ANÁLISE DO DISCURSO E PSICANÁLISE: DIÁLOGOS EM TORNO DOS

CONCEITOS DE SUJEITO E IDENTIDADE
PANIAGO, Maria de Lourdes Faria dos Santos
Universidade Federal de Goiás
lurdinhapaniago@terra.com.br
COSTA, Aline Conceição da
Universidade Federal de Goiás – Bolsista PIBIC / CNPq
aline-88@hotmail.com
Palavras-Chave
Análise do Discurso. Psicanálise. Sujeito. Identidade.

Análise do Discurso e Psicanálise: uma relação de nunca acabar
É preciso, inicialmente, delimitar o campo teórico que sustentou esta pesquisa. A
primeira linha mestra deste trabalho é a Lingüística, mas como existem, no interior
desse amplo campo do conhecimento, muitas linhas de pesquisa que se sustentam em
embasamentos teóricos quase sempre muito distintos, é preciso esclarecer que área da
Ciência da Linguagem foi por nós escolhida. É a Análise do Discurso (AD) a área da
lingüística escolhida para nos guiar neste trajeto. Antes de delimitarmos mais nossa
linha de pesquisa, talvez seja interessante analisarmos o que representou para os estudos
da linguagem o surgimento de uma ciência que acreditava só ser possível perceber os
sentidos em suas “movências” (GREGOLIN, 2001).
A constituição da Análise do Discurso representa, para Pêcheux, uma tentativa
de colocar em suspenso a concepção instrumental da linguagem, advinda do Curso de
Lingüística Geral, de Ferdinand de Saussure, que provocou profundas transformações
na ciência lingüística, porque propôs um deslocamento conceitual, em que se separou a
prática da teoria da linguagem. Nesse sentido, deixou-se de estudar a língua como um
meio de expressão de sentido; a língua deveria ser estudada como um sistema, e seu
funcionamento é que deveria ser descrito. Pêcheux, entretanto, acreditava que se deveria
renunciar à concepção de linguagem como instrumento de comunicação, mas como
alertou Henry (1997), isso não significa dizer que a linguagem não serve para

muito menos. Michel Foucault e Mikhail Bakhtin. conseqüentemente. a teoria do discurso. numa teoria da história e numa teoria do sujeito (GREGOLIN. A AD. 1997. E. o que torna a AD “corrosiva” é o fato de . Gregolin (2003) analisa as mudanças por que passou essa ciência que fizeram com que uma lingüística da enunciação aspirasse extrapolar os limites de uma lingüística do enunciado. o principal alvo desse confronto é juntamente a lingüística. 163-164). além dos escritos de Lacan. para Pêcheux. mas que esse “aspecto é somente a parte emersa do iceberg” (HENRY. nem. 164). compreendida aí a teoria das ideologias. FUCHS. apud MARIANI.] a lingüística do discurso pretendeu ultrapassar a análise do enunciado e fazer estourar o espartilho que apertava o objeto da Lingüística. a lingüística. de natureza psicanalítica” . o jogo das implicações e das pressuposições. como teoria das formações sociais e de suas transformações. (GREGOLIN. 21). Dessa forma. [. em função de que a AD. contrapõe-se diretamente ao caráter de imanência presente em todas as outras ciências da linguagem. Como acentua Maria Cristina Ferreira (2000). segundo essa autora. p. já nasceu como uma ciência transdisciplinar que. ela afirma que. o materialismo histórico. como teoria da determinação histórica dos processos semânticos. 2003. que representam o que Gregolin chama de “atravessamento constitutivo” (GREGOLIN. (PÊCHEUX. p. 2003. que. Acrescentam ainda esses autores que esses três terrenos teóricos são atravessados por “uma teoria da subjetividade. ao propor a exterioridade como constitutiva dos discursos. as estratégias dos argumentos do discurso. o campo retórico-estilístico. p. tranqüila”. 2008). representados pelas teorias propostas por Louis Althusser. no final da década de 1960. p. no quadro epistemológico da AD articulam-se “três regiões do conhecimento científico”: 1.comunicar. 3. etc. em função do que considera “complexa composição”. segundo a autora. p. deveria apoiar-se numa teoria lingüística. – e.. necessariamente. como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação ao mesmo tempo.. levando-a a interessar-se por novos objetos – o universo conotativo da linguagem. Pêcheux precisou contar com “três pilares”. 31). desenvolvendo novas formas de encarar a configuração dos saberes. como apontam Pêcheux e Fuchs. “a AD instaura um caráter conflituoso desde o assentamento de seus postulados”. Baseando-se em Robin. 1997. É por isso que para a construção do “edifício da AD”. Ou. 2. 23). FUCHS. (PÊCHEUX. 2003. não ocorreram nem de forma “abrupta.

