ISSN 2316-4441

Do não dito sobre as trajetórias escolares.
A produção de não-existência.1
Dina Maria Rosário dos Santos
dmrsantos@uneb.br
Resumo: Hoje, é possível afirmar que os sistemas de ensino que concretizam a escolarização
contemporânea veiculam uma visão de mundo ocidentalizada assentada numa razão metonímica.
Um sistema de ensino organizado à luz da razão metonímica, frente a complexidade humana e a
diversidade dos sujeitos, ignora a tudo e a todos que não se moldem aos seus postulados
homogeneizando-os. O ensaio 'Do não dito sobre as trajetórias escolares. A produção de nãoexistência' se propõe a pensar a produção da não-existência de trajetórias escolares marcadas por
processos migratórios a partir das lógicas da razão metonímica. Compreende-se que os Nômades
do Saber e suas trajetórias escolares migrantes fazem parte do rol das não-existências produzidas
pela racionalidade metonímica no âmbito do sistema de ensino brasileiro.
Palavras-chave: Mobilidade Humana; Nômades do Saber; Trajetória escolar; Razão metonímica.

A escolarização constitui, nos estados nação modernos, estratégia tanto para a sua estruturação
quanto para a sua manutenção. Para além do objetivo declarado de acesso ao conhecimento
construído e acumulado pela humanidade a escolarização possui outros propósitos. Um deles é a
interiorização das formas de percepção do mundo (de si e dos outros; dos papéis, funções e
possíveis relações entre os sujeitos; do permitido e do proibido; do que existe e do que não existe)
que coadunem o projeto de nação do território no qual ocorre.
Por meio dos processos formais de educação as nações modernas conformam seus sujeitos
homogeneizando-os em citadinos pertencentes a um país, a uma cultura, a um modo de ser e um
modo de estar e conceber o mundo.
A monopolização da escolarização pelo estado moderno e a imposição do
sedentarismo fazem parte do processo da civilizada disciplinarização dos
sujeitos. A educação escolarizada atua como fator preponderante na
1 Trabalho produzido para a Mesa Redonda Nômades do Saber:reflexões sobre migração e escolarização realizada no
dia 17/12/2013 no âmbito do II Seminário do Grupo de Pesquisa Educação, Ciência e Tecnologia. A mesa redonda,
coordenada por Márcia Gonçalves (IFBA), foi composta por Izabel Cristina Melo (UNEB) Cláudia Cristina Rios
(UFMG) e Dina Maria Rosário (UNEB).

pede a adesão a uma cultura. O estado. do conhecer. assim. p. . a invisibilidade. e) lógica 2 A razão indolente é um constructo teórico de Boaventura de Souza Santos (2010) para tratar do modelo de racionalidade vigente no qual a cegueira epistemológica monorreferente produz a contração do presente e a expansão do futuro.” (2007. Segundo ele há “(…)produção de não-existência sempre que uma dada entidade é desqualificada e tornada invisível. a ininteligibilidade e a descartabilidade . De maneira semelhante informa/autoriza aos sujeitos ignorar. existem quatro formas constituintes da razão indolente: a razão impotente. Boaventura (2007) apresenta a produção da não-existência como produto da razão metonímica. como um dos selos de pertinência à civilização. do estar. da realidade e. (ROSÁRIO. modos de ser e estar. eurocêntrico e sedentário. 2012. a razão metonímica. c) lógica da classificação cultural. 03) Sob a égide da razão metonímica os sistemas de ensino veiculam/conformam/perpetuam a imagética do cidadão importante e necessário ao estado-nação. universalmente necessário e satisfatório. heterônomo. do saber) desautorizando a existência de tudo o que não for previsto pela/para a nação.são constituídos por meio de cinco lógicas. 03) Hoje. p. sedentário e migrante. Os modos de produção da não-existência são: a) monocultura do saber.de pessoas. é possível afirmar que os sistemas de ensino que concretizam a escolarização contemporânea veiculam uma visão de mundo ocidentalizada assentada numa razão metonímica 2. A razão metonímica alicerça a produção. Para Boaventura. p. estruturalmente reducionista e dual. p. exclusiva e completa” (2010. a razão proléptica. Pela via da negação. da invisibilidade e da exclusão o vigente sistema de ensino metonímico controla os “dados” da realidade escolar para que nada e ninguém fuja ao seu controle. frente a complexidade humana e a diversidade dos sujeitos. solicita o enraizamento à instituição educativa. autóctone e estrangeiro. O aluno/cidadão pensado e projetado no/para os sistemas escolares metonímicos é monocultural. p. ininteligível ou descartável. No conjunto de discussões sobre a Sociologia das Ausências. 