SCHNEIDER, S.

Agricultura familiar e desenvolvimento rural endógeno: elementos teóricos e um estudo
de caso. In: Froehlich, J.M.; Vivien Diesel. (Org.). Desenvolvimento Rural - Tendências e debates
comtemporâneos. Ijuí: Unijuí, 2006

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AGRICULTURA FAMILIAR E DESENVOLVIMENTO RURAL
ENDÓGENO: elementos teóricos e um estudo de caso1
Sergio SCHNEIDER

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1. Introdução
Atualmente, a discussão sobre a agricultura familiar vem ganhando legitimidade social,
política e acadêmica no Brasil, passando a ser utilizada com mais freqüência nos discursos dos
movimentos sociais rurais, pelos órgãos governamentais e por segmentos do pensamento
acadêmico, especialmente pelos estudiosos das Ciências Sociais que se ocupam da agricultura
e do mundo rural.
Embora tardiamente, se comparada à tradição dos estudos sobre esse tema nos países
desenvolvidos, a expressão “agricultura familiar” emergiu no contexto brasileiro a partir de
meados da década de 1990. Neste período ocorreram a dois eventos que tiveram um impacto
social e político muito significativo no meio rural, especialmente na região Centro-Sul. De um
lado, no campo político, a adoção da expressão parece ter sido encaminhada como uma nova
categoria-síntese pelos movimentos sociais do campo, capitaneados pelo sindicalismo rural
ligado à Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). Em meados dos
anos de 1990, assistiu-se a uma verdadeira efervescência desses movimentos, que produziram
inclusive formas de manifestação política que perduram até hoje, como é o caso dos eventos
anuais em torno do “Grito da Terra”. Diante dos desafios que o sindicalismo rural enfrentava
nesta época – impactos da abertura comercial, falta de crédito agrícola e queda dos preços dos
principais produtos agrícolas de exportação –, a incorporação e a afirmação da noção de
agricultura familiar mostrou-se capaz de oferecer guarida a um conjunto de categorias sociais,
como, por exemplo, assentados, arrendatários, parceiros, integrados à agroindústrias, entre
outros, que não mais podiam ser confortavelmente identificados com as noções de pequenos
produtores ou, simplesmente, de trabalhadores rurais.
De outro lado, a afirmação da agricultura familiar no cenário social e político brasileiro
está relacionada à legitimação que o Estado lhe emprestou ao criar, em 1996, o Pronaf
(Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Esse programa, formulado
como resposta às pressões do movimento sindical rural desde o início dos anos de 1990, nasceu
com a finalidade de prover crédito agrícola e apoio institucional às categorias de pequenos
produtores rurais que vinham sendo alijados das políticas públicas ao longo da década de 1980
e encontravam sérias dificuldades de se manter na atividade. A partir do surgimento do Pronaf,
o sindicalismo rural brasileiro, sobretudo aquele localizado nas regiões Sul e Nordeste, passou
a reforçar a defesa de propostas que vislumbrassem o compromisso cada vez mais sólido do
Estado com uma categoria social considerada específica e que necessitava de políticas públicas
diferenciadas (juros menores, apoio institucional etc).

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Trabalho apresentado no Seminário de Desenvolvimento rural: tendências e desafios contemporâneos, realizado
em 26 e 27 de maio de 2003, pela UFSM, em Santa Maria. Agradeço ao Prof. Dr. José Marcos Froehlich
pelo convite.
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Sociólogo, Mestre e Doutor em Sociologia. Pesquisador do CNPq (Bolsa Produtividade em Pesquisa). Professor
do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS.
O autor registra seus agradecimentos ao CNPq pelo apoio concedido para continuidade de suas pesquisas
sobre a agricultura familiar e o desenvolvimento rural.

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Além desses dois elementos, pode-se destacar um terceiro, que diz respeito à
reorientação dos debates acadêmicos sobre a ruralidade. Surpreendentemente, a partir da
segunda metade da década de 1990 assistiu-se a uma relativa retomada dos estudos agrários e
rurais no Brasil que até então suscitara pouco interesse dos pesquisadores. Voltou-se a falar
não apenas da agricultura e da produção agrícola, mas também do rural lato sensu. Esse novo
cenário permitiu que os estudiosos ampliassem seu escopo temático para além das discussões
acerca dos impasses e das possibilidades da reforma agrária e dos assentamentos, das questões
relacionadas aos impactos do progresso tecnológico ou das migrações. Verifica-se, assim, a
afirmação da temática ambiental e da sustentabilidade e assiste-se ao crescente interesse dos
estudiosos por novos temas, como a agricultura familiar, a conformação dos mercados de
trabalho e a dinâmica ocupacional da população rural.
Esse conjunto de novas temáticas, que passaram a ser objeto de pesquisas, ensejaram
várias mudanças, que vão desde o estímulo ao interesse individual até reorientações de cunho
teórico e epistemológico por parte de alguns investigadores. Contudo, a alteração de mais
longo alcance, ainda não totalmente sedimentada nos meios sociopolíticos e no âmbito
intelectual como um todo, talvez esteja relacionada à insistente afirmação de que não se pode
mais confundir ou interpretar como sinônimos o espaço rural e as atividades produtivas ali
desempenhadas. Embora isso não seja inteiramente novo, recentemente passou a ganhar
projeção e reconhecimento no Brasil o argumento de que a agricultura como atividade
produtiva não deixou de integrar o mundo rural, mas, em algumas regiões, observa-se a
diminuição de sua importância no que concerne à geração de emprego e à ocupação.
Sem desconhecer que a agricultura ocupa um lugar de destaque no espaço rural, cuja
importância varia segundo as regiões e os ecossistemas naturais, não se pode, contudo,
imaginar que ela própria não tenha sido modificada no período recente. Em contextos
internacionais, a dinâmica da própria agricultura no espaço rural vem sendo condicionada e
determinada por outras atividades, passando a ser cada vez mais percebida como uma das
dimensões estabelecidas entre a sociedade e o espaço ou entre o homem e a natureza. Talvez o
exemplo emblemático dessa mudança estrutural seja a emergência e a expansão das unidades
familiares pluriativas, pois não raramente uma parte dos membros das famílias residentes no
meio rural passa a se dedicar a atividades não-agrícolas, praticadas dentro ou fora das
propriedades. Essa forma de organização do trabalho familiar vem sendo denominada
pluriatividade e refere-se a situações sociais em que os indivíduos que compõem uma família
com domicílio rural passam a se dedicar ao exercício de um conjunto variado de atividades
econômicas e produtivas, não necessariamente ligadas à agricultura ou ao cultivo da terra, e
cada vez menos executadas dentro da unidade de produção. Ao contrário do que se poderia
supor, esta não é uma realidade confinada ao espaço rural de países ricos e desenvolvidos.

2. Teoria Social e Agricultura Familiar
Uma revisão das principais contribuições teóricas do pensamento social que têm sido
influentes no período recente para abordar os temas relacionados às sociedades rurais e à
agricultura certamente apontaria o marxismo como uma das vertentes analíticas que mais se
dedicou a esses objetos. O predomínio do instrumental analítico marxista é ainda mais
significativo em relação às análises mais específicas sobre a agricultura familiar e as formas
sociais de trabalho vigentes no mundo rural. Entre as hipóteses que justificam essa hegemonia
pode-se apontar, provavelmente, o próprio referencial epistemológico com o qual opera a
teoria social crítica, situado no campo dos aportes holísticos e nomológicos, que privilegiam o
estudo das relações sociais e econômicas, a ação social e/ou os comportamentos e as

Gillespie. seriam necessariamente semelhantes àquelas estudadas por Marx em relação ao caso inglês) e. Nesse sentido. em razão do amplo predomínio da agricultura familiar na estrutura agrária dos países desenvolvidos. Ou seja. para o marxismo. houve um deslocamento da questão agrária original. um certo tipo de estrutura de classes. Seguindo-se aos escritos fundadores de Marx. sob o ponto de vista do processo de acumulação de capital e de formação da estrutura de classes. Apesar disso. Embora tenham havido alguns impasses críticos em relação a certos aspectos dessa tradição. As relações sociais e as categorias agrárias eram tratadas sob tal enfoque a partir da perspectiva do desenvolvimento do capitalismo. é sintomático o fato de que. Larson. como é o caso dos processos de difusão e adoção do progresso tecnológico pelos agricultores. fruto de interpretações dedutivistas em relação à contribuição original de Marx. a reflexão acerca da estrutura social e das formas da organização produtiva que vigorariam na agricultura capitalista. à medida que avança o processo de divisão social do trabalho na sociedade capitalista e indicar como aparecem novas categorias em seu lugar que são incorporadas às formas sociais pré-existentes. à própria ascensão acadêmica do marxismo enquanto um método científico de análise do social. As ressalvas. o debate . nenhuma outra tradição teórica do pensamento social foi capaz de produzir interpretações tão vigorosas e abrangentes sobre o desenvolvimento do capitalismo na agricultura e as transformações das sociedades rurais e agrárias. Essa mudança parece estar fortemente relacionada. em particular. as opções teóricas e metodológicas não devem ser feitas de acordo com a variação dos temas a serem estudados mas. com a exceção notável das contribuições de Lênin e Kautsky (esse último escassamente difundido no Ocidente até meados da década de 1960). ao contrário. assim acreditava-se. orientadas pelas convicções epistemológicas e científicas do investigador. tal como enfatizado nas obras de Marx. o debate marxista sobre a agricultura e as relações sociais por ela engendradas permaneceram circunscritos ao seu papel econômico no interior do processo de desenvolvimento do capitalismo. entre a década de 1920 e meados dos anos sessenta. Contudo. Por esta razão. 1987). relegando a plano secundário as demais dimensões que conformam os arranjos societários. Lênin e Kautsky (aqui entendida como uma questão política de acumulação de forças a favor da luta de classes). em conseqüência. a literatura marxista sobre a agricultura e o mundo rural ganhou novo impulso e passou a ser difundida nos principais centros universitários. como é o caso. ao contrário das outras vertentes sociológicas. Em razão disso. a partir de meados da década de 1970. Um dos principais temas desse debate foi. naqueles anos. referem-se sobretudo a um evidente grau de reducionismo conceitual. no período mencionado. a maior parte dos estudos propriamente sociológicos sobre as sociedades agrárias e o mundo rural foram realizados por outras tradições teóricas do pensamento social que não o marxismo.3 representações dos indivíduos. teve o mérito de mostrar como determinadas formas sociais são superadas ou eliminadas. para uma reflexão acerca das características e particularidades do processo de desenvolvimento do capitalismo no campo (Buttel. que se ampliou fortemente a partir do final da Segunda Guerra Mundial e durante o ciclo expansionário dos “anos dourados” (1945-1973). do estrutural-funcionalismo (Newby. a contribuição da Sociologia Rural de orientação funcionalista (especialmente a norte-americana) certamente registra maior acúmulo de trabalhos. é preciso reconhecer que a abordagem marxista. a agricultura e o mundo rural tivessem sido tratados como “questão agrária”. Nesse sentido. 1990). e em larga medida ainda continua a ser. a principal questão perseguida pela maioria dos autores consistia em investigar se a instauração do modo de produção capitalista acarretava ou não determinadas formas de propriedade (que. Já com relação a outros temas. expressão que rotulou o debate acerca dos rumos e especificidades da penetração do capitalismo na agricultura. No entanto. que acabou privilegiando excessivamente os aspectos econômicos das relações sociais do campo.

