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Le Monde Diplomatique Brasil

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ABRIL~OO~

KEYNESIANISMO SOCIAL

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rama educacional
No lugar da revolução pela economia, especialmente por meio da propriedade estatal do capital e por um
Estado onipresente e autoritário, o educacionismo propõe uma saída pela igualdade no acesso de cada pessoa à
educação de qualidade, tendo em vista sua emancipação e capacidade de participação em um projeto libertário
POR CRISTOVAM BUARQUE*

O Brasil pode, ao mesmo tempo, erradicara tragkdia do analfabetismoe ainda executar um programa de geração de emprego
muito maior do que C posslvel no setor industrial,aumcusto muito menor. Fafsescomo a Venezuela e a Bolívia tem iniciativas
desse tipo que independem da crise econamica e que estão vinculadas ao compromisso 6tico com suas populações. Nenhum incentivo em qualquer área da economia,
salvo a construção civil, seria capaz de criar
120 mil empregos. como ocorreria de imediato com um programa de alfabetização.
Pagando um salário de R$800 para um trabaliio de apenas deziioras seiiianais,o custo total seria inferiora RS1 billiáoporano.

b) BolsaFscola
Para transformar o programa BolsaFamília do keynesianismo tradicional,econBmico, para o keynesianismosocial, bastaria
complementá-lo com os necessários investimentos em educagão. Com rigor no controle da frequencia As aulas em escolas de
qualidade,o programanão funcionariaapenas conio transferencia de renda, mas teria
impacto sobre a demanda e a produção de
bens populares. E, sobretudo, teria um efeito transformadorna sociedade.

O Brasil tem cerca de 16 milhões de adultos analfabetos Pùra Buarquc. e possivel mudar essa s~tuaçãoem apenas quatro anos

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deseinprego náo periiiiie a espera
por uina reorientação ideológica.
Por isso a saída para o atual colapso global ainda será keynesiana.
Entretanto, é preciso que seja um
tipo de keynesianismoadaptado à realidade
dos novos tempos, a favor da solução para o
conjunto das crises que o mundo atravessa,
não s6 afinanceira e a econdniica,nias tambem asoutras.
Um caminho é um keynesianismo social no lugar do keynesianisiiio tradicional.
O keynesianismo tradicional consiste ria
busca de ampliação da deiiiaiida agregada,
usando recursos públicos para einpregar
mão-de-obra - ainda que para produzir
bens sem finalidade para as necessidades
do consumidor, como monumentos buntuosos e tanques de guerra. Assim, o trabalhador ganha apenas para comprar os p'tvdutos que dinamizam aoferta privada. Já o
keynesianismo social propõe usar os recursos do Estado para financiar o emprego
de mão-de-obra, com o objetivo de produzir bens públicos que a população precise.
Nesse caso, a ampliação da demanda por
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bens privados veiii conio coiiseqiiência da
produção de bens eserviços públicosde interesse da população.
Uni exeniplo de keynesianismosocial 6
o Bolsa Escola, programa pelo qual o governo cria demanda pagando às faniílias pobres para agirem conio promotoras da frequêiicia escolar de seiis lillios: cria-se a
deiiiaiida ecoiifiiiiica, iiias coiiio coiisequêiiciii d;i aiiipli;içAo do seiviço público de
educação, desde que, obviaineiite, sejam
feitos os iiivestiiiieiiios iiecessdrios 110setor.
O Bolsa Paiiiília. por outro lado, não apreseni;i o iiiesiiio coiiil>roiiiissoediicacioiial e
é uni prograiiia &)r6xiriio
do keyiiesiaiiismo
tradicional: a família recebe a renda, compra coniida e bens de baixo custo sem gerar
uma oferta pública que solucione seus problemas, apenas mantendo-asvivas.
O conceitode keyiiesiaiiistiio social está
formuladono livroAstguttdaabolição-umu
proposta para a ~.rradica(.óo
clu pobreza no
Brasil, publicado ein 1999'. Nele sáopropostos diversos instriiriientosde política pública caprzes dr enipiepar a população pobre
para produzir o que a mão-de-obra pobre

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precisa dispor para sair da pobreza,ao mesmo tempo ampliando a demanda agregada,
necessária para dinamizar a economia. Os
gastos públicos são, ao mesmo tempo, instrumento de dinâmica econamica e vetor
para a solução das outras crises. Por exemplo: o emprego de verba para o reflorestamento, a recuperação de rios, a construçáo
de sistemas de água e esgoto e a limpeza urbana, além de gerar renda, tamb6m levou a
uma redução na degradação ecológica. E é
sobretudo na educação que o keynesianismo-social pode ter seu maior impacto.
Listo a seguir algumas ações educacionistas para um programa baseado no keynesianismosocial:
a) Aboliçáodo analfabetismo
O Brasil temcercade 16milhões de adultos analfabetos.I? possível niudaressa situação em apenasquatro anos. Bastariacontratar 100 mil alfabetizadorese colocar outras
10 mil pessoas no apoio necessário. Esses
profissionais a serem contratados já existem: são jovens desempregadosque concluíram o segundo grau.

