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O homem: fim ou meio das Instituições Empresariais?

Resumo: O homem possui valor inalienável e inviolável em sua dignidade. Ele não deve ser reduzido a mero meio das instituições empresariais. A pessoa deverá ser o fim de qualquer instituição, pois do contrário, a mesma se tornará apenas objeto de exploração da força de trabalho. O lucro é o fim das instituições empresariais. Ele é essencial no sistema capitalista sustentado pelo mercado consumidor. Porém, o homem deverá ser colocado acima do lucro. Assim, faz-se necessário estabelecer a construção de uma antropologia que defenda o homem em sua dignidade no mundo empresarial. Palavras-chave: Homem, Instituição Empresarial, Lucro, Antropologia.

Introdução O objetivo do presente artigo é refletir se o homem é fim ou meio das instituições empresariais. Sabe-se que o homem dentre todos os seres que habitam o mundo, é o único capaz de transformar a natureza, conforme suas necessidades e projetos existenciais. Ele é guiado pela razão, princípio e fundamento de sua distinção entre os diversos seres presentes no mundo. Há grande inversão de valores na sociedade capitalista. O homem deixou de ser o fim e passou a ser o meio das instituições empresariais. O fim das instituições é o lucro. Aqui, não há nenhuma forma de radicalismo de condenação ao lucro, pois nenhuma atividade sobrevive sem o respaldo financeiro, mesmo as instituições sem fins lucrativos. Todas as empresas precisam do lucro decorrente de sua atividade, pois a sobrevivência da mesma, depende de um bom faturamento para permanecer no mercado hiper-competitivo. O homem foi reduzido a mero objeto de produção? Ele deve alcançar as metas de produção exigidas pela empresa. Nesse processo, o homem torna-se máquina e deixa de ser o fim da empresa, porém ele é o meio que dará à empresa o lucro. Percebe-se no mercado atual, um movimento de humanização das empresas. Todavia, há que se defender o homem como categoria fundamental das instituições. É necessário compreender o homem em si mesmo, para analisar os condicionamentos e a desvalorização do ser humano, provocados pelo contexto da globalização na perspectiva neoliberal. A contribuição da reflexão antropológica será de fundamental importância para tal objetivo. Considerando, a realidade sócio-econômica global e as novas estratégias do mundo empresarial para manter-se no mercado, é pertinente fundamentar o valor e a dignidade da pessoa humana, para que a mesma não se torne mero objeto de produção e apenas consumidora dos bens e serviços disponibilizados no comércio. Por isso, o caminho passará pela via antropológica. A antropologia é sempre uma autocompreensão do sujeito. Pode-se afirmar categoricamente que é o processo real e total do seu autoconstituir-se como sujeito. A antropologia enquanto saber do sujeito procura compreendê-lo em sua totalidade, evitando assim, o reducionismo antropológico, isto é, a pessoa não pode ser reduzida a uma única dimensão. O homem deve ser considerado um ser multidimensional, ou seja, ele apresenta dimensão somática, psíquica, racional, individual, social, econômica, política, sapiencial, erótica, estética, histórica, técnica, ética. São faces complementares e não excludentes. A reflexão antropológica é fundamental enquanto defende o homem em sua dignidade e humanização nos diversos setores da sociedade. O homem não é coisa, mas sujeito situado em uma relação de presenças: “presença a si mesmo (eu), aos outros (sociedade) e ao mundo (natureza)”1. Pode-se afirmar nessa perspectiva, que há no homem uma dimensão de imanência e de transcendência. Os conceitos de imanência e de transcendência serão abordados posteriormente.
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JUNGES, Roque José. Bioética – perspctivas e desafios. São Leopoldo (RS): Unisinos, 1999, p. 73.

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O homem deve ser protagonista consciente de sua história e de seus atos. Ao produzir progresso, ele deverá produzir também a humanização desse progresso por meio das diversas atividades: econômicas, políticas, comerciais, educacionais e religiosas. O homem, ao contrário dos animais, submete a natureza ao seu poder racional para realizar os seus desejos, porém na maioria das vezes, o seu semelhante é utilizado para alcançar determinados fins. Portanto, é necessário refletir e possibilitar espaço nas diversas instituições, para que a pessoa não seja “coisificada”, isto é, reduzida a mero objeto de trabalho como produtora do lucro. É urgente despertar no mundo empresarial a compreensão da pessoa como fim e não meio do processo de produção. Assim, apresentará num primeiro momento, a fenomenologia da pessoa, ou seja, a compreensão da mesma em suas diversas manifestações mais significativas e por fim, a relação com o mundo empresarial na perspectiva da sociedade globalizada e neoliberal. I - Fenomenologia do homem 1 - Homem: um ser que tem corpo A primeira dimensão do homem é a corporeidade, ou seja, o homem é seu corpo. Ele é capaz de manejar seu corpo, adestrá-lo e torná-lo apto a realizar movimentos de uma perfeição admirável. O homem não é só senhor do seu corpo, mas também, graças a ele, torna-se senhor do mundo. Particularmente com o instrumento que lhe é fornecido pelas mãos, o homem pode gestar o mundo, transformá-lo e dominá-lo2. O corpo humano é epifania de significados expressa por todos os poros. Fala pela voz, pelo silêncio, pela face, pelo olhar, pela idade, pelo andar, pela imobilidade, pelas evoluções físicas, pelo salto, pelo sussurro, pelo grito, pela lágrima, pela cólera, pela fome, pelo protesto, pela fuga, pela agressão, pelo aceno, pelo rasto, pela bravura, pelo medo, pelas mãos calejadas, pelo sangue derramado, pelos pulsos algemados, pelos braços alevantados. Pode-se afirmar que o corpo não se reduz a uma propriedade da pessoa. Possui a totalidade humana. Não é instrumento do homem. É modo de ser do homem. O corpo diz fenomenologicamente todo meu ser. É nele que se manifesta a consciência, o pensamento, a intenção profunda, a liberdade, o projeto de vida, a necessidade e aspiração, o acolhimento e a recusa, a dor e o júbilo, o amor e a crueldade, a súplica e a prepotência. O corpo é palavra somática3. A linguagem corporal é encontro de existências. Não se trata apenas de contatos físicos, “corporais”. Existe aí a circulação de sentido. O encontro de corpos gera linguagem orgânica coextensiva. Pode-se afirmar que “o corpo é um nó de significações viventes e não a lei de certo número de termos co-variantes”4. O corpo apresenta o ser total da pessoa à outra. E também o corpo do outro traz ao primeiro a sua existência toda. O encontro de corpos perfaz a mútua inserção significativa de vidas. Há encontro de corpos em que perpassa o acolhimento recíproco. E há encontro de corpos em forma de recusa que afasta as existências e cava o hiato interpessoal. É que o corpo não é a máscara postiça, que se veste e desveste, mas é a encarnação do existir humano nas suas diferentes qualificações. E no diálogo das corporalidades constitui-se o ser-nomundo. Quando as corporalidades existenciais travam relacionamento, forma-se o universo “mundano”. O diálogo corporal mediatiza o intercâmbio mais amplo com o universo cósmico e histórico. É através das corporalidades humanas inter-relacionadas, que o mundo adquire sentido e espraia-se em forma de linguagem. Por isso, uma das principais funções do corpo humano é a de “mundanizar” o homem, ou seja, a de fazer dele um ser-no-mundo. Uma outra importante função do corpo é a de “ter”, de “possuir”. Com efeito, apenas aquilo com que eu posso entrar em contato com meu corpo pode ser reclamado como meu. O
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RAMPAZZO, Lino. Antropologia – religiões e valores cristãos. 2ª ed., SP: Loyola, 1996, p. 33. ARDUINI, Juvenal. Destinação Antropológica. SP: Paulinas, 1989, p. 19. 4 Ibid.

