COM

A REVISTA

CAMÕES pretende-se dar expressão

escrita à voz da Língua Portuguesa e das Culturas

influências, estimulando contactos multiculturais
que permitam às respectivas populações uma

Lusófonas no Mundo.

dinâmica de reconhecimento cada vez mais

Sendo a difusão desse mesmo universo

estreito no âmbito da história e da actualidade

o objectivo essencial do Instituto Camões, natural

cultural lusófona. O nosso o bjectivo é tornar

é que o mesmo se reflicta em primeiro lugar na

evidente o projecto da Lusofonia, numa

promoção das suas literaturas, espelho de

perspectiva cujo eixo se baseia no facto de que a

sensibilidades afins e comunicantes entre si.
A afirmação internacional da Língua Portuguesa

partir de qualquer dos seus pólos constitutivos, o

h o rizonte cujo eco a revista Camões assume e

e das Culturas Lusófonas constitui, por essa

divulga, tem um instrumento e um trilho que

razão a prioridade em termos de pressupostos

coincide na Língua Portuguesa e nas Culturas

desta revista que se pretende inovadora,

Lusófonas. Por essa razão esta publicação

apostada no tratamento de síntese e em termos

merecerá deste seu primeiro número, em comum

monográficos, de temas que emprestam ao

e em paralelo com a informação mais imediata e

mundo da Lusofonia a sua razão de ser.

dinâmica do acesso via Internet, a atenção

Trimestralmente, e depois de o Instituto Camões

privilegiada deste Instituto no sentido de uma

se ter aberto ao mundo através de um sítio na

cada vez maior afirmação da lusofonia no

Internet, é a vez de se empenhar na difusão

mundo.

regular de temáticas-chave cujo interesse é

A revista Camões - Letras e Culturas Lusófonas terá,

partilhado por estudiosos e amadores das letras e

em suma, como principal objectivo a divulgação

da cultura.

organizada de uma temática que envolve os

A revista Camões - Letras e Culturas Lusófonas

grandes momentos, obras e homens do nosso

pretende marcar uma pauta dos eventos e

Património comum. Propõe-se como projecto e

efemérides alusivos ao ano cultural, publicando

como espaço de inovação, na medida em que

cada um dos seus números numa perspectiva

procura encontrar o ponto de viragem nas formas

panorâmica de fixação, possibilitando

de abordar a Língua e as Culturas, tentando

sistematicamente uma ulterior consulta. A análise

deslocá-las para fora do âmbito restrito dos

de fundo, que se pretende rigorosa, preocupar-se-á

debates académicos. Será composta por algumas

não só com uma abordagem fundamentada

rubricas fixas e por outras mais ou menos

cientificamente, mas também com um texto

flutuantes, a considerar de acordo·com a

acessível ao público interessado pela cultura e

distribuição permitida pela temática concreta de

nomeadamente pelas Línguas e Literaturas

cada número. Terá por isso uma dupla estrutura,

Lusófonas, o que significa que o seu

possibilitando a inserção de vários textos que se

direccionamento não visará o brigatoriamente a

relacionem com a matéria apresentada, tais como

ocupação de um espaço académico, embora não o

entrevistas, artigos de opinião elaborados por

excluindo.

especialistas, memórias ou outro tipo de relatos de

Outro ponto assente quanto à vida futura desta

especial interesse, transcrição de inéditos,

Revista, é a preo cupação dos seus responsáveis

inquéritos, ou modelos alternativos de textos que

por uma selecção iconográfica da mais alta

próxima ou lateralmente se relacionem com o

por uma escolha criteriosa de ilustrações para os

dividido em secções ou artigos, conforme a sua

seus textos e uma optimização em termos de

actualidade ou evocação histórica obrigue ou

tratamento gráfico. Para tal, e apelando para a

mereça.

qualidade. A revista Camões deverá distinguir-se

circunstância de a realidade cultural lusófona não

tema específico, escolhido como pano de fundo e

Que este número fundador da revista Camões seja

se limitar apenas à Literatura, a Música, as Artes

o primeiro de uma longa série, e que o seu

Plásticas e Cénicas, o Cinema, a Filosofia, a

prestígio a transforme no espelho de um Instituto

Antropologia ou o Património histórico-artístico

que tem por designação o mais célebre poeta da

terão igualmente lugar nas suas páginas, dado

Língua Portuguesa, símbolo da Diáspora Lusófona,

representarem áreas de riqueza que importa

de onde quer que o mundo a observe

valorizar.

e ela observe o mundo.

Numa comunidade aberta ao mundo e múltipla
nas suas diferenças e no seu legado comum, é
urgente favorecer a presença de cada um dos
países que a conformam e as suas recíprocas

Jorge Cou to

Rl.;\.ISTA D(: LETRA'> E CllLTUltJ\S LU�Úl O;.;,\S

8

Uma língua, sete espaços culturais.

Breve diacronia da galáxia literária lusófona
Jo s é A u g u s t o

DIRECTOR

Se a b r a

Jorge Couto
DIRECTOR-ADJUNTO

Luísa Mellid-Franco

Literatura e língua literária

14

A n a M a ria M ã o - d e - Fe r r o M a r ti n h o

DIRECTOR DE PRODUÇÃO

Rui M. Pereira
DESJGN GRÁFIco

Emílio Vilar e Luís Moreira

20

Do Classicismo ao Realismo da Claridade
Alberto

EDJTORES

Henrique Viana
Joana Amaral
Maria João Camacho
M. Piedade Braga Santos

Ca r v a l h o

32 Trajectos e sentidos da ficção portuguesa contemporânea
Ca r l o s Reis

ASSJNATURAS

Elisa Camarão
ILUSTRAÇÕES

Pedro Cabral Gonçalves
Clara Vilar
ARQUIVO FOTOGRÁFICO

Tiago Menezes Leal

Novos rumos da literatura Brasileira

40

Jo r g e He n riq u e Ba s t o s

46 No sobrado, sobre a baía. Retrato da burguesia de Luanda no final do século XIX

TRATAMENTO DE TEXTO

M a ria Jo ã o

Ana Cristina Moreira
PRÉ-IMPRESSÃO

Policor

o Crioulo Forro.

54

Maiadouro
Instituto Camões
Campo Grande, 56 - 70
1700 Lisboa
Tel: 79554 70/2
Fax: 795 6113
geral@instituto-camoes.pt

Artigos, substantivos e adjectivos
Ca r l o s E s p í ri t o Sa n t o

IMPRESSÃO

DIREÇÃO E REDAÇÃO

60

Os Teatros, as Luzes e as Sombras
A n t ó n i o Lo j a Ne v e s

A Escrita da História.

74

PRODUÇÃO E ADMINISTRAÇÃO

Revista Camões
Rua Jardim do Tabaco, 23 - 10
1100 Lisboa
TIRAGEM

M a r ti n s

Oriente, Ocidente

Is a b e l M o n t e i r o

82

Os Instrumentos Musicais e as Viagens dos Portugueses

10 000 exemplares

Jo ã o Pe d r o

Caia d o

DEPÓSITO LEGAL

124734/9 8

DISTRIBUIÇÃO

Três passagens rente ao índico

92

Lí dia Jo r g e

Bertrand
Cam:les é editada pelo Instituto
Camões com o apoio
de produção
da Comissão Nacional
para as Comemorações
dos Descobrimentos
Portugueses_
ISSN: 0874-3029

Contos

100
B e n j a mim Pi n t o B u l i

107

·

J.

Ed u a rdo Agualusa

Luís

Ca r d o s o

Entrevista a Roberto Chichorro
A n t ó n io Lo j a Ne v e s

.

.

Dez passos em volta das «Pontes lusófonas» M.a r i a A r m a n d i n a M a i a .

a necessidade urgente de rever uma postura unilateral. decidi­ damente privilegiado. os núcleos multiplicadores por exce­ lência. que permitam inscrever este espaço no imaginá­ rio colectivo dos países participantes. integrando nesta a real capacidade e vitali­ dade que os nossos solos abrigam e a l\lemória dos nossos povos conserva. As Pontes Lusófonas devem. 4 Neste diálogo multicultural. o caminho proposto é o de enriquecermos o nosso território identitário. o Instituto Camões pretende dinamizar um percurso alternativo e eficaz onde se criem condições para nos conhecermos. de doa­ ção.. Ao definir este enquadramento para as Pontes Lusófonas. Construí-la pode ser um mero acto de engenharia. Em projectos futuros. em planos calendarizados. 7. . como a História nos ensinou. conservar intactos os espaços outros com os quais. Esta comunhão de território linguístico oficial não implica qualquer perda ou entropia relativamente às culturas originárias de que são portadores os países convidados a dar o seu con­ tributo. por podermos ouvir-nos e entendermo-nos numa língua a todos familiar. que esperamos contribuam para um desafio intercultural. mas pode também corresponder à vontade de mudar. somos também nós próprios. as Pontes unirão países. 5 Por outras palavras. o conceito de fronteira implica territórios distintos. pela sua verdade. Estas primeiras Pontes são uma sessão inaugural de um programa global mais vasto e ambicioso. como é imperioso. pela sua tenacidade em manter presente e viva esta união. 9.1. 8. indelevelmente. mas também a linha unitária que os torna vizinhos.. as Pontes pre. de um espaço de convivialidade que seja a expres­ são de uma abertura a novos espaços dialogantes. se soubermos. . num mundo onde impera a fragmentação.. É nesta perspectiva que se colocam as Pontes Lusófonas. que impossibilita a troca cultural subjacente ao acto da comunicação que exige imperiosamen­ te o reconhecimento de territórios autónomos antes de se abrirem às regras do reclamado diálo­ go intercultural. As Pontes Lusófonas irão mobilizar todos os recursos. Pelo contrário. a face mais visível de um fenómeno crescente de desconhecimen to entre povos e culturas. 3 . 2. apelar para todas as nossas capacidades de nos constituirmos em pólos de iniciativas que se inscrevam na memória.. que nos permitirá sermos múltiplos. de (ultra) passar o muro do silêncio cultural que nos envolve. é de primordial importância que elas aconteçam como um ritual. inquestionavelmen­ te. Está implícita. criar um obstáculo à comunicação. nomeadamente através de itinerários que irão ser percorridos por grupos de intelectuais e homens de cultura. antes de mais. Foi este o espírito que presidiu à arqui­ tectura destas Pontes Lusófonas. coaguladoras de identidades culturais diversas que se interpretam numa língua comum. nesta afirmação. 10. pela sua regularidade. agora. através fundamentalmente da atitude mental da plurali­ dade. o português. impõe-se a conquista . tendem delinear-se como favorecedoras de uma real aproximação entre as culturas lusófonas. Para tal. nesta tarefa de construir indissolúveis laços afectivos que sejam pertença colectiva de todos os intervenientes do diálogo a estabelecer. traduzir a dualidade de uma identidade recon­ quistada. 6. ali­ mentado por uma alteridade que nele se reflecte. Destruir uma ponte é.

Esse espaço matricial manteve-se linguísti­ ca e culturalmente vivo.Uma língua sete espaços culturais J o s é Au g u s t o Se a b r a DESDE AS SUAS ORIGENS. das invasões supervenientes. QUE REMONTAM AO processo de diferenciação das línguas români­ cas a partir do Latim. Dinis . em espaços geoculturais múltiplos."en maneira de proença!". uma espé­ cie de espaço de reserva. o Galego-Português combinou na sua géne­ se influências dos colonizadores romanos da Itá­ lia meridional com elementos asturianos e célti. através das vicissitudes do seu enquadramento político. mais ou menos mar­ cado ou discreto. estas guardaram ainda os ecos da fala pri­ mitiva. com as cantigas de amigo. numa longa evolução histórica em que foi consolidando a unidade na diversidade que lhe permitiu ir sendo a mesma e outra. para lá da própria península. enquanto nas cantigas de amor se reper­ cutia . vindo a absorver todo e qualquer outro rasto. que nele sedimentaram. fossem elas germânicas ou árabes. como lhe chamou Pascoaes. enraizado na Galiza irmã. no espaço dos dialectos do Romanço peninsular de onde emergiu o Galego­ -Português. que hoje correspondem aos de sete países independentes.. a partir do Cancioneiro Geral. Localizado na periferia ocidental da Româ­ nia. cos. até as tornar uma língua nacional. com os que viriam cultivar simultanea­ mente os géneros peninsulares e os provindos . além-fronteiras de Portugal. E quando o por­ tuguês se afirmou literariamente.a poesia de língua occi­ tânica. como trovou numa delas D. deixando atrás de si porém. Os nossos primeiros poetas mantiveram­ -se pois de igual passo fiéis à tradição originária e abertos à cultura literária europeia. O mesmo sucederia. prolongando-se ainda numa larga diáspora disseminada um pouco por todo o mundo. na viragem do século XII para o século XIII. a vocação da nossa língua foi sem­ pre a de incorporar na sua cepa fundadora ele­ mentos civilizacionais diversos.

. p. A I S · N tô .-=- '. A rl l .-. c.i!? i �- .. Lisboa. Biblioteca Nacional (lL. Os Dedos da Declinação in Crammotices Rudimento de João de Barros. 148) " ' :. a. \ 9 . 1540. i� .(.