. embora apliquem conceitos da “lingüística do discurso”. a partir dos anos 1960. permaneceram apenas “internas”. embora tenham ultrapassado o limite da frase em suas análises. a Análise do Discurso passou por três épocas. a história da lingüística do discurso possa ser visualizada. etc. b) uma constante problematização das bases epistemológicas da AD. como a Lingüística Textual. Gregolin aponta três direções que esses estudos tomaram: a) o da sociolingüística. particularmente [. em detrimento dos aspectos lingüísticos. o que implica uma volta à teoria). 2000. Para Gregolin. bem como o esquecimento. 22). uma dispersão dos sentidos. segundo o próprio Pêcheux (1997). priorizam a abordagem temática. que nos ajudam a compreendê-la como essencialmente transdisciplinar: a) o atravessamento da Lingüística pelo Marxismo. p. No entanto. elementos da história que lhes são peculiares. (FERREIRA. c) o discurso como objeto de estudo apresenta-se também como um lugar de enfrentamento teórico (cada objeto tomado para análise apresenta.problematizar questões já estabilizadas no interior da lingüística. da antropologia.] é questionado o postulado da autonomia da sintaxe em relação à semântica. da sociologia. talvez seja ainda necessária uma última delimitação. e. reitera alguns aspectos da constituição teórica da AD. que resulta da articulação entre o lingüístico e o histórico. que não problematiza a relação entre o discurso e a sociedade. da história. por parte da lingüística. em funcionamento. não consegue solucionar a relação entre a análise “interna” e a “externa”. 2003. O que foi chamado de “três . (FERNANDES. por exemplo. já que. (GREGOLIN. que. que revelam as influências advindas dos pilares teóricos utilizados nem sempre de forma harmoniosa. próprio à explicitação do objeto da Analise do Discurso – o discurso –. da noção de história (e também do sujeito). 66-67). d) a Análise do Discurso implica apreender a língua. que necessariamente demanda que se articule o lingüístico e seu “exterior”.. p. p. 2005. Fernandes. recorrendo também aos conceitos desenvolvidos por Gregolin (2003). Até aqui já definimos que a nossa linha de pesquisa é a Análise do Discurso derivada dos trabalhos de Michel Pêcheux. M. em sua maioria. com isso. Como pontua Gregolin (2003). ou tomaram a “enunciação” em sentido lógico.. com o objetivo de buscar a interdisciplinaridade necessária para uma análise da enunciação. que. por isso. uma vez que a própria teoria do discurso revela uma determinação histórica dos processos semânticos. por meio das vinculações que se estabelecem entre a Lingüística e outras áreas do conhecimento. c) o de outros trabalhos realizados no campo da pedagogia. até mesmo pela pluralidade e especificidades dos objetos. e. b) o de outras ciências da linguagem. o sujeito e a história.39).

