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Este comentário consiste apenas num subsídio

para a compreensão da obra em questão. De
maneira alguma substitui a leitura integral do
livro, condição essencial para um perfeito
entendimento do texto literário.

Alberto Caeiro é um dos mais importantes heterônimos de Fernando
Pessoa, pois que mestre das demais personas literárias e até do próprio
Ortônimo 1. Assim, antes de qualquer comentário, é necessário entender o
processo de criação do grande poeta modernista.
Fernando Pessoa celebrizou-se por ter inventado diferentes
personalidades poéticas (ao todo, 72), cada uma apresentando nome, estilo,
visão de mundo próprios. É como se na verdade se tratasse de outros
escritores.
Há inúmeras explicações para tal fenômeno, desde as exóticas, que
defendem não passar de diferentes espíritos que o “médium” modernista teria
psicografado, até as simplistas, que encaram tudo como fruto da esquizofrenia
do artista. Entretanto, o que nos interessa no campo literário é entender como a
linguagem de um escritor se relaciona com o universo em que está inserida.
Dessa maneira, deve-se encarar a heteronímia como uma saída à situação de
desmanche em que se encontrava a nossa civilização no início do século XX.
Vivendo um mundo em crise, graças ao fracasso da Ciência (que não
tinha trazido a salvação prometida no século anterior) e da Religião (que fora
desvalorizada com o furacão positivista do século XIX), tinha-se a impressão
de que não havia mais uma verdade absoluta , tudo se fragmentava em
inúmeras perspectivas relativistas. Um indivíduo sozinho, então, não seria
capaz de captar as inúmeras faces da realidade, mas vários seriam eficientes
nessa empreitada. Nasce, portanto, a heteronímia, em que cada personalidade
poética seria o enfoque de uma faceta do universo.
Mas em que se destaca Alberto Caeiro? Provavelmente por apresentar
uma saída para nossa civilização, que enxerga como doente. Seria, pois, o
guia para um Fernando Pessoa com o coração à “beira mágoa”, um Álvaro de
Campos histérico, depressivo e drogado e um Ricardo Reis desencantado com
o tempo presente.
Deve-se entender que a nossa moléstia está já nas raízes em que o
universo ocidental se sedimentou. Somos todos frutos desse conúbio de duas

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- Para maiores informações sobre o Ortônimo e os heterônimos de Fernando Pessoa, basta
baixar na seção DOWNLOADS de nosso site os comentários do livro Os Melhores Poemas de
Fernando Pessoa.

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Comecemos. não seria exagero enxergar uma intersecção de valores entre as nossas duas bases.formas de entender o mundo: a Religião (representada aqui pelo Cristianismo) e a Filosofia (invenção dos gregos) 2. filosofia budista). O problema. ou seja. em filosofia oriental. a “faculdade humana da linguagem e do pensamento. de acordo com o Dicionário Houaiss. descendente da civilização grega (tanto que não se pode rigorosamente falar. Basta ler o seguinte poema. a análise da “nossa enfermidade” pela Filosofia. é suficiente ler o seguinte trecho do primeiro dos “Poemas Inconjuntos”: Não basta abrir a janela Para ver os campos e o rio. 2 . Esse conjunto de princípios e procedimentos é exclusividade da cultura ocidental. Não é bastante não ser cego Para ver as árvores e as flores. extenso. entendida como. mas bastante elucidativo: Há metafísica bastante em não pensar em nada. Que idéia tenho eu das cousas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? 2 . sensoriais. em suma. perdemos contato com nosso objeto de estudo. é que. a subdivisão da Filosofia que investiga o que transcende as experiências físicas. Com filosofia não há árvores: há idéias apenas. Além disso. por exemplo. mas com idéias sobre ele. em contraste com a função desempenhada pelos sentidos na captação de percepções imediatas e não refletidas do mundo externo”. afastamonos do que tentávamos entender. voltada para a apreensão cognitiva da realidade. portanto . Em primeiro lugar. Para entender o que se está expondo. pensar. pois só conseguimos captá-la de forma indireta. Em suma: não a enxergamos. Cristo pertenceu a um grupo de hebreus que mantiveram até certa altura contato com esse povo clássico. direta ou indireta.Interessante é lembrar que o nosso Cristianismo tem sua origem misturada a muitos dos aspectos gregos. E a base de todo esse mecanismo está no emprego da razão. Esse seria o nosso mal: não saber o que é a realidade. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Assim. com a cultura helênica. Observe-se que é criticado um certo deslocamento que o pensamento racional é capaz de fazer: ele não nos permite o contato direto com o mundo. refletir sobre as coisas do mundo. A partir desse ponto pode-se entender qual é a maior inimiga de Caeiro: a metafísica. boa parte dos pensadores e divulgadores dessa religião mantinha relação. É preciso também não ter filosofia nenhuma. para Caeiro. no momento em que usamos a razão para analisar.