O momento . E não é assim de estranhar vermos um dos principais cronistas da história oriental. com uma rapi­ dez e com uma qualidade notáveis. ao advogar esta junto de Júpiter a protecção do Gama. que se seguiram à Gramática de Fernão de Oliveira (1536). pela voz de Vénus. da América e da Ásia as suas sementes. que foram florescendo em falares e cantos com sonoridades diversas. / com pouca corrupção crê que é a latina". notabilizar-se também como autor de uma Gramática da Língua Portuguesa e de uma Cartilha para Aprender a Ler (1540).do dolce stil mwvo. que come­ çava então a ter lugar com as Descobertas. "Lá onde for". na verdade.que cons­ titui o apogeu da língua portuguesa é.. A "por­ tuguesa língua" de Ferreira foi-se gradualmen­ te impondo já não apenas no espaço continen­ tal mas. depois de o seu povo e de as suas elites a terem assimilado. os primeiros gramáticos come­ çavam a lançar as bases normativas do portu­ guês. maxime. em 1822. de António Ferreira. em que a Pátria veio a reconhecer-se. mas explorou de forma multímoda as virtuali­ dades expressivas do idioma. sem prejuízo do seu fidedigno patriotismo nem do seu entra­ nhado amor à língua portuguesa. Sobretu­ do a partir de finais do século XVI. deixando por ter­ ras de África. que como Gil Vicente e Camões poetava também em língua castelhana. e nomeada­ mente durante o domínio filipino espanhol. que iría­ mos encontrar a expressão mais acabada da afir­ mação do português como língua de cultura nacional e universal. do Norte ao Sul e do Ocidente ao Oriente. da Índia à China e ao Japão. soberba e altiva". entre todos. e. sem que jamais dei­ xasse de ser "senhora" de si mesma. Significativamen­ te. onde encontraria um terreno de eleição. nome­ adamente com a missionação e a acção peda­ gógica dos Jesuítas. em contacto com as civi­ lizações ameríndias. senhora vá de si. até vir a tornar-se indepen­ dente. cante. o autor das Décadas. do Índico ao Pacífico -. Não foi em vão. sendo as suas mutações posteriores um aperfeiçoamen­ to gradual. Entretanto. depois ortograficamente codificado por Duarte Nunes de Leão (1576). . A prosa oratória barroca do Padre António Vieira. na sua dig­ nidade e na sua identidade essencial. que também no Oriente. fale. na qual quando imagina. fundan­ do-se não só na coragem dos nautas lusos. que ia atingindo a sua maturidade. no entan_. através dos oceanos do Atlântico ao Índico. to. ou os primei- 10 . Um novo país ganhava através dela forma. na verdade.ça-se e viva a portuguesa lingua. no largo território brasileiro.e o monumento . viajeiro pela Itália e pela Espanha cul­ tivadas. Tor­ naram-se emblemáticos os versos em que cele­ bra a irradiação do idioma pátrio: "Floresça. o Brasil passa a ser o grande laboratório retórico do português. lá onde fOI. foi o primeiro alto exemplo a compro­ var que a língua mátria poderia florescer num outro espaço cultural. Não só Camões dotou Portugal da sua Epopeia. Leiam-se os poetas arcádicos e pré-românticos ligados à "Inconfidência Mineira". até ao português moderno. A "portuguesa lingua" iria. fossem elas as dos crioulos e dos papiás. ou. Seria com os Poemas Lusitanos. qual foi o caso de um Sá de Miranda. capaz de manter-se igual a si própria na sua difusão pelo mundo. As estruturas básicas do português clássico estavam enfim alicerçadas. que Fernando Pessoa haveria de sagrar "imperador da língua portu­ guesa". o da publicação d'Os Lusíadas. em 1572. João de Barros. que se passou a partir daí a falar correntemente da "língua de Camões". mas "na língua. de Cláudio Manuel da Costa a Tomás António Gonzaga. contribuição importante para a fixação fonética do português. a latinidade intrínseca do português foi por ele invocada. a difundiam.

Durante todo o século XIX o Brasil e Portugal. estavam criadas as condições para a separação. através da imprensa dirigida pelos mentores independentistas. A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. com as invasões francesas. facilitou a afirmação. do espírito de autonomia cultural brasileira. de Basílico da Gama e Santa-Rita Durão. Pedro. que uma forte corrente de opinião pública. depois da revolução liberal de 1820. desvinculados politicamente. João VI a Portugal. entretanto. Fotografia de Francisco José Viegas. Com o regresso de D. D. ros poemas heróicos nativistas. na sua luta contra a reacção miguelista.Estátua de Luís de Camões na Ilha de Moçambique. seguiriam por . preparou e amadureceu ideologicamente. abdicar para vir dirigir as hostes liberais portuguesas. Mas a ligação com a antiga metrópole permanecia forte: e viu-se o primeiro imperador do Brasil.

Seria só num século XX já avançado que o Brasil lançaria o seu grito do Ipiranga literário.no sentido saussuriano do termo? . num momento crítico da sua consciência histórica. com o Modernismo de 1922 . que não per­ mitem confundir José de Alencar ou Castro Alves com Herculano ou Garrett. como é o caso de Mário de Andrade com a sua Gramatiquinha da Pala Brasileira.vezes culturalmente vias paralelas. eis a palavra de ordem do Mani­ festo da Poesia Pau-Brasil. em que se integram plenamente os emi­ grantes portugueses. Tendo afirmado. rasurando o passado por­ tuguês e afirmando a plenitude da sua perso­ nalidade cultural nativa: '�penas brasileiros da nossa época". como j á foi notado . liderada no Recife por Gilberto Freyre. devidas à diferenciação sem perda da unidade da língua. em que o Brasil e Portugal se reencontram. Mais tarde. através da língua e de uma sensibilidade afim. de que Ferreira de Castro narrou a gesta. . Machado de Assis com Eça. . sem a qual não teria sido possível a civilização do Nordes­ te. A "portuguesa língua". apesar de Orpheu se apre­ sentar como uma ponte entre as duas margens. em con­ textos sociais e intelectuais próprios e através de personalidades bem demarcadas. em que. como disso é exemplo a obra de Luandino Vieira. do Romantismo ao Realis­ mo. como acentua. através do "nacionalismo tllpi" . '� nossa independência ainda não foi procla­ mada". repare-se. that is the question". decorrente de uma miscigenação em que se cruzaram elementos ameríndios. procura integrar a cultura brasileira num "complexo transregional e binacional". A fortuna dos autores portugueses no Brasil."TlIpi ar not tllpi.mas p ara reivindicar a sua matriz civilizacional ameríndia. trata-se aí de "fala" . Inspirando-se n as vanguardas europeias -. os moder­ nistas pretendem "acertar o relógio império da literatura colonial". tendente a erigir o índio em "símbolo nacional". sobretudo . a sua especificidade irredutível. continuou a manter com a nossa uma relação íntima. Esta mestiçagem antropológica e cultural é outrossim um elo de ligação comum aos outros espaços civilizacio- É por vezes no cruzamento com as linguas nativas. lançava o Manifesto Antropófago. E uma das tendências modernistas mais incisivas do Manifesto Regionalista. apresentam corres­ pondências mútuas. como acontecia com o Man ifesto do Verde-Amarelis­ mo. Alguns modernistas vão até esboçar uma autonomia linguística.e não de "língua". as duas literaturas. o autor de Macunaíma não chega a pôr a língua portuguesa enquanto tal em causa: ele visa antes. que se situa a experiência de uma outra escrita. pela sua maleabilidade. Mas. de Oswald de Andrade. reclamar. como foi o caso dos cita­ dos ou ainda de um Camilo. 12 . que Sampaio Bruno analisou em O Brasil Mental. ele elaboraria a sua teoria antro­ pológica do Lllsotropicalismo. a grande comunidade do povo bra­ sileiro. de Casa Grande e Senzala a O Luso e o Trópico. Olavo Bilac com Gonçalves Crespo ou Cruz e Souza com Nobre. enxertar o "brasileiro falado" no "português escrito". a verdade é que também nele se manifestavam correntes que iam no sentido de uma conciliação do indigenismo com as heranças portuguesa e europeia. onde participaram quase episodicamente alguns abencerragens de além-Atlântico. segundo o famoso aforismo de Oswald -. resistiu à ame­ aça aparente. um século depois da inde­ pendência p olítica brasileira. do Parnasianismo ao Simbolismo.se-ia mesmo da "dívida aos portugueses". que se não con­ funde com o português. mostra como a lite­ ratura portuguesa continuava a alimentar os meios culturais brasileiros. lusos e africanos. mais do que vice­ versa. Assim. com tonalidades dis­ cursivas diversas. Na realidade. Se havia no Modernismo um pro­ j ecto cultural antropo-linguístico sui generis. apesar dos mal-entendidos ou dos descasos mútuos.Futurismo· e Dadaísmo.

dando frutos tão requintados como a obra de Baltasar Lopes. ser adoptado sem dramas nem conflitos pelos novos países que conquistaram sucessiva­ mente a sua independência como uma língua oficial e veicular. como com feliz inspiração a designou Mário Soares num discurso na UNESCO. agora no seio da Comunidade em que todos se integram. Foi dessa grande aventura de uma língua em expansão galáctica. Não foi por acaso que a literatura brasilei­ ra que se seguiu ao Modernismo. na ficção em prosa.13 nais lusófonos. ao porem ênfase na apropriação da lín­ gua portuguesa como forma de expressão da sua identidade na alteridade. A progressiva diferenciação literária dos países africanos onde vieram a eclodir aqueles movimentos explica-se pelos contextos e as tra­ dições culturais que lhes são inerentes. Como escreveu Mia Couto. constituindo novos espaços da expansão da galáxia lusófo­ na. que não contende com o res­ peito das línguas nativas nem com as culturas de que elas são a excepção primeira. que na revista Claridade teve a sua manifestação mais significativa. Assim. Tal como acontecera com o Brasil. "esse processo de apropriação é um facto quase único no continente africano". ao longo e apesar das vicissitudes históricas do colonialismo e da guerra. é por vezes no cruzamento com as lín­ guas nativas .como disso é exemplo a obra de Luandino Vieira .embora tendo passado pela prova de fogo trágica de uma guerra colonial­ a conquistar a independência. um dos maiores escritores lusófo­ nos vivos. � . já a génese de outras literaturas africanas lusófonas se insere predo­ minantemente na linha de reivindicação da Negritude.que se situa a experiência de uma outra escrita: experiência essa que se aproxima da de um Guimarães Rosa. nesta breve diacronia das literaturas em que se multiplicou. A "portuguesa língua". ° português pôde. de que há-de renascer sempre. num horizonte de univer­ salidade. como forma de afirmação de uma identidade civilizacional face ao colonizador branco. onde solidariamen­ te os sete países lusófonos a vêm defendendo. nas suas "variedades" o u "vari­ antes". assim. está impregnada de uma vivência e de uma sensibi­ lidade que muito têm a ver com a sua expres­ são crioula. uma "pátria de várias pátrias". De Gra­ ciliano Ramos a Jorge Amado e Erico Veríssimo. tor­ nou-se assim. teve uma influência assinalável quer em Portu­ gal quer nas l iteraturas de expressão portugue­ sa emergentes em África e precursoras dos movimentos de libertação respectivos. na literatura angolana. na escrita poética . ao entro­ sar os múltiplos códigos do português sertane­ jo do Brasil. do Brasil irromperam novas temáticas e linguagens que irradiaram por todos os espa­ ços culturais de língua portuguesa. desde o romance nordestjno dos anos 30 à poesia das várias gerações de antes e depois da guerra. sob o signo da unidade na diversidade. que viriam mais tarde. que são muitas vezes os inte­ lectuais africanos que mais tomam a peito essa defesa. que quisemos aqui dar testemu­ nho. a língua comum conti­ nuará a religar Portugal a esses países. No entanto. Diga-se. a exem­ plo do Brasil . que Fernando Pes­ soa elegeu como "pátria". mesmo. das suas origens ao futuro a advir. se uma literatura tão original e rica como a cabo -verdiana. Isso sem prejuízo da assunção da lín­ gua portuguesa como capaz de incorporar no seu substrato os valores e elementos nativos: vejam-se os casos de um Agostinho Neto e de um Viriato da Cruz. cada qual com a sua idiossincrasia civilizacional própria. depois de no seu exí­ lio sul-africano ter sido educado e iniciado na estrangeidade da língua inglesa vitoriana.entre tantos mais -. de Manuel Bandeira a Car­ los Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

de pacaios. Luanda. Também o facto de alcunhar os cipaios [soldados] de verdugos ou fintilhos. criara­ -lhe antipatia junto das autoridades.Literatura e língua literária Ana Ma r i a . pp. 20·21).M ã o .. Mestre Tamoda e outros contos. UEA. . 1989. e aos quimbares [regedores] de panaças.d e -Fe r r o M a r t i n ho Uma ocasião o 'mestre do português novo' foi chamado pela autoridade para se identificm: Tinha sido denunciado como um mandrião e sem documentos. 4' ed. (in Uanhenga Xitu.

Neste caso. 70.ao campo. usando para o efeito diversas formas de nacionalização literária. que ele próprio a entenda em toda a sua conse­ quência. sua fas cinante construção de novos sentidos. Em nosso entender. Este era certamente um discurso necessário durante os anos 50 e 60. 1981) nos anos 60 instalou . em cujos textos se inverte este critério: tudo começa por ser de base ideológica. instaura-se aqui o terreno propício à construção de mundos secundários que permitam a compreensão do quanto duas culturas se fixam. Que os outros entendam ou não a sua língua. lJanhenga Xitu. com total liberdade de uso e reaplicação semân­ tica. O pacto ficcional que connosco.seu valor normativo. neste particular. o facto de lJanhenga Xitu ser um falante bilingue. ou seja: Mestre Tamoda é o que diz. Ideologicamente. Relevante será apenas a exactidão da regra seguida. mas apenas que se instale uma dicção normativa. Tal prática há-de valer-lhe o interesse dos mais jovens e a desconfiança e perseguição dos adultos.e resulta na caricatura do próprio projecto narrativo. A intensa polémica que rodeou esta obra (cf. a aplicação de termos ratificados pelo dicionário. embora não a mais importante. ao con­ trário do que sucede por exemplo com Luandi­ no Vieira. o autor angolano que aqui nos ocupa. mesmo se de fraco valor comunicativo. não p arece relevante. O professor de português que distribui páginas do ndunda (dicionário ou livro volumo­ so em língua quimbundo) e por essa forma pro­ p aga conhecimento linguístico aos pedaços. para depois resultar. a linguagem constrói-o e orienta-lhe a vocação pedagógica em direcção à definição de uma personagem que depende totalmente dessa precedência linguística. assenta no conhecimento que temos das diversas convenções propostas. tanto mais verdadeiros quan­ to resultantes de cruzamentos de natureza diversa. consequên­ cias linguísticas. o que reitera à evidência a n atureza oposta de dois sistemas e de duas visões do mundo. o que é circunstância rara na literatura angolana. é sintomática de um mal-estar que pode ler-se no tecido de relações sociais e culturais profundas. O que acima afirmamos acerca de Luandino Vieira é bem nítido nas suas novelas em Luuan­ da. Parece-nos ser visível. se estabelece. leitores. A filiação dos seus ensinamentos na burocracia resulta exemplar pelo efeito de hiato entre a língua na sua aptidão funcional e o rigor críptico das regras de enunciação particulari­ zantes. Nas suas histórias vai revelando a alegoria dos poderes linguísticos . no espaço "penumbroso" da experiência urbana que se transfere de forma não reflectida para o meio rural. de cuj o excesso de aplicação resulte uma ambiguidade fundamental à justificação de um universo sin­ crético. A incapacidade do professor em adaptar o discurso apreendido na cidade . convencionada. de entre as quais a linguística foi desde sempre a mais discutida. Ed. meio indiscutível de saber acumulado e válido na sua dimensão enunciativa. é um dos mais significativos her­ deiros de uma relação de longa data entre a língua portuguesa e as línguas africanas bantu na literatura. para onde retorna. O exercício de lingua­ gem que aqui se propõe é em primeira instância de efeito linguístico e só depois político. Ao professor não interessa necessariamente que a comunica­ ção se faça através da língua portuguesa tal como a ensina.a dos musseques da periferia de Luanda -. o autor procura instau­ rar o retrato de uma realidade situada . defensivo na sua natureza disseminan­ te.nos meios burocráticos .ASSIM SE VAI CONTANDO A HISTÓRIA DE MESTRE 15 Tamoda. o português quimbundiza-se até ao limite . e por vezes desencontram. como . ou trazer consigo.