2012. necessariamente.104) Para Boaventura. excluir e civilizadamente cegar-se para todos e tudo que seja considerado como não importante ou desnecessário ao estado-nação. assume a titularidade de senhor absoluto produtor da verdade. das formas de existência dos sujeitos. portanto. (ROSÁRIO. lugares. b) monocultura do tempo linear. 2010. a razão arrogante. portanto. Somos diuturnamente educados (por todas as instituições e co-cidadãos) sobre quem e o que dever ser percebido como normal e anormal.97) e pela compreensão de que 'o todo tem absoluta primazia sobre cada uma das partes que o compõe' definindo as hierarquias (ibidem).98) e. A razão metonímica caracteriza-se pela 'totalidade sob a forma de ordem' (SANTOS. É dessa maneira que o simulacro do ensino formal. parcial. ignora a tudo e a todos que não se moldem aos seus postulados homogeneizando-os. Alicerçada na vida social.socialização controlada dos sujeitos. implica em pertencer a um território. conhecimentos e saberes . Essas características fazem com que metonímica seja “uma razão exaustiva. a escolarização pressupõe fixar-se. Um sistema de ensino organizado à luz da razão metonímica. a compreensão de mundo que dela deriva é. de hegemonias (do ser. existente e inexistente. negar. semelhante e diferente. d) lógica da escala dominante. forjado nessa racionalidade se concretiza.

(BERND. formação e/ou profissão escolhida) de grupos sociais ou geográficos. A esta dimensão exterior da migrância como deslocamento físico. Percursos.192) 6 Compreende-se percurso escolar como o acesso. Compreende-se que os Nômades do Saber 4 e suas trajetórias escolares migrantes fazem parte do rol das não-existências produzidas pela racionalidade metonímica no âmbito do sistema de ensino brasileiro. p. Escolarizar-se implica a aceitação de um percurso comum no qual a sequência. 2012. a concepção de trajetória escolar adotada pelas investigações que se dedicam ao tema gira em torno da compreensão de que a história de vida escolar dos sujeitos constitui-se na dialética interação entre a origem social. as prioridades. 2004. as pesquisas sobre o tema abordam as trajetórias de forma: macrossociológica buscando as tendências e prevalências estatísticas (fluxo escolar. p. taxa de escolarização. 2004. nível de estudos alcançado.63) . O ensaio Do não dito sobre as trajetórias escolares. O fato é que escasseiam investigações que questionem os percursos escolares6 previstos 3 De acordo com Nogueira (2002). trajetórias. p. o deslocamento do 'Sentido do Ser' (du Sens de l'Être). p. Médio e Superior) . ontológica e simbólica da migrância. 03) 5 A migrância não diz respeito apenas à travessia física de territórios. os conteúdos. p. a dinâmica familiar e as características individuais. sobrepõe-se a dimensão interior. migrâncias5 e não-existência A naturalização de aspectos da realidade . politicamente definido e culturalmente estruturados . os tempos e os ritmos do processo são civilizada e 'democraticamente' ordinários.63).é parte integrante dos processos educativos presentes em todas as sociedades. Assumir a organização dos caminhos dos sujeitos no processo de escolarização através de percursos escolares iguais para todos e todas como natural está presente em grande parte dos estudos sobre trajetórias escolares.produtivista.social e historicamente situados. ao mesmo tempo. ou numa escala microssociológica em busca das explicações para o fracasso ou sucesso escolar de sujeito cuja trajetória destoa do padrão estatístico esperado para o seu grupo de pertença. 4 Os Nômades do Saber são pessoas que movem-se de um lugar a outro como estratégia de concretização do projeto de escolarização. 