está morto; pede ajuda a quem não pode socorrer, pede uma viagem feliz a quem nem sequer pode dar um passo; e, para os investimentos, negócios e trabalhos, pede força a quem nem é capaz de mexer as mãos» (Sabedoria 13: 10-19). «Há também quem, querendo navegar e atravessar as ondas encrespadas, invoque a um madeiro mais frágil que o barco que o transporta. Foi, com efeito, a ambição do lucro que o inventou e um artista que, com sabedoria, o fabricou. Mas é a tua providência, ó Pai quem segura o leme, pois abriste um caminho até no mar, e uma rota segura no meio das ondas, mostrando assim que podes salvar de todo o perigo, de tal modo que, mesmo sem experiência, alguém pode embarcar. Tu não queres que as obras da tua sabedoria sejam inúteis. Por isso, os homens confiam as suas vidas a uma pequena barca, e, atravessando as ondas, salvam-se numa jangada. Já no princípio, quando pereciam os gigantes orgulhosos, a esperança do mundo se refugiou numa barca que, pilotada pela tua mão, legou ao mundo a semente de uma nova geração. Bendito seja, pois o madeiro pelo qual vem a justiça! Mas maldito seja o ídolo, obra da mão humana, tanto ele como quem o fez: este porque o fez, aquele porque, sendo corruptível, foi chamado de deus» (Sabedoria 14: 1-8). «Não nos extraviaram as perversas invenções dos homens, nem as estéreis obras dos pintores, figuras besuntadas de várias cores, cuja contemplação excita a paixão dos insensatos, que se entusiasmam com a figura inanimada de uma imagem morta. Enamorados do mal e dignos de tais esperanças assim são os que as fazem, as amam ou as adoram!» (Sabedoria 14: 4-6). Página 13

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«Olhai o oleiro que amassa intensamente a terra mole e modela cada objecto para o nosso uso. Da mesma argila, modela tanto os vasos para serviços limpos como os destinados para usos contrários; mas é o oleiro quem determina qual deve ser o uso de cada um deles. Depois _ esforço mal empregado_ modela um falso deus do mesmo barro, ele que pouco antes saíra da terra e, pouco depois, voltará a essa terra, de onde foi tirado, quando tiver que prestar contas da vida recebida. Mas não pensa que tem de morrer nem que a vida é breve; antes, rivaliza com fabricantes de ouro e prata, imita os que trabalham o bronze e vangloria-se de fabricar figuras falsas. É cinza o seu coração, mais vil que a terra é a sua esperança, a sua vida é mais desprezível do que o barro, porque desconhece aquele que o formou, aquele que lhe infundiu uma alma activa e lhe insuflou o espírito vital. Considera a nossa vida como um divertimento e a existência como uma feira de negócios, pois _ diz ele _ é preciso tirar proveito de tudo, até mesmo do mal. Mas, melhor que ninguém, ele bem sabe que peca, fazendo do mesmo barro vasos frágeis e estátuas de ídolos» (Sabedoria 15: 7-13).

Nas Sagradas Escritura são inúmeras as referências a uma «arte maldita»; «imagens malditas»e não a uma «arte sacra»; «imagens sagradas». Deus nas sagradas escrituras condena toda e qualquer adoração a ídolos e a «Imagens Sagradas». Para os Cristãos, a mensagem é clara, não há espaço para a representação material de Deus ou do espiritual e tão pouco do prestar-lhe culto, não há espaço para a adoração de ícones nem tão pouco para prestação de culto ou dádiva de beijos… Porque se beijam então as imagens de pedra e madeira…porque se beijam «os meninos Jesus de talha»?... Nesta visão não há espaço para as «religiosidades», a tradição ou os costumes dos povos porque o «cristão primitivo» segue somente a «Palavra de Deus» ou as orientações divinas das Sagradas Escrituras ou do livro A Bíblia o qual, tal como já referimos anteriormente, foi escrito segundo as orientações de Deus (o Deus único).