embora não seja. cultural e econômica do capitalismo. caracterizado pelas unidades familiares. . Já as formas capitalistas seriam definidas por assentarem-se em trabalho assalariado. e outro. propriedade de meios de produção. Acredita-se que a teoria marxista ainda guarda potencialidades explicativas quando se pretende discutir o trabalho e suas formas de materialização. quer sejam familiares ou sociais. como a polarização entre produtor tecnificado ou capitalizado versus os camponeses. A dinâmica socioeconômica destas formas sociais no meio rural configura-se como uma projeção particular do conjunto das relações de produção e trabalho que existem e se reproduzem nos marcos de uma sociedade mais ampla onde imperam as relações sociais de caráter capitalista. busca de autonomia etc. evidentemente. É bem verdade que em alguns casos históricos. só para dar um exemplo. Dessa classificação derivam qualificações empíricas. uma revisão abrangente e detalhada da literatura marxista acerca da agricultura familiar certamente não é tarefa simples. Em outros contextos. às formas familiares corresponderiam características como trabalho familiar. Gervais. econômico. entre outros aspectos. apropriação de mais-valia. apresentar-se-á um síntese das idéias desenvolvidas em outro trabalho (Schneider. consagrado à empresa capitalista. esse tipo de raciocínio deriva de equívocos metodológicos que reduzem a compreensão e a análise das formas sociais existentes no campo à mera contraposição de dois segmentos: um social. Segundo Neves (1995). racionalidade dirigida à obtenção de produtividade e rentabilidade. de seu domínio exclusivo. em um certo espaço e contexto histórico. Por este motivo. como é o caso das famílias rurais que possuem pequenas propriedades de terra. a presença do trabalho familiar em unidades produtivas agrícolas pôde desenvolver relações estáveis e duradouras com as formas sociais e econômicas predominantes como é o caso. muitas vezes utilizadas para caracterizar os próprios produtores. resistência à apropriação do excedente via mercado. reprodução ampliada. Em várias situações e contextos as unidades familiares subsistem com uma relativa autonomia em relação ao capital e vão se reproduzindo nessas condições. Não cabe aqui um escrutínio dos erros e acertos do marxismo em relação aos desígnios do desenvolvimento do capitalismo no campo e tampouco um esforço comparativo de avaliação em relação às vertentes teóricas concorrentes. Assim. as formas sociais identificadas com o trabalho familiar acabaram sucumbindo e foram absorvidas pelo próprio capitalismo. tipológico e ordenador da heterogeneidade social e econômica que caracteriza as formas familiares de produção. A sua permanência ao longo do tempo não é estática e vai depender de sua relação com as formas distintas e heterogêneas de estruturação social. O modo pelo qual a forma familiar interage com o capitalismo pode variar e assumir feições heterogêneas e muito particulares. pobres ou tradicionais. Como no espaço deste artigo não será possível abordar em profundidade estas questões. Jollivet e Tavernier (1977). Abramovay (1992). Neste sentido. é preciso um esforço de situar a discussão teórica sobre a agricultura familiar no debate mais amplo sobre a persistência das formas familiares de trabalho e de produção no interior do capitalismo. 3 Para um visão histórica da presença da agricultura familiar nos principais países ocidentais. em determinados ambientes econômicos e produtivos. consultar Veiga (1991). da integração dos agricultores familiares às empresas agroindustriais que operam no regime de integração. deve-se abandonar aquelas perspectivas de análise e interpretação que se baseiam em um raciocínio dualista. Para fugir a este tipo de raciocínio e interpretação é necessário elaborar uma outra compreensão. Para estas perspectiva. entretanto. quando se opta pelo estudo da agricultura familiar deve-se ter consciência de que se trata de um tema umbilicalmente arraigado no pensamento social marxista. Pela sua complexidade e magnitude.4 passou a concentrar-se em torno da persistência das unidades agrícolas baseadas no trabalho da família3.

que impedem uma eventual correspondência.5 2003). No entanto. cap. Portanto. isoladamente. O primeiro elemento diz respeito à forma de uso do trabalho. do financiamento ou de outra forma de apoio institucional – Estado ou ONGs –. 5 Há uma vasta bibliografia que discute as particularidades ou os obstáculos naturais para a realização da produção capitalista na agricultura. As relações dos agricultores com o ambiente social e econômico podem ocorrer por meio do crédito. exercendo. . [AN1] Comentário: Sugiro suprimir essa afirmação. Considera-se que este enfoque precisa sofrer um ajustamento. e também pelo acesso a mercados de produtos (compra de insumos e venda de mercadorias. em essência. pois da maneira como está dita soa estranho imaginar quais seriam as formas que os integrantes de uma família usam para se reproduzir. sendo necessário deslocar seu referencial holística e nomológico para a compreensão das formas de articulação da agricultura familiar com o ambiente social e econômico em que estiver inserida. predominantemente. uma total subordinação dos processos produtivos ao interesse do capital e. situações específicas de mercado para essas mercadorias. é cada vez mais perceptível o apelo que a produção dita “natural” exerce sobre os consumidores. os avanços científicos e tecnológicos ainda não conseguiram eliminar a “base natural” sob a qual se assenta a produção de alimentos e fibras. as barreiras naturais continuam limitando o desenvolvimento de economias de escala na agricultura. tendo como variável a forma de uso da força de trabalho. não é suficiente para se entender e se caracterizar sociologicamente sua natureza. em termos de funcionamento. Embora notórios. O terceiro elemento pode ser extraído da teoria social. e muito menos subverter os processos produtivos agrícolas a ponto de suprimir a distinção. entre agricultura e indústria. Este ambiente é constituído por um conjunto de instituições que fornece estímulos e determina os limites e as possibilidades. podem contratar. outros trabalhadores. malgrado argumentos contrários. o tempo de trabalho que se gasta para produzir uma mercadoria. Para o aprofundamento dessa questão. a utilização de critérios de quantificação para determinar o limite a partir do qual uma unidade familiar que usa trabalho contratado deixa de ser considerada como tal constitui-se em operação heurística que. inclusive.5 De fato. ele está. 1) e Abramovay (1992. assim. operando com base em relações de trabalho não assalariadas. com base na utilização da força de trabalho dos membros da família que. como vivem seus integrantes e por que tomam determinadas decisões. As unidades familiares funcionam. 247). forjando. em caráter temporário. Além disso. A seguir. no limite. Na agricultura. reproduzindo uma fórmula dualista de pensamento que pouco auxilia a explicação sociológica. As posições mais interessantes sobre esse tema foram desenvolvidas por Mann (1990. são indicados alguns elementos que se consideram úteis na elaboração de uma definição mais abrangente para compreensão da categoria social denominada agricultores familiares a partir da perspectiva de análise mais geral das formas familiares de organização do trabalho e da produção existentes no interior da sociedade capitalista contemporânea. consultar o excelente artigo de Neves (1995). não corresponde ao tempo de produção necessário à sua elaboração.4 O segundo elemento refere-se aos obstáculos oferecidos pela natureza. uma influência decisiva sobre as decisões individuais e familiares. 4 Quando um pesquisador analisa uma situação concreta. solo. entre a atividade produtiva agrícola e industrial. e chega a conclusão de que a caracterização de determinadas unidades se dá pelo seu caráter familiar ou capitalista. assim. por isso. ou equilíbrio dos ecossistemas. Não é por acaso que uma parcela majoritária da produção agroalimentar dos países capitalistas mais desenvolvidos continua nas mãos dos agricultores familiares. A tradição marxista sempre privilegiou o enfoque do desenvolvimento agrário como um processo macrosocial e econômico sem considerar a resiliência das formas familiares e reconhecer a capacidade de adaptação e interação dessas categorias sociais com o sistema dominante. impedindo. um olhar atento sobre a produção agrícola é suficiente para convencer o observador de que se trata de uma atividade ainda muito dependente de fatores naturais como clima. ou seja. sobretudo nas situações em que a produção é especializada. por sua vez. p.