Basta observar o trecho abaixo: 3 . sem o trabalho.. Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. Que é a de não saber para que vivem Nem saber que o não sabem? "Constituição íntima das cousas". Para Caeiro. "Sentido íntimo do Universo".Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma E sobre a criação do Mundo? Não sei. Quem está ao sol e fecha os olhos. Mas que melhor metafísica que a delas. É como pensar em razões e fins Quando o começo da manhã está raiando. a intermediação da razão. O único sentido íntimo das cousas É elas não terem sentido íntimo nenhum. o poeta que vê o que vê (“Eu nem sequer sou poeta: vejo 3. Para mim pensar nisso é fechar os olhos E não pensar. principalmente a primeira pessoa do singular do Presente do Indicativo: “vejo”..É interessante a enorme incidência do verbo “ver” nos Poemas Completos de Alberto Caeiro. A nós. E já não pode pensar em nada. Note-se que há uma defesa de um contato direto com a realidade. a qual muitas vezes busca o sentido oculto das coisas. como pensar na saúde Ou levar um copo à água das fontes. Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas cousas cheias de calor. O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. baseia-se quase que exclusivamente na visão. É incrível que se possa pensar em cousas dessas. A luz do sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa. e pelos lados das árvores Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. Tudo isto é falso. o mundo só pode ser entendido por meio dos sentidos. tudo isto não quer dizer nada. sua captação. Sua poesia-filosofia.. apreensão do mundo.”). Pensar no sentido íntimo das cousas É acrescentado. que não sabemos dar por elas. 3 . pois. É correr as cortinas Da minha janela (mas ela não tem cortinas). Mas abre os olhos e vê o sol. Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos E a de dar fruto na sua hora. o que não nos faz pensar..

o que o faz ser repetitivo e tautológico. Assim. O primeiro refere-se à linguagem. Saber ver sem estar a pensar. do nosso contato sensorial com a realidade externa. Ou então este outro: Sou um guardador de rebanhos. a reflexão deve partir do que se sente. entretanto. mas ocorrem no ponto preciso. ou seja. se se diz que “amor é fogo que arde sem se ver”. não quer montar reflexão alguma. enaltecendo-a. É tentadora essa rotulação. do eu-lírico à Natureza que o cerca. mesmo quando o eu-lírico afirma que não está preocupado com esse aspecto. Na verdade. o trecho abaixo: 4 . Para ele. pois no fundo se está afirmando que “uma coisa é outra coisa”. em pobreza na linguagem de Alberto Caeiro. pois seria uma forma de facilitar a compreensão de um poeta aparentemente simples. “uma coisa é uma coisa” apenas. deve-se lembrar que para os empiristas a sensação gera uma idéia. Há quem. ou seja. está-se descumprindo os postulados caeirianos.O essencial é saber ver. portanto. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. Outro dado digno de nota é a associação que costumeiramente se faz entre Caeiro e empirismo. Não se deve pensar. 4 . Saber ver quando se vê. Observe-se. Entretanto. há cuidado com estilo.Entende-se por panteísmo a doutrina filosófica que encara a Natureza como manifestação de Deus ou de qualquer outra divindade. A partir desse ponto. doutrina filosófica que crê que todo conhecimento só pode vir da experiência. dois aspectos importantes merecem ser mencionados. para tanto. concreto e direto possível. enquanto Caeiro não quer sair do que os sentidos captam. E nem pensar quando se vê Nem ver quando se pensa. Provavelmente já deve estar bem claro que Caeiro defende a integração. Caeiro tenta ser o mais objetivo. calculado. para garantir eufonia e até mesmo ritmo. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Avesso às formas indiretas de captação da realidade. Basta uma leitura mais atenta para perceber que suas repetições não são enfadonhas. por meio das sensações. veja nesse procedimento uma autorização a enxergar panteísmo 4 nesse heterônimo. De fato. é errado associá-lo ao empirismo. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Mas se Deus é as árvores e as flores E os montes e o luar e o sol. 5 . E a única inocência não pensar. Sol e luar e flores e árvores e montes. como deveria ser.. no final nega essa doutrina. Então acredito nele. e amo-a por isso.. Então acredito nele a toda a hora. Basta conferir outro excerto: Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... nem o que é amar . E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. E a minha vida é toda uma oração e uma missa. Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama. para eu o ver. Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às cousas. Qualquer um desses pontos de vista seria uma falsa captação da realidade: Se o homem fosse. pois o que ele “cultua” (se é que se pode usar esse termo) é apenas a Natureza.. Outra e verdadeira.. se no começo Caeiro parecia filiar-se ao panteísmo. se ele se fez.. Para que lhe chamo eu Deus? Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar.) Mas se Deus é as flores e as árvores E os montes e sol e o luar. Não um animal doente.Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele me aparece como sendo árvores e montes E luar e sol e flores. É que ele quer que eu o conheça Como árvores e montes e flores e luar e sol. Amar é a eterna inocência. Porque. Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me. Aqui estou! (.. Mas porque a amo. Cabe lembrar que a Natureza a qual o poeta cultua não é a abstração que focaliza as partes montando um conjunto. ou um todo composto da soma de partes. Animal directo e não indirecto. sem se preocupar em atribuir significados subjetivos místicos ou metafísicos. mas o mais perfeito dos animais. Percebe-se que. Se ele quisesse que eu acreditasse nele.

