2014

fotografia sem fronteiras
Territórios, Sociedades e Culturas
em tempos de mudança

2014

Título

Transversalidades 2014 – fotografia sem fronteiras

|

Territórios, Sociedades e Culturas em tempos de mudança

Coordenação

Rui Jacinto
Coordenação fotográfica

José Monteiro Gil
Júri do Concurso

António Pedro Pita | Henrique Cayatte | Jorge Pena
Valentín Cabero Diéguez | Victorino García

|

José Monteiro Gil

|

Lúcio Cunha

|

Rui Jacinto

|

Santiago Santos

Textos

Adriana Veríssimo Serrão | António Pedro Pita | Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro | Carminda Cavaco | Fernanda Cravidão
Henrique Cayatte | João Ferrão | João Lima Sant’Anna Neto | Lúcio Cunha | Maria Adélia de Souza | Rogério Haesbaert
Rui Jacinto | Santiago Santos | Valentín Cabero Diéguez | Victorino Garcia Calderón
Produção

Alexandra Isidro

Ana Sofia Martins

|

Revisão

Ana Margarida Proença

|

Ana Sofia Martins

Concepção e montagem da exposição

António Freixo

|

Renato Coelho

|

Arménio Bernardo

Design | pré-impressão

Via Coloris, Design de Comunicação, lda.
Impressão | acabamento

Marques e Pereira, lda.
Tiragem

1000 ex.
Depósito legal

335972/11
ISBN

978-989-8676-06-1
Edição

Centro de Estudos Ibéricos
R. Soeiro Viegas, 8
6300-758 Guarda
www.cei.pt
O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos,
não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e opiniões neles expressos.
A opção ou não pelas regras do Novo Acordo Ortográfico
é da responsabilidade dos autores.

Organização
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Apoio:

Universidade
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Universidade
de Coimbra
de Coimbra
de Coimbra

Apoios

Apoios
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2014
fotografia sem fronteiras
Territórios, Sociedades e Culturas
em tempos de mudança

ndice

Foto(Geo)grafia: a luz que (d)escreve a terra – Rui Jacinto ..
Melhor Portfolio ..

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Transversalidades: a fotografia e seus territórios – Henrique Cayatte, António Pedro Pita, Santiago Santos,
Victorino García Calderón , Lúcio Cunha, Valentín Cabero Diéguez ..
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Tema 1 | Paisagens, biodiversidade e património natural ..

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Fotografias premiadas ..

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O horizonte que vem até nós – Adriana Veríssimo Serrão ..

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Da concepção física do universo ao sentimento de mundo – João Lima Sant’Anna Neto ..

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Portfolios selecionados ..

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Fotografias selecionadas ..

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Tema 2 | Espaços rurais, povoamento e processos migratórios ..
Fotografias premiadas ..

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Sociedade rural e espaço – Carminda Cavaco ..

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Portfolios selecionados ..

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Grande sertão: veredas. O Homem, o Campo e suas (inter)relações – Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro ..

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Portfolios selecionados ..

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Tema 3 | Cidade e processos de urbanização ..
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Mil cidades. E em cada cidade outras tantas cidades – João Ferrão ..

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Cidade e sociedade urbana – Maria Adélia de Souza ..

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Fotografias selecionadas ..

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Tema 4 | Cultura e sociedade: diversidade cultural e social ..
Fotografias premiadas ..

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O instante que se torna eterno – Fernanda Cravidão ..

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Portfolios selecionados ..

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Configurar a própria imagem a partir da imagem do outro – Rogério Haesbaert ..

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Portfolios selecionados ..

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Legendas ..

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Imagem, inclusão e cooperação territorial

Foto(Geo)grafia: a luz que (d)escreve a terra
Rui Jacinto *
S. Martinho de Anta, 14 de Setembro de 1981 – “Venham
como vierem, cobertos de favores do mundo ou simples mortais, procedo sempre da mesma maneira. Mostro-lhes o que
nunca viram: panoramas que são autênticas obras-primas
da ecúmena, onde a Geografia física e a Geografia humana
se complementam. A ossatura telúrica e a epiderme elaborada. O natural e o cultural em conjunção perfeita. E fico
desobrigado. O resto é da conta deles. Se prestam, vão mais

lho para a Geografia, habilitou o geógrafo a apresentar
evidências das suas deambulações, a cumprir o que
alguém lembrou ser uma das exigências da sua profissão: “E o geógrafo, depois de abrir o livro de registos,
pôs-se a afiar o lápis. As descobertas dos exploradores
são primeiro anotadas a lápis. Só são passadas a tinta
depois de o explorador apresentar provas” (Antoine de
Saint-Exupéry, O Principezinho).

ricos. Dilataram o espírito à proporção dos horizontes. Se
não prestam, vão mais pobres. Mediram-se com a grandeza e
perderam” (Miguel Torga, Diário XIII).

relação antiga, íntima e cúmplice, que a
Geografia mantém com a fotografia não se
resume a uma afinidade etimológica que
remete para a descrição da terra, num
caso, e, no outro, para escrever com a luz. Ao advertir
que “a Geografia do mundo melhor se aprende vista no
mesmo mundo que pintada no mapa” (Sermões, 137),
Padre António Vieira apenas visionou que a prática de
qualquer daquelas artes exige trabalho de campo e de
gabinete, ir ao terreno, estar no sítio certo à hora certa,
se houver a intenção de observar a paisagem ou determinado acontecimento a partir do ângulo adequado.
Tal nomadismo é inerente à condição de qualquer
explorador que tenha por missão (d)escrever o planeta
e imprescindível para o (foto)geógrafo que pretenda
captar o exato momento em que a luz e a terra se
(con)fundem. Depois da sua invenção no século XIX,
a fotografia passou a testemunhar a passagem por
lugares exóticos, paisagens deslumbrantes, acontecimentos invulgares, modos de vida diferentes. A sua
descoberta, além de abrir novas perspetivas de traba-

Desde o seu aparecimento que a fotografia e a Geografia trilharam caminhos paralelos, pois, enquanto “as
técnicas fotográficas progrediram e se consolidaram,
a Geografia progrediu e afirmou-se como domínio
científico. Não admira pois, que os primeiros laboratórios de Geografia do início do século XX tenham
atribuído um lugar central à fotografia, tanto nos seus
equipamentos como nas coleções, a par com mapas e
atlas, com os quais aliás a imagem fotográfica foi construindo relações e associações originais e fecundas”
(Gaspar, 2013: 28). Começava a fazer caminho a ideia,
não isenta de rigor e contradição, que uma imagem
vale mais que mil palavras ou que a Geografia se limitaria à descrição, fria e estrita, de realidades objetivas.
Sabemos, hoje, que qualquer realidade é, em primeira
instância, uma representação. Daí a importância que
os geógrafos sempre atribuíram às imagens, usadas
para distintas finalidades, o que traduz a umbilical relação entre Geografia e imagem: o mapa, o desenho, o
esquisso ou a pintura apenas antecederam a utilização
de imagens mais “realistas” e complexas proporcionadas pelo imparável progresso tecnológico.
Com o advento da era digital a produção de imagens
tornou-se tão sofisticada que os métodos analógicos

Transversalidades

ficaram rapidamente arcaicos e obsoletos. A Geografia
abriu-se a esta nova geração de imagens, quase sempre
geradas ou manipuladas por computador, fixas (fotografia) e em movimento (cinema, televisão e vídeo),
incorporando-as com fins didáticos, científicos ou,
mesmo, estéticos. A produção, a difusão e o consumo
de imagens globalizou-se, ficou mais acessível, imediato e massificado, prenuncio duma democratização que
é indissociável da acrítica banalização que atingiu a
fotografia. Enquanto as imagens de satélite destronavam as velhas fotografia aéreas, usadas para investigar
o meio físico ou a ação humana, as cartas topográficas,
com as suas delicadas curvas de nível, cediam terreno
aos mapas elaborados instantaneamente por diversas
ferramentas que suportam os atuais sistemas de informação geográficos (SIG).
Continuação do mapa duma outra maneira, a imagem,
sobretudo a fotografia, acabou por fazer emergir uma
nova linguagem no seio da Geografia. A Geografia começou por estar focada em explorar a materialidade da
fotografia, tendo prestado um inquestionável contributo para o reforço do paradigma paisagístico da Geografia, além de usada para ilustrar livros e artigos de
revistas. Nesta fase, “a fotografia estava tão fortemente
associada ao progresso científico da Geografia que
o congresso da UGI que teve lugar em Washington
DC, em 1904, aprovou a proposta do geomorfólogo
alemão Albrecht Penck para que se promovesse um
levantamento fotográfico da superfície da Terra“. Esta
iniciativa “viria a originar o Atlas phographique des
formes du relief terrestre, da autoria de Jean Brunhes,
Émile Chaix e Emmanuelle De Martonne, cujas primeiras lâminas foram apresentadas por De Martonne
no X Congresso Internacional de Geografia, Roma
1913”. Sucederam-se outros projetos de envergadura,
como o iniciado em 1909, pelo banqueiro Albert
Khan, que patrocinou o levantamento fotográfico

I fotografia sem fronteiras

e cinematográfico, Les Archives de la Planète, cuja
direção científica entregou, em 1912, ao geógrafo Jean
Brunhes, iniciativa que havia de terminar devido á
grande crise financeira de 1929 (Gaspar, 2013: 29).
Muitos destes projetos, mais ou menos utópicos, respondem ao desejo de evasão e descoberta que povoam
o nosso imaginário, quase sempre alimentados por imagens captadas em viagens feitas a lugares recônditos e
exóticos, o que testemunha a capacidade que a fotografia encerra para desocultar espaços marginais e inacessíveis. Assim se explica, também, o sucesso dos grandes
livros de viagens (Odisseia, Lusíadas, etc.), onde estão
plasmadas imagens escritas que oscilam entre realidade
e ficção, a longevidade da National Geographic Society
e da sua revista, fundada em 1888, cuja notoriedade
provém dos mapas e fotografias que sempre editou, ou a
recente popularidade alcançada pelo Google Earth.
Ao permitirem viajar virtualmente pelo mundo e
pelas ruas das cidades, o Google Earth ou o Street View
parecem institucionalizar um big brother geográfico e
visual que permite aceder em tempo real a imagens de
qualquer lugar do planeta. Aqui chegados, nunca estivemos tão perto da metáfora concebida por Jorge Luís
Borges quando imaginou que “Mapas Desmedidos não
bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um
Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e
coincidia com ele ponto por ponto”. Se estivesse convencido desta possibilidade o autor não teria adiantado, de seguida, que “Menos Dedicadas ao Estudo
da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que
esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades
entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos”
(Sobre o Rigor da Ciência). As olímpicas imagens que,
hoje, nos chegam de mais alto, mais longe e com mais
pormenor parecem condenadas ao mesmo destino;
outros autores, nesta mesma senda, também adverti7

Imagem, inclusão e cooperação territorial

ram “sobre a impossibilidade de desenhar um mapa do
Império em uma escala de 1 para 1 (Umberto Eco).
Telas, mapas ou fotografias moldam um certo modo
de olhar o mundo, são imagens que contam as suas
histórias e, ao descreverem e representarem o espaço
que nos rodeia, ficam impregnadas dos contextos
políticos, históricos e sociais do seu tempo. O mapa
e a fotografia, ao omitirem ou distorcerem partes da
realidade, ficam sem capacidade para a representar
na sua plenitude, expondo os limites que as imagens
comportam. Haverá sempre discrepância entre aquelas
imagens e os territórios que tentam representar, o que
abre espaço e margem de manobra para interpretações. O mesmo acontece com os sistemas de informação geográficos, por mais sofisticados que venham a
ser, pela mesma razão que os velhos cartógrafos, com
os seus pretensos mapas científicos, jamais conseguiram
superar, inquestionavelmente, a complexidade das
diferentes visões do mundo.
A Geografia acabou por se preocupar, entretanto, não
apenas com o palpável mas também com o sentir e os
sentidos, pois a sua construção incide “sobre o conhecimento do mundo, não sobre o próprio mundo”. Não
podemos estranhar, por este motivo, a importância
dada a “compreender os processos que conduzem à
percepção, às representações e aos comportamentos que
são, portanto, indispensáveis a toda a forma de Geografia ativa” (A. Bailly, citado por Alegria, 2010). Os trabalhos pioneiros de Peter Gould (Mental Maps, 1974)
e de Armand Frémont (A região espaço vivido, 1976)
exprimem a maior atenção que os geógrafos, como outros cientistas sociais, passaram a dar às representações
cartográficas e às imagens, sejam mapas ou fotografias,
estáticas ou em movimento. O reconhecimento da
importância que as imagens assumiram nos média,
no nosso comportamento quotidiano e, consequente-

mente, na construção de novos mapas mentais levou a
várias análises críticas do papel das representações geográficas na realidade cultural, designadamente a levada
a cabo pela referida União Geográfica Internacional,
sob a presidência de Paul Claval (Alegria, 2010).
Estudos sobre a imagem, feitos entre nós, mostram o
baixo conhecimento do quadro espacial que se deve,
em boa medida, ao facto da televisão deixar flutuar os
acontecimentos “num espaço impreciso, não estruturado, sem dimensão e abstracto”, como observou Suzanne Daveau (1984) em o peso da televisão e dos “media”.
Num outro contexto, partindo de “imagens mentais sugeridas por fotografias de diversos espaços geográficos”
foram exploradas as Geografias do mundo imaginado
através das representações mentais de alguns países,
levando à conclusão “que a Geografia tem muito a
ver com a construção de imagens do mundo e não
apenas com uma realidade objectiva” (Alegria, 2010).
Os geógrafos não ficaram indiferentes, como vimos, à
geograficidade latente na imagem, particularmente na
fotografia, ao ponto de reconhecerem que “em última
instância, o espaço regional é também uma imagem”.
Os mecanismos de aculturação “impõem aos homens
uma certa imagem dos lugares onde vivem, do seu
espaço, da sua região. E essa imagem, aceite, recalcada
ou recusada, constitui um elemento essencial das combinações regionais, o laço psicológico do homem com
o espaço, sem o qual a região seria apenas a adaptação
de um grupo a um meio, ou um encontro de interesses
dum espaço dado” (Fremont, 1980: 109).
A cultura territorial também se constrói a partir de
imagens, que fornecem tantas vezes uma perspetiva
parcelar, imprecisa e desfocada dos lugares, regiões e
países que tentam representar. Estas imagens, quase
sempre estereotipadas ou icónicas, acabam por ser exploradas até à exaustão pelo turismo, pela publicidade

Transversalidades

e pelo marketing territorial. Com outras coordenadas
e novas imagens representativas doutros tempos
e espaços é possível esboçar mapas mais amplos e
abrangentes desses territórios, desenhar com outras
linguagens uma Geografia mais assertiva que aponte
para novas gramáticas. A partir deste olhar, a fotografia tanto pode ser encarada como um fim ou como
um meio. Um meio, se utilizada como documento com
objetivos científicos ou pedagógicos ou, de maneira
mais banal, quando recorremos à sua mensagem para
recrear uma nova viagem ou estória. Um fim, quando
a imagem adquire valor próprio que a aproxima de
qualquer outra expressão artística, reúne condimentos
estéticos e condensa sentimentos que, podendo não
ser diretamente apreendidos, nos permite recrear espaços e emoções que o seu autor nunca terá imaginado.
A fotografia tem a virtude de nos confrontar com a
complexidade plural do mundo que nos rodeia, situada
algures entre o real e o imaginário. Deste modo, através das imagens fotográficas, acabamos por ficar “confrontados com as estranhezas do mundo. E mais ainda:
em seu frescor, em sua atividade própria, a imaginação
torna estranho o familiar. Com um detalhe poético,
a imaginação coloca-nos diante de um mundo novo.
Consequentemente, o detalhe predomina sobre o
panorama. Uma simples imagem, se for nova, abre um
mundo. Visto de mil janelas do imaginário, o mundo
é mutável” (Bachelard, 1980: 143). É, talvez, por isto
que almejamos ser foto(geo)grafos para usar e abusar
da fotografia na esperança de, mesmo virtualmente,
(re)visitar Geografias vividas ou imaginadas, percorrer

I fotografia sem fronteiras

espaços e tempos onde fomos felizes e, em dado momento, tivemos o privilégio de observar paisagem que,
cada um à sua maneira, tentou ler e interpretar. “Por
isso recomeço sem cessar a partir da página em branco/ E este é meu ofício de poeta para a reconstrução
do mundo”. Nestes límpidos e densos versos do poema
A Forma Justa (in “O Nome das Coisas”), Sophia de
Mello Breyner Andresen apenas dá voz aos que, com
as limitadas armas que dispõem, tentam explorar a ténue fronteira entre Geografia e imagem em demanda
duma poética do espaço.
O projeto Transversalidades, onde se inscreve a
presente publicação, recorre à fotografia para abrir
janelas para o mundo, esbater fronteiras, promover a
cooperação entre pessoas e territórios. A imagem é,
neste caso, um meio para encontrar outras Geografias
a partir das coordenadas que norteiam a cartografia do
Transversalidades, fotografia sem fronteiras: Paisagens e
património natural, organizado com fotografias que retratam a natureza, o trabalho e as paisagens entretanto
humanizadas; Espaço e sociedade rural, onde encontramos imagens que mostram a diversidade de paisagens,
de contextos sociais e do trabalho em meio rural;
Cidade e sociedade urbana que nos permite visualizar
a multiplicidade de paisagens, arquiteturas e vivências
urbanas, de novas urbanidades, cenas e cenários urbanos; Cultura e sociedade, onde a diversidade social e o
diálogo cultural se apreendem a partir de imagens das
paisagens culturais que espelham a panóplia de usos,
costumes, tradições e modos de vida que enriquecem
de múltiplas vivências o nosso quotidiano.

* CEI, CEGOT – Universidade de Coimbra.




Referências:
Maria Fernanda Alegria (2010) – Geografias do mundo imaginado. Finisterra, XLV, 89.
Gaston Bachelard (1957; 2005) – A poética do espaço. Martins Fontes, S. Paulo.
Jorge Gaspar (2013) – Fotografia e paisagem. In Transversalidades, CEI, Guarda.
Armand Fremont (1976; 1980) – A região espaço vivido. Almedida, Coimbra.

9

Melhor Portfolio

Melhor portfolio

António Alves Tedim, Portugal
21.4.2.3
Puxando a “sorte”
*(1) Ria de Aveiro, Ílhavo (Portugal), 2014
2.21.4.2.4
Esforço
*(2) Ria de Aveiro, Ílhavo (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

21.4.2.2
Largando a rede
*(3) Ria de Aveiro, Ílhavo (Portugal), 2013

13

Melhor portfolio

António Alves Tedim, Portugal
21.4.2.5
Uma já está!
*(4) Ria de Aveiro, Ílhavo (Portugal), 2013
21.4.2.1
A caminho
*(5) Torreira, Murtosa (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

21.4.2.6
O troféu
*(6) Ria de Aveiro, Ílhavo (Portugal), 2013

15

Imagem, inclusão e cooperação territorial

Transversalidades: a fotografia e seus territórios
A
otografia e território: novos discursos da
imagem1. As cidades são territórios de possibilidades infinitas.

Só que ao construirmos essas imagens de forma muitas
vezes obsessiva, porque banalizada pelos novos artefactos, não imaginamos como as estamos a brutalizar.

Podemos perdermo-nos e encontrarmo-nos, podemos
ver e ser vistos e podemos ainda manter com elas um
diálogo íntimo, permanente e secreto, sobre os milhares de impulsos sensoriais que vamos experimentando
ao longo do dia.

Fotografamos, manipulamos, partilhamos e guardamos
numa ânsia desmesurada como se não houvesse amanhã. Nunca a cidade foi de tantos e nunca as nossas
memórias foram tão fugazes. Não apenas pelos milhões
de imagens que a “gastam” como pelas novas facetas
que ela nos vai mostrando através das suas mudanças
quotidianas como se nos quisesse dar o seu melhor
ângulo e sempre pronta para um close-up final como
nos filmes ou nas sessões fotográficas em estúdio.

A maior parte das vezes sem nos apercebermos deles.
Olhamos e não vemos.
Usamos os nossos olhos em varrimentos ditados pelas
circunstâncias como se fossemos um scanner ambulante.
Não imaginamos o que está por detrás dos volumes,
das cores, dos cheiros e dos ruídos do que a cidade tem
para nos dar a ver. Mas também para nos esconder.
E é mais aquilo que esconde do que aquilo que nos
mostra num diálogo sensual e sedutor pleno de possibilidades.
Quando usamos a fotografia procuramos seleccionar
um dos milhões de pequenos fragmentos que se manifestam à nossa frente numa tentativa, que sabemos
condenada ao fracasso, de fazer parar o tempo e o
espaço naquela precisa imagem.
Procuramos, como dizia Barthes, o nosso “punctus”.
Sempre diferente do dos outros e por isso tão democrático porque plural e livre.

Vemos estas imagens como se tudo isto fosse uma “never ending story” que na realidade é porque as cidades
são maravilhosas, têm uma energia infinita e renascem
todos os dias porque nunca dormem.
Como as imagens que fazemos delas.

que as fotografia não mostram2. No âmbito de um evento tão inequivocamente
identificado como Transversalidades – Fotografia sem fronteiras, refletir sobre “o que
as fotografias não mostram” pode constituir uma simples provocação. Para mais, a identificação da iniciativa
explicita: territórios, sociedades e culturas em tempos de
mudança. A fotografia é, pois, chamada a documentar,
mostrar, dar a ver como é que em tempos de mudança
se transformam culturalmente os territórios e as sociedades. Mais: a fotografia é privilegiada como o processo

Transversalidades

por excelência capaz de fixar e transmitir o que mudou,
o que está mudando.
Por isso, refletir brevemente sobre “o que as fotografias
não mostram” será mesmo, ou só aparentemente, uma
provocação?
Não é só por razões técnicas, histórico-culturais ou
estéticas que o dispositivo fotográfico não mostra o
que não mostra. Aclarar a questão não esclarece só o
que as fotografias não mostram, esclarece igualmente
aquele regime de autoconsciência para o qual o devir
do mundo é devir transparência do mundo. Ou seja: é
interrogar a possibilidade da fotografia nos seus limites
quando, para si própria, a fotografia crê ser a ilimitação de toda a opacidade do real.

I fotografia sem fronteiras

de ver. O que a superfície lisa da imagem lança ao
nosso encontro, a preto e branco ou a cores, não é a
informação nua (bruta) que baste recolhermos para
sabermos mais ou de outra maneira. A fotografia é
uma proposta cifrada a que devemos oferecer uma
rigorosa competência interpretativa. A fotografia significa (diz, mostra) na exata proporção da sensibilidade
e da inteligência do olhar.
O que a fotografia não mostra não é o contrário do
que a fotografia mostra. O que a fotografia não mostra
no próprio dispositivo de mostração é o que, no mundo, resiste à consumação da transparência: uma reserva de sentido, um pouco de intimidade, o princípio do
espanto, a silenciosa explosão da surpresa.