C)Salário do professor
O puro e simples aumento do salário do
professor,sem melhor formacáo e maior dedicação, seria apenas um gesto de aumento
da demanda agregada. keynesianismo tradicional. Porem, se esse incremento salarial
vier acoplado a uma n~elhorana qualidade,
haverá um efeito imediato na transformação social do país. Para obter-seum aumento na demanda agregada,simultaneamente
com a melhorianaquantidadee naqualidade da educação,bastaria, de início, um salário adicional- o 140 salário condicionadopara os professores. vinculado ao avanço no
índice Ideb (Índice de Desenvolvimento da
Educação Básica) da escola.
Se todos os 2 milhóes de professores do
Brasil conseguissem a elevação no Ideb, o
Brasil daria um enorme salto na qualidade
de sua educaçso a um custo de R$2 bilhões
por ano. Lamentavelmente esse custo será
muito menor, porque nem todas as escolas
conseguiriam essa elevação. Mesmo assim,
é uma aq3o de keynesianismosocialbeneficiando a demandaexercida pelo professores
e elevando qualidade da escola.
d) Formaçáo do professor
A qualidade da educaçao depende, sobretudo, da formação do professor aliada a
sua dedicação. Com um investimento de

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o Estado asseguraria condicões vara todos acima dessa linha bá> sicri de necessidades. em detrimento da baixas. como Estado defiiiirido regras que impediriam o consumo de bens e serviços ameaçadores ao equilíbrio ecológico. Acrise atualvai exigir um novo programa mundial. abaixo do qual nenhuiiia pessoa estaria. orientando.regras e formação técnica aos palw.cadasIiiti~rascaindanieiiospossi. Com R$5 bilhões por ano seria possível mudar completamente arealidade das 200 mil escolas brasileiras em um prazo de dez anos. presenciais e à distância para a formaçtio de professores. enfrentandc a crise do sistema e não apenas a crise no sistema. IJor rit~. o Iilliu do trabalhador lia escola do filho do patrão. Pouco mais de 1% do orçamento do setor público brasileiro No lugarcla visão de clesu~~~'op~'iaro capitrilrlo mpirnlisro eljussii-loi~v iririos(1otrril~cill~adoi. Essa libertação e aproveitamentoda estrutura mental levarão à criação de soluções .iiiiiiiltides deiitro ila bociedade.ao reservar cerca de 25% de seu Programa de Recuperação para Investimentos em Educação. o educacionismo propóe uma saída pela igualdade no acesso de cada pessoa à educação de qualidade. para a crise no sistema. dinamizando a indústria automobilislicae criando um sistemaeficiente para a mobilização de alunos.ipital seria substituí(10 rriiilic!ciinciito. Dentro desses dois limites. e o da iiel. ALÉM DA CRISE Embora a saída keynesiana-educacio. ela seria apenas um ponto de partida para uina revolução iiiuito mais profunda. Com o fim da Segunda Guerra. e na forma privilegiada como essas rendas são distribuídas e coiisiiiiiidas. se os recursos financeirosforem usadosparaaconstrução deescolas.o mundo iniciouum processo de desenvolvimento econômico.Depreda-se a natureza por excesso de poluiçãoeuso de recursos naturais. quanto entre os países capitalistas. g) Custo!otal O custo total desse programa keyiiesiano social.ioriu e~colri~~tibli<ui. Apenas pouco mais de 1%do orçamento do setor público brasileiro. emvez da educação. No lugar da revolução pela economia. A estatização do c. Porque estava ancorsdo ao aumento da produção dos bens deluxo produtoresdelixoe naconcentração da renda para compra desses produtos caros.ir [1. graças a instituições internacionais.graças ao uso da inteligência. ecológica. que preuiruvim de apoio internacional. A um custo de R$ 1 bilhão poranoépossível obtero equipaiiiciito necessário (computadores. criar uma socieda<lrlihertária e assegoiar a iguald. em parte. uni liiiiite ecológico.de80 anos atrás. Ilssti rcvoliiç5o pci-iiiitiria.pessoalmente e coleiitivuiiieiite. graças a programas sociais e assistenciais. f) Equipamentoe transporte escolar Mais uma vez fica explícita a diferença entre a visão tradicional e a visão transformadora. nista seja um instrumento imediato para ajudar a retomar o crescimento. de forma a parar a depredação e elimiiiar osprivilégios. Ao mesino tempo que a revolução na meiitalidade interrompe a depredação e elimina os privilégios.financeira e socialinente-as propostas socialistasnão estão neste momento naagenda social do mundo portotal falta de definição conceitual e de condições políticas.r Le Monde Diplomatique Brasil n $ 1 bilhão por ano nas universidades brasileiras seria possível orientar programas interisbs. investimentosemeducação. a desigualdade seria definida em razão do talento e da persistêiicia como cada pessoa usaria os recursos educacionais igualitários colocados à disposição pela sociedade. - . PLANO MARSHALL GLOBAL PELA EOUCAÇÁO A verdadeira causa da crise está nas características dcprcdadoras de riqueza coiiio meio de criar renda e