operando um sensível deslocamento de terreno na área. de uma ação transformadora. em um trabalho de iniciação cientifica PIBIC. O solo epistemológico precisou ser revolvido e as mudanças delineiam os debates teóricos e políticos que surgiram de crises que atingiram a reflexão sobre como se dá a articulação entre o discurso. o sujeito e a História. a AD busca desautomatizar a relação com a linguagem. distinguindo-se da lingüística imanente. na perspectiva de uma intervenção. a interpretação. seu objeto teórico (o discurso). nela e por ela mesma. a identidade. donde sua relação crítica com a lingüística. O que ela visa é tematizar o objeto discursivo como sendo um objeto-fronteira. mas que se aplicam muito bem à temática da educação. A rigor. e também das demais ciências humanas. o que a AD faz de mais corrosivo é abrir um campo de questões no interior da própria lingüística. língua. (GREGOLIN. concluído em julho de 2008. 2004.épocas da análise do discurso” por Pêcheux revela os embates. nem tampouco como disciplina auxiliar. buscando os duelos e os diálogos entre essas duas ciências. historicidade e sujeito. a teoria da Análise do Discurso foi todo tempo repensada e essas reflexões sempre tinham como ponto nodal a articulação entre discurso. sujeito e história. que usam a língua como instrumento para a explicação de textos. as retificações operadas na constituição do campo teórico da análise do discurso francesa. O objetivo deste trabalho. a língua. o inconsciente. assim. portanto. visto como uma nova facção de tipo burguês. Fica claro. Neste trabalho que encerramos nosso foco foi sobre a análise de seis categorias afins entre a AD e a Psicanálise. que trabalha nos limites das grandes divisões disciplinares. Ao lado dessa tendência revolucionária. sendo constituído de uma materialidade lingüística e de uma materialidade histórica. 60). sobretudo nos conceitos de língua. A AD recorta. simultaneamente. que visa combater o excessivo formalismo lingüístico então vigente. que se centra na língua. desde o nascimento da AD em 1969 até a morte de Pêcheux em 1983. a Análise do Discurso (AD) nasce. sendo elas. Nossos resultados obtidos foram muito além desta temática. Do ponto de vista político. então. o real e o simbólico. o sujeito. Ou seja. São estas categorias sujeito e identidade. foi desenvolver pesquisas teóricas que visaram examinar os diálogos e duelos entre a Análise do . p. as reconstruções. e para o trabalho que apresentamos agora temos a intenção de formular diálogos entre duas categorias que fizeram parte do trabalho anterior. que teve fim em julho de 2008. Este trabalho segue com os resultados obtidos por nós. que a AD não se vê como uma disciplina autônoma. deixados à margem pelas correntes em voga na época.

sujeito. p. Lacan. por considerarmos que compreendê-los traz muita contribuição para a formação de profissionais da educação. (FISCHER. utilizamos principalmente alguns escritos de Veiga-Neto (2001. se manifestam. 2005.. Análise do Discurso de Linha Francesa e Psicanálise. p. sempre é heterogêneo. Principalmente os estudos de Michel Pêcheux. 2003) e PANIAGO (2005. Para a AD. Michel Foucault. mas sim nos defrontamos com um lugar de sua dispersão e de sua descontinuidade. para refletir sobre o papel disciplinador da escola na sociedade de controle na qual vivemos. 1991. já que o sujeito da linguagem não é um sujeito em si. inconsciente. propomo-nos a apresentar nossas conclusões em relação a dois desses conceitos. (FERNANDES.29) O sujeito não é fonte de seu dizer. Nesta comunicação. interpretação. se encontra atravessado por várias formações discursivas. nos referimos a discursos outros que interpelam e constituem o sujeito. Rosa Maria complementa: Não estamos diante da manifestação de um sujeito. realizamos estudo teórico de vários autores das duas áreas envolvidas nesse projeto. e outros que nos auxiliaram no desenvolvimento deste trabalho. em sua voz. 2003.. um conjunto de outras vozes. sujeito e identitificação. Bethânia Mariani. é um espaço de posições-de-sujeito e de funções-de-sujeito diferenciadas. 2008. 2006). essencial. simbólico. identificação e real. apud VEIGA-NETO. principalmente em relação a algumas categorias analíticas que pertencem às duas áreas. não é o centro de seu dizer. (FOUCAULT. 207) Foucault define esse sujeito da AD da seguinte forma: [. porque através dele outros ditos se dizem.. origem inarredável do sentido: ele é ao mesmo tempo falante e falado. heterogêneas. O sujeito é polifônico e é constituído por uma heterogeneidade dos discursos. p. o discurso.. idealizado.] os sujeitos que discursam fazem parte de um campo discursivo [. Quando falamos de heterogeneidade. Para o debate sobre a importância deste tema para a educação. 120) . Como procedimento metodológico.Discurso de Linha Francesa e a Psicanálise. Freud. portanto. Diálogos em torno dos conceitos de sujeito e identificação Cleudemar Alves nos descreve o sujeito da AD da seguinte forma: Constituído na interação social. Paul Henry.] o sujeito não é um lugar no qual a subjetividade irrompe.