' . . . 0 l ugar destinado às ltnguas africanas e o de um recurso de base Ilustrativa . Pepetela recorre às lín as africanas apenas na medida em que elas designar ambientes partIC ulares e situar f cto s OrlCos.�� : ���� . . .

escolhe esta. Este autor recorre às línguas perante três novelas ("Vavó Xixi e seu neto Zeca africanas mas apenas na medida em que elas Santos". um bilinguismo assimé- a o quimbundo. por razões diver­ ximo). com este O abrandamento deste tipo de opção literá­ texto. dos ambientes urbanos na dimensão imperial que se pretende dar de uma pós-independência. pobres.em me dera ser onda no domínio do léxico. Pepetela apresenta algumas maç:ão cultural. nem ao suporte de um projecto português diferente. Ao procurar-se. O facto de estarmos e do reino da Lunda. Cotovia). "Estória do ladrão e do papagaio". e em que se supõe a instauração de um capital da Lunda. UEA. encontro de um critério ilustrativo que j ustifi­ 1989) utilize também um critério de base etno­ cava a auten ticidade narrativa. das suas divisões. cronologicamente. de armas e uten­ povo. assim sendo. Podemos lembrar aqui dois exemplos que se corresponde. Todo o vocabulário vem (eds. sem referência na: a tradução e. A mimetização da expressão afinidades com o que ocorre em Manuel Rui. permitem designar ambientes particulares e "Estória da galinha e do ovo"). era pertença da literatura por­ Se quisermos por exemplo comparar os tuguesa. tal como ele se a condição social dos habitantes dos bairros falava à altura da edição. o lugar destinado às línguas africanas é o sas: o de Manuel Rui e o de Sousa Jamba. possibilidade: trata-se de um género que palavras que fazem sentido para uma utilização admite uma estrutura sequencial. admiti-lo significava aceitar a existên­ glossários constantes das duas últimas obras cia de uma diferença incómoda. 17 directamente do quimbundo. fazendo parte de um terri­ ficcional autónomo. português cujas marcas africanas são apenas as O caso de Sousa Jamba introduz um outro de um universo de recriação linguística activa e factor c u rioso e estranho à literatura angola- sustentada pelo uso quotidiano.temos tido oportunidade de lembrar em ante­ lugar porque efectivamente não parecem ser riores circunstâncias. não o admitir referidas. ao mesmo gráfica e antropológica p ara caracterizar e des­ tempo que eram criados argumentos ficcionais crever todo o ambiente da corte da rainha Lueji de grande fragmentação. Temos de um recurso de base ilustrativa e de conse­ no primeiro caso um autor que se afirmou. A s línguas bantu não têm aqui trico. com domínio menos preciso d o portu- . na sua miséria. ou. linguística dessas comunidades ia assim ao muito embora na sua obra Lueji (Luanda: UEA. sendo funda­ infindável quanto aos acontecimentos narra­ mentalmente importantes n a designação da . ao futuro pró­ nos afiguram paradigmáticos. revisitar o passado histórico no sentido de ria viria a ser visível sobretudo a partir dos anos conseguir reavaliar o presente (que na narrativa 80. tório ultramarino. quências estilísticas estritamente perceptíveis nomeadamente com Qu. é fácil constatar a sua principal dife­ abria a hipótese de se estar perante um texto de rença: no primeiro dominam termos retirados literatura angolana. dos. recorre a um nação e de uma cultura. Para tanto. um problema delicado e necessárias: nem à afirmação de uma identida­ perverso: a obra apresentava-se escrita num de indiscutível. como um cronista dos cos­ condicionado pelos factos seleccionados e pela tumes de Luanda. dos dignitá­ etlws susceptível de generalização a todo um rios do Estado de Muatiânvua. vem confirmar situar factos históricos. teoricamente literária de natureza funcional. no segundo temos A intencionalidade desta emancipação expressões e vocabulário que são parte inte­ resultou em textos sobretudo preocupados com grante do português de Angola. medos e imprecisa afir­ De certo modo. sílios de todo o tipo.

Fotografia de Mia Couto: Arquivo Revista LER 18 . intencional e detentor de formas plenas de poeticidade.Mia Couto talvez seja o mais europeu dos escritores africanos da actualidade: o «excesso" linguístico da sua obra leva a que ela se apresente como universo semiótica único.

Por caso de Confissão Tropical (Dom Quixote: 1 995) isso não nos é estranho o facto de se fazerem isso é mais visível que em Patriotas (ed. em nada nos. Ponhamos então os tempos e o demais se verá. N ão é possível no universo de recepção constituído por leitores entanto saber até quando o u durante quanto fascinados pela vontade de acesso a um códi­ tempo. por exem­ / mento do que está em causa nos mundos . deixar de referir Mia Couto: os Tod a a obra literária vive de um compro­ inúmeros processos de invenção estilística que ocorrem na sua obra têm que ver. p. É tão flagrante a criação de um necessidade de pesquisa e imposição de uma idiolecto. semântico e pragmático. Cami­ nho. Mia damente biográficos e de reconstituição his­ Couto talvez seja o escritor africano d a actua­ tórica. ­ plo .guês que d o inglês. como tal. . lidade que mais se aproxima da Europa: o O português que nos chega através desta "excesso" linguístico da sua obra leva a que ela experiência de escrita vem filtrado por uma se apresente como universo semiótico único. seja tão significa­ quer valorização da linguística africana. 1992. esta nova lite­ apresentados. . perde sentidos originais.o acesso aos mundos guístico.ltor ? a ? bra.� cínio e surpresa p ela facilidade de descodifica­ ção uma vez estabelecida uma primeira rela­ ção comunicativa com os textos. ratura ganha e perde em ser divulgada: ganha Neste quadro de reflexão não poderíamos. próprio que com a africanidade linguística do de natureza memorial. dada por equivalência ética. . ':4 noite toda se vai go que gera simultaneamente estranheza. o que em nada retira um efeito de sedução sobre leitores que vêem autenticidade ao que escreve.trata-se de um processo de transferên­ cia linguística que gera compromissos de natuv reza ética e que como tal responsabiliza as tauração de uma leitura africana tem afinida­ comunidades de leitura na construção de uma des com aquilo a que nos habituaram autores semiótica p artilhada em quase toda a sua de língua inglesa como Tutuola. 14) .em África este efeito mos. pelo que deduzimos que terá sido escrita pelo ' � autor em ambas as línguas. fas­ enluarando. Na verdade. Como diz Mia Couto. . segundo cre­ misso constante entre diversos sistemas lin­ guísticos em circulação . preferem-se significados de precedência cultu­ Mia Couto é a face visível de um impulso ral e de natureza mitológica a efeitos estilísticos fágico (logo e glotofágico) que se apoderou do retirados das línguas nacionais. pragmática que é a de outra língua. por exemplo: extensão. amplitude. naturalmente. vindo aliás legi­ legitimada a sua curiosidad e e ao mesmo timar a literatura da diáspora como uma lite­ temp o p acificada a vontade de leitura exótica ratura de valor fundamental em termos nomea­ de tal experiência de escrita. mais com a intenção de criar um estilo parece deter ainda um valor muito importante. a estrada escu ta a estó­ ria que desponta dos cadernos: 'Quero pôr os tempos . Pratinhada.. que o autor conseguiu formar um semiótica d a diferença. O entendi­ 19 traduções em línguas como o sueco. afastando­ intencional e detentor de fórmulas plenas de -se por isso mais notoriamente ainda de qual­ poeticidade e que. pelo que a tra­ Ocidente em relação a novos exotismos africa­ dução. Lisboa. No tivo p ara os públicos português e europeu.neste caso . Coto­ via): não nos é mencionado o tradl. Neste caso. As fo 'rrias de fn. o que exerce referência é o inglês. Desterritorializada do ponto de vista lin­ limita . estamos peran­ apresentados será visto como um sinal de p er­ te u m autor e uma obra em que a língua de tença provisória a tais mundos. '" (in Terra sonâmbula. e determinado pela seu discurso.

Praia. da Costa Andrade. tal costume "obreirista" fica por completo impedi­ do de tomar em linha de conta os movimentos da cultura ou da historiografia literária. Hipolito de Novembro de 1871 O. No mínimo. por maior que seja o esclarecimento da sua consciência. se despertaram. pológicas de Jorge Dias que sugerem o modelo teórico talvez apropriado à abertura de um per- .] A publicidade é o sllstentaculo da liberdade. Tem a vantagem do grande efeito panegírico.] Hoje institui-se a imprensai hoje. deixar de se entretecer com a lógica da causalidade transformadora. forçosamente. Para cada revista uma geração. [oo. por certo. [oo. o mais evidente. O. cada uma renascendo das cinzas do caos anterior. para cada geração uma etiqueta. a menos que fossem geridos por um qualquer determinismo transcendente. 12 Ass. sem o que os fenómenos seriam metáforas de bolas à deriva no mar dos acasos. A precocidade na eclosão da modernidade que animava o grupo d a revista. a revista Claridade constitui um acontecimento deveras significativo sob diversos aspectos. até hoje não conseguiram ainda decidir os animos a arrostar com essas difficuldades que a qllanto é util se antolham no começo. A ordem lógica temporal e social que rege as coisas que se sucedem umas às outras não pode. outro. sem problematização explicativa.Do Classicismo ao Realismo da C/aridade SURGIDA EM MINDELO (SÃO VICENTE). n'esta provincia. a idéia do estabelecimento da imprensa periodica. Tomar como causa remo­ ta do sucesso cultural e literário da Claridade a única vontade e saber de algumas figuras indivi­ duais. de recurso comum no contexto das várias literaturas africanas. alguma vez.. são atirados á luz da publicidade os exemplares do primeiro numero do jornali e é ainda hoje que a sociedade principia já a sentir a benefica influencia d'essa magnifica instituição. além de não dispor de grande poder explicativo. como se cada uma em sequência nada devesse à ordem dos antecedentes cultu­ rais. que a "Certeza se seguiu Dois grandiosos fins consubstanciados na nobre missão da imprensa. o engrandecimento moral dos povos. Não tem nada de esclarecedor reconhecer que a Claridade se seguiu a um "classicismo" dito pseudo-cabo-verdiano. o 'Suplemento Cultural' à Certeza e 'Seló' ao Suplemento Cultural". é uma forma de fulanização fácil. como que por imitação dos aedos de tradição africana quando condecora­ vam os seus heróis-mecenas com "poemas-divi­ 11 l b e r t o C a r va l h o sa" de pompa e circunstância. à Claridade. um o augmento material dos paizes. no contexto das res­ tantes literaturas em situação colonial é. Vem a propósito invocar as reflexões antro­ B. EM 1936. e assim sucessi­ vamente.

Cú . . d o HH«J Lor.:1I1 ujone dcmo(hulJJ (tloh!':! ---= =--� contemporaneidade literária ao mesmo tempo que.� �i� �� S ' o V. " " J" H . G . E a invocação do passado. atribuindo a ambas os princípios forma- . no plano social. Pic'Amonc p. que durante algum tempo colabora no imediata a competência efectiva dos indivíduos Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde. d . \ " "01 •. · C .am.1 860 manipula também ostensivamente a Escola fazendo dela um instrumento da ideologia e da curso seguro para esta questão que. H� .1 'nlábã mndedn nJ lrubC. define o lugar charneira Nhagucm! Qud hOllu'n grJn"dl <lU'fi p6d� de arto c l e t r a s -=_ --=--_ tem de entrar como ingrediente estrutural na valorização do presente.Jo ' � !n pUp:l ' n f a labcmal -r Q' v l s t a onde o conflito "antigo Vs moderno" experimen­ t a o seu maior efeito demolidor. ao mesmo tempo. Cenário de importantes transformações sociais. os mestres Boletim Oficial que. 1 �ubld.. . Definindo os indivíduos Sobre o desenvolvimento da Instrução P ri­ "simultaneamente portadores e agentes de cultu­ ra'>!.1rál11 i! �im m. Fotografia de Laura Castro Caldas e Paulo Cintra. � l6 lantuna 4 2 rnotivos de"finaçorn que. Dll . os críticos da Claridade nos anos ses­ senta sustentaram premunições apocalípticas ral4. fica em condições dade do seu funcionamento entre 1 8 2 1 e 1 840. das mutações vem a ter assim por condição as Pelo bem documentado cabo-verdiano "Sempa­ circunstâncias do meio e do tempo. Se se aplicar a tese de lógica "continui­ (batuques da ilha de Sant'lago) dade-mutação" à cultura cabo-verdiana.. f'Jmodi bcdj{) 'O {á W \�nrjdu S'!rnencocdjo n.l lJnljJ bimdi b. Ál . por ocasião da instalação do obreiros da Claridade protagonizaram uma sin­ Prelo na ilha de Boavista..:: silllm. :••. ALAC. por atributo próprio.r�". . que S'!ll capup. lutista e de protecção e incremento sob o libe­ Por deficiência de conceptualização feno­ 21 excesso.".. .:�'��' . (ú linhJ ta Claridade vê-se transformada em baliza de ChClunlla bcmdj lJfllUn� mon. e ta 1 81 72 como data para a referência à primeira de observar as mutações que se orientam no esclarece que em 1 84 1 /42 já havia doze escolas sentido do progresso.m nobo raw. . Manuel Ferreira apon­ de que assegura a conservação da identidade escola laica. (nacional) e literatura.. I\OClnhr.l 'ora mand. .. mesmo que disso não possuam uma metropolitana. que. Linda-a-Velha. M mondudo na dixid.1 'Mf'idi Nhóf-D�s flIUIU nuho n�1]1 pC (.l.i romtM. deve preservar a solidariedade entre cultura cabo-verdiana em processo de formação. em diversas ilhas3. � [> . io ' ••\io . d . associam a Imprensa à gularidade prestigiante que se cumpriu à revelia Escola. do "antigo". não apearam do seu pedestal a obra realizada.. c r t .. 1986. lIP".tidlJ.l sln ren(: 1�'mrJdd.l IllJI:lI!l utulo dl-mJ..\ SCftnO n'c:l cudi. A quantificação e sucesso de precário funcionamento.s . Não é muito comum encontrar assim o tempo a cortar com uma tal ironia de dois gumes. mas em imediato benefício da nação pio. Imbo 'ntâbàdJ rrabrsSJdo 'o t. afinal.. . Di"""". no do Reprodução do primeiro número da revista Claridade na edição comemorativa do seu cinquentenário.IO 5..tillhJ otll . to}" V"Ü �4l"!'''