por exemplo. a reprodução não é apenas o resultado de um ato da vontade individual ou do coletivo familiar. A reprodução social. ao mesmo tempo.6 As decisões tomadas pela família e pelo grupo doméstico ante as condições materiais e o ambiente social e econômico são cruciais e definidoras das trajetórias e estratégias que viabilizam ou não sua sobrevivência social. acima de tudo. não poderia concretizar ou sofreria fortes restrições. Mesmo que em certos casos as unidades familiares estejam submetidas a determinados condicionantes externos como. . o monopólio de preços ou os diferentes tipos de mercado (de trabalho. como critérios para definir a natureza de uma determinada forma social. que está assentada nas relações de parentesco e de herança existentes entre seus membros. Além disso. não autoriza a categorização compulsória como capitalistas. contando com a contratação de assalariados. o ambiente social e econômico também compreende as expectativas cambiantes e as percepções que as famílias nutrem em relação ao seu futuro e às possibilidades de desenvolvimento do local em que vivem.6 relação com a agroindústria etc. econômica. o resultado do processo de intermediação entre os indivíduos-membros com sua família e de ambos interagindo com o ambiente social em que estão imersos. seja pela venda da força de trabalho (via atividades nãoagrícolas). a persistência e a sobrevivência de certas unidades e a desagregação e o desaparecimento de outras. mercado de trabalho (como a possibilidade de obter rendas em atividades não-agrícolas). Trata-se de aceitar a hipótese de que determinadas formas sociais estabelecem relações com o modo de produção dominante sem que. seja pela venda de produtos agrícolas. Nesse processo cabe à família e a seus membros um papel ativo. é preciso admitir que determinadas formas sociais se transformam (no sentido de que se superam). Desse modo. econômica. Nele os indivíduos e a família devem levar em conta o bem-estar e o progresso de sua unidade de trabalho e moradia e as possibilidades materiais de alcançar determinados objetivos. a priori. A contratação eventual ou regular de assalariados pelas unidades familiares ou sua inserção em circuitos mercantis. Contudo. É no interior da família e do grupo doméstico que se localizam as principais razões que explicam. o elemento central que patrocina a relativa estabilidade e exerce um papel regulador entre os diferentes aspectos aqui apresentados é a própria natureza familiar das unidades agrícolas. estratégias e ações podem trazer resultados benéficos ou desfavoráveis à sua continuidade e reprodução. isoladamente. Nesse sentido. A reprodução é. cultural e simbólica das formas familiares dependerá de um intrincado e complexo jogo pelo qual as unidades familiares se relacionam com o ambiente e o espaço em que estão inseridas. nem tampouco as relações com o mercado servem. o que muitas vezes um agricultor amplamente inserido na dinâmica capitalista. e tampouco uma decorrência das pressões econômicas externas do sistema social. cultural e moral. o fato de estruturaremse com base na utilização da força de trabalho de seus membros permite que determinadas decisões se tornem possíveis. se metamorfoseiam e se reproduzem fora do escopo rígido das leis de valorização do capital. entre outros).). pois nem a categoria trabalho familiar estritamente. acesso e informações e inovações produzidas pelo progresso tecnológico. pois suas decisões. de produtos e insumos. de crédito. Essa perspectiva permite romper com o usual reducionismo classificatório dos estudos sobre a agricultura familiar. elas assumam um caráter capitalista. nem a contratação ou não de assalariados. Isso não significa concordar com a idéia de que essa especificidade do caráter familiar seja suficiente para explicar por que algumas unidades conseguem reproduzir-se ou resistir. mesmo em condições adversas.

7 3. com a chegado dos colonos de origem alemã. a manutenção de vínculos sociais assentadas em relações de parentesco entre outras. cuja origem social remonta ao processo de ocupação espacial promovido pela colonização com imigrantes de origem européia iniciada na primeira metade do século XIX. O grupo social formado pela agricultura familiar será. a agricultura familiar. Obedecendo-se a estas demarcações teóricas e conceituais e seguindo-se as recomendações sobre as mediações necessárias. são burilados ao longo do tempo. será necessário deixar claro que se trata da agricultura familiar do Rio Grande do Sul. Segundo o entendimento que será adotado neste trabalho. Portanto. Outra mediação necessária refere-se ao recorte espacial e temporal dos objetos e processos a serem investigados. 7 . Objetivamente. Não obstante. No caso específico aqui abordado. algo que só pode ser adequadamente realizado através do processo contínuo de investigação. na localidade onde hoje se encontra o município de São Leopoldo. os indivíduos e as famílias que se denominam colonos e/ou agricultores familiares constituem um mesmo grupo social mas. embora os grupos sociais formados pelos assim denominados colonos de ontem e agricultores familiares de hoje sejam os mesmos. o acesso à terra mediante a herança. o traço fundamental que distingue os agricultores familiares dos colonos assenta-se no caráter dos vínculos mercantis e das relações sociais que estas unidades 6 Essa perspectiva de análise está de acordo com as idéias de Friedmann (1978a. em termos empíricos e do senso comum. nesta segunda parte do artigo pretende-se adiantar algumas noções que consideradas fundamentais para o estudo da agricultura familiar gaúcha na perspectiva analítica proposta na primeira seção. vale a pena frisar. Metamorfoses da Agricultura Familiar no Rio Grande do Sul A partir dos elementos teóricos delineados pretende-se examinar a dinâmica das formas familiares de organização do trabalho e da produção presentes no meio rural do Rio Grande do Sul expressas na categoria social dos agricultores familiares. Semelhante questão se coloca na discussão entre campesinato versus agricultura familiar. para efeito de sua compreensão teórica e conceitual é preciso distinguí-los e mostrar que sua existência e reprodução social obedece à características sócio-culturais e à uma racionalidade econômica que não são análogas. terminadas e concluídas. quando se busca aproximar os conceitos analíticos e o referencial teórico das categorias empíricas e dos processos sociais concretos tornam-se necessárias duas mediações fundamentais. em que a interrogação fundamental está na existência ou não de diferenças. o uso predominante do trabalho da família na consecução das tarefas produtivas. no ano de 1824. portanto. A primeira delas está na necessidade de se reconhecer que os conceitos e os referenciais analíticos nunca são instâncias abstratas prontas. pois nascem a partir de uma formulação original. a indagação é sobre a possibilidade de se afirmar que o colono de antigamente é o agricultor familiar de hoje em dia7. Para o estudioso que analisa as formas familiares de trabalho e suas estratégias de reprodução ao longo da história. mas sempre ficam na dependência da renovação e atualização em virtude da mutabilidade constante da base empírica. o objeto de interesse desta reflexão sociológica. Daí decorre a necessidade permanente de aperfeiçoamento das categorias de análise. do ponto de vista analítico e conceitual. Embora mantenham semelhanças objetivas entre si como a propriedade de um pequeno lote de terra. 1978b) e Carneiro (1996). a primeira questão que se apresenta para ser respondida refere-se à comparação entre a configuração atual agricultura familiar (ou dos grupos sociais assim identificados) em relação àquelas formas sociais que se implantaram no Rio Grande do Sul através dos processos de colonização. eles formam duas categorias distintas.

1986) quando discute as relações ontológicas Homem X Natureza e o processo de socialização pelo labor como primeiro passo para o surgimento de uma divisão social do trabalho em grupos sociais.8 passam a estabelecer à medida que se intensifica e se torna mais complexa a sua inserção na divisão social do trabalho. que se originou do processo de ocupação territorial e assentamento dos imigrantes de origem européia no Rio Grande do Sul. é o maior envolvimento social. Embora a forma de produção e a forma de sociabilidade estejam intimamente ligadas na formação deste modo de vida. A tarefa que se impõem ao investigador. que podem ser de trabalho e de produção bem como de sociabilidade. Conforme antes indicado. 2002). Cândido (1987). sem os quais a existência social não é possível. conferindo-se maior ênfase aos aspectos econômicos e produtivos com o intuito de demonstrar como transcorreu o processo lento e gradual de mudança e superação do modo de vida colonial e. buscar-se-á descrever o processo de evolução e transformação do que se chamará sistema produtivo colonial (ou seja. permite compreender tanto as relações materiais e as estratégias necessárias para garantir a organização dos meios de produção como as relações de sociabilidade (parentesco. mas refletir sobre processos sociais e identificar as estratégias de reprodução dos agentes buscando perceber como se dá a transformação e a integração de determinada categoria social específica à dinâmica econômica e societária mais geral. quais foram os processos que determinaram mudanças e/ou alterações fundamentais e de que modo os agentes (os indivíduos e as famílias envolvidas) reagiram a eles. . onde indica que o funcionamento de um determinado grupo social sempre está assentado em uma forma de organização da produção e uma forma de sociabilidade. a abordagem sugerida começará pela análise dos aspectos sociais. etc) e a cultura de um determinado grupo social. uma determinada forma social de organização da produção e do trabalho). mais integrado e mais dependente da sociedade capitalista moderna. Marx e Engels. econômico e mercantil que torna o agricultor familiar. em sua obra referencial sobre os caipiras do Rio Bonito e a cultura do cururu. mostrando que não ocorre uma ruptura total e a polarização antagônica entre o colono e o agricultor familiar. Este autor ressalta que a reprodução social dos indivíduos e sua sociabilidade dependem da existência de uma organização social que possa prover os recursos mínimos vitais. ao mesmo tempo. Neste sentido. 1999. em seu lugar. a análise de situações e processos sociais concretas tentará identificar como se dá esta diferenciação. Trata-se. emergindo a agricultura familiar. econômicos e culturais que caracterizam o grupo social identificado como colonos. mas uma metamorfose. O conceito de formas sociais. Neste sentido. Ou seja. Os colonos configuram uma determinada formação social que pode ser caracterizada como um modo de vida (Schneider. portanto. aqui sugerida. de um recurso analítico e interpretativo que pode ser utilizado para descrever e interpretar o funcionamento do modo de vida dos colonos no Rio Grande do Sul8. é verificar como se deu esta evolução ao longo do tempo. inspira-se na idéia originalmente desenvolvida por Antônio Cândido (1987). O entendimento do processo de evolução e transformação das formas familiares será baseado em um estudo de caso tomando-se como referência a região da Encosta Superior da 8 Para uma discussão do significado dos conceitos de modo de vida e formas sociais remete-se o leitor a obra de Marx (1986. sugerido por Cândido. nestes termos. em seu clássico estudo sobre os caipiras paulistas. tal como definida nas seções anteriores. que consiste em uma transformação com a manutenção de determinados características e a superação de outras. A noção de modo de vida. reciprocidade. o objetivo perseguido não será o de formular tipologias e classificações. que é entendido como um conjunto de estratégias produtivas e de manejo dos agroecossistemas que os colonos foram colocando em prática ao longo da história. Como ponto de partida. Na segunda parte deste trabalho será adotado esse procedimento. destaca o papel do uso dos meios de vida em sociedade simples (fatores de produção). para efeitos heurísticos acredita-se ser possível abordá-los de modo desagregado.