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corpo também é instrumento para fazer o bem e o mal: é a função moral. A experiência nos diz que o exercício de uma virtude, bem como a prática de um vício, são, em larga medida, devidos aos hábitos que conseguimos adquirir com o nosso corpo. Portanto, o corpo é parte essencial do homem. Não é um artefato sem vida, mas epifania de significados que se manifestam de forma fundamental no mundo, por meio das diversas ralações que o homem estabelece. Todavia, o homem tem, dentro de si, algo que o faz superar os limites do corpo. É suficiente refletir sobre o conhecimento que vai além da realidade empírica corporal e mundana, pois o corpo fica limitado ao espaço físico. 2 – Homem: um ser que conhece O homem é ser capaz de conhecer. Ele ultrapassa o dado da experiência, isto é, o homem possui a faculdade de refletir sobre si mesmo, de ter idéias, de julgar, de raciocinar. O conhecimento humano proporciona dados singulares pertinentes à ordem científica, jurídica, administrativa, religiosa, moral, ética, etc. Os conhecimentos sensitivo e intelectivo fazem parte da realidade cognitiva do homem. São duas formas privilegiadas do homem para conhecer e compreender o mundo e a sua realidade existencial. Pode-se afirmar que o homem possui uma tríplice forma de conhecimento: sensitivo, imaginativo e intelectivo. O conhecimento sensitivo é:
“aquele que se obtém através dos sentidos. Ele diz respeito às coisas materiais na sua singularidade: os sentidos colhem sempre, de fato, objetos materiais, reais ou aparentes e os tomam na sua singularidade seja se se trate do objeto em seu todo, seja se se trate de uma parte, de uma qualidade”5.

O homem é ser sensitivo. Ele é dotado de sensibilidade, a qual é percebida por meio de seus cinco sentidos, isto é, a visão, audição, tato, paladar e olfato. Pode-se constatar que o conhecimento sensitivo é uma das fontes do conhecimento, ou seja, a experiência torna-se relevante, pois ela torna-se o ponto de partida para uma formulação conceitual. Aristóteles, um dos grandes pensadores da filosofia grega em seu período clássico fez a seguinte afirmação, a respeito do conhecimento:
“por natureza, todos os homens desejam o conhecimento. Uma indicação disso é o valor que damos aos sentidos; pois, além de sua utilidade, são valorizados por si mesmo e, acima de tudo, o da visão. Não apenas com vistas à ação, mas mesmo quando não se pretende ação alguma, preferimos a visão, em geral, a todos os outros sentidos. A razão disso é que a visão é, de todos eles, o que mais nos ajuda a conhecer coisas, revelando muitas diferenças”6.

Para Aristóteles, o homem naturalmente tende à busca do conhecimento. O conhecimento para ele, só é possível partindo da experiência. Pode-se afirmar que não há conhecimento sem experiência. A visão é o sentido relevante para Aristóteles, por meio dela é possível ver e conhecer a realidade. A visão seria a janela para o conhecimento. Ela contempla o kósmos, ou seja, o mundo em sua constituição natural e estética. Por meio dos sentidos, o homem transforma o mundo e a si próprio. O homem não apenas possui sentidos externos capazes de conduzi-lo ao conhecimento, mas ele possui também vários sentidos internos dos quais o mais importante é a fantasia. Com essa faculdade, ele retém as percepções das coisas adquiridas pelos sentidos externos, se as
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MONDIM, Battista. O homem, quem é ele?Elementos de Antropologia Filosófica. 4ª ed. SP: Paulinas, 1986, p. 63. MARCONDES, Danilo. Textos básicos de Filosofia – dos pré-socráticos a Wittgenstein. RJ: Zahar, 2005, p. 46.

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apresenta quando quer e as combina como melhor lhe agrada. A fantasia é, por isso, assim definida:
“é a faculdade ou a atividade mental que produz, conserva, reproduz e cria [...] imagens, mesmo independentemente da presença dos objetos aos quais as imagens próprias correspondem. Tal faculdade ou atividade, devido ao seu poder de formar imagens, foi chamada de imaginação” 7.