" < �":':':'. por princí­ política. a revis­ ClK. António Carreira fala da irregulari­ própria e.� carnlsim mJndJoc:J pe cd/11. « � . p o � C 1 • • i oi d . d J ):lIIlUOJ co guújJ. de abandono sob o regime abso­ consciência muito clara. Assim se compreende o triunfalismo auto­ menológica terão ocorrido dois felizes erros de elogiante dos artigos de opinião publicados no cálculo.das suas premunições mais optimistas e.. se encontram habili­ fica-se a saber que a instituição escolar e a sua tados para lerem e interpretarem os sinais do seu eficácia sofriam com as vicissitudes da política tempo.rq. No sentido d a carência. suscita toda a história da sociedade crioula desde meados do século XIX . b" V"dt.t:�{� � ..s Sml l1arnor�dn � slrn mA boca sim boodo . o período das décadas de 1 940.usll.\ copo 5im f:. o autor respeita o princípio da continuida­ mária nas ilhas crioulas.5!l 'nlá b. e por causa lhudo".

formando o sector esclarecido em 1 8489. Nas eleições de 1 845. As escolas de Instrução Pública entravam neste projecto governativo geral. com que os liberais se promo­ para deputado por Cabo Verde às Cortes o can­ viam. ofereciam "um dos mais salutares princí­ pios em que se baseiam. ao lição da escravatura e a exigência de um rápido mesmo tempo que criou as condições indispen­ incremento dos mecanismos que levassem à sua sáveis para a fundação de um liceu na Capital. assim diz o artigo primeiro da sua Carta. Júlio José cial-mercantil e monopolista. assim como do vínculo funcionamento em 7/ 1 / 1 861 . Dias celebrado por Baltasar Lopes no romance vivendo ambos à custa da exploração e da misé­ Chiquinho. . este comprometia-se num acto de soli­ se desenvolviam em Cabo Verde reproduziam de dariedade nacional cabo-verdiana com os seus muito perto a lógica da guerra civil que se havia opositores. a abo­ Principal até então sediada na ilha BravalO. entre cujos nomes figurava o Dr. com imediata entrada em víncias ultramarinas. legal de morgadi05. pela vontade de pelo Governo da P rovíncia foram impostas duas todos e pelo querer da burguesia esclarecida hábeis medidas de disciplina. O saber constituía-se na verdadeira con­ j ecto de formação de professores e do Ensino dição de progresso e estímulo para o desejo de num meio de fracos recursos. em terra. Fotografia de Rui Pereira. uma que impedia cabo-verdiana. felicidade. obrigando-se a cumprir. como aliás verificado no Reino. . um pouco depois. o programa do Partido Setembrista De um lado intervinha o sistema tradicional onde militavam os cabo-verdianos revolucioná­ bicéfalo das ilhas. Por outro daquele sistema tradicional. didato do partido Cartista. Do outro agia a camada bur­ O "exclusivismo provincialista" era pois o guesa empreendedora liberal e a inte l ectualida­ sentido implícito daquela Escola logo fundada de humanista. inimigo comum lado. ambos com rio vocacionado para o magistério e para a for­ a finalidade de minarem pela base os alicerces mação e reciclagem de professores. deverá ser sobre o qual se alicerçaria a consciência da vista como uma medida de optimização do pro­ nação. o Governo fixou-se definitivamente na Enquadram-se nesta estratégia duas medi­ Praia e arrastou consigo a deslocação da Escola das fundamentais decretadas pela Coroa. parceira sócio-cultural em ordem ao princípio do trabalho enquanto legítima.dores de liberdade. aberta ao ensino primário e secundá­ que se aliava à administração reinol. com cerca de um século de a ntecedência as bases de uma cultura local idênticas às da politica cultural que a UNESCO veio instiutir à escala planetária: "Chacun a le droit de lire'. te instituídas as Escolas que. encontravam-se definitivamen­ a retenção d e produtos agrícolas pelos agrários. entre absolutistas e liberais. e grande comer­ ta"8. gresso. a Igreja era uma instituição vocaciona­ dever naturaF. a anexação do Liceu da especulação pelo comércio egoísta6. segundo o Gover­ e outra que contrariava o açambarcamento e nador. saindo vencedor ção. o que presumia uma educação nova povoamento da ilhas. o progresso e a felicida­ de dos pOVOS"l l. ria da população. Depois. ilhas adjacentes e pro­ em Outubro de 1 860. Francisco da Paula Os conflitos políticos que entre 1 840 e 1 8 60 Bastos. Surpreendentemente cedo. na sua efectiva cabo-verdianização. progresso. D esde a origem do bem-estar. a um tempo feudal-latifun­ rios defensores do "exclusivismo provincialis­ dista e escravocrata. no mar e em terra. civil iza­ tores. 22 . cumpriu. o conluio entre o humanismo burguês liberal cabo-verdiano e a administração reinol forjou . extinção em todo o Reino. em 1 86612. com o objecti­ Praia e da Escola Principal pelo Seminário-Lyceu vo democrático-liberal de difundirem o saber fundado em São Nicolau. A Escola Principal da Brava é a da para colaborar na continuidade da política primeira expressão desta convergência de vec- escolar. Em complemento delas. como era pedido pelas que sabotava todas e quaisquer intenções de forças vivas e convinha à estabilidade e ao pro­ reformas. riqueza.

e resguardava-se das vicissitudes mais ou menos complicadas das políticas governativas. o desejo tem de ser ensinado sob a forma de uma fome espiritual. altamente quali­ ficado. E. e. com cerca de um século de antece­ dência as bases de uma cultura local idênticas às da política cultural que a UNESCO veio a insti­ tuir à escala planetária: "Chacul1 a le droit de !ire" assim diz o artigo primeiro da sua Carta. no pressuposto de que a formação intelectual cons­ tituía um objectivo particularmente urgente no desenvolvimento de uma consciência geral esclarecida. Embora dificultada pela realidade impossí­ vel de contornar da didáctica em português.emprestando igualmente os seus párocos todas as vezes que se registavam vacaturas de profes­ sores civis. ocu­ pando-se o segundo do papel que os livros ocu­ pam na educação das pessoasl3. A satisfação desta fome é um fenómeno de cultura que encontrou na Escola o mediador efi­ caz. era bastante eficaz o apoio que recebia do corpo docente bem qualificado. não sendo apenas "saber literário"14 aquele que oferecia o Seminá­ rio-Lyceu. Estamos porém em crer que apesar disso terá sido tão literário quanto devia. condições indispensáveis para promover o seu enraizamento na terra cabo-verdiana. logo. Em termos gerais. porque deste modo o Lyceu ficava protegido pelo orçamento da D io­ cese. cada vez mais entre­ gue a pessoal do país. indispensável à homogeneização . O conluio entre o humanismo burguês libe­ rai cabo -verdiano e a administração reinol for­ jou. como a necessidade é íntima da carência e esta é activada pelo desejo. sobretudo. em Cabo Verde tratou -se de pôr em acção os mecanismo da economia cultural que se regem pela seguinte dinâmica da problemática da leitura literária: as necessidades suscitam os meios de as satisfazer. Afirma Baltasar Lopes que cons­ tituía um "saber sólido". beneficiava da estabilidade fun c ional do quadro docente do Seminário. pois.

Só forçando o princípio lógico do acaso a meter-se onde não deve se poderá recusar a existência de uma relação directa entre a proliferação d e ins­ tituições culturais e o começo do lançamento de diplomados pelo Seminário-Lyc:eu no mercado de trabalho. Na nossa pesquisa esse número aumentou para cerca de vinte e quatro nesse mesmo período. vida marítima e militar15. Nas suas investigações neste domínio. pouco poderia ser pedido em ordem ao progresso ba­ seado n a reforma de estruturas e de mentalida­ des. pobre. Bem posicionada no torniquete das duas bases étnicas. ainda afectada pelo fantas­ ma do esclavagismo em fase de abolição. Ao preparar indivíduos laicos para a buro­ cracia. todavia elevando-se para quarenta e uma instituições de várias espécies num período que se alarga até à data de 1 907 18 . a burguesia média crioula encontrava na elite dos seus diplomados pelo Seminário-Lyceu. o saber fazer necessário à dialectização do desejo que deveria animar as instituições de cultura nacionais. Gabriel Mariano registou cerca de dezanove associa­ ' ções recreativas e culturais em todas as ilhas. agricultu­ ra. o Seminário-Lyceu ajudava a dar forma e substância a essa consci­ ência. todos. comércio. instrução primária.étnica do mosaico humano ainda pouco sólido no conjunto das ilhas. entre 1 853 e 1 89517. catalizadores na dinamização das insti- . fenómeno que começa a ocorrer logo na primeira metade da década de 1 870. Uns. forjando uma classe média de grande poder aglutinador. africana e europeia. sub-ocupada o u desocupada de todo. Como que por exclusão de partes. o foco dinâmico coincidia com o centramento crioulo protagonizado pela intelectualidade progressis­ ta16 que impulsionava o desenvolvimento e esta­ bilização da rede escolar. Convinha à minoria tradicio­ nal a conservação dos seus antigos privi l égios. E à maioria popular. professores e agentes do saber escolar e.

tuições de comunicação de cultura. Porém. das Agremiações Cul­ dades. verdadeira cons­ Segundo as directivas gerais. fazia dela o grupo em tudo próprias de uma sociedade moderna. o de costumes e. em cerimónias pomposas. terão ani­ No contexto bastante assimétrico como era o mado as mais diversas formas de vivência social. desenho e pintura. a questão é bastante mais complexa.Desde a origem do povoamento das ilhas. duzentos pedidos de livros por mês. tanto nobilita­ média social dos diferentes estratos ia buscar a sua vam o livro como criavam condições espirituais homogeneidade às ideias liberal-progressistas e à para uma eficaz assunção da leitura e da escrita ilustração. que segu­ oferece como espera. na ocorrência. própria do gabiinete de Leitura da Praia19. que reuniu cerca de mil e neutralizar a divergência de tradições particulares. de ocupações de lazer. atingindo a cota nos indispensáveis a uma futura aquisição do de cinquenta em 1880 entre as escolas régias e mais vasto e complexo saber científico sem o qual municipais. do vazio inicial das música. de intervenção crítica. Ora. o que. de avatares arcaicos que trânsito cultural fez-se entre a contenção aristo­ entravavam os esforços empreendidos para se sair Cl'ática do saber e a sua difusão democrática. registando cerca de Aliás. Cerca de 1870 funcionavam j á quarenta e uma axiologia e uma didáctica de valores huma­ três escolas em todas as ilhas2! . constituía um que a rede escolar fora incumbida de desenca­ ganho de inestimável importância. a sua nobilitação sócio-económica e cultural. parceira sócio·cultural legítima. para não regredir até devido quer aos conteúdos informativos e for­ ao analfabetismo técnico-intelectual. dos quais a enn'ando obrigatoriamente na dialéctica formado­ terça parte cabia à literatura. as das Irmandades. de passado his­ da Cidade Velha. disciplinas comerciais. as de ensino primário da Paró­ Ou. O taneamente clássica e romântica. Decorridos quatro séculos. hwnano-social de Cabo Verde daquele tempo. às quais é necessário ainda juntar as não poderia haver progresso económico e social. logo extinto em humanismo liberal novecentista europeu. etc . nal. ramente não poderiam ser as populações anóni­ estas nobres funções. e de ensino espe­ gerações depois formadas pelo Liceu do Mindelo. Estruturava dear.. do atraso sócio-económico em que a sociedade se Prémios em livros atribuídos aos alunos distin­ encontrava mergulhada. Fotografia de António Sacchetti. à intenção das Bibliotecas. como de facto veio a acontecer com as turais e do Batalhão Militar23. Em meados da década de mas da nação. mais esclarecido e documentado. pelo menos. ra do sujeito étnico cabo-verdiano. analfabetas e de consciência nacio­ 1870 a Biblioteca da Praia j á desempenhava nal ainda difusa. pertence agora à banalidade das teorias reconhece-se de facto ao livro aquilo que então da comunicação reconhecer que esta camada se p raticava nas ilhas crioulas. Sabe-se que. grado o seu longo atraso no tempo à luz do ritmo constitui a resposta óbvia à necessidade-desejo do calendário dos países do Norte. contemporâ­ ciência dinâmica dos valores de identidade nacio­ neas. de desenvolvimento de uma estética literária simul­ exercício do gosto. de religião. lavores femininos. a tgreja foi uma instituição vocacionada para colaborar na continuidade da política escolar. na sua efectiva cabo'verdianização. cializado em línguas. a consciência das suas possibili­ quia22. particulares. mais do que nas ) ivrarias. da UNESCO. duzentos livros desde a sua fundação até 1902 . que Alfredo Trony fora incum­ tórico e de destino e ansiedades futuras. sobretudo. Da preciosa Biblioteca dos tempos áureos 25 ilhas descobertas emergia uma nação dotada de comunidade de língua. é na B ib lioteca que o livro melhor se contexto de interlocutores ao seu nível. processo no . tinha uma mativos que veiculava quer à sua permanente imperativa urgência em fazer ouvir a sua voz no disponibilidade. A burguesia que fazia a tos. bido de inventariar em 1870. o de permuta de ideias. à moderna estes aspectos convergentes não bastavam para Bib lioteca da Praia. e mau proveito da Biblioteca e Museu Nacionais2o.

geográfica e etnicamente próximo. Ao saldá-lo. mesmo que exibindo o seu domínio da oficina incrustada na difícil arte clássica. é necessário pagar a uma qualquer tutela. mau grado as enormes dificuldades do meio e a ausência de tradições escritas anteriores. era-lhes possível ocupa­ rem por um espaço próprio na época moderna­ -romântica. meio século depois. Sirva de exemplo o caso. Por um lado. os poetas cabo-verdianos anteciparam-se a todos os seus congéneres do espaço continental africano.1930 passou por esta mesma fase. de início. não podendo por isso dispensar o uso de formas de empréstimo e de adopção oriundas de outros meios. e já prestigiadas pelo tempo. laudatória. estes intelectuais assegu­ ravam a comunicação com interlocutores já cre­ denciados. grandiloquente. da escrita romanesca senegalesa que apenas cerca das décadas de 1 920. retri- . congratulatória. celebrativa. Os cabo-verdianos revelavam-se ser bastante hábeis.'ío tributos estru­ turais que. em finais do século XIX.. Ao afirmarem-se hábeis nas técnicas dominadas pelo "Outro". A História das Culturas parece fazer-nos crer que estes endereços ao "Outro" s. Como nos ensinam as filosofias sobre a constituição do "Sujeito". jubilatória.qual o Novo All77anach de Lembranças Luso-Brasi­ leiro24 ocupou um lugar de capital importância. nun1 tempo em que saber apenas ler e escrever constituía já um privi­ légio sem preço. nos alvores da sua afirmação individual esta entidade encontra-se sempre condicionada por uma grande precarida­ de de meios. Por outro lado. os intelectuais cabo-verdianos podiam ostentar a sua condição de sujeitos históricos detentores de um saber altamente performativo. assim credenciados era seguro o cami­ nho para granjearem o respeito de artistas da pala­ vra. Assim aconteceu em Cabo Verde com benefícios óbvios. Que a temática dos poetas novecentistas tenha sido convencional. Através desta publicação lisboeta dirigida a leito­ res de português em todas as partes do mundo. na área de influência fran­ cesa.