o uso da força de trabalho. Estas mudanças na forma de produção também afetaram aspectos da cultura e da sociabilidade. buscar-se-á verificar suas raízes históricas e caracterizar a evolução deste processo desenvolvimento rural endógeno. É neste cenário que surge a agricultura familiar. Sob este enfoque. o acesso ao progresso técnico e ao crédito e as relações com o mercado. o que acabou transformando e metamorfoseando o próprio modo de vida. porque se torna mais dependente e subordinado. Atenção especial será dada à compreensão das diferenciadas estratégias de reprodução social que foram aparecendo ao longo do tempo e o modo pelo qual os agricultores lograram uma inserção econômica e produtiva em sua região de origem.9 Serra do Nordeste e o município de Veranópolis. O Desenvolvimento Rural Endógeno e a Agricultura Familiar na Encosta Superior do Nordeste: um estudo de caso O principal objetivo desta seção consiste em apresentar a dinâmica local de evolução e transformação da agricultura familiar na região da Encosta Superior da Serra do Nordeste. o que permitiu a emergência de um processo endógeno de desenvolvimento. arroteamento das terras. Neste tipo de análise a atenção maior recairá sobre a forma de acesso da terra. o sistema produtivo colonial passou a ser submetido a um conjunto variado de pressões sociais e econômicas que resultaram em um processo de transformação estrutural que comprometeu várias de suas características originais. analisa-se as mudanças ocasionadas pela modernização tecnológica dos processos produtivos agrícolas. reunidos em um mesmo território. o processo produtivo. Esta acumulação não se refere apenas ao capital na sua forma de mercadoria de troca mas também aos outros modos de valorização do trabalho de um determinado grupo social. focalizando o município de Veranópolis. procurando demonstrar que a mercantilização crescente da vida social e econômica dos colonos conduziu à uma integração social e econômica crescente e uma maior dependência do mercado. que ao ampliar a interação mercantil com o ambiente social e econômico amplia também suas relações de dependência. constitui-se no que será denominado desenvolvimento rural endógeno. levaram ao desenvolvimento de uma matriz produtiva e uma conformação social que se reproduz a partir das sinergias produzidas pelo próprio processo endógeno de acumulação de capital. No segundo da discute-se a evolução do sistema produtivo colonial. reduziu-se consideravelmente a autonomia das famílias rurais e as estratégias de reprodução social tornaram-se cada vez mais subordinadas e dependentes. A partir da década de 1970. identificando o processo de especialização de alguns cultivos e produtos que passaram a ter maior viabilidade comercial. indica-se que o sistema produtivo estabelecido permitia aos colonos uma reprodução social semi-autônoma. instauração dos primeiros cultivos e o frágil acesso aos mercados. o que resulta em um processo de reprodução social significativamente distinto daquele vivido pelos colonos. que faz a emergir a agricultura familiar como uma categoria-social síntese. Em ambas as fases. 4. . indicando como se deu o processo de assentamento. No primeiro item aborda-se a ocupação e a formação do sistema produtivo colonial. Sinteticamente. Este processo de transformação econômico e produtivo e a metamorfose social que lhe corresponde. este processo constitui-se no resultado da combinação de um conjunto de fatores sócio-econômicos e histórico-culturais que. Como resultado deste processo. o comércio se intensifica e as comunicações com os centros consumidores se amplia. Em razão disto. contudo. Neste terceiro item.

ciente deste limite. Durante a primeira fase da agricultura os colonos cultivavam produtos vegetais como o milho. os novos habitantes não precisavam se preocupar com a utilização de técnicas de cultivo e manejo que prezassem pelos cuidados ambientais. A exploração da madeira. a ervamate e outros. amendoim. Além dos italianos majoritários. os colonos logo passaram a demandar outros tipos de serviços fazendo com que . uma fonte de recursos não-agrícolas importantes para os italianos recém chegados. Em face da fertilidade inicial dos solos recém submetidos à queimada. limitando-se no geral aos animais de carga. Desta atividade inicial resultou inclusive uma outra acessória. Isto demonstra que a instalação dos colonos na Serra gaúcha ocorreu de forma integrada aos circuitos mercantis ali existentes ou criados em função do própria processo de colonização e não de instalação de uma economia de subsistência. com um total de 3. o facão. 4. o trigo. na região estudada. pois há que se considerar que a propriedade definitiva do lote colonial estava não só condicionada ao pagamento da terra e das despesas com a imigração pelos colonos. cujos principais produtos eram o milho. a abóbora. Estes cultivos e este meios de produção formam o sistema produtivo colonial. de grande importância para os colonos e para a economia local da região da Encosta Superior da Serra que eram as serrarias. especialmente a derrubada de araucárias. que teve início no ano de 1875 através do assentamento de colonos de origem italiana. A Colônia de Alfredo Chaves.1 Ocupação e formação do sistema produtivo colonial (1875/1890 até 1930) Este primeiro período corresponde a fase de ocupação dos lotes e assentamento dos colonos. colonização e expansão italiana em Veranópolis vale a pena situar o contexto mais geral em que ocorre este assentamento de imigrantes europeus. por isto. Um vez chegado ao lote colonial. a enxada e a cavadeira. Além das serrarias. assim como o conserto de estradas e a construção de alojamentos para os novos colonos foram. uma vez iniciado o cultivo agrícola nas propriedades. Esta hegemonia das pequenas propriedades na região decorre das particularidades do processo de colonização e ocupação da região. A religião amplamente majoritária dos colonos era a católica. cujo principal propósito era prover a alimentação da família e conseguir pagar as dívidas do assentamento. o que obviamente demandava recursos monetários. a serra à mão. feijão e mais tarde o trigo. Os principais instrumentos de trabalho eram basicamente o machado. que com isto puderam facilmente saldar suas dívidas de viagem a quitar a compra do loto colonial. cabe informar que a inspiração para o estabelecimento destes períodos decorre da trajetória pessoal de estudos sobre a agricultura colonial no Sul do Brasil e de uma pesquisa de campo qualitativa no município de Veranópolis.10 Antes de referir especificamente o processo de ocupação. A determinação das fases a seguir apresentadas não obedece a um rigor metodológico. que conheceram seu auge na fase de 1890 a 1920. batata-doce. como também pela necessidade de justificar sua utilização produtiva. Contudo. A colônia original era dividida em 53 linhas.644 lotes e uma área de 93. definiu este período como de uma “agricultura de corte e queimada com comercialização de excedentes”. Parece razoável imaginar que esta caracterização corresponda ao processo ocorrido. a maioria dos colonos começava a desmatar e desbravar a floresta. A caracterização da estrutura fundiária aponta para a forte presença de estabelecimentos agropecuários com áreas não superiores a 20 hectares. razão pela qual ficará exposta as críticas de historiadores ciosos e cuidadosos em relação à datação cronológica dos eventos. atual município de Veranópolis. Schmitt (2001). em Alfredo Chaves também se estabeleceram poloneses e franceses.500 hectares. foi criada em 1885 em uma localidade então conhecida como Roça Reúna. A criação de animais era ainda muito restrita.

Estes excedentes passaram a ser o 9 Em 1908 a ferrovia chega a localidade de trinta e cinco (hoje Carlos Barbosa) e em 1918 estende-se um ramal por Bento Gonçalves que vai até Garibaldi. na verdade. 64). não seria possível ao colono. Nesta região. 6 selarias. a instalação de barracões para alojamento de novos colonos. 7 funilarias. A partir de então o sistema produtivo colonial assume suas características mais acabadas. 2 fábricas de chapéus. que representavam quase sempre a única fonte monetária utilizada para saldar as dívidas. 32 carijos. A partir da década de 1910 as colônias italianas da Serra gaúcha puderam abandonar rapidamente o extrativismo vegetal como principal fonte de renda monetária. Além disto. Os canais de comércio e escoamento da produção. os canais de comercialização da produção agrícola da Serra desenvolveram-se quase concomitantemente à ocupação das terras do planalto. desde o princípio. Assim. Deveriam ainda ser capazes de comprovar a derrubada da mata após recebido o lote e fixar residência e cultivar a terra por período de pelo menos um ano. 1992. 5 cervejarias. havia um total de 45 moinhos. Tomando-se exclusivamente o caso de Veranópolis.11 as antigas habilidades artesanais dos imigrantes italianos pudessem também ganhar espaço e se desenvolver. Para saldar estas exigências muitos colonos apelavam para o trabalho em atividades de prestação de serviços como a abertura de estradas. Além disso. já ano de 1919. o que significa a manutenção de uma forte autonomia de reprodução social baseada na produção policultora de subsistência e na venda de excedentes comercializáveis. Em face a isto. entre outros (Farina. 1969. sobretudo. amplia-se a demanda por produtos alimentares da colônia e a produção agrícola que até então pequena e destinada exclusivamente para o autoconsumo passa a entrar nos circuitos mercantis. em prazo estabelecido. Do contrário. 39 ferrarias.13 curtumes. no imediato pós-I Guerra Mundial. 20 carpintarias para construção de carroças. a construção de pontes. deve-se também destacar que este modelo produtivo dependia. quando foi realizado o recenseamento. p. 7 fábricas de açúcar e rapadura. por exemplo. Foi assim que. quitar suas dívidas e garantir a propriedade do lote. o que provoca uma reorientação econômica em toda a região pois ampliam-se drasticamente os canais para comercialização dos produtos coloniais9. já existiam na região de colonização alemã. foi estendido um ramal até Bento Gonçalves (Roche. No final da década de 1970 a ferrovia Porto Alegre-Caxias foi desativada. Importante ressaltar que o assentamento dos colonos nas terras da Serra gaúcha dava-se sob certas condições de ocupação produtiva. o que resultou quase sempre em uma agricultura predatória e altamente devastador das florestas sub-tropicais ali existentes. . verifica-se que no ano de 1911. Esta melhora ocorreu no período 1908-1910 mediante a extensão da rede ferroviária até Caxias do Sul e. Deste período em diante e. 30 alambiques. que havia se estabelecido do andar inferior da Serra do Nordeste. uma gama variada de estabelecimentos industriais assumiu um papel de destaque na economia colonial. Estes condicionantes levaram a rápida derrubada das florestas e o início dos cultivos agrícolas. 11 alfaiatarias. da produção de excedentes comercializáveis. já no ano de 1908 a ferrovia alcança as colônias italianas da Serra ligando-as à Capital Porto Alegre ao sul e ao centro do País pelo norte. 83). 35 sapatarias. em 1917. pode-se afirmar que o sistema produtivo que aí nasce já está inserido nos circuitos mercantis desde o princípio. A região de colonização italiana da Encosta Superior do Nordeste pôde desenvolver-se ainda mais intensamente a partir da melhoria dos meios de comunicação que ligavam a Colônia à Capital. o título definitivo da terra dependia da quitação integral do lote e das demais dívidas contraídas pelos colonos com a administração pública. desde o início da colonização. as vias fluviais (rio Caí e rio Taquari) eram navegáveis e representavam um excelente meio de transporte e acesso a ampla variedades de produtos como sementes e ferramentas de trabalho.