A fantasia, enquanto conhecimento imaginativo, não se satisfaz em reproduzir o mundo assim como o percebemos, mas pode também inventar novos mundos, diferentes e melhores que o nosso; ela é por natureza livre e criadora. A imaginação é poder criativo e libertador que o homem possui. Pode-se escravizar o corpo humano, mas a imaginação continua livre no profundo do seu silencio, buscando sempre novas alternativas para a construção de uma sociedade mais humanizada. Por fim, destaca-se o conhecimento intelectivo. Ele é fundamentado pela capacidade de julgar e de raciocinar do homem. Pelo conhecimento intelectivo, o homem pode formular juízos, proposições universais e leis gerais. O homem raciocina. Ele chega a certas idéias refletindo sobre outras, chega à existência de algo pela existência de outra coisa. Como último documento do conhecer intelectivo recorda-se a ciência. O homem sabe coordenar os conhecimentos de forma sistemática; divide-os, classifica-os segundo os seus argumentos e obtém, assim, teorias gerais para as várias esferas da realidade, como o deseja a ciência8. Portanto, o homem não só conhece as coisas e reflete sobre elas, mas chega a refletir sobre si mesmo, a ser autoconsciente. Refletindo sobre si mesmo, o homem não se sente objeto, mas sujeito, eu, pessoa; o homem se descobre como um ser em marcha, diante de um horizonte nunca alcançado e sempre estimulante. Pode-se dizer que o homem se descobre insatisfeito em todas as suas realizações, pois ele busca algo além de si mesmo. 3 – Homem: ser de liberdade A liberdade é ponto de partida. Funda o existir humano. É originante do ser pessoal e social. A liberdade não consiste apenas em escolher entre alternativas preexistentes. É potencialidade criadora. Propõe o inédito. Determina rumos futuros e ensaia novas formas de vida. Existe liberdade porque há coisas a serem escolhidas, mas também existem coisas porque houve liberdade que as escolheu para serem. Daí a decisiva tarefa que a ação livre poderá desempenhar no mundo. A liberdade é o espaço antropológico onde o homem se autodestina como participante do processo histórico. A liberdade sussurra sempre a interpelação da responsabilidade. Ao ser livre, o homem torna-se responsável. E não pode atribuir a outros as conseqüências decorrentes de sua escolha. 4 – Homem: ser do trabalho O trabalho é uma atividade importante para compreender o homem. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que o “homem é essencialmente artifex, criador de formas, fazedor de obras [...] que a natureza do homem é o operador”9. Pode-se dizer que o trabalho é toda atividade na qual o ser humano utiliza sua energia10 para satisfazer necessidades ou atingir determinado objetivo.
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MONDIM, op. cit., p. 67. Ibid., p. 75. 9 Ibid., p. 192. 10 A palavra energia é compreendida como a capacidade de uma pessoa para realizar uma obra, um trabalho. Energia vem do grego em = dentro e érgon = obra, trabalho.

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Por meio do trabalho, o homem acrescenta um mundo novo, da cultura, ao mundo natural já existente. Por isso, trabalho é elemento essencial da relação dialética: homem natureza; saber e fazer; teoria e prática. Nessa ótica, o trabalho é uma atividade tipicamente humana, porque implica a existência de um projeto mental que modela uma conduta a ser desenvolvida para se alcançar um objetivo. O trabalho é tema polêmico, pois na Antigüidade era visto como tarefa desprezível ao homem. O verdadeiro trabalho era o intelectual, “próprio dos homens que podiam se dedicar à cidadania, ao ócio, à contemplação e à teoria”11. Na Idade Média, a visão do trabalho não se alterou substancialmente, pois na compreensão do teólogo e filósofo católico Tomás de Aquino (1221-1274), se referia ao trabalho como “um bem árduo, por meio do qual cada indivíduo se tornaria um homem melhor”12. Nesse sentido, a concepção de trabalho mais valorizada continuava sendo a dimensão intelectual. A novidade estava em que, de acordo com o cristianismo medieval, o trabalho passou a ser visto como uma forma de sofrimento que serviria como provação e fortalecimento do espírito para alcançar o reino celestial. Na Idade Moderna, a concepção de trabalho defendida pelo pensamento católico sofreu significativa alteração, objetivamente com a ascensão social da burguesia, na Europa ocidental, a partir do século XVI. Nesse período, desenvolveu-se, no campo religioso, o protestantismo. O trabalho foi valorizado, e principalmente o sucesso econômico foi compreendido como sinal da bênção de Deus. Conforme a ética protestante 13, “o homem deveria viver uma vida ativa e lucrativa, pautada pelo trabalho”14. A visão protestante defende o trabalho como dimensão fundamental da vida do homem e, portanto, a sua auto-realização. Já na Idade Contemporânea, destaca-se dois grandes pensadores alemães, ou seja, Friedrich Hegel (1770-1831) e Karl Marx (1818-1883). Para Hegel, o trabalho foi definido como elemento de “autoconstrução do homem”15. Ele defende, assim, o aspecto positivo do trabalho, isto é, o fato de o homem não apenas se formar e se aperfeiçoar, mas também se libertar, através do trabalho, pelo domínio que exerce sobre a natureza. Já Marx, analisou a função negativa que o trabalho assumiu nas sociedades capitalistas. Para ele, “a suposta liberdade do trabalhador assalariado se veria abalada quando, sem outra opção para sobreviver, este é obrigado a vender sua força de trabalho para quem detinha meios de explora-la”16. Marx denunciou também as condições degradantes a que os trabalhadores teriam de se submeter no processo de produção capitalista, apontando os efeitos danosos dessa forma de produzir sobre os indivíduos. Em sua reflexão, Marx analisa em profundidade outra conseqüência importante do trabalho forçado: o processo de alienação. Por fim, pode-se afirmar que o trabalho possui três significados importantes para o homem, ou seja, cósmico, antropológico e religioso. O valor cósmico do trabalho refere-se à transformação do mundo natural às necessidades do homem. Já o valor antropológico, destina-se ao aperfeiçoamento da dignidade do homem. O trabalho não degrada a natureza. Assim, defendese que o trabalho é capaz de aperfeiçoar a natureza humana. Na verdade, dentro dessa concepção antropológica, o trabalho é uma forma de auto-realização do homem e ao mesmo tempo, possibilita o sentido e a felicidade em sua vida ao executar determinadas tarefas.
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COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia – história e grandes temas. 16ª ed., SP: Saraiva, 2006, p. 27. Ibid. 13 A ética protestante foi analisada pelo sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), em sua obra a ética protestante e o espírito do capitalismo, haveria inclusive uma relação entre ética protestante, que valoriza o trabalho e a busca da riqueza, e o desenvolvimento do capitalismo nos países onde predominava o protestantismo. Mas este sentido de trabalho ficou restrito às classes que conseguiram acumular e investir nas atividades produtivas. 14 COTRIM, op. cit., p. 27. 15 Ibid. 16 Ibid.