Sigamos, então, a proposta.
A fotografia não mostra o presente. Tudo o que a
fotografia dá a ver é já passado. O pensamento da fotografia elaborou este tópico com detalhe. O referente
da fotografia foi. É passado ou mesmo morte. E, deste
ponto de vista, há em toda a fotografia uma dimensão
espectral que contrasta violentamente com a responsabilidade, que nela delegamos, de ser um testemunho
de atualidade.
A fotografia não mostra o movimento do mundo. Pela
fotografia, acedemos a fragmentos do passado do mundo ou do mundo como passado. À nossa interrogação
sobre o mundo que herdamos, ou em que vivemos
herdando, a fotografia contribui com vestígios mais ou
menos organizados e verdadeiros. A fotografia é sempre verdade – e nesta frase depositamos uma confiança
instável e perplexa.
A fotografia não mostra o que não somos capazes

otografía sin fronteras3. Territorios, Sociedades y Culturas en tiempos de mudanza es
mucho más que un titulo, es una definición
que encaja a la perfección con la práctica
de la fotografía actual. Una de las características más
significativas de la fotografía es su capacidad para
relacionarse de manera efectiva con gran variedad de
disciplinas del conocimiento humano, esta dinámica
de colaboración y transversalidad con la ciencia y el
conocimiento adquiere todo su significado observando
las imágenes presentadas a concurso.
La propuesta abarca a la mayoría de las especialidades de la fotografía; reportaje, retrato, fotografía de
naturaleza, de arquitectura, social o “la turística”, un
término poco ortodoxo pero sin embargo lleno de
contenido en esta época ya que actúa como relato de
nuestras vivencias en el tiempo de ocio, y es que, el
disfrute del tiempo libre es una de las señas de identidad de las sociedades desarrolladas.
17

Imagem, inclusão e cooperação territorial

Como se desprende de las imágenes presentadas a
concurso, la fotografía es un medio privilegiado para
analizar la situación actual de nuestra sociedad, no por
el hecho de mostrar la realidad, sino por la capacidad
que tiene la imagen para fijar en la memoria colectiva
situaciones y estados que con demasiada frecuencia
pasan inadvertidos.
La participación de centenares de personas anónimas
y su visión de conjunto muestra una nítida instantánea de los intereses y preocupaciones de nuestra
sociedad, la continua superposición, en un palinsepto
continuo, de estilos, arquitecturas, costumbres, etc.
La pérdida de identidad del individuo en las grandes
ciudades, la uniformidad a la que nos aboca la globalización y, por otra parte, la necesidad de preservar
las tradiciones, las culturas aisladas o los espacios
naturales, todo ello con una notable dosis de nostalgia
producida por la seguridad de que es mucho lo que el
progreso va dejando por el camino, genera imágenes
de gran potencia y contenido icónico.

otografia y Compromiso4. El hecho fotográfico nunca es absolutamente banal. Cualquier persona que, con una cámara en la
mano, realiza una toma, por simple que pueda ser su planteamiento original no deja de tener una
implicación con la realidad y con la relación espaciotiempo. Supongamos que cae una pequeña cámara de
fotos en manos de un niño y que alguien le enseña
que apretando un botón retiene la imagen que tiene
delante de sus ojos. Lo primero que observará es que
se ha parado el tiempo y se ha quedado dentro del
aparato que le han puesto en las manos. Este hecho,
al cabo de los años, puede que no tenga más importancia que la que le queramos dar en sí mismo, pero

algo tan desmesuradamente usual y tan actual que en
que cada segundo se producen millones de imágenes
puede que llegue a ser el motivo fundamental por el
que ese niño, o cualquier persona, decida un día que
esa imagen que se queda consigo pueda compartirla
con aquellos que sintonicen con su contexto y/o
semántica. Entonces habrá nacido una comunicación
entre el emisor y el receptor y en ese preciso instante
la imagen cobra un sentido que aunque muchas veces
es inesperado por la parte emisora, siempre dota a la
imagen de un cierto poder de traslación de ideas de
unos individuos a otros, porque de eso se trata en el
tema que nos ocupa.
Esta traslación de ideas a través de la semántica, es
decir, a través del lenguaje iconográfico puede llegar a
ser un vehículo mediante el cual los demás, los receptores de la imagen, asuman íntegramente o en gran
parte el mensaje que el emisor quiere hacer llegar y es
aquí donde aparece su compromiso, que en el caso de
la fotografía tiene multitud de caminos que van desde
el informativo al social pasando por el artístico o el
publicitario.
En este caso sería imprescindible que la fotografía
viaje por los dominios de los aspectos sociales y que
el creador de imágenes ponga todo su bagaje cultural
al servicio del, posiblemente, más poderoso instrumento de comunicación de hoy día y se sumerja de
lleno en los ámbitos del paisaje que hace al hombre,
a la vez que el hombre hace el paisaje, tanto urbano
como rural, sintiendo a flor de piel cómo, a veces,
el aprovechamiento de los recursos naturales es tan
excesivo que nunca como ahora ha estado tan en
peligro el propio planeta. Sienta en sus carnes que
la migración siempre es dolorosa al principio y que
las tierras prometidas hay que conquistarlas con la
razón del corazón, no de las armas. Que las ciudades

Transversalidades

deshumanizan pero se erigen en el lugar propicio
para el desarrollo del hombre moderno, apartando de
este cometido al mundo rural en una retirada de éste
aparentemente incruenta, pero demoledoramente definitiva con todo lo que ello conlleva, con una crónica
despiadada de una muerte anunciada a corto o medio
plazo y lo que ello supone: cuánta gente ha tenido
que abandonar su hogar familiar en el mundo rural
para irse a una inhóspita comunidad de vecinos en la
ciudad; cuántos subsaharianos, por ejemplo, dejan su
pequeño mundo de incierto futuro para adentrarse a
ojos cerrados, si no les ponemos impedimentos inhumanos, en un mundo lleno de promesas que muchas
veces se manifiestan como quiméricas y en el que la
igualdad de derechos y oportunidades para todos los
seres humanos es cada día más ilusoria propiciada por
un sistema político que cada día es más injusto y en
el que las diferencias entre ricos y pobres son cada día
más insalvables.
Así debemos analizar el compromiso serio de algunos
maestros de la fotografía como Sebastião Salgado con trabajos como Génesis, Éxodos, La Mina de Oro
de Serra Pelada o Trabalhadores-, o Pierre Gonnord
–autor de retratos de personajes marginados de Madrid, Nueva York y Tokio o los mineros de Sabero en
León-, cuyas producciones son un grito de dignidad
en un mundo que les da la espalda. O la aportación
de Alberto Gª Alix, que ha sabido recoger como
nadie el submundo urbano finisecular. Y ya en el
fotoperiodismo, Gervasio Sánchez cuya frase “No soy
un periodista solidario, ni comprometido, ni valiente,
ni excelente. Si el periodismo no es comprometido, ¿qué
es?” define por sí sola su nivel de responsabilidad
con la sociedad, consciente como nadie de que la
fotografía debe ser uno de los grandes vehículos, si
no el que más, de comunicación y de muestra de las
desigualdades sociales.

I fotografia sem fronteiras

otografia, natureza e território5. Como se
lê e apreende uma fotografia? Pelos olhos de
quem fotografa ou pelos olhos de quem lê?
Enquanto manifestação artística a fotografia,
é “apenas” uma imagem visual ou, se preferirmos, uma
representação do real. E, enquanto representação, ela
depende, naturalmente, dos olhos de quem fotografa,
dos ângulos escolhidos, das aberturas, dos filtros, das
luzes, mesmo de alguns efeitos especiais e, porventura
em menor grau, da qualidade técnica das máquinas de
que se dispõe.
Mas, a fotografia é também comunicação e, nesse
sentido, a sua leitura depende muito das características
estruturais ou conjunturais do receptor, do conhecimento social ou cultural que tem do território ou do
objecto fotografado, das suas experiências vividas e
sentidas, das suas características socio-culturais, do(s)
seu(s) estado(s) de alma e de muitos outros factores,
gerais ou particulares, externos ou interiores, que
interferem com a capacidade de ver e sentir o mundo,
o ambiente que nos rodeia, as cores, as formas, as
texturas do que nos cerca e que connosco interage de
diferentes modos.
Vista neste sentido, a fotografia corresponderá a uma
forma de representação artística, filtrada à partida e à
chegada, interpretada pelo fotógrafo e descodificada
pelo leitor, o que faz supor uma enorme variedade de
interpretações dos fenómenos naturais ou antrópicos
fotografados e/ou representados.
Neste catálogo estão fotografias de diversos aspectos
da natureza a diferentes escalas. Quase poderíamos
dizer que vão do infinitamente grande do universo que
vemos no nosso pequeno céu, ao infinitamente pequeno que lemos na enorme complexidade estrutural das
asas do pequeno insecto, que vão da larga imensidão
19

Imagem, inclusão e cooperação territorial

oceânica aos minuciosos contornos da flor selvagem,
que vão, enfim, da homogeneidade textural da floresta
ou dos campos verdes agrícolas ao pormenor das rugas
faciais dos homens e mulheres que os trabalham.
As fotografias mostram-nos também diferentes graus
de apropriação da Natureza pelo Ser Humano. Não
nos parece plausível, do ponto de vista estritamente
geográfico, falar de Natureza natural ou de Natureza
intocada pelo Ser Humano, dadas, quer a interferência
milenar deste sobre aquela, quer a intensidade, a magnitude e o alcance temporal e espacial, das intervenções realizadas dos últimos dois séculos. No entanto,
enquanto arte, a fotografia pode fazer-nos regressar
aos aspectos naturais da Natureza ou, se preferirmos, à
Natureza natural, sonho idílico do fotógrafo, enquanto
indivíduo, mas que funciona para o leitor, quase
sempre, também, como instrumento de esperança na
regeneração ambiental ou, mesmo, como modo de expiação das nossas culpas colectivas na relação injusta e
pouco inteligente que mantemos com a Natureza.
Assim, este conjunto de fotografias fala-nos de montanhas e de rios, de terra, mar e ar, de animais e plantas;
fala-nos também dos recursos que a Natureza nos lega
e do modo como deles nos apropriamos; fala-nos de
trabalhos esforçados nessa apropriação; fala-nos da
dureza do trabalho rural e da pesca, mas também do
prazer conseguido em actividades de lazer, quando
praticadas na saudável oikos que habitamos. Fala-nos,
ainda, de pobreza no mundo rural e de abandono; falanos de Natureza bela e intocada, mas também de água
sujas e de poluição. Fala-nos de utilização e de conservação; fala-nos, ao fim e ao cabo, da Natureza e do Ser
Humano nas suas relações, nas suas contradições, nos
seus conflitos, nas suas cumplicidades.
Em síntese, como representação do real, como ma-

nifestação de arte que estimula o melhor e o pior do
nosso imaginário, a fotografia cumpre um papel social
importante no modo de ler a articulação na Natureza
com a Sociedade, cumpre um papel científico, ao
ajudar-nos a compreender os diferentes modos dessa
articulação, e desempenha, também, um importante
papel pedagógico, ao ajudar-nos a melhor intervir na
Natureza e, sobretudo, a educar uma nova geração de
seres humanos, melhor preparados para utilizar, conservar e fruir os aspectos naturais do ambiente.

ntre el olvido y la topofilía: los territorios rurales desde la reivindicación y la
esperanza6. Los escenarios rurales que
conocemos están cargados de memoria y de
lugares que guardan en sus paisajes la explicación del
mundo, de esos pequeños o extensos territorios con
nombres simbólicos que durante siglos enmarcaron
las relaciones sociales y los afanes de supervivencia
de campesinos anónimos. Son espacios organizados
en torno a sus distintas capacidades y a las necesidades diacrónicas de sus habitantes. Y tienen como
referencias primeras la casa o el hogar familiar y las
raíces que unen la tierra o el suelo con los antepasados. Guardan, por tanto, las experiencias seculares y
comunes de generaciones sucesivas que han dejado allí
sus trabajos al paso de los días, que han encontrado
allí sus elementos de identidad y sus fuertes o frágiles
vínculos de solidaridad. En definitiva los sentimientos
de pertenencia se identifican a distintas escalas con
el lugar o los lugares, reforzando con la topofilía el
significado social y cultural de los territorios rurales
con frecuencia ignorados.
En medio de una globalización que nos ha llevado a
la contradictoria fragmentación del territorio y a la

Transversalidades

marginación cruel de los más humildes, o en medio
de una dura crisis que vuelve la mirada hacia el
medio rural y a sus modelos históricos de ocupación,
contemplamos con sentimientos encontrados las
imágenes que forman parte del quehacer más secular
en la construcción del paisaje y del territorio. Por
doquier topamos con paisajes del abandono que nos
muestran la doble cara de las dinámicas de los espacios rurales de montaña: la pervivencia de terrazgos
y tramas pratenses o forestales de indudable belleza
que nos acercan o identifican con la topofilía, o por el
contrario, con las ruinas de un habitat bien adaptado
a las funciones agroganaderas del pasado inmediato
que han quedado en el olvido más ingrato. Hasta la
propia toponimia ha ido borrándolos de los mapas. El
contrapunto posmoderno de un graffiti de corazones
entrelazados incorpora ante nuestra mirada un signo
reivindicativo y de esperanza.
Bien sabemos que el éxodo ha dejado al medio rural
malparado y con las estructuras demográficas rotas,
estrangulando las perspectivas de futuro de muchos
lugares. Es una historia común a uno y otro lado de la
raya ibérica que ha quedado reflejada en estadísticas,
estudios e informes, más bien fríos, incapaces de transmitir a la sociedad y a las acciones públicas la fuerza
necesaria para detener y corregir con sentido social
y territorial sus graves consecuencias ambientales, económicas y culturales. Aunque sean bien conocidos los
procesos migratorios y de abandono, no cejaremos en
reivindicar la lucha por un medio rural vivo en condiciones dignas y de igualdad con el resto de la sociedad.
Por ello, no dejan de ser imágenes que nos rememoran
el pasado de una ruralidad basada en la austeridad de
la pobreza y en el esfuerzo personal, en el intercambio
local en acémilas y en condiciones penosas, o en la
familia extensa que daba cobijo a mayores y menores
en una sucesión natural y transmisión oral del trabajo

I fotografia sem fronteiras

y de las experiencias. Son testimonios universales
que nos invitan a la reflexión transversal en torno al
medio rural.
Precisamente este año 2014, la FAO, por un lado,
y la propia ONU, por otro, ante el fracaso de las
garantías alimentarias a escala global y ante las
sucesivas frustraciones de las cumbres frente al
cambio climático, ven en las agriculturas familiares
históricas y en los recursos públicos y comunales
verdaderas alternativa para frenar y detener los desmanes medioambientales y afrontar con inteligencia
agroecológica y sentido común el futuro. Así, pues,
una presencia sensata de las agriculturas familiares y
la gestión de los comunales a escala local y regional
se presentan como un reto apasionante que compromete a toda la sociedad. Ni los actuales instrumentos políticos están preparados para afrontarlo, ni las
directrices productivistas y tecnocráticas de la PAC
son el camino.
Digamos algo más sobre algunas de las imágenes. Estamos ante paisajes remotos y próximos. Las gargantas
del Todra y los bereberes que las habitan constituyen
uno de los paisajes naturales y rurales más representativos e impresionantes del Atlas marroquí. Aún
pueden observarse los géneros de vida tradicionales
y sus formas de ocupación en un área de montaña
que da paso al desierto, pero en los últimos años se
ha convertido en uno de los lugares más visitado
por el turismo internacional y particularmente por
parte de los franceses y españoles. Las mejoras de la
accesibilidad local han colocado a estos lugares en la
órbita de la globalización del consumo turístico para
aventureros y para ciudadanos amantes de la escalada
o de un acercamiento efímero a las raíces geológicas y
culturales de unos paisajes cargados, ciertamente, de
enseñanzas y de memoria.
21

Imagem, inclusão e cooperação territorial

Otra lectura más cercana nos ofrece la recogida de la
hierba en nuestras montañas o en sus bordes somontanos, recordándonos la capacidad de adaptación a los
ciclos estacionales en unas formas de aprovechamiento
históricas que conjugaban los usos agroganaderos con
el manejo de los bienes y montes concejiles, dando
respuesta a las necesidades familiares y vecinales comunes. Los pueblos del Noroeste y de las montañas o
sierras transfronterizas – nos lo recuerdan sabiamente

1
2
3
4
5
6

J. Caro Baroja, Jorge Dias, Fritz Krüger, Virgilio Taborda, Orlando Ribeiro o Ángel Cabo-, nos dejaron testimonios y respuestas agroambientales que han caído
en el olvido, pero cuya elocuencia agroecológica nos
invita desde la lectura del paisaje a una topofilia activa
en favor del medio rural y en defensa de su patrimonio
y de sus bienes comunales. Son “paisajes que se nos
van” y que esperan silenciosamente nuestro rescate y
su custodia cordial y solidaria.

Henrique Cayatte – Designer, Professor Auxiliar Convidado da Universidade de Aveiro.
António Pedro Pita – Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Membro da Comissão Científica do CEI.
Santiago Santos – Fotógrafo, Salamanca.
Victorino García Calderón – Fotógrafo y Profesor de Educación Plástica, Fotografía y Comunicación Audio-Visual, Salamanca.
Lúcio Cunha – Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Membro da Comissão Científica do CEI.
Valentín Cabero Diéguez – Professor Catedrático da Faculdade de Geografia e História da Universidade de Salamanca, Membro da Comissão
Executiva do CEI

TEMAS

TEMA 1
Paisagens,
biodiversidade
e património natural

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural
Prémio Tema

António Costa Pinto, Portugal
13.1.2.2
Luz do Poente
*(7) Figueira da Foz (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

27

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural
Menções honrosas

Jorge Feteira, Portugal
21.1.1.3
Mesma terra, Cores diferentes
*(8) Fronteira (Portugal), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Telma de Jesus Monteiro Miragaia, Portugal
48.1.1.1
Aproveitamento do abandono
*(9) Ribeira Grande (Portugal), 2014

29

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

O horizonte que vem até nós
Adriana Veríssimo Serrão *
e cada de nós sente espontaneamente que está
numa paisagem, mais difícil será encontrar a
definição capaz de agregar a diversidade dessas peculiares experiências do mundo. O que
é uma paisagem? A linguagem parece deter-se numa
impossibilidade, relegando-a para a esfera do que se
pode sentir e pensar, mas não efectivamente conhecer.
Também aqui, como na confissão agostiniana acerca
do tempo, se não nos perguntam, sabemos; se nos
perguntam, deixamos de saber.
Na busca de respostas à complexa questão da essência
da Paisagem entendida como uma das grandes categorias do pensamento humano, uma das mais fecundas
tem sido a associação à noção de horizonte.
O geógrafo Eric Dardel usou a metáfora da janela
aberta para acentuar que a paisagem nunca é uma
coisa, um objecto parado à nossa frente, mas um lugar
que se abre para outros lugares, uma realidade que se
expande para fora dela, sendo meramente aparentes e
transitórias as suas fronteiras: “A paisagem não é um
círculo fechado, mas um desdobramento. Uma janela
sobre possibilidades ilimitadas: um horizonte. Não
uma linha fixa, mas um desdobramento, um impulso.”
Não há aqui um espaço fechado sobre outro igualmente fechado – quando uma sala confina com outro
compartimento; a janela não é aquela moldura de um
interior de onde se avista qualquer coisa lá fora, mas
já lugar situado, a “céu aberto” que constantemente se
abre e que nesse estender se ganha temporalidade.
A mesma ênfase colocada nesse misto de densidade

(intrínseca) e irradiação (centrífuga) subjaz ao entendimento, proposto por Michel Corajoud, de um
lugar onde céu e terra se tocam. Unidade dinâmica
resultante da conjunção do múltiplo, é sempre mais
que a soma aritmética dos seus elementos. Envolvência
de elementos que por sua vez confinam com outros,
extravasa se a si mesma tanto na extensão da superfície da terra quanto na elevação em altura. O horizonte
é condição de identidade e de relação, de ligação e
cruzamento; tanto sugere a horizontalidade quanto
a verticalidade. “O horizonte, enquanto dimensão
espácio temporal prévia que se desloca e recua sob o
impulso do olhar, é perspectivado como a potência
de abertura da paisagem que, simultaneamente, lhe
confere o seu poder de coesão próprio.”
Procuremos entender melhor a pertinência desta imagem, sendo que, por um lado, ela pretende contrariar
a ideia feita de uma circunscrição espacial e objectiva,
eventualmente mensurável, de uma região que vai
deste ponto até àquele, mas não deixa, por outro, de
apontar para uma delimitação virtual. Estará precisamente nesta tensão entre limitado e ilimitado a figuração do paradoxo constitutivo da paisagem. Porque
enquanto porção de natureza, que nela se manifesta
como princípio vivificante, a paisagem não tem limites. Mas ao mesmo tempo o horizonte, que não é de
facto uma linha de demarcação física, dá subtilmente
conta de um certo recolhimento em si mesma que lhe
confere um rosto único, uma fisionomia irrepetível. É
próprio da paisagem a singularidade.
A paisagem é sempre dual, mista: ponto de encontro
entre objectividade e subjectividade, entre em si e

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

para nós; em última instância, enlace entre Homem
e Natureza. Para que seja autêntico, este encontro implica ultrapassar o plano da representação, da visão à
distância, para mergulharmos no ser. Porque o mundo
não está à nossa frente, a experiência paisageira não
poderia ser exclusivamente visual. Daí a valorização
cada vez maior que a filosofia da paisagem tem atribuído à sensação, que une o ser com o ser, e à experiência
estética como vivência ontológica: experienciar a
paisagem é também tomar consciência da condição
terrena e natural do nosso ser no mundo. É a ela que
devemos aquilo que vivemos nela.

sença sintética e inclusiva. O infinito foi comprimido
no finito.

Uma via privilegiada desta apreensão directa é a caminhada. Fazendo-nos participantes, pedindo ao corpo
que se desloque, avançamos em direcção ao horizonte,
que a cada passo se revela e a cada passo se afasta. As
sensações de limitação e imensidão mesclam-se. O que
existe ainda não se deu totalmente neste momento
presente. Encontra-se lá, mas escondido, como um
além pressentido, um futuro prometido. Recorrendo à
formulação magnífica de Rosario Assunto, a finitude
aberta da paisagem é “presença do infinito no finito”.

Mas a fotografia, se não é uma criação humana arbitrária, mas uma atitude de contornos éticos em que a
marca do autor se desvanece para deixar simplesmente
surgir a escrita da Luz, pode tornar visível o invisível
e invisível o visível. O que estava lá mas não se via
passou a estar. Ao entregar à Luz, e não ao Eu, o poder
revelador, o real enriqueceu-se com possibilidades
inscritas no ser mesmo da paisagem.

A outra é-nos dada pelo fotografar. Ao contrário do
caminhar distensão temporal do horizonte a perder
de vista que o movimento do corpo afasta sempre
para mais longe na fotografia as possibilidades da paisagem são como que trazidas até nós. As dimensões
do ser - densidade e profundidade, texturas, volumes e
cores, cambiantes de luz - são condensadas numa pre-

A fotografia está imune à condenação que impende
sobre muitas formas de arte: de serem projecções da
subjectividade, a imposição de um acto que pretende
orgulhosamente sobrepor-se ao mundo, rivalizando
com ele, ou mesmo substituindo o reivindicando uma
superior capacidade expressiva. A Natureza tornarse-ia significante somente enquanto recriada ou
interpretada. Tal sucede na pintura de paisagem, uma
imagem do mundo, mas não o mundo.

Demos agora a palavra ao fotógrafo Rui Cambraia
numa reflexão sobre a afinidade entre Paisagem e
fotografia.
“Fotografar é como espreitar pelo buraco de uma fechadura, encerrados numa cumplicidade secreta – nós
e o segredo, a fechadura como moldura, o fragmento
visível apreendido como um todo: tal é a experiência
da Paisagem.”

* Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.




Referências:
Eric Dardel, L’homme et la terre, 1952.
Rosario Assunto, Il paesaggio e l’estetica, 1973.
Michel Corajoud, Le paysage c’est l’endroit où le ciel et la terre se touchent, 1982.
Rui Cambraia, “Paisagem e Fotografia. Luz, fotossensibilidade, o olho e o olhar”, in Filosofia e Arquitectura da Paisagem. Um Manual, coord. Adriana
Veríssimo Serrão, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012; 2014.

31

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Ana Paula Costa Cebola Oliveira, Portugal
53.1.1.2
Rochedos
*(10) Costa Algarvia, Marinha (Portugal), 2013
4.1.35.4.53.1.1.1
Passagem
*(11) Costa Algarvia (Portugal), 2013

Transversalidades

53.1.1.4
Fuga
*(12) Costa Algarvia (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

53.1.1.5
Luz
*(13) Costa Algarvia (Portugal), 2013
53.1.1.3
Esconderijo
*(14) Costa Algarvia, Benagil (Portugal), 2013

33

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

António Costa Pinto, Portugal
13.1.2.1
Serenidade
*(15) Figueira da Foz (Portugal), 2014

4.1.35.4.13.1.2.4
Fúria
*(16) Figueira da Foz (Portugal), 2014

13.1.2.3
Jogos de Luz
*(17) Figueira da Foz (Portugal), 2014
13.1.2.5
Símbolos
*(18) Figueira da Foz (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Telma de Jesus Monteiro Miragaia, Portugal
48.1.1.3
Furnas
*(19) Furnas, Açores (Portugal), 2014

4.1.35.4.48.1.1.2
Chá da Gorreana
*(20) Gorreana, Ribeira Grande (Portugal), 2014

48.1.1.6
Espaço termal natural
*(21) Furnas, Açores (Portugal), 2014
48.1.1.5
Poça da Dona Beija
*(22) Furnas, Açores (Portugal), 2014

35

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Ricardo Jorge Duarte Costa, Portugal
23.1.1.5
Água Viva
*(23) Serra da Estrela (Portugal), 2013

23.1.1.1
Refletindo Sonhos
*(24) Serra da Estrela (Portugal), 2014

Transversalidades

23.1.1.3
Lugar Sonho
*(25) Serra da Estrela (Portugal), 2014

I fotografia sem fronteiras

23.1.1.4
Casa Abrigo
*(26) Serra da Estrela (Portugal), 2014
23.1.1.6
United Colors
*(27) Serra da Estrela (Portugal), 2013

37

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Fernando Curado Matos, Portugal
31.1.1.3
Extração da cortiça
*(28) Herdade João Pais de Cima - Cercal (Portugal), 2013

4.1.35.4.31.1.1.1
Extração da cortiça
*(29) Herdade João Pais de Cima - Cercal (Portugal), 2013

31.1.1.2
Extração da cortiça
*(30) Herdade João Pais de Cima - Cercal (Portugal), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

31.1.1.4
O transporte das pranchas de cortiça no montado
*(31) Herdade João Pais de Cima - Cercal (Portugal), 2013

4.1.35.4.31.1.1.5
O empilhamento das pranchas
*(32) Herdade João Pais de Cima - Cercal (Portugal), 2013

31.1.1.6
A pilha final no montado
*(33) Herdade João Pais de Cima - Cercal (Portugal), 2013

39

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Maria Raquel Simões Malho Costa Pinto, Portugal
54.1.1.1
Bravos!!!!
*(34) Praia de Mira (Portugal), 2013

54.1.1.2
Muita expectativa
*(35) Praia de Mira (Portugal), 2013
54.1.1.5
A luta pela liberdade
*(36) Praia de Mira (Portugal), 2013

Transversalidades

54.1.1.3
O saco da rede
*(37) Praia de Mira (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

54.1.1.6
Remendar as redes
*(39) Praia de Mira (Portugal), 2013

4.1.35.4.54.1.1.4
Todos ajudam...
*(38) Praia de Mira (Portugal), 2013

41

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Vítor da Silva, Portugal
21.1.2.5
Pesca Artesanal 5
*(40) Vila Nova de Milfontes (Portugal), 2013

21.1.2.4
Pesca Artesanal 4
*(41) Vila Nova de Milfontes (Portugal), 2013
21.1.2.3
Pesca Artesanal 3
*(42) Vila Nova de Milfontes (Portugal), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

21.1.2.1
Pesca Artesanal 1
*(43) Vila Nova de Milfontes (Portugal), 2013
21.1.2.6
Pesca Artesanal 6
*(44) Vila Nova de Milfontes (Portugal), 2013

43

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

1.1.2.2
Sérgio Miguel Mateus dos Santos, Portugal
A serra o pastor e os moinhos
*(45) Serra da Estrela (Portugal), 2013

16.1.2.5
António Rilo, Portugal
Caramulo - Eólicas
*(46) Caramulo (Portugal), 2013

12.1.2.3
Maria Isabel Dias Nobre, Portugal
Em Paz
*(47) Sortelha (Portugal), 2013
16.1.2.6
António Rilo, Portugal
Caramulo - Mar de nuvens
*(48) Caramulo (Portugal), 2014

Transversalidades

29.1.1.3
Catarina de Fátima Pacheco Vieira, Portugal
Mestre Pico
*(49) Ilha do Faial, Açores (Portugal), 2011

38.1.1.3
Susete dos Anjos Henriques, Portugal
Lagoa do Caiado
*(50) Ilha do Pico (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

25.1.1.4
Rui Amaro da Silva, Portugal
A nuvem e a montanha
*(51) São Roque do Pico (Portugal), 2013
70.1.1.3
José Paiva, Portugal
Lago
*(52) Serra da Estrela (Portugal), 2013

45

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

84.1.1.3
Ludovico Miguel Gama Sousa, Portugal
Inércia Volátil
*(53) Ribeira de Alge, Fragas de São Simão (Portugal), 2013