p.O sujeito da psicanálise é um sujeito do inconsciente. O acesso a esse modo do equívoco -que é a ideologia . irá colocar. Se a relação com o inconsciente é uma das dimensões do equívoco que constituem o sujeito. Ou seja.pode ser trabalhado pela noção de interpelação constitutiva do sujeito. Roudinesco (pág. históricos e ideológicos dados em determinado momento. e concluiu a respeito do sujeito: Lacan trabalha o sujeito como efeito de linguagem. apud MARIANI. retomando Althusser. p. 363. e ao mesmo tempo sujeito da ideologia e sujeito do desejo inconsciente e isso tem a ver com o fato de nossos corpos serem atravessados pela linguagem antes de qualquer cogitação (HENRY. porém. Esse estatuto particular da análise do discurso e da psicanálise. Interpelados por momentos sociais. 2008. sua contraparte está em que o equívoco que toca a história (a necessidade de interpretação) é o que constitui a ideologia. que incorpora o histórico ideológico como constitutivo da materialidade significante. 2008) Bethânia Mariani realizou um trabalho buscando as aproximações e distanciamentos entre conceitos da AD e da psicanálise. como afirma Mariani (2008. Ele é interpelado porque é afetado pelas determinações históricas e inconscientes. (MARIANI. Faz parte do mecanismo elementar da ideologia. Quanto à identificação. o apagamento dessa opacidade que é a inscrição da língua na história para que ela signifique: o sujeito tem de inserir seu dizer no repetível (interdiscurso.Henry: O sujeito da psicanálise é sempre. 4). atributos ou traços dos seres humanos que o cercam. o sujeito não escolhe um modo pelo qual será interpelado. Esse é também um dos aspectos da incompletude e da abertura do simbólico: esse dizer que é uma coisa . como esclarece P. em momentos-chave de sua evolução. dos aspectos. enquanto que Pêcheux. memória atravessada ao mesmo tempo pelas relações inconscientes e determinações históricas. 1998) afirma que é o “termo empregado em psicanálise para designar o processo central pelo qual o sujeito se constitui e se transforma.” Na AD o processo de identificação-interpelação. o efeitosujeito como questão central em seu trabalho. memória discursiva) para que seja interpretável. que é a interpelação do indivíduo em sujeito. assimilando ou se apropriando. se realiza nas filiações constituídas pelas redes da memória.59). inicialmente. não impede que conexões sejam feitas a partir de indicações teóricas formuladas no interior de cada campo.

96-103). . não passa de uma fantasia. (Original publicado em 1949). práticas e posições que podem se cruzar ou se opor. mas sim em momentos de identificação que estão sempre em movimento e modificação (Coracini. na atualidade pós-moderna. permanecendo sempre em processo de mudança e transformação. inclusive a partir da relação com o outro. por isso. descentrado. J.aberta. No efeito da transparência. defendida por muitos. Ele sublinha que Kant talvez tenha sido o primeiro teórico a caracterizar formalmente a escola como a principal instituição responsável pelo disciplinamento das crianças. o primeiro objeto de desejo do bebê. ideológico e social tem papel fundamental na formação da identidade discursiva do sujeito. o que faz com que aprendamos a nos autodisciplinar e a disciplinar o outro desde o nascimento. pois é através do olhar materno. 2008. heterogêneo. perpassado pelo inconsciente e habitado por desejos recalcados. Sustentando a noção de sujeito cindido. A psicanálise também considera que o sujeito se constitui como tal através da relação com o outro. mas dentro da história. e. que sua identificação começa a acontecer. o sentido aparece como estando lá. (ORLANDI apud MARIANI. O papel disciplinador da escola Veiga-Neto (2001) faz interessantes reflexões acerca do papel da escola moderna como a grande instituição disciplinar. mas estão dispersos por toda a rede social. As identidades são multiplamente construídas no decorrer de discursos. incapaz de se definir como uno e estável. Ele utiliza o termo espelho. No entanto. que o bebê começa a ter noção de sua identidade a partir do olhar de sua mãe. e. 2003. evidente. não há como pensar em identidade fechada e descritível. Desse modo. O estádio do espelho como formador da função do eu. Lacan. Lacan afirma. a noção de identidade plenamente unificada. no texto “O estádio do espelho” Lacan. apoiando-se nas teorias foucaultianas. móvel. assim. p. a escola representou esse papel. Escritos (pp. completa e coerente. identificação “refletida” pelo olhar materno. em que o poder se desmaterializa para se tornar mais eficaz.150-1). O sujeito para a AD é cindido. estável. Esse autor chega então à conclusão de que a “pedagogia disciplinar preconizada pelo Iluminismo não seja mais . formada e transformada continuamente. A identidade torna-se. heterogêneo. Em J. de fato. p. os dispositivos de disciplinamento não estão mais enclausurados em instituições fechadas. com a passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controle.2 ) Para a AD. Veiga-Neto defende a idéia de que. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (1998). estão sempre sujeitas a uma historicização. o contexto histórico.