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5 – Homem: ser de imanência e transcendência 5.1 – Imanência A primeira dimensão, isto é, a imanência significa que o homem deve estar centrado em si próprio, orientado para a própria interioridade. Esta dimensão pode ser desdobrada na seguinte maneira: a) Autopossessão: o homem se autopertence, possui autonomia própria no nível ôntico. O homem não é propriedade de outro. Qualquer tipo de escravidão é um atentado direto contra a dignidade do homem17. b) Liberdade e responsabilidade: o homem é capaz de escolher determinados valores por si mesmo, a partir de si mesmo. É chamado a ser livre. Ora, decisão e opção implicam assumir a responsabilidade do que foi decidido e da opção feita. Assim, pode-se afirmar que repugna à dignidade da pessoa todo tipo de manipulação. O respeito real à liberdade e responsabilidade concretas de cada homem é indispensável para o crescimento da humanização das relações humanas18. c) Perseidade: o homem tem em si mesmo a sua própria finalidade. No seu agir, o homem, acima de tudo, se auto-realiza como ser pessoal. Por isso, o homem não deve ser medido com critérios meramente utilitários. Defende-se que, todavia, que o homem não é um objeto ou um instrumento para ser usado e depois deixado de lado. Tratar a pessoa como mero instrumento para uma finalidade exterior à própria pessoa é outro grave atentado contra a sua dignidade19. Autopertença, liberdade e auto-responsabilidade, perseidade constituem, pois, os aspectos fundamentais da dimensão de imanência própria ao homem. Esses aspectos levam a concluir que da dignidade ontológica da pessoa brota uma crítica radical contra as múltiplas formas antigas e modernas de escravidão, de manipulação e de instrumentalização de pessoas concretas, de grupos sociais e de povos igualmente concretos. Mais ainda os atentados contra a dignidade do ser humano que certamente desumanizam a pessoa escravizada, manipulada e instrumentalizada, também desumanizam, aqueles que escravizam, manipulam e coisificam outros seres humanos. As relações de dominação, escravização, por mais que se apresentem às vezes em nome de sublimes ideais, desumanizam a todos os envolvidos nelas. Isto levanta um questionamento muito duro e severo em face de sistemas e de estruturas que instauram e perpetuam relações de dominação e de manipulação coisificantes. Portanto, o pensar da dignidade humana não deve ser apenas um exercício retórico, mas um compromisso com a defesa do homem em todas as suas dimensões. Assim, após refletir a dimensão de imanência, cabe agora, em segundo lugar, discorrer a respeito da dimensão de transcendência. 5.2 - Transcendência A dimensão de imanência pode ser mal compreendida. Certamente a pessoa é chamada a ser ela mesma, capaz de dispor de si própria, de autopossuir-se e de desenvolver a própria finalidade ou vocação. Mas isto não significa um convite para o isolamento ou o fechamento.

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RUBIO, Alfonso García. Unidade na pluralidade – o ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs. 2ª ed., SP: Paulinas, 1989, p. 249. 18 Sistemas socioeconômicos, ideologias, movimentos, propaganda de vários tipos, sistemas educativos, relacionamentos familiares etc, na medida em que manipulam os seres humanos contribuem poderosamente para a desumanização do homem, embora se apresentem freqüentemente como seus salvadores. 19 RUBIO, op. cit., p. 250.

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Pelo contrário, a pessoa só pode ser verdadeiramente ela mesma quando se autotranscende. A dimensão de transcendência ou abertura comporta os seguintes aspectos fundamentais: a) Abertura ao mundo: o homem é ser diferente, entre os diversos seres que habitam o mundo, porém o homem é parte do mundo físico e convive ao lado e com todos os seres aí presentes. O ponto essencial destaca-se que o homem é chamado a trabalhar o mundo para transformá-lo em morada digna dos homens20. b) Abertura aos outros: a liberdade, a autonomia e a autofinalidade da pessoa se realizam na relação, no diálogo, no encontro, na abertura aos outros seres pessoais. Sair-de-si para o encontro é constitutivo da pessoa21. c) Abertura ao infinito: o homem não apenas se abre ao mundo e aos outros, porém em sua finitude, há uma busca pelo infinito. O homem é ser de crença e nessa dinâmica, ele acredita na existência de um ser superior, o qual é dado o nome de Deus. Pode-se dizer que o homem busca algo fora de si, pois seu desejo não se realiza apenas na experiência histórica, pois o homem é ser da inquietude e não se sacia com os bens materiais, ele busca bens superiores. Assim, pode-se dizer que a grande maioria dos homens acredita em Deus. E Ele torna-se fundamento da vida e sentido último de toda especulação racional. Portanto, nessa primeira parte do artigo enfatizou alguns aspectos relevantes da vida do homem. Ele é ser corpóreo, capaz de conhecer por meio de sua liberdade realizada na dinâmica do trabalho. Mas, o homem possui em si mesmo, a centralidade de sua vida e ao mesmo tempo, a abertura ao mundo, ao outro e ao infinito (Deus). Esses aspectos não limitam a grandiosidade do homem, mas são fundamentais para pensar na segunda parte do artigo, ou seja, se o homem é fim ou meio das instituições empresariais num mundo marcado pela globalização perpassado pelo neoliberalismo. II – O homem e as instituições empresariais 1 – O conceito de empresa A empresa possui diversas definições conforme os diferentes especialistas da área da administração. Ela é pessoa jurídica, possuindo direitos e deveres perante o Estado e os trabalhadores. Há diversas empresas no mercado, as quais desenvolvem diferentes atividades comerciais e prestação de serviços. A empresa não é apenas a soma do capital somada aos instrumentos utilizados para alcançar seus fins produtivos, mas o “coração” e a “alma” de uma empresa são essencialmente as pessoas que aí trabalham e buscam sua auto-realização pessoal e social por meio do trabalho e do salário recebido pela função desempenhada. Entre as diversas definições do conceito de empresa pode-se afirmar que:
“A empresa é uma unidade econômica. Nela, o empresário utiliza os três fatores técnicos da produção – a natureza, o capital e o trabalho – para gerar um resultado, que é um serviço, um bem ou um direito. O bem, ou o serviço, ou o direito é, então, vendido ao mercado pelo maior preço que este aceitar pagar. A diferença entre o preço da venda e o custo da produção é o proveito monetário denominado lucro22”.