41.1.1.4
Fabíola Franco Pires, Portugal
Ponte do Arco
*(54) Meadela, Viana do Castelo (Portugal), 2014

18.1.1.3
Daniela Morgado Ribeiro, Portugal
Waterfall
*(55) Paúl (Portugal), 2014
96.1.1.2
Cláudia Margarida Pereira da Costa, Portugal
Paiva a dois tons
*(56) Arouca (Portugal), 2013

Transversalidades

77.1.1.6
Joana Cecília Castro Araújo, Portugal
Pescador de Lampreia
*(57) Ponte de Lima (Portugal), 2014

46.1.1.3
Isabel Guedes Pereira, Portugal
Passadiço
*(58) Bertiandos e S. Pedro d’Arcos, Ponte de Lima (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

2.1.1.6
Carlos Antunes, Portugal
Verde
*(59) Caloura, Ilha de São Miguel, Açores (Portugal), 2013
45.1.1.2
Rui Ferreira, Portugal
Água de Laboreiro
*(60) Sul da vila de Castro Laboreiro (Portugal), 2013

47

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

75.1.1.3
Manuel Cunha, Portugal
Convento
*(61) Fundão (Portugal), 2013

75.1.1.5
Manuel Cunha, Portugal
Magenta
*(62) Fundão (Portugal), 2013

75.1.1.1
Manuel Cunha, Portugal
A Fuga
*(63) Fundão (Portugal), 2013
40.1.1.2
Mariana Filipa Chagas Faria, Portugal
O imaginável bem-me-quer
*(64) Serpa (Portugal), 2014

Transversalidades

60.1.1.4
Inês Pereira Leonardo, Portugal
No estuário
*(65) Estuário do Sado, Setúbal (Portugal), 2013

30.1.1.3
António Soeiro, Portugal
Corno
*(66) Faro (Portugal), 2014

I fotografia sem fronteiras

86.1.1.1
Manuel Alberto Azevedo Gomes Novo, Portugal
Caloptérix Haemorrhoidalis
*(67) Valdreu - Vila Verde (Portugal), 2013
60.1.1.5
Inês Pereira Leonardo, Portugal
Olhar
*(68) Sesimbra (Portugal), 2013

49

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

15.1.2.4
Manuel Abelho, Portugal
Longevidade
*(69) Castelo Novo (Portugal), 2014

19.1.2.4
Cláudia Marina Fernandes Costa, Portugal
O Pastor
*(70) Miranda do Douro (Portugal), 2013

15.1.2.3
Manuel Abelho, Portugal
Solidão
*(71) Sortelha (Portugal), 2014
76.1.1.4
Lucinda Fernandes, Portugal
Curva
*(72) Barca D’Alva (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

14.1.2.2
Rui Miguel da Cruz Feijão Moreira Marques, Portugal
Volfrâmio 2
*(73) Barroca Grande (Portugal), 2014

97.1.1.2
Susana Cristina Rodrigues Gasalho, Portugal
Ria Formosa 2
*(74) Ria Formosa, (Portugal), 2013

21.1.1.4
Jorge Feteira, Portugal
Último Caminho
*(75) Carrasqueira, Alcácer do Sal (Portugal), 2013

51

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Da concepção física do universo ao sentimento de mundo
João Lima Sant’Anna Neto *
ão seria exagerado afirmar que a concepção de mundo natural ainda se pauta
numa dualidade herdada das concepções
físicas do universo, que remontam à
renascença, quando das descobertas científicas de
Galileu Galilei e Nicolau Copérnico e, das matrizes
subjetivas contemplativas que nos foram legadas pelo
idealismo romântico, personificado por Alexander von
Humboldt.
A dualidade Racionalismo - Romantismo, quando tratamos de nossa relação com a natureza nos confronta
a todo instante. A concepção física do universo e o
sentimento do mundo nos confundem - nos unem e
nos separam - pois há uma enorme gama de tons e
matizes que possibilitam representam esta dimensão
do conhecimento e dos sentimentos.
Se a racionalidade científica nos obriga a decompor
os elementos e as dinâmicas da natureza, o idealismo
romântico nos concede o privilégio de experimentar
uma subjetividade artística e estética que nos possibilita senti-la e contemplá-la.
O mundo, além de conter as paisagens naturais,
património geogenético de nossa história geológica,
também é resultado momentâneo e cambiante, marca
edificatória da existência humana sobre a Terra. Tratase de um processo histórico-geográfico de perpétuo
metabolismo no qual as dimensões naturais e sociais
se combinam de forma indissociável.
As paisagens são frações ou fragmentos únicos de
nossa percepção espaço temporal, porém umbili-

calmente conectados à nossa existência material e
sensorial. Assim como não há paisagem desprovida
da dimensão humana, não há humanidade fora da
imanência natural. Daí, talvez, advenha o progressivo
metabolismo e a metamorfose construtiva de um
híbrido socionatural.
Não se olham as paisagens impunemente. Por meio da
visão, mas também pelo tato e por seus aromas, somos
transportados para uma dimensão em que razão e
emoção se convertem em vida.
Na mesma fração de território contida numa
paisagem, encontramos tanto os recursos naturais
explorados e obtidos pelo trabalho humano, que são
fundamentais à nossa sobrevivência material, quanto
os elementos sensoriais e, por que não dizer, metafísicos, essenciais para alimentar nossos sentimentos e
emoções.
Cada trajetória individual moldada pelas experiências
coletivas nos prepara para uma viagem fantástica
rumo ao inesperado. Se a Geografia nos revela os
fatores, os processos, os usos e as funções da paisagem,
também nos permite observar uma profusão de cores,
formas, arranjos e perfumes. As paisagens, assim, se
revelam como a plenitude da existência humana.
O que foi escrito até aqui seria uma bela história se
não houvesse a possibilidade de um contraponto.
As paisagens podem conter o todo. Mas, também,
o nada. E, ainda, infinitas quantidades de mais ou
menos qualquer coisa. Podem se referir ao nosso
cotidiano próximo ou às nossas memórias distantes,

Transversalidades

suscitando medos, fantasias, ansiedades, saudades,
desejos e necessidades.
Nesta perspectiva, a paisagem também pode “desumanizar-se”, ao ser relegada única e simplesmente à
condição de mercadoria exposta às forças econômicas
e insensíveis dos mercados. Quando se retira da
paisagem todo seu conteúdo humano, resta apenas seu
valor intrínseco à reprodução do capital.
A história da humanidade é rica em exemplos de
intervenções políticas e econômicas que mutilaram
e destruíram partes importantes deste património
natural. Desapareceu uma infinidade de santuários e
refúgios ecológicos que não sobreviveram à ganância
de determinados agentes econômicos.
A pós-modernidade tem nos ensinado que o conceito
de paisagem está sendo ressignificado para alguma coisa nebulosa que atende pelo nome de “sustentabilidade”. Este novo conceito tem a capacidade de mascarar
uma das faces mais perversas do capitalismo, que é o de
atribuir preço e valor econômico a um bem da humanidade. Ou seja, ao atribuir um preço, explica-se que
se pode vender, comprar, inutilizar, mutilar qualquer
fração da paisagem, em nome de seu valor de troca.

I fotografia sem fronteiras

As paisagens deixam de existir enquanto dimensão
indissociável dos homens para se tornar mercadoria
intercambiável. E, isto é particularmente verdadeiro
na periferia do mundo desenvolvido, em que a força
das grandes corporações globais não enfrenta (como
nos países centrais) as restrições legais e morais
impostas pelos estados nacionais e mediadas pelos
grupos sociais organizados em defesa do património
natural.
A realidade dos países mais pobres (ou menos ricos)
mostra que as fotografias ainda podem ser capazes
de poetizar e sublimar as formas das paisagens, mas
conseguem cada vez menos esconder as suas mazelas
resultantes da depredação de sua integridade. Entretanto, as imagens captadas pelo olhar mais sensível do
observador, podem ser transformadas em instrumento
de resistência para a construção de um mundo melhor.
Que o sentimento de mundo evocado pela emoção
do idealismo romântico prevaleça sobre as intensões
escusas travestidas de razão pós-moderna. Que as
imagens, como as fotografias deste livro, reveladas
pela sensibilidade humana, não sucumbam e se transformem numa força simbólica em defesa de nosso
património paisagístico.

* Professor Titular do Departamento de Geografia. UNESP/Presidente Prudente.
Texto escrito em português do Brasil.

53

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Julio Herrera, Espanha
35.1.1.4
Faro en la noche
*(76) San Esteban de Pravia (Espanha), 2014
35.1.1.6
Galerna
*(77) San Esteban de Pravia (Espanha), 2014

Transversalidades

35.1.1.1
Tempesta
*(78) Llanes (Espanha), 2014

I fotografia sem fronteiras

35.1.1.5
Olas contra la ermita
*(79) Llanes (Espanha), 2014
35.1.1.3
Frente de tormenta
*(80) Llanes (Espanha), 2014

55

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Ana Paula Moital Luis Serrão, Portugal
8.1.2.1
Sem título
*(81) Swinousjcie (Polónia), 2014
8.1.2.6
Sem título
*(82) Swinousjcie (Polónia), 2014

Transversalidades

8.1.2.4
Sem título
*(83) Swinousjcie (Polónia), 2014

I fotografia sem fronteiras

8.1.2.3
Sem título
*(84) Swinousjcie (Polónia), 2014
8.1.2.5
Sem título
*(85) Swinousjcie (Polónia), 2014

57

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Susana Wichels, Portugal
9.1.2.1
Chapinhando entre crocodilos
*(86) Phnom Penh (Cambodja), 2013
9.1.2.4
O encantador da floresta
*(87) Phnom Penh (Cambodja), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

9.1.2.2
Beleza sem Rugas
*(88) Mercado de Port Louis (Maurícia), 2013

4.1.35.4.9.1.2.3
Olhos de Azeitona
*(89) Phnom Penh (Cambodja), 2013

9.1.2.6
Dorme meu menino
*(90) Phnom Penh (Cambodja), 2013

59

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Everaldo Jacob Silva, Brasil
17.1.2.2
Burrico
*(91) Bahia (Brasil), 2011

4.1.35.4.17.1.2.3
Lucas e Matheus
*(92) Bahia (Brasil), 2012

17.1.2.6
Vassouras
*(93) Bahia (Brasil), 2012

Transversalidades

17.1.2.4
Sacos de luz
*(94) Bahia (Brasil), 2012

I fotografia sem fronteiras

17.1.2.5
Soneca
*(95) Bahia (Brasil), 2012

61

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

José Costa Pinto, Portugal
11.1.2.1
Na falésia
*(96) Muxía (Espanha), 2013

11.1.2.3
O abraço do mar
*(97) Muxía (Espanha), 2013
11.1.2.5
Aproveitar a calmia
*(98) Muxía (Espanha), 2013

Transversalidades

11.1.2.4
O preço do “pão”...
*(99) Muxía (Espanha), 2013

I fotografia sem fronteiras

11.1.2.2
Um olho no mar e outro nos perceves
*(101) Muxía (Espanha), 2013

4.1.35.4.11.1.2.6
Fazer a escolha dos perceves
*(100) Muxía (Espanha), 2013

63

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Cleidimar Isabel de Oliveira, Brasil
92.1.1.1
Lavadeira de Lençóis
*(102) Lençóis, Bahia (Brasil), 2013

92.1.1.2
Lavadeira de Lençóis
*(103) Lençóis, Bahia (Brasil), 2013

92.1.1.6
Lavadeira de Lençóis
*(104) Lençóis, Bahia (Brasil), 2013

Transversalidades

92.1.1.3
Lavadeira de Lençóis
*(105) Lençóis, Bahia (Brasil), 2013

I fotografia sem fronteiras

92.1.1.4
Lavadeira de Lençóis
*(107) Lençóis, Bahia (Brasil), 2013

4.1.35.4.92.1.1.5
Lavadeira de Lençóis
*(106) Lençóis, Bahia (Brasil), 2013

65

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

Yassmin do Rosário Santos Forte, Portugal
6.1.1.2
Barbeiro Rural
*(108) Matalane (Moçambique), 2013

4.1.35.4.6.1.1.3
Barbeiro Rural
*(109) Matalane (Moçambique), 2013

6.1.1.1
Barbeiro Rural
*(110) Matalane (Moçambique), 2013
6.1.1.4
Barbeiro Rural
*(111) Matalane (Moçambique), 2013

Transversalidades

39.1.1.5
Erica Montilha, Brasil

20.1.1.4
Augusto César Cunha Pessoa, Brasil

A Espera do Bem-te-vi

Pedras ao sol
*(114) Lajedo de pai mateus (Brasil), 2014
58.1.1.4
Lethicia Cardoso Galo, Brasil

*(112) Marília-SP (Brasil), 2013

56.1.1.1
José António Remoaldo Patrício, Portugal
Silenciada
*(113) Quintela (Espanha), 2013

I fotografia sem fronteiras

A unidade
*(115) Aparecida (Brasil), 2014

67

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

28.1.1.3
Diego de Holanda Saboya Souza, Brasil
Contra a gravidade
*(116) Praia do Aventureiro, Ilha Grande (Brasil), 2014

90.1.1.1
Josué Carvalho Viegas, Brasil
Furtacor
*(117) Amazônia Legal, Maranhão (Brasil), 2014

44.1.1.2
Leonice Seolin Dias, Brasil
Arara do Morro do Diabo
*(118) Teodoro Sampaio, SP. (Brasil), 2013
34.1.1.3
Daniela Carreira Peralta, Portugal
Simulacro de ti
*(119) Saarschleife (Alemanha), 2014

Transversalidades

50.1.1.2
Pedro Jorge Gomes Camacho de Almeida, Portugal
Five Sisters of Kintail
*(120) Escócia (Inglaterra), 2013

14.1.1.5
Miguel Julian Ortiz Jaramillo, Colombia
Atardecer colombiano
*(121) Santa Marta (Colombia), 2013

I fotografia sem fronteiras

50.1.1.3
Pedro Jorge Gomes Camacho de Almeida, Portugal
Baía na península de Shieldaig
*(122) Escócia (Inglaterra), 2013
1.1.1.1
Carlos Henchoz, Costa Rica
Dia 1
*(123) Heredia (Costa Rica), 2013

69

1

I Paisagens, biodiversidade e património natural

13.1.1.6
Sara Augusto, Portugal

36.1.1.3
Mónica Henriques, Portugal

Tarde

Pórtico Fluvial
*(126) Florença (Itália), 2013
74.1.1.1
Luis Iglesias Pérez, Espanha

*(124) Transilvânia (Roménia), 2013

22.1.1.4
Emanuela Ribeiro Rodrigues, Brasil
O voo
*(125) Goiás (Brasil), 2013

Naturalesa Comtemplada
*(127) Tarragona (Espanha), 2013

Transversalidades

66.1.1.4
Eduardo Filipe Fernandes Realinho, Portugal
Pavão
*(128) Évora (Portugal), 2014

I fotografia sem fronteiras

51.1.1.4
Vanessa Alexandra Ribeiro Batista, Portugal
Observo, sinto tal como tu
*(130) Istambul (Turquia), 2013

5.1.2.3
José António Rodrigues de Almeida Pereira, Cabo Verde
Caravela
*(129) Mindelo, S. Vicente (Cabo Verde), 2014

71

TEMA 2
Espaços rurais,
povoamento
e processos
migratórios

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios
Prémio Tema

Juan Manuel Hernández López, Espanha
7.2.2.1
En las gargantas del todra
*(131) Gargantas del todra (Marrocos), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

75

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios
Menções honrosas

Alfonso Ferrer Yus, Espanha
11.2.2.2
Entrando la hierba
*(132) Serveto, Huesca (Espanha), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Miguel Sobral Cardoso, Portugal
14.2.2.2
Família
*(133) Lamego (Portugal), 2013

77

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

Sociedade rural e espaço
Carminda Cavaco *
sociedade contemporânea é urbana, não
rural, mesmo se o urbano se identifica largamente com o suburbano, desordenado,
degradado, sem qualidade, algo clandestino, onde proliferaram os bairros de habitações ilegais
pobres e tristes, e até os bairros de lata, que entre nós
só foram tardiamente eliminados. E como reverso, o
declínio do rural tradicional e agrícola, ao nível dos
espaços e correspondentes sociedades: pobreza de rendimentos, alargamento dos incultos, matos e floresta,
êxodo e desvitalização, isolamento e regressão demográfica, marginalização de espaços de vida, degradação
das infra-estruturas, mesmo dos acessos, rarefacção dos
serviços… Mas sobretudo novas relações entre os homens e os espaços, entre as cidades e os campos, novas
utilizações dos espaços rurais e novas ruralidades, com
valorização das funções não produtivas da agricultura
e das amenidades rurais, atributos naturais ou fruto
das acções humanas, os «Serviços Colectivos dos
Espaços Naturais e Rurais»: ambiente e biodiversidade,
qualidade e disponibilidade da água, paisagens não
banais, identitárias e atractivas, produtos de qualidade,
agrícolas e artesanais, património, das construções às
tradições, passando pela gastronomia, qualidade de
vida, recreação, etc.
O desenvolvimento rural ganha novas vertentes, para
além da modernização agrícola, da reestruturação
parcelar, das novas culturas e das novas técnicas, das
produtividades brutas, dos custos e dos rendimentos
líquidos, da renovação do universo empresarial: outras
populações, outros ritmos quotidianos, não determinados pelas estações, ou pelo nascer e pôr do sol, outras
relações sociais e espaciais, novas hierarquias, novos

valores e novos comportamentos, novos padrões de
consumo, novas modas, economias mais monetárias,
dos que chegam, dos que partem e também dos que
ficam, incluindo os rurais agrícolas, camponeses e
assalariados (pensões de velhice dos rurais), e novas
dependências.
Portugal exemplifica claramente a decadência dos
espaços rurais tradicionais ao longo do século passado.
Depois dos máximos demográficos dos anos 30 mas
sobretudo dos meados do século, êxodo, emigração, secundarização da actividade agrícola (pluriactividade e
plurirrendimento), abandono do trabalho nos campos,
extensificação dos sistemas de cultivo, alargamento de
incultos, florestação, multiplicação das ausências, já
não apenas sazonais nem limitadas aos espaços nacionais, despovoamento e abandono de lugares e aldeias,
envelhecimento da população residente, mais ainda
da agrícola. Valorizaram-se os empregos na indústria
próxima (minas, têxteis e calçado, pasta de papel), na
construção civil, nos transportes, no pequeno comércio
e nos serviços em geral (camionistas, guardas fiscais,
polícias, contínuos, comércio de distribuição), concentrados nas vilas e cidades, sobretudo nas áreas litorais.
A favorecer a mudança, a difusão da escolaridade,
o alargamento de horizontes (rádio e televisão), as
vivências quotidianas nos destinos da emigração e nas
próprias campanhas das guerras em África, as novas
oportunidades de trabalho feminino, nomeadamente
no têxtil e nos serviços, as crescentes mobilidades
espaciais, as novas estradas e os novos meios de
transporte (motorizadas, camionetas, automóveis
particulares), encurtando distâncias, aproximando os

Transversalidades

diferentes espaços de vida. Todavia, em sentido inverso, modernização agrícola localizada e estruturalmente
selectiva, e sobretudo novo conforto rural: água, luz
eléctrica, gás, televisão e telefone, transportes motorizados, acessibilidades modernas, escolas e infantários,
serviços médicos, assistência à terceira idade (IPSS,
lares, centros de dia, apoios domiciliários), outra qualidade de vida, outras condições na velhice.
Claro que persistem algumas situações dramáticas de
isolamento, solidão, abandono, na ausência de familiares, vizinhos e amigos e em lugares de casas prolongadamente vazias, mesmo em ruína, onde já não chega
regularmente o carteiro, o padeiro, o vendedor ambulante, onde falta mesmo a missa dominical, ocasião de
encontro, de informação, de recreio. Situações a que
a comunicação social vem dando atenção, um pouco
ao acaso ou com programas específicos, recorrendo ao
saber de especialistas de grande prestigio e capacidade
comunicacional, como António Barreto (Portugal,
Um Retrato Social, RTP).
Neste novo Portugal rural justapõem-se modernidades
e arcaísmos. Por um lado, parcelamento e fragmentação predial, mediocridade das produções, variedades
tradicionais, modos de cultivo orgânicos, sociedades
camponesas algo tradicionais, pequenas produções
largamente para auto consumo e partilha por filhos
e netos, mesmo quando ausentes (batatas, couves,
azeite e vinho, ovos e «criações», …). Mas por outro,
intensificação dos sistemas de produção, modernização
tecnológica, mecanização, adubos químicos, pesticidas,
novos sistemas de rega, renovação das plantações
(vinha, olival, pomares) e dos efectivos animais,
novas variedades e novas culturas comerciais, mesmo
especializações individuais, locais ou regionais, valorizadas pelo mercado, também floresta de rendimento
(pinhal, eucaliptal, montado), e no final, aumento das

I fotografia sem fronteiras

produtividades e dos rendimentos. Sem esquecer as
compensações ambientais nos sistemas extensivos e de
agricultura marginal: políticas comunitárias agrícolas
e de desenvolvimento rural e local, políticas regionais
e políticas orientadas para os espaços objecto de protecção ambiental.
No geral, pluriactividade e plurirrendimento ao nível
dos indivíduos e das famílias, aceleração das mobilidades, proximidade de aldeias, vilas e cidades, migrações
pendulares para os centros de emprego e de serviços,
quadros de vida alargados, esbatendo quotidianamente
as distâncias entre cidade e campo. E também atracção residencial de novos habitantes de origem urbana,
pelas condições e quadros de vida (ambiente, segurança, convivialidade, modos de vida mais sustentáveis),
urbanização (sociológica e física) das aldeias, fluidez
da fronteira rural urbano, desaparecimento do rural
profundo, mesmo do rural autêntico.
Mas as diferenças permanecem, a favor dos campos
e ao sabor das estações: verdes dos lameiros e dos
pinheiros; amarelos e brancos dos giestais e estevais
floridos, vermelhos e castanhos outonais das vinhas e
dos carvalhais; riachos que cantam; pássaros a chilrear,
pores de sol inesquecíveis, cimos que se elevam ao
encontro das nuvens, céus estrelados, ar puro, sombras,
brisas frescas, alimentos com outros sabores, receitas
com história, casas de pedra e de taipa, tectos de cana,
cobertura de telhas de canudo, contrastes fortes com
as casas dos emigrantes, com elementos de outras
culturas, aldeias medievais cuidadosamente renovadas,
pombais e velhos castelos sem funções, festas populares, tradições e crenças, saberes e saberes-fazer…
Acrescem populações genuinamente acolhedoras,
orgulhosas das terras e das suas gentes, abertas ao
diálogo, disponíveis para uma boa conversa, algo
79

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

pobres mas generosas, que gostam de partilhar o que
têm, mesmo de receber os de fora, que não conhecem,
nunca viram, mas que sabem que de uma forma ou de
outra convivem com os seus ausentes, na cidade distante, na França, no Brasil, na Venezuela… Gente que
se conhece, se entreajuda e também ajuda os de longe,
anos atrás os retornados e hoje os da cidade, portadores da mesma língua ou de outras línguas, explorando
então outras formas de comunicação e compreensão,
outros linguajares….

de outros modos de vida, como ser agricultor, pastor
ou contrabandista, longe da artificialidade dos meios
urbanos, bem mais tecnológicos e densos, dos seus
verdes «artificiais» (parques e jardins) e das suas
atmosferas construídas, sonoras e poluídas. Sem esquecer um «turismo residencial» orientado para a terceira
idade e as suas debilidades e dependências físicas: residências assistidas, lares; clientelas regionais, nacionais
e estrangeiras, das classes média e alta, com adequado
nível de rendimentos.

Citadinos que se instalam, que habitam os mesmos
lugares, que até pretendem cultivar e produzir; citadinos que adquirem e renovam velhas habitações, para
residências de férias e mais ainda residências secundárias; e citadinos que apenas visitam, em estadas curtas
ou de passagem. Turismo da natureza, ecoturismo e
etnoturismo, turismo rural, turismo cultural e patrimonial, turismo gastronómico; mudança de ares e de
ambientes, retorno ao mundo dos avós, a um passado
perdido, a uma ruralidade «mítica»; descoberta, novas
experiências e aprendizagens múltiplas; repouso, recreação, contemplações, mas igualmente caminhadas,
passeios de burro, de bicicleta ou de tractor, «ensaios»

Novas expressões da multifuncionalidade dos espaços
rurais em todos os países desenvolvidos, mesmo onde a
agricultura produtiva ainda domina claramente a paisagem, e que ajuda a viabilizar a presença de comércios
e serviços que amenizam os quotidianos dos próprios
rurais-agrícolas e de todos os rurais residentes, jovens
e menos jovens, estudantes, activos ou reformados.
Uma ruralidade compósita que cruza funcionalidades
e mobilidades, trabalho e lazer, produção e consumos
múltiplos, natureza e paisagem, ambiente e tradição,
nostalgias e rotinas, liberdades e dependências, autonomias e solidariedades. E modos diferenciados de
habitar…

* Geógrafa. Universidade de Lisboa.