Como conseqüência. Costa. o dono da Casa do Comércio. sobretudo a banha.2. Os comerciantes centralizavam a produção agrícola em seus estabelecimentos e a conduziam até a ferrovia. o período de 1930 a 1960 pode ser entendido como uma época de especialização produtiva. Cabe registrar que entre 1930 e 1960 o sistema produtivo colonial da região vitinicultora passa por duas fases. mais tarde. A partir de 1950 a produção de cereais se desloca para a região do Planalto Médio do Rio Grande do Sul. a partir da década de 1920. especialmente o trigo e o milho. cavalos e mulas. a diminuição da extração de madeiras devido ao desmatamento intensivo ocorrido no período anterior. Em razão disto. leite. Fores da Cunha e outros) e introduzem novas variedades de produtos alimentares destinados ao mercado local e regional como é o caso da batata-inglesa em Carlos Barbosa. Bento. Trata-se de um período de expansão impressionante dos volumes produzidos. o milho e o vinho e. os derivados de suínos. contudo. Antônio Prado. Esta ampliação da superfície de terra utilizada provoca mudanças no sistema de rotação de terras produzindo como efeito imediato a redução do período de pousio de algumas áreas e a intensificação da sucessão de cereais no inverno e no verão (trigo/milho). Evolução e crise do sistema produtivo colonial (1930 até 1960) A partir da década de 1930 a agricultura colonial de Veranópolis como de resto de toda a região Encosta Superior da Serra do Nordeste se caracterizará por um processo de aprofundamento e diferenciação em relação ao período anterior sem. os colonos mantêm a autonomia alimentar ao produzir os produtos para autoconsumo e subsistência. da maçã em Veranópolis e do alho em São Marcos. em boa medida. agora possível devido a inexistência de tocos e toiceiras de árvores. sofrer modificações estruturais no sistema de corte e queimada com comercialização de excedentes. e a produção de suínos entra em crise devido ao surgimento dos óleos comestíveis vegetais à base de soja.12 trigo. 1998). quando a presença dos cereais. ampliação das áreas cultivadas nas propriedades. 4. Obviamente. Como alternativa produtiva. embora a agricultura colonial seja inserida aos circuitos mercantis desde sua origem. quem realizava estas duas atividades era a mesma pessoa. a introdução de equipamentos como o arado. na era de ouro da agricultura na região do município de Veranópolis. De modo geral. em razão da distância de 30 quilômetros a ser percorrida até Bento . provavelmente. com destaque para alguns cultivos. e a criação de suínos são as atividades mais importantes na região. Em Veranópolis. feijão. ampliará a capacidade de produção e o rendimento do trabalho. Este crescimento da produção agrícola é acompanhado pelo desenvolvimento de duas outras atividades econômicas: o transporte e o comércio local. o que faz ampliar a oferta de produtos da colônia (Farina. as décadas de 1930 e 1940 constituem-se. avançando também rapidamente em Santa Catarina e no Paraná. aprofundamento das relações mercantis e expulsão demográfica do excedente populacional. observando-se com isto um aumento significativo de animais nas propriedades e. 1992. o uso destes equipamentos e técnicas também prevê a demanda de animais de tração como bois. os agricultores tendem a se especializar em alguns cultivos “para a venda” e outros “para o gasto”. consequentemente o aparecimento da adubação do solo com o esterco. Planta-se trigo e uva para vender e milho para alimentar os porcos também destinados à venda e produz-se batata. e outros para o consumo doméstico. particularmente no município de Veranópolis. ambas conduzindo a uma maior especialização produtiva das propriedades o que se deve. os agricultores da região se especializam na produção de uva e vinho (sobretudo Caxias. Na maioria das vezes. Conforme antes mencionado. A primeira fase compreende os anos entre 1930 e 1950. Além disto.

comerciantes. religiosos. De outro lado. quer fosse Porto Alegre ou mesmo as cidades do centro do País. os comerciantes desempenhavam o papel que Mendras (1984). no entanto. São facilmente encontráveis relatos e livros que narram a história da colonização que destacam que. no então município de Veranópolis havia ainda a Cooperativa da Erva-mate. A partir de 1952 esta situação torna-se ainda mais favorável em razão da conclusão da Ponte Ernesto Dornelles. Roche. forneciam crédito a juros para quem tomasse empréstimos.118) em 1928 havia em Veranópolis 9 caminhões da marca Chevrolet. 2 da Fiat. a atividade de transporte de produtos agrícolas teve grande importância. 4 da Rugby. Além desta. todas já encerradas no momento de realização desta pesquisa. somente nesta em Alfredo Chaves (atual Veranópolis) havia 29 Casas de Comércio (Farina. São deste período também as Cooperativas 10 Segundo Farina (1992. especialmente o vinho. sobre o Rio das Antas. tinham influência política sobre as decisões da comunidade. em seu clássico estudo sobre as sociedades camponesas. possuíam dinheiro. São Paulo à frente. 9 da Ford. as famílias tinham entre 10 e 12 filhos (Costa. Na década de 1920. p. a Cooperativa de Fagundes Varela e a Cooperativa de cereais (trigo e milho). Outro aspecto que se modificou no período de 1930 a 1960 foi o grau de integração mercantil dos agricultores. Em razão disto. esta função de ligação sempre cabe aos indivíduos que são os “notáveis” de uma coletividade local (padres. p. a melhoria das comunicações e das possibilidades de escoamento da produção. Numa única palavra. 92). 1975. Um dos sinais externos mais salientes desta diferenciação sócio-econômica a ostentação de seus caminhões importados como sinal de riqueza e distinção10. etc. 1 da Dodge e 51 autos. por exemplo. que possibilitou a expansão da oferta do produto colonial. Segundo este autor. De um lado. sobretudo o vinho.) Do ponto de vista macroeconômico. 1992. . que nas décadas de 1940 e 1950 passavam por um processo de industrialização e urbanização. a partir deste período os colonos passaram a adquirir sementes e implementos agrícolas para melhorar a produtividade. surge em 1936 a Cooperativa Agrícola Alfredochavense (que desde 1940 comercializa produtos vinícolas da marca Noé). a oferta de produção aumento rapidamente e os empreendimentos cooperativos ganham um novo impulso. que se destaca por ser uma obra de rara beleza devido a sua arquitetura em forma de arcos. Mas o envolvimento comercial dos colonos não foi tão intenso à montante como à jusante. pois através das estradas de ferro que cruzavam a serra os produtos coloniais chegavam rapidamente aos principais centros consumidores. as famílias dos colonos italianos passaram a ser muito mais numerosos devido ao aumento significativo do número de filhos. Nesta segunda fase. A intensificação do sistema produtivo colonial não repercutiu apenas no aumento da produção mas também afetou outros aspectos do modo de vida colonial como o aumento da população. até a década de 1930 estas iniciativas não haviam alcançado uma organização econômica expressiva dada a pequena oferta de produtos coloniais. pelo aumento da demanda destes centros urbanos. 1969). Além da especialização na produção de alguns cultivos “para a venda”. Em Veranópolis. definiu como “agentes de ligação” entre a coletividade local e a sociedade englobante. que se especializa na compra da uva e na comercialização dos seus derivados. O cooperativismo surge na região colonial da Encostas Superior da Serra a partir de 1911 por estímulo de Stéfano Paternó e da Igreja Católica. anciões. A partir deste período. Contudo. em média.13 Gonçalves. Frozi e Mioranza. Eles eram as pessoas mais bem informadas. o comerciantes foram os primeiros indivíduos a ascender social e economicamente em relação aos demais colonos. pois no referido período ampliaram-se as estratégias de organização das cooperativas para comercialização da produção. deve-se ressaltar que este crescimento exponencial da agricultura colonial foi favorecido pela conjugação de dois fatores. 1998.

nenhum outro aspecto teve impacto tão decisivo na vida dos colonos . No caso de Veranópolis. do que o acesso crescente a renda. O que antes não passavam de pequenos ofícios rurais que combinavam o exercício de alguma atividade artesanal com as atividades agrícolas.14 importantes de outras municípios como a Aurora. . tornando-se mais intenso no período seguinte. p 116) e Giron (1980). dadas as condições de fechamento da fronteira agrícola e de limitação de expansão da zona pioneira para o norte da região Meridional do Brasil. estas atividades comerciais e industriais passaram a captar os recursos financeiros gerados pela agricultura colonial. A partir deste período. a alternativa que restava aos colonos era a de encontrar uma nova forma de ocupação para os filhos mais jovens na própria região ou localidade. entre outras11. a existência destas atividades em bases artesanais de pequeno porte era antiga e o comércio local desempenhava o papel de centro aglutinador de toda a movimentação mercantil da região colonial situada em torno do Vale do Rio das Antas. Nestas condições. Este processo de especialização das atividades artesanais ocorre a partir de meados da década de 1950. etc). como no caso dos moinhos. as possibilidades mais promissores para viabilizar a reprodução social das famílias de colonos apresentavam-se na indústria e no comércio local. que passam a operar com poucas atividades. A partir de meados da década de 1950. conforme descreve-se a seguir. que é fundada em 1931. Conforme mencionado. são criados dois bancos em Veranópolis e o comércio local diversificase de forma acelerada. a partir da década de 1950 passam a se especializar. sobretudo aquelas que residiam em áreas rurais mais distantes dos centros urbanos e proprietárias de terras mas declivosas. A outra alternativa era modificar os padrões de herança assentados no minorato e dividir a propriedade entre todos os herdeiros. Um primeiro efeito desta especialização foi o desaparecimento do caráter pluriativo destes estabelecimentos. muitos colonos conheceram melhorias significativa nas suas condições de moradia e nas instalações da propriedade (galpões. representando um especial estímulo ao comércio e as atividades da indústria local. o que certamente inviabilizaria ainda mais o sistema produtivo vigente. De fato. a economia local também passa por significativos avanços nos empreendimentos industriais. Não obstante. pois um aumento considerável de pressão antrópica sobre a exploração e o uso do solo aceleraria a velocidade de exaustão de sua fertilidade. Na terceira fase do desenvolvimento este processo assumirá proporções cada vez mais expressivas até o momento de alterar a estrutura produtiva da economia local. Fundamentalmente o que ocorre é um processo de reinvestimento local dos capitais acumulados na agricultura ao longo da década de 1940. de 1939. Além do comércio e das atividades de prestação de serviços. o que muitas vezes era propriamente um negócio em família devido as relações de parentesco vigentes na região. a Cooperativa Vinícola Garibalde. quer seja mediante o empréstimo direto dos capitais. esta via foi seguida por várias famílias de colonos. quer seja pela aquisição dos produtos dos colonos na condição de intermediários. cabe ressaltar que o incremento da renda pessoal favoreceu o processo de monetarização de toda a economia local. de Bento Gonçalves. em sua maioria ligados à própria agricultura. Inicia-se aí o processo de diferenciação social e econômica que irá se aprofundar ao longo da terceira fase do desenvolvimento da agricultura familiar na região. Além disso. acrescidas de um processo de crescimento da especialização produtiva das propriedades na Encosta Superior da Serra do Nordeste e do incremento de determinadas tecnologias no processo produtivo agrícola. por exemplo. pocilgas. Na década de 1950. 11 Para maiores informações sobre a história do cooperativismo na região consultar Tavares dos Santos (1978. sobretudo a partir da década de 1940. atafonas e outros.