em Uma vez que a individualidade e autenticida­ 1 890 e em 1932. como era próprio da filo­ finais do século XIX. nem seria viável o surgi­ éticas. Tomé. tura) . e que esta chegava ao fim do seu papel período de tirocínio poético dos novos intelectu­ histórico de única liderança possível. mas condi­ tempo contra a mão forte do processo colonia­ cionado por uma existência onde a média social lista. estéticas e sociais.Da preciosa Biblioteca dos tempos áureos da Cidade Velha à moderna Biblioteca da Praia. . Terão sido então os intelectuais formados no horizonte da Nação-Estado a haver urgente­ na Escola humanista e clássica patrocinada pela mente. além da publi­ algumas das componentes das duas p rimeiras cada no Bol etim Oficial [" . fora sendo forjada. em 1 9 1 7 . por volta da década de 1920. criou as condições para o surgimento do Liceu Um diagrama estatístico da poesia publicada de Mindelo. Sé da Cidade Velha Fotografia de António Sacchetti. as greves e três poetas autores de cento e setenta poemas do porto de Mindelo em decadência acelerada. que de vida se encontrava em limiares muito baixos. . mais acima referidos a propósito da formação do Negando-o. res. Ela responde. todas ajustadas à filoso­ mento de jornais sem o horizonte de espera de um fia e ao tempo da classe que a produziu. ou ao seu simples aparecer como vocação esti­ mindelenses que se identificam com o grupo da mulada pelo prestígio que os intelectuais sabiam Claridade apareciam. toda décadas do século XX que afinam a consciência ela exercida como enraizamento da comunicação nova da nação-povo. depois travada cerca de 1 930. emprestar à instituição literária. a emigração eufórica para a impressionantes números de cerca de cinquenta América. Registando dois picos de produção máxima. e dos demais predecessores. assim esta. E o segundo como voz orgânica da nova unidade-povo que. da de 1950 tendia para o patriotismo nacionalista. Tanto público escolarizado preparado antes como leitor quanto a poesia escrita a partir de finais da déca­ motivado. após a viragem da política europeia sobre a África. abrange o período republicano durante o qual foi entretanto. são juntar a produção editada em livTO. O primeiro corresponderá ao sia liberal. simulta­ veria incumbida de superar os seus antecesso­ neamente poético-idealista e humano-social. Não poderia haver nacionalistas defensores no mínimo para saber criticar e ser capaz de o . Do que se conhece sobre a Imprensa com os Neste contexto. a crítica juvenil de Quirino seus cerca de vinte e nove títulos entre 1871 e 1 936. enfim. o trânsito cultural fez-se entre a contenção aristocrática do saber e a sua difusão democrática. a publicados no Novo Almanach [.} mostra intelectualidade científica e positivista que se bem a dualidade deste individualismo. visava um sentido patriótico-nacional configurado no Coroa e pela Igreja que viriam a assumir. Spencer Salomão destinada a negar o valor de particularmente concentrados entre 1 9 1 1 e Pedro Cardoson. 27 dos interesses de Cabo Verde sem uma anterior que se compreende muito bem. 1 9 1426. A mesma escola de intelectuais. os patan1ares de baixa produção de da nação já havia sido cumprida pela burgue­ são de fácil leitura. Aos mática para S. responsável p e l a nova no Novo Al117anach de Lembranças [. igualmente pedagógica. do com a diáspora americana. . A emigração dra­ bastante intensa a actividade jornalística.! cerca de 185025. em conceito de indivíduo. de peso político e económi­ escrita numa comunidade que mal emergia do co crescente devido ao endinheiramento alcança­ analfabetismo. afirma nesse gesto a própria dívida gosto pela leitura Ce pela escrita que deriva da lei­ da formação que recebeu dos seus antecessores. os liceais ais. a reacção nacionalista desse sofia burguesa liberal novecentista. butiva ou gratificante./ deve-se ainda circulação de ideias no período republicano. destacam-se os elementares princípios entra na conhecida simbólica da "morte do pai". a exigências lectual que os criasse.. é um dado de orientação situação de liberdade política e de exercício inte­ como a poesia de qualquer período.

na década de 1 930. A demora em percorrer este percurso de sobera­ nia. entre os anos trinta do seu surgimento e os anos setenta da independência nacional. mediante uma ética que reelabo­ rou o conceito de artista da palavra. A passagem do classicismo -romantismo da burguesia humanista liberal do século XIX para o realismo sensível às realidades do quotidiano povo. . por voca­ ção. o que con­ vinha à população que dela fosse dito no seu percurso para se realizar como nação-Estado. no sentido de uma cada vez maior abrangência e representati­ vidade da consciência geral da nação. No retrospectivo. consiste então no des­ locamento da identidade e "autenticidade" da nação d o nível onde a sua realização fora possí­ vel. se não distanciam das realidades concretas onde o povo se move. e por ter sabido reorientar a sua mensagem literária. de acordo aliás com a sua formação no domí­ nio das ciências contemporâneas que. num tempo outro. por ter sabido continuar a fazer uso da tradição da liberdade. não represen­ tando já um pólo de atracção interessante para a intelectualidade juvenil emergente. vem a ser assim um dos significantes da permanência do espírito de realismo vivo que foi enformando e readaptando a revista a sucessivas gerações de colaboradores. No sentido prospectivo. ludibriando a cen­ sura do Estado Novo ao fazer passar a mensagem política sob uma codificação que escapava aos olhos d o censor2B.fazer. esta tinha bons motivos para não se afastar da esfera popu­ lar. O sucesso e a actualidade do movimento Claridade resulta assim da justeza desta aproximação numa per­ formance que dialoga em dois sentidos. a Claridade foi capaz de dizer. num certo tempo. para aquele em que agora era correcto. endereçando-a já não ao tal interlocutor "Outro" mas tão só a leitores de literatura sem mais referências. Com o poder reinol entretanto desacredi­ tado pela sua obsessão colonial.

.j. Hesta apenas que se resolva o paradoxo estru­ tural de toda a literatura realista. p. 7/6/ 1845. L e i d e 19 d e Maio de1863.. 2 �'Ianllel Ferreira. 22/ 1 2 / 1860. Uma dentemente das tónicas em que tenha insistido. 467.. 1 11° 196. a queln sua exa. p. 17 . literatura seguramente sobre o tempo de passado. 27/ 1 211845. nO 83. é no futuro que se situa o possível. 7 "os lia lidos para o trabal 110 serão sallJos sempre que se 1I1es ministre esse por uma epifania popular de participação activa fraunlllO. o Praia. Brava. P. a Claridade e os realismos subsequentes deverão esperar ainda trabalho pago. entenda-se!"JO e. é o possível de antes que do "Ofício nO 89" dirigido pela Câmara Municipal se espera concretizar-se como real.c. . cf. n° 1 17. "O que se entende por Antropologia Cultural". Uma questào é a extinção do vínculo legal d o morgadio. n° 102. 5/ 1 / 1 855. A. Praia. e às distancias r/e cada lima dellns. cf. que era filha da imaginação artística. contra todas as expectativas. Boletim tia que a realidade podia ser mais rica do que a lite­ Oficial 1. O mérito dos de Santa Catarina ao Governador Geral. p. Verde desde a Claridade até ao presente. São Vicente.. apesar de sua exa. a obra literária era mais importante do que menta ficava-se pela realidade dada. Arrobas que põe a funcionar um sistema que consiste em vender as dádivas estrangeiras e.). para o presente. n" 44. e não teem direito a ser socorridos porollfro modo. Fundação da Escola Prin­ ratura.que consiste num somatório de derrotas -. 1973. no caso de Cabo era mais filosófica. . d. 6 A primeira. Boletilll Oficial /. in Raízes.. que [ . n° 195. 404. Praia. . 28/4 / 1 S49. Boletilll Oficial /. em toda a sua história . pois todos dellem ii sociedade o triullfo do trnualllO que Illes impoz a lei natural ". no já lon­ autores da Claridade foi tê-lo intuído. ] ''29. com o dinheiro amealhado. p.j ln Boletim Oficial do GOl/erllo GemI de Cabo l/erde. indepen­ Ora. por acaso lê.. 3 1 5 . e outra é o nlOdo como as grandes propriedades se mantiveram indivi­ sas. 1 3 / 1 2/ 1845. Praia. povo e à intenção do povo. Brava. não sabem ler nem escreuel. Boletilll Oficial /. Praia. 445. obra por obra. Que o outro agradeci­ mento que em 15 de Fevereiro se dirigiu. 1959. Lisboa. . O docu­ Cf.. p. ] não ir/em (destaque nosso. Boletilll Oficial {. Brava. p. Brava. 880.Quiosque na praça do Mindelo. tendo atfenção ao nUllwro de Ilnbirall les. cipal da Brava na sequência daquele processo: 1 de Outubro d e 1848. 3 António Carreira. Decreto que reforma a Instrução Púb 1 ica. Junll984. 476. vez que o futuro do passado acaba sempre por se Sirva de exemplo-parábola o seguinte fragmento cumprir como presente. A AlJCllfllm Crioula. d. idem./. I Jorge Dias. devida ao Governador Brigadeiro Fortunato José Barrei­ ros e a segunda ao Governador Conselheiro António l

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l aria Barreiros outras ainda. Lisboa. 26/10/ 1844. Aristóteles admi­ Verde. que não caberá neste tempo. 408.1 nO 1 19 . Cf. p. !iU ! . Praia. n° 3. cf. 238. em nome do povo que ella representa. ter-lhes estabeLecido escolas d'instrução primária em todas as freguezias. p. p. "As Ilhas de Cabo Verde há cem anos". n° 1 12 . /. Boletim Oficial /. Instituto Superior de Estudos Ultramari· 110S. . que a Câmara deve faliar em nome d'ellas [ . Fotografia de António Sacchetti. toda as Ilhas. cf. 25/ 10/ 1 845. Boletim Oficial [. p. in Estudos V/lra/nnrinos. 391. Mas reconhecia igualmente que. era por assim dizer dos ricos e grandes proprietári­ os do Concelho. com o seu gínquo dia 23 de Março de 1 857: lado de realismo objectivo que os enraizou no seu . a sua exa. e com o seu lado de realismo subjectivo que os projectou para o futuro.. como no caso acima. poucas. Boletilll Oficial /. SI: Conselheiro Governador Geral. . p. E aí talvez se venha a colocar a questão da "literatura. ao fun­ dar o Lycell Nacional da Provincia de Cabo \ferde. datado de 14 de Agosto de 1 845. 10 I! cf. 805. /./. 5 pp. abrir frentes de Nesta perspectiva de recepção. dá cumprimento à decisão do seu . .. 14 /6 /1845: "6° Quese estabeleçam escllolas d'ensino primaria em conseguiu. no entanto. Praia. Healismo(s). 1864. . 13/8/ 1856. 70 Que se criem estauelecimentos d'instrução secundária e média para os mancebos da ProlJÍncia. mas de um povo que. n ° 79. Governador Geral interino Januário Correia de Almeida que. outras vezes sabe e não lê por desmotivação. 9 Notícia da entrega do Relatório com as Bases do Ensino e m Cabo a concluir por onde começámos. Boa·Vista. A resposta a este paradoxo aparente leva-nos a obra documental realista fiel aos factos. Plátano Editora. alcançar uma única vitória de peso . que os pobres. . . . }. n° 167. mais apta para representar o possível.uma vitória momentânea. e IIIJl Seminario Diocesano para a educação ec/esiastica dos que se destinam ao serlJiço da Igreja". . Nome· açào do Conselho Inspector para aplicação do diploma. Boletilll Oficial /. p. n" 1 0 1 . ela suscita tanto medo ao Poder. portanto. . mais universal e. 27. enquanto a 29 literatura. umas vezes não sabe ler. /. pres­ tou ualiosos serviços. . O SI : Cosme disse que entendia que a Cama­ ra devia dirigir um voto d'agradecimento ao exmo... 245-246.

1880 . 1902 . Praia. 1 8 7 1 - idem. Em vinte e três números do 8. 1 8 6 1 . P. 5. Nicolau./. .O Espectro. 1893 - \lerde. 1 93 1 .I Bal!asar Lopes. 1871 . 2 1 3 . Presidente. publicado entre 1 8 5 1 e 1932 e dirigido a toelos os 25 As primeiras manifestações literárias no Boletim Oficial [. 2 em S.E. "Varia Quaedam". 3 no Fogo. p. s. Dr. . pp. Cf. sendo "expressamente prohibida toda a dis­ 29 Assinado. Sociedade de natureza literária. 28. 1907 . Bravo. 420.Caixa Económica dos Empregndos do Estado. 1902 . LVII -LVIII. criou".. S. 6.1 1 e Manuel Ferreira. n" 106. testemunho de Baltasar Lopes "Depoimento". pp. todas as outras instituições enumeradas jamais surge qualquer refe­ rência a questões de natureza étnica).Ir/nandarfe do S. 23/ 3 / 1 850.A.Dissolução do Gabinete de Leiwra. ] surgem Alves Feijó. 28-29. cr. 1 9 1 2 . in Cader­ lias da Colóquio/ Letras .O Mandllco. 1871 . Bole­ J1l0tOl� 1867 .O Popular. /. n" 12. MlIseli Nacionais. gem do tHondego ou As Duns \/ítimas. idem . a escola do Bata· 24 Editado em Lisboa. n° 4.Boletilll Oficial do Governo Gemi de Cabo \lerde. para instruçâo do público. 1 4 .5. Fotografia de António Sacchetti.1 Teoria da Literatura e da Crítica. dade do Fogo.\lasco da Gama (nO único). Nico/au. UNESCO. nidnde da Soco Instrlltiua-Recreativa de S. 1959.0. Boletilll Oficial [. 3 / 1 1 / 1 666. Maria Pia./. ]. i n Claridade.\lerdiano. 1 9 1 3 . Jacinto Valente. Brava. 1888 . 15 16 17 lO Evaristo de Almeida. S./. . 1913 - beiros Vollllltdrios de !