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Ilda Susete Ferreira Fernandes Correia, Portugal
20.2.1.3
Regaço
*(134) Mira (Portugal), 2013

4.1.35.4.20.2.1.6
Maçã da boa fortuna
*(135) Rebordaínhos, Bragança (Portugal), 2013

20.2.1.1
Sozinhos na paisagem
*(136) Sarracin de Aliste, Zamora (Espanha), 2013
20.2.1.2
A Máscara
*(137) Montamarta, Zamora (Espanha), 2013

81

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

João Pedro Costa, Portugal
21.2.1.3
Manjedoura
*(138) Vila do Bispo (Portugal), 2014

4.1.35.4.21.2.1.1

*(139) Monte da Vinha, Alfambras, Aljezur (Portugal), 2014

21.2.1.5
Curral
*(140) Monte Novo, Alfambras, Aljezur (Portugal), 2014

21.2.1.2
Entrosga
*(141) Monte da Vinha, Alfambras, Aljezur (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Rui Diogo Castela da Silva Neves, Portugal
32.2.1.5
Banco de suplentes
*(142) Alentejo (Portugal), 2014

4.1.35.4.32.2.1.4
Reboque
*(143) Alentejo (Portugal), 2013

32.2.1.1
Paragem
*(144) Alentejo (Portugal), 2013
32.2.1.3
Caixa de correio
*(145) Alentejo (Portugal), 2014

83

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

Bruno Andrade, Portugal
6.2.1.4
Sapateiro
*(146) Dornelas (Portugal), 2014

4.1.35.4.6.2.1.1
Desfolhada
*(147) Dornelas (Portugal), 2013

6.2.1.2
Palhoceiro
*(148) Souto de Aguiar (Portugal), 2014

Transversalidades

6.2.1.3
Queimada
*(149) Dornelas (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

6.2.1.6
Vindima
*(150) Dornelas (Portugal), 2013

6.2.1.5
Tosquia
*(151) Forninhos (Portugal), 2013

85

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

Isaura Fátima Oliveira Santos, Portugal
9.2.2.1
Ciclo do linho 1
*(152) Penacova (Portugal), 2013

9.2.2.3
Ciclo do linho 3
*(153) Penacova (Portugal), 2013

9.2.2.2
Ciclo do linho 2
*(154) Penacova (Portugal), 2013

Transversalidades

9.2.2.5
Ciclo do linho 5
*(155) Penacova (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

9.2.2.6
Ciclo do linho 6
*(156) Penacova (Portugal), 2013
9.2.2.4
Ciclo do linho 4
*(157) Penacova (Portugal), 2013

87

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

José Manuel da Conceição Baptista, Portugal
18.2.1.2
Catavento - cegonhas 2

18.2.1.3
Catavento - cegonhas 3

*(158) Idanha-a- Nova (Portugal), 2014

*(160) Idanha-a- Nova (Portugal), 2014

4.1.35.4.18.2.1.6
Catavento - Apanha da azeitona
*(159) Ponte do Tabuado, Ferreira do Zêzere (Portugal), 2014

18.2.1.1
Catavento - cegonhas 1
*(161) Idanha-a- Nova (Portugal), 2014

Transversalidades

14.2.1.2
Isidro Manuel Rito Vieira, Portugal
Preparação
*(162) Ilha Terceira, Açores (Portugal), 2013

14.2.1.3
Isidro Manuel Rito Vieira, Portugal
Espelho de água
*(163) Ilha Terceira, Açores (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

4.2.1.2
José Freitas, Portugal
Ruínas
*(164) Mina de São Domingos (Portugal), 2013

27.2.1.1
Gilda Maria Rodrigues Pereira, Portugal
Esquecimento 1
*(165 ) Corte António Martins (Portugal), 2014

89

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

29.2.1.5
Catarina Isabel Martins Balula, Portugal
Outros tempos
*(166) Freixedas, Pinhel (Portugal), 2014

37.2.1.2
Joana Pais, Portugal
Caracterizar
*(167) Piódão (Portugal), 2014

13.2.1.1
José Guerra, Portugal
Magusto da Velha
*(168) Aldeia Viçosa, Guarda (Portugal), 2013
31.2.1.1
Inês Silva Carvalho, Portugal
Fim de tarde
*(169) Videmonte, Guarda (Portugal), 2014

Transversalidades

3.2.1.3
Vasco da Assunção Ribeiro Morais, Portugal
Esfolhar do Milho

5.2.1.2
Micael António Maria Nussbaumer, Portugal
Vareja

*(170) Perre, Viana do Castelo (Portugal), 2013

*(172) Quinta de São Pedro, Beja (Portugal), 2013

3.2.1.2
Vasco da Assunção Ribeiro Morais, Portugal

5.2.1.3
Micael António Maria Nussbaumer, Portugal

Apanha da gravalha
*(171) Perre, Viana do Castelo (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

Campanha da azeitona
*(173) Quinta de São Pedro, Beja (Portugal), 2013

91

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

12.2.2.2
José Monteiro Fernandes, Portugal
O terço
*(174) Santa Eufêmia (Portugal), 2013

12.2.2.3
José Monteiro Fernandes, Portugal
O Salvador
*(175) Santa Eufêmia (Portugal), 2013

14.2.2.1
Miguel Sobral Cardoso, Portugal
Descanso
*(176) Tabuaço (Portugal), 2013
22.2.1.6
Patrícia Isabel Lopes Ferreira, Portugal
O Pão de cada dia
*(177) Busturenga, Albergaria-a-Velha (Portugal), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Grande sertão: veredas. O Homem, o Campo e suas (inter)
relações
Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro *
1. As relações Homem – Natureza sob a mediação
do divino 1
ntes de abordar a sequência de momentos
relevantes ao longo dos tempos históricos
– concernentes à cultura dita ocidental
– nos diferentes espaços da superfície
terrestre e segundo diferentes divindades das religiões,
vou tentar o confronto mais contrastante possível
entre as condições do ARCAICO (primitivo) e do
HIPERMODERNO.
A implantação do Homem na superfície terrestre observa duas situações contrastantes, concentrada (a aldeia, burgo, cidade), dispersa (os campos de cultivo) e
aquele ainda não efetivamente ocupada, deixado como
primitiva forma da natureza. Sendo o homem um
animal gregário, que vive em comunidades sociais, sua
primeira preocupação é instalar-se abrigada e confortavelmente em casas, em família, criando um espaço
por ele “ordenado”, diferentemente da natureza, ainda
desconhecida, misteriosa, aparentemente o domínio
do “caos”. Além do espaço de instalação ordenado e
protegido, no centro do qual se cultua e rende graças
às divindades protetoras, há aquele outro onde o
homem trabalha e do qual retira o seu sustento, onde
a cobertura primitiva foi substituída por espécies selecionadas de plantas e animais domesticados. O núcleo
de concentração, germe da urbs, é circundado pelos
campos de cultivo, afastando do homem aquela reserva de natureza misteriosa, cheia de perigos e surpresas,
de onde provêm os “estrangeiros” e cuja exploração e

conhecimento devem ser feitos com cautela. O caráter
sagrado do(s) núcleo(s) família(es), embrionários da
comunidade social, contrasta com aquele profano
da “natureza”. O campo representa assim o papel de
intermediário entre o domínio organizado do cosmo
e aquele ainda não conquistado do caos. Poderíamos
designar o núcleo social como VERNA, o lugar, e os
campos circundantes como ADVENA.
A designação de arcaico poderemos aplicar tanto à
ocupação de sociedades ditas primitivas, como a das
nossas comunidades indígenas, quanto à conquista da
floresta temperada nas latitudes média-altas da Europa
Ocidental, quando os invasores bárbaros do Norte desagregaram o Império Romano, gerando novas nações,
novas línguas conduzidas pelas ordenações cristãs,
instauradoras da Idade Média.
Dando maior amplitude a esse arcaico, podemos
utilizar esse primeiro esquema para aquele tratamento
geográfico de uma época definida historicamente (final do século XIX e primeira metade do XX) quando
as relações homem-natureza eram encaminhadas para
o estudo dos géneros de vida - segundo os grandes
biócoros ou faixas climáticas -, tipos de habitat rural
e os primórdios do estudo das cidades (sítio-posição;
forma-função, etc.).
Dando um salto para o outro extremo - o do hipermoderno - constatamos que aqueles atributos inverteramse. A aglomeração primitiva cresceu, agigantou-se ampliada em área, verticalizada e inchada de população,
93

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

onde as edificações e engenharias de infra-estrutura
modificaram substancialmente o primitivo quadro
geoecológico com a ampliação dos campos circundantes sobre a primitiva natureza - pari passu com o
progresso dos conhecimentos adquiridos sobre ela - explorada em seus recursos e consideravelmente reduzida.
A cidade tornou-se agigantada pela industrialização
e perturbada pela crescente velocidade nos meios de
circulação. Os meios de comunicação altamente desenvolvidos, revolucionaram a vida na cidade, facultandolhe que, expandida em condomínios fechados, centros
comerciais, centros empresariais, etc., etc, intrometa-se
pelos campos. Observando-se as oposições notamos
que elas se inverteram. A cidade, degradada, passou a
acumular os epítetos negativos, tornando-se o domínio
do mal e do profano. Os restos de natureza diminuídos,
mas melhor conhecidos, passam a ser o domínio do
bem, do sagrado onde, ao contrário da cidade, dispõese de ar puro, do verde, das áreas de recreação e lazer
que a fazem merecedora de proteção.

2. As relações cidade – campo

2

Parece-me da maior relevância ter consciência das mudanças que os novos progressos tecnológicos poderão
trazer-nos no futuro, ou seja as relações cidade-campo.
Num primeiro momento, a importância crescente da
urbanização mas significativas mudanças, ou mesmo
transformações nas cidades, levar-nos-iam a pensar
que nesta era de “globalização” teríamos de admitir
que a presença do homem na Face da Terra implicará,
forçosamente, na geração de uma “sociedade urbana”.
Contudo, diante dessas profundas mudanças impostas
sobretudo pelos subsídios da ciência e tecnologia, fadadas a um maior progresso no século entrante, não será
absurdo pensar ou admitir que venha a ocorrer uma
consequente modificação nas relações cidade-campo.

Incorporando tudo aquilo que foi dito a propósito do
paralelo entre a cidade arcaica e a cidade atual, exibindo o triângulo “cidade-campo-natureza”, cabe refletir
sobre as tendências atuais na interpretação dos modos
de viver urbano e rural.
Diante de tais evidências nas relações cidade-campo, é
o caso de nos formularmos questões tais como: Quais
as possibilidades de que a cidade do futuro venha a
ser organizada (planejada ou corrigida) segundo os
cânones vigentes agora em plena grande crise? Se já
existem evidentes sinais de interpenetração entre o
urbano e o rural – a cidade espalhando-se pelo campo
circundante sob a forma de condomínios fechados
(complicando os limites dos primitivos urbano e rural
e a cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano
– IPTU) e o rural remetendo à cidade levas contínuas
de sem-terra para se tornarem citadinos sem-teto – não
haverá possibilidade de alcançar novos termos nesse
relacionamento?
O entrosamento entre os modos de viver na cidade
e no campo implica no sério problema que a concentração (urbana) e a dispersão (rural) acarretam em
termos económicos da engenharia de infra-estrutura.
Enquanto a primeira é mais conveniente do ponto de
vista social e implica em menos gastos para as obras
básicas, a segunda favorece as condições climáticas,
ambientais, resultando em ampliação considerável das
redes de obras infra-estruturais.
Embora apenas apresentando tendências e vestígios
não é possível negar ou afirmar as possibilidades de
novos modos de vida entrosando o urbano-industrial
ao rural-recreacional. Diante de tantas mudanças,
quem sabe não estaremos na soleira de um novo modo
de organização dos espaços condizente com uma “nova
civilização” que está germinando? O que não parece

Transversalidades

razoável é que, com tanto fastígio tecnológico, não
possamos resolver os graves problemas de uma estruturação urbana debilitante, acompanhada de um sério
desequilíbrio das estruturas demográficas e sociais
condicionadas a um ambiente nefasto. Principiamos fazendo apelo ao Mito de Édipo e à utopia da Atlântida,
colhidos na matriz cultural grega de nosso universo
dito ocidental. Diante de tantos problemas que afetam
o modo de viver do homem na face da Terra, no início
deste terceiro milénio da era cristã, é claro que não
pode ser descartada a validade da UTOPIA. Para propô-la é indispensável uma compreensão profunda dos
reais problemas, para poder projetar as possíveis soluções em outros níveis de combinações das diferentes
variáveis e em outras escalas diferentes daquelas atuais.
Uma projeção futura do ideal assentado na realidade
do presente.

3. Grande sertão: veredas
O pacto das Veredas Mortas 3. Como geógrafo, desde o
final dos anos oitenta vinha atrevendo-me a focalizar a
obra de Guimarães Rosa com o intuito de, em algumas
de suas produções, extrair-lhe o conteúdo geográfico.
(…) Preocupa-me esclarecer que não há, de minha
parte, qualquer pretensão de caráter “literário”. Creio
que o grande interesse de que dispunha a produção
roseana, e o caráter fundamentalmente “aberto” de
sua obra, justificaria múltiplas abordagens, partidas
de estudiosos das mais diferentes áreas. Ao afastar-me
do viés geográfico penso credenciar-me como um
leitor muito interessado, disposto a aceitar os desafios
lançados pelo próprio autor – como era seu declarado
propósito – na leitura de sua obra. (…)
Tenho procurado dar-me conta do que se vem produzindo sobre a literatura roseana, pelo menos no que

I fotografia sem fronteiras

há de mais relevante, mas, certamente, não tenho a
pretensão de estar informado de tudo. Constato que
a monumentabilidade da obra roseana abre-se às mais
variadas preocupações e abordagens. Assistimos ao
crescimento de abordagens. Assistimos ao crescimento
de abordagens pela crítica literária especializada, pelos
filólogos e outros estudiosos das letras; psicólogos
e analistas focalizaram as personagens; geógrafos
sondam, uns, a toponímia e veracidade dos lugares,
enquanto outros se preocupam com aspectos mais
profundos da realidade espacial; filósofos, cientistas
sociais, biólogos, vêm juntar-se atraídos pela abertura
dessa alta literatura aos mais variados campos dos
saberes.
O espaço iluminado no tempo volteador 4. Numa entrevista, recordando a infância, o escritor João Guimarães Rosa declarava-se arredio aos adultos, recolhendose às suas preferências: “estudar sozinho e brincar de
geografia”. Ao associar a geografia a uma atividade
lúdica, Rosa demonstra que, para um menino solitário,
“viajar” pelo mundo era atividade prazerosa.
Sua formação em medicina respondia àquele seu lado
cientista-amante do naturalismo: botânica e zoologia.
Mas sua fraca vocação para o exercício da medicina
exibiu outros tesouros de sua sabedoria, como ser poliglota, estudioso compulsivo de muitas línguas e leitor
onívoro de literaturas, religiões e filosofias. Tesouro
que, em se acumulando, vai privilegiar sua vocação
suprema como escritor.
O fascínio pelo mundo, que o leva à diplomacia, fará
enriquecer, com o estudo, aquilo que fora brincadeira
em geografia. Em suas funções no Itamaraty, foi diretor
de Divisão de Fronteiras e representante do Ministério
das Relações Exteriores junto ao Conselho Nacional
de Geografia, do IBGE.
95

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

Assim, do lúdico ao erudito, a geografia aflorará, de
modo destacado, na sua obra. O herói de Grande
sertão: veredas – Riobaldo –, também ele, demonstra
pendores geográficos. “Tive mestre, Mestre Lucas, no
Curralinho, decorei gramática, as operações, regra de
três, até Geografia e Estudo Pátrio. Em folhas grandes de
papel, com capricho, tracei bonitos mapas” (p.15-6).
Um forte pendor que, na Geografia do Brasil, direciona o escritor das Minas Gerais para o Sertão. Minas
sem mar, interiorizada no Sertão.
O sertão no Brasil e no mundo (uma bifacialidade
janusiana). Na longa narrativa pela qual se estrutura
o romance Grande sertão: veredas tem-se enfatizado,
com insistência, o dualismo ensejado pelo falso
diálogo entre o ex-jagunço Riobaldo e seu ouvinte
invisível: o campo inculto em face do saber citadino
erudito. Talvez o meu lado geógrafo leve-me a propor
acrescentar aquele outro entre o litoral e o interior.
Nas dimensões continentais da geografia brasileira
avulta aquele dualismo – significativo embora alegórico – entre a face externa de Janus, expressa pelo
litoral, aberto às comunicações com outras regiões,
onde chegam as novidades, importam-se necessidades
e exportam-se disponibilidades, em contraste com
aquela voltada para o interior, ignota em princípio,
lentamente conquistada.
Enquanto a face externa (litorânea) abre-se às trocas,
intercâmbios e facilidades de mudanças, aquela inter-

na – num espaço, mas distanciado no qual o tempo
flui mais lentamente – indutora da conservação,
do mergulho sobre si mesmo, do refúgio. Enfim, a
oponência básica e fatalmente complementar entre
a integração (face externa) e a auto-afirmação (face
interna).
Sentimento contrastante perceptível em todos os
países de grande extensão, nos diferentes continentes
onde se diferenciam o avant e o arrière pays, dos francófonos, o front e back lands dos anglófonos. Talvez
pela associação ao coração “desértico”, isso é especialmente sensível na Austrália, onde a implantação
britânica no litoral foi um suave “transplante” para um
domínio subtropical em violento contraste com o out
back do bush degradando-se até o deserto, preservador
do aborígine e escassamente aberto à coragem audaciosa do “jakaroo”.
Dentro da polissemia brasileira dos sertões – de feições
geográficas bem variadas –, a constante fundadora da
semântica do termo parece estar vinculada a interior.
As Minas Gerais, conquistadas do final do século
XVII, e especialmente ao longo do XVIII, juntando a
mineração à pecuária, são bem um domínio interior,
no qual as ocorrências de sertões permitem a proposta
roseana de um Grande sertão. Face interna, de auto-afirmação (rebeliões, inconfidências vingando ali
antes do litoral), de desconfianças, de cautelas. Face
interior que é a base de uma mineiridade da qual Guimarães Rosa é uma magnífica expressão.

* Geógrafo. Professor Emérito da Universidade de S. Paulo.
Texto escrito em português do Brasil.
1 Mudanças nas relações sociedade - natureza e seus reflexos na Geografia. In Geografia sempre. O homem e seus mundos. Edições Territorial, Campinas,

2008, pp. 81-82.

2 A cidade como reflexo da relação homem-natureza. Limitações do planeamento. In ob.cit., pp. 146-147.
3 O pacto das Veredas Mortas. In ob.cit., pp. 151-152.
4 O espaço iluminado no tempo volteador (Grande sertão: veredas). Estudos Avançados 20 (58), 2006.

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Marcelo Xavier Costa, Brasil
5.2.2.4
Casebre
*(178) Jalapão, Estado do Tocantins (Brasil), 2013

4.1.35.4.5.2.2.3
Capim Dourado
*(179) Jalapão, Estado do Tocantins (Brasil), 2013

5.2.2.5
Juventude do Jalapão
*(180) Jalapão, Estado do Tocantins (Brasil), 2013
5.2.2.6
Contando histórias
*(181) Jalapão, Estado do Tocantins (Brasil), 2013

97

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

Dina Teresa Diniz Alenquer, Portugal
6.2.2.1
Casa Principal da Aldeia Parará Púru (Povoação da Palmeira)
*(182) Parará Púru (Panamá), 2013
4.1.35.4.6.2.2.6
Cozinha da Aldeia Parará Púru (Povoação da Palmeira)
*(183) Parará Púru (Panamá), 2013

6.2.2.4
Crianças Parará Púru (Povoação da Palmeira)
*(184) Parará Púru (Panamá), 2013

Transversalidades

6.2.2.2
Mulher anciâ Parará Púru (Povoação da Palmeira)
*(185) Parará Púru (Panamá), 2013

I fotografia sem fronteiras

6.2.2.3
Mulheres jovens com seus filhos Parará Púru (Povoação da Palmeira)
*(186) Parará Púru (Panamá), 2013

6.2.2.5
Criança Parará Púru (Povoação da Palmeira)
*(187) Parará Púru (Panamá), 2013

99

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

Alfonso Ferrer Yus, Espanha
11.2.2.5
Polvo
*(188) Robres, Huesca (Espanha), 2014

4.1.35.4.11.2.2.3
Huerto
*(189) Serveto, Huesca (Espanha), 2013

11.2.2.4
Pastor
*(190) San Juan de Plan, Huesca (Espanha), 2014
11.2.2.1
El dallo
*(191) Serveto, Huesca (Espanha), 2013

Transversalidades

8.2.2.1
Rodrigo Lima, Brasil
Casa sem teto
*(192) Minas Gerais (Brasil), 2013

9.2.1.3
Alicia Manso García, Espanha
Fuente de vida
*(193) Candelario, Salamanca (Espanha), 2014

I fotografia sem fronteiras

8.2.2.6
Rodrigo Lima, Brasil
Casa sem teto
*(194) Minas Gerais (Brasil), 2013
7.2.2.2
Juan Manuel Hernández López, Espanha
Abrevando al ganado
*(195) Valles del Todra (Marrocos), 2014

101

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

2.2.2.2
Miguel Julian Ortiz Jaramillo, Colombia
Trabajo en el campo
*(196) Arbelaez Cundinamarca (Colombia), 2013

4.2.2.3
Armando Manoel Neto, Brasil
Panela, fogão e cozinha de barro
*(197) Quilombo Terra Seca, Estado de São Paulo (Brasil), 2013

7.2.2.3
Juan Manuel Hernández López, Espanha
Taller de bicicletas
*(198) Cercanías de Zagora (Marruecos), 2014
1.2.2.2
Marília Fontenele Magalhães Muniz, Brasil
Pescador da cidade grande
*(199) Belém do Pará, Pará (Brasil), 2013

Transversalidades

12.2.1.1
Daniel Jesús Sánchez Escalera, Espanha
El lector de Cervantes.
*(200) Marchena, Sevilla (Espanha), 2014

28.2.1.1
Jairo Marcos, Portugal
Olivença - Olivenza 01
*(202) Olivenza (Espanha), 2014

17.2.1.2
Miguel Angel Peláez González, Espanha

11.2.1.1
Regys Loureiro de Macêdo, Brasil

Cargadero de Mineral

Saída para a Ilha dos Marinheiros
*(203) Rio Grande, RS (Brasil), 2014

*(201) Torrelavega (Espanha), 2013

I fotografia sem fronteiras

103

2

I Espaços rurais, povoamento e processos migratórios

12.2.1.4
Daniel Jesús Sánchez Escalera, Espanha
Arrozal en Aznalcazar
*(204) Lora del Río, Sevilla (Espanha), 2013

17.2.1.1
Miguel Angel Peláez González, Espanha
Caminos del Besaya
*(205) Barcena de Pie de Concha, Cantabria (Espanha), 2013

19.2.1.3
Pedro Antunes da Costa, Portugal
Um olhar sobre o luxo chinês
*(206) Coloane, Macau (China), 2014
19.2.1.2
Pedro Antunes da Costa, Portugal
The pilgrimage reach its end.
*(207) Khamryn Khiid (Mongolia), 2013

Transversalidades

24.2.1.1
Marina Ling Wang, Brasil

24.2.1.2
Marina Ling Wang, Brasil

Vida Rural 1

Vida Rural 2
*(209) Bundhi (India), 2013

*(208) Bundhi (India), 2013

I fotografia sem fronteiras

105

TEMA 3
Cidade
e processos
de urbanização

3

I Cidade e processos de urbanização
Prémio Tema

José Carlos Silva, Portugal
18.3.1.4
Mural da história
*(210) Lisboa (Portugal), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

109

3

I Cidade e processos de urbanização
Menções honrosas

Alexandre da Luz Mendes, Portugal
14.3.2.6
Edifício
*(211) Portimão (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Paulo Alexandre da Costa Fernandes, Portugal
8.3.2.5
Uma cidade, muitas vidas (V)
*(212) Porto (Portugal), 2014

111

3

I Cidade e processos de urbanização

Mil cidades. E em cada cidade outras tantas cidades
João Ferrão *
ivemos num mundo crescentemente
urbano, em que uma proporção cada vez
maior da população habita e trabalha em
espaços a que chamamos cidades. Curiosamente, coexistem as mais diversas definições de
cidade. E também sabemos, por experiência própria,
como as cidades, mesmo as de pequena dimensão, acolhem no seu interior áreas, bairros ou simplesmente
recantos de uma diversidade inesperada para quem as
observa de fora e de longe.
A cidade é, antes de mais, variedade, densidade, interação. Por isso é tão difícil captá-la fotograficamente.
E, no entanto, foi fotografando que, ao longo dos dois
últimos séculos, muitos puderam fixar imagens que nos
permitem hoje perceber melhor, umas vezes através de
visões panorâmicas, outras recorrendo a leituras micro
que só um bom zoom permite obter, o que é uma cidade, as suas formas e vivências, o seu potencial devir.
Para muitos, as cidades são, sobretudo, realidades
morfológicas: espaços artificializados pela edificação e
assentes em redes de infraestruturas e traçados viários
que organizam e põem em contacto cada cidade com
as áreas evolventes e com espaços mais distantes. A
arquitetura dos edifícios e a densidade construtiva
são, de facto, os traços visualmente mais marcantes de
qualquer cidade, planeada ou espontânea, antiga ou
recente.
Historicamente, a cidade começou por corresponder
a uma emancipação em relação às vivências rurais e
aos condicionalismos da natureza, um lugar onde se
desenvolveram novos saberes, usos e funções, subs-

tituindo as atividades anteriores e atraindo pessoas
provenientes dos mais diversos sítios.
A cidade moderna, baseada na generalização do
betão, do transporte privado individual e da infraestruturação rodo e ferroviária, introduziu ritmos de
crescimento em altura e em extensão até então desconhecidos: a cidade desdobra-se por múltiplos níveis
acima da superfície e consome porções avassaladoras
de solo rural, ao mesmo tempo que se desnaturaliza,
interrompendo e soterrando linhas de água, impermeabilizando solos, destruindo ecossistemas e diminuindo a biodiversidade.
Nas últimas décadas, novos conceitos, como “cidade
compacta”, “cidade verde” ou “ecocidade”, têm procurado contribuir para inverter a lógica milenar de olhar
para as cidades como o grande palco de libertação e
emancipação das sociedades em relação à natureza.
Ao mesmo tempo, diversos autores têm combatido a
ideia de que as conceções orgânicas de cidade, que a
procuram ajustar às condições naturais dos locais de
implantação, como sucedeu em muitas cidades portuguesas, não correspondem necessariamente a perspetivas pré-modernas, subdesenvolvidas, ultrapassadas.
Esta é uma das razões por que sabemos que existem
mil cidades e, dentro de cada uma delas, outras
tantas. O conceito de cidade alarga-se e diversifica-se
e as soluções multiplicam-se e diferenciam-se. As
realidades ou intervenções reconhecidas hoje como
urbanas incluem um leque muito diversificado de
situações, que vão bem para além das visões modernas
ainda prevalecentes. Exúrbio e cidade difusa, para dar

