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INCÊNDIOS FLORESTAIS

Os incêndios em zonas florestais são um problema recorrente em Portugal. As altas temperaturas no Verão e a baixa humidade criam condições para uma rápida propagação dos incêndios dificultando o seu combate. Os incêndios atingem por vezes enormes proporções fazendo perigar habitações e vidas humanas. A devastação causada por estes incêndios é considerável, desde a destruição de floresta e as consequências nefastas para o meio ambiente e ecossistemas, a destruição de silviculturas (pinhais, eucaliptos, sobreiros, árvores de fruto, etc.), destruição de pastagens e recursos relacionados com a agricultura e pastorícia, destruição de habitações e por vezes a perda de vidas. Os incêndios florestais causam diversos prejuízos, entre os quais: Consequências ambientais: Impacto paisagístico e perda de massa florestal – um dos efeitos imediatos de um incêndio é a degradação da paisagem, deixando vastas áreas queimadas e sem vegetação. Para além disso, a destruição da flora conduz à perda de ecossistemas, diminuição da biodiversidade e aumento dos processos erosivos. Efeitos na fauna – os incêndios de grandes dimensões afectam de forma severa a fauna florestal, desde os animais que não podem escapar e que morrem queimados. Estes animais acabam essencialmente por ser pequenos vertebrados e invertebrados e também animais de maior porte que sejam encurralados pelo fogo. Para além destas perdas imediatas ocorre uma migração dos animais para outras zonas onde haja alimento desertificando as áreas queimadas. Efeitos no solo – a perda da cobertura vegetal torna o solo mais erodível, além disso aumenta o escoamento superficial aumentando a erosão do solo e o risco de cheias. O composição do solo também é modificada ficando este com um pH superior ao que tinha. Alterações hidrológicas – Com o aumento do escoamento superficial e diminuição da infiltração e retenção ocorrem alterações no regime dos cursos de água e diminuição das reservas de água subterrâneas. A maior erosão do solo leva mais sedimentos para os cursos de água com consequências prejudiciais para as obras hidráulicas e tornando as águas mais turvas. Libertação de CO2 – A queima das florestas liberta quantidades importantes de CO2 para a atmosfera, este é um gás com efeito estufa.

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Consequências sociais – Os incêndios florestais causam vítimas mortais entre populações e bombeiros. Estas fatalidades conduzem infelizmente a dramas familiares com consequências sociais a nível das comunidades. A perda de culturas por parte de pessoas ligadas à agricultura e silvicultura acaba por também afectar estas pessoas de forma muito negativa. Consequências económicas – Existe uma perda directa de produtos relacionados com as árvores queimadas como seja a madeira, cortiça, frutos, etc. Perdem-se pastagens para a pastorícia com diminuição da qualidade de carnes e aumento dos custos para a criação dos animais. Diminuição da caça e da pesca. Para além destas consequências directas existem outras relacionadas com turismo, fins recreativos, gestão hidráulica dos rios, etc. Devido à dimensão destes incêndios os meios disponíveis são muitos e são uma aposta muito forte do país. Embora não se atinjam as características tecnológicas disponíveis para os incêndios em edifícios a dimensão dos meios de combate é no entanto muito superior. As características dos incêndios florestais tornam o seu combate bastante específico, nomeadamente podem citar-se: A dimensão dos locais onde podem ocorrer – estes incêndios podem ocorrer em qualquer local de cobertura vegetal densa com extensões de milhares de km2. As características dos locais – ocorrem muitas vezes em locais isolados, de difícil acesso para homens e veículos, dificultando o combate ao incêndio. O facto de ocorrerem em zonas de floresta e mato acarreta perigos próprios como seja o ataque de insectos, plantas venenosas, etc., felizmente pouco comuns em Portugal. Atingem grandes proporções – têm por vezes frentes de vários km e consomem áreas de milhares de hectares exigindo o seu combate grande número e diversidade de meios; Dependem das condições atmosféricas – são incêndios em que as condições atmosféricas influem bastante, temperatura, humidade e a intensidade e direcção dos ventos são elementos fulcrais na sua propagação. A direcção do vento toma primordial importância, pois situações de mudança de direcção do vento resultam muitas vezes em situações de perigo para os bombeiros. Por estes motivos o combate a um incêndio florestal pode durar dias exigindo grande resistência dos meios humanos e mecânicos associados ao deu combate. As condições de combate ao incêndio vão sendo variáveis tanto de terreno, como climatéricas, como de luminosidade (dia e noite), etc.

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Ainda que com as suas particularidades especiais, o combate aos incêndios florestais segue a mesma filosofia que o de outros incêndios.

VIGILÂNCIA E DETECÇÃO
A detecção precoce de incêndios é fundamental para garantir um rápido sucesso no seu combate e evitar danos maiores. Esta vigilância é essencialmente realizada utilizando pessoas em torres de vigias situadas nas áreas a proteger e patrulhas móveis que se deslocam nos mais diversos meios, desde a pé, motociclos, veículos ligeiros, meios aéreos, aquáticos, etc. O problema destes meios é necessitarem de uma forte componente humana e de meios de transporte para a vigilância detecção de incêndios, o que envolve custos logísticos bastante importantes.

Figura 1: Exemplo de meios de vigilância (meios terrestres móveis e postos de vigia)

Existe uma grande aposta no desenvolvimento de novas tecnologias para a detecção automática de incêndios em zonas florestais. Estas tecnologias assentam essencialmente em dispositivos de captação e análise de imagens e sensores electrónicos. A detecção de incêndios por análise de imagens por computador pode envolver diversas tecnologias. Alguns sistemas já se encontram a ser utilizados, como seja o caso da captação de imagens com câmaras de vídeo, estas podem captar a imagem visível ou realizar a captação na gama de infra-vermelhos. Outro método que já foi utilizado diz respeito à utilização de meios aéreos com sensores.

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SISTEMAS DE VIGILANCIA CONVENCIONAIS Os sistemas de vigilância convencionais consistem na utilização de pessoas para vigiarem e observarem as locais em questão. Estes sistemas podem dividir-se em três grupos diferenciados: Vigilância terrestre fixa Vigilância terrestre móvel Vigilância aérea A vigilância terrestre fixa é realizada em posições fixas designadas por postos de vigia, estes são construções geralmente do tipo torre de vigia podendo ter diversos aspectos. A base de todo o sistema são os postos de vigia organizados na Rede Nacional de Postos de Vigia, RNPD, que inclui 240 postos (em 2005) em todo o território nacional. Esta rede é bastante extensa estando centrada nas zonas de maior risco. Ainda assim uma parte do território não se encontra coberto por estes postos.