A empresa, nesse sentido, é uma instituição cujo objetivo final é o lucro. A meta atual da vida econômica não é mais sustentar a vida do povo, mas acumular riqueza, isto é, lucrar sempre
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Ibid., p. 251. Ibid., p. 252. 22 MOREIRA, Joaquim Manhães. A Ética empresarial no Brasil. SP: Thomson, 1999, p. 27.

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mais. O mercado livre inaugurou uma verdadeira competição entre as pessoas para um conseguir lucrar mais do que o outro. A economia capitalista tem como pilar a forte concorrência na tentativa de um derrubar o outro para acumular mais. Há hoje uma verdadeira guerra econômica, favorecendo os poderosos e fazendo vítimas: os pobres que não conseguem ter poder lucrativo. O cenário capitalista, marcado pelo neoliberalismo é espaço onde estão situadas as diversas empresas. É nesse contexto, que as empresas lutam para manter-se no mercado e procuram através dos negócios objetivar o lucro, como finalidade última de sua existência. A empresa utiliza três fatores técnicos para executar seus objetivos na produção. O primeiro é a natureza, ou seja, a fonte da matéria prima e a sustentação da vida em suas diversas formas. O segundo é o capital, isto é, o fator necessário para construir a empresa, comprar matéria prima, adquirir tecnologias e pagar as diversas despesas incluindo a mão-de-obra e a manutenção dos equipamentos e do edifício da empresa. O terceiro é o trabalho, ou seja, a ação direta ou indireta do homem sobre a matéria prima para chegar ao produto final. O trabalho é o fator fundamental, pois o homem explora a natureza e a transforma em bens para as suas necessidades biológicas e simbólicas. Toda instituição empresarial necessita do trabalho para gerar progresso e, conseqüentemente, o lucro. Sabe-se que em pleno início de terceiro milênio há trabalho escravo no mundo. Para muitos trabalhadores o trabalho não é fonte de realização humana, mas de exploração e sofrimento. Já para outros não há trabalho, pois foram substituídos por máquinas. O homem cria as instituições empresariais e seus diversos negócios, conforme a lei da oferta e da demanda. A empresa surge para satisfazer a demanda do mercado em detrimento das necessidades humanas. O homem organizou o comércio e a economia. Ele aprendeu a negociar desde tempos remotos. O homem não se limita a produzir somente em seu país. Ele transpõe o território em busca de matéria prima, mão-de-obra barata e, principalmente, de mercados promissores para realizar a sua missão comercial. Assim, surgiram as empresas multinacionais, porém houve uma alteração no nome para transnacionais. Assim, pode-se afirmar que as empresas transnacionais são:
“corporações que não têm seus capitais originários especificadamente deste ou daquele país e não necessariamente dominam o processo de produção em seus diferentes segmentos, ou seja, a totalidade da cadeia produtiva de um produto. Um certo produto pode, dentro deste sistema, ter seus componentes produzidos em diversas regiões do mundo e montados em alguma localidade específica. Isso acontece principalmente sob a economia dita globalizada, em que as corporações (empresas) buscam a redução de seus custos (de mão-de-obra, de impostos, de acesso a financiamentos mesmo em países mais pobres do que aquele da qual ela se originou, etc) com o objetivo de se tornarem mais competitivas e de dominarem amplo percentual do mercado a que se destinam seus produtos e/ou serviços”23.

As empresas transnacionais seriam entidades autônomas que fixam suas estratégias e organizam sua produção em bases internacionais, ou seja, sem vínculo direto com as fronteiras nacionais, sendo acusadas por alguns, por este motivo, de não serem vinculadas a qualquer país, mesmo àquele no qual se originou24. Pode-se afirmar que, um dos grandes objetivos das empresas transnacionais é a busca da redução de seus custos. Elas desejam produzir muito e lucrar de forma excessiva com mão-deobra barata. As empresas transnacionais procuram os países em desenvolvimento, pois elas
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EMPRESA TRANSNACIONAL. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Empresa_transnacional>. Acesso em: 08 janeiro 2008. 24 Ibid.

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reconhecem na miséria do povo e na quantidade de trabalhadores desempregados, a oportunidade de produzirem muito e com baixo custo. Essas empresas são beneficiadas pelo neoliberalismo. Portanto, é pertinente discorrer a cerca do neoliberalismo e da globalização, pois são dois fatores que explicitam a exploração do homem em seu trabalho e por outro lado, a sua redução utilitarista em que a empresa utiliza para alcançar os seus lucros. 2 – O homem na perspectiva do neoliberalismo O neoliberalismo é um sistema econômico imposto à humanidade através de sua política e de seu horizonte cultural e religioso. Trata-se de uma ideologia que se concretiza, sobretudo, na estruturação de uma economia voltada somente à vantagem individual, ou seja, ao lucro e a sua maximização, situando tudo numa função instrumental e transformando qualquer ser vivente, até a pessoa humana, em mercadoria a serviço do lucro. Isto é, a humanidade e a natureza devem estar a serviço do lucro. E por isso o objetivo do lucro legitima a possibilidade de explorar, violentar, massacrar e destruir a humanidade e o seu meio ambiente. Para o neoliberalismo o bem real é individual, pois o bem comum não existe na forma comunitária, mas se dá através do bem privado25. O instrumento é privilegiado pelo neoliberalismo para alcançar a vantagem individual é o mercado livre, onde não haja intermediações do Estado e exista a única lei da demanda e da oferta que é o coração do comércio, e onde tudo possa ser considerado “mercadoria” (conhecimento, habilidade, beleza, energia, oportunismo, audácia, experiência, relacionamentos, natureza, corporeidade, etc) e também tudo possa ser negociado para aumentar o valor no mercado. O neoliberalismo reduz a vida da humanidade a um grande mercado livre, e todas as outras dimensões humanas devem estar a serviço desse novo ídolo do capital. O sistema neoliberal para sobreviver exige que: 1 – A política esteja a serviço do lucro e não a serviço do bem comum, professando o caminho das privatizações e destruindo o patrimônio público, concentrando a renda nas mãos dos poucos ricos e criando grandes desigualdades sociais26; 2 – A cultura transforme a pessoa humana em um grande consumidor, valorizando o outro somente como um potencial a serviço do lucro porque visto como mercadoria, tornando-o sempre mais subserviente ao novo ídolo do capital. A pessoa, para ser reconhecida como valiosa na sociedade, deve ser competitiva e deve explorar ao máximo seus recursos27; 3 – A ética seja maquiavélica, ou seja, o fim justifica os meios. Isso significa que o lucro, como fim, pode justificar a instrumentalização e até o massacre da humanidade28; 4 – A religião professa um novo Deus: o ídolo do capital que tem o coração do lucro, criando a espiritualidade da prosperidade que alimenta a corrida da riqueza porque radicaliza, através do fundamentalismo religioso, um Deus que quer somente prosperidade e fartura para o seu povo, desvalorizando assim a sobriedade de vida que é fundamental para a partilha e justa distribuição dos bens29;
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SELLA, Adriano. Globalização neoliberal e exclusão social. SP: Paulus, 2002, p. 49. Ibid., p. 50. 27 Ibid. 28 Ibid. 29 Ibid.