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lindelo. 22 Da Paróquia apenas em S. in cussrio. das Dores do Sal. / n0 46. ... 1895 . Cabo Verde.\lerdiallos. till/ Oficial [. "Literatura e Política. . Tipografia Miner­ va. Praia.0 II/dependeI/te.Asso­ ainda o longo poema Bemardi11l Ribeiro . sobre a anexação da Escola Principal pelo Seminário-Lyceu. 1 B72 . 20 n" lO S .1 1 9 (er. Boletim Oficial {. 1884 . 27 Pedro Cardoso. 1080 . Seminário-Lyceu em 3 de Setembro de 1866 pelo Bispo D. in Claridade. 1 9 2 1 .Boletim dos Falcões ros dos Bombeiros da Praia. fundada em 1 755 pelo Bispo D. 1074 . 1006 .Cabo dade de S. 1889 .Irmandade de N. 1 8 1 . Praia. cf. e Robert Escarpit. 1934.. n" 5 1 . Boletilll Oficial /. 40. 1884 . 1075 . Linda-a-Velha. 1 9 1 2 . 3 . Vicellle. 24-25. p. 1 9 1 8 . cf. do Crucifi. 1073 . 1 87 1 . 1898 . 22. jornal cujo nome ainda não foi possível determinar. p.II Opil/ião. Sonetos e Redondilllas.ro da Ribeira Gml/de de Sto. 185. 1867 . p. . 12 de novembro de 1871. Brava. 1 0 8 1 .V. S. dn Luz de S. 7. Vicente. 1'. Praia. 4. o bravense Sérvulo de Paula Medina e Vasconcelos. 2.]. 24 1 . no Praia. p. 1986. Luís Medina) publicou em quatro números do Boletim Oficial de 1847 Idem. de Jesus da Praia.Sociedade Philarmonica jliventude. 1 920 . . 230. 5 1 7 / 1 545.Biblioteca de Sto. 47-48. pp. Lisboa. promotora de leituras Uterárias e científicas "consagradas a assul1lptos de instrução". 5 . cf.0 Pro­ N.Gabinete Após este período fecundo só excepcionalmente irão surgir dois poe­ de Leitura do Sal. religião. . 1897 - A Defesa (S. sob o signo do comprometimento político. O museu nunca conseguiu alcançar grande relevo por dificuldade em Fund. . 26 Cf.\lerdial/o.Clliu Fratemi­ pio) da Costa Andrade.O Cabo. 2 na Brava e 2 no Sal.Cabo Praia. 30 . Bo/etim Oficial Gabriel Mariano. 1 6 / 2 / 1850. do Rosário dn freguesia de N..]. n° 13. 1 8 / 5 / 1857.Extinção da .FII/llro de Cabo \lerde. 1 0 5. Praia.Associação e Corporação dos B01/1- gresso. 24.. "Prefácio".A Seiva. . tudo de sua autoria. 1886 .Associação de Socor­ Verde. 44. 1895-1899 - Pmellse. Ca10uste Gulbenkian. pp.Biblioteca PI/blica de S. o longo poema·'·coIllO" igualdade. revista de artes e letras. pp.Grémio Literdrio. 25. 1907 .Ressurgilllellto. SetIl976).Decorridos quatro séculos. 25-49..Notfcias de Cnuo Verde. 52.Grémio Agríco/a do Cll/b Recrentiuo. 7 cm S. 1955 . tendo ficado vo.88. e envolvem um louvor ao Governador cessante Francisco da Paula Bastos feito pelo reinai José lun l l984. Colóquio/ Letms obter dádivas de peças. 1 1 .Grémio Pro­ incompleto. in Ponto & Vírgllla. Praia. Sacmmento de N. 1867 . 9 . AI/tiio. interessada em formar lima biblioteca e em ministrar curso de diversas disciplinas xeira. te. 23. 9 em Santo Antão. p. pp. 15. i n Colóqllios Cabo.Revista de Cabo \lerde. 1914 .Tuna de Cabo \lerde. sob a forma de dois longos poemas.C.O Eco de Cabo Cooperativa dos FlI1lcio11lirios Públicos. Lisboa. cf. 25/5/ 1 850. idem. 5 na Boa· Vista. 1922 . 1863 . 1 3 . Em poesia publicou o longo pocma Ao Totinegro. Junta de Investigações funcionário Público c Redactor do Boletim Oficial (irmão do poeta do Ultramar. Paris. . . 1865 . 1887 . 43. Francisco Frederico Hopffer. 19. publicou Irmandade do 5. 1936 . 392. Boletim Oficial [.. de passado histórico e de destino e a nsiedades fututas. 221 1 2 1 1 �100. n° 9.Biblioteca e \liolal/te. 30 Walter Jens.Gré­ p . "Hoje. Nicolau. 187 e 1 9 1 ) a novela româtico-convencional A Bella Vir­ 1 85? _ Sociedade Espemnça. \licel/­ 19 1 1 escolas em Santiago. Nicolau. 424. .S. 1900 . SncramellfO da freguesia de \lerde. n" 35.fuvel1ll/de. p. 85. tb. 1 074 . que diga respeito a qllalqller partido político" (nesta como em Boletim Oficial do Governo Gera/ de Cavo Verde n° 7. lHaria Pia de SaLJoia. "Do Ftmco ao Sobrado ou o mundo que o mulato 12/7/ 1 845. lillfão na Vila D. 1876 . idem. 1889 . José Luís 23 Tendo começado por ser dirigida apenas a soldados. Hipólito O. Boletilll Oficial [. 1973.Cll/b UI/iiio. 1 9 1 1 \loz de Cabo \lerde. S.Thentro Africa­ 42. Boletilll Oficial [. 1907 .Associação Comercinf Cabo-verdial1a. J. n" 22. 12 Segundo o disposto no artigo 21° da Lei de 12 de Agosto de 1856 que manda inst3urar Seminários nas Dioceses Ultramarinas. Vicel/te.Associação tim Oficial {.Sociedade 1115· incompleto. 1902 -A Liberdade.. 1 884 . n" trlltivo.lrman­ dade de N.d. 1074 . 1 880 - mio de Instrução e Recreio da Brava. (n° 184..Grémio Cabo­ mas no Boletim Oficial. S. 1924 Extinção da Fi/annónica Artfstica lHilule/el1se. XlII-À'Y.Sociedade Recreativa Fraterni­ A Defesa. . Editora i\.Sociedade EI/terpe. p. 1 / 6/ 1850. Sacramento de N.C011fO Histórico. 2 I. (01)'111- 1881 . 1 8B8 . 1 863 . p. Brava. 1 8110 . n" 44.Recreatilln de S. cf. 143-144. S. 2 no �'Iaio.Sociedade Recreatilln. lO 1842 . S. Nicolali.Reforll/a da Irmandade do S.Associação dos Artistas da A llIlprel/sa. são atirados à luz da publicidade os exemplares do primeiro mime­ ro do jornal [ .Irmalldnde do S. 1 9 1 3 . Brava.possibilidade e limites". . 1903 - A/mallaell Lliso-Africano do Cónego António Manuel da Costa Tei· rvludança de nome do Grémio Literário para Grémio Unillerso. S. Frei Pedro de 1850 (n" 1 .JHocidnde Cauoverdialla. 18/ 1 1 / 187 I . fundação do conjunto das quais 9 eram de meninas. 2 1 / 51 1 859. Bole­ Ihão Militar veio a ser aberta a civis. atribuí­ ciação Comercial da Província de Cabo Verde. 18B3 . lO. ef.2 1 4 . La faim de /ire. Nicolau). e outros. p. pp. 1933 . dn Gmça r!n Praia. 3 1 / 8/ 1867. n" 33. . pp. Praia. ] nU 7. 4 4 e 45) publicou o romance Um Fi/1l0 Chorado que ficou /lO. do vazio inicial das ilhas descobertas emetgia uma nação dotada de comunidade de língua. 1923 .O Mil/delel/se. pp.O Trabalho. p. Sacramento de S. l3arker. 1905Grém io JHi/lenm da Braua. 1936 . n° 48. antecessor Sebastião Lopes d e Calheiros e lvlenezes.CIlIv LlIso-Britanico. 30/3/ 1850. 1. 1933 . Praia. 1893 . 1 933 - 50cieâade Recreativa Praellse. 1936 .A \lerdade. 13 Ronald E .L. cf. 1 9 0 0 . 22/ 1 / 1 870.Gabinete de Leitura da Praia.Filarmónica Artística kli/lde/ellse. 4 1 .Thentro D. [.Cluu Recreati­ do a António Cezar de Vasconcellos Corrêa Júnior. Cidade Velha.Bombeiros Vollmtários Pmcnses. lvJai ­ espaços onde se falava a língua portuguesa. 21 Praia.. 1904 . 1870 .Bibliotecn Sociedade Fmter­ idelll. Pelourinho.Claridade.

traduzida na derroga­ ção de códigos dominantes.Trajectos e sentidos da ficcão portuguesa contemporânea I A EVOLUÇÃO DE U M A L I T ERATURA NÃO se processa necessariamente de forma harmo­ niosa ou equilibrada. de um modo geral. motivação para a transformação da cena literária e para a renovação dos seus agentes. sem levarmos em conta o efeito dinâmico que o pro- . o fluxo das transformações estéticas desencadeia uma atitude de inovação. que condicionam muta­ ções evolutivas que de outro modo seriam inconsequentes. é a ruptura. o movimento da Presença. No plano da teoria da história literária. a publicação dos Cadernos de Poesia. deter­ mina a evolução literária: primeiro que tudo.conhe­ ceu episódios que consabidamente constituí­ ram factores de ruptura e.. por fim. A literatura p ortuguesa deste século aquele sobre que este texto se debruça . Quando olhamos certas zonas significativas da ficção portuguesa contemporânea. O movimento de Orpheu. ocor­ re um estádio de saturação. como tal. por vezes mesmo a confrontação. É então que estão criadas as condições para que se empreenda um novo cicIo de transformações ' . a tardia activação do Surrealismo ou o movimento da poesia experimental são alguns (não todos) desses episódios. depois dela. marcado pela redun­ Ca rlos R e l s dância e. o movimen­ to neo-realista. dialéctica que. consequentemente. Pelo contrário: em vez de harmonia ou equilíbrio. em grande parte assegurada pela acção conjugada de diferentes mecanismos de ordem institucional (da crítica literária à atribuição de prémios) . é mesmo possível ponderar três grandes etapas em que se resolve a dialéctica entre convenção e ino­ vação. desprovido da capacidade de suscitar efeitos de surpresa. é difícil formularmos apreciações de conjunto. sobre­ vém um tempo de estabilização.

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que é Nome de Guerra (publicado em 1 938. e o Jogo últimos anos. não é forçado A produção literária de Aquilino Ribeiro e de reconhecer que Mau Tempo no Canal. E contudo. em tempo de prolífica irrupção da inevitavelmente datados. j ustamente pelo faz-se. percurso iniciático vezes em editoras de grande prestígio. sário reconhecermos que.é uma imagem progres­ xa revelada por uma breve mas intensa produ­ sivamente desvanecida. de uma personagem provinciana. hoje. no quadro dessa fic­ afectado nas suas opções estéticas por alguma ção. Também por esse motivo. etc. parece debilitada. configurado mos o seguinte: a geração de Pessoa não teve. no que toca à problematização literária mentos que lhes incutam um sentido de legiti­ dos temas. pela forma como opera a sonda­ literária de Vitorino Nemésio . de resto já então consideravelmente desgastada.objecto. certos autores e obras arriscam-se a juízos carga epigonal). mas do em 1 944. por romance de aprendizagem. em parte pela atmosfera. nos gem da vida psicológica d a personagem. nos ção poética. também à retórica narrativa presencista.que em vida desfrutou redacção anterior) define-se como exemplo de enorme aceitação e notoriedade públicas. mesmo Ferreira de Castro (e também a de D omingos sendo uma pedra aparentemente perdida no Monteiro. recuemos um pouco para notar­ desde os anos 30. nho. à margem desses movi­ representadas.certamente com excepção de Aqui­ Lúcio ( 1 9 14) e as novelas de Céu em fogo ( 1 9 15) lino Ribeiro. de intensa revalorização. E isto apesar de. valores e situações humanas que são maçào literária que. um modo de representação literária histórico e dialéctico.) decorre à margem dos quadros ideoló­ gicos que hão-de marcar uma parte da narrativa portuguesa do nosso século. Castro Sorome­ caminho. que parece agora beneficiar de reno­ confirmam a personalidade torturada e comple­ vada atenção crítica2 . da incursão presencis­ ficção (e também da poesia) neo-realista. costumes narrativa e. é neces­ Com o grupo da Presença (como se sabe. constitui um marco incontornável. imersa nos 33 lógicos são os do Neo-Realismo. na cenários nocturnos e boémios da capital. tão insistente como o foi a poesia. se bem que não ortodoxo. mas de o de Perreira de Castro . Esses quadros ideo­ Dito isto. inegável capacidade e cenários açorianos que privilegiava.cesso evolutivo suscita. se incluir um nome . desse modo. A Confissão de escritores . um género paralelo ao discurso facto de surgirem desenquadrados de movi­ poético. Ainda assim. do chamado incluindo -se nelas inúmeras traduções. o cenário altera-se: o romance de precária fundamentação. cuja com­ como equaciona a unidade de um sujeito den­ ponente ficcional é reconhecidamente domina­ samente afectado por preocupações ético­ da pelo romance Mau Tempo no Canal. Em p aralelo com a produção literária daqueles escritores (e por vezes revelando com . o romance casos mencionados. O romance Elói ( 1 929) de João mentos. pela forma sua produção poética diz respeito -. olhando para trás. Já as obras de Branqui­ Tempo no Canal terá sido prej udicado por se nho da Fonseca (sobretudo a novela O Barão. Mau ta pela ficção narrativa. ao mesmo 1 942) evidenciam uma mais segura estruturação tempo que. Um exemplo: a obra Gaspar Simões. Por outro lado. Joaquim Paço d'Arcos. são testemunhos interessantes. e em Almada Negreiros. de colocar à margem dessa irrupção. a imagem que hoje temos da maioria daqueles no caso de Mário de Sá-Carneiro. P ublica­ -morais. no que à da Cabra Cega ( 1 934) de José Régio. escapava para superar limitações de escola. curioso. então. sob o signo do materialismo narrativa.