2010. O percurso de cada aluno compõe-se da sucessão de séries/anos/ciclos através dos quais o sujeito avança nos níveis (Fundamental. no âmbito da Sociologia da Educação. dotado de uma subjetividade” (NOGUEIRA.ou pela perspectiva da individuação na qual se “considera o indivíduo com ser formado no âmbito social e que é. A produção de não-existência se propõe a pensar a produção da não-existência de trajetórias escolares 3 marcadas por processos migratórios a partir das lógicas da razão metonímica. (ROSÁRIO. (ROSÁRIO. Analisam os itinerários percorridos pelos sujeitos por via da perspectiva genealógica “se refere à história da linhagem familiar e dos projetos elaborados pela família” (NOGEIRA. 2012. a permanência e fluxo escolar – trânsito pelas etapas e níveis do sistema escolar vigente. 03) De modo geral. (…) Movemse em todas as etapas da escolaridade em função dos estudos – para onde ir e por quanto tempo ficar depende do projeto pessoal de educação. os significados.

formas de ser e estar ocidentalizadas são as únicas relevantes. 03) A escolarização concretizada por meio de tal percurso é arauto da 'monocultura racional' (SANTOS. os indígenas. 7 Ainda que a legislação brasileira (Constituição Federal. 2010. procedimentos e compreensões advindas dos países centrais do sistema mundial são a representação da vanguarda e do desenvolvimento. no interior do sistema escolar. p. No entanto. atitudes. Boaventura alerta para o desperdício da experiência presente na negação das diversidades e afirma que a “produção social destas ausências resulta na subtração do mundo e na contração do presente e. procedimentos.” (SANTOS. por não pertencer a 'maioria'. p. LDBEN. os deficientes físicos. os nômades. p. implicam em um itinerário normatizado cujo fundamento é o controle externo para a garantia da conformação dos sujeitos por meio da escolarização. que o mundo. no seio dos sistemas educativos. 2012. estadual e federal). físico e social é naturalmente hierárquico e as relações de dominação dai oriundas são insuperáveis.103). os que apresentam sobredotação. (ROSÁRIO. a promulgação de Leis não necessariamente implica numa alteração da razão que organiza as relações entre os sujeitos e seus papeis sociais. que os conceitos. decretos e resoluções as 'minorias' e suas necessidades específicas de educação há que compreender que a existência de legislação específica é. alternativas e cooperativistas.. costumes e formas ocidentalizadas de estar no mundo. Faz-se necessário insistir em afirmar que os percursos escolares. os campesinos. Desviam os que 'contaminam' a escola com experiências oriundas de culturas não hegemônicas. uma sutil forma de resistente indolência na qual a 'não-existência assume a forma de residualização' (SANTOS. p.103) erigida por meio da razão metonímica e aplicada à educação formal. na medida em que alcança a todos e todas. E assim des-existem7 os negros. Desviam os que.pelos sistemas e lucubrem sobre o que não é possível perceber nas trajetórias dos sujeitos por meio dos limites ontológico e epistemológico presentes na concepção/estruturação/concretização vigente de escolarização. os transgênero. 2010. no desperdício da experiência. válidas e. fenômenos. . O percurso e a trajetória dos sujeitos. comportamentos. técnicas. e modalidades do sistema oficial de ensino ofertado em nível público (municipal. portanto. Os percursos escolares desse sistema educativo concretizam uma política de sentido e de conhecimento estruturante para a produção da não-existência de trajetórias escolares ditas desviantes. ao mesmo tempo. que os fatos. promove a ampliação e a naturalização dos 'civilizados' valores. O percurso escolar está organizado de forma a garantir que todos os alunos e alunas internalizem que o conhecimento científico eurocêntrico é o único válido. artigos e parágrafos. hegemônicas. 2010. Desviam os que pertencem às categorias 'naturalmente' inferiores da população. os pobres. são considerados residuais. particular ou através de ONG e Associações.104). é pensada como movimento pré-determinado. A universalização da educação básica. quantofrênico e unidimensional.. os que apresentam deficiência intelectual. Desviam os que carregam marcas de sociabilidade locais prenhes de práticas tradicionais. os ciganos. PNE) contemple em capítulos. momossêmico. 2010.103) e uma tentativa de superação da 'não-contemporaneidade do contemporâneo' (SANTOS. por consequência. p.