Transversalidades

apenas dois exemplos, ilustram a necessidade de criar
palavras para designar realidades urbanas novas ou
desprezadas até há pouco tempo, incompreensíveis ou
mesmo invisíveis à luz da visão racionalista e moderna
de cidade.
As mil cidades, e dentro de cada uma delas outras tantas cidades, existem, portanto, como realidade objetiva
mas também como representação concetual de quem
as estuda e planeia ou como vivência subjetiva de
quem as usa e delas usufrui.
Afinal, e paradoxalmente, é a componente imaterial
que mais distingue as cidades: relações entre pessoas e
entre estas e objetos da mais diversa natureza, relações
entre grupos, comunidades, instituições e lugares, em
suma, relações de alteridade não raro com elevado
grau de complexidade, fluidez e volatilidade. É na
cidade que ocorrem as relações mais assimétricas e vorazes: destruição ambiental, pobreza, exclusão, solidão,
violência, desigualdades sociais, etc. Mas é também
na cidade que mais se renovam os principais embriões
de cosmopolitismo, criatividade, inovação, mudança
e transformação. A cidade é, na verdade, o lugar de
excelência das tensões e convergências que envolvem
vários tipos de identidades, umas globais, como as que
se associam à defesa de valores universais, e outras de
natureza particular, relacionadas com valores, preferências ou interesses específicos e mais localizados. É,
em boa medida, como consequência dessas tensões e
convergências que a cidade “pula e avança”.
A relação entre a cidade que se vê e a cidade das
interações não é linear, mesmo sabendo que a segmentação espacial de base social, étnica ou funcional
constitui um traço presente em todas as cidades contemporâneas. Condomínios fechados e centros históricos, subúrbios desqualificados ou áreas de escritórios,

I fotografia sem fronteiras

para dar apenas alguns exemplos, revelam alguma
convergência entre a cidade física, com morfologias
e estéticas particulares, e as relações sociais e económicas que aí predominam. Mas mesmo as tentativas
mais radicais de guetização social e de privatização do
espaço público não têm conseguido destruir, de forma
definitiva ou sequer duradoura, o pluralismo intrínseco
à vida urbana.
É certo que, tendo por base a conceção moderna
de cidade, se planeou minuciosamente a segregação
espacial de usos e funções, programando áreas urbanas
separadas para atividades e grupos sociais distintos.
É igualmente verdade que o contexto desregulador
neoliberal acentuou diferenciações e desigualdades
com clara expressão nos espaços urbanos. Em ambos
os casos, ainda que em circunstâncias e por motivos
muito distintos, a clivagem entre eu e eles, nós e os
outros, espaços exclusivos e espaços abertos, marcou
fortemente a produção das cidades, o modo como
cresceram e como funcionam.
Contudo, a resiliência evidenciada por essa estranha
realidade a que chamamos cidade tem sido surpreendente, não porque seja impossível que, individualmente, as cidades morram ou entrem em modo de
sobrevivência mais ou menos prolongado, como, aliás,
sempre sucedeu ao longo da história da humanidade,
mas porque a cidade como esteio social, económico e
cultural, como palco de inovação e de transformação,
tem vindo sistematicamente a reforçar o seu papel nos
últimos séculos. Não há regresso ao campo. Mas também não há regresso às cidades clássica ou moderna.
Fotografar a cidade das relações é tão importante
como fazê-lo à cidade que se vê. Corpos, rostos e olhares, mas também edifícios, espaços verdes, conjuntos
urbanos. Paisagens e vivências. Estruturas físicas e
113

3

I Cidade e processos de urbanização

duradouras, acontecimentos efémeros, gestos furtivos.
Tudo isto o fotógrafo capta, tudo isto a fotografia
fixa, revela e nos devolve. E porque assim é, um bom
conjunto de fotografias de diversas épocas permite-nos
reconstituir a cidade como caleidoscópio em permanente metamorfose, como combinação dinâmica de
fragmentos físicos e imateriais em ativa interação.
A fotografia é uma técnica de criação de imagens por
meio de exposição luminosa, diz-nos a wikipédia. A
cidade é um produto das sociedades, constituindo,
simultaneamente, uma condição e um reflexo das

* Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa.

grandes transformações que nelas ocorrem. A fotografia permite-nos reconstituir o modo como ao longo
dos últimos duzentos anos as sociedades foram construindo diferentes futuros urbanos. Cabe-nos agora
imaginar e construir novos futuros urbanos dignos da
exposição luminosa a que seremos sujeitos por parte
de quem insiste em não desistir de fotografar a cidade.
Para não ficar mal na fotografia, claro. Mas, sobretudo,
para garantir uma nova geração de cidades diversificadas, onde a cidade que se vê e a cidade das interações
se alimentem reciprocamente tendo por base objetivos
de bem-estar, justiça e sustentabilidade.

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Paulo Alexandre da Costa Fernandes, Portugal
8.3.2.3
Uma cidade, muitas vidas (III)
*(213) Porto (Portugal), 2014
4.1.35.4.8.3.2.2
Uma cidade, muitas vidas (II)
*(214) Porto (Portugal), 2014

8.3.2.1
Uma cidade, muitas vidas (I)
*(215) Porto (Portugal), 2014
8.3.2.4
Uma cidade, muitas vidas (IV)
*(216) Porto (Portugal), 2014

115

3

I Cidade e processos de urbanização

Alexandre da Luz Mendes, Portugal
14.3.2.5
Edifício
*(217) Portimão (Portugal), 2014

4.1.35.4.14.3.2.3
Edifício
*(218) Portimão (Portugal), 2014

14.3.2.2
Edifício
*(219) Portimão (Portugal), 2014
14.3.2.4
Edifício
*(220) Portimão (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

José Manuel Martins do Rosário, Portugal
17.3.1.3
Comércio e Serviços 2
*(221) Parque das Nações (Portugal), 2014

4.1.35.4.17.3.1.2
Comércio e Serviços 1
*(222) Parque das Nações (Portugal), 2014

17.3.1.4
Transportes
*(223) Parque das Nações (Portugal), 2013
17.3.1.1
Habitação
*(224) Parque das Nações (Portugal), 2014

117

3

I Cidade e processos de urbanização

Guillermo Quintanilla Benavente, Espanha
20.3.1.4
Historias urbanas 4
*(225) Lisboa (Portugal), 2012

4.1.35.4.20.3.1.2
Historias urbanas 2
*(226) Lisboa (Portugal), 2012

20.3.1.1
Historias urbanas 1
*(227) Lisboa (Portugal), 2012
20.3.1.3
Historias urbanas 3
*(228) Lisboa (Portugal), 2012

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Ozias Pereira Lopes Filho, Portugal
26.3.1.4
Quasinvisível
*(229) Sintra (Portugal), Ano

4.1.35.4.26.3.1.3
Quasinvisível
*(230) Lisboa (Portugal), 2013

26.3.1.1
Quasinvisível
*(231) Lisboa (Portugal), 2013
26.3.1.5
Quasinvisível
*(232) Lisboa (Portugal), 2013

119

3

I Cidade e processos de urbanização

António Alfarroba, Portugal
6.3.2.1
Sem título
*(233) Coimbra (Portugal), 2013

6.3.2.5
Sem título
*(234) Porto (Portugal), 2013

6.3.2.6
Sem título
*(235) Porto (Portugal), 2013

Transversalidades

6.3.2.4
Sem título
*(236) Lisboa (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

6.3.2.2
Sem título
*(238) Coimbra (Portugal), 2013

4.1.35.4.6.3.2.3
Sem título
*(237) Lisboa (Portugal), 2013

121

3

I Cidade e processos de urbanização

Rui Pedro de Carvalho Monteiro Rua Bordalo, Portugal
5.3.2.4
Sem título
*(239) Lisboa (Portugal), 2014

4.1.35.4.5.3.2.3
Sem título
*(240) Lisboa (Portugal), 2014

5.3.2.2
Sem título
*(241) Lisboa (Portugal), 2014
5.3.2.5
Sem título
*(242) Lisboa (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Helder José Anes de Sousa, Portugal
22.3.1.1
VCI 1
*(243) Porto (Portugal), 2014

4.1.35.4.22.3.1.4
Urbanização dos Oceanos 4
*(244) Valongo (Portugal), 2014

22.3.1.5
Viaduto 1
*(245) Maia (Portugal), 2013
22.3.1.6
Edifício S. Gemil
*(246) Maia (Portugal), 2014

123

3

I Cidade e processos de urbanização

2.3.2.4
Daniel Filipe Antunes Santos, Portugal

35.3.1.2
Almerinda Pereira de Oliveira, Portugal

A louca perspectiva

Arquitetura II
*(249) Funchal (Portugal), 2014
35.3.1.1
Almerinda Pereira de Oliveira, Portugal

*(247) Lisboa (Portugal), 2014

2.3.2.2
Daniel Filipe Antunes Santos, Portugal
A ondulação
*(248) Lisboa (Portugal), 2014

Arquitetura I
*(250) Funchal (Portugal), 2014

Transversalidades

16.3.2.2
António Jorge Ferreira da Silva, Portugal
Sem título
*(251) Porto (Portugal), 2014

15.3.1.1
Ignacio González Castaño, Espanha
Conducción en Astún
*(252) Huesca (Espanha), 2013

I fotografia sem fronteiras

16.3.2.5
António Jorge Ferreira da Silva, Portugal
Sem título
*(253) Gaia (Portugal), 2013
23.3.1.4
Helena Mónica da Silva Barbosa, Portugal
Anémona
*(254) Matosinhos (Portugal), 2013

125

3

I Cidade e processos de urbanização

3.3.1.2
Ana Patrícia do Carmo Capitão, Portugal
O Espelho de Água e a Cidade
*(255) Figueira da Foz (Portugal), 2013

33.3.1.3
Nuno Filipe Brito Ferreira, Portugal
A Magia da Cor III
*(256) Águeda (Portugal), 2013

9.3.1.6
Ricardo Miguel Giga Pelado, Portugal
Plastic Society
*(257) Évora (Portugal), 2013
33.3.1.5
Nuno Filipe Brito Ferreira, Portugal
A Magia da Cor V
*(258) Águeda (Portugal), 2013

Transversalidades

1.3.1.6
Nuno Alexandre dos Santos Sousa, Portugal
Óbidos 6
*(259) Óbidos (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

29.3.1.2
Joaquim Vaz, Portugal
Silêncio de neve
*(261) Guarda (Portugal), 2013

19.3.1.2
Patrícia Raquel Martinho Pereira, Portugal
Refúgio II
*(260) Porto (Portugal), 2013

127

3

I Cidade e processos de urbanização

16.3.2.3
António Jorge Ferreira da SIlva, Portugal
Sem título
*(262) Porto (Portugal), 2014

4.3.2.2
Jorge Filipe Ascensão, Portugal
Taverna
*(263) Guarda (Portugal), 2014

12.3.2.2
Kamilla Dantas Matias, Brasil
Passado posto
*(264) Coimbra (Portugal), 2014
23.3.1.6
Helena Mónica da Silva Barbosa, Portugal
Silêncio
*(265) Calçada das Carquejeiras (Portugal), 2013

Transversalidades

28.3.1.5
Nuno de Santos Loureiro, Portugal

18.3.1.2
José Carlos Silva, Portugal

Graffitis e Tags da EN 125, Algarve, 5
*(266) Olhão (Portugal), 2014
18.3.1.5
José Carlos Silva, Portugal

A luta de um povo
*(268) Lisboa (Portugal), 2014
28.3.1.3
Nuno de Santos Loureiro, Portugal

Olha por mim

Graffitis e Tags da EN 125, Algarve, 3
*(269) Patacão, Faro (Portugal), 2014

*(267) Lisboa (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

129

3

I Cidade e processos de urbanização

9.3.2.1
Bruno Manuel Leite Sousa Silva, Portugal
Obs. 1 - Paralelismo
*(270) Rio Tinto (Portugal), 2014

9.3.2.2
Bruno Manuel Leite Sousa Silva, Portugal
Obs. 2 - Para nada
*(271) Rio Tinto (Portugal), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Cidade e sociedade urbana
Maria Adélia de Souza *
Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.
Miguel Torga
á uma imensa bibliografia publicada
sobre o tema da cidade e da sociedade
urbana. Neste pequeno ensaio, algumas
questões serão suscitadas para provocar
no leitor algumas reflexões, com a ajuda das imagens
deste livro, sobre estes temas.
Então, inicialmente, serão precisados alguns conceitos
geográficos, demonstrada a relevância destes dois
temas. Serão brevemente explorados alguns dos falsos
problemas que julgamos estarem sendo elaborados,
mais ideologicamente do que cientificamente, a respeito da vida na cidade, mais especificamente das grandes
cidades. Dadas às características deste livro julgamos
interessante, explorar as paisagens nas cidades e seu
efeito sobre a vida das pessoas que nelas vivem para,
finalmente advogar uma tese sobre o futuro do mundo
a partir da vida na cidade, da sociedade urbana.
Evidentemente este texto está pautado nos trabalhos e
vivencias de uma geógrafa brasileira que há décadas estuda a Geografia e o Planejamento Urbanos das cidades
brasileiras, forçosamente influenciada por sua realidade
existencial e vivencial. É importante para a compreensão de um texto conhecer de onde o autor fala!
Primeiramente, para uma autora latino-americana,
brasileira, a cidade tem um significado muito especial,
pois ela é trazida para o Brasil na sua forma atual, pelo

colonizador. A cidade brasileira foi trazida e criada
pelos portugueses, até que sua expressão maior hoje – a
metrópole – escancare em suas paisagens toda a perversidade da denominada sociedade urbana expressão
suprema do modo de produção em que vivemos. Não é
sem razão que São Paulo – uma das maiores metrópoles
do mundo contemporâneo - tem sido chamada por muitos de “A Nova York dos Trópicos”, certamente pelo seu
importante e majestoso processo de verticalização, de
construção de arranha-céus, como se dizia antigamente.
Aqui, então, já se faz necessário a introdução de alguns conceitos que estão implícitos na elaboração deste pequeno texto sobre a cidade e a sociedade urbana.
Adotamos a definição de que a cidade é compreendida
como uma materialidade visível, uma paisagem expressa pelo espaço construído, material, composto de
quadras, lotes, terrenos, redes visíveis e invisíveis, que
desempenham uma funcionalidade para o avanço da
vida e sociedades chamadas urbanas.
Já o urbano é a manifestação expressa na cidade
de uma nova divisão internacional e territorial do
trabalho impulsionada pelo modo de produção quase
que hegemonicamente existente no mundo de hoje, o
capitalismo. Essa expressão se reflete, portanto, na cidade e sua paisagem como “modo de vida”. O urbano,
então, é o modo de vida da sociedade capitalista e, a

131

3

I Cidade e processos de urbanização

cidade hoje transformada em metrópole é sua expressão bem acabada.
É esta distinção que nos permite identificar e estudar
as paisagens urbanas da cidade: as paisagens daqueles
que não adquiriram o direito de nela viver, embora
sejam produtos desse urbano: aqueles que vivem sob as
pontes, marquises, em buracos de terra como animais,
para citar apenas alguns exemplos; aqueles que são
resistentes e se constituem numa força poderosa e interessante dos tempos que estão por vir, os “sem tudo”
ou “sem nada”: sem terra, sem casa, sem comida, sem
mobilidade... sem a “dignidade” requerida por essa perversidade expressa na cidade, que deles exige inclusive
uma moralidade garantida pelas paredes e isolamento
que outorga a propriedade privada e pelo direito
inalienável de “ir e vir”! E que eles não têm! Então,
muitos deles defecam nas ruas, banham-se nas ruas!
Amam-se nas ruas, para escândalo e perplexidade das
classes médias e elites “moralistas”. Os pobres e deserdados tem outra moral, aquelas que sua existência lhes
permite ter. Paisagens urbanas que muitos insistem em
não enxergar...
Estes “sem tudo” se organizam, reagem se informam e
passam a constituir uma força política cada vez maior,
que se valendo também das benesses deste período
histórico manifestam-se nos espaço público, malgrado
à violência policial e social as quais sempre estão
submetidos.
Do outro “lado” da cidade estão aqueles que tudo
recebem, todos os benefícios, expressos, aliás, pelo uso
do território: uso pelas escolas, pelos equipamentos de
saúde, pelas ruas asfaltadas, pelo paisagismo bem feito,
pelos sistemas técnicos abundantes, porém concentrados em espaços cada vez mais segregados na cidade. E,
visíveis a olho nu pelas cartografias que exibem esse

processo de alienação do território pelas empresas e
pelas elites, nas densidades técnicas que apresentam
em detrimento da escassez dessas densidades expressas
nas periferias das cidades. Expressões do uso do território que escancaram um processo intenso e crescente
de desigualdades socioespaciais – há perímetros na
cidade que tem tudo e as periferias nada tem a não ser
a presença repressiva da polícia. Espaços luminosos e
espaços opacos como nos ensina Milton Santos em
sua leitura das geografias desta contemporaneidade.
Este processo de desigualdade socioespacial, expresso
pelo uso desigual do território pelas benesses da
sociedade urbana faz com que o aumento do número
de pobres, em realidade dos “sem nada” ou “sem tudo”
chame a atenção pelas carências que gera especialmente nas periferias das grandes cidades, implicando
numa ausência total de direitos mínimos de existência.
Estes espaços existentes em parte pela ausência total
dos governos exibem aspectos inaceitáveis do ponto de
vista da existência humana. Tais paisagens da periferia
das grandes cidades do mundo pobre estão a exigir
uma discussão não apenas política, mas filosófica
a respeito dessas realidades: não se trata de debitar
apenas na ineficiência e falta de ética dos nossos
governantes essa conta. Precisamos nos juntar a Edgar
Morin, a Milton Santos que desde o século passado
nos convocam para a discussão de um novo modelo de
civilização! E não temos tido, a partir do Sul, coragem
de fazê-lo, pois ainda não conseguimos sequer nos libertar do colonialismo cultural ao qual ainda estamos
submetidos! Ainda mal sabemos quem somos e para
nos explicarmos usamos as compreensões e lições dos
grandes mestres do norte.
Não se trata de xenofobia, mas da compreensão de
que a historia de cada um é o seu norte! É somente a
partir da historia de cada um, de cada sociedade e sua

Transversalidades

capacidade de conhecer e compreender a sua própria
realidade é que seremos capazes de nos libertarmos e
conhecer uma existência mais digna para a maioria!
As cidades da América Latina são lindas, mas tristes,
quando revelada a sua cara perversa. Mas até esta perversidade tem sido envolvida na máquina do consumo
realizada pelo turismo irresponsável, especialmente
por aqueles que fazem da miséria humana, ou seu
discurso incompetente, ou sua forma de folclorizar e
naturalizar o sofrimento alheio. O que dizer do turismo feito pelos consumidores do Norte – e mesmo do
Sul – nas favelas cariocas, paulistas, pernambucanas
ou potiguares e cearenses?
As paisagens urbanas revelam cidades cujas contradições, especialmente nas vivencias cotidianas de suas
populações, estão esgarçadas, deterioradas pela exibição de um processo que diz respeito a todos! Mas esse
processo é importante que seja compreendido de forma
diferente pelos intelectuais do norte e do sul. Aqui no
sul, o conhecimento da escassez, do desemprego, das
privações de toda ordem é um processo histórico, secular, muito conhecido de todos nós. A crise mundial, de
um modelo civilizatório falido leva esses sentimentos
agora também para o norte. E as paisagens das cidades
do norte também começam a se modificar. Há anos
atrás, em uma reunião cientifica feita na USP e coordenada por Milton Santos e pela autora deste texto, discutimos o que denominamos de “Colorização do Norte
e colonização do Sul” aprofundando o conhecimento
sobre O NOVO MAPA DO MUNDO! Mal sabíamos
nós o quanto estávamos certos!
Cotidianos implacáveis, assolados por carências de
toda ordem estão manifestados na denominada “crise
urbana” que nada mais é do que a expressão da exaustão de formas de viver que não cabem mais nos clamo-

I fotografia sem fronteiras

res do futuro do mundo que já se apresenta aos nossos
olhos: o imperativo da diversidade e da convivência
no diverso, a aceitação da difusão da informação em
tempo real e a constituição da politica nesta mesma
velocidade; a sabedoria inerente ao ser humano e sua
capacidade única de racionalização em tempos de
mudança, superando modos de vida congelado em
instituições cujo funcionamento em beneficio de todos
se mostram ultrapassadas e ineficientes.
Reflexões a partir da cidade e suas paisagens! Diferenças de historias, de medos, de direitos que precisam
ser calibrados em um mundo que por ser sociodiverso
exige maior generosidade do ser humano, para que
seja resgatado o humano do homem. E as cidades e
as metrópoles se constituem no lugar privilegiado de
constituição desse mundo novo.
Novos lugares – esses espaços dos aconteceres solidários – vêm sendo constituídos nas cidades na perspectiva de um futuro mais generoso para a humanidade,
pois longe da volúpia da sociedade do consumo,
num mundo fundamentado em valores humanos da
solidariedade diante da escassez secular vivida pela
maioria e que, nesta contemporaneidade, dadas as suas
características de criação e difusão da técnica, da ciência e da informação não tem mais condição de serem
impostas ou vividas por muitos.
As cidades e suas paisagens diante das transformações
já exigidas da forma de viver o urbano já se constituem no palco privilegiado de construção de um mundo melhor. Todas as condições já estão dadas. Basta
vê-las, adotá-las e incorporá-las.
O futuro sempre foi melhor do que o passado, pois
é nele que vamos viver e é nele que residem nossas
esperanças.
133

3

I Cidade e processos de urbanização

Se por um lado as ideologias contemporâneas apodreceram com a minoria farta, com medo, bem servida,
bem nutrida, deprimida, viciada... ela não contaminou
os pobres, sua dignidade, sua alegria e na sua não participação da volúpia que contem o presente.
Convido a todos a conhecer as periferias das metrópoles do mundo pobre num “dia de domingo” onde tudo

é festa e alegria! E não é alienação. A luta cotidiana
pela sobrevivência não permite que a alienação lhes
alimente.
Aqui está um fundamento precioso da nossa história e
da nossa “polis”.
Venham todos!

* Professora Titular de Geografia Humana | Universidade de São Paulo – USP.
Texto escrito em português do Brasil.

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Marcos Llimargas Pons, Espanha
1.3.2.4
Tiburón
*(272) Valencia (Espanha), 2012

4.1.35.4.1.3.2.2
Capote
*(273) La Rioja (Espanha), 2012

1.3.2.3
Ohmmmmmmmmmmmmmm
*(274) Barcelona (Espanha), 2013
1.3.2.1
Blanco
*(275) Barcelona (Espanha), 2013

135

3

I Cidade e processos de urbanização

Pedro Baltazar, Portugal
3.3.2.1
Primeiro comboio da manhã em Budapest
*(276) Budapest (Hungria), 2013

3.3.2.2
Budapest Metro
*(277) Budapest (Hungria), 2013

3.3.2.3
A caminho de mais um dia de trabalho
*(278) Budapest (Hungria), 2013

Transversalidades

3.3.2.4
Estação de Metro
*(279) Budapest (Hungria), 2013

I fotografia sem fronteiras

3.3.2.6
Última paragem
*(281) Budapest (Hungria), 2013

4.1.35.4.3.3.2.5
Sem lugar marcado
*(280) Budapest (Hungria), 2013

137

3

I Cidade e processos de urbanização

16.3.1.1
Miguel Angel Peláez González, Espanha
Club Nautico
*(282) Santander (Espanha), 2013

6.3.1.3
Joana Almeida, Portugal
Night city lights
*(283) Shanghai (China), 2014

16.3.1.3
Miguel Angel Peláez González, Espanha
Nauticus
*(284) Santander (Espanha), 2013
6.3.1.2
Joana Almeida, Portugal
Floating city
*(285) Shanghai (China), 2014

Transversalidades

21.3.1.1
Marco António Stello, Brasil
Sono
*(286) Buenos Aires (Argentina), 2014

36.3.1.3
Inês Dias, Portugal
Noor
*(287) Lisboa (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

21.3.1.6
Marco António Stello, Brasil
Passos
*(288) Buenos Aires (Argentina), 2014

31.3.1.1
Juan Manuel Dias da Silva, Argentina
El Ultimo Paseo
*(289) Villa Jardín, Lanus, Pcia. de Buenos Aires (Argentina), 2011

139

3

I Cidade e processos de urbanização

16.3.1.2
Miguel Angel Peláez González, Espanha
Guia
*(290) Santander (Espanha), 2013

37.3.1.3
Marta Adriana Santos Pais, Portugal
Escala
*(291) Porto (Portugal), 2013

30.3.1.1
Alexandre António Rodrigues Luís, Portugal
Mar serrano
*(292) Pas de la Casa (Andorra), 2014
27.3.1.1
Patricia Sánchez Maldonado, Espanha
De Madrid al cielo
*(293) Madrid (Espanha), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

36.3.1.2
Inês Dias, Portugal
Muro
*(294) Berlim (Alemanha), 2013

141

TEMA 4
Cultura e sociedade:
diversidade cultural
e social

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social
Prémio Tema

Sofia Alexandra Ferreira Augusto, Portugal
27.4.1.2
Ruínas Habitadas (II)
*(295) Roça de Água Izé (São Tomé e Príncipe), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

145

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social
Menções honrosas

Rosa Rodríguez Sánchez, Espanha
19.4.1.2
Dentro da escola com um aluno e Professor
*(296) Tanzânia (Tanzânia), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Alejandro Torres Edwards, Espanha
15.4.2.1
Modo de vida en los monaterios de Camboya nº 1
*(297) Sur de Camboya (Camboja), 2014

147

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social
Menções honrosas

Maria G Baldissera, Brasil
43.4.1.2
Turismo e população autóctone: Imagem
*(298) Cusco (Peru), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Sérgio Daniel Gosçalves Almeida, Portugal
31.4.2.6
Um breve instante
*(299) Coimbra (Portugal), 2014

149

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

O instante que se torna eterno
Fernanda Cravidão *
s sociedades contemporâneas refletem as
mudanças, que sobretudo a partir dos
anos oitenta do século XX, ocorreram
por todo o mundo. Por outro lado, a
designada globalização não só acelerou essas alterações como, sobretudo, veio trazer visibilidade às
contradições que os processos de desenvolvimento,
que não são globais, evidenciam. As transformações
económicas, políticas, sociais e culturais mudaram
as relações com territórios, alteraram os conceitos
de tempo, fazem emergir novos problemas e velhas
questões de um modo que nunca é neutro. Geram-se
conflitos entre o local e o global, entre o “velho” e
o “novo”, entre o que reside e o que visita, entre a
tradição e a modernidade.
A minha geração teve e tem o privilégio de assistir,
participar e refletir nas alterações que nos levam
a novas leituras, novos olhares. Do(s) outro (s).
Dos territórios. Das paisagens. Também por isso
estamos em presença de memórias retratadas e que
se vinculam, sobretudo ao “olhar” de quem as fixou.
Quando passam para este lado, expostas, são lidas
e percebidas tantas vezes quantas as que foram/são
observadas.
Apesar de ocupar um lugar importante na geografia
a paisagem esteve, sobretudo, durante o positivismo
afastada da investigação geográfica. Retoma progressivamente o espaço perdido a partir das últimas duas
décadas do século XX, onde ‘as paisagens sentidas’
se vão progressivamente consolidando e ganhando
investigação, a que, não é alheia a esta nova leitura e
perceção.