conforme também indica o referido autor.15 4. este processo avança à medida que um processo de produção qualquer começa a funcionar nos marcos das relações de troca de mercadorias. inexoravelmente e universalmente. ocorre um processo de especialização produtiva destacando-se os cultivos mais rentáveis como a uva e a fruticultura de clima temperado como a maçã. fundamentalmente. Mas o processo de mercantilização das relações sociais de trabalho e produção também tende a alterar o ambiente social e econômico – o território – em que estão situadas as unidades familiares. é possível afirmar que no período compreendido entre 1960 e 1990 a dinâmica produtiva e a reprodução sócio-econômica da agricultura praticada pelos colonos torna-se fortemente dependente do mercado. Segundo Van der Ploeg (1990. pode-se resgatar a contribuição de Abromavay (1992). 1992). Contudo. neste caso. o processo de mercantilização na agricultura refere-se a uma situação de crescente interação dos indivíduos com a divisão social do trabalho em que estão inseridos. no caso o município de Veranópolis e a região da Encosta Superior da Serra do Nordeste) ao ritmo das relações capitalistas hegemônicas não provoca. Com solos já relativamente degradados. Os colonos ampliam as áreas destinadas a estes cultivos e. Embora de significado fundamental. a especialização da produção com destino à venda passa a ser inexorável. que afirma que a agricultura familiar tenderá se distinguir mais do campesinato (e das demais formas sociais que a ele se assemelham). existem vários graus e estágios na mercantilização. Uma vez iniciado este ciclo produtivo. baseado na combinação da produção para o autoconsumo e para subsistência com a venda de excedentes. o processo de mercantilização que integra e subordina as formações sociais mais simples e economicamente menos complexas (tais como as referidas neste trabalho. tende a estabelecer distintas formas de relações com os circuitos mercantis. Por isto a mercantilização leva à diferenciação social e econômica dos agricultores. necessitam modificar o esquema de produção utilizado. assim conformando relações típicas de uma economia capitalista. pesticidas. entre outros. a mercantilização não ocorre de forma homogênea porque cada indivíduo ou. agricultor. por um processo de transição do sistema produtivo colonial de reprodução semi-autônoma. a superação de todas as características das formas sociais . Esta complexificação da divisão social do trabalho ocorre através do incremento das relações de troca via mercado de produtos. Em decorrência disto. Assim entendido. serviços e de mão-deobra. Neste sentido. etc). pêssego e ameixas. Este processo de transição do sistema produtivo colonial constitui-se. Este processo caracteriza-se pela mercantilização sócio-econômica. quanto maior for o grau de mercantilização em um determinado território mais forte tenderá a ser a pressão para que o conjunto das relações sociais siga este mesmo padrão de funcionamento. Portanto. genericamente. com a fertilidade natural reduzida devida a utilização intensiva de décadas anteriores e sem a possibilidade desmatar novas áreas a alternativa encontrada será a de manter a intensidade de uso e a fertilidade do solo mediante o adubação inorgânica e a introdução de outros insumos de origem industrial. para um modelo produtivo assentado na especialização produtiva de algumas culturas vegetais e na utilização crescente de insumos de origem industrial.3. em uma alteração no processo de produção agrícola até então vigente pois a produção para o autoconsumo e a subsistência diminuem significativamente e a produção voltada à venda amplia-se. para tanto. de envolvimento gradual e crescente do colono com o mercado de sementes e insumos agrícolas (fertilizantes. quanto maior for a sua interação com o ambiente social e econômico onde imperar a impessoalidade das relações mercantis. Neste sentido. Modernização agrícola e mercantilização da agricultura familiar (1960 até 1990) A terceira fase do processo de evolução da agricultura familiar na região da Encosta Superior da Serra do Nordeste caracteriza-se. No geral.

é a ampliação da dependência dos colonos em relação ao ambiente social e econômico local e nacional em que estão inseridos. durante os anos setenta e oitenta. das oficinas especializadas no fabrico de barris e caves de vinho. que estabeleceu um novo patamar de produção. Nos depoimentos coletados à campo. assistência técnica da EMATER ou empresas vinícolas particulares. Contudo. O período de 1960 até 1980 constitui-se em uma fase de modernização da base tecnológica da agricultura familiar. Nas entrevistas e depoimentos coletados durante a pesquisa de campo ouviu-se com freqüência que na década de 1970 o fator decisivo para alteração do “jeito de trabalhar a terra” foram os problemas relacionadas a perda de fertilidade do solo e a oferta de condições favoráveis aos colonos para aquisição de máquinas e equipamentos como os microtratores. Mais significativo ainda. Em muitos casos. trigo e milho. alcançadas pelos agricultores via cooperativas. este período é descrito como o início da “época do maquinismo”. Contudo. para o caso específico de Veranópolis. onde os colonos adquirem uma série de pequenos implementos motomecanizados que substituem os implementos artesianas da fase anterior. mais produtivas e geneticamente melhoradas. Com a apoio das cooperativas vitivinícolas e do apoio dos serviço de assistência técnica da EMATER (instalada no município a partir de 1958). os agricultores entrevistados não hesitaram em afirmar que foi nesta época que sua atividade conheceu os maiores progressos tecnológicos. mas nada impede que mantenham uma autonomia relativa sobre os fatores e meios de produção de que já dispunham e dos quais não foram desapropriados neste processo. Esta modernização obedece ao processo mais geral de transformações técnico-produtivas que na literatura internacional são caracterizadas pela noção de “revolução verde”. parece ter sido o impacto do sucesso da fruticultura de inverno. através da utilização de fertilizantes. da maçã e de outras frutíferas. muitos colonos tomaram empréstimos bancários para aquisição destes implementos. No caso específico em questão. todavia. das pequenas oficinas de ferreiros e. para compreender o processo pelo qual a agricultura familiar de Veranópolis e da região vitinicultora de Caxias altera seu perfil técnico-produtivo é necessário pensar em termos distintos do que aqueles que identificam a modernização com a ampliação de superfície cultivada ou pela introdução massiça de novas variedades vegetais. especialmente pela introdução dos micro-tratores. tal como ocorreu na região do Planalto Médio do Rio Grande do Sul ou em outras regiões Meridionais de Santa Catarina e do Paraná onde se disseminaram os monocultivos de cereais: soja. A modernização agrícola que ocorreu em Veranópolis e região nos anos sessenta e setenta também se pautou pela moto-mecanização. Mas não foi apenas a mudança da base tecnológica que alterou o processo produtivo da agricultura familiar de Veranópolis e da região. primeiramente através da maçã e. foram decisivas para os agricultores. Dadas as condições altamente favoráveis ao pagamento dos juros e do capital emprestado. particularmente a terra e a força de trabalho. quer seja via utilização de sementes híbridas ou de mudas a aperfeiçoadas em viveiros. Não é demais lembrar que foi através da uva que surgiram na região os contratos de compra entre os agricultores e as cooperativas e as agroindustrias processadoras e engarrafadoras de vinho. principalmente. isto eqüivale a dizer que não obstante a mercantilização produzir a superação do sistema produtivo colonial enquanto modo de organização social e produtivo ele não elimina todas a suas características. a partir . pela “quimificação”. os cultivos em que estas mudanças tecnológicas foram aplicados já existiam anteriormente como é o caso da uva. corretivos e agrotóxicos e. no entanto. este “maquinismo” foi narrado pelos entrevistados como o responsável pelo desaparecimento de invenções notáveis dos colonizadores pioneiros como no caso dos moinhos tocados a água. O que ocorre. A introdução de novas variedades de uva.16 anteriores. pela utilização crescente de variedades de plantas geneticamente melhoradas.

a Cooperativa de Erva-Mate e a Cooperativa de Cereais. surgem as empresas agroindustriais que além de atuarem na compra da uva também passam a oferecer contratos de produção e compra de frangos. segundo o depoimento colhido na pesquisa de campo. Em Veranópolis. tornando-se comerciantes e intemediários. ocorre primeiramente em municípios-pólo como Caxias do Sul e Bento Gonçalves nas décadas de 1950 e 1960 e. suínos e leite. sem abandonar a atividade agrícola em sua propriedade. a possibilidade de se adequar a escala pretendida pela empresa integradora e capacidade de contrair financiamentos12. Os agricultores que puderam se inserir neste processo eram. de excelente aceitação no mercado.17 de meados dos anos oitenta. foi modificado. cabe notar que o sucesso da fruticultura também está relacionado a necessidade dos agricultores em reduzir os cultivos de cereais (sobretudo trigo e milho) devido a maior produtividade das terras na região do Planalto Médio gaúcho. Em síntese. mais dependente e subordinado ao mercado. a partir do momento em que as agroindústrias passaram a atuar com mais intensidade as formas tradicionais de venda e comercialização da produção agrícola foram superadas. que emergem deste processo de diferenciação social e econômica decorrente da mercantilização da agricultura. a maioria das propriedades passou a ter áreas abandonadas ao pousio permanente ou ao reflorestamento. dotados de algumas vantagens como a localização. no esquema de integração (Sadia. etc). no período de 1975 a 1980 desapareceram três dessas cooperativas: a Cooperativa de Fagundes Varela (até então pertencente a Veranópolis). trata-se de um população rural sobrante. Com a ampliação da fruticultura a forma de uso dos solos também se alterou e o sistema de rotação de terras com pousio. Em razão destas características surgem em Veranópolis. Por serem cultivos pioneiros as frutas ali produzidas alcançam preços atraentes. a partir da década de 1970. Este processo de industrialização. Além da capacidade de iniciativa e do pioneirismo dos agricultores de Veranópolis. agricultores que com esforço de autofinanciamento conseguiram adquirir um meio de transporte (caminhão ou caminhoneta) para escoamento da produção agrícola. 1997). Em seu conjunto. os agricultores aumentam a criação de animais para produção de leite e derivados como o queijo colonial. Perdigão. duas novas atividades que se agregam a este novo modelo produtivo. Nesta terceira fase. De posse deste veículo. que é formado pela grande maioria da população rural jovem que não percebe possibilidades de inserção no processo de produção agrícola. . por exemplo. passam a escoar a produção própria e aquela comprada aos vizinhos da comunidade local. a partir de 1980. áreas utilizadas como pastagem para o gado. pequenas áreas com plantios anuais e áreas destinadas ao cultivo de frutas como a uva e a maçã (o pêssego e a ameixa surgem como alternativas a maçã em Veranópolis a partir de meados dos anos oitenta. Carlos Barbosa e Veranópolis (Herédia. surgem os “fruteiros”. elevando-se assim a renda dos agricultores. De um lado. Além da produção vegetal. através do pêssego e da ameixa. a modernização agrícola que ocorreu na região de Veranópolis seguiu o caminho da especialização produtiva de alguns cultivos e criações além da introdução de alguns avanços técnico-produtivos. que estava se formando. Este foi o caso não apenas das casas de comércio e dos transportadores mas. Além destes dois grupos de agricultores. predominante na fase anterior. há um terceiro grupo. especialmente pesticidas e biocidas recomendados para fruticultura. em geral. se estende para cidades como Farroupilha. que irá se deslocar para o mercado de trabalho industrial em face da demanda por força de trabalho. entre outros. como a moto-mecanização e a utilização de insumos agro-químicos. sobretudo das cooperativas agrícolas. Este estrato também é integrado pelos agricultores mais pobres que não vislumbraram se integrar no processo de especialização produtiva. quando a região compreendida entre as cidades de Vacaria no Rio Grande do Sul e Lages em Santa Catarina passam a concentrar esta produção). especialmente durante a década de 1960 até meados dos anos setenta. Não se 12 Em Veranópolis. De outro lado. criadas na fase anterior.