A Arte Sacra como Expressão Página 14

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-A ideia de belo (e feio) Em relação à estética da arte sacra; «A cultura grega não considerava que o mundo fosse necessariamente todo belo. A sua mitologia contava as suas torpezas e erros, e para Platão a realidade sensível era apenas uma imitação inábil da perfeição do mundo das ideias. Em compensação, a arte via nos deuses o modelo da beleza suprema, perfeição a que aspirava a estatuária que representava os habitantes do Olimpo. Paradoxalmente, com o mundo cristão, a relação inverte-se, pelo menos em certos aspectos: de um ponto de vista teológicometafísico, todo o universo é belo porque é obra divina; por isso, até o feio e o mal são redimidos por esta beleza total; em compensação, a expressão humana da divindade, Jesus Cristo, que sofreu por nós, é representado no momento da sua humilhação máxima. Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja falam continuamente da beleza de todo o ser. Desde o Génesis aprendiam que, no termo do sexto dia, Deus tinha visto que tudo o que tinha feito era bom (1,31) e o livro da Sabedoria recordava que o mundo foi criado por Deus segundo número, peso e medida, isto é, segundo critérios de perfeição matemática. Ao lado da tradição bíblica, a filosofia clássica concorria para reforçar esta visão estética do universo. A beleza do mundo como visão e reflexo da beleza ideal era um conceito de origem platónica» (Humberto Eco, 2007, p.43). «O feio, subforma de terrificante e de diabólico, entra no mundo cristão com o Apocalipse de João Evangelista. Não era que faltassem alusões ao demónio e ao inferno no Antigo Testamento e nos outros livros do Novo. Mas, nestes textos, o diabo é mais do que nomeado através das acções que faz ou dos efeitos que produz (por exemplo a descrição dos endemoninhados dos Evangelhos), excepto pela forma de serpente que assume no Génesis. Nunca aparece com a evidência “somática” com que será representado na Idade Média; e os padecimentos que os pecadores sofriam no além-túmulo (choro e ranger de dentes, fogo

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eterno) serão citados de modo bastante genérico, mas nunca se oferecerá nenhuma imagem concreta e evidente» (Humberto Eco, 2007, p.73). «Quando a arte tem de considerar a paixão de Cristo, apercebe-se de que, como disse Hegel na sua Estética, “não se pode figurar Cristo flagelado, coroado de espinhos, crucificado e agonizante nas formas de beleza grega”. Contudo, esta aceitação da “fealdade” de Cristo não foi imediata. É verdade que havia uma página de Isaías, em que se apresentava o Messias como desfigurado pelo sofrimento e o tema fora retomado por alguns Padres da Igreja, mas Agostinho tinha reabsorvido esta evidência escandalosa na sua visão pancalista, afirmando que Jesus, quando pendia da cruz, parecia certamente disforme, mas que, através dessa deformidade exterior, Jesus exprimia a beleza interior do seu sacrifício e da glória que nos prometia. A arte paleocristã tinha-se limitado à imagem bastante idealizada do Bom Pastor. A cruxificação não era considerada sujeito ou tema iconográfico aceitável e era evocada ao máximo através do símbolo abstracto da cruz. Foi sugerido que resistência em figurar Cristo dolorido também se deveria a controvérsias teológicas e à batalha contra hereges que queriam afirmar a sua única natureza humana, negando a sua natureza divina. Foi somente nos séculos da Idade Média mais amadurecida que se reconheceu no homem da cruz um homem verdadeiro, espancado, ensanguentado, desfigurado pelos padecimentos e que a representação da cruxificação e das várias fases da paixão se torna dramaticamente realista e celebra no seu sofrimento a humanidade de Cristo. Em A Lamentação por Cristo morto pintada por Giotto para a capela dos Scrovegni, em Pádua, todas as personagens da cena choram (mesmo os anjos) e sugerem ao fiel sentimentos de compaixão por alguém com quem deve identificar-se. Desse modo, a imagem de Cristo sofredor também passará à cultura renascentista e barroca num crescendo de erótica da dor, onde a insistência no rosto e no corpo divino atormentado pelos sofrimentos irá até aos limites da complacência e da ambiguidade, como acontece com o Cristo mais sangrento, sanguinolento, d’A Paixão cinematográfica de Mel Gibson» (Humberto Eco, 2007, p.49). «Mas Hegel também tinha Página 16