Figura 2: Localização e carta de visibilidades da RNPV

Estes postos podem ter uma vigilância de 24 horas por dia bastando existir disponibilidade de pessoal. O funcionário realiza a operação de vigilância utilizando binóculos. Para além deste equipamento o funcionário dispõe de uma alidade para definir 4

qual o azimute do incêndio relativamente ao posto de vigia (permitindo localizar o incêndio por triangulação quando possível na base) e um sistema de comunicação rádio para dar o alarme. As vantagens deste sistema é permitir uma vigilância da floresta 24h por dia e, no caso de a área estar coberta por mais do que um posto de vigia, uma localização precisa do incêndio. Os principais problemas prendem-se com a contratação e formação do pessoal bem como aos custos associados ao funcionamento destes sistemas, deste modo ele apenas funciona durante a época crítica não estando activo no restante ano. Além disso, a detecção atempada do incêndio depende da atenção do funcionário, na generalidade a localização do incêndio não é precisa e existem muitas áreas ocultas e não abrangidas pelo sistema A vigilância terrestre móvel assenta no patrulhamento dos locais por funcionários em veículos todo-o-terreno. Estas patrulha para além de poder realizar a detecção e dar o alarme estão equipados com meios para realizar um combate precoce ao incêndio. As patrulhas são realizadas por grupos de 2 a 4 pessoas. Em Portugal este tipo de vigilância é por vezes realizado por diferentes instituições como sejam os bombeiros, a GNR, elementos do ICN, pessoas com o Rendimento Mínimo de Inserção, Sapadores Florestais e por vezes o Exército. As vantagens deste tipo de patrulhamento é o de poder acompanhar algumas actividades de maior risco (queimadas, etc), terem mobilidade na vigilância, maior possibilidade de detectar actividades suspeitas e realizar um ataque inicial ao incêndio. As desvantagens estão relacionadas com a descontinuidade da vigilância, isto é, um local pode estar muitas horas sem ser observado, alguma dificuldade no patrulhamento nocturno e os custos envolvidos associados ao pessoal e aos veículos. A vigilância aérea recorre a pequenos aparelhos voadores para realizar a observação dos locais, estes meios são geralmente helicópteros e pequenos aviões. A maior dificuldade deste tipo de vigilância está na obtenção de meios, recorrendo-se muitas vezes a empresas privadas. Para além dos meios aéreos é necessário o apoio de pequenos aeródromos. As vantagens deste tipo de vigilância são o poder cobrir toda a área a vigiar sem restrições e realizar uma localização precisa do incêndio. As desvantagens são os custos elevados, as restrições à vigilância em condições meteorológicas adversas ou durante a noite e a impossibilidade de vigiar em permanência uma área.

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Figura 3: Exemplo de aviões utilizados em vigilância florestal (avião Cessna 152 e Cessna 172)

Para além da vigilância aérea com pequenas aeronaves (muitas vezes pertencentes a aeroclubes), que apenas detectam o incêndio dando o alarme, existe a possibilidade de realizar vigilância aérea armada. A vigilância aérea armada é realizada com recurso a aviões de combate a incêndio (aerotanques). Assim, para além de detectar o incêndio o avião pode iniciar o combate imediatamente com uma descarga de água. Este tipo de vigilância apresenta custos superiores devido às exigências das aeronaves, embora permita um combate imediato ao incêndio após a sua detecção. Os aerotanques ligeiros, por exemplo aviões Dromader ou Air Tractor e semelhantes têm sido utilizados neste tipo de operações de vigilância aérea armada. Os aerotanques ligeiros transportam até 2800 litros de água e o abastecimento é realizado em terra.

Figura 4: Aviões Dromader em abastecimento e em acção

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Figura 5: Avião Air Tractor em acção.

Refira-se que para além dos meios tripulados com detecção feita pelos tripulantes existem meios aéreos tripulados e não tripulados equipados com câmaras de vídeo e sensores, estes serão abordados adiante. Para além da vigilância efectuada por meios e pessoal afecto a esta função existe também a designada detecção passiva, esta é efectuada por cidadãos ou inclusive por aeronaves que no decorrer das suas actividades particulares detectam um incêndio dando o alarme. Este género de detecção não pode ser a base de nenhum sistema devido à sua componente aleatória. A importância desta componente da detecção é variável podendo ter mais peso em locais de maior densidade populacional e menos em locais mais remotos e inabitados. Em Portugal ainda existe uma parte da população em meios rurais deste modo a detecção efectuada por populares tem um peso significativo.

Figura 6: Percentagem de detecção de incêndios (populares, postos de vigia e outras fontes) em 1999

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SISTEMAS DE VIGILÂNCIA NÃO CONVENCIONAIS De forma a diminuir o peso humano nas operações de vigilância as novas tecnologias da informação têm sido utilizadas para criar novos sistemas de detecção de incêndios florestais. Têm sido conduzidas estudos utilizando a captação de imagens por vídeo (espectro visível ou infra-vermelho) com outro tipo de sensores. Os sistemas mais simples consistem simplesmente na captação de imagens em diversos locais que são observadas num centro por pessoas que dão o alarme se detectarem um foco de incêndio. Outros sistemas permitem accionar automaticamente o alarme exigindo-se apenas uma confirmação do funcionário. As principais vantagens destes sistemas são diminuição de custos, vigilância em contínuo, menor necessidade de recursos humanos e melhores condições laborais destes, podem ser colocados em qualquer local e permitem uma localização precisa do incêndio pois podem estar ligados a sistemas SIG. Estes sistemas são mais fáceis de se manterem operacionais em qualquer altura do ano podendo ser utilizados para vigiar as florestas e monitoriza outras acções relacionadas com a segurança das populações ou com a vida selvagem. As desvantagens prendem-se com os custos de aquisição, colocação e manutenção dos equipamentos. Estes equipamentos estão ainda sujeitos ao vandalismo e ás condições climatéricas necessitando de cuidados de manutenção para estarem em serviço. Analisa-se em seguida e de forma resumida alguns projectos neste âmbito: Sistemas de detecção por infra-vermelhos – são sistemas que utilizam câmaras de vídeo na gama dos infra-vermelhos para detecção de focos de calor. Entre estes sistemas podem referir-se o sistema BOSQUE (Espanha) e o sistema BSDS (Itália) existindo no entanto diversos programas de investigação com este género de tecnologia (ex. programa DEDICS). Estes sistemas consistem em câmaras de vídeo com captação de imagens na gama dos infra-vermelhos colocadas em torres nas zonas a vigiar. A imagem das câmaras é enviada para uma central onde é analisada por software que detecta automaticamente focos de calor. Estes sistemas são semi-automáticos, isto é, o sistema detecta o foco de calor avisando o operador que analisa a situação e decide se dá o alarme. Os sistemas são também geo-referenciados permitindo a localização do incêndio. Refira-se que as câmaras existentes na actualidade captam um incêndio de que ocupe uma área de 1 m2 a 10 km. Uma vantagem da captação de imagens por câmaras de infra-vermelhos é o facto de estas permitirem captação de imagens com quase total insensibilidade das condições atmosféricas. Uma desvantagem destes sistemas é que o fogo tem que 8