há dois séculos. estaríamos presenciando um “empalidecimento da escola como a grande instituição disciplinar” (p. 10). 18). Sabemos que não se trata de uma pergunta fácil de ser respondida. O ideal da sociedade de cristal foi.. Antes de discorrermos mais detalhadamente sobre os dados colhidos por esta investigação que nos levam a concluir que a escola ainda reluz como uma das principais . e. a intenção de problematizar a afirmação de que a sociedade tenha se tornado uma máquina panóptica. não temos. foi a própria sociedade que se tornou de cristal. para concordar ou discordar de Veiga-Neto quanto se refere especificamente ao desluzamento da instituição escolar em sua função disciplinar. pontualmente materializado no panóptico. 2001. Um dos grandes argumentos utilizados por esse pesquisador para defender sua tese é que não precisamos mais da escola como instância disciplinar porque a sociedade como um todo se tornou uma grande máquina panóptica. Nossa intenção é questionar um pouco mais profundamente se esse fato faz com que haja esse “empalidecimento” da função disciplinar da escola.. Vivemos hoje em uma sociedade de controle. É com base nessa passagem cada vez mais perceptível para uma sociedade de controle que Veiga-Neto (2001) defende a idéia de que as crianças já não precisam ir à escola para serem disciplinadas. hoje. (VEIGA-NETO. neste trabalho. tendo em vista a existência de múltiplos. [. é claro. 18) Por tudo que já foi discutido neste trabalho. até porque qualquer resposta pouco elaborada poderia ser indício de que a questão não foi analisada em suas múltiplas faces. cuja principal característica é a desmaterialização do poder. imperceptíveis e eficientes dispositivos de controle na sociedade em que vivemos. Nas palavras dele. aceitando o desafio de refletir sobre o papel disciplinador da escola na sociedade panóptica em que vivemos. por isso. sua fluidez por toda a malha social que faz com que dele ninguém escape. a também problematizar essa questão. p.tão importante ou necessária como o foi até há poucas décadas” (p.] talvez não precisemos mais da escola como máquina panóptica simplesmente porque o próprio mundo se tornou uma imensa e permanente máquina panóptica. Propomo-nos.

Fórmula maravilhosa: um poder contínuo e de custo afinal de contas irrisório. p.. 2001. gostaríamos de problematizar o grau de importância do mecanismo panóptico dentro da grande máquina disciplinar. 211). os industriais. de fato. na verdade.] aquilo que os médicos. Foucault reconhece que a tecnologia inventada por Bentham é muito eficiente. (FOUCAULT. nas técnicas de poder desenvolvidas na época moderna. o que Bentham chamou de “ovo de Colombo”. 218). sendo assim. não atribui a ela o mesmo papel imputado por seu inventou. Um olhar que vigia e que cada um. está longe de ser a única e mesmo a principal instrumentalização colocada em prática. como eu disse. é o próprio Foucault que se encarrega de nos alertar que. Foucault atribui grande importância à descoberta de Bentham. 211). Para esse filósofo francês. 2001. violências físicas. por terem calculado incorretamente o “grau de opacidade e de resistência” dos prisioneiros. sentindo-o pesar sobre si.] sem necessitar de armas. cada um exercerá esta vigilância sobre e contra si mesmo. (FOUCAULT. embora a visibilidade a que se submetem os corpos para que se possa controla-los não é nem a única nem a mais importante forma de poder da modernidade. [. Apenas um olhar. os penalistas. coações materiais.instâncias disciplinadoras.. 218). [. Além disso. Entretanto. p. 2001. Foucault adverte que Bentham e todos os que foram influenciados pelas idéias dele podem ter avaliado mal o poder do olhar. principalmente porque o olhar exige muito pouca despesa. 2001. é. Segundo Foucault. Assim. (FOUCAULT. acabará por interiorizar.. (FOUCAULT. por ser “a grande inovação que permitia exercer bem e facilmente o poder”. o que esse filósofo e jurista inglês imaginou não foi somente uma estrutura arquitetural para resolver especificamente o problema da prisão. Seria falso dizer que o princípio da visibilidade comanda toda a tecnologia de poder desde o século XIX. afirmando que. p. p. a ponto de observar a si mesmo. o que fez com . Entretanto. os educadores procuravam: ele descobriu uma tecnologia de poder própria para resolver os problemas de vigilância. Os procedimentos de poder colocados em prática nas sociedades modernas são bem mais numerosos. como ratifica no mesmo texto: Na verdade. o olhar teve uma grande importância mas.. diversos e ricos.