com seus rituais e simbologias. dizia que Caeiro era mais pagão. E assim — veríamos — não teríamos noção do "conjunto" ou do "total". um pensamento do "conjunto". visita-o: [O Menino Jesus ] Diz-me muito mal de Deus. como temos. Ter isso em mente nos ajuda a entender a paródia6 com que aborda os símbolos sagrados do Cristianismo (pois são apenas símbolos). A religião (se é que ela existe) desse heterônimo. fugido do Céu. Enfim. Um sentido como ver e ouvir do "total" das cousas E não.Devia haver adquirido um sentido do "conjunto". do que o próprio paganismo5. representações. por serem formas doentes de apreender a realidade. Fica nítido. Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. muito ao contrário. portanto. Ensinou-me a olhar para as cousas. como temos. porque mais primitivo. mudando o tom em que se apresentava sua fonte original. quando se considera Vênus a deusa do amor.Paródia é um texto que imita um outro. Caeiro nega tanto o paganismo quanto o Cristianismo. Porque o sentido do "total" ou do "conjunto" não vem de um total ou de um [conjunto Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes. mas também como aquela que cultua vários deuses. Sempre a escarrar no chão E a dizer indecências. E o Espírito Santo coça-se com o bico E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. 6 . 6 . E não. pois esta. que Caeiro nega não só toda manifestação de filosofia. é outra maneira indireta de apreender a realidade. satíricas. uma idéia. pois não se fala do amor diretamente. mas de sua representação. Aponta-me todas as cousas que há nas flores. como a dos gregos e romanos. Ricardo Reis. 5 . mas também de religião. A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. Diz-me que Deus não percebe nada Das coisas que criou — "Se é que ele as criou. Diz que ele é um velho estúpido e doente. do que duvido" — E é justamente esse menino que vai ensinar ao grande mestre o segredo para se viver: A mim ensinou-me tudo. não se utiliza de rituais. está-se fazendo outro deslocamento diante da realidade. é apenas o contato direto com a Natureza. De fato. entende-se o motivo pelo qual um outro heterônimo. Em geral suas intenções são jocosas.Paganismo não só pode ser entendido como religião que se opõe ao Cristianismo. de um dos mais famosos e tocantes textos de Poemas Completos de Alberto Caeiro. como no trecho a seguir. em que o eu-lírico sonha com o Menino Jesus que. do "total" das cousas. Assim.