A paisagem, os territórios constituem patrimónios em
permanente construção, cobertos de simbolismo e
construídos pelo imaginário coletivo dos atores sociais
e que pertencem a um determinado lugar. Nesta
coleção retratam, frequentemente, os resultados de
múltiplas contradições, mas que permitem a identificação do indivíduo com os lugares que habitam e que
ajudaram a construir.
As fotografias que constroem o capítulo Cultura e
sociedade: diversidade social e diálogo cultural levamnos para estes lugares-lugares de memória. Territórios
que transbordam de significado: social, cultural,
geográfico. A memória dos que partiram. A memória
dos que nunca se ausentaram e teimam em reproduzir
modos de vida cujo ciclo há muito terminou. Mas
também imagens de futuro (às vezes incerto) onde os
mais novos assumem o plano principal.
São imagens onde a estética vence fazendo, frequentemente, contraponto com a solidão, com um tempo
fora do tempo, com olhares que trazem e vêem outras
culturas, outras coordenadas e diferentes mapas
sociais. Onde há diálogos silenciosos que dizem quase
tudo. Imagens que mostram como, hoje, modos de
vida tradicionais são (re) inventados para novos
consumos. No país “onde os bois lavram o mar” estes
novos produtos adquirem, também, valores simbólicos
e a singularidade que distingue cada lugar. Para uns,
uma dimensão demasiado mercantilista, para outros,
apenas outros modos de os fruir.
No seu conjunto estamos perante imagens que nos
permitem percorrer diferentes paisagens culturais,

Transversalidades

umas vivas e vividas, outras onde a história parece
vestir-se de branco como que a renegar o tempo que as
matizou e outras ainda de cores fortes e abertas onde

I fotografia sem fronteiras

ser homem ou ser mulher tem regras diferentes. Há um
traço comum, cada imagem retrata um instante único
que se tornará eterno.

* CEGOT. Universidade de Coimbra.

151

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

António Rui Fernandes Campos, Portugal
12.4.2.1
José “da Encarnação”
*(300) Alcongosta, Fundão (Portugal), 2014

4.1.35.4.12.4.2.3
Formador de Excelência
*(301) Alcongosta (Portugal), 2014

12.4.2.4
O Esparto
*(302) Alcongosta (Portugal), 2014

Transversalidades

12.4.2.2
“Olhe aqui um rico tapete”
*(303) Alcongosta (Portugal), 2014

I fotografia sem fronteiras

12.4.2.5
“Isto é uma ceira..”
*(304) Alcongosta (Portugal), 2014

12.4.2.6
Sou do tamanho daquilo que crio
*(305) Alcongosta (Portugal), 2014

153

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Pedro Esteves, Portugal
23.4.2.2
Filhos do mar
*(306) Praia da Torreira (Portugal), 2013

23.4.2.1
Gente do mar
*(307) Praia da Torreira (Portugal), 2013
23.4.2.4
A espera
*(308) Praia da Torreira (Portugal), 2013

Transversalidades

23.4.2.3
Arte xávega
*(309) Praia da Torreira (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

4.1.35.4.23.4.2.6
Recolha da rede
*(311) Praia da Torreira (Portugal), 2013

23.4.2.5
O regresso
*(310) Praia da Torreira (Portugal), 2013

155

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Luís Lobo Henriques, Portugal
4.1.35.4.27.4.2.3
Estendal com vista I
*(312) Linhares da Beira (Portugal), 2013

27.4.2.6
Estendal com vista II
*(313) Sortelha (Portugal), 2013

27.4.2.2
Lavando roupa no largo do castelo
*(314) Linhares da Beira (Portugal), 2013
27.4.2.4
Lingerie lavada
*(315) Marialva (Portugal), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Marlene Filipa Carvalho Alves, Portugal
25.4.2.1
Tempo
*(316) Gondomar, Porto (Portugal), 2013

4.1.35.4.25.4.2.4
Intemporal
*(317) Travanca, Amarante (Portugal), 2013

25.4.2.3
Avó
*(318) Gondomar, Porto (Portugal), 2013
25.4.2.2
Memórias
*(319) Gondomar, Porto (Portugal), 2013

157

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Sérgio Daniel Gonçalves Almeida, Portugal
31.4.2.2
O guitarrista
*(320) Coimbra (Portugal), 2014

4.1.35.4.31.4.2.1
O saxofone
*(321) Coimbra (Portugal), 2014

31.4.2.4
A vendedora de castanhas
*(322) Coimbra (Portugal), 2014
31.4.2.3
Apenas um jogo
*(323) Coimbra (Portugal), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Paulo Henrique de Oliveira Carvalho, Brasil
29.4.1.5
Miscigenação

29.4.1.1
Ele e Ela

*(324) Ouro Preto, MG (Brasil), 2014

*(326) Ouro Preto, MG (Brasil), 2014

4.1.35.4.29.4.1.3
Retrato de Iris Waira
*(325) Ouro Preto, MG (Brasil), 2014

29.4.1.2
O corpo ofendido
*(327) Ouro Preto, MG (Brasil), 2014

159

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Nuno França Machado, Portugal
16.4.1.3
Trilhando o chá
*(328) Fábrica de Chá do Porto Formoso, São Miguel, Açores (Portugal), 2013

4.1.35.4.16.4.1.2
A apanha do chá
*(329) Fábrica de Chá do Porto Formoso, São Miguel, Açores (Portugal), 2013

16.4.1.4
Terminada a apanha
*(330) Fábrica de Chá do Porto Formoso, São Miguel, Açores (Portugal), 2013
16.4.1.6
O Chá!
*(331) Fábrica de Chá do Porto Formoso, São Miguel, Açores (Portugal), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Hermano Noronha, Portugal
20.4.1.4
Sem título
*(332) Vagueira (Portugal), 2013

4.1.35.4.20.4.1.3
Sem título
*(333) Vagueira (Portugal), 2013

20.4.1.6
Sem título
*(334) Vagueira (Portugal), 2013
20.4.1.1
Sem título
*(335) Vagueira (Portugal), 2013

161

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

António Duarte Silva Abreu, Portugal
15.4.1.3
Três religiões alternativas no Porto
*(336) Porto (Portugal), 2013

15.4.1.6
Três religiões alternativas no Porto
*(337) Porto (Portugal), 2013

Transversalidades

15.4.1.1
Três religiões alternativas no Porto
*(338) Porto (Portugal), 2013
4.1.35.4.15.4.1.4
Três religiões alternativas no Porto
*(339) Porto (Portugal), 2013

I fotografia sem fronteiras

15.4.1.5
Três religiões alternativas no Porto
*(340) Porto (Portugal), 2013
15.4.1.2
Três religiões alternativas no Porto
*(341) Porto (Portugal), 2013

163

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

35.4.2.4
Ana Margarida Rodrigues Parreira, Portugal
Cidade que nunca dorme
*(342) Londres (Inglaterra), 2014

26.4.2.3
Catarina Simões Martins, Portugal
Um olhar de arte no abandono
*(343) Guarda (Portugal), 2014

19.4.2.2
Marta Filipa de Matos Dias, Portugal
Cumplicidade
*(344) Terreiro do Paço, Lisboa (Portugal), 2014
32.4.2.1
Rita Saraiva Grade, Portugal
Da minha janela eu vejo o Mundo inteiro
*(345) Bilbao (Espanha), 2013

Transversalidades

29.4.2.2
Vera Martín Zelich, Espanha

18.4.2.2
Maria de Fátima de Matos Barros, Portugal

Maria Augusta

O povo e os músicos
*(348) Amares (Portugal), 2014
18.4.2.3
Maria de Fátima de Matos Barros, Portugal

*(346) Picote (Portugal), 2014

29.4.2.5
Vera Martín Zelich, Espanha
Constantino
*(347) Formillos de Fermoselle (Espanha), 2014

I fotografia sem fronteiras

O povo e a igreja
*(349) Amares (Portugal), 2014

165

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

34.4.2.2
Luís Jorge Nunes Filipe Taveira Sarmento, Portugal
Mãos de Música
*(350) Braga (Portugal), 2013

10.4.2.1
Andreia Carla Antunes Portugal Azevedo, Portugal
Avô
*(351) Batalha, Leiria (Portugal), 2013

34.4.2.1
Luís Jorge Nunes Filipe Taveira Sarmento, Portugal
O sapateiro observador
*(352) Lisboa (Portugal), 2013
20.4.2.3
Luís Filipe Cabral de Almeida Torres Centeno, Portugal
Solidão
*(353) Viseu (Portugal), 2013

Transversalidades

16.4.2.1
Inês Antunes, Portugal
Zé Engraxador
*(354) Coimbra (Portugal), 2012

16.4.2.2
Inês Antunes, Portugal
Zé Engraxador
*(355) Coimbra (Portugal), 2012

I fotografia sem fronteiras

12.4.1.6
José António Grumete Vicente, Portugal
Mercado do mar
*(356) Setúbal (Portugal), 2014
40.4.1.2
Cristina Maria Duarte Bentes, Portugal
Amolador
*(357) Mercado do Bulhão, Porto (Portugal), 2014

167

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

17.4.2.4
Miguel Cabezas Bonilla, Espanha
Terco
*(358) Malhadas, Miranda do Douro (Portugal), 2013

36.4.1.1
Joana de Medeiros, Portugal
Recreio 1
*(359) Quinta São João dos Montes (Portugal), 2014

7.4.1.1
Leandro Guardado, Portugal
Cabo Espichel 1
*(360) Cabo Espichel (Portugal), 2013
9.4.1.3
Cátia Castanheira Ferreira, Portugal
O 23
*(361) Caxinas, Vila do Conde (Portugal), 2013

Transversalidades

6.4.1.1
Hugo Miguel Branco da Fonseca, Portugal
Careto Vaidoso
*(362) Podence, Macedo de Cavaleiros (Portugal), 2014

I fotografia sem fronteiras

6.4.1.4
Hugo Miguel Branco da Fonseca, Portugal
Máscaras de Podence
*(363) Podence, Macedo de Cavaleiros (Portugal), 2014

169

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Configurar a própria imagem a partir da imagem do outro
Rogério Haesbaert *
ivemos uma época de grande ebulição
cultural, onde manifestações envolvidas
com fenômenos como etnia/nação, religião e língua mesclam desde posições mais
tradicionais, retrógradas e/ou neoconservadoras,
defensoras de uma “essência” identitária, até outras
muito mais flexíveis e abertas à recriação cultural pela
mescla de culturas. Em todas elas o que está em jogo
são distintas formas de convívio com o Outro, com
aquele tido como diferente. Sabemos que a diferença
identitária é produto da própria criação da figura de
um “outro”. Muitas vezes é preciso criar primeiro a
imagem de um outro para que a nossa própria imagem
seja configurada. Muitas identidades (e, portanto,
diferenças) são construídas, podemos afirmar, mais de
fora para dentro do que do interior do próprio grupo.
Um exemplo, no caso brasileiro, foi a construção de
uma identidade “nordestina” para os migrantes provenientes dos diversos estados da chamada região Nordeste do Brasil (como Bahia, Pernambuco, Paraíba,
Ceará...), elaborada sobretudo nos espaços de recepção
dos fluxos migratórios nas regiões economicamente
mais centrais, Rio de Janeiro e São Paulo. Antes desse
olhar do Outro a diferença era muito mais marcada
por aquilo que distinguia, por exemplo, baianos de
pernambucanos ou cearenses de paraibanos.
Assim, a produção da diferença e/ou da diversidade/
multiplicidade cultural é um processo complexo e
que tem um profundo interesse sobretudo por ser
indissociável das relações de poder – tanto para fortalecer os interesses de um grupo identitário quanto
para debilitar os de outros. Relações culturais muitas
vezes podem levar à segregação, à estigmatização e ao

preconceito, sobretudo quando o Outro é associado a
um grupo ou classe socioeconomicamente inferior. A
segregação cultural ocorre quando transformamos o
que deveria ser visto como simples diferença qualitativa (a cor da pele, a língua, a religião) numa diferença
de grau, hierárquica, em que um grupo se vê sempre
como superior (surge daí fenômenos como o racismo).
Daí a necessidade de ver o outro culturalmente
distinto como equivalente, ou seja, partilhando do
mesmo sentido valorativo e, assim, sendo tão digno de
reconhecimento quanto nós. Mas, é claro, o diálogo
cultural não é fácil.
Sem cair num culturalismo que sobrevaloriza a dimensão cultural em detrimento de nossa condição econômica e das relações de poder em sentido mais estrito,
devemos compreender a diversidade cultural em meio
a toda uma complexa trama de relações e contextos
sociais. Esses contextos sociais são marcados, antes de
mais nada, pela diferenciação geográfica e histórica.
Toda uma carga temporal se acumula em cada espaço
geográfico, fazendo dele um cadinho de influências e
condicionamentos. A começar pela própria diferença
natural que um dia abrigou ali os primeiros grupos humanos. E não devemos esquecer que, hoje, a própria
diversidade natural – ou a biodiversidade em sentido
amplo – está em questão. Longe de determinismos
simplistas, podemos dizer que a diversidade cultural
depende também, em alguma medida, das diferenças
que a natureza nos legou. Desse modo, nosso diálogo
não é apenas inter ou transcultural (nos termos do
cubano Fernando Ortiz), mas também com o próprio
multinaturalismo (na percepção de Eduardo Viveiros
de Castro). Em síntese, somos múltiplos tanto pela

Transversalidades

cultura quanto pela natureza que indissociavelmente
nos compõem.
A importância de nunca dissociarmos, também, a
cultura da política e da economia fica evidente quando verificamos o quanto das manifestações culturais
contemporâneas tem sido objeto de compra e venda,
de mercantilização. A famosa expressão “diferença
vende” sintetiza a força do capitalismo para se apropriar da diversidade cultural (e dos movimentos sociais
aí envolvidos) e fazer deles um instrumento de mercado. Mas felizmente temos também resistências. A
diversidade cultural não é simplesmente cooptada pelo
mercado – a população mais pobre, como fica bastante
visível em muitas das fotografias aqui apresentadas,
encontra sempre modos alternativos de “produção
cultural” como forma, antes de tudo, de sobrevivência.
A precariedade da vida econômica pode levar à criatividade em termos de formas de produzir e de se expressar – ou, em última instância, de ser reconhecido,
pois nada mais grave na nossa relação com o Outro do
que a indiferença.
O diálogo cultural, aquilo que Boaventura de Sousa
Santos denominou de “hermenêutica diatópica” – as
múltiplas interpretações de mundo que brotam dos
distintos lugares que habitamos, torna-se evidente
quando percebemos que qualquer cultura, por mais
“pura” que se diga, foi fruto, um dia, de um denso cruzamento de influências, de um hibridismo com outras
formas de dar sentido ao mundo.
Se a diferença cultural se impõe é também porque
ela é a condição do novo. A própria ordem capitalista
hegemônica precisa se reinventar todo o tempo, criar
novos nichos de mercado. Mas fugir dessa armadilha
da mercantilização é um dilema vivido por todos.
Não nos deixarmos dominar pela lógica contábil que

I fotografia sem fronteiras

tudo compra, que tudo vende – e, pior, vende mais a
imagem (“cultural”) do que o produto, mais o status
do que o uso efetivo. É claro que também vivemos
de valores estéticos, da beleza e da re(a)presentação
do mundo. O problema é quando tudo é avaliado
prioritariamente por esse valor estético ou simbólico,
como se todo valor de uso fosse secundário. O homem
produtor mais humilde, um artesão, sabe muito bem
o quanto valor de uso e valor estético se somam e se
agregam. Muitas fotografias deste livro ilustram perfeitamente esse amálgama.
Os múltiplos sentidos da diferença estão contemplados e imbricados aqui, das diferenças cotidianas às
diferenças representativas do próprio poder político
de grandes grupos culturais. Diferenças que podem
começar pelo vestir – ou não-vestir, demonstrando
a enorme diversidade de comportamentos e leituras
culturais em relação ao corpo, que vão desde o seu
total ocultamento até a sua exibição ostensiva. Diferenças também na forma de gesticular, de mover-se,
de cultuar divindades, de envelhecer (e de maior ou
menor reconhecimento da velhice), de manifestar-se
afetivamente.
O mundo, através dessas fotografias, revela toda a sua
constante recriação da diversidade, especialmente no
afazer dos mais frágeis mas que, mesmo em meio à
grande precariedade, mantêm ou recriam suas formas
de expressão e de (auto-)reconhecimento. Trata-se,
portanto, de um mundo que se unifica e se diversifica
ao mesmo tempo. Um jogo muitas vezes difícil, pois
um movimento acelerado de unificação/homogeneização pode justamente gerar o seu contrário: formas
neoconservadoras de apego a identidades fechadas,
como se o mundo, em plena era informacional, ainda
pudesse ser tratado em termos de espaços abertos e
espaços fechados claramente distinguíveis.
171

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Como no mundo concreto das fronteiras que somente
se fecham para alguns, no mundo simbólico da cultura
alguns atributos se retraem mas outros, mesmo que
se resista, acabam sendo levados a realizar outros
diálogos, outras pontes. Como todo diálogo, ele pode
levar-nos a distintas conclusões, mas todas elas, num
efetivo processo de intercâmbio, serão sempre resultado de uma união discutida e consentida. Se cedermos
em nossos valores e/ou significados culturais, será
também por uma aposta no nosso enriquecimento. Se,
ao contrário, o Outro assimilar nossos traços, isso será
fruto de uma avaliação em que ele se sentiu enriquecido pela nossa interpretação, pelo nosso dar sentido ao
mundo.
Construir muros, diferenciar claramente o “insider”
e o “outsider”, evidentemente não é a única forma de
resistir. Pode até ser um momento da luta como, no

* Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro.

Texto escrito em português do Brasil.

caso dos povos tradicionais ou originários na América
Latina, o momento de reconhecimento e legalização
da territorialidade de um grupo. Há momentos de
retraimento, em que reforçamos nosso sentimento de
“comunidade”, e momentos de abertura, em que nos
enriquecemos com o diálogo com os Outros. A resistência mais eficaz, provavelmente, é aquela capaz de
recriar pela troca (mas uma troca não imposta), pelo
diálogo e, no caso das culturas, pelo enriquecimento
mútuo. Resistência pela qual vale a pena lutar é aquela
que não simplesmente conserva mas produz o novo,
um novo melhor. Daí a importância de uma diversidade cultural efetivamente comprometida com a transformação social – transformação que passe, ao mesmo
tempo, pelo reconhecimento de nossas especificidades
culturais e pela redistribuição da riqueza (e do poder),
condição indispensável para romper a indiferença com
o Outro.

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Alejandro Torres Edwards, Espanha
15.4.2.2
Modo de vida en los monaterios de Camboya
*(364) Sur de Camobya (Camboja), 2014
4.1.35.4.15.4.2.3
Modo de vida en los monaterios de Camboya
*(365) Sur de Camobya (Camboja), 2014

15.4.2.6
Modo de vida en los monaterios de Camboya
*(366) Sur de Camobya (Camboja), 2014
15.4.2.4
Modo de vida en los monaterios de Camboya
*(367) Sur de Camobya (Camboja), 2014

173

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Rosa Rodríguez Sánchez, Espanha
19.4.1.3
Crianças na sala de aula dizendo que a lição
*(368) Tanzânia (Tanzânia), 2013
4.1.35.4.19.4.1.5
Retrato de um estudante do ensino Masai
*(369) Tanzânia (Tanzânia), 2013

19.4.1.1
Ver exterior da Escola Masai
*(370) Tanzânia (Tanzânia), 2013

19.4.1.4
Retrato de dois alunos da Escola Masai
*(371) Tanzânia (Tanzânia), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Desiree Costa Giusti, Brasil
26.4.1.2
O muro já não é vermelho
*(372) Havana (Cuba), 2013

4.1.35.4.26.4.1.4
O muro já não é vermelho
*(373) Havana (Cuba), 2013

26.4.1.5
O muro já não é vermelho
*(374) Havana (Cuba), 2013
26.4.1.1
O muro já não é vermelho
*(375) Havana (Cuba), 2013

175

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Carla Alexandra Fernandes Mota, Portugal
5.4.1.3
Às compras no mercado de Minab
*(376) Minab (Irão), 2013
4.1.35.4.5.4.1.1
Os olhos por trás da máscara
*(377) Minab (Irão), 2013

5.4.1.6
Tentativa de comunicação
*(378) Minab (Irão), 2013
5.4.1.4
As histórias escondidas por trás de uma máscara
*(379) Minab (Irão), 2013

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Nuno Lobito, Portugal
14.4.2.6
Inshala
*(380) Gaza (Palestina), 2013

4.1.35.4.14.4.2.1
Jihad
*(381) Gaza (Palestina), 2013

14.4.2.2
Bombardeamento
*(382) Gaza (Palestina), 2013
14.4.2.4
Allah Akbar
*(383) Gaza (Palestina), 2013

177

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

José Bezerra Neto Segundo, Brasil
3.4.2.6
Descanço, até outro dia
*(384) Assu/RN (Brasil), 2013

3.4.2.3
Operador de máquina
*(385) Assu/RN (Brasil), 2013

3.4.2.2
Executor, observador e felino
*(386) Assu/RN (Brasil), 2013

Transversalidades

3.4.2.5
Translado laboral
*(387) Assu/RN (Brasil), 2013

I fotografia sem fronteiras

3.4.2.4
Mantenedor de máquinas
*(389) Assu/RN (Brasil), 2013

4.1.35.4.3.4.2.1
Reflexão antecedente ao labor
*(388) Assu/RN (Brasil), 2013

179

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Alexandre Ferreira dos Santos, Brasil
4.4.2.6
Louceiros:do barro ao pó
*(390) São Gonçalo do Amarante - RN (Brasil), 2013

4.4.2.3
Louceiros:do barro ao pó
*(391) Ceará Mirim - RN (Brasil), 2013

4.4.2.4
Louceiros:do barro ao pó
*(392) São Gonçalo do Amarante - RN (Brasil), 2013

Transversalidades

4.4.2.5
Louceiros:do barro ao pó
*(393) São Gonçalo do Amarante - RN (Brasil), 2013

I fotografia sem fronteiras

4.4.2.2
Louceiros:do barro ao pó
*(395) São Gonçalo do Amarante - RN (Brasil), 2013

4.1.35.4.4.4.2.1
Louceiros:do barro ao pó
*(394) Caicó - RN (Brasil), 2013

181

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

Fernanda de Andrade Pinto Renno, Brasil
5.4.2.6
Gaiola arroz e crianças
*(396) Brejo Grande, Sergipe (Brasil), 2014

4.1.35.4.5.4.2.2
Seu Manoel e seu radinho de pilhas
*(397) Pixaim, Piaçabuçu, Alagoas (Brasil), 2014

5.4.2.5
Futebol pacatuba
*(398) Pacatuba, Sergipe (Brasil), 2014
5.4.2.3
Cachorro e lavadeiras
*(399) Brejo Grande, Sergipe (Brasil), 2014

Transversalidades

I fotografia sem fronteiras

Eduardo Berazaluce, Espanha
6.4.2.1
Agua y jabon
*(400) Madrid (Espanha), 2013

4.1.35.4.6.4.2.2
Education
*(401) Madrid (Espanha), 2013

6.4.2.3
Futuro
*(402) Madrid (Espanha), 2013
6.4.2.4
Hombre de barrio
*(403) Madrid (Espanha), 2013

183

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

36.4.2.6
Sophie Mendez de Serpa Lopes da Costa, Portugal
Mercadoria
*(404) Souk ouro (UAE), 2014

8.4.2.2
Kelson Fontinele, Brasil
Família sem renda
*(405) Bairro Promora, Teresina - Pi (Brasil), 2014

7.4.2.2
Thiago Morandi, Brasil
Congo
*(406) São João del-Rei (Brasil), 2013

7.4.2.3
Thiago Morandi, Brasil
Congo
*(407) São João del-Rei (Brasil), 2013

Transversalidades

24.4.2.4
Saulo Goll Kudla, Brasil
Índio moderno
*(408) Largo da ordem, Curitiba PR (Brasil), 2013

11.4.2.1
Peterson Azevedo Amorim, Brasil
Índio moderno
*(409) Raso da Catarina - BA (Brasil), 2013

I fotografia sem fronteiras

11.4.2.3
Peterson Azevedo Amorim, Brasil
Perpetuando a tradição
*(410) Raso da Catarina - BA (Brasil), 2013
11.4.2.2
Peterson Azevedo Amorim, Brasil
Caboclo contemporâneo
*(411) Raso da Catarina - BA (Brasil), 2013

185

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

30.4.2.6
Rory Aliran Birkby, África do Sul
Lenox House 6
*(412) Cidade do Cabo (África do Sul), 2014

30.4.2.2
Rory Aliran Birkby, África do Sul
Lenox House 2
*(413) Cidade do Cabo (África do Sul), 2014

32.4.2.2
Rita Saraiva Grade, Portugal
Foi o que eu lhe disse
*(414) Getxo (Espanha), 2013

Transversalidades

22.4.2.3
Albino Mahumana, Moçambique

22.4.2.1
Albino Mahumana, Moçambique

Mulher voltando da sua machamba
*(415) Caia (Moçambique), 2008
22.4.2.2
Albino Mahumana, Moçambique

Meninos voltando do mercado informal
*(417) Caia (Moçambique), 2008
35.4.2.5
Ana Margarida Rodrigues Parreira, Portugal