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5 – A sociedade exclua a maioria para salvar o sistema declarando o mais evoluído da história humana. Trata-se de uma exclusão sistêmica e não casual, mas considerada inevitável pelo neoliberalismo, que a define como conseqüência alheia à vontade da sociedade e do sistema neoliberal30. Tudo isso não são apenas efeitos ou conseqüências do neoliberalismo, mas o seu coração, ou seja, a estrutura que sustenta o sistema. Então, o neoliberalismo é intrinsecamente injusto e destruidor porque situa o lucro acima de qualquer coisa, sobretudo acima da vida. É importante destacar algumas características fundamentais desse sistema neoliberal que cria uma exclusão não casual, mas sistêmica, porque é uma exclusão causada pelo sistema e não pelos seus efeitos: 1- A raiz é a racionalidade pós-moderna. Hoje é racional tudo aquilo que maximiza o lucro, tornando a vantagem pessoal como único valor que organiza a vida social e transformando a competitividade naquilo que rege a sociedade neoliberal através de uma liberdade extrema para competir, sem normas éticas e leis. A competição se torna alga de natural ou criacional; 2 – A liberdade moderna neoliberal quebra as relações humanas porque visa somente ao interesse individual, excluindo os valores da solidariedade e da justiça social. De fato, a liberdade pósmoderna se constrói a partir do ego e não do outro, e esse individualismo quebra a relação com a alteridade. A única medida, então, para julgar as coisas torna-se a própria vida, absolutizando o ego (o próprio eu) que não conseguirá mais perceber o outro. Por isso, para evoluir a sociedade precisa do sacrifício dos excluídos, segundo o pensamento neoliberal; 3 – O empobrecimento dos outros, o sacrifício dos pobres e a exclusão social são realidade necessárias para os neoliberais. Por isso, o sacrifício do outro é parte integrante do pensamento neoliberal. Trata-se da idolatria do capital; 4 – A desigualdade é constitutiva na racionalidade moderna neoliberal, considerada como desigualdade geracional, natural e criacional, ou seja, a desigualdade faz parte da natureza humana desde o momento de sua concepção; 5 – A grande revolução cultural do capitalismo neoliberal é a transformação de tudo em mercadoria. A sedução de ter as coisas justifica a dominação do outro e, então, pode-se matar para conseguir as coisas. Trata-se de uma violência estrutural, ou seja, constitutiva da racionalidade moderna, pois, na medida em que tudo se torna mercadoria, o outro passa a ser explorado e utilizado para satisfazer o próprio prazer; 6 – A estética acima da ética é o primado do sistema neoliberal. Ou seja, é o princípio da estética e não mais da ética que dá sentido e valor à vida humana. Isso significa: o que me diz o que eu sou é a estética ( a quantidade e a forma das coisas) e não a ética (o sentido e o valor da vida). Dá-se sabor à vida em base às coisas possuídas e não aos valores conquistados. A aparência da coisa conta mais do que a sua essência: é o primado da estética acima da ética. Quanto mais bens acumulados tanto mais a vida tem valor: é o dinamismo da vida neoliberal. Portanto, o sistema neoliberal é injusto, pois o mesmo faz da pessoa apenas um “objeto de trabalho e de consumo”. A vida é desvalorizada em detrimento do lucro. As empresas privadas
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Ibid, p. 51.

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alimentam em sua grande maioria o sistema neoliberal. No mercado livre, vence o que tem mais poder e influência na economia. As pequenas empresas são “devoradas” pelas grandes e potentes empresas transnacionais. 3 – O homem no cenário de uma economia globalizada O fenômeno da “globalização” congrega diversos significados. E carrega ambigüidades a ser desfeita mediante a avaliação crítica. Globalização expressa o sentido de universalidade. Falase também em mundialização e planetarização.Globalização sugere processo orgânico que envolve a humanidade toda. É abertura para a terra habitada. A globalização pode ser cultural, política, econômica, social e religiosa. A globalização neoliberal desenvolveu-se a partir de 1980. Acelerou conquistas tecnológicas, mas também estagnou povos. Uma revista alemã especializada na temática, sintetiza o perfil da atual globalização, nestes termos: “Produz onde os salários são mais baixos, pesquisa onde as leis são mais generosas e aufere lucros onde os impostos são menores” 31. Enquanto as transnacionais acumulam riquezas, populações pobres acumulam miséria. A globalização transnacional estrutura conglomerados poderosos que comandam decisões mundiais e impõem normas rígidas aos governos nacionais. As empresas transnacionais ditam regras aos países, exigem abertura de mercado e geram desemprego alarmante. E quem se insurge contra a “nova ordem mundial” é penalizado. A atual globalização neoliberal, predominantemente econômica, impõe à humanidade padronização rígida, que favorece os interesses de minorias poderosas e estrangula as necessidades das maiorias empobrecidas. Mas pode haver “globalização” que beneficie a humanidade em seu todo. A grande questão da globalização é globalizar a dignidade humana, pois milhares de pessoas não participam de forma real dos benefícios da globalização. O processo da globalização fere a dignidade do ser humano em seu avanço global. É necessário criticar a globalização para que no centro esteja a vida em todos seus aspectos. A verdadeira globalização defende e projeta a vida, a liberdade, a nacionalidade, a autonomia, as aspirações, os direitos fundamentais, a participação e a dignidade de todos os povos. Ninguém tem direito de dominar ou excluir parte da humanidade para salvaguardar sistema comprovadamente desumano. Conclusão O ser humano é a realidade fundamental em nosso cosmo. Alguns colocam a prioridade no mercado, no poder, na especulação financeira, no lucro. Mas isso hipervaloriza elementos de ordem instrumental e deprecia o significado maior que o ser humano. Cada ser humano é nexo de consciência, de decisão, de criatividade e responsabilidade. Mesmo esmagado, o ser humano é gente, e não mercadoria. Atualmente, avança a mentalidade utilitarista. Essa mentalidade vê o ser humano como “utensílio”, como instrumento. Avalia o ser humano como utilidade. Seu critério para medir a estatura humana é o “útil”, e não o “ser”. A mentalidade utilitarista conceitua o ser humano como objeto, como instrumento produtivo, como jogo lucrativo. Para a mentalidade utilitarista, o ser humano não é centro pessoal, não é sujeito de direitos inalienáveis. É fator que rende vantagens, mas não reivindica direitos nem merece respeito. A mentalidade utilitarista desmedula o ser humano. Esvazia a densidade antropológica. O ser humano é reduzido a mercadoria. E quando cai em desuso, é retirado das prateleiras do mercado e substituído por produtos mais modernos.