O segredo. pois a total integração que as sensações permitem na apreensão do universo faz sumir a fronteira entre o eu e o outro. ocidentais. Aceitálas requer um esforço mais de desaprendizagem do que de aprendizagem propriamente dita.. Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. na qual temos de nos desfazer de tudo o que incorporamos em nosso processo educacional: 7 . Reparem bem para mim: Se estava virado para a direita. fazendo do pensar mais um entre os elementos sensoriais: E os meus pensamentos são todos sensações. Por isso quando pareço não concordar comigo. entre sujeito e objeto. entre abordagem subjetiva e objetiva. tomados que somos do mal de nossa civilização. portanto . pois negam o que nos parecia óbvio. como já se disse. ocidentais. que procura entendê-la.Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas. assente sobre os mesmos pés — O mesmo sempre. Mudo. o poeta mostra ser realizável. graças ao céu e à terra E aos meus olhos e ouvidos atentos E à minha clara simplicidade de alma. mas não aquele que a interpreta. Na verdade. A cor das flores não é a mesma ao sol De que quando uma nuvem passa Ou quando entra a noite E as flores são cor da sombra. pois se amolda a toda hora a vários elementos: Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. Outra postura que foge radicalmente ao nosso jeito de viver é o novo conceito sobre o indivíduo (se é que esse possa existir). Mas sou sempre eu. É algo para nós. Entretanto. numa atitude que se aproxima muito do zen-budismo. está em olhar atentamente para o mundo. que reflete sobre ela. mas apenas aquele que nos permite captá-la. são extremamente difíceis de aceitar. É a captação por meio do sensorial. Voltei-me agora para a esquerda. na medida em que despreza o intelecto e valoriza as sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. mas não mudo muito. o “possível” indivíduo acaba se tornando um ser em constante mutação. A sensação associa-se ao pensamento. Trata-se. praticamente impossível.. de posturas que para nós.

Tem noção de que O luar através dos altos ramos.. O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas. para tanto. o que prova que esse poeta não tinha uma formação tão primária como se afirma. Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa Enchendo com a sua pequenez a noite enorme 7 . apresentada anteriormente). E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa Abafa toda a existência da terra e do céu. Essa noção de desaprender (deixar a alma não mais vestida) mais uma vez aproxima a poesia caeiriana de uma postura zen-budista. de “sentido íntimo do Universo”. e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca. 8 . Isso exige um estudo profundo. Uma aprendizagem de desaprender E uma seqüestração na liberdade daquele convento De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas 7 E as flores as penitentes convictas de um só dia . Só o relógio prossegue o seu ruído. Ou seja. Não sinto a Natureza lá fora. o de mestre e o de discípulo: Acordo de noite subitamente. notar como o eu-lírico assume os dois papéis comuns nessa doutrina oriental. Saber ver quando se vê. Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra? Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos Se ver e ouvir são ver e ouvir? O essencial é saber ver. Sabe que há filósofos que falam de “constituição íntima das cousas”. É válido.Aqui surge algo muito comum na poesia de Alberto Caeiro: a citação do discurso alheio (não só por meio da paródia. Ele tem conhecimento de que há poetas que metaforizam as estrelas como freiras eternas. as flores como convictas de um só dia..O que nós vemos das cousas são as cousas. esse heterônimo revela certo grau de instrução que se deve levar em conta. Quase que me perco a pensar o que isto significa. E nem pensar quando se vê Nem ver quando se pensa. Lá fora há um sossego como se nada existisse. Dizem os poetas todos que ele é mais Que o luar através dos altos ramos. Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores. E o meu relógio ocupa a noite toda. Mas estaco. Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas Nem as flores senão flores. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!). Saber ver sem estar a pensar.