entre outras – ou. “assumindo a função de coordenadora de sua educação”. Consideramos que a função disciplinadora da escola continua reluzente. faz parte do “novo papel da escola” identificar as “dificuldades relacionais” do aluno e convocar os pais para uma reunião em que serão “estabelecidos os padrões que nortearão a educação daquela criança” (TIBA. 2005) mostram que a escola não apenas se coloca. p. 224). os detentos não foram pessoas passivas. Chamamos a atenção para o fato de ter sido utilizado o verbo convocar e não. afirma que a escola precisa “proteger” a criança. . Para o filósofo francês. que indica a posição superior que a escola se atribui em relação à família. os alunos. “no domínio das prisões. por mais bem tecidas que sejam. mas também é colocada pela família. p. Concordando com Foucault. 2001. Tiba fala da importância de tanto a mãe quanto o pai ocuparem-se da educação dos filhos. também encontram meios de se tornarem opacos e de resistirem. quem sabe. prevenção do uso de álcool e drogas. 1998. tal como os prisioneiros de Bentham. numa posição hierarquicamente superior em relação à função de ditar as normas da “boa educação”. daí o nome que escolheu para esse “novo” modelo de educação. além disso. ao propor o que chama de “educação a seis mãos”. é Bentham que nos deixa supor o contrário” (FOUCAULT. Tiba. o que significa que. A resposta que ousamos apresentar para responder aos questionamentos levantados por Veiga-Neto (2001) pauta-se consubstancialmente nessas reflexões foucaultianas. Além das “duas mãos” da escola. Segundo ele. 159). não por não concordarmos que a sociedade tenha se tornado uma imensa estrutura panóptica.que acreditassem que as pessoas se tornariam “virtuosas pelo simples fato de serem olhadas”. Dados colhidos em pesquisa anterior (PANIAGO. É possível que a ocupação desse lugar tenha sido conseqüência do fato de a escola ter assumido uma série de responsabilidades que antes não lhe eram atribuídas. Mas não constitui objetivo deste trabalho concluir se foram essas práticas causa ou conseqüência do lugar enunciativo em que a escola se coloca atualmente. por exemplo. do fato de as crianças estarem indo cada vez mais cedo para a escola. convidar. esses pensadores ignoraram que haverá sempre formas de resistir às malhas do poder. orientação sobre trânsito e sexo seguro. E também para a intenção da escola em “estabelecer os padrões” de educação. pois eram consideradas pertinentes à família ou à sociedade – alimentação adequada de crianças. acreditamos que a visibilidade dos corpos é apenas um dos muitos dispositivos de poder utilizados pela sociedade de controle e.