coiisumo. e) Constmção erefonnadeescolas Avisão tradicional de ampliação da demanda agregada pelo investimentona construção civilcomoforma de aumentar amas- sasalarialdostrabalhadoreséumprograma eficiente.exige uiiia proposta revoluciotiária alternativa. depois dacrise das propostas socialistas.i ~ir~~iiiessa ilus6ria <Ia igualdade iio acesso tio coiisiinio de bens privados seria substituido pela radicalidade da igiialdade tia educação.jnternet) para todas as escolas brasileirasem um período de 10 anos.tanto do ponto devista damoradia quanto da economia.tendo em vista suaemancipaçZoe capacidadede participação em uiii projeto IibcrtQrio.iqZo coiiscrvadorisiiio ii. para conseguir rever o desastre que seria o corte de verbas. ela potencializa o uso dos cérebros Iiiiinaiios de toda a humanidade e enriquece o mundo com a ampliação do capital conhecimento em escola global. O caminho é uma revolução na mentalidade.A recuperação e o longo prazo de ampliação da riqueza foram produto de diversas institui- Mas foi o êxito dessas instituições e desse plano que provocou as característicasdepredadoras e privilegiadoras. au iiicsiiio ic'iiipi~. .por i~ieiorki rncicliiirrn do Elvtucio. Lamentavelmente. t ' 4 'Cristavam Buarque 6 Senador da República (PDT-DF). Essa é uma alternativakevoesiana-educacionistaque o presidente Obama está. o Brasil está seguindo o caminho contrário: o orçamento para 2010 chegou ao Congresso com R$ 1. Foi ministro da Educação (2003-2004)e reitor da UnB (Universidadede Brasília). valor muito inferior aos bilhóes que estão sendo gastos para tentar recuperar a venda de produtos para atender a demanda privada.illi. executando. - 1 Ver ca autor A segunda ebli@o uma proposta para e goddnsdi. incluindo a compra de softwares e o treiriaiiieiito tlc piwfessores. s6 possível pela educação de qualidade para todos. e as classes altas.2008 d Editw* Crdw ~ ~ . pelo etnocídio da globalização.revertendoas características depredadoras e privilegiadoras.distribuir o verdadeirocapitaldo futuro. porque dentro da visão conservadora do keyensianismo tradicional muitos ainda consideram que esses recursos seriam mais bem empregados na realização de obras de infraestruturapara aindústria. vel esp. enfrentando a crise no sistema.- pJ"'QQQ pobnus Nesse INm Brss'' Ed e sAo Xeynesan5mo "Y"'*"l 2 ver da autor O que é o ~ se S&O P~UIO. Ficaria faltando que sejamdefinidos: um liiiiite social. educacionistae transforinadorseria de R$12 bilhões por ano.no lugar da atual geração de problemas-. Mas o efeito na demanda pode vir associado a outro imediato na transformação social. acirna do qual niriguéiii teriao direito de estar.çõesdasNaçóesIlnidasedoPlanoMarshall. por meio do Estado. espccialmente do ministro Fernando Haddad e de alguns congressistas. porque é impossível garantir a maniitenção do consumo aolon- Com o método cubano "Yo sipuedo" a Boliviaacabade erradicar o analfabetismo .idc de o1~cii. tanto entreos paísessociaiistas. ocoiihecimento. Com H$ 2 billióes t?possível comprar anualmente até 60 mil veículos levesde transporte escolar. induzirido mudanças estruturais.1rutu<luso cui~suiiiodosbens de luxo que beneficia au h ~ b l t a n uda modernidade. Já o presidente Roosevelttinhaemseuprograma. o educacio~iismupropóe I~!uciroJillrodoIrabaIlzadork iliesnia escolndofilliodo crcpiralistn. no lugar da crise do sistema. por meio da educação Da mesma forma que as propostas dentro do 25 /i marco capitalista foram incapazes de construir uma civilização equilibrada . pelo abandono da educação.2 bilhão a menos do que o previsto para a Educação. É o que propõe o educacionismo2. Q que Ievarain investimentos. construir quadras esportivas e auditórios em cada unidade escolar. Mesmo assim até hoje há resistência.-. quando se imagina crédito para financiar equipamentos e automóveis para atender a demanda privada e quaiido sc iiiveste na compra de equipainentos e transportes escolares para atender a demanda pública das escolas. as ineiites.~l>iil>liciz. como pode ser visto no livro The Forgotten Man. especialmente por meio da propriedade estatal do capital epor um Estado onipresente e autoritário.ética. Um Plano Marshall pela Educação Mundial seria o caminho para a mudança de mentalidade e para a ampliação do capital conhecimento que o mundo rxige para iniciar sua revolução. as culturas. para o social. I'rivilegiam-se as gerações atuais em relação as futuras.levandoao enfrentamento na crise do sistema. desta vez. Foi preciso uma grande mobilizaç30.a s i t r ~ z o o . A um custo médio de R$Z50 mil por unidade escolar é posslvel reconstruir e fazerreforiiias. televisão.- A solução está em uma mudança do modelo civilizatório. Para isso é preciso uma reorientação muiidial. Arealidadedas dltimasdécadas. vídeos. O custo total do programa keynesianosocial e transformador seria de R$12 bilhões por ano.