o paradoxo como algo negativo. Observe a comparação que se estabelece no primeiro verso: o poeta crê no mundo da mesma forma que crê num malmequer. Então. Então.. há outra relação de idéias: “para pensarmos nele” é uma finalidade. Mas essa nãofilosofia não deixa de ser. falho em Poemas Completos de Alberto Caeiro. aparentemente o mais óbvio. entretanto. de certo modo. mas não pensa. Na verdade. por meio da observação de causas e de conseqüências. pois se deve ter em mente a diferença que este tipo de pensamento tem com o pregado pelo zen-budismo. o que parece uma postura paradoxal. É chegado o momento de explicar o porquê de não pensar: o mundo não foi feito para pensarmos nele.. o que o faz buscar o significado oculto desse fato . refere-se ao fato de ele desprezar a filosofia e. busque uma tese. O primeiro. mas de toda a obra pessoana. 9 . Dentro dessa explicação.. corrigindo. É aceitável o contra-argumento de que o poeta nega o pensamento analítico e totalizante. trata-se de um recurso que acrescenta recorrentemente energia e densidade ao fazer literário não só desse heterônimo. Não se deve entender. Então surge uma explicação no segundo verso: porque vê ambos.. na medida em que nos ensina a captar corretamente o universo que nos cerca (objetivo da Filosofia) e. Todas essas relações foram introduzidas por nexos 8 .. Caeiro assume o lugar da Filosofia e da Religião. Porque o vejo.Não há redundância aqui. todos os seus poemas são uma exposição de idéias com a intenção de sustentar um sistema de apreensão do universo. que. há outros paradoxos. O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. Vem a partir daí uma oposição: vê. a atitude do seu “pupilo”. uma filosofia. Nega esses dois sistemas. tanto que emprega constantemente nexos lógicos. uma lei universalizante. já abordado no corpo dessa análise. Entretanto. cabendo destacar três muito marcantes nos textos de Caeiro. apresentar o caminho para a nossa salvação (objetivo da Religião). Mas não penso nele Porque pensar é não compreender . mas acaba se aproximando deles. do décimo verso até o final surge a figura do mestre. dessa forma.. no entanto. como verdadeiro mestre. ao observar a pequenez do instrumento marcador de tempo. Vê-se que no poema acima o discípulo surge entre os versos 7 e 9. mesma relação que vai aparecer no último verso: o mundo foi feito para olharmos para ele e concordarmos com ele. no momento em que o eu-lírico imagina o relógio abafando todo o universo. típicos do pensamento reflexivo 8: Creio no mundo como num malmequer.É a curiosa sensação de encher a noite enorme Com a sua pequenez.

Por ela não ser linguagem nenhuma. Assim. Basta ler este excerto: Se às vezes digo que as flores sorriem E se eu disser que os rios cantam. Não há como negar que este trecho é denso..Há estudiosos que enxergam aqui o motivo para o falecimento de Caeiro (em 1915). Vocabulário típico de textos reflexivos 9. Ou então este: Se falo dela [Natureza] como de um ente É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens Que dá personalidade às cousas. comparações (“como um pedregulho enorme”). Fazem algum barulho ao cair. Não concordo comigo mas absolvo-me. O segundo paradoxo pode ser entendido quando se tem em mente que Caeiro defende a apreensão direta da realidade. E as migalhas. pleonasmos (“chuva chovia do céu”). um intérprete da Natureza. Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes À sua estupidez de sentidos.. por caírem todas juntas.. “mas”.. no afã de provar que seu sistema é válido como saída para a doença de nossa civilização. E impõe nome às cousas. Porque há homens que não percebem a sua linguagem. é natural que deva utilizar a linguagem denotativa.. Como alguém que duma janela alta Sacode uma toalha de mesa. com metáforas (“pelas encostas do céu abaixo”).. Entretanto.. Porque só sou essa cousa séria. que não foi provocado propriamente pela tuberculose. mais imediata e precisa. É porque assim faço mais sentir aos homens falsos A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. “para”. “porque”.. A chuva chovia do céu E enegreceu os caminhos . há um emprego constante da linguagem conotativa. extremamente carregado de linguagem conotativa. 10 .lógicos: “como”. 9 . Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores E cantos no correr dos rios. ter-se contaminado de nosso mal. mas por. que chega a constituir um desvio da apreensão direta da realidade: Esta tarde a trovoada caiu Pelas encostas do céu abaixo Como um pedregulho enorme. Existem ainda os que vêem aí o motivo para certa queda na qualidade dos poemas no decorrer de Poemas Completos de Alberto Caeiro.

é percebido quando entendemos que a linguagem não é a realidade. uma outra forma indireta de conhecer o mundo. que só vivemos como seres civilizados e dotados de pensamento. capaz de confirmar a posição de seus textos como parte do que melhor se produziu entre os tesouros da Língua Portuguesa. é outro elemento a ser atacado por Caeiro. cultura. graças à linguagem. mas uma maneira de representá-la por meio de letras e fonemas. Entretanto. constituindo-se. dão-lhe um tempero especial. mais do que isso. e talvez o mais sério.O terceiro paradoxo. Circunstância agravante: é um heterônimo. sentimentos. No entanto. Se assim. para fazer poesia. uma leitura válida não só para o vestibular. mais do que nós. um ser que só existe dentro da linguagem. Portanto. um outro desvio. portanto. ele o utiliza para se comunicar e. Antes. 11 . mas para degustação durante toda a nossa vida. não são elementos depreciadores de Poemas Completos de Alberto Caeiro.