. justamente por isso. bifurcações.. [. A característica fundamental do pensamento abissal é a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha. longevas. Mas é neles que a luta muda. p..] o espaço é constantemente estriado sob a coação de forças que nele exercem. a migrância é incivilizada. 214) 9 Em O Vocabulário de Deleuze. No entanto.] (2008. Deleuze e Guattari escrevem: “[. Os Nômades do Saber e as trajetórias escolares migrantes resistem aos percursos escolares e às previsões estatísticas para os grupos geográfico/sociais aos quais pertencem. da escala dominante e produtivista invibilizam e silenciam os Nômades do Saber no cenário educacional brasileiro.Inexistência significa não existir sob qualquer modo de ser relevante ou compreensível. Seus deslocamentos não obedecem as políticas transnacionais de formação acadêmico-laboral ou econômica. 2012. aquilo em que ele se transforma muda tanto quanto ele próprio. (SANTOS. p. p.. O universo “deste lado da linha” só prevalece na medida em que esgota o campo da realidade relevante: para além da linha há apenas inexistência. Tudo aquilo que é produzido como inexistente é excluído de forma radical porque permanece exterior ao universo que a própria concepção de inclusão considera como o “outro”. de evolução não paralela.movimentos de idas e vindas. p. As Trajetórias Escolares Migrantes compõem-se de deslocamentos físicos e simbólicos . não os denominaria como trajetórias espetaculares.” (1997. inventa novos andamentos [. Não está permitido mover-se – os que se deslocam são fugazmente incontroláveis. mas também como ele desenvolve outras forças e secreta novos espaços lisos através da estriagem. Os devires não são fenômenos de imitação. 2011. Zourabichvili (2004) toma de Parnet (1997) uma elucidativa definição: “[. Cada trajetória é parte integrante de um projeto formativo no qual a escolarização é estratégia e os deslocamentos intra e inter municipais. O percurso escolar atravessado pela história das pessoas converte-se em trajetória escolar. Abaixo estão lucubrações a respeito de como a monocultura do saber e do tempo linear. de núpcias entre dois reinos. 2007. 03) Façamos o exercício de pensar os modos de produção de não-existência das Trajetórias Escolares Migrantes dos Nômades do Saber. nacionais e internacionais são necessários à sua concretização. 08) . Aqui as trajetórias escolares estão compreendidas como movimentos de construções de saberes e devires9 que “atravessam e são atravessados pelas experiências e vivências ocorridas no espaço escolar” (ROSÁRIO.] a medida que alguém se transforma. alisamentos8.] os espaços lisos por isso não são liberados. mas de dupla captura. SOEIRA. invisibilidade e ausência não-dialética. estaduais. 71) É importante esclarecer que os Nômades do Saber se movem por motivo de estudos.. Pela migrância escapam ao controle e. saltos. Tais categorias carregam uma variação da lógica da classificação social ao denominar os sujeitos e suas biografias a partir do que está “previsto” para eles e seu grupo social. são capturados pela não-existência. nem de assimilação. se desloca. de sucesso ou de fracasso. Os Nômades e sua escolaridade são contemporâneas trajetórias pertencentes a projetos de vida deliberada e explicitamente voltados para o estudo.. A formatação do mapa geopolítico de conhecimentos nos estados nação implica na 8 No volume 5 de Mil Platôs. Se a civilizada escola moderna é sedentária.04).. (ROSÁRIO.. p. as lógicas da classificação cultural.