1998. (LARROSA. visando. Dois autores podem nos ajudar a refletir sobre isso: Larrosa e Tomaz Silva. 7). em nossa análise. que vai muito além do controle dos corpos a partir de dispositivos panópticos. mas em toda organização da família. neste caso específico. a escola se veja na obrigação de “estabelecer os padrões” norteadores da educação dos alunos. etc. A família pode aproveitar a chance e tentar se organizar em nome do filho. também reforça a tese de que a escola continua desempenhando função de destaque na disciplinarização dos corpos. mas como produzindo formas de experiência de si nas quais os indivíduos podem se tornar sujeitos de um modo particular (grifo nosso). 162). por exemplo. p. A pedagogia não pode ser vista como um espaço neutro ou nãoproblemático de desenvolvimento e mediação. Quase sempre a desordem da criança em classe reflete a desorganização em casa. da autoconfiança. Os objetivos gerais para a prática da educação infantil (BRASIL. a organizar a vida da família. cujos objetivos gerais são apresentados da seguintes forma: Bujes (2001) faz interessante análise desse documento e. a escola pretende intervir não apenas naquilo que interfere diretamente no processo ensino-aprendizagem. Podemos apontar ainda um outro tipo de discurso que. como um mero espaço de possibilidades para o desenvolvimento ou a melhoria do autoconhecimento. Pode ajudar. 57). p. Trata-se do que preconiza o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCN/EI). 63) mostram como essa voz governamental pretende apontar para os profissionais da educação as “metas de qualidade que contribuam para que as crianças tenham um desenvolvimento integral de suas identidades” (BRASIL. Como se pode observar. . Pais “últimahoristas” passam essa cultura adiante. como vemos no enxerto transcrito a seguir: Não é só nos grandes conflitos que a escola deve intervir. da autonomia. acreditando nisso. da auto-regulação. Afirmações como a de que “os alunos não têm valores em casa” foram bastante comuns na nossa investigação. conclui que ele é mais um “dos tantos meios inventados para governar os seres humanos. Nossa intenção foi mostrar como a escola tem assumido um papel relevante na constituição de subjetividades na sociedade atual. do autocontrole.. (TIBA. com base nas teorias foucaultianas. 1998. da auto-estima. E é essa a principal razão para que.pois Tiba atribui um sentido bem amplo ao vocábulo padrão. 1998. p. p. 1994. moldar e modelar as condutas infantis”.

ela está no centro dos problemas de governamentalidade do moderno estado capitalista. o objeto do poder disciplinar. no título do seu trabalho: “as crianças ainda devem ir à escola?”. no período da infância e da juventude. sugerir que a questão que se impõe hoje não é a que faz Veiga-Neto. além do mais. para mais uma vez ratificarmos que nossas análises apontam que a escola não apenas se considera. Ousamos. depois da família (mas. discordar do posicionamento de Veiga-Neto (2001) quanto à atual função disciplinadora da escola. A educação não está apenas no centro do projeto educacional moderno. antes dessa).. (SILVA. Para ele. acreditamos que mais pertinente seria perguntar: as crianças ainda devem permanecer tanto tempo com a família antes de ingressarem na escola? . 84-85). cumpriu um papel decisivo na constituição da sociedade moderna. Com os mesmos argumentos apresentados por Veiga-Neto. Por todos os argumentos apresentados. 1995.. empalidecida. 253).. como a grande instituição disciplinar. engendrando novas subjetividades e. Para concluir nossos argumentos. p. sustentamos nossa tese de que a escola continua tendo papel decisivo na constituição de subjetividades da atual sociedade de controle em que vivemos. Diz ele. Na medida em que a permanência na escola é diária e se estende ao longo de vários anos. A escola foi sendo concebida e montada como a grande – e (mais recentemente) a mais ampla e universal – máquina capaz de fazer.) o maior tempo de suas vidas. p. com isso. Permitimo-nos.A educação institucionalizada sintetiza todos os problemas de governamentalidade. torná-los dóceis. muitas vezes. os efeitos desse processo disciplinar de subjetivação são notáveis. (VEIGA-NETO.] mais do que qualquer instituição. utilizamos um trecho retirado de outro trabalho desse mesmo estudioso de Foucault. a instituição de seqüestro pela qual todos passam (ou deveriam passar. para nós. dos corpos. [. em que analisa a importância da escola na passagem “de uma sociedade de soberania para uma sociedade estatal”. para encerrar nossas reflexões. Destacamos o trecho em que esse pesquisador sugere que a família é a principal “instituição de seqüestro”. a escola encarregou-se de operar as individualizações disciplinares. mas é também considerada pela família. a escola é. então. enfrentados pelo estado capitalista numa situação de profundas transformações econômicas e sociais. para utilizar uma expressão de Foucault. absolutamente reluzente. 2003. e assim.. T.

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