o período de três décadas entre 1960 e 1990. uma média 24% da área de terra . De um modo geral. buscar a integração as agroindústrias e partir para especialização ainda maior da produção. ao invés de exportar seu excedente populacional. a segunda. Neste modelo produtivo os agricultores ampliaram a produção para o mercado e se especializaram no cultivo de determinados produtos como a uva e a fruticultura de clima temperado (maçãs. a região absorveu-o. ameixas. Inicialmente cabe notar que a situação estrutural vigente no período anterior. representa a fase em que o sistema produtivo colonial existente em Veranópolis entrou em crise e passou por uma transição que o modificou estruturalmente. Neste período. mas enfatizar que foi em direção às indústria instaladas na região da Encosta Superior da Serra do Nordeste que parcela expressiva da população rural excedente se deslocou no período entre 1970 e 1990. manter uma agricultura de subsistência e estimular a pluriatividade dos membros da família via inserção em atividades não-agrícolas fora da propriedade e. que passam a se utilizar de um repertório cada vez mais alargado de iniciativas para garantir sua reprodução social. Este processo acaba gerando estratégias individuais e familiares que asseveram as diferenças entre os vários tipos de agricultores familiares. agora não mais apenas via mercado de produtos e mercadorias mas também através da venda da força de trabalho. etc). queijos. Têm-se. 4. derivados de uva. sobretudo os anos oitenta. Perspectivas e desafios da agricultura familiar em Veranópolis (1990 até hoje) A atual fase de desenvolvimento da agricultura familiar em Veranópolis e na região vitinicultora de Caxias do Sul pode ser caracterizada como um processo de consolidação da mercantilização econômica e aprofundamento da diferenciação social. investir na reconversão produtiva da propriedade adaptando-a a várias novas atividades como o turismo rural. agora de caráter coercitivo. Esta transição ocorreu nas décadas de 1960-70 através da modernização da base tecnológica. onde a técnica da enxertia é absolutamente dominante. não se alterará nesta fase. a exploração do basalto. o artesanato. a produção de produtos coloniais típicos (vinho. A manutenção da fertilidade continua a depender da utilização de insumos agroquímicos. é que ali a expulsão da população rural pôde ser absorvida na própria região. A partir dos anos oitenta. Trata-se de um processo de abertura de novas possibilidades de inserção mercantil dos agricultores familiares. uma situação de complexificação da divisão social do trabalho no espaço rural e de ampliação dos horizontes para inserção individual no tecido produtivo local. pêssego. assim como a população rural também vai diminuindo. pois o órgão estadual de proteção ambiental (FEPAM) passa a fiscalizar e multar com rigor os desmatamentos e a utilização de áreas de encosta e/ou próximas a nascentes. embutidos de carne. A possibilidade de ocupação de novas áreas para agricultura sofre ainda mais restrições. a produção agrícola vai sendo cada vez mais integrada as agroindústrias vinícolas. via maior utilização de equipamentos motomecânicos e insumos de origem industrial. as áreas em pousio permanente com cobertura de matas crescem ainda mais rapidamente chegando a ocupar. Ou seja. em Veranópolis. especialmente no que se refere ao cultivo do milho e da fruticultura em geral. Mas o que diferencia o processo ocorrido em Veranópolis de outros. a última. de leite. portanto. A forma de uso da terra permanece assentado no esquema da rotação de culturas com áreas destinadas ao pousio permanente. apresentam-se basicamente três alternativas aos agricultores familiares: a primeira. Também permanecem relativamente estáveis as perspectivas quanto a moto-mecanização e a utilização de sementes híbridas e mudas vegetais geneticamente melhoradas. Em face disto.18 trata aqui de descrever o processo regional de industrialização. etc). e sua participação relativa vai sendo reduzida na economia do município.4. de aves e de suínos.

em visitas as propriedades. especialmente pêssego e ameixa. de pomar e mesmo outros como a batata e o feijão. Este aumento do controle do processo produtivo por parte da agroindústria integradora implica em um maior rigor em relação à aplicação das recomendações técnicas a serem seguidas. em Veranópolis existem em torno de 12 mini e médias centrais de abastecimento que compram a produção local e regional de frutas de clima temperado (ameixa. Neste esquema. até porque muitos estão integrados a cooperativas locais (Aurora. Atualmente. os sistemas produtivos praticados pelos agricultores estão assentados na combinação da fruticultura. Em termos das atividades produtivas praticadas. verificou-se que são raros os produtores de frutas (especialmente pêssego e ameixas) que não possuem um caminhão para venda direta de sua produção. que são produzidos em pequenas quantidades para o autoconsumo humano. segundo informações obtidas na pesquisa de campo. foi nos anos noventa que esta categoria se expandiu. e a maçã. Outra característica deste sistema é que em geral a produção leiteira é combinada com a vitinicultura. Independente de qual destas combinações for praticada em todas as propriedades. Em relação as demais atividades agrícolas. kiwi. estima-se que existam na cidade em torno de 400 fruteiros. tornando-se a cultura com maior área proporcional. que são os compradores diretos e intermediários que fazem o escoamento da produção via varejo. um aprofundamento na relação de dependência dos agricultores integrados em relação as agroindústrias. fazem o transporte (em geral terceirizado para proprietários de caminhões) para as regiões Sudeste e Nordeste do país e de lá voltam carregados com frutas de clima tropical. cuja produção foi praticamente abandonada no município. resta aos agricultores uma autonomia maior. uva. Primeiro. cuja produção aumentou no último decênio. basicamente. No caso das propriedades que praticam a produção leite ocorre uma ampliação no cultivo de pastagens perenes e de forrageiras. mesmo naquelas que operam com um padrão tecnológico mais sofisticado como no caso da criação de aves. etc). Pela mesma razão a área utilizada com pastagens sobe para 28. pois durante a década de 1990 estas empresas passaram a fornecer elas próprias a ração animal para aves e suínos e instalar comedouros automáticos. Santa Clara.2% em média. a década de 1990 também não revelou grandes novidades em relação ao período anterior com exceção ao leite. Além do comércio a varejo. época de colheita da maçã. Já com relação à forma de comercialização e o escoamento da produção agrícola verifica-se algumas alterações importantes. as mudanças mais relevantes. Muitos entrevistados. um acompanhamento mais preciso do tempo de produção e das metas a serem alcançadas e um engessamento crescente dos custos fixos de produção. etc). São duas. pois a maioria destes 400 fruteiros é composta de agricultores familiares que fazem este comércio de varejo nos finais de semana (no verão. muitas das quais apenas embrionariamente desenvolvidas na década de 1980. Em relação ao leite e a uva. associados a criação de animais (aves ou suínos. formam-se verdadeiras redes de distribuição de produtos coloniais os mais diversos.19 das propriedades. pêssego. muitos deles proprietários de mais de um caminhão. este tipo de atividade também gerou centros de armazenamento e conservação (refrigeração) que fazem a distribuição e o abastecimento no esquema de atacado. às vezes acrescida da produção de milho. verifica-se a presença da produção para subsistência de produtos hortícolas. Alfredochavense – Noé. Segundo declarações dos entrevistados. o sempre acaba afetando a margem de lucro do produtor. Embora muitos já atuassem na década de 1980. raramente praticados em uma mesma propriedade) no esquema de integração ou no sistema uva e criação. A segunda modificação nas estratégias mercantis e de escoamento se refere a presença cada vez mais relevante dos chamados “fruteiros”. retirando do agricultor a autonomia sobre esta fase do processo produtivo. deslocam-se para o litoral . Durante a pesquisa de campo. do pêssego e da ameixa. cuja forma de gestão do processo produtivo não é tão rigoroso. declararam que Veranópolis é a “Terra dos Fruteiros”.