Os deslocamentos descritos pelo IBGE ocorrem em todo o território nacional distribuindo-se nas regiões do país da seguinte maneira: 2 milhões no Sudeste. o IBGE ao tratar do deslocamento para estudo o faz segundo o conceito a seguir: “[. O saber válido. coexiste com a sedentária escolarização oficial 4 milhões de cidadãos cuja movimentação é condição para escolarizar-se.103). Monocultura do saber ou quando a 'não-existência assume a forma de ignorância' (SANTOS..103). 2004. .. Os Nômades do Saber. 4 milhões de pessoas. 709 mil no Sul. 165 mil no Cento Oeste e 110 mil no Norte. Portanto. Ainda que a migração por motivo de estudos não possa ser alcançada por meio do conceito adotado na pesquisa. Num país onde a interiorização do ensino médio ainda é precária e a do insipiente ensino superior acaba de começar. 2010.. assim passa a ser espacial fixo e socialmente localizado. não financiados por programas de incentivo a pesquisa. é possível afirma que hoje. O discurso sobre a democratização do acesso a educação no país destoa da realidade de. De acordo com a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2012) cerca de 4 milhões de brasileiros. tomados como centrais e autorizados a Ser. A não existência assume a forma de residualização..1 milhões no Nordeste. intra e inter estadual. ao construir projetos particulares de estudo e desobedecer. 2010. ao menos. Brasileiros e brasileiras que explicitam a assimetria histórica que atravessa o país. o mapa e o lugar instituído transitam e se apropriam de espaços que. em princípio não estariam disponíveis para eles. Num país de 201 milhões de pessoas.constituição de espaços (físicos e simbólicos). p. os órgãos centrais da educação ignoram a movimentação de estudantes durante a educação básica como estratégia para a escolarização. As instituições que organizam e controlam a educação baiana desconhece fluxos e rotas de deslocamento dos seus estudantes. como estratégia de formação.” (IBGE. grupos sociais e instituições que. se deslocam10 do município de residência por motivos de estudo. 1. 43). A não-existência assume a forma de ignorância. p. Monocultura do tempo linear ou quando a 'não existência assume a forma de residualização' (SANTOS. por meio dos deslocamentos.] movimento pendular – deslocamento diário de casa para o trabalho ou local de estudo. como forma de superar a distribuição da oferta de ensino no estado. hierarquizam o saber. p. Esses mesmos órgãos não conhecem a movimentação de estudante do ensino superior. 10 Os dados relativos sobre deslocamento por motivo de estudos são pesquisados no âmbito dos movimentos pendulares. que frequentam creche ou escola.

O mapa geopolítico do conhecimento.Lógica da classificação social ou quando a 'não-existência é produzida sob a forma de inferioridade' (SANTOS. O urbanocentrismo presente tanto na construção das políticas públicas voltadas para a educação quanto na análise dos resultados e necessidades de escolarização da população brasileira coaduna as orientações dos organismos internacionais que orquestram a metonímico caminho da educação no mundo. As últimas décadas foram marcadas pelo empenho dos países periféricos em ampliar o nível de escolaridade .104). Está no cerne do sistema a instituição de categorias excludentes de pessoas qualificadas com superiores . está impossibilitada de promover relações horizontais entre os atores educativos. A escolarização promovida pelo sistema escolar metonímico. os sujeitos educáveis e os outros que não poderão sê-lo. alçados à condição de estrangeiros. p. passam a pertencer ao imenso grupo dos excluídos do sistema escolar. por ser intrinsecamente hegemônica e hierárquica. A não-existência assume a forma de exclusão/inferiorização dos sujeitos. 2010. são consonantes as classes sociais. a escolarização perpetua as relações de dominação e exploração do sistema político-econômico e os papeis sócio-culturais da sociedade em questão.'(SANTOS. Os Nômades do Saber e suas migrâncias escapam à rigorosa categorização dos atores educativos. os que terão percursos escolares de sucesso e os fracassados. consequentemente. As categorias de estudantes. instituídas no seio do sistema educativo. cuidadosamente manejado através de acordos e orientações em reuniões internacionais – das quais o Brasil é signatário – requer estatísticas educacionais que corroborem a imagem de democratização do saber.103). E sob o argumento discursivo da incapacidade/desinteresse/dificuldade/problemas familiares/transtorno no aprender. estarão fadados ao sucesso – e os inferiores que são todos os outros.os que representam o ideal de aluno e escola e. Essas categorias fundam dicotômicos grupos que habitam o seio das escolas: o grupo dos pertencentes ao processo educativo e os outros. p. Sua movimentação não cabe na sedentária concepção de educação e. os que terão trajetórias longevas e os que abandonarão a escola. 2010. Lógica da escala dominante ou quando a 'não existência é produzida sob a forma do particular e do local.