estar num local visível pela câmara, não havendo a detecção em zonas ocultas por obstáculos. Registam-se também falsos alarmes devido a elementos quentes e luzes artificiais. Existem depois os sistemas que se baseiam na captação de imagens mas no espectro visível. Entre estes sistemas podem citar-se o ARTIS FIRE (França), FIREHAWK (África do Sul), CICLOPE (Portugal), SRD (Canadá), FIREWATCH (Alemanha). Estes sistemas captam a imagem enviando-a para o centro de controle onde é analisada automaticamente por software específico que permite detectar chamas e fumos. O facto de o sistema de análise de imagem detectar colunas de fumo permite que este detecte incêndios mesmo que o corram em locais no solo não visíveis pela câmara, têm no entanto a desvantagem de serem sensíveis às condições de visibilidade atmosférica sendo pouco eficazes em condições nocturnas ou de neblinas, podem gerar falsos alarmes devido a nuvens de pó de veículos entre outros. Estes sistemas também são semi-automáticos, isto é, necessitam que o operador valide a informação e dê o alarme. Estes sistemas também realizam a localização do incêndio de forma automática.

Figura 7: Imagem infra-vermelho de um fogo florestal

Muitos dos sistemas actuais combinam a captação de imagem por infra-vermelhos ou espectros similares e de espectro visível de forma a aumentar a sua eficiência e diminuir o número de falsos alarmes. Os avanços na tecnologia de captação e tratamento de imagem também irão aumentar a eficácia destes sistemas, de facto é possível captar imagens em condições não permissíveis à vista humana. Actualmente já existem sistemas que realizam a detecção de fumo, chamas e fontes de calor até 10 km de distância. Em Portugal tem-se instalado o sistema CICLOPE essencialmente em zonas protegidas, este conta com mais de 30 torres divididas por 8 centros de controlo. Este sistema utiliza

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a combinação de imagem por infra-vermelho e de espectro visível e tecnologia LIDAR (emissão e recepção sinal tipo radar para detecção de colunas de fumo).

Figura 8: Exemplo de câmaras em sistemas de detecção automática de incêndios florestais

Figura 9: Torre do sistema CICLOPE e cobertura do mesmo sistema

Outros projectos de detecção automática de incêndios em Portugal são o projecto VIGÍLIA, ÁGUIA e OBSERVA. Estes sistemas têm vários postos instalados em zonas específicas de Portugal como projecto-piloto. São sistemas de baixo custo boa capacidade de detecção (em geral de pelo menos 10 km). Seguem a estruturação já referida para sistemas semelhantes, realizando a detecção semi-automática (excepto o OBSERVA que é de detecção manual) e em geral captam imagem por infra-vermelho e espectro visível. Para além das torres fixas o sistema OBSERVA apresenta já a solução de um sistema de detecção móvel.

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Figura 10: Veículo equipado com sistema de detecção automática de incêndios

Os sistemas actuais permitem além de detectar incêndios monitorizar a floresta podendo detectar também a deposição abusiva de lixos e entulhos, tráfico de droga, contrabando e outros delitos bem como ajudar a detectar e identificar incendiários. Para além da captação de imagem as torres de vigia têm também uma estação meteorológica que permite obter dados sobre a temperatura, humidade, direcção e força do vento, etc. Refira-se que é possível a incorporação deste tipo de sensores, câmaras infra-vermelhos e espectro visível em meios aéreos tripulados ou não tripulados para detecção de incêndios. Estes meios permitem percorrer grandes áreas e sem restrições físicas tendo o inconveniente de não realizarem a vigilância em contínuo ou em condições adversas à realização de voos. Permitem detectar incêndios e localizá-los com grande precisão e monitorizar a sua evolução fornecendo informações valiosas para o seu combate. Os meios não tripulados consistem geralmente em pequenos aparelhos voadores de baixa altitude e raio de acção limitado e portanto com vigilância mais localizada embora existam equipamentos bastante evoluídos. Os meios tripulados estão equipados com sensores de grande precisão e realizam voos a grandes altitudes permitindo abranger grandes áreas.

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Figura 11: Exemplo de meios aéreos não tripulados para detecção de incêndios

Figura 12: Imagem aérea em espectro visível e apenas do incêndio em infra-vermelhos

Outra grande área de desenvolvimento é a detecção de fogos por satélite. Estes sistemas têm como base satélites equipados com diversos tipos de sensores (geralmente também incluem a captação de imagens em espectro de infra-vermelhos ou próximo). Os satélites vão varrendo a superfície terrestre na sua órbita e enviam as imagens para centros de controlo que analisam as imagens e dão o alarme. Estes sistemas permitem cobrir extensas áreas de território sem restrições físicas, sendo um sistema com um baixo custo por área coberta. Para além da detecção também são muito eficazes na monitorização da evolução de incêndios e determinação de áreas ardidas podendo servir de complemento a sistemas de detecção fixa. Estes sistemas permitem a vigilância nocturna e a detecção e localização do incêndio, embora não com a precisão dos sistemas terrestres pelo que são mais utilizados na monitorização de

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incêndios activos. A zona da superfície que o satélite observa depende da sua posição na órbita, pelo que existem países que têm sistemas com vários satélites.

Figura 13: Imagens de incêndios captadas por satélite

COMBATE A INCÊNDIOS FLORESTAIS
Após a detecção do incêndio uma intervenção rápida pode evitar que este assuma dimensões incontroláveis. A rapidez de resposta entre a detecção e a primeira intervenção é fundamental para evitar que o fogo se propague, as condições de Verão em Portugal são bastante exigentes desse ponto de vista pois a baixa humidade e alta temperatura propiciam a rápida propagação de fogos. PRIMEIRA INTERVENÇÃO Um combate eficiente aos incêndios florestais depende decisivamente do tempo de resposta da primeira intervenção. Deste modo foram criadas brigadas específicas para realizarem uma primeira intervenção de forma rápida, as brigadas helitransportadas. Estas brigadas são transportadas de helicópteros até às imediações do incêndio, existindo a capacidade de as colocar rapidamente em qualquer local. O equipamento de combate é todo transportado pelos próprios homens o que garante extrema mobilidade e rapidez de manobra a estas brigadas. Em Portugal existem brigadas de primeira intervenção dos bombeiros e GNR. O transporte destas equipas é realizado em helicópteros médios (ex. Bell 212, Bell UH-1, Sokol PZL ou Alouette III SA 316). Estas brigadas são constituídas geralmente por 6 a 12 elementos, dependendo das necessidades e da capacidade dos helicópteros utilizados. O

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equipamento de intervenção destas brigadas é de sapador pois pode ser transportado pelos homens e é eficaz pois geralmente o incêndio está na sua fase inicial. Deste modo o objectivo é evitar a sua propagação e se possível realizar a sua extinção. O combate realizado é combinado, isto é, podem atacar directamente as chamas com material sapador e podem realizar faixas de contenção com ferramentas manuais.