Casal voltando do corte de lenha
*(416) Caia (Moçambique), 2008

I fotografia sem fronteiras

Há sempre tempo para o Amor
*(418) Londres (Inglaterra), 2014

187

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

10.4.1.4
André Lobo de Sá Cavalcanti, Brasil
Metrô
*(419) Rio de Janeiro (Brasil), 2004

28.4.1.3
Marcelo Andre Ferreira Silva, Brasil
Bandoneon Germânico
*(420) Parque Malwee, Jaraguá do Sul, Santa Catarina (Brasil), 2013

25.4.1.6
Ana Paula da Silva Ramalho de Almeida, Portugal
A acção III
*(421) São Tomé (São Tomé e Príncipe), 2013
30.4.1.5
Vanessa Gonçalves Araujo, Brasil
Arte Urbana
*(422) Rio de Janeiro (Brasil), 2013

Transversalidades

42.4.1.4
Sérgio Lopes, Portugal
Fogo da devoção
*(423) Meteora, Região da Tessália (Grécia), 2013

4.4.1.2
Ana Claudia de Sousa Farias, Brasil
Graça Alcançada
*(424) Museu do Horto em Juazeiro do Norte - CE (Brasil), 2014

I fotografia sem fronteiras

17.4.1.3
Marina Maria de Lira Rocha, Brasil
O feminino e infantil
*(425) Mesquita da Kutubia, Marraquexe (Marrocos), 2013
43.4.1.4
Maria G Baldissera, Brasil
Turismo e população autóctone: Estranhamento
*(426) Cusco (Peru), 2014

189

4

I Cultura e sociedade: diversidade cultural e social

42.4.1.2
Sérgio Lopes, Portugal
A fé vence montanhas
*(427) Meteora, Região da Tessália (Grécia), 2013

27.4.1.3
Sofia Alexandra Ferreira Augusto, Portugal
Ruínas Habitadas (III)
*(428) Roça de Água Izé (São Tomé e Príncipe), 2013

egendas

*legendas

1-6
A Pesca na ria de Aveiro.
O Murtoseiro que já tinha casa de tijolo no Tejo, quando lá chegaram os avieiros, e ali pescava o sável, a fataça e a eirós; a Murtoseira que, mais tarde, percorria a
pé os caminhos que a levavam à Azambuja, carregando as redes feitas na terra e que ia vender aos do Tejo;
o Murtoseiro é povo de muitas artes mas as de pesca
são as suas preferidas.
Subam as lampreias e os sáveis as águas mais doces
que de inverno escorrem na ria, e é vê-lo com novas
redes, artes velhas, colhendo esses peixes que a norte
e a sul são tão apreciados.
A arte da pesca é arte de homens que resistem desde
sempre e que comem pão salgado a cada dia, que vivem com o relógio das marés, que partem e regressam
para tornar a partir.
7
Cabo Mondego. Maior afloramento do Jurássico da
Europa e Monumento Natural.
8
Vista aérea de terrenos agrícolas no Alentejo.
9
Mais de duas centenas de pinturas do pintor Yves Decoster embelezam o exterior de casas, escolas, edifícios
oficiais ou moradias abandonadas em São Miguel, tendo em comum o mesmo traço: corações que pretendem sensibilizar para o amor.
10
“A vida é uma ilha, as rochas são teus desejos,
sonhos árvores e flores solidão.”
Khalil Gibran
11
“O correr das águas,a passagem das nuvens,o brincar
das crianças (...)”. Hermann Hess
12
“Sou fuga para flauta de pedra doce.
A poesia me desbrava.
Com águas me alinhavo”.
Manoel de Barros
13
“Dúvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor”.
William Shakespeare
14
“A poesia é ao mesmo tempo um esconderijo e um
altifalante.”
Nadine Gordimer
15 - 18
Cabo Mondego. Maior afloramento do Jurássico da
Europa e Monumento Natural.
19
As Furnas são muito conhecidas pelas suas águas termais, nomeadamente as caldeiras, a Poça da Beija e
piscinas térmicas.
20
A “Camellia sinensis”, planta que está na origem do
chá verde e do chá preto, foi introduzida nos Açores,
nomeadamente em São Miguel, em 1750, transportada pelas naus que retornavam do Oriente.

21
A poça da D. Beija é constituída pela nascente natural
de água quente, dentro duma gruta, que fornece as
duas piscinas, uma zona para molhar os pés ou o corpo
e parte da ribeira, que alberga uma comporta removível,
proporcionando uma mistura de água quente e fria.
A forte cor amarela da água deve-se à presença de
cianobactérias, seres oxigénicos fotossintéticos que,
em ambientes ricos em ferro, reagem com o ferro livre,
oxidando-o e levando-o à sua precipitação.

com outros camaradas de mar. Todos em embarcações
pequenas e normalmente trabalhando a dois.

22
A Poça da Dona Beija faz parte de um conjunto de
nascentes férreas e quentes associadas aos fenómenos
de vulcanismo secundário bem evidentes na Caldeira
do Vulcão das Furnas. A sua formação advém da existência de aquíferos termais subterrâneos cuja água, em
contacto com as rochas sujeitas a altas temperaturas,
aquece gradualmente e atinge a superfície com temperaturas médias de 39ºC.

43
Um casal (marido e mulher)de pescadores na arte de
cofres para o polvo. Ambos da zona de Vila Nova de
Milfontes, ele sempre pescador, seguindo as pisadas
do pai. Ela ingressou um ano antes devido à falta de
oferta de emprego e trabalho na região. A pesca ao
polvo através da arte de cofres é rotineira, mantendose os cofres uma temporada (quase um ano) na água,
apenas verificando-se diariamente as artes, recolhendo
o pescado e voltando a iscar. Uma tarefa que começa
às 04h00/05h00 e dura até às 10h00, hora de entrgar
o pescado na lota. Infelizmente para o casal, no dia das
fotografias, o dia de pesca foi mau, aliando o denso
nevoeiro à falta de capturas.

23
A Jusante do Poço do Inferno, Manteigas, Parque Natural da Serra Estrela, Portugal.
24
Covão da Ametade, Manteigas, Parque Natural da Serra Estrela, Portugal.
25
Nave de Santo António a 1550m de altitude no Parque
Natural da Serra da Estrela Portugal.
26
Casa de abrigo situada na Nave de Santo António a
1550m de altitude no Parque Natural da Serra da Estrela Portugal.
27
Encosta de São Lourenço, Manteigas, Parque Natural
da Serra Estrela, Portugal.
28 - 33
Com este conjunto de seis imagens, tentei, ilustrar/resumir o ciclo da extração da cortiça, (descortiçamento,
transporte, empilhamento das pranchas de cortiça até
ao empilhamento final no montado).
A extração da cortiça dos sobreiros, um processo manual, tipicamente português, sendo realizada entre
os meses de Maio e Setembro num ciclo de extração
periodicamente de 9 em 9 anos em cada sobreiro, sendo Portugal um dos maiores produtores mundiais de
cortiça, a jóia da coroa dos nossos recursos naturais.
34
Saída para o “cerco”.
35
Chegada da rede.
36
Os peixes a tentar a fuga da rede.
37
O “tesouro” à vista.
38
A separação do pescado por espécies.
39
O João na sua “arte”.
40
De aparelho (conjunto de cofres ligados através de uma
madre e sinalizados por bóias) em aparelho, cruzam-se

41
Os cofres são limpos e iscados com cavala. e arrumados por ordem inversa à de recolha, para depois serem
devolvidos à água.
42
Enquanto o marido puxa os cofres através da ajuda do
alador, a esposa, retira o pescado (se houver).

44
No meio dos trajectos entre aparelhos. Tempo para um
cigarro e conversar com amigos de profissão em outras
embarcações. Altura para por as notícias em dia.
45
Paisagem da Torre na Serra da Estrela destacando-se
um pastor com o seu rebanho.
46
A paisagem da serra do Caramulo está diferente, enfeitada com um parque eólico que aproveita os ventos
fortes para produzir energia. Foram esses ventos que
ajudaram, no último verão, a devorar parte da flora
serrana que a deixou com este aspecto negro.
47
Aldeia histórica de Sortelha.
48
É das poucas coisas que não mudou muito durante
todo este tempo, este mar de nuvens que frenquentemente se nos oferece. Ver o sol levantar-se de baixo
deste mar de nuvens é coisa que não se esquece. Certamente que este património natural é a melhor arma
que a região tem para se desenvolver…
49
Esta é a fotografia da montanha do Pico vista da ilha
vizinha, Faial!
50
Eutrofização da Lagoa do Caiado com a ilha de São
Jorge no horizonte.
51
A nuvem e a montanha do Pico.
52
Por do Sol refletido numa pequena lagoa.
53
A morfologia do lugar, torna cada recanto único. Apetece pela diversidade de formas, elementos e características. Por sua vez, cada um faz reverberar o som
da água em constante movimento, traduzindo-se em
tranquilidade ou agitado frenesim.

Transversalidades

54
A morfologia do lugar, torna cada recanto único. Apetece pela diversidade de formas, elementos e características. Por sua vez, cada um faz reverberar o som
da água em constante movimento, traduzindo-se em
tranquilidade ou agitado frenesim.
55
Um pequeno paraíso no interior. São estes pequenos
pormenores que fazem com que Portugal seja o país
bonito que é e que continue a motivar os portugueses
e não só a quererem descobrir mais as suas paisagens
naturais.
56
Rio Paiva.
57
Pescador de Lampreia.
58
Paisagem protegida das Lagoas de Bertiandos e S.
Pedro d’Arcos. Infraestrutura de apoio do Centro de
Interpretação Ambiental.
59
Zona habitacional na Caloura.
60
Ponte romana sobre a ribeira de Castro Laboreiro.

69
A espera das sensações.

88
Beleza sem Rugas.

70
O pastor guiando o rebanho.

89
Olhos de Azeitona.

71
Os dias rotineiros.

90
Dorme meu menino.

72
Douro Vinhateiro.

91
Criança levando folhas de fumo para fábrica de charutos.

73
Escombreira e armazém do complexo das Minas da
Panasqueira. [díptico]

93
Venda e mercearia com homem.

75
Cais palafítico da Carrasqueira.

94
Homem carregando sacos de farinha em mercado público.

76
El faro alumbrando bajo un fuerte temporal.
77
Temporal contra el faro de San Esteban de Pravia.
78
Temporal en la costa Cantabrica.
79
Fuertes olas y bufones rompiendo contra la costa de
Llanes.

62
O poder da cor.

80
Entrada de un frente sobre la costa de Llanes Asturias.

63
Convento.

81
Numa praia do Báltico, onde o turismo é a fonte de
rendimento dos locais. No Inverno, torna-se difícil
tanto para os humanos como para as aves que por ali
vagueiam, à espera de migalhas que os turistas lhes
levam.
Um dos atractivos desta cidade são os cisnes mudos
que se aproximam sem medo para comer umas migalhas.

65
O estuário do Sado é uma das maiores zonas húmidas
de Portugal, sendo ainda uma zona de protecção especial para a avifauna. Neste dia, o céu estava nublado
e o vento soprava fraco, o que permitia o reflexo das
aves que visitaram o estuário nesse dia.
66
Vão-se abrindo abrindo as que ficam tornam-se num
pontiagudo bico.
67
Macho de Caloptérix Haemorrhoidalis vigiando o seu
territótio no Rio Homem.
68
Durante uma caminhada para observar e fotografar
aves, apareceu uma raposa. A sua curiosidade, permitiu-me fotografá-la.

92
Estaleiro de barcos artesanais.

74
Barco adormecido, Ilha do Farol, Ria Formosa.

61
Reflexões entre pedras.

64
A essência persiste em manifestar a sua voz sublime
mesmo contra todas as adversidades e em forma de
flor, permite-nos sonhar com a beleza da natureza no
sítio mais improvável onde também há esperança. A
Natureza vai continuar a fazer o imaginável e as flores bem acreditam na luz que persiste na terra. Como
analogia à Máquina/Homem Vs. Natureza, o rasto da
pegada da roda do tractor secou, mas, deixou crescer
o mal-me-quer, quase que como profecia poética: ”a
terra nunca secará!?” Surge assim uma mensagem de
esperança, sobre uma ameaça que canta: «bem-mequer, mal-me-quer». O imaginável também acontece.

I fotografia sem fronteiras

82
Passeio à beira do rio, turistas com os seus animais de
estimação, visitam e passeiam entre o rio e a floresta,
com imagem de fundo a industrialização emergente
da cidade de Swinoujscie, com as gruas do porto e
gruas de construção em silhoueta.
83
O moinho farol Stawa Młyny, construído no quebra
mar do séc. XIX, a localizar a entrada para o porto no
rio Swina.
84
Um dos locais a andar de bicicleta pela praia. Existe
muito marisco nestas praias, vê-se frequentemente
pescadores com redes nesta prática. Talvez este senhor
tenha ido buscar qualquer coisa, para depois voltar ao
seu trabalho.
85
Pormenor do quebra mar à entrada do rio Swina.
86
Chapinhando entre crocodilos.
87
O encantador da floresta.

95
Trabalhador descansando em mercado público.
96 - 101
Apanha de perceves na costa da Galiza
102 - 107
Na cidade de Lençóis na Bahia, algumas mulheres ganham a vida lavando roupas em um pequeno rio, dai
veio o nome da cidade.
108 - 111
Nas pequenas vilas existem sempre barbeiros “barbeiros rurais” vamos chama-los assim, (um pequeno espaço, construído com materiais locais “paus e caniço”)
cujo seu interior está composto por uma cadeira plástica, um espelho e acessórios para trabalhar: máquina
de barbear e de cortar cabelo.
112
Pássaro à espera da hora certa.
113
O homem avança silenciando a Natureza...
114
Monolitos soltos no plato da caatinga nordestina.
115
Fotografia feita na estrada.
116
Na ponta das pernas, essa aranha se mantém na teia
contra a gravidade.
117
Promovendo a difração das cores.
118
Arara que habita o Parque Estadual “Morro do Diabo”
no município de Teodoro Sampaio (SP).
Reserva possuidora dos últimos remanescentes de
Mata Atlântica do interior do estado de São Paulo.
119
Não deixa de ser irónico. Quando mesmo sozinha e
singular, é o centro das atenções. Pequena gota de
água.
120
Five Sisters of Kintail é o nome popularmente atribuído
à cordilheira que domina esta paisagem. Estas montanhas são sobranceiras à pequena localidade de Shiel

193

*legendas

Bridge, visível na foto, que se localiza na base do vale
glaciar conhecido por Glen Shiel.
121
Aves contemplando el hermoso atardecer en Colombia.
122
A foto tenta mostrar a forte interligação entre as montanhas e o mar nesta região da Escócia.
123
Esta foto foi tirada na alvorada do dia 21 de dezembro
2013, quando se celebrou o primeiro ano desde o dia
1 que foi o 21 de dezembro 2012.
124
O sol declinava e dourava as aldeias e o campo. E havia
assim altas torres a lembrar histórias e condes empaladores. Tudo os meus olhos viam, registavam, e viviam.
125
Ali, acima da paisagem patrimonial, o voo da liberdade...

138
Manjedoura em bom estado de conservação, no local
que outrora terá sido um curral ou vacaria, do qual
restam somente uma parede e meia, permitindo contemplar os campos envolventes por onde os animais
pastavam. Este curral ou vacaria estava separado cerca
de 20m da casa de habitação do agricultor.
139
Mó depositada à entrada do moinho ao qual pertenceu, construído em alvenaria de pedra não emparelhada. Este moinho situa-se junto à estrada EN 268 e, embora há muito abandonado, encontra-se relativamente
bem conservado.
140
Curral e manjedoura em perfeito estado de conservação mas há muito abandonados. Esta divisão integra
uma construção em alvenaria de xisto e que era usada
exclusivamente como anexo agrícola e que dela fazem
parte três currais, vacarias ou redis, um alpendre para
alfaias agrícolas e um palheiro.

se utilizam as tesouras de antigamente mas a lã continua a ser uma fonte de rendimento para as famílias
com ovelhas.
152
O linho, ainda em planta, numa fase inicial do ciclo.
153
Tratamento do linho - sedeiro.
154
Tratamento do linho - maçadoiro.
155
Tratamento do linho - dobadoira (ou orgadilho).
156
Meadas de linho que posteriormente serão branqueadas e irão para o tear.
157
Tratamento do linho - Fiação.

141
Interior do mesmo moinho da foto “Mó”. Pormenor
da parte terminal do mastro do moinho, da entrosga e
seus dentes e das traves de madeira que sustentam a
cúpula de chapas de zinco.

158 - 161
Os cataventos, principalmente, nas vilas e aldeias do
interior, ao evocar a criatividade dos ferreiros, são marcas patrimoniais e identitárias. São, também, orgulho
das gentes! Resistindo na paisagem humana, promovem, roteiros de descoberta e admiração.

128
Pavão-indiano (Pavo cristatus).

142
Banco de suplentes num campo de futebol de uma
aldeia.

162
O lavrador prepara a palha para as vacas comerem enquanto efectua a ordenha.

129
Visão do cotidiano na Baía do Porto Grande em Mindelo.

143
Reboque parado sem uma roda.

163
As vacas aguardam juntas o momento da ordenha.

144
Paragem de autocarros regionais.

164
Vestígios de uma Mina abandonada.

145
Caixa de correio de diversos montes isolados.

165
Mão humana em terras algarvias.

146
Longe dos tempos que fazia sapatos de raíz, o Sr. Carlos ainda hoje mantéthttttm a sua oficina aberta onde
se dedica à concertação de calçado.

166
Marcas do tempo na dureza do granito.

147
Atividade realizada em Agosto, que apesar de cada vez
mais mecanizada, ainda se pode encontrar quem se
sente à volta das canas de milho e embalado por cantares separe as espigas das canas.

168
Tradição secular em Aldeia Viçosa, Guarda, em que, por
vontade de uma benemérita se distribuem castanhas e
vinho ao povo em troca de uma oração pela sua alma.

126
Pórtico Fluvial.
127
El mar como un espectáculo a contemplar desde fuera,
sin mojarse, sin estar en contacto con él.

130
Fotografia contra a xenofobia.
131
Los pastores recorren grandes distancias por las Gargantas del Todra, en Marruecos, para que su ganado
encuentre alimento.
132
Entrando la hierba.
133
Retrato de família.
134
Uma máscara da aldeia de Lazarim (Lamego) repousa
no colo da sua portadora, no intervalo de um desfile
de máscaras organizado em Mira. À falta de rapazes,
atualmente também as mulheres e os mais velhos
transportam a máscara.
135
Na aldeia de Rebordaínhos, no dia de Reis, a maçã que
o careto transporta é mais do que um mealheiro, é um
símbolo de fertilidade nas suas mãos, a quem se faz
um pedido para um bom ano agrícola ou de saúde.
136
O Cego e o Molacillo, duas das personagens da festa
de inverno de Sarracin de Aliste (Zamora), percorrem
a aldeia no dia de Ano Novo. As cores fortes do traje
do Cego contrastam com a solidão da paisagem rural.
137
O Zangarron de Montamarta, talvez a personagem
mais peculiar de todas as festas de inverno da província
de Zamora, percorre as ruas da aldeia no dia de Ano
Novo e no dia de Reis, fazendo o peditório.

148
91 anos de vida dedicados à arte de fazer palhoças. Já
não há pastores como antigamente que palmilhavam
montes à chuva com o rebanho e confiavam na impermeabilidade da sua palhoça. No entanto, o Sr. António
ainda executa a arte como ninguém.
149
Depois da Vareja e das oliveiras podadas é altura de
queimar a rama. As cinzas que ficam contribuem para
a fertilização dos solos para as sementeiras da primavera seguinte.
150
Atividade familiar que permite ter vinho à mesa por
mais um ano. Um dia que começa com a vindima e
acaba com o pisar das uvas no lagar. Dias depois há
néctar novo.
151
Com o calor é necessário refrescar as ovelhas. Já não

167
Caracterizar o lugar; lugares e arquitectura rural.

169
Souto e Habitação.
170
Actividade muito usada nos espaços rurais do Minho,
espaço de união e diversão de amigos.
171
A gravalha ainda tem uma grande importância no dia
a dia do lavrador para acender o lume, que tende a desaparecer pelos seus substitutos: as actuais acendelhas.
172
Grupo de trabalhadores provenientes da Roménia a
varejar uma oliveira durante a campanha da apanha da
azeitona no olival da Belloliva.
173
Dois trabalhadores num olival em Beja descarregam as
azeitonas durante a campanha.
174
Aos 99 anos cumpre o ritual.

Transversalidades

175
Homem guarda folheto oferecido por um grupo de
Testemunhas de Jeovás que percorre a aldeia.
176
Retrato rural.
177
Por mãos sábias, que no campo colhe o trigo e amassa
o pão, um sabor que se guarda e uma tradição que
não se apaga!
178
Habitação dos moradores do deserto do Jalapão, construída com com paredes de barro e bambu.
179
Produção de artesanato de capim dourado, só encontrado nesta região do Brasil, que se tornou principal fonte
de renda para as comunidades locais. Onde o escambo
de mercadorias por peças artesanais é muito comum.
180
Jovens solitários no deserto do Jalapão, onde há mais
homens que mulheres, pois estas ao alcançarem a juventude partem em busca de melhores condições de
vida na capital, enquanto os homens permanecem tomando conta da terra.
181
Na região, as noites são frescas todo o ano, há costume de se reunir em torno da fogueira para conversar e
apreciar as estrelas.
182
Casa situada no centro da Aldeia indígena Parará Púru,
onde a comunidade realiza as suas reuniões e Festas.
A Aldeia mantém intacta os modos de vida antigos que
herdaram dos seus antepassados.
183
Cozinha,casa sobre estacas da Aldeia indígena Parará Púru, onde as mulheres preparam as refeições para
toda a comunidade.
184
Crianças Parará Púru.
185
Mulher indígena Parará Púru.
186
Mulheres e seus filhos Parará Púru, Panamá.
187
Criança que está coberta com tinta natural para protecção contra mosquitos.
188
El sol se esconde y es hora de volver al corral con el ganado. Cuando hace ya tiempo que no llueve el camino
y las ovejas se confunden con el polvo.
189
En la primavera es cuando se preparan los huertos para
disponer de alimento durante el verano y también bien
avanzado el otoño, en este caso sembrando patatas.
190
El invierno en la montaña es muy duro, todos los días
Guillén sube a la cuadra a vigilar y dar de comer al
ganado, haga frío, calor o esté nevando esa es su tarea
desde hace muchos años.

191
En algunas partes del Pirineo Aragonés todavía se
mantiene el corte de la hierba con el dallo, a la vez
que conviven con máquinas cortadoras más modernas.
192, 194
Casa sem Teto é um questionamento sobre o tão
grande e devastador é o sonho imposto por uma
sociedade desapegada de valores humanos, aonde o
homem se traduz pelo seu montante de patrimônio
e não pelos seus valores. Desta forma, sendo forçado ao exedo ao ponto de deixar para traz seu maior
bem, SEU LAR.
193
La simple magia de conceder vida.
195
En ciertas zonas de Marruecos es complicado encontrar cursos de agua naturales, en zonas de extrema aridez, y los pastores deben abrevar al ganado extrayendo agua de pozos muy profundos.
196
Una tarde de trabajo sobre la carretera.
197
Apesar da inauguração relativamente recente de estradas permitir o acesso a materiais de construção industrial (cimento, tijolos e metal); nos quilombos do
Vale da Ribeira ainda se praticam diversas formas de
arquitetura tradicional. Na casa de Joaquim e Nadir o
fogão, a cozinha e algumas panelas são construídos
tendo o barro como matéria prima básica. As paredes
são erguidas por meio da técnica de taipa de pilão,
introduzida nos tempos de colônia e muito difundida
por diversas regiões rurais do Brasil.
198
En Marruecos las bicicletas se han convertido en uno
de los medios de transporte más utilizados. En cualquier pequeña población hay algún taller específicamente dedicado a arreglar las bicicletas. En muchos
casos son niños los que encontramos gestionándolos.
199
No centro da capital paraense, encontram-se vários
jovens realizando uma atividade que é considerada do
interior: a pesca.
200
Fotografía tomada en la localidad de Marchena (Sevilla) un “pueblo” que si bien utilizando el criterio
cuantitativo por su número de habitantes debería ser
una ciudad, sin embargo conserva en sus edificaciones, actividades económicas (principalmente agrarias)
y modo de vida, las características rurales. De ahí que
en España se denomine con el nombre de agro-ciudades a estos municipios.
201
Antiguo cargadero de mineral.
202
A Raia. Entre dois países 01.
203
Habitantes da Ilha dos Marinheiros, em retorno para
a casa, com o seu barco, aqui na região, denominado
de caíco.
204
Arrozal apunto de recolectarse en el municipio sevillano de Lora del Río. Junto con otros municipios del Bajo

I fotografia sem fronteiras

Guadalquivir (marismas del Guadalquivir) forman el
arrozal de mayor extensión de España.
205
Caminos rurales entre el bosque.
206
O rio das Pérolas separa dois diferentes mundos na
China. Na margem oposta um complexo hoteleiro ergue-se na margem oposta, olhando de soslaio para o
litoral rural de Coloane.
207
Khamryn Khiid surje depois de um par de horas de
jipe sobre as dunas do Gobi. Durante o fim-de-semana
muitos crentes dirigem-se neste local para suas orações, mas durante a semana o silêncio mal é quebrado.
O trilho serpenteia e ondula sobre uma tonalidade rosa
ao longo de dezenas de tsupas.
208, 209
Trabalho rural, Bundhi.
210
Foto tirada a um edifício devoluto em Lisboa.
211
Com a presente série pretende-se representar e colocar em evidência, os edifícios de esquina construídos
desde o início da urbanização do Alto de Xavier, em
Portimão.
Nesta fotografia, encontra-se um exemplar construído
na década de 80 do séc. XX, tendo como principais
características, a imitação de molduras tradicionais
com tinta, a utilização de beirais trabalhados com massa e rompendo com a simetria e equilíbrio formal das
décadas anteriores. O interesse surge em perceber o
impacto formal que estes edifícios representam nas cidades portuguesas, e qual o seu impacto na memória
colectiva e futura.
Esquina da Rua António F. Castilho e Rua Gaspar L.
Canário.
212
Uma cidade, muitas vidas (V).
213 - 216
Uma cidade, muitas vidas (III), (II), (I), (IV).
217 - 220
Com a presente série pretende-se representar e colocar em evidência, os edifícios de esquina construídos
desde o início da urbanização do Alto de Xavier, em
Portimão.
217, 218, 220: esquina da Rua Viscondessa de Alvor e
Rua J. Pereira Sampaio Bruno, esquina da Rua Dr. Manuel de Almeida e Rua Francisco Bivar, esquina da Rua
Dr. Manuel de Almeida e Rua Alexandre Herculano.
Nestas fotografias, encontram-se três exemplares construídos possivelmente na década de 60 ou 70 do séc.
XX, tendo como principais características, a utilização de
revestimento cerâmico “pastilha” e utilização de caixilharias em alumínio na cor natural e molduras finas em
mármore. Este tipo de construção encontra-se bastante
disseminado nas cidades portuguesas sem que contudo,
tenham um estilo classificado, sendo apenas um produto do modernismo aplicado à realidade local.
219: esquina da Rua Dr. Manuel de Almeida e Rua Vila
Lobos.
Nesta fotografia, encontra-se um exemplar construído possivelmente na década de 1950, em estilo Arte
Deco, perceptível pelos trabalhos de massa na platibanda e molduras.