Implícito a ação está o fato de que dentre “outras. modalidades de ensino. no hegemônico discurso urbanocêntrico e sedentário. 2012. longevidade e produtividade. ganham a dimensão de caso particular. que encaminhe os sujeitos à conclusão do ensino superior. de exceção. os Nômades Saber e suas trajetórias escolares migrantes.02) De quais maneiras o trânsito entre unidades escolares (intra e inter municipal. manifesta a aderência ao processo(.). assim. De modo geral as investigações acadêmicas sobre trajetória qualificam o percurso biográfico da escolaridade dos sujeitos em sucesso e fracasso com base na longevidade escolar e classe ou fração de classe social ao qual pertencem. Pertencer a uma instituição na qual os ritos e rituais são conhecidos passa a ser estratégia para a permanência e o avanço da escolaridade. p.nada mais perigoso que corpos que escapam.das suas populações. de um lado. mover-se no sistema. Revela.104). de excentricidade. Aderir ao percurso previsto no sistema pode ser entendido como escolha profícua para garantir a produtividade escolar. inter e intra estadual.” (ROSÁRIO. (ROSÁRIO. deslocar-se durante a trajetória escolar pode promover 'improdutividade'.. Lógica produtivista ou quando a 'não existência é produzida sobre a forma do improdutivo' (SANTOS. p. assegura sucesso.02) Em meio à universalização da educação e a globalização dos parâmetros de estruturação e avaliação dos sistemas educativos não há espaço para trajetórias divergentes. p. com um fluxo sem intercorrências. . turnos de estudo. avaliadas em função da sua capacidade de produzir resultados que corroborem a permanência do sujeito no sistema escolar em um percurso. 2013. dependência administrativa da instituição de ensino marcam as condições de produção da escolaridade de brasileiros e brasileiras que utilizam-se de deslocamentos físicos e simbólicos como estratégia para o estudo? A não-existência assume a forma da ignorância sobre o tema e da qualificação de improdutividade. linhas de fuga à enraização da escolaridade e ao controle da circulação e. assim.. A não existência assume a forma do particular e do local.. Mover-se por estudos é oxímorônico. por outro lado. 2010. é tarefas do estado moderno escolarizar aos seus cidadãos e controlar as migrações . A sujeição ao sistema oficial de ensino. As estratégias familiares e individuais de escolarização são. Transitar entre instituições.. inter e intra regional. intra e inter nacional). Neste contexto.