Figura 14: Exemplo de helicópteros Bell UH-1, Bell 212, Alouette III SA 316 e Sokol PZL W-3

Figura 15: Exemplo da colocação no terreno de uma equipa de primeira intervenção

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Estas equipas ao serem transportadas por helicóptero conseguem atingir com rapidez locais isolados ou íngremes e o facto do seu equipamento ser transportado pelos próprios homens fornece-lhes extrema mobilidade e rapidez de acção. Como exemplo do estado de prontidão pode referir-se que as equipas de primeira intervenção em Portugal demoram 3 a 6 minutos a levantar voo após terem recebido o alarme. Em países de maiores dimensões existem equipas transportadas de avião e lançadas de paraquedas na zona do incêndio (ex. equipas “smokejumpers” nos EUA).

Figura 16: Equipas de primeira intervenção lançadas de avião

Como limitação as brigadas de primeira intervenção têm o facto de serem mais eficazes apenas quando o incêndio se encontra em estágios iniciais e em terrenos com vegetação baixa ou floresta desde que o incêndio não se propague pelas copas das árvores. Estas equipas são essencialmente de primeira intervenção, terminado o seu trabalho após a chegada de outros meios. Elas podem prolongar a sua acção no terreno embora seja mais comum que o trabalho de sapador, caso exista necessidade, seja assegurado por elementos dos bombeiros libertando estas brigadas para outras intervenções. O trabalho de sapador é a base do combate indirecto aos incêndios e é assegurado por bombeiros sapadores que dispõem de meios mais pesados e maior número de homens para realizar estas operações. As ferramentas manuais utilizadas pelas brigadas de primeira intervenção e pelos sapadores são, nomeadamente a pá, enxada, enxadão (Pulaski), enxada-ancinho (MacLeod), machado, foição, roçadoura e batedor (abafador), também é possível a utilização de meios mecanizados portáteis tipo motoserras e motoroçadouras. Apresentam-se em seguida alguns exemplos destas ferramentas. Relativamente às ferramentas manuais existe sempre alguma preocupação na sua versatilidade e geralmente agrupa-se duas funções numa mesma ferramenta.

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É possível no entanto os elementos destas das brigadas transportarem extintores dorsais, estes extintores consistem em sacos com cerca de 20 litros de água que pode ser projectada contra as chamas por bombagem.

Figura 17: Exemplo de Pulaski, Mcleod, pá e batedor

Estas ferramentas (excepto o batedor) são utilizadas para cortar mato e limpar linhas que se destinam a travar a propagação do fogo. O batedor destina-se ao ataque directo a chamas em zonas de mato rasteiro.

Figura 18: Exemplo do trabalho sapador (realização de faixas de contenção)

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Figura 19: Bombeiro utilizando um batedor

Figura 20: Exemplo de extintores dorsais para sapadores.

A primeira intervenção também pode ser realizada por meios aéreos, especialmente no caso da vigilância aérea armada, este tipo de combate será analisado adiante com mais pormenor. Após a primeira intervenção o combate aos incêndios é efectuado por diversos meios que envolvem por vezes dezenas de viaturas e centenas de homens. COMBATE INDIRECTO O combate aos incêndios pode ser realizado por método directo, indirecto ou combinado. O método indirecto destina-se a travar a propagação das chamas é utilizado quando o ataque directo não é possível (embora se possam utilizar os dois métodos de forma combinada) tentando circunscrever o incêndio a uma determinada área. Esta poderá ser delimitada por faixas de contenção, isto é, por zonas previamente tratadas para retardar a propagação ou mesmo extinguir as chamas. Essas faixas de contenção poderão ser:

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Previamente existentes – estradas, caminhos florestais, áreas tampão, aceiros, arrifes e cortinas de abrigo; Construídas na altura do incêndio, limpando o terreno dos combustíveis até ao solo mineral. Estes podem ser feitos com ferramentas manuais ou com a ajuda de meios mecanizados como bulldozers, motosserras, etc. As faixas de contenção são realizadas com trabalho de sapador realizando faixas de contenção livres de combustível de forma a impedir o avanço do fogo. Este trabalho é realizado com ferramentas manuais (iguais às dos meios de primeira intervenção) mas também equipamento pesado como sejam bulldozers. Os meios pesados permitem maiores rendimentos e eficácia estando, no entanto, mais limitados nas características do relevo do terreno e acessos à zona dos incêndios.

Figura 21: Utilização de bulldozers (máquinas de rasto) para a execução de faixas de contenção

Em qualquer dos casos, essas faixas podem ser alargadas e consolidadas, através do tratamento da vegetação que lhes é adjacente, com água, espumas ou caldas retardantes, aplicadas por meios terrestres ou aéreos. Os meios aéreos podem ser helicópteros bombardeiros ou aviões que realizam descargas de água ou retardantes de fogo não directamente nos incêndios mas em zonas adjacentes de forma a evitar o seu avanço. Os retardantes utilizados devem ter e mínima toxicidade possível pois eles ficam no solo ou podem ir para cursos de água. O retardante é largado à frente do fogo e não directamente sobre ele, o objectivo destes produtos é retardar o avanço do incêndio e consolidar faixas de contenção. Os retardantes podem dividir-se em duas categorias, os de curto prazo e os de longo prazo: Retardantes de curto prazo – entram neste grupo a água, a água com aditivos (para aumento da viscosidade, aumento do calor necessário à sua evaporação ou aumento da tensão superficial, etc.) e as espumas. Estes retardantes actuam apenas por arrefecimento, o fogo não se propaga enquanto a água não evaporar retardando-se deste modo o seu avanço. Os aditivos permitem obter maiores 18