195

*legendas

221
Ainda no Comércio e Serviços, e dada a sua expressão
na zona do Parque das Nações, representa-se também
o centro comercial Vasco da Gama.
222
A actividade de Comércio e Serviços é representada
aqui pelo edifício “River Plate”, onde existem lojas,
escritórios e apartamentos.
223
Pela importância que detém no desenvolvimento, retrata-se aqui a actividade de Transportes, com a “Gare
do Oriente”, que tem ligação ao Metro e transporte
rodoviário.
224
Outrora um aterro sanitário, hoje aquilo que se procura
documentar através de algumas actividades económicas existentes no Parque das Nações, em Lisboa. Na
“Habitação” ilustram-se as torres S. Rafael e S. Gabriel
e zona envolvente.
225
El tiempo pasa entre pensamientos.
226 - 227
Cruce de miradas frente a un club nocturno.
228
Las palomas comparten con los cuidadanos las calles
desde hace siglos.
229 - 232
O ensaio Quasinvisível, é um projeto urbano que assenta em três pilares: arquitetura, montras de lojas e sinalética vária. Desde 2008 fotógrafo este tema que para
mim não interessa tanto o lugar em que as imagens
foram registadas, pois qualquer um dos instantâneos
guarda entre si uma memória de cidade coletiva que,
no entanto, não é vista pelos seus atores principais, as
pessoas que vivem na cidade. A cidade, lato sensu, o
grande cenário, onde cada um de nós representa o seu
papel, é sempre visitada como um dado adquirido: abrimos os olhos e olhamos, mas será que exercemos o poder da visão, o poder de encontrar um diferencial nos
vários elementos que emergem de uma outra cidade?
Não ver a cidade no detalhe, na desconstrução, é não
ver o outro?. Em nenhuma das imagens feitas ao longo
deste período inclui a pessoa física, mas vejo; melhor,
sinto que ela está presente ... ela pode não estar em
carne e osso, o que não significa dizer que ela esteja
invisível… e por isso o Quasinvisível, pois em tudo –
como no poema Operário em Construção, de Vinícius
de Moraes – eu vejo a mão do ser humano… a sua
representação social, a sua herança e o seu fado.
233 - 238
As 3 cidades mais importantes do país e os rios que estão na génese da sua implantação. 233 - Ponte Pedro
e Inês, 234 - 0 Douro, 235 - Ponte D.Luís I, 236 - Ponte
25 de Abril, 237 - O Tejo, 238 - O Mondego.

boa.
243
Unfinished Projects - Addendum (texto representativo
do projecto).
O projecto Unfinished Projects - Addendum decorre
da continuação do trabalho desenvolvido no mestrado de Fotografia e Cinema Documental (ESMAE)
concluído em 2012. Inicialmente, tratava-se de fazer o
levantamento de edifícios de habitação num território
definido - o concelho de Valongo - um dos concelhos
periféricos à cidade do Porto. Por imposição da realidade, estende-se a temática ao território nacional com o
consequente alargamento às restantes infra-estruturas
inacabadas que podemos ver um pouco por todo o
país. Neste conjunto de imagens podemos ver ainda
alguns edifícios de habitação inacabados, uma zona
comercial, uma urbanização, e um viaduto, cujas ligações nunca foram concretizadas.
VCI 1 - Nesta imagem podemos ver as transformações
urbanas que têm ocorrido ao longo destas últimas
décadas. Por um lado, edifícios de habitação antigos
são emparedados e encontram-se ao abandono, por
outro, edifícios em bloco são construídos, densificando
as zonas urbanas, mas com a crise financeira foram
abandonados e nunca concluídos. É visível nesta imagem o contraste urbano entre o passado e um futuro
que não se concretizou.
244
Esta urbanização encontra-se meia concluída. Consequentemente, meia habitada! Assim foi deixada, numa
zona isolada do restante núcleo urbano, tendo o carro
como único meio de transporte. Esta imagem, inserese numa série onde estas questões são abordadas.
245
Este viaduto encontra-se sobre a A4, mesmo antes do
túnel de Águas-Santas, no sentido Vila-Real/Porto. Foi
construído apenas a parte correspondente à travessia
da A4, sem vestígios de prolongamento em qualquer
dos sentidos.
246
Este edifício encontra-se numa zona infra-estruturada
que foi abandonada, tendo sido construído apenas
este edifício. Na restante área, podemos encontrar
apenas os arruamentos, no entanto, toda a área se
encontra isolada por uma cerca de arame. Esta seria
mais uma zona de expansão urbana que ficou pelo caminho. Podemos ver nesta imagem, o contraste entre
a habitação existente, e a nova construção.
247
Tão tão e tão longa perspectiva nada alcançamos o
topo.
248
A brincadeira de ondas no edifício.
249
Edifício projetado para habitação.

253
Serra do Pilar.
254
Junto ao Oceano Atlântico, a Praça da Cidade do
Salvador divide as cidades do Porto e Matosinhos,
albergando “She Changes” (ou A Anémona, como é
popularmente conhecida), a escultura gigante da norte-americana Janet Echelman.
255
A Cidade da Figueira refletida no Espelho de Água.
256
Intervenção urbanística no âmbito de um alargado programa cultural em Águeda durante as festas da cidade.
257
Série fotográfica no aterro municipal de Évora.
258
Intervenção urbanística no âmbito de um alargado programa cultural em Águeda durante as festas da cidade.
No auge das festas, é realizado um “Carnaval de Verão” que culmina com uma explosão de cor.
259
Série de fotografias feitas durante a minha última visita
a Óbidos, para um encontro fotográfico, onde tentei
registar, da melhor forma possível, os belos recantos de
uma das mais belas localidades do nosso país.
260
Habitar.
261
A neve também é um estado de espírito.
262
Ribeira.
263
Taverna tradicional, mantendo-se fiel ao passado.
264
“Já dos velhos tempos
se não conhece nada.”
Bertold Brecht
265
O grafite pede silêncio ao Rio Douro, porque nesta calçada as mulheres, chamadas de carquejeiras, subiam
e desciam de madrugada até à noite esta rampa, de
210 metros com 22% de inclinação. As carquejeiras
descarregavam molhos de 40, 50 ou mais quilos de
carqueja dos barcos que a transportavam Douro abaixo
até às Fontainhas e prosseguiam viagem até aos sítios
onde havia padarias, sendo a carqueja a acendalha
para os fornos.
266
Utilização da fachada principal de uma casa em ruínas
(Vivenda Rafael de Jesus) para um ‘graffiti’ (a foto faz
parte de um levantamento fotográfico de ‘tags’ e ‘graffitis’ do Algarve, em curso).

239
Rua da Alegria, Lisboa.

250
Edifício projetado para hotelaria.

240
Rua de S. José, Lisboa.

251
Ponte D. Luís.

267
Foto tirada a uma empena de um prédio, uma acção a
favor das vítimas de violência doméstica.

241
Entre a R. António Pedro e a Av. Almirante Reis, Lisboa.

252
Conduciendo en un día nublado y lluvioso en Astún,
en el Pirineo Aragonés.

268
Foto tirada a um mural de homenagem aos 40 anos do
25 de Abril em Portugal.

242
Entre a R. de Sta. Marta e a R. Cardeal de S. José, Lis-

Transversalidades

269
Utilização de uma parede em ruínas para o ‘graffiti’
KERO BOLEIA, feito pelo street artist MENAU, de Quarteira, em 2004 (a foto faz parte de um levantamento
fotográfico de ‘tags’ e ‘graffitis’ do Algarve, em curso).
270
A fotografia foi feita entre a estação de Baguim e
Campainha. Zona de campos e de razoável actividade
agrícola que foi atravessada pela mais recente linha do
metro do Porto - a linha de Fânzeres.
Um senhor idoso, com ar muito relaxado, caminhava
junto à linha do metro “fundindo-se” com o metro
que seguia em sentido contrário.
Tentando demonstrar a fusão forçada e uma certa indiferença que as pessoas mais idosas demonstram pela
urbanização e evolução nesse local.
271
No seguimento da fotografia anterior, “Para nada” dá
continuidade à narrativa, demonstrando o que é fazer
algo para nada. A fotografia retrata uma das muitas
estradas inacabadas na sequência das obras do Metro.
Neste caso, junto à estação de Carreira, mesmo indo
em direcção a um mato sem qualquer tipo de habitação, nenhum pormenor ficou esquecido, como por
exemplo, a passadeira de peões.

284
Barcos descansando en la Bahía.
285
One of the most spectacular places in Shanghai, especially at night. There relies one of the most tallest
towers in the world! This urbanization seems to float
since it is sorrounded by water.
286
Quando os sonhos da cidade grande cansam os próprios sonhos.
287
Noor - Mouraria Light Walk.
288
A distância da vida ultrapassou meus passos muito
curtos.
289
Un asentamiento urbano sera derrumbado dándole el
espacio físico al progreso. Una niña camina sin saber
que este sera el ultimo paseo en la villa.
290
El faro de la ciudad guia entre las primeras luces del
día.

272
Ciudad de las artes.

291
Escala Humana, Percursos, Vidas.

273
Techo de la bodega de Frank Gehry para marqués de
Riscal en La Rioja.

292
Harmonia entre a Natureza e o urbano.

274
Hotel Omm de Barcelona.

293
Enfoque desde abajo de la escalera central del Círculo
de Bellas Artes en Madrid.

275
Iglesia de la villa olímpica de Barcelona.

294
Demarcação do Muro de Berlim.

276
Pelos trilhos de ferro da cidade de Budapest, o dia começa cedo nesta cidade de temperaturas negativas no
pico do inverno.

295
Hospital da Roça de Água Izé.

277
Os 13 graus negativos levam-nos a ter uma opinião
diferente do metro sobrelotado em hora de ponta.
278
O ritual repete-se dia após dia, com os trilhos de ferro
sempre a conduzir-nos ao nosso destino.
279
Não se movessem estas escadas também por trilhos de
ferro e a viagem seria bem mais cansativa.
280
O silêncio do cansaço do fim do dia assola estas carruagens, mesmo que pejadas de gente, apenas interrompido pontualmente por um tocar de um ou outro
telefone.
281
Já à superfície, ao final do dia e tomando como guia os
trilhos de ferro da cidade de Budapest, estes levam-nos
até à nossa última paragem.
282
El club náutico de la ciudad, entre la niebla...
283
This photo was taken at the end of the Nanjing road
(in Shanghai).

296
Dentro da escola com um aluno e Professor.
297
Buda en un monasterio mirando a través de una ventana.
298
Adolescente quéchua, visivelmente contrariada, posa
para turistas no pátio da Iglesia de San Cristóbal.
299
Um breve instante.
300
O Sr. José Mendes, filho da Sra. D. Encarnação é esparteiro. Tem 96 anos e fala da sua profissão com o
entusiasmo de uma criança.
301
“Nos ano passado vieram cá os do Nercab com uns
miúdos para eu lhes ensinar a minha profissão. E cá
estiveram uns tempos. Depois trouxeram-me um papel a dizer que sou formador de Excelência da União
Europeia.”
302
Isto é o esparto. Tem de se apanhar, tem de se tratar,
tem de se humedecer porque se trabalha depois melhor. Tudo isto é feito de esparto, até aquelas cadeiras.

I fotografia sem fronteiras

303
O meu avô era esparteiro. O meu pai era esparteiro.
Antigamente os filhos seguiam as profissões dos pais.
Eu também sou esparteiro.
304
Usava-se nos lagares antigos para fazer o azeite.
305
O Sr José da Encarnação é figura fanzina, porém cheia
de genica e com o entusiasmo de uma criança no olhar.
Trabalha de manhã à noite na sua pequena oficina
para onde vai, logo que sai de casa, subtilmente vigiado pelo filho.
Tem nas paredes da sua loja memórias das dezenas de
feiras onde ja participou, sempre convidado. Já ensinou a sua arte a muitos jovens que nela encontraram
forma de subsistência.
O Sr José da Encarnação, com 96 anos vive os dias
admirando todos os que o visitam e por lá passam.
306
Pescadores na embarcação.
307
Momento de convívio antes da ida para o mar.
308
As mulheres em terra esperam pelo regresso em segurança dos homens.
309
Momento de levar o barco para o mar.
310
O barco aproxima-se da praia e é puxado para terra.
311
A rede é puxada para a praia.
312
Junto às muralhas do castelo, o estendal tem sempre
roupa lavadinha para secar.
313
É quase como a História: estendal com vista para o
castelo.
314
A água da fonte tem um fim prático no quotidiano:
lavar roupa.
315
Há sempre um estendal numa janela para secar a roupinha.
316
Série ininterrupta e eterna de instantes que marcam a
vida. Medida arbitrária da duração das coisas.
317
Eterno. Perene.
318
A que protege, ama, cuida.
319
Lembrança. Momento que fica imortalizado na mente.
320
O guitarrista.
321
O saxofone.

197

*legendas

322
A vendedora de castanhas.

alma perde-se no meu próprio mundo azul.”
Flávia Abib

323
Apenas um jogo.

345
Sem legenda.

358
Mujer tirando de un burro desobediente que se niega
a caminar.

324
Ensaio fotográfico de Jéssica Vale, realizado na cidade
de Ouro Preto - MG. O trabalho trata de valorizar a
beleza advinda da miscigenação, característica de inúmeras culturas espalhadas pelo mundo. A Jéssica traços indígenas com traços negros criando uma beleza
exótica e singular.

346
Maria Augusta; portuguesa, jubilada y residente en Picote, un pueblo portugués de La Raya.

359
Primeiro instante de uma série de instantes e de um
apreciável tempo que estas crianças passam no recreio.

347
Constantino; español, jubilado y residente en Formillos
de Fermoselle, pueblo español de la provincia de Zamora y perteneciente a La Raya.

360
Largo do Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel em Sesimbra, ao anoitecer.

325 - 327
Ensaio fotográfico de Iris Waira. O ensaio trata da
desconstrução dos padrões de género estabelecidos
pela sociedade. Ao retratar a Iris, damos visibilidade à
diversidade cultural, a uma sociedade livre e diversa,
característica inerente da nossa sociedade.
328
Homens a preparar os trilhos do chá.
329
Mulher a proceder à apanha do chá com trajes típicos
da época.
330
Terminada a apanha do chá, vai proceder-se agora ao
seu transporte.
331
O Chá, pronto para ser provado.
332 - 335
A Praia da Vagueira situa-se perto de Aveiro, na região
Centro Litoral, a sul da Praia da Costa Nova e a norte
da Praia do Areão. Nesta zona, a orla costeira é constituída por um cordão dunar que a delimita da zona
húmida da ria de Aveiro.
A norte da praia ainda teima a pesca artesanal, “Arte
Xávega”, que remonta ao sec. XIX. De barco, os pescadores lançam as redes ao mar e cercam os cardumes,
redes que depois puxam para a costa com a ajuda de
tratores. Homens e mulheres colaboram na azáfama
de estender a rede pelo areal e dela recolher todo o
peixe que insiste em voltar para o mar.
A Arte da Xávega parece condenada a desaparecer,
raros são os jovens que dão os primeiros passos na sua
dura aprendizagem nessa arte de pescar que os velhos
vão mantendo como forma de ocupação ou de colmatar as carências resultantes das suas parcas pensões
de reforma.
336 - 341
Trabalho fotográfico subordinado ao tema religião e à
forma como três religiões diferentes promovem as suas
celebrações. Através destas imagens são mostradas as
singularidades e semelhanças das vivências da Igreja
Ortodoxa, Muçulmana e Sikh no Porto. Neste caso as
celebrações da Igreja Ortodoxa.
342
De dia ou de noite o movimento é constante nas cidades, com o estilo de vida frenético que as pessoas
levam.
343
A arte do graffiti invade e dá vida ao abandono e olhar
preocupado da sociedade.
344
“Minha alma é cúmplice dos meus sonhos, minha

348
A orquestra participa com seus instrumentos metálicos
para cintilar músicas alegres e populares.
Incentiva o povo a festejar: Cristo ressuscitou!
349
A mensagem da celebração é soprada com toda a força, reunindo os músicos com o povo no adro da igreja.
350
Em Braga mora este senhor que é conhecido pelo senhor “Mãos de Música” devido à sua experiência em
consertar instrumentos de corda praticamente sem
qualquer hipótese de conserto, é um verdadeiro milagre ver o resultado final. Na sua casa tem um verdadeiro museu, com centenas de exemplares destes
instrumentos originários de todo o mundo. É um privilégio privar com este senhor e ouvir toda a sua cultura
musical em relação a estes instrumentos.
351
Trata-se do principal meio de transporte utilizado pelo
meu avô na década de 60/70 inclusa ao meio rural
onde se inseria e à actividade agrícola que exercia,
agora prostrados ao esquecimento e ao passar do tempo são objectos que envelhecem como as memórias e
neles surgem esses sinais do tempo e de inactividade.
352
Na Baixa lisboeta trabalha este sapateiro de poucas
falas, mas com um olhar que descreve bem a situação
social em que se encontra. Com o pouco trabalho que
tem vai sobrevivendo e sempre com a extraordinária
sabedoria desta arte que infelizmente não tem a quem
ensinar ou passar. Para mim foi uma experiência única
ter conhecido este senhor por quem tenho uma grande estima.
353
“Todo o inferno está contido nesta única palavra: solidão.”
Victor Hugo
354
José Manuel dos Santos é engraxador na Praça da República, em Coimbra, há quase 50 anos.
355
As mãos de José Manuel dos Santos conhecem a arte
de engraxar sapatos desde os 12 anos.
356
A relação entre os intervenientes da foto é deveras
interessante, no entanto, o trabalho que a peixeira desempenhava com grande destreza era magistral.
357
No mercado do Bulhão os filhos aprendem ainda os
ofícios dos pais. Ofícios antigos que tendem a desapa-

recer com os tempos.

361
O velho casario esquecido num tempo de passada
apressada.
362
Pequeno Careto que se preparava para o Entrudo Chocalheiro.
363
O Imaginário do Entrudo Chocalheiro.
364
Recogida de madera para preparar la comida de los
monjes.
365
Echándose la siesta después de almorzar.
366
Momento de relax y disfrutando de la brisa del viento.
367
Momento para el rezo de un buda.
368
Crianças na sala de aula dizendo a lição.
369
Retrato de um estudante do ensino Masai.
370
Ver Exterior Escola do Masai.
371
Retrato de dois alunos da Escola Masai.
372 - 375
Fotografia digital.
376
A aldeia de Minab localiza-se a poucos quilómetros da
fronteira com o Paquistão e as pessoas exibem um tom
de pele escuro e curtido pelo sol e pelo ar do mar. Às
quintas-feiras, a aldeia atrai inúmeros Bandaris das aldeias vizinhas que vêm comprar gado, roupas, legumes
e adereços femininos ao mercado semanal.
377
Há alguns anos atrás, enquanto fazia uma pesquisa
sobre tribos da Ásia Central, encontrei um artigo sobre
as mulheres Bandari. Na altura fiquei agarrada a um
olhar. Eram uns olhos negros com grandes pestanas
que sobressaiam por trás de uma máscara vermelha.
A máscara colorida que a jovem exibia atraiu o meu
olhar, mas foram aqueles olhos que prenderam a minha atenção e fizeram despertar o meu imaginário. Na
altura pensei: o que escondem estes olhos por trás da
máscara?
378
Em Minab, as mulheres são tímidas e na presença de
um homem sentem-se expostas e intimidadas. Quan-

Transversalidades

do estão sozinhas sorriem, inicialmente de forma envergonhada, escondendo o rosto e o sorriso por trás
do chador colorido. Depois do primeiro sorriso vem o
acenar de cabeça, um convite para uma fotografia e
algumas perguntas. É aqui que a barreira linguística
se torna intransponível. Elas fazem perguntas que eu
gostaria de responder. Eu tenho mil e uma perguntas
que gostaria de ver respondidas.
379
Há imensas mulheres que se escondem por trás das
máscaras e Minab. A maioria parecem-me jovens e bonitas, mas a máscara esconde o rosto e as suas histórias. As histórias de vida destas mulheres são também
as histórias desta parte do Irão. Serão negras como as
suas mãos? Ou serão alegres como as cores vivas que
vestem?
380
Mulher Palestina ,em mais uma manifestação em busca dos seus ente queridos ,que por vezes durante anos
passam na prisões em Israel ,mais um momento de
muita dor...!
381
Casa de um Jihadista ,momento de contemplação do
seu pai em mais um domingo de reunião entre famílias.
382
Gaza,limpeza e recolha de destroços …depois de mais
um forte Bombardeamento é assim há anos em Gaza.
383
Palestino em mais um dia de reza e a Pedir a Allah um
pouco de paz, porque segundo vi este Povo vive em
guerra constante...!
384
Por fim, após jornada cansativa, trabalhador respira
fundo, comenta alguns fatos e despede-se para voltar
noutro dia para mais uma batalha para sobrevivência.
385
Operar uma máquina requer habilidades. Mas com o
tempo tudo se torna repetitivo. Este homem, atua por
pelo menos 25 anos, 12 horas por dia a executar basicamente as mesmas tarefas.
386
Dividindo o espaço com pequenos animais, trabalhadores da indústria cerâmica atuam como máquinas,
repetindo, repetindo e repetindo o translado de telhas,
tijolos e pensamentos.
387
O vai e vem das telhas, tijolos e homens é entoado
como mantra que evoca a produção. Com fiscais de
olho em suas atividades, trabalhadores atuam como
máquinas que vai e vem.
388
Enquanto se prepara para mais um dia de trabalho na
indústria ceramista, trabalhador respira fundo e põe
na balança se vale a pena uma vida dedicada ao labor
pesado.
389
Assim como o operador, o mantenedor observa atentamente todos os sons e roteiros da máquina. Caso
algo esteja fora dos padrões, seu conhecimento é posto à prova para identificar e resolver o quanto antes,
pois tempo é dinheiro.

390 - 395
Louceiros: Cultura tradicional em fase de extinção no
estado do Rio Grande do norte no nordeste do Brasil.
396
Crianças brincando no fundo de uma gaiola em plantação de arroz.
397
Representante mais velho da comunidade quilombola
de Pixaim.
398
Pelada (futebol) em Pacatuba.
399
Cachorro e lavadeiras do Rio São Francisco em Brejo
Grande, Sergipe.
400
Pompas de jabón en la puerta de Alcalá de Madrid.
401
Padre e hijo en manifestación por una escuela y educación pública.
402
Padre e hijo en manifestación por una escuela y educación pública, en las calles de Madrid.
403
Vecino del popular barrio de Vallecas en Madrid.
404
Mercadoria.
405
O rapaz com a o bebé no colo, é um dos palhaços do
circo da Família Acioly.
406, 407
Congado de 333 anos, no distrito de Rio das Mortes.
408
Troco às selvas as matas e os rios rasgando assim meu
convívio com a natureza e se embrenho na mata de
pedra demonstrando aos brancos a cor da terra.
409
Cacique da etnia Pankararé, localizada no norte do Estado da Bahia, no Brasil.
410
Toré, dança típica da etnia Pankararé, do norte do Estado da Bahia.
411
Sertanejo e índio da etnia Pankararé, do norte do Estado da Bahia, antenado com a modernidade.
412
“Ao menos é trabalho, até ao fim de Junho. Daquele
amigo do seu pai, sim... Amo-te... vou ligar no fim da
semana, é mais barato.”

I fotografia sem fronteiras

seu meio de transporte para as várias actividades na
luta por melhores condições de vida.
416
Pessoas desta região da província de Sofala, percorrem
grandes distâncias entre a casa e a machamba, onde
normalmente, tem utilizado a bicicleta como meio de
transporte, por falta de outra alternativa.
417
Trata-se do dia a dia das pessoas que vivem neste distrito que normalmente para as suas diversas actividades
utilizam a bicicleta para as suas deslocações, como um
meio de transporte barato e amigo do ambiente.
418
Demonstração de carinho de um casal de apaixonados
nas ruas de Londres, após um dia de trabalho. Afinal
há sempre tempo para o amor!!
419
População no metro.
420
Imigrante alemão tocando músicas típicas de seu país
para clientes de um restaurante.
421
Contactando com a população em diversas povoações
do noroeste de São Tomé.
422
Grafite anónimo localizado numa das ruas da Zona
Portuária da cidade do Rio de Janeiro.
423
As velas das oferendas ardem não só na imensidão
rochosa dos mosteiros, mas também no silêncio onde
ecoam os nossos passos solitários.
424
Mulher devota do famoso Padre Cicero, faz promessa
para casar e ao alcançar a graça, deixa seu vestido de
noiva em museu do Horto na cidade de Juazeiro do
Norte - CE.
425
Série: Olhar a multidão.
426
Senhora quéchua observa com estranheza o casal de
turistas que se beija.
427
As tonalidades quentes das cores outonais envolvem a
pequena igreja “Agios Nicholas Anapausas”, que sorrateiramente se ergue, como todos os outros mosteiros, desafiando as forças da natureza e da gravidade.
428
Hospital da Roça de Água Izé.

413
“Quanto tempo quer ficar? É mais barato por mês.”
“Ainda não sei... vai depender do trabalho.”
414
Sem legenda.
415
Esta fotografia, retrata também o dia a dia de mulheres
que vivem nesta zona, que utilizam a bicicleta como

199

2014