folclore. pois suas origens estão na “colônia”. sobretudo. com o local de nascimento e com a vida social (gastronomia. com relativa facilidade. segundo dados colhidos na pesquisa de campo. etc) provoca um sentimento de nostalgia e espanto.20 gaúcho e catarinense e durante o inverno. Por isto. Em Veranópolis.200 e 4. no ano de 2000. por exemplo. com os parentes. formado basicamente pela expansão dos empregos 13 14 15 Devido ao volume impressionante deste comércio e de sua importância decisiva para a economia do município. frutas cítricas e frutas tropicais retiradas nas centrais de abastecimento)13. no entanto. e membros do poder público local) concordaram com a idéia de que a continuar como está. algo que a disponibilidade de tempo e espaço não permite ser feito neste trabalho. com a família. foi absolutamente consensual e uníssona a opinião de que estas estratégias produtivas e comerciais não têm sido suficientes para animar e assegurar a presença dos jovens no espaço. e tampouco garantir um nível de renda considerado aceitável pelos agricultores. etc) este modelo de desenvolvimento assentado na intensificação dos fatores produtivos. sindicalistas. não obstante seu papel decisivo até a década de 1980. Ou seja. Desconsiderado-se as usuais lamúrias. os agricultores entrevistados destacaram a penosidade e a intensidade do trabalho agrícola como motivo de abandono pelos jovens. tende a se tornar uma profissão cada vez menos estimulante14. Durante a realização do trabalho de campo. mobilizam um conjunto cada vez mais expressivo de recursos técnicos e. seria necessário um aprofundamento posterior deste fenômeno. Além das rendas insatisfatórias. técnicos. existem apenas 85 estabelecimentos integrados à agroindústria de aves e 13 de suínos. não precisar trabalhar nos finais de semana. Os entrevistados (agricultores. que produziram 925. não percebem o reflexo disto na melhoria de sua condição social e econômica15.540 cabeças. com a comunidade local. Os agricultores familiares de hoje passaram a perceber que dedicam um tempo de trabalho maior a suas atividades. respectivamente. especialmente as mulheres. a partir deste período os incrementos tecnológicos e o aumento da produtividade não foram mais capazes de garantir o progresso material e o bem estar social. que. ao se estudar a trajetória do setor agrícola no processo de desenvolvimento da economia e da sociedade da região da Encosta Superior da Serra do Nordeste percebe-se. o fato é que não se pode desconsiderar a preocupação local com a regressão e o abandono da atividade produtiva que foi responsável pelo sucesso da colonização italiana no Rio Grande do Sul. sobretudo força de trabalho e tecnologia. o que está se esvaindo não é apenas o sistema produtivo colonial em suas dimensões produtivas e econômicas mas o próprio modo de vida e a forma de sociabilidade de uma determinada formação social. a ligação com a terra. festas. a restrição ao aumento da área. Não obstante esta capacidade de estabelecer novas estratégias e inovar na busca de soluções criativas e pioneiras para problemas estruturais (como a perda da fertilidade. a atividade agrícola no município de Veranópolis. permitem identificar que enquanto uma parcela cada vez menor dos agricultores familiares trilha o caminho da especialização produtiva um outro conjunto passa a viabilizar sua reprodução social mediante a inserção de parte dos membros de sua família no mercado de trabalho de atividade não-agrícolas. vendem a produção de mandioca. Uma avaliação das transformações recentes que afetam o desenvolvimento rural de Veranópolis e das demais cidades da região da Encosta Superior da Serra do Nordeste. De fato. Mais do que uma preocupação meramente quantitativa. Os indicadores demográficos são reveladores da queda expressiva da população rural em todos os municípios da região da Encosta Superior da Serra do Nordeste. não têm sido capaz de assegurar a manutenção da vitalidade social e a reprodução econômica dos agricultores familiares de Veranópolis e região. pois segundo eles os jovens preferem ter atividades mais leves e com jornadas de trabalho mais definidas e. . o problema do esvaziamento demográfico do meio rural afeta aspectos da identidade social e cultural de quase toda a população de Veranópolis e da região.

21 ofertados pelas indústrias de materiais esportivos e de calçados.00 o hectare. Este processo teve início em meados dos anos oitenta e sofreu um incremento significativo durante a década de 1990. entre outros). De certo modo. Este processo foi capaz de. Mas a pluriatividade atual da agricultura familiar parece ser mesmo uma decorrência da própria evolução do processo de mercantilização da vida social e econômica que. A partir da década de 1990.000. chega ao mercado de força de trabalho. Paraí. Muitos destes turistas não são sequer estranhos. ocorre um ressurgimento da pluriatividade. prática comum desde a chegada dos imigrantes italianos. . Mas as demandas recentes mais expressivas sobre o espaço rural estão relacionadas as potencialidades ligadas aos aspectos ambientais (trata-se de um região de serra com clima temperado dotada de vários atrativos naturais como quedas d’água. Também foi possível demonstrar que as economias locais que são fortemente baseadas na agropecuária tendem a ter maiores dificuldades para engendrar um processo de desenvolvimento rural menos dependente da matriz produtiva agrícola. iniciada na década 16 Outro estímulo a este retorno ao meio rural é o fato de que o preço das terras é relativamente acessível. ambientais (degradação da natureza) e culturais (alteração da identidade e perda dos saberes tradicionais). etc) e históricoculturais (a gastronomia. Ao invés das propriedades venderem mercadorias agrícolas elas passam a vender a própria força de trabalho de alguns de seus membros integrantes. atividades que são realizadas pelos próprios agricultores em suas propriedades. eventualmente contratando algum empregado temporário. ampliar as escalas de produção e a produtividade agrícola e gerar desequilíbrios sociais (êxodo e migrações). Veranópolis passou a se beneficiar de um conjunto de novas demandas sobre o espaço rural que até então eram muito incipientes e quase inexploradas comercialmente. estimando-se em torno de R$ 1. neste caso. ao mesmo tempo. pois nasceram nas localidades rurais da região e estão a retornar para elas na condição de aposentados em busca de tranqüilidade. sossego e qualidade de vida16. a facilidade das vias de acesso e a proximidade com os centros urbanos fazem com que muitos moradores das cidades tenham sítios de lazer (chácaras) ou apenas uma “residência secundária” (casa de campo) no meio rural. tornando a cidade e a região um pólo de atração de turistas. conforme descrito acima. em um contexto de ampliação da divisão social do trabalho e de mercantilização crescente das relações sociais a pluriatividade pode ser entendida como um estratégia individual e familiar de reprodução. sem que isto implique em abrir mão da propriedade. Nova Prata e outros) e as olarias (produção de tijolos).7 famílias por telefone) O preço atraente. Além da pluriatividade. Entre estas demandas está a exploração da pedra de basalto (neste caso em município vizinhos como Vila Flores. Lições a partir do estudo de caso de Veranópolis A análise do processo de evolução da agricultura familiar no município de Veranópolis e da microrregião de seu entorno revelou que até mais ou menos o final da década de 1980 e a primeira metade dos anos noventa ela seguiu um padrão técnico-produtivo semelhante aquele que se instaurou nas demais regiões agrárias do Sul do Brasil. 5. econômicos (aumento da dependência). Caso Veranópolis tivesse estagnado no estágio de modernização agrícola de sua base técnica. no sentido de que ela pode ser entendida como a combinação de múltiplas atividades. Além disto. o espaço rural de Veranópolis e da região passou a contar recentemente com outras vantagens e potencialidades para o desenvolvimento não apenas da agricultura familiar mas da encomia local como um todo. o que resultou em uma espécie de jogo de soma zero onde as perdas a médio e longo prazo são sempre mais significativas do que as vantagens de curto prazo. o artesanato. o meio rural também conta com enrgia elétrica em todo município e um total de 235 telefones fixos (na média de 3. Portanto.

quando novas indústrias se instalam e a industrialização de Veranópolis se consolida. a natureza endógena e territorial do processo analisado não significa que o espaço local de Veranópolis opere de forma isolada em relação ao sistema econômico geral. especialmente. importantes atores econômicos locais. O resultado da análise do processo de evolução da agricultura familiar na região da Encosta Superior da Serra do Nordeste demonstra que historicamente ela estava interrelacionada com outras atividades econômicas. os problemas de ordem social. Para exemplificar esta compreensão pode-se citar as diferentes formas de relacionamento dos agricultores familiares com os mercados compradores como as agroindústrias. etc. estão plenamente inseridas aos circuitos mercantis nacionais e mesmo estrangeiros. A idéia central. Este processo se reforçou a partir de meados da década de 1970 e. Por fim. 12 de abril de 2001. o comércio de atacado e varejo feito pelos fruteiros. pudessem emergir e absorver o excedente de mão-deobra que continuava a ser transferido do setor agrícola. uma organização complexa de laços que vão além de seus atributos naturais. . Ou seja. E é justamente este potencial de irradiação regional que está presente em grande quantidade de cidades médias brasileiras”. na década de 1980. O que se pretendeu demonstrar é que o modelo de funcionamento da economia local de Veranópolis e da microrregião da Encosta Superior da Serra do Nordeste opera com alto poder de regulação endógena e capacidade de inovação. configurações políticas e identidades que desempenham um papel pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico” (Abramovay. como mostra Jacobs (1986) e não àquelas que podem ser encaradas como "enclaves".22 de 1970. possui um tecido social. a estrutura econômica e produtiva local passou a oferecer as condições para que determinados setores de atividades econômicas não-agrícolas. é preciso não esquecer que o caso estudado não funciona como um espaço hermético sem relação com o ambiente externo. dos custos de transportes e de comunicações. o caso analisado vai de encontro aquilo que Abramovay (2003) vêm indicando como condições virtuosas e dotadas de determinadas prerrogativas que permitem uma interelação positiva entre as cidades e os espaços urbanos com o meio rural existente em seu entorno. segundo o autor. Neste sentido. 17 Segundo Abramovay “este dinamismo é próprio a cidades que se convertem em centros regionais. Por isso não basta fazer uma análise da agricultura mas do processo mais geral de desenvolvimento endógeno da economia local. ambiental e cultural que começaram a aparecer a partir de meados da década de 1980 talvez não pudessem ter sido minimizados e absorvidos pela dinâmica do mercado de trabalho não-agrícola. Embora o estudo de Veranópolis possa trazer lições interessantes sobre a natureza e as especificidades históricas de um processo de desenvolvimento rural endógeno. Inspirando-se na contribuição de Jacobs (1986). resta uma indagação acerca das possibilidades de reaplicação deste processo de desenvolvimento rural em outros contextos. que tiveram um papel decisivo na disversificação das oportunidades ocupacionais da força de trabalho. “é que o território. como as empresas de material esportivo e calçados. Um território representa uma trama de relações com raízes históricas. página A3). Gazeta Mercantil. até então “adormecidos” ou em estado de latência. comércio e pequenos ofícios industriais) que o excedente populacional produzido pelas transformações estruturais da agricultura familiar pôde ser assimilado pelo mercado de trabalho local. Foi em função da articulação histórica entre a agricultura com as outras atividades econômicas (artesanato. Deste modo. econômica. Abramovay destaca a possibilidade que esta interelação permita que a população rural tire proveito do dinamismo que as cidades tendem a propagar ao seu redor (2003)17. mais que simples base física para as relações entre indivíduos e empresas. Além disto.

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