espessuras de água e que esta demore mais a evaporar aumentando a sua eficácia. Estes retardantes também podem ser utilizados directamente nas chamas. Outro retardante de curto prazo utilizado é a espuma, esta consiste na mistura de água com um espumífero na qual é injectado ar, a espuma permite uma melhor cobertura do combustível criando um isolamento deste pois reflecte o calor e cria uma maior espessura de isolamento do combustível. Pode ser utilizada por meios aéreos ou terrestres. A espuma é também muito utilizada no combate directo às chamas. Estes aditivos designam-se de curto prazo pois a sua acção desaparece ao se evaporar a água. Retardantes de longo prazo – estes contêm produtos químicos que alteram o processo de combustão (ex. o hidróxido de alumínio, sulfato de amónia, etc.). Estes químicos ao entrarem em contacto com o fogo libertam H2O ou CO2 o que dificulta a combustão e contêm químicos que se soltam com o fogo e reagem com a celulose da madeira criando compostos incombustíveis. Estes químicos têm acção de arrefecimento mas também de sufocamento para o incêndio e criam camadas protectoras do combustível. Os retardante podem ser líquidos concentrados ou em pó misturando-se na água para serem aplicados (proporções aproximadas de 85% água para 15% retardante). Os retardantes modernos também têm uma acção fertilizante ajudando o crescimento da vegetação após o incêndio, no entanto, o uso destes químicos deve sempre ter em atenção questões ambientais e de saúde. É comum os retardantes terem cor vermelha, esta deve-se à utilização do óxido de ferro e o objectivo é tornar visível o local onde o retardante foi largado.

Figura 22: Mistura do retardante com água em tanques próprios

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Como referido as descargas de retardantes são realizadas por helicópteros bombardeiros ou aviões, geralmente utilizam-se os aviões pesados como os Canadair CL-215, Beriev BE-200, Douglas DC-6 ou DC-7, Hércules C-130, Lockheed P-2, etc. Alguns aviões (ex. Canadair) têm tanques específicos onde são guardados os espumíferos ou aditivos realizando-se a mistura no avião, isto permite maior eficiência no combate a incêndios pois o avião apenas se abastece com água, podendo fazê-lo por “scooping”. Este sistema não pode ser utilizado com todos os retardantes existindo alguns cuja mistura tem que ser realizada em terra e portanto avião precisa de aterrar para se reabastecer de retardante. Em termos de capacidade um avião Canadair CL-215 pode levar cerca de 5500 litros ou 6000 kg de químicos. O tanque dos aditivos tem capacidade para 600 litros com capacidade de realizar a mistura em voo. O Beriev BE-200 tem capacidade para cerca de 12000 litros de água ou químicos podendo igualmente abastecer por scooping.

Figura 23: Esquema de combate indirecto com meios aéreos

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Figura 24: Avião Canadair CL-215 em combate indirecto a incêndio

Figura 25: Avião Convair 580 em combate indirecto a incêndio com a utilização de retardantes

Outra táctica utilizada no combate indirecto é o contrafogo, este consiste em atear um fogo a uma certa distância da frente do incêndio que se quer combater, para formar uma área tampão de terreno queimado com largura suficiente para evitar a propagação do incêndio. Deste modo inicia-se a queima da vegetação, contra o vento, num local para onde se dirige o incêndio. A linha de contrafogo deve avançar em direcção à frente do incêndio criando uma faixa queimada, e portanto sem combustível para a propagação do incêndio. O contrafogo é o último recurso para circunscrever e dominar um incêndio, pois exige competência, experiência e uma equipa com grande profissionalismo. Se não 21

for efectuado correctamente pode provocar o alastramento do incêndio. A utilização do contrafogo requer que existam condições atmosféricas (direcção do vento) favoráveis, pelo que a sua utilização deve ser realizada sempre com precaução. Este método também pode ser utilizado para reforçar faixas de contenção. Para a ignição do contrafogo é comum a utilização de utensílios tipo o pinga lume.

Figura 26: Exemplo de pinga lume e da utilização do contrafogo no combate a incêndios florestais

Figura 27: Esquema da utilização do contrafogo

Quando se necessita de realizar um contrafogo rapidamente e numa grande extensão pode utilizar-se um género de pinga lume mas operado de helicóptero, este basicamente é constituído por um depósito com um líquido inflamável que é preso por cabos ao

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helicóptero. Esta ferramenta permite criar grandes frentes de contrafogo de forma mais rápida e em terrenos mais difíceis com maior segurança.

Figura 28: Contrafogo ateado por helicóptero

Outra forma de criar frentes de fogo por helicóptero é utilizando o método das bolas de “ping-pong” (Delayed Aerial Ignition Devices (DAID)). Estas são bolas de poliestireno contendo permanganato de potássio (um forte oxidante), após serem injectadas com uma solução de etilenoglicol (anticongelante de radiador) são lançadas do helicóptero demorando cerca de 30 segundos a incendiar-se. Este método apresenta as vantagens da ignição por helicóptero, poder actuar com rapidez, numa grande extensão e em terrenos difíceis. Deve ser preferido nos casos da vegetação ser alta, pois as bolas passam pela vegetação e caem no solo. Deste modo, a ignição dá-se ao nível do solo e não pelas copas como aconteceria no caso do pinga lume de helicóptero. O método indirecto de combate a incêndios é muitas vezes utilizado em combinação com o método directo na mesma frente de chamas. Num incêndio de pequenas proporções e nos flancos ou na cauda de um grande incêndio, utiliza-se o método directo. Para deter o avanço de um incêndio de grandes proporções, em particular de uma frente principal, emprega-se o método indirecto. As faixas de contenção não são realizadas imediatamente na frente de fogo pois não seriam exequíveis. São realizadas aproveitando estruturas previamente existentes e de em locais com um distanciamento à frente de fogo que permita a sua construção antes de o incêndio alcançar a zona da faixa de contenção.

