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MEMORIAL DESCRITIVO

Humberto Luis de Cesaro
Ao ler o item 8.2 do edital que regulamenta o processo seletivo do Curso de Especialização
em Gênero e Diversidade na escola, subitem b, que descreve os critérios a partir dos quais serão
avaliados os memoriais descritivos dos candidatos, o primeiro questionamento que surge é: quando
começa a experiência profissional? Mais especificamente ainda, quando começa a experiência
profissional na área do curso? Quando começamos a experimentar Gênero e Diversidade na Escola?
O professor que eu sou não está distante do aluno que eu fui. Em que pesem as Didáticas, as
Psicologias, as Metodologias de Ensino disto e daquilo ao longo da graduação, enfim, todas essas
habilidades que nos instrumentalizam para a docência, as experiências escolares dos anos iniciais
também nos conformam e compõem nossa subjetividade docente. Nesse sentido, minha experiência
com e Gênero e Diversidade na Escola começou há muito tempo, quando, ainda menino, não
conseguia entender porque eu precisava jogar Futebol no recreio da Escola e não podia jogar
Caçador; continuou um pouco mais tarde, quando eu queria jogar Vôlei durante as aulas de
Educação Física e precisava jogar Futebol porque este era o esporte “para meninos”; ainda nos
treinamentos, agora sim de Vôlei, quando uma das minhas treinadoras costumava dizer para o
menino que não conseguia saltar o suficiente num bloqueio ou num ataque: “salta como um
homem”.
Provavelmente deve existir outros momentos que a minha memória não revisitou, talvez
porque estes são marcantes demais por envolverem práticas corporais, aquelas que, de tão
importantes, direcionaram minha escolha para a licenciatura em Educação Física. E, mais do que
tudo, estes momentos não eram vistos como um “borramento de fronteiras”, como “pedagogia de
gênero” ou como “processo heteronormativo”. Essa interpretação só foi possível a partir do contato,
já durante a graduação, com as produções do GEERGE, Grupo de Estudos em Educação e Relações
de Gênero da Faculdade de Educação da UFRGS.
Fiz minha graduação em Educação Física durante a década de 1990, período em que a área
estava impregnada das teorizações marxistas. Fui bolsista do Programa Especial de Treinamento
(PET) num grupo que estimulava a formação integral dos estudantes e as nossas leituras conjuntas,
que extrapolavam os estudos específicos a que cada um se dedicava, exploravam ao máximo a
inserção desta teoria social no campo da Educação Física. Nesse momento, em que tudo era
explicado a partir da luta de classes, a batalha era contra o patriarcado - essa instituição correlata e
aliada do capital – e a divisão sexual do trabalho, que oprimiam as mulheres e impediam o
desenvolvimento de uma sociedade igualitária.
Foi nessa mesma época que eu fiz minha primeira leitura de Michel Foucault, um capítulo

com outras lentes. mas prescreve papéis de gênero sobre um corpo sexuado dentro de um sistema binário. Ensinar esportes coletivos sem separar por gênero é tarefa das mais complicadas. É possível. defendida por Luís Henrique Sacchi dos Santos no mesmo ano de 1998. apenas tangencia a questão da sexualidade. portanto. Meninos e meninas são separados e há pouca interação entre eles. por exemplo. também dissertação. e Um olhar caleidoscópico sobre as representações culturais do corpo. mas que costuma ficar de fora da escola) para discutir os papéis de gênero. O esporte não reserva lugar para corpos que não se adaptem à lógica macho-fêmea e é um suporte material da superposição homem/macho/heterossexual ou mulher/fêmea/heterossexual. aqui. Sacudir o caleidoscópio para olhar a realidade de uma forma diferente. cria expectativas entre os/as estudantes que precisam ser desconstruídas aos poucos. uma vez que a própria regulamentação das modalidades discrimina – e esta regulamentação. E foi nesse movimento de aproximação aos estudos foucaultianos – e muito antes de aprofundar a leitura de sua obra – que fiz contato com algumas produções do GEERGE e principalmente com os textos que sustentavam suas argumentações: foi a partir das referências bibliográficas de artigos. tamanho o fascínio que essa nova forma de pensar exerceu sobre mim naquele momento. presente nos eventos esportivos escolares e principalmente nas mídias. de utilizar o gênero como critério para separação de grupos ou introduzindo a dança (que é um dos conteúdos da Educação Física. fundamento da sociedade” (CHAMBERS. dissertações e teses produzidos na FACED que eu organizei minhas leituras. p.do livro Vigiar e Punir chamado Os corpos dóceis. A Educação Física é. identidade e bom-mocismo: cotidiano de uma adolescência bem comportada e que mais tarde ainda se tornou meu orientador no mestrado. uma prática tão antiga que já é considerada “natural” em muitas escolas. outros filtros. me permitiu pensar em outras possibilidades de trabalhar. quando são formados grupos diferentes para desenvolver as atividades ou quando são formadas equipes para os esportes coletivos. ao utilizar a metáfora do caleidoscópio. dissertação defendida por Alex Branco Fraga. falar em heteronormatividade. Da leitura do capítulo para a leitura do livro inteiro foi um passo. Dois trabalhos foram importantes nesse período: Do corpo que se distingue: constituição do bom-moço e da boa-moça nas práticas escolares. mais tarde publicada como livro com o título Corpo. no caso do esporte. 2003 citado por MISKOLCI. tradicionalmente.156) e que. foi importante também para me permitir olhar tanto para as experiências passadas quanto para a minha própria prática. deixando. a disciplina mais “generificante” do currículo escolar: em qual outra existe uma separação “natural” entre meninos e meninas para participar das atividades? Esta separação acontece até mesmo em turmas mistas. Esta segunda. Mesmo tentando criar novas formas . um dispositivo que naturaliza e torna compulsória a heterossexualidade e que “expressa as expectativas. as demandas e as obrigações sociais que derivam do pressuposto da heterossexualidade como natural e. 2009.