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recordado que, com o cristianismo, o feio aparece em forma polémica na representação nos precursores de Cristo» (Humberto Eco, 2007, p.49). Pretendemos através das referências feitas mostrar de forma breve o paralelismo existente entre a representação da imagem de Cristo e as tendências ou crenças estéticas que acompanharam e se desenvolveram nas diversas épocas e em diferentes estilos artísticos. Como que num jogo de estética em que Deus surge «animado» e «criado» segundo os «cânones da estética humana» e de valores efémeros e culturais numa «religiosidade política e económica» que cede a diversos interesses e marca o conhecimento e sensibilidade humana. Mas esse percurso do belo (e porque não dizer também do feio) e dos seus valores e significados ou da sua estética não só existem nesta arte dita de Sacra mas também na representação de todas as divindades e deuses que o homem criou desde os tempos primitivos. A respeito da «Fealdade das divinas pagãs», «Eis quais são os ensinamentos dos vossos deuses que se prostituem juntamente convosco! (…) Aliás, quais são também as outras vossas imagens?! Certas estatuetas de Pã, certas figurinhas femininas nuas e sátiros embriagados e intumescências fálicas, pintados sem nenhum véu e que não têm vergonha da sua própria incontinência! Doravante, quando vedes pintadas e em público a vossa libertinagem, vós não sentis nenhuma vergonha; mas, antes, conservai-las e dependurai-las no alto, como fazeis com as imagens dos vossos deuses, e nas vossas casas veneradas como sagradas as que, pelo contrário, são estrelas de despudor e mandais, são estrelas de despudor e mandais representar indiferentemente as posições obscenas de Filénia e dos trabalhos de Hércules!» (Clemente de Alexandria, Protéptrico 61, citado por Humberto Eco, 2007, p.40). - A arte sacra como expressão de cultura De forma breve, deixo-vos aqui algumas referências a usos da arte sacra/ícones/imagens pelas massas ditas populares e da arte sacra cultivada em contextos de «modismos». Tendências, hábitos, costumes e usos que se reflectem como expressão de cultura e ditam as tendências Página 17

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ou características de gostos e conhecimentos comuns. Em Portugal temos o exemplo de Fátima e do culto de pequenas imagens que se repetem nos mais variados objectos de suporte, vemos a tendência actual da prática de tatuar o corpo com imagens cheias de uma carga simbólica tanto a nível da «espiritualidade cristã» como da espiritualidade das mais diversas religiões e «simbologias satânicas»; há uma tendência natural para a designada cultura kitsch e para a exploração intensificada dos seus objectos de culto. Podemos também mencionar «a arte sacra/imagens de elite» e que podemos encontrar em museus mas também a arte sacra das feiras de rua e das feiras de velharias. Ouvimos falar de assaltos a igrejas e cemitérios… assaltos a casas centenárias e à procura intensa desse mercado de arte. A Arte Sacra surge intensamente numa «cultura popular» e numa «cultura erudita» tal como numa «cultura cristã» e em todas elas mostra o seu poder face ao homem e à sua fragilidade. A Arte Sacra no seu mundo e no seu todo e face «aos significados da espiritualidade que carrega» consegue expressar e mostrar de forma poderosa a fragilidade do homem e a necessidade que este tem «de Deus» ou do espiritual materializado/imagem. A Arte Sacra expressa o conhecimento do homem e o que ele é ou deixa de ser. Como refere José da Silva Ribeiro, «O discurso sobre as imagens tornou-se um tema de moda. Há neste discurso muitas divergências, algumas imprecisões e muita disputa». «A psicologia, a psicanálise, a semiótica, as ciências da comunicação, as ciências sociais, as ciências políticas, a economia, a tecnologia reflectem e agem a partir de múltiplas perspectivas sobre as imagens. Parece-nos necessário desenvolver uma reflexão interdisciplinar consistente, sobre a imagem e sobre as suas práticas nas diversas culturas ou no processo de hibridação cultural de que as imagens são agente activo», «Há uma problemática de largo espectro que poderemos afrontar a partir de múltiplos pontos de vista, tradições académicas, experiências de investigação, práticas de utilização» (Comunicado aos estudantes MAE). A Arte Sacra como mundo