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O método indirecto de combate a incêndios exige mais recursos humanos e maior eficiência no sistema de comunicações. Este método tende a ser utilizado quando não é possível utilizar o ataque directo, tende a ser mais eficaz em incêndios de propagação rápida, incêndios difíceis de controlar, incêndios de propagação pelas copas e se há a possibilidade de aproveitar estruturas existentes como faixa de contenção. Não deve ser escolhido quando não existem condições de realizar faixas de contenção adequadamente. As vantagens deste método são melhores condições de trabalho dos bombeiros, como a faixa de contenção é realizada afastada da frente de fogo resulta menos proximidade das chamas e portanto mais segurança e melhores condições de trabalho. Este método também evita alguma tendência dos bombeiros a concentrarem-se nos locais mais críticos e a aproximarem-se em demasia do incêndio. Como desvantagens pode referir-se o facto de aumentar a área queimada e aumenta também o perímetro de fogo a vigiar. Existe a dificuldade em realizar faixas de contenção com a largura necessária nalguns tipos de incêndios (a largura deve ser de aproximadamente 1,5 vezes a altura das chamas) o que pode levar o fogo a cruzar a faixa de contenção, exigência de um número maior de meios humanos e respectiva coordenação. O facto de os bombeiros trabalharem sem estarem a observar as chamas também pode levar a situações de perigo, a monitorização do incêndio é muito importante neste tipo de combate. COMBATE DIRECTO O combate directo a incêndios consiste no ataque directo às chamas, este é realizado com a ajuda de veículos tanque sempre que possível, meios aéreos e trabalho de sapador onde os veículos não chegam. Sempre que possível, o ataque directo é realizado recorrendo à táctica ofensiva na cabeça do incêndio, de modo a cortar, de imediato, o seu desenvolvimento. Se tal não for seguro e possível, o ataque efectua-se da retaguarda, pelos flancos, na direcção da frente principal, de modo a empurrar as chamas para onde for mais favorável, visando dominar e extinguir a frente do incêndio. Existem duas situações típicas de combate directo a um incêndio florestal: Recorrendo a água, com base em veículos de combate; Recorrendo a pessoal apeado com material sapador, em especial onde não é possível chegar com veículos, podendo ser combinado com descargas de meios aéreos sobre a frente de chamas onde este pessoal actua.

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O combate é essencialmente realizado com água em veículos tanque utilizando mangueiras para a projectar contra o incêndio. Os veículos tanque utilizados têm sempre características todo-o-terreno e os utilizados em incêndios florestais designam-se conforme a sua capacidade e características todo-o-terreno por: veículos tanque tácticos para floresta (VTTF) com capacidades que vão até aos 16000 litros, veiculo tanque táctico rural (VTTR) com capacidade até 16000 litros e chassis 4x4, veículos florestais de combate a incêndios (VFCI) com capacidade entre os 1500 e os 3000 litros, veiculo rural de combate a incêndios (VRCI) com capacidade entre 1500 e 4000 litros e chassis 4x4, veículo ligeiro de combate a incêndios (VLCI) com capacidade superior a 400 litros de água mas massa total inferior a 3,5 toneladas, veículo tanque de grande capacidade (VTGC) com capacidade de transporte superior a 16000 litros.

Figura 29: Exemplo de veículos VTGC e VTTF

Figura 30: Exemplo de veículos VFCI e VRCI

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Figura 31: Exemplo de veículos VLCI e VTTR

Os bombeiros projectam a água contra o incêndio com mangueiras de modo a extingui-lo. Este tipo de combate exige que os veículos tenham acesso à frente de chamas, seja pela zona para onde se dirige o incêndio seja pela zona queimada.

Figura 32: Bombeiros no ataque directo a chamas com água.

O uso dos veículos tanque e de pessoal em terra é fundamental no combate directo aos incêndios, no entanto, o uso de meios aéreos também é possível. Estes têm a vantagem de poderem chegar quase a qualquer local pois não estão restringidos pelas barreiras físicas do terreno. Os meios utilizados são os helicópteros e os aviões. Os helicópteros utilizados são habitualmente helicópteros comuns, isto é, que também podem ser utilizados, por exemplo, para transporte de pessoas. Estes helicópteros não têm nenhum tanque próprio para transporte de água pelo o combate faz-se acoplando um reservatório ao helicóptero (bambi bucket ou reservatórios na barriga).

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O bambi bucket tem uma estrutura flexível com uma válvula no fundo. Devido à maneabilidade dos helicópteros e à sua estrutura estes reservatórios podem ser abastecidos em rios, albufeiras, lagos, barragens, piscinas, mar, etc. Com um enchimento pelo fundo bastante rápido. Existe a hipótese de colocar uma bomba de enchimento em que desde que exista uma profundidade de água superior a 40 cm é possível abastecer o reservatório e o abastecimento é realizado geralmente em menos de um minuto (conforme a capacidade e o sistema de enchimento). Isto torna bastante interessante o uso deste tipo de reservatórios no combate a incêndios. A capacidade deste tipo de reservatórios é também variável produzindo-se com capacidades entre os 300 e os 10000 litros (para helicópteros médios a capacidade dos baldes ronda os 1000 litros). Este tipo de reservatórios também permite a utilização de espumas e outros aditivos, bastando para isso realizar a mistura com a água no tanque de abastecimento.

Figura 33: Aspecto do bambi bucket

Para além deste sistema existem reservatórios rígidos para colocação na barriga do helicóptero (designados por kit). Estes sistemas também permitem um abastecimento rápido e versátil pois é efectuado sem o helicóptero poisar utilizando uma mangueira com uma bomba acoplada. Para exemplo, um tanque de barriga para helicópteros médios Bell 212 transporta 1350 litros de água, helicópteros de maiores dimensões como o UH-60 Blak Hawk leva cerca de 3800 litros de água, abastecendo em 3,5 min (este helicóptero tem um tanque com 110 litros para espumífero, permitindo realizar a mistura em voo no tanque de barriga). Um helicóptero também utilizado nestas funções em Portugal é o Kamov Ka-32A1. Este helicóptero é caracterizado por ter dois rotores, isto permite utilizar pás mais curtas o que diminui o diâmetro livre necessário para poder manobrar o helicóptero (o diâmetro das pás é de apenas 15,9 m). Os dois rotores giram em sentido contrário, isto permite ao helicóptero realizar as manobras sem necessidade de rotos na cauda. Este helicóptero tem uma capacidade de carga de 5000 Kg podendo levar 13 elementos para combate a incêndio. A elevada capacidade de carga permite transportar

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elevados volumes de água quando utilizado no combate a incêndios, sendo o mais comum a utilização de bambi bucket com 5000 litros de capacidade.