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ARDUINI, op. cit., p. 142.

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Flagrantes exemplos da mentalidade utilitarista prosperam em nosso mundo. Há o ser humano “dispensável”. Milhões de trabalhadores são despedidos porque já não são mais “úteis” às empresas. Ser humano “oneroso”. Aposentados e idosos não produzem e acarretam despesas. Deixaram de ser “úteis”. Ser humano “estorvo”. Meninos de rua atrapalham o comércio e molestam os adultos. Não são “úteis”. Há que espantá-los e quiçá eliminá-los. Ser humano “perigoso”. Líderes organizam comunidades para a defesa de seus direitos. Mas não são “úteis” aos interesses do sistema oligárquico dominante. Mais eficaz é acusá-los, trancafiá-los e, às vezes, assassiná-los. Ser humano “incômodo”. Criaturas esfarrapadas sujam as ruas e enfeitam a cidade. Não são “úteis”. São lixo a ser removido pelo serviço de “Limpeza Pública”. Ser humano “exterminável”. Multidões de pobres mendicantes. Não são “úteis”. Serão paulatinamente exterminados pela fome e pela enfermidade. A miséria que mata pobres é uma “bemaventurança” do utilitarismo. A mentalidade utilitarista não é ficção. Não é invenção pessimista. Aparece na imprensa, nas atitudes sociais e na banalização do ser humano. Infelizmente, a mentalidade utilitarista tem numerosos adeptos. Alguns explícitos, outros disfarçados. Mas quem não abastardou a consciência há de resistir à coisificação do ser pessoal. É necessário rejeitar o utilitarismo que reduz o ser humano a mero subproduto de interesses mercantilistas. O homem é fim ou meio das instituições empresariais? É evidente, que o homem no cenário atual, não é o fim de muitas instituições empresariais, mas o meio para alcançar o objetivo final, isto é, o lucro. Na conjuntura atual, tanto o processo de globalização quanto o sistema neoliberal contribuem para que muitos seres humanos sejam descartados como meros objetos de produção ou simplesmente empecilhos para concretização do livre comércio. O elemento que perpassa o atual cenário é marcado pela mentalidade utilitarista. Essa mentalidade está presente em todos os setores da sociedade. A conclusão do artigo não pretende realizar um juízo injusto das instituições empresariais quanto aos bens e serviços que são colocados à disposição dos consumidores, mas despertar para o olhar crítico em torno das instituições que não respeitam a dignidade humana. Há empresas que não perdem o foco das pessoas, enquanto empregadas nas mais diversas funções que são exercidas para a concretização dos objetivos produtivos. Por outro lado, há empresas que sugam ao máximo de seus funcionários. São tratados como máquinas produtivas. Os empregados não podem reclamar, pois do contrário poderão ser demitidos e “morrerão de fome”. A exploração não provém apenas dos empresários, mas há situações entre os próprios empregados (assédio sexual, fofocas, danos morais, etc) na desvalorização da pessoa e da função que exerce. Infelizmente, a pessoa tornou-se meio das instituições empresariais, porque houve inversão de valores, ou seja, o homem deixou de ser valor fundamental da sociedade e o seu lugar foi ocupado pelo lucro. É lógico que ninguém sobrevive no sistema capitalista sem o dinheiro. Ele é a alma do mercado e da economia. Em nome do dinheiro realizam as mais diversas barbáries no mundo globalizado. O dinheiro é valor sublime ou para muitos um “deus”. Há empresas nacionais e transnacionais; há também pequenas, médias e grandes empresas. Todas procuram sobreviver no mercado hiper-competitivo e desumano. O grande desafio para o mundo empresarial no mundo globalizado perpassado pelo sistema neoliberal é humanizar as relações humanas dentro do mercado produtivo e consumidor. É urgente falar do “processo de humanização” nas empresas que produzem ou prestam serviços aos diversos cidadãos. Humanizar é tornar o processo de produção criativo e interativo. É fazer do espaçoempresarial, espaço vital para o desenvolvimento das potencialidades humanas e não mascarar o valor absoluto do homem em detrimento do lucro. Assim, é necessário desenvolver uma antropologia empresarial, a qual será capaz de despertar o valor da pessoa como fim das instituições, e não apenas o meio, para produzir e enriquecer a neoburguesia capitalista dos tempos pós-modernos. 12