. Desobedecem os itinerários construindo itinerâncias. esta colocada como ferramenta para a percepção das ausências e dos ausentes. que corroboram a visibilidade de outras histórias. 4a Ed. Porto Alegre: Literalis. NOGUEIRA.. 34.. Desestabilizam o mapa de poder e saber. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia.O discurso sobre a escolarização brasileira e as trajetórias dos alunos no sistema escolar. IBGE..tomada como única .gov. GUATTARI. Rio de Janeiro: IBGE. A importância dos estudos sobre trajetórias . Acesso em: 07 dez. Disponível em: <ftp://ftp. Porque “(…) o que não existe é. na verdade. Félix. 2004.. A produção de não-existência se coloca como um espaço de lucubrações. Elites econômicas e escolarização: um estudo de trajetórias e estratégias escolares junto a um grupo de famílias de empresários de Minas Gerais. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG. 2008. Os Nômades do Saber trazem à tona uma possibilidade de uso autônomo do sistema de ensino. forja uma versão da realidade educacional brasileira . Resultados Gerais da Amostra-Censo Demográfico 2010/2012. Maria Alice.. A explicitação dos mecanismos da lógica da razão metonímica. Dicionário das mobilidades culturais: percursos americanos.por meio da subtração/silenciamento dos elementos que põem em cheque os seus postulados. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice Cafaia. assentado na razão metonímica. aqui. 5.pdf >. Gilles.. Maria de Fátima. sabemos sobre as trajetórias escolares dos brasileiros é uma versão contada apenas com os elementos que servem para confirmar a perspectiva homogeneizante da razão metonímica. por hora. (org. 2012. NOGUEIRA. São Paulo: Ed. Tendências Demográficas – uma análise dos resultados da amostra do Censo Demográfico 2000. das não-existências e dos não-existentes.. ativamente produzido como não existente (. 2012. 2002. FORSTES. DELEUZE. IBGE. 2010. p.ibge. vol.102) Referências BERND. O ensaio Do não dito sobre as trajetórias escolares. O que. Põem em risco a dicotômica hegemonia declarada pelo pensamento abissal. Zilá..).. Cláudio.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Resultados_Gerais_da_Amostra/resultado s_gerais_amostra. Histórias que ameacem a sua linearidade excludente e monossêmica estão inviabilizadas.)” (SANTOS.

SANTOS. Boaventura de Sousa. 79. 3.xiconlab. ZOURABICHVILI. 2013. p. ROSÁRIO. 2013 ROSÁRIO. 2010. Dina Maria. Boaventura de Sousa. In: XIV SIMPÓSIO INTERNACIONAL PROCESSOS CIVILIZADORES: CIVILIDADE. Disponível em: <http://www.scielo. 2004. Boaventura de Sousa. SANTOS. Belo Horizonte. 2013. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes.br/scielo.pdf. Estradeiros – deslocamentos urbanos e rurais por motivo de estudos (Casos IFBA-Dias D'Ávila e Investigadoras). Acesso: 03 dez.html>.1.prn.DIVERSIDADES E (DES)IGUALDADES.escolares na Sociologia da Educação contemporânea.dype. 2013. 2007.Diversidades e (Des)Igualdades. 2012.php?script=sci_arttext&pid=S010133002007000300004&lng=en&nrm=iso>.CEBRAP. In XI CONGRESSO AFROLUSO BRASILEIRO DE CIENCIAS SOCIAIS .ufrgs. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. Novos estudos .br/corpoarteclinica/obra/voca. ed.php/paideia/article/view/1339>. Acesso em: 02 dez. In: Disponível em: <http://www. trajetórias escolares e processo civilizador. Elaine. Fronteira E DIVERSIDADE E IV SEMINÁRIO DO GRUPO DE PESQUISA EDUCAÇÃO E PROCESSO CIVILIZADOR. São Paulo.eventos. François. O vocabulário de Deleuze. Disponível em: <http://www. Dourados. .br/grupo- estudo/processoscivilizadores/portugues/sitesanais/anais14/iniciar. In.> Acesso em: 05 dez.fumec. SOEIRA. Disponível em: < http://www. Acesso em: 04 Dec. Revista Paidéia.br/revistas/index.br/site/anaiscomplementares#D>.uel. 2011. Acesso em: 2 dez. Acesso em: <http://www. Nº 2. Ano III. 2013. 93-135. Dina Maria. Nov. São Paulo: Cortez. SANTOS. Mobilidade insubmissa: um ensaio sobre linhas de fuga. v. n. Anais eletrônicos do Congresso Afro Luso Brasileiro de Ciências Sociais . Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. 2004.com.