Figura 34: Abastecimento e utilização do bambi bucket

Figura 35: Helicópteros com tanque acoplado na barriga

Figura 36 Helicóptero Kamov Ka-32

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Uma vantagem da utilização do bambi bucket ou dos reservatórios rígidos acoplados consiste na utilização de helicópteros comuns, deste modo estes helicópteros podem ser servir para outras tarefas e missões com grande versatilidade para além do combate a incêndios. Para além deste sistema existem helicópteros específicos para o combate a incêndios estando providos de um tanque para armazenamento de água. Estes helicópteros abastecem também sem necessidade de aterrar, pois têm uma mangueira com uma bomba que possibilita o abastecimento de água em qualquer local com mais de 40 cm de profundidade. Por exemplo um helicóptero bombardeiro Erickson Aircrane S-64E (antigos Sikorsky) com capacidade para cerca 9000 litros abastece em 45 segundos. Relativamente aos helicópteros normais apetrechados com bambi bucket estes helicópteros têm maior capacidade, necessitando no entanto de se aproximar mais da água para se abastecerem e precisando para isso de um diâmetro desimpedido de 60 metros. Estes helicópteros podem utilizar água com aditivos, espumas e retardantes de longo prazo. Alguns destes helicópteros têm um tanque para agentes espumíferos permitindo realizar a mistura deste com a água em voo (ex. O Erickson Aircrane têm um tanque para agentes espumíferos com 290 litros de capacidade). Embora não sejam de utilização comum em Portugal, países como a Itália, Grécia ou França dispõem deste tipo de helicópteros. Os helicópteros Kamov KA-32 também existem com tanque incorporado, podendo ser de 3000 litros ou 5000 litros, e neste caso também tem tanques de produto espumífero podendo realizar a mistura em voo.

Figura 37: Helicóptero bombardeiro Erickson Aircrane

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Figura 38: Abastecimento de helicóptero e pormenor da mangueira de abastecimento

Em Portugal os helicópteros bombardeiros de combate a incêndios recebem conforme a sua capacidade as seguintes designações: Helicóptero Bombardeiro Ligeiro (HEBL) – com capacidade inferior a 1000 litros de água; Helicóptero Bombardeiro Médio (HEBM) – com capacidade entre 1000 e 2500 litros de água; Helicóptero Bombardeiro Pesado (HEBP) – Capacidade superior a 2500 litros de água. Para transporte de pessoas (para além da tripulação) os helicópteros são ligeiros se transportarem até 5 pessoas, médios se transportarem entre 6 e 18 pessoas e pesados se transportarem mais de 18 pessoas. Os helicópteros são meios com grande mobilidade e precisão nas descargas, os espaços de aterragem e de abastecimento de água não requerem elevados requisitos e servem igualmente para o transporte de pessoas. Outro meio aéreo utilizado são os aviões, estes podem ter capacidade e configurações muito diversas. Desde os mais pequenos, como sejam os Dromader e os Air Tractor, com capacidades de cerca de 2000 a 3000 litros até ao IL-76 com cerca de 55000 litros de capacidade. Os aviões mais pequenos têm a vantagem de serem mais manobráveis e poderem utilizar pistas mais pequenas, dispondo geralmente de um maior número de pistas de apoio. Os aviões maiores têm maior capacidade mas podem utilizar menos pistas devido às suas exigências da dimensão das pistas. Deste modo os aviões pequenos realizam mais viagens mas mais pequenas, os aviões grandes precisam muitas vezes de percorrer distâncias superiores, são no entanto mais rápidos e têm maior capacidade. A escolha e adequação dos meios depende das condições do país relativamente ao números e localização das pistas, distâncias, etc.

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Figura 39: Canadair CL-215 (capacidade 5500 litros) e Beriev BE-200 (capacidade 12000 litros) ambos podem abastecer por scooping.

Figura 40: Avião Canadair CL-415 (capacidade 6100 litros, pode abastecer por scooping) e avião Lockheed SP-2H Neptune (cap. 7500 litros)

Figura 41: Avião Beriev Be-12P (Cap. 6000 litros) e avião PBY-5A (capacidade 5300 litros) ambos podem abastecer por scooping

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Figura 42 Avião Douglas DC-7 (capacidade 11000 litros) e Avião Lockheed P3 Orion (capacidade 11000 litros)

Figura 43: Avião C-130 Hercules (capacidade 11000 litros) e avião Douglas A26 (capacidade 3500 litros)

Figura 44: Avião Douglas DC-10 (capacidade 45000 litros) e avião Ilyushin-76 (capacidade 55000 litros, o maior avião tanque com utilização corrente)

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Figura 45: Avião Dromader M-18 (capacidade 2200 litros) e avião Air Tractor AT-802 (capacidade 3100 litros)

Figura 46: Esquema de ataque directo a incêndio com meios aéreos

Em Portugal os aviões de combate a incêndios recebem conforme a sua capacidade as seguintes designações: Aerotanque Ligeiro (AETL) – com capacidade entre 1800 litros e 2800 litros, geralmente abastecem em terra; Aerotanque Médio (AETM) – com capacidade entre 2800 e 4000 litros de água, geralmente abastece em terra; Aerotanque Pesado (AETP) – Capacidade superior a 4000 litros de água, pode abastecer em terra ou por scooping. Geralmente os aviões precisam de aterrar numa pista para serem abastecidos com água, existem no entanto aviões que podem abastecer por “scooping”. Neste processo o avião desliza sobre a água enchendo os tanques. Entre os aviões que se podem abastecer de 33

água desta forma estão os Canadair CL-215 e CL-415, o Beriev BE-200, e o os PBY Catalina entre outros. Este processo permite realizar abastecimentos mais rápidos e podendo utilizar barragens, albufeiras ou o mar para abastecer, permite deste modo um maior número de opções, minimizando o tempo entre descargas.

Figura 47: Esquema de abastecimento por scooping

Refira-se que um avião demora de 10 a 15 segundos a abastecer de água por scooping necessitando de comprimentos perto dos 1500 metros e profundidades mínimas de 1,5 a 2,0 metros. Por exemplo o Canadair CL-415 demora 12 segundos a abastecer necessitando de um comprimento mínimo de 1340 metros (incluindo faixa de segurança desimpedida, apenas necessita de 410 metros de água para encher os tanques) e uma profundidade mínima de água de 1,4 metros. Um avião como o Canadair CL-415 pode estar até 3 horas seguidas em combate a incêndios, conseguindo realizar em média 9 descargas considerando que se abastece num ponto de água a 10 km de distância do incêndio.