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- O mundo na arte sacra (world on art) e O mundo da arte (artworld) No subtópico anterior ao referirmos o conceito kitsch e ao falarmos do consumo massificado de pequenas imagens de culto, questionámo-nos acerca do «belo» e do «feio» e também dessa cultura consumista que segue «os modismos tradicionais» e cultiva gostos específicos e de acordo com o seu conhecimento, cultura e poder económico. «O feio é também um fenómeno social. Sempre aconteceu que os membros das classes “altas” julgarem desagradáveis ou ridículos os gostos das classes “baixas”. Poder-se-ia com certeza dizer que, nestas discriminações, estiveram sempre em jogo os factores económicos, no sentido de que a elegância sempre esteve associada ao uso de tecidos, cores e pedras preciosas caríssimos. Mas, frequentemente, a discriminante não foi económica mas sim social; é experiência habitual realçar a grosseria do novo-rico que, para ostentar a sua riqueza, ultrapassa os limites que a sensibilidade estética dominante atribui ao “bom gosto”. Aliás, é embaraçante definir a sensibilidade estética dominante: não é necessariamente a de quem detém o poder político e económico, mas, sim, a fixada pelos artistas, pelas pessoas cultas, por quem é considerado (pelo mundo literário, artístico ou académico ou pelo mercado da arte e da moda) perito de “coisas belas”. Mas trata-se de um conceito muito volátil. (…) Segundo alguns, a palavra kitsch remontaria à segunda metade do século XIX, quando os turistas americanos de Munique, querendo comprar um quadro, mas gastando pouco, pediam um esquisso (sketch). Daí o termo acabaria por indicar uma mercadoria vulgar para compradores desejosos de experiências estéticas fáceis. Todavia, em dialecto meclemburguês já existia o verbo kitschn para “apanhar lama na estrada”. Outra acepção do mesmo verbo seria “pintar móveis para parecerem antigos”, enquanto também existe o verbo verkitschen para “vender barato”. Mas quem considera kitsch pacotilha? A “alta” cultura define kitsch os anõezinhos de jardim, as pequenas imagens de devoção, os falsos canais venezianos dos casinos de Las Vegas, o falso grotesco do célebre Madonna Inn californiano, que pretende fornecer ao turista uma experiência «estética» excepcional. E kitsch foi definida , irremediavelmente, a arte celebrativa Página 19

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(que se queria popular)das ditaduras estaliniana ou mussoliniana que etiquetavam como “degenerada” a arte contemporânea. Contudo, quem se compraz com o kitsch considera que está a usufruir de uma experiência qualitativamente alta. Bastaria dizer que existe uma arte para os incultos tal como também há uma arte para os cultos e que é necessário respeitar a diferença entre estes dois “gostos”. Enquanto, porém os cultores de uma arte”culta” acham kitsch o kitsch, os cultores do kitsch (excepto diante de obras realizadas justamente para “espantar o burguês”) não acham desprezável a grande arte dos museus (que, aliás, frequentemente, expõem obras que a sensibilidade culta julga kitsch).Além disso, consideram as obras kitsch “semelhantes” às da grande arte. De facto, se uma das definições do kitsch o vê como algo que visa provocar um efeito passional em vez de permitir uma contemplação desinteressada, a outra considera kitsch a prática artística que, para nobilitar-se e nobilitar o comprador, imita e cita a arte dos museus» (Humberto Eco, 2007, p.394). «Clement Greenberg afirmou que, enquanto a vanguarda (entendendo-a em geral como a arte na sua função de descoberta e invenção) imita o acto do imitar, o kitsch imita o efeito da imitação; a vanguarda, ao fazer arte, põe em evidência os processos que levam à obra e escolhe estes para objecto do seu próprio discurso, enquanto o kitsch realça as reacções que a obra deve provocar e escolhe como fim da sua operação a reacção emotiva do fruidor» (Idem, Ibidem). «(…) Isto poderia simplesmente confirmar que o feio de ontem se torna o belo de hoje, como sempre aconteceu com a recuperação que a alta cultura fez com produtos da arte popular_ e até com produtos da cultura de massa, como a banda desenhada que, produzidos com fins de entretenimento, são agora revisitados não só como achados nostálgicos, mas como produtos de notável qualidade artística» (Humberto Eco, 2007, p.408). Estas referências em muito nos ajudam a questionar porque a Arte Sacra surge em diversas dimensões e contextos e a sua exploração gráfica ou visual dos seus cânones nos sugerem estilos, utilidades e significados distintos… vejamos a reprodução de uma imagem; «Da Virgem» numa casa de família em cima do móvel da sala ou num nicho resguardado, a mesma imagem num Página 20