Paisagem e Povo­ narrativa maioritariamente privilegiada pelos amento ( 1 978) . com escritor. traz de representação. neo-realista foi mais aparente do que efectiva.eles algumas afinidades estratégicas).como Fernando Namora ou Vergílio Ferrei­ plos discursos ideológicos. mas também de contos. Oliveira.) revelava-se recorrência de temas cristalizados na memória. uma solução sintonizada com as fortes motiva­ ções ideológicas do movimento. um tempo atravessado pela regular pre­ da Fonseca) dos propósitos fundadores do sença de outros ficcionistas. autor não apenas do já comentado -Realismo: nela participa o próprio Carlos de Mau Tempo no Canal. José Régio. é. sim. De forma muito significativa. acontece assim também cas do Neo -Realismo. o viragem do Neo-Realismo. poeta. de quem j á aqui se falou. Vitorino caminhos que conduzem à posteridade d o Neo­ Nemésio. a produção literária neo. com Finisterra . etc. Manuel da de um denso tecido narrativo. em 1953. nalguns casos pro­ movimento.realista gues. depois de mais de vinte anos de "silên- novelas e crónicas (como as incluídas no volu- 34 . Urbano Tavares Rodri­ co. o romance Uma Abelha na é ainda o de notáveis romances publicados nos Chuva concretiza uma prática narrativa qualita­ anos 50: A Casa Grande de Romarigães ( 1 957) e tivamente distanciada dos primeiros romances Quando os lobos uivam ( 1 959) . litismo ideológico neo-realista. Fernanda Botelho e lução do Neo-Realismo e contribui para a gra­ Maria Judite de Carvalho. Período literário dos mais marcados ideolo­ Nos anos que. Assim se abrem à ficção portuguesa os temas e situações de incidência social. Carlos de Oliveira. um pouco mais tarde Augusto Abelaira - procurou circunscrever-se dentro de limites não é propriamente uma ruptura. texto em que as categorias tradi­ escritores neo-realistas (Alves Redol. a opção cio ficcional". habilmente articulada. se seguem à gicamente da História literária portuguesa.J. por outro lado. uma programáticos bem nítidos. na gente trabalho de escrita (e de reescrita) do série romanesca A Velha Casa ( 1 945-66). depuradas em sucessivas ree­ da segunda vaga modernista uma preocupação dições. De facto. Cardoso Pires. a produção ra -. vem sugerir vindos de uma época anterior até ao Neo-Rea­ que a consistência ideológica do movimento lismo: Aquilino Ribeiro. abertos a leituras de teor existencialista. na década de 50. neo-realistas: sobrevêm então subtis estratégias ficcionista e também importante ensaísta. e com a revelação de D avid Mourão-Ferreira literária de Carlos de Oliveira acompanha a evo­ (também poeta e ensaísta) . certa medida divergiam (a par de Mário Dionísio Mas os anos 50 são ainda. é necessário lem­ e João José Cochofel. O que. atravessado pela Fonseca. É insiste na representação do universo rústico que assim que. Soeiro cionais da narrativa se dissolvem. povoados como Ocorria isto em consonância com a evolução de se encontram por linguagens que nos impreg­ romancistas inicialmente ligados ao movimento nam (o termo é de Abraham Moles) com múlti­ . e se hoje vemos este espécie de alargamento das referências temáti­ facto como excessivo. em benefício Pereira Gomes. de acordo com o que foi sempre o exi­ de índole psicológica. confirmados como fic­ duai afirmação de processos literários que em cionistas sobretudo na década seguinte. o que é sugerido Neo-Realismo permite-nos observar as limita­ pelas primeiras obras de escritores em afirma­ ções desse que foi o seu inegável vigor ideológi­ ção . mas também de Manuel brá-lo. j á que a reflexão em torno porque o tempo que vivemos e a ficção narrati­ do pensamento marxista levava essa geração de va que ele nos trouxe são refractários ao mono­ ficcionistas a questionar a sua eficácia ética. Fernando Namora.

em que avulta o talento de um grande contador de histórias. sobretudo Barranco de Cegos ( 1962) são disso provas evidentes. mes Corsário das Ilhas) . Almeida Faria prolonga esse impulso . Se rupturas existem. e a persona­ francesas. neste contexto. a recepção do chamado novo roman­ ce constitui. um evento certa­ 35 mente importante: romances e ensaios de Alfre­ internamente coeso. etc. para tipo de narrativa em que se adivinha dissolvida um sujeito em acentuada crise social e ideológi­ a consistência do real. na sua fluidez. em princípi­ com o culto da dispersão discursiva. combina-se cada vez mais do Margarido e Artur Portela Filho. as estritas fórmulas do novo romance. depois deles. ca. Alves Redol. O que então está a acontecer ultrapassa.o romance O Delfim. Por outro lado. Depois desagregação do romance. na sua ficção romanesca tardia. capaz de des­ vanecer. de resto. ao perder a nitidez de contornos herdada vância desse novo romance. em estabelecido. e Vergílio Ferreira confirmou a rele­ gem. na História portuguesa e na História europeia . um tempo que a isso mesmo é propício: coincidindo com os primeiros sinais de agonia da ditadura. saudado pela -Realismo e dos valores que representara traduz- forma como nele são des-realizadas as situa­ -se também numa rearticulação da narrativa e ções representadas. denso (e inacabado) romance de publicação póstuma ( 1979) . lação da década. remete. constituem o eco das propostas cial incidência no plano temporal. ao privilegiar um do Realismo crítico. formalmente elaboradas atra­ das suas categorias fundamentais: uma certa vés de uma enunciação fragmentária. Estes e outros que aqui é possível apenas enumerar: Branquinho da Fonseca. a rigi­ dez doutrinária do Neo-Realismo: A Barca dos Sete Lemes ( 1 958). apro­ funda-se nos nossos escritores a disponibilida­ de para experiências inovadoras. que em parte pode ser lido como romance deformação de uma geração. A definitiva superação do Neo­ 1 962. naturalmente. um romance surpreendente.ralha ( 1 959) e. que vêm rom­ per também com uma certa estreiteza de pro­ cessos narrativos até então vigentes. Almeida Faria pode ser considerado a reve­ contudo. Tomás de Figueiredo. enquanto género disso. Uma Fenda na Mu. com espe­ os da década. É então que Jorge de Sena está a escrever Sinais de Fogo.ano a vários litulas decisivo. Este é. elas situam-se sobretu­ do na década de 60. exactamente por protagonizar tal como os seus modelos franceses o haviam este impulso renovador: Rumor branco é.Em 1968 . Arquivo revista LER. de José Cardoso Pires. Marmelo e Silva. Rodrigues Miguéis. E tam­ bém. vem afirmar-se como marco fundamental da ficção portuguesa.

autor de uma notável obra poéti­ ca. em articulação com a história particular e circunstanciada que relata. que o evoluir da ficção portuguesa não é indiferente à intolerância de um regime político-social mutilante e repressivo. É em 1 968 ano a vários títulos decisivo. E com ela confirmam o pen­ dor de uma parte da nossa mais recente ficção. a de Manuel Alegre) traz consigo uma força testemunhal com a premên­ cia e também. mas também de Os Passos em Volta ( 1 963) . experi­ mentado por ficcionistas nem sempre identifi­ cados com atitudes ideológicas de tipo naciona­ lista. Dotado de mais amplos horizontes é o fas­ cínio pela História (próxima ou remota). Mas importa ainda. e mesmo para além dessa data libertadora. de Urbano Tavares Rodrigues. redesco­ brem uma História por vezes configurada em função de sagas familiares ou de biografias de figuras relevantes. a de João de Melo. conjunto de textos em que a recusa da narrativa como referência mimética ao real se coaduna com um imaginário de recorte onírico. para além destes. Maria Velho da Costa. - Reconhece-se s em dificuldade. com o ansioso imediatismo do que foi revoltadamente vivido. a de Lídia Jorge. É num cenário radicalmente renovado a partir de 1 974 e no decurso de um movimento evolutivo ainda por acabar que certas presenças se impõem. Almeida Faria. Acrescente-se a isto. José Saramago antes de todos.renovador. a confirmação de Augusto Abelaira. entre outros. a que não se seguiu a obra ficcional que esse primeiro e pro­ metedor romance anunciava. a ficção que se nutre da violência da guerra colo­ nial (a de Lobo Antunes. com o romance A Paixão ( 1 965) . que pro­ jecta eventos e figuras reais para a cena de uma ficção contaminada por registos tradicional­ mente não literários. destacar outros nomes: Luís de Sttau Monteiro. para revalorizar a efabulação narrativa e o seu 36 . começo de uma Tetralogia romanesca que é encerrada em 1 983 (Cavaleiro Andante) e que é. com o vigor de revelações. tal como Ana Hatherly. Assim. Mário Ventura. Agustina Bessa Luís. de Cardoso Pires. Mas. a de Fer­ nando Assis Pacheco. combina­ dos com a representação de situações sociais e económicas que nunca deixam de interessar o escritor. é necessário que de novo atentemos em José Cardoso Pires. reafirmada em produção posterior. na História portuguesa e na História europeia . E também Her­ berto Hélder. com Angústia para o jantar ( 1961). autor de Bolor (1 968) . De alguma forma é o que acontece A Balada da Praia dos Cães ( 1 982) . e Nuno de Bragança. o aparecimento de Maria Gabriela Llansol. Maria Isabel Barreno. a valorização do simbólico e do mítico. O Delfim conta tam­ bém uma outra história: a da conquista da pró­ pria história. remetem de forma enviesada para um mal-estar existencial que algo tem que ver com a descrença no poder redentor de ideo­ logias em crise. neste momento.que o seu romance O Delfim vem afirmar-se como marco fundamental da ficção portuguesa contemporâ­ nea. A angús­ tia que uma tal situação suscita em não poucos intelectuais portugueses subsistirá até 1 974. as incursões de José Gomes Ferreira na prosa ficcional e na cró­ nica. ou Sem tecto entre ruínas ( 1 979) . sempre sob o olhar de um narrador que ignora certezas e con­ quista arduamente conhecimentos precários. textos como Dissolução ( 19 74). Álvaro Guerra e Mário Cláudio. João Palma-Ferreira. em certos casos. do jornalístico e do ensaístico. naturalmente. Ruben A. um texto de hábil construção diarística. a de Cristóvão de Aguiar. testemunho da nossa Histó­ ria recente e seu perverso agente de subversão. de Augusto Abelaira. do historiográfico. entre outros. simultaneamente. a da elaboração de uma narrativa em que habilmente se cruzam os registos do policial.

desde o seu primeiro romance (Memória de Elefante. Trata-se.autora de uma obra tão abundante e seduto­ ra como desigual e controversa . Teolin­ da Gersão. Eduarda Dionísio. ainda que sem a invocar de forma expres­ sa. sobre revoluções e transformações sociais. Nesse estilo enquadra-se o característi­ co pendor aforístico de Agustina. um caso incontornável. 1 979) . ( 1976) ou em As Fúrias ( 1977) . mas sem dúvida vigoroso e marcante. como outros escritores da sua geração. torna-se necessário desta­ car duas outras produções ficcionais extrema­ mente significativas: a de Vergílio Ferreira e a de José Saramago.autora de uma obra tão abundante e sedutora como desigual e controversa .constitui. atento e fiel. Para além destas. Maria Velho da Costa. Américo Guerreiro de Sousa ou do já citado Lobo Antunes. por vezes quase caótica. . bem patente em romances de Diniz Machado. este é. para além disso. Vergí­ lio Ferreira não escapou. no nosso panorama ficcional. feito de refle­ xões sobre mentalidades e comportamentos morais. António Lobo Antunes é outro caso singular. desde logo pelo vigor do estilo prolixo que ostenta. às dominantes ideológicas e cul­ turais de uma época histórica atravessada por tensões muito vivas: era o tempo da projecção . Partilhando com Agustina um aparente distan­ ciamento relativamente aos mecanismos de promoção da instituição literária. teia ético-moral que assim se elabora articula-se um tecido romanesco apa­ rentemente desequilibrado e improvisado. Olga Gonçalves. Lídia Jorge. sempre atenta aos grandes (por vezes chocantes e mesmo degra­ dantes) temas e situações da nossa vida pública: o romance Manual dos Inquisidores (1 997) ates­ ta-o expressivamente. 37 podler sedutor. a obra ficcional de Lobo Antunes revela-se-nos. Os que o não fazem concentram-se numa concepção da narrativa como aventura da lin­ guagem. Wanda Ramos. Não poucos dos nomes até agora citados têm conseguido aliar a qualidade e complexida­ de da sua escrita narrativa aos favores de um público vasto. sobre Portugal e sobre o destino portu­ guês. curiosamente. Arquivo revista LER. Agustina B essa Luís . no nosso panorama ficcional. da verdadeira narrativa da Revolução (a política e a da lingua­ gem) .constitui.Agustina Bessa Luís . Tendo iniciado a sua produção literária com O caminho fica longe ( 1939). um campo de escrita feminina: o de Maria Gabriela Llansol. Lobo Antunes tem-se distinguido entre nós (e além fronteiras) como romancista tecnicamente evoluído. Com a densa. etc. Luísa Costa Gomes. de certa forma. não raro. como podemos ler na Crónica do Cruzado Osb. um caso incontorná­ vel.

p ublica o romance Levantado do chão. depois Estrela Polar (1962) e em seguida recupera Apelo da noite (1 963) . um regresso às origens: às origens infantis da perso­ nagem. Depois. em 1 9 80. representa-se num espa(. dentre os escritores contemporâneos. 1987. publica Cântico final. pela forma como equaciona sentidos fundamentais da ficção nar­ rativa de Vergílio Ferreira. os anos 60 foram um período especialmente fecundo na produção ficcional e ensaística de Vergílio Ferreira: em 1 960. este último um roman­ ce a diversos títulos decisivo. a dissolução do corpo. põe em causa valores institu­ ídos. A ver­ dade. a eterni­ dade próxima. Depois dele. Com o romance Mudança ( 1 949) pode dizer-se aberta uma nova etapa na produção literária de Vergílio Ferreira. é que é essa a obra que lança o seu autor para uma projecção nacional e internaci­ onal que hoje não encontra paralelo entre nós. Em nome da terra. Kafka e Albert Camus. mitos e figuras religiosas. Pode perguntar-se: o que mudou em Sara­ mago. a responsabilidade ética ou a cegueira humana. intimamente ressentida por um narrador no ocaso da vida. noutros casos. também porque tra­ tam de questões como o fim. também à problemática da morte e da eternida­ de. redigido quase dez anos antes. nos últimos anos. Para sempre ( 1 9 83) c onstitui. a sombra ( 1 974) pul­ veriza as categorias convencionais do romance. Por fim. Quando. a vivência do amor terminal. Depois disso. Arquivo revista LER. a morte. A ficção de Saramago repensa o nosso destino histórico. a uma situação narrativa memorial. a alegria da vida. publicara poesia. 1 990. porém. partindo de um cenário de destruição e crise. a problematização ficcional incide sobre temas. Na tua face. nos termos de uma indagação desrealizante e quase mágica que perspectiva o futuro. José Saramago não é um escritor desconhecido: antes desse romance. momento fugaz entre o nascimento e a morte. de novo através de um discurso fragmen­ tário e destituído de coesão interna.o difuso e des­ realizado. marcos de um percurso em que cada vez mais está em causa a estrutura do romance como género coeso: já em Alegril1 breve. em diversos aspectos . sobre o sentido da culpa. 1 993) podem ser lidos como textos crepusculares. os últimos romances de Vergílio Ferreira (Até ao fim. surgem obras tão importantes como Manhã submersa (1 954) e Aparição ( 1959). que justifique um tal (e 38 . o novo romance.na literatura de uma atitude de resistência à ditadura e de solidariedade para com os oprimi­ dos. teatro e também ficção. de 1 965 é Alegria breve. Signo sinal ( 1 979). Rápida. E juntamente com a ficção emergem referências literárias e filosóficas como o existencialismo e a fenomenologia.