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Figura 48: Aviões tanque abastecendo por scooping

No combate directo as descargas devem ser realizadas directamente na base das chamas da frente de fogo. Estas podem ser de água ou espumas. Como foi referido a água pode ser misturada com aditivos e espumíferos que aumentam o seu poder de combate a incêndios. A mistura da água com os aditivos ou espumíferos pode ser realizada em tanques em terra, o que obriga os helicóteros a deslocarem-se a estes tanques para abastecerem e os aviões a aterrar para abastecerem. A mistura também pode ser realizada em voo, um avião que permite apenas abastecer de água, podendo fazê-lo por scooping, e realizar depois a espuma em voo é o Canadair. Um avião Canadair 415 pode levar entre 300 a 600 litros de espumifero, este é injectado na água entre 0,3% a 0,6% de volume. Utilizando uma percentagem de 0,4% pode tratar-se os 6000 litros de capacidade do avião com 24 litros de espumífero. A espuma é uma mistura da água com um espumífero, quando utilizada no ataque directo a incêndios tem a vantagem de aumentar a área coberta em cada descarga, pois mistura de espuma expande. Os aviões permitem, relativamente aos helicópteros, maior velocidade, isto permite abrangerem uma área superior no combate a incêndios, têm maior autonomia, permitindo maiores períodos contínuos de actuação e têm em geral maior capacidade de água ou outro produto de combate. CONSIDERAÇÕES LOGÍSTICAS Uma das questões que se coloca no combate directo a incêndios prende-se com a necessidade de água. Um trabalho importante realizado em Portugal foi a identificação de pontos de água utilizáveis pelos bombeiros para abastecimento de viaturas e outros meios de combate. Deste modo foi desenvolvida a Rede de Pontos de Água. Esta rede tem duas componentes distintas:

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o abastecimento dos meios terrestres (Rede Pontos Agua Terrestre - RPAT); o abastecimento dos meios aéreos (Rede Pontos Agua Aéreos - RPAA). A utilização destas estruturas está dependente da táctica de combate. Para o combate terrestre procura-se que toda a logística utilizada assente em veículos. Deste modo, o combate é, por vezes, realizado por unidades de 1ª linha (unidades com depósitos de água, com cerca de 500 a 1500 litros, mas de grande penetração nos espaços florestais), e que estas são abastecidas por unidades de 2ª linha (cerca de 5000 a 6000 litros de água e ligeira capacidade de penetração nos espaços florestais), e que por sua vez estes são suportados numa 3ª linha de viaturas com grande capacidade de armazenamento (15000 a 60000 litros, mas sem capacidade de combate e sem capacidade de penetração nos espaços florestais). Embora utilizando um número elevado de meios, é possível garantir a fornecimento de água à frente de combate e o abastecimento dos meios de grande capacidade pode ser feito na rede pública, que em regra se encontra próximo. Este tipo de táctica dispensa em geral o recurso aos pontos de água. Refira-se que sempre que a rede pública se encontra disponível próximo do incêndio o abastecimento é preferencialmente realizado nesta. E que quanto mais próxima se encontra a rede pública do incêndio menos é a dependência das viaturas de combate das de capacidade superior. A necessidade de pontos de água, para abastecimento terrestre começa quando esta táctica se altera, ou quando os incêndios surgem em zonas mais periféricas e isoladas, e consequentemente afastados da rede de abastecimento público. Deste modo, o tempo de deslocação é elevado deixando de ser viável realizar os abastecimentos na rede pública. Nestes casos pode recorrer-se à RPAT para abastecimento das viaturas. Esta é uma rede bastante extensa abrangendo todo o território nacional. Relativamente aos meios aéreos estes necessitam de abastecer em pontos de água, os pontos que podem ser utilizados dependem do meio de combate considerado. Por exemplo o abastecimento em pontos de água apenas pode ser realizado por helicópteros e aviões que abasteçam por scooping, os restantes aviões têm de aterrar numa pista para serem abastecidos. Mesmo os meios aéreos que abasteçam em planos de água devem ser analisados caso a caso pois as suas características podem variar. A grande versatilidade de abastecimento dos helicópteros faz com que possam utilizar um grande número de pontos de água, deste modo, a rede disponível é também grande e abrangente.

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Para os aviões que abastecem por scooping as exigências para a utilização de um ponto de água aumentam. Deste modo apenas os maiores planos de água podem ser utilizados por estes aviões (ex. barragens). A rede utilizável é, neste caso, bastante mais diminuta.

Figura 49: Rede de pontos de água

Para os aviões e helicópteros é necessário para a sua acção o reabastecimento de combustível ou de água (aviões que abasteçam em terra) tornando-se fundamental o apoio de pistas com capacidade para poderem ser utilizadas por estes meios. Também neste caso, os helicópteros necessitam de menos requisitos, seguidos de aviões ligeiros, necessitando os aviões pesados de exigências superiores, e portanto, com menores pistas utilizáveis. Do apoio logístico em termos de abastecimento de água e combustível depende muito o rendimento dos meios aéreos. O número de descargas que se consegue realizar em determinado tempo depende em grande medida da distância a que se encontra o ponto de água de abastecimento do incêndio. Apresentam-se em seguida algumas estimativas do números de descargas realizadas por diversos meios aéreos, estas diferem ligeiramente conforme os pressupostos considerados

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destinando-se apenas a ilustrar a importância destas questões no rendimento efectivo destes meios.

Figura 50: N.º de descargas dos meios aéreos

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Figura 51: Bases de apoio logístico para meios aéreos

Figura 52: Estimativa do número de descargas para os meios aéreos

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Figura 53: Exemplo de apoio logístico para um Canadair CL-415

Refira-se que a utilização de meios aéreos se encontra limitada durante a noite pois muitas aeronaves não possuem condições para realizar combate a incêndios com segurança sem luminosidade. Além disso a utilização dos meios aéreos não resolve as situações por si só, a intervenção das equipas de terra é fundamental. A coordenação entre os dois meios é fundamental para rentabilizar os meios aéreos, deste modo uma intervenção rápida das equipas de terra na zona onde se deu a descarga dos meios aéreos para aproveitar a sua acção e consolidar resultados é necessária.
CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O COMBATE DIRECTO

O combate directo a incêndios apresenta algumas vantagens, nomeadamente, permite diminuir os danos causados pelo incêndio pois diminui a área ardida, o trabalho dos bombeiros é de real supressão das chamas, o resultado é um perímetro frio o que torna mais fácil o rescaldo e evita reacendimentos. O facto de os bombeiros trabalharem com os olhos no fogo e o combate se poder realizar utilizando a zona queimada, isto é, estando por detrás do fogo são factores que geram alguma segurança. Entre as desvantagens deste tipo de combate estão a maior exposição dos bombeiros ao calor e ao fumo, ter que realizar o combate em situações geográficas adversas, isto é, o combate pode ter que ser realizado com condições de relevo e vegetação bastante

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adversos dificultando a acção dos bombeiros. O “seguir” o incêndio para o combater exige maior mobilidade de meios e é muito mais desgastante para os bombeiros. Podem ocorrer casos de reacendimentos em zonas já apagadas que causem situações de perigo para os bombeiros. Este método permite defender casas e locais de maior importância que se encontrem em risco. O combate a incêndios pelo método directo tende a ser mais vantajoso em condições de relevo favorável, incêndios com avanço lento e com combustão não muito violenta, o que permite trabalhar perto do fogo com menores riscos. Nem sempre aproveita barreiras naturais que possam existir.

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