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antiquário, numa igreja ou uma outra reprodução dessa mesma figura numa t-shirt de um adolescente que a usa (de forma irreverente) para ir à discoteca com os amigos. Após tantas ideias questionamo-nos… afinal, quando é que a Arte Sacra/Imagem Sacra deixa de ser Arte Sacra/Imagem Sacra? E quando começa a sê-lo? Quem dita as regras? Quem pode justificar a sua existência ou a pertinência da sua existência e do seu sentido? Talvez tenhamos de voltar de novo ao princípio… ou reinventar um novo princípio…

4. Conclusão

Sentimos com este trabalho o risco… o risco da pergunta que emerge e abana tudo! Ruínas e temporais! A pergunta que abana o que se julga que conhece mas que é ilusão e mentira ou pelo menos tem outra face…E tantas vezes a razão caminha ao lado do cómico e do ridículo…e o cómico ri-se da razão… e o ridículo torna-se imponente e ganha força! Aconteceu assim muitas vezes ao longo da «história da humanidade» e da desconstrução de paradigmas e da construção da ciência. Segundo Ortega Y Gasset (2002), «Quando uma pergunta contém no seu interior aquele gérmen que pode fazer ruir o mundo de certezas em que habitualmente conduzimos a nossa vida, com que, inclusive, convivemos uma vida inteira, somos rapidamente levados a imaginar duas situações possíveis: a do terror causado pelo abismo que se abre sob os nossos pés; a dos mecanismos de defesa ( ou de amortecimento…) que se desencadeiam de imediato em contraposição a esse terror despertado pela fissura. Aquele que deixa perpassar essa pergunta, aquele que, sem deliberação prévia, se abre à interrogação, aquele que pressente a falha que existe (sempre) entre a míngua e o excesso de um olhar, esse, apresenta-se como aquele que é capaz de efectivar isso a que chamamos filosofia »(p.9).

Com este trabalho quisemos mergulhar na Arte (no seu campo eminente da cultura icónica ou narrativa) e escolhemos um caminho… o da «Arte Sacra» e questionámos a tradição, o folclore, e os “cultos populares e massificados” a ela relacionados. Questionámos o seu mundo e a sua cultura estética, todos os seus usos e costumes que perduram durante séculos e criam Página 21

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raízes profundas na cultura humana. Mas nem sempre a tradição e as suas imagens revelamnos a verdade… e há que procurar o conhecimento ou o sentido da realidade que julgamos conhecer ou que aprendemos dessa forma. «A tradição afoga-nos com uma avalanche de questões acumuladas, onde estão confundidas as substanciais com as fictícias. Por isso urge proceder a uma investigação radical delas, ou seja, a um exame rigoroso da sua raiz vital que permita eliminar todas as que não a possuem. Imperativo geral de sobriedade» (Idem,p.157). Espero que as nossas palavras vos sejam úteis e vos façam caminhar… nesse ou noutro sentido…

Haveria muito, muito mais a referir em relação a esta reflexão… Espero que o possamos fazer nas discussões do fórum…

Agradecimentos…

À minha bebé Carolina de 1 mês de idade que entre as refeições e as mudas de fraldas me deixou fazer as leituras e realizar este trabalho…

Paula Frade

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5. Referências Bibliográficas

Bíblia de Estudo de Genebra (2000). São Paulo: Editora Cultura Cristã.

Bíblia sagrada (2002). Lisboa/Fátima: ed. Difusora Bíblica.

Durozoi G. e Roussel A. (2000). Dicionário de Filosofia. Porto: ed. Porto Editora.

Eco, Humberto (2008). A Definição da Arte. Lisboa: Edições 70.

Eco, Humberto (2007). História do Feio. Miraflores: Editora Difel

Janson, H.W. (1992). História da Arte. 5ª edição. Lisboa:Fundação Calouste Gulbenkian.

Kaschel, Werner e Zimmer, Rudi (1994).Dicionário da Bíblia de Almeida. Tamboré: Sociedade Bíblica do Brasil, 24.

Philip, Neil (1998). Comentar mitos e lendas. Londres: Livraria Civilização Editora.

Mein, John (1977).A Bíblia: e como chegou até nós. 4ª edição. Rio de Janeiro: Gráficas Próprias.

Osborne, Richard (1997). Filosofia para principiantes. Lisboa: ed. Editorial Presença.

Gardies, René (2008). Compreender o Cinema e as Imagens. Lisboa: ed. Edições Texto&Grafia. Página 23

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Gasset, Ortega y (2002). O que é o conhecimento. Madrid: ed. Fim de Século.

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