Na primeira parte do artigo foram esboçadas algumas dimensões fundamentais do homem. As instituições empresariais deveriam observá-las, pois somente o despertar para uma consciência crítica será capaz de frear a coisificação do homem no mundo empresarial. O homem é corporeidade, ou seja, ele não tem um corpo, mas ele é seu próprio corpo enquanto “presença a si mesmo (eu), aos outros (sociedade) e ao mundo (natureza)”. O corpo, desde a visão filosófica do filósofo René Descartes (1596-1650) foi compreendido como máquina. Essa visão reduziu o homem aos diversos objetos existentes no mundo. O corpo não é para ser destruído e reduzido a uma máquina. O corpo humano é espaço sagrado. É morada da vida e da liberdade. O corpo humano é interação e comunicação. A corporeidade é dimensão essencial, pois através dela o homem entra em contato com a natureza e a transforma; comunicase com o outro e juntos geram projetos para a concretização da vida. O conhecimento é possível ao homem por meio de sua racionalidade. O homem no acúmulo de conhecimentos inventou a ciência. Ela é fonte para o desenvolvimento científico e tecnológico, dos quais milhões de pessoas são beneficiadas. O conhecimento no mundo empresarial é um paradoxo. O conhecimento é utilizado para manipular fórmulas, produtos e serviços; mas por outro lado, o conhecimento é utilizado para salvar vidas. O conhecimento deve ser utilizado para promover o homem e a instituição empresarial da melhor forma possível. O conhecimento deve libertar e não oprimir as pessoas no espaço institucional. O mundo empresarial deve ter ciência de que o homem é ser de liberdade. Ele não pode ir contra a sua dignidade e sujeitar-se aos esquemas corruptos. A liberdade é para o bem, porém muitos optam pelo mal. Assim, ser livre implica responsabilidade. As empresas buscam sempre o livre comércio, porém elas não aceitam a responsabilidade ética com relação aos empregados, ao meio ambiente e principalmente, atenção com as comunidades locais onde se instalam para exercer atividades comerciais. Uma empresa que presa pela liberdade, é uma instituição que defende a responsabilidade em sua produção e procura respeitar seus empregados. O trabalho não é algo que diminui a dignidade da pessoa humana. O Cristianismo e os primeiros burgueses capitalistas propiciaram ao trabalho uma visão positiva para o homem. O trabalho é sinal de interdependência e desenvolvimento humano. Há formas degradantes de trabalho pelo mundo global. O trabalho escravo continua mascarado pelos míseros salários oferecidos pelas instituições empresariais. O trabalho é a dinâmica da existência humana. O homem não pode viver sem trabalho. Ele não é simplesmente uma forma para forjar a sua sobrevivência, mas o élan de sua realização e felicidade humanas. No Brasil há duas modalidades de trabalho “escravo”. A primeira se refere às carvoeiras e a segunda, aos cortadores de cana-de-açucar. Paga-se uma miséria para esses trabalhadores. Já os cortadores de cana estão sendo substituídos por máquinas. Onde esses trabalhadores irão trabalhar? O sistema neoliberal possui uma ética, isto é, é necessário que aja milhares de trabalhadores na ociosidade, pois assim, as empresas podem contratá-los por meio de um mísero salário e por sua vez, mais aumentarem seus lucros. O trabalho não pode ser uma “esmola” das empresas aos trabalhadores, mas a dimensão que funda a dignidade do homem e o desenvolvimento de suas potencialidades para a sua sobrevivência digna. Por fim, as instituições empresariais deverão mudar o foco da exploração humana por meio do trabalho, pois o homem é ser de imanência e de transcendência. Ele é capaz de centrar em si mesmo, tendo consciência de autopertence e não pode ser finalidade pela sua utilidade, mas tornar-se o fim de sua própria dignidade. O ser humano é livre e responsável pela sua existência. O homem possui sentimento. É capaz de amar e deixar-se ser amado. Não é objeto de produção, mas as mãos capazes de produzir o progresso humano, imprimindo nele sentimento e amor pelo que faz. O homem, além de centrar em si mesmo é capaz de transcender a si próprio. Ele é uma abertura ao mundo, ao outro e ao infinito. As empresas não devem massificar os trabalhadores, 13

mas reconhecer o valor de cada indivíduo e suas potencialidades para o bem da própria instituição, buscando as melhores soluções nas grandes crises do mercado global. Portanto, que o homem não seja meio das instituições empresariais, mas profeta do trabalho digno e auto-sustentável de sua condição humana, buscando ser a finalidade das instituições empresariais, no lugar do lucro conquistado sobre o suor de milhares de trabalhadores. De fato, pela análise, o homem é meio das instituições empresariais e não o fim das mesmas. É tempo de erguer a bandeira da dignidade humana e construir uma nova economia global, onde o coração da empresa não será mais o lucro, mas a pessoa, enquanto valor inalienável. Referência ARDUINI, Juvenal. Destinação Antropológica. SP: Paulinas, 1989. COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia – história e grandes temas. 16ª ed., SP: Saraiva, 2006. EMPRESA TRANSNACIONAL. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Empresa_transnacional>. Acesso em: 08 janeiro 2008. JUNGES, Roque José. Bioética – perspctivas e desafios. São Leopoldo (RS): Unisinos, 1999. MARCONDES, Danilo. Textos básicos de Filosofia – dos pré-socráticos a Wittgenstein. RJ: Zahar, 2005. MONDIM, Battista. O homem, quem é ele?Elementos de Antropologia Filosófica. 4ª ed. SP: Paulinas, 1986. MOREIRA, Joaquim Manhães. A Ética empresarial no Brasil. SP: Thomson, 1999. RAMPAZZO, Lino. Antropologia – religiões e valores cristãos. 2ª ed., SP: Loyola, 1996. RUBIO, Alfonso García. Unidade na pluralidade – o ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs. 2ª ed., SP: Paulinas, 1989. SELLA, Adriano. Globalização neoliberal e exclusão social. SP: Paulus, 2002.

Créditos: Luciano Gomes dos Santos Graduado em Filosofia e Teologia pelo Seminário São José da Arquidiocese de Uberaba (MG); Licenciado em Filosofia pela Faculdade Phênix de Ciências Humanas e Sociais do Brasil (Santo Antônio do Descoberto - GO) e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia em Belo Horizonte (MG). Exerce atividade docente na Faculdade Arnaldo e no Colégio Cotemig (Belo Horizonte – MG). Na área de Filosofia realiza o projeto “Filosofia no Parque” desde 2006 para adolescente e a partir de outubro de 2009 para adultos no Parque Municipal de Belo Horizonte – MG. e-mail: luguago@ig.com.br

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