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Licenciatura em Música com habilitação em Educação Musical Escolar

Saulo Lara Coimbra

LEILA DANZIGER – O que desaparece, o que resiste

Belo Horizonte
2014

Saulo Lara Coimbra

LEILA DANZIGER – O que desaparece, o que resiste

Trabalho apresentado à disciplina de
Psicologia do Curso de Licenciatura em Música
com habilitação em Educação Musical Escolar
da Universidade Estadual de Minas Gerais.
Orientadora: Margarete Miranda

Belo Horizonte
2014

LEILA DANZIGER – O que desaparece, o que resiste
A EXPOSIÇÃO
Entre os dias 22 de novembro e 15 de dezembro, a Funarte MG (Rua Januária, 68 Floresta), recebe a exposição "O que desaparece, o que resiste", de Leila Danziger.
O trabalho da artista plástica carioca, compõe a mostra de 40 trabalhos, entre vídeos,
livros, jornais e fotografias que retratam questões como memória, trauma e esquecimento.
Tais temas estão intimamente relacionados às discussões propostas pelo XX Encontro
Brasileiro do Campo Freudiano, realizado também em Belo Horizonte no fim de semana
do dia 21 a 23 de novembro e que discutiu a violência nas cidades e seus traumas.
Os trabalhos de Leila Danziger apresentados na exposição são construídos basicamente
com dois gestos. Um, de apagar o texto de notícias dramáticas em páginas de jornais,
deixando apenas imagens e resíduos dos textos. O outro, carimbar versos de poemas (de
Ana Cristina César, Cecília Meireles, Clarice Lispector e Paul Celan), com nomes em
pensamentos, sobre as superfícies onde se vê apenas ruínas de informação. Intervenção
que busca restituir densidade de matéria banalizada, que é também interpelação da
memória, da narrativa, do tempo, da história, do sentido e da subjetividade.
Leila prefere que ao adentrarmos na exposição tiramos nossas próprias conclusões e frisa:

“O que busco fazer é qualificar a imagem
impressa, é dar uma sobrevida a ela. Um poema,
cada vez que é lido, traz significados diferentes.
Posso apagar muita coisa, mas não a
dramaticidade desta questão, estou falando do
mundo, da vida, não fazendo arte centrada em si
mesma.”

Leila trabalha com imagens fotográficas, mas não
fotografa. Ela sai pelo mundo catando imagens
“descartadas”.
transfigura
do
lugar
comum
à
imagem/história dos meninos de rua, dos indigentes, da
menina faminta, dos esquecidos da história, que aparecem
todos os dias nas manchetes de jornal como ícones da
miséria humana. No entanto, nos jornais eles aparecem
para serem novamente esquecidos, pois a exposição
repetitiva dessas notícias e imagens contribui com a sua
banalização e é justamente essa banalização, como modo
de cegueira, que a obra de Leila Danziger quer enfrentar.

Ao selecionar jornais, recortá-los, expô-los ao sol, deixálos passar por um período de envelhecimento, carimbá-los
com as frases – de Paul Celan “Para-ser-e-nada-estar”, de
Denilson Lopes: “Pensar em algo que será esquecido pra
sempre” e de Hölderlin: “Vens abaixo em chamas” –, Leila
trabalhosamente faz com que eles ganhem uma nova
forma de visibilidade produzindo um “estranhamento” em
nosso olhar imune ao ataque anunciado das matérias dos
jornais, fazendo com que passeie pela imagem, perceba
que a noticia foi raspada, apagada e que no lugar da
informação está a poesia.
Isso é fantástico e angustiante, pois caímos na real ao observar o quanto estamos
calejados do sofrer e anestesiados que essas notícias já são o cotidiano e cada vez mais
aderimos sobre-viver dessa forma nua e crua às mudanças que nós mesmos permitimos.
Muitos que alí passaram não entendiam tanto esta exposição por ainda não ter
compreendido a finalidade da mesma, confesso que ao mesmo tempo que crítico encontrei
um ambiente pequeno “com quase nada”, espantei com tamanha informação e como elas
afetavam meu emocional.
Ao presenciar um grupo de alunos especiais com síndrome de Down visitando a
exposição, descobri o quão sentido essas obras vieram modificar nossos pensamentos.
Enxergar muito além do que antes pudera ser contemplado, pequenas frases carimbadas
passavam a ser textos enormes, estórias criadas por eles. Muito do que proposto por Leila.
Ao final da exposição nos deparamos com um vídeo intitulado “Pallaksch Pallaksch”, que
está intimamente relacionada à poesia. O impacto provocado pela
força das imagens articuladas à poesia de Paul Celan, testemunha o
rumor da língua, que de acordo com a concepção exposta por Lacan
embora não sirva para comunicar, designa a ocupação de cada um de
nós no campo da linguagem, campo por excelência do trauma. E o
que resta é o som rascante das letras que tocam o impossível de
dizer. O que desaparece, o que resiste... é o nome para o que não
tem nome, o impossível de dizer, mas que a artista, no entanto,
transmite com a sua arte.

Sim ou não?
Uma palavra, dois sentidos. Dependentes da expressão que as possa identificá-las.

Referências
Danziger, L. Diários Públicos. Rio de Janeiro: Contracapa, 2013.

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