o corpo continua corpo. Não se trata mais apenas de fazer meninos e meninas participarem juntos das atividades e sim colocar no mesmo “time” os meninos que depilam o corpo e as meninas que fazem musculação. Por mais que estivesse fundamentada numa contextualização histórica acerca do papel da mulher em meados do século XIX e as mudanças que presenciamos no final do século XX e início do XXI. uma vez que confronta as normas e regulamentações típicas desta prática corporal. assim. enquanto as mulheres (prendas) dançam graciosamente ao redor deles. quando dentro. pois a alteração caleidoscópica “não transforma em outra coisa. os meninos que gostam de meninos e as meninas que gostam de meninas. 1998. No trabalho em questão.de jogar dentro da minha aula. a menina que nasceu num corpo de menino e prefere ser chamada pelo seu nome social e não o de batismo. prático) que permita enfrentar com mais serenidade os desafios que se colocam à prática docente. principalmente entre os/as estudantes que frequentam os Centros de Tradições Gaúchas. ou a professora que antes férias era Mário e voltou Marina. provoca estranhamentos. De forma semelhante ao esporte. geralmente da forma mais discreta possível. os conflitos sempre surgiram em razão das diferenças entre este esporte da escola e o esporte que aparece em outros veículos. Por mais que pareçam singelas e banais.” (SANTOS. um sapateado vigoroso. não mais escondida pelas interdições e preconceitos. p. teórico. o olhar agora é para a diversidade (sexual. O caleidoscópio desfamiliariza. nesta cena atual onde repousa meu olhar mediado pelo caleidoscópio. . de gênero e outras) que frequenta a escola. Se o meu primeiro desafio esteve mais ligado às questões do feminismo e dos papéis de gênero. em momentos determinados. dançar a Chimarrita1 com sapateado de prendas na mesma intensidade que o dos peões é tabu e gera discussões acaloradas. novas trocas com novos/as colegas para construir novas redes e buscar um empoderamento (conceitual. estas questões ainda enfrentam grande resistência por parte de educadores/as e tem se mantido fora da escola ou. Ou melhor. novos desafios se impõem às práticas pedagógicas. a alteração retém o que foi alterado. na qual os homens (peões) executam. que florescem as dúvidas e inquietações que me levam a buscar o Curso de Especialização em Gênero e Diversidade na Escola. aqueles/as que gostam de ambos e aqueles que não gostam de nenhum dos dois. que frequenta e aparece na escola. em um exemplo. 1 A Chimarrita é uma dança tradicional do Rio Grande do Sul. Creio que é neste terreno. As angústias são várias e é sempre bom buscar novas leituras.19). incorporando à coreografia as conquistas femininas das últimas décadas e a luta por igualdade. nos remete a outras composições possíveis da cena observada e. a discussão sobre os papéis de gênero veiculados pelas danças tradicionais do Rio Grande do Sul também esteve presente nas minhas aulas e também se mostrou uma tarefa árdua. Sacudir o caleidoscópio é sempre preciso e com isso a mesma cena ganha outras versões. foi solicitado aos/às estudantes de uma turma de EJA que recriassem a dança Chimarrita na época atual. mas o olhar sobre ele se modifica.

Para participar deste curso. somarão 8 horas semanais. tanto no trabalho quanto em casa e. do qual já fui usuário tanto como aluno quanto como professor. Também me considero familiarizado o bastante com Internet. dedico-me a outras atividades que podem ser agendadas de forma a permitir minha participação nos eventos relativos ao Curso de Especialização em qualquer horário. assim como não será problema a atuação no ambiente virtual Moodle. desde que o agendamento não seja concomitante às minhas aulas com o Ensino Médio que. nas horas restantes. tenho disponibilidade de tempo e acesso à internet durante a semana. Word e PDF para estar em condições de cursar esta especialização com aproveitamento. em ambos os locais. Explico melhor: meu regime de trabalho é de 40 horas semanais. posso fazer as leituras indicadas e participar de eventos como fóruns de discussão e similares. uma vez que não trabalho aos sábados e o deslocamento até Florianópolis pode ser feito ainda na sexta-feira. porém em 2015 serão apenas 8 horas semanais em sala de aula. . em 2015. Os encontros presenciais não apresentam problemas. mesmo que a participação seja em tempo real.