a responsabilidade ética ou a cegueira humana (O Evangelho segundo Jesus Cristo.e muito p articular­ mente a das últimas duas ou três décadas . Almedina. 2 2). Manual de pin­ tura e caligrafia ( 1977). É preciso notar. nas origens da sua consolidação sociocultural e capaz. Acon­ tece assim porque ela tem sabido redescobrir a magia do relato. para se ver como os mecanismos de institucionalização literária interferem na configuração da memó� ria literária: a constituição de um Centro de Estudos Aquilianos (em Viseu) e a publicação da revista Cariemos AlJlliliniaJlos são. noutros casos. um caso interessante. Reis. deixar de se arti­ cular com as transformações da História e da sociedade a que se refere. . sem. Este é. em última instância. 1 986) . V Dimic e E. a pro ­ blematização ficcional incide sobre temas. a nossa narra­ tiva ficcional mais recente aponta. a obra ficcional de Lobo Antunes revela-se-nos. a fic­ ção de Saramago repensa o nosso destino histó­ rico. Coimbra. de forma mais minuciosa. Bieber. Kunst und Wiessen/E. Stuttgart. Arquivo revista LER. 390 55. tal como foi consa­ grado pelo Romantismo. Para além disso. Mas isto não explica tudo. 1 99 1 . em His­ tória do Cerco de Lisboa ( 1 989).Lobo Antunes tem-se distinguido entre nós (e além fronteiras) como romancista tecnicamente evoluído. A ficção portuguesa vive hoj e um dos momentos mais fecundos da sua História. sobre o sentido da culpa. como remete também para uma memória colectiva que ela faz ressoar em nós. Desse modo. em O Ano da morte de Ricardo Reis ( 1984) .Associatio1l Intematiolla!e de Littém­ l/Ire Comparée. O Conhecimento da Literatura. contributos muito significativos. desde o seu primeiro romance. em Memorial do Convento ( 1982). Trata-se..é capaz de nos comprometer com essa História e com essa sociedade a que se reporta: é nesse sentido que. sempre atenta aos grandes temas e situações da nossa vida pública. enquanto género remo­ tamente ligado à História. a ficção portu­ guesa contemporânea . quase súbito) destaque? Convém lembrar que. Henryk �

Related Interests

larkie\Viecz pos­ tulou cinco fases evolutivas daquilo a que chama corrente literária (d. aliás. à sua maneira. porque a activa. entretanto. com isso. C. uma tendência de que justa­ mente Saramago tem sido o grande protagonis­ ta entre nós. sugerindo desde logo a possibilidade de uma entrega à escrita como acto sistemática e profissionalmente assumido. Em Levantado do chã. para além disso. "Technique de la périodisation litéraire". Saramago empreende uma reflexão sobre os problemas da criação artística. I Cf. os romances da fulgurante (para o escritor) década de 80 são disso a consequência evidente. o que encontra­ mos é também a já comentada integração da História na ficção. pp. vol. actualiza e rein­ venta./). que os romances de Saramago não resultam da exuma­ ção do romance histórico.). in ivl. 1979. numa das suas anteriores obras. nos termos de uma indagação desrealizan­ te e quase mágica que perspectiva o futuro (A Jangada de Pedra. 1 995) . de recuperar a condição primordialmente histó­ rica de todo o romance. 1997. 2a ed. deste ponto de vista. pela via sinuosa da referência ficcional. Kushner (eds. Actes riu \fI/e eOJlgres de [. em vez disso. Ensaio sobre a Cegueira. de a reescrever. mitos e figuras religiosas..

O ascender de uma escrita vol­ tada para si mesma a inquirir e criar a partir do . ajudando-nos a perceber o momento histórico e literário a influir apenas num território específico. Uma das primeiras tentativas de diagnosticar a situação que até então se desenvolvia. e os balanços de época surgem nestes momentos residuais. As ocorrências detectadas pelo crítico e romancista são alguns dos pressupostos a assi­ nalar o nível de expressão heterogéneo da litera­ tura brasileira. sem funcionar como característica generalizadora. seguiram linhas de actuação que consolidaram o edifício cultu­ ral brasileiro. Passados dez anos. no presente momento as tendências adensaram-se estilisticamente. fora feita pelo crítico Silviano Santiago no texto "Prosa LiteráriaAtual no Brasil". no Brasil. as artes em geral.Novos Rumos da Literatura Brasileira Jo rge He n r iq u e B a s t o s APÓS o PERÍODO DE ABERTURA POLÍTICA QUE SE cumprira nos anos 80. e p articularmente a literatura. Se anteriormente a consciencialização e a reflexão ideológica demarcaram os limites. é possível analisar as vias instituídas e os objectivos palmilhados pela renovação literá­ ria imposta pelos autores que despontaram no período actual. Os efeitos das sequelas deixadas pelos anos de censura e repressão política das décadas anteriores ficaram visíveis no universo de muitos autores que cultivaram tal filão. Estávamos em 89. acompanhados pela alegorização e o resgate de uma realidade activa como cenário destes prin­ cípios. As premissas expostas ergueram fronteiras palpáveis e conjunturas formais óbvias. seguindo cami­ nhos opostos aos dos companheiros das gera­ ções anteriores. embora a singularidade de outros escritores que atravessa­ ram o período se tenha mantido distante de tais evidências. Conforme afirmara: "Se existe um ponto de acO/do entre a maioria dos nossos prosadores hoje. este é a tendência ao memorialismo (história de clãs) ou à autobiografia. tendo ambos como fim a consciencialização política do leitor".

Inauguração do edifício sede do Real Gabinete
Português de Leitura do Rio de Janeiro, 1887.
6 1eo sobre tela de A. Steckel.

41

jogo ficcional, começa gradualmente a transpor
os exercícios literários embebidos de abrangên­
cia histórica e social. Os autores que prossegui­
ram com os seus projectos, e aqueles que foram
lançados durante esta década, assumiram regis­
tos inconfundíveis cuja ressonância conquistou
espaço e o respeito da crítica.

A rigor, as transformações características do
período foram aglutinadas tanto pela prosa
como pela poesia, como se os graus instaurados
pelas directivas literárias assumidas projectas­
sem o seu raio de influência sobre todas as coi­
sas. Genericamente, a poesia brasileira que
assomara à ribalta na década de 90 acabou por

/)

revelar poucos talentos dignos das gerações de
há 40 anos atrás. Neste sentido, a poesia parece
dar seguimento a processos residuais ligados a
movimentos como o concretismo, à poesia da
década de 70, ou a insinuar meneios inspirados
na veia depurativa de um João Cabral de Melo
Neto. Contudo, procurar generalizar é incorrer
no erro perigoso, torna-se imperativo sondar as
obras com maior projecção e capacidades pro­
missoras. Novos talentos existem em ambos os
territórios a operar isoladamente com voz pró­
pria e uma singular expressividade imaginativa.

Com um percurso já firmado, muitos auto­
res deram continuidade aos seus projectos e
viram crescer o respeito pelas suas obras, em
alguns casos, a ampliar a unanimidade da críti­
ca e do público. Autores como Raduan Nassar,
Haroldo Maranhão, Rubem Fonseca e Moacyr
Sclim' são figuras marcantes que continuam a
causar surpresas.
Raduan Nassar deixou de escrever há mais
de vinte anos, mas a amplitude alcançada pelos
dois livros que escreveu - Lavoura Arcaica de
75, e Um Copo de Cólera de 84 - bastaram para
provocar o impacto jamais esquecido. A revolu­
ção instituída pelo autor só pode ser explicada à
luz de um facto imponderável: Raduan Nassar
praticou uma operação incisiva no corpo da lin­
guagem. Por este facto, estes dois livros transi­
tam numa esfera alheia às facilidades lineares da
ficção. Foi publicado em 97 o pequeno livro
Menina ao Lado, que reúne contos esparsos
publicados pela primeira vez em conjunto. Os
leitores obtiveram a confirmação do talento e do
estilo insuperável do autor.
A arrebatar o público e a crítica com um
poder abrangente, Rubem Fonseca prosseguiu
na linha que o celebrizou, além de ter feito algu­
mas mudanças temáticas. Só nesta década
publicou Agosto em 90, Romance Negro e outras

Rubem Fonseca é considerado o autor fundamental
para a reformulação do género policial através da
violência retirada do quotidiano brasileiro, mais
especificamente do Rio de Janeiro.

histórias em 92, O Selvagem da Ópera em 94. É
considerado o autor fundamental para a refor­
mulação do género policial através da violência
retirada do quotidiano brasileiro, mais especifi­
camente do Rio de Janeiro. As referências ao
cinema e à literatura em si são utilizadas conti­
nuamente no desenvolvimento dos persona­
gens. Desde A Grande Arte de 83, e Bufo e Spal­
lazani de 86, não voltou a permear o nível con­
quistado por estas obras. Acabou por enveredar
eo
pelo romance histórico - caso de Agosto
biográfico - caso de O Selvagem. da Ópera-, ou
a mesclar o estilo. O resultado não é muito esti­
mulante pois ficou aquém das primeiras cria­
ções. Mesmo assim Rubem Fonseca parece estar
à procura de uma saída que supere as fronteiras
usuais. Contudo, a sua marca pessoal inspirou
inúmeros sectários, e alguns dos novos autores
reivindicam a sua paternidade.
Haroldo Maranhão faz parte da categoria de
autores a explorar dicções exclusivas, com um
-

42

Descendente de judeus russos e
dividindo a literatura com a
medicina, Moacyr Scliar é um subtil
e irónico contista. Hábil
reestruturador das fábulas bíblicas, e
um atento inquiridor da vivência do
povo judeu, são motivações que
demarcam os pontos cardeais da
sua obra.

nhão não se contentara com a incursão trans­
gressora, e dez anos depois lançou Cabelos 110
Coração, outra odisseia linguística transhistóri­
ca, misturando as expressões da literatura luso­
-brasileira para transgredir o discurso. Inspirado
na vida de um intelectual de Belém do Pará Felipe Patroni -, o autor recria imagens e pensa­
mentos de uma época eivada de transforma­
ções políticas e históricas impressas num imagi­
nário dos mais estimulantes que a literatura bra­
sileira já viu nascer.
Com estes dois livros, o autor sagrou-se
mestre inconfundível, detentor de um sarcasmo
peculiar, e da paródia inteligente, abrindo as
portas à experimentação romanesca necessária
ao desenvolvimento da literatura.
Nascido em Porto Alegre em 1937, Moacyr
Selim' é outro autor a trabalhar um universo curio­
so. Descendente de judeus russos, divide a lite­
ratura com a medicina. Estreara-se em 62 com
um pequeno livro de contos, mas foi O Carnaval
dos Animais que o projectou nacionalmente.
Escreveu cerca de trinta livros nas três décadas
de vida literária do autor, e foi traduzido em
várias línguas. É um subtil e irónico contista, cul­
tiva o humor corrosivo impresso na sintaxe
maleável dos seus livros, sem propor altos voos.
Hábil reestruturador das fábulas bíblicas, e um
atento inquiridor da vivência do povo judeu, são
motivações que demarcam os pontos cardeais
da sua obra. Creio que a sua melhor obra, até
hoje, é sem dúvida O Centauro no Jardim
desde este livro não voltou a criar uma obra
capaz de ombrear com esta.

43

A profunda heterogeneidade já assinalada é
uma das categorias essenciais da literatura bra­
sileira, aquilo que melhor representa os cambi­
antes estilísticos das suas representações simul­
tâneas. No caldeiro de expressões em ebulição,
são muitos os valores que se perdem, e os equí-

profundo sentido imaginativo e lucidez literária.
Dois livros fundamentais deste autor justapõ­
em-se em pólos estilísticos para resumir o pro­
cesso vertiginoso da sua obra.
Em 1 980 surgira o magnífico Tetraneto del­
Rei (já publicado em Portugal) , exemplo de
intertextualidade histórica e literária onde o
autor pratica um lance ambicioso. Recuperando
toda uma bateria de temas, estilos, referenciais,
factos e autores da literatura luso-brasileira, o
autor mune-se com o pendor picaresco, a glosar
e desconstruir tais aspectos. Haroldo Maranhão
colmatou um estilo multifacetado que põe em
xeque os desígnios literários ao reescrever a vida
e os amores de Jerónimo de Albuquerque. A
façanha transforma-se assim numa verdadeira
ousadia difícil de igualar. Mas Haroldo Mara-

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É inevitável aproximá-Ia do romance policial. De facto. As Mulheres de Tijucopapo. como se a realidade marcasse a fundo com o símbolo trágico do exJ1io pessoal. só assim as linhas pro­ cessuais conseguem revelar as verdadeiras expressões. Elogio da A1entira. Contudo. publicara o primeiro romance. o mais importante carácter interno a encorpar a expressão literária. desenvolvê-Ia com perti­ nência. I II M . Daí a importância de uma triagem inicial. resumem a textura da sua escrita. A busca de respostas que expliquem um pouco a angústia humana e os reflexos na realidade. e. e em simultâneo. mas a lançar críticas corrosivas contra o 44 . Patrícia Melo sabe como contar uma história. todavia a notori­ edade chegou em 95 com a publicação de O Matadador. embora a autora tenha afirma­ do em entrevistas que isso era um mero acaso. a autora desperta o lirismo atento e auto-reflexivo. Marilene Felinto é um dos autores com maior projecção no panorama literário brasileiro da actualidade.\ T HLEN � FELINTO xonadas. a açular a curiosidade do leitor. Só nos últimos anos tem obtido a aten­ ção da crítica. a tendência para a intriga. . Distante deste universo. i \ ( t l\ I I I'-. e os contos de Postcard em 9 1 . ou Bernardo Carvalho? Creio que a procura de uma dicção singular assumida por cada autor é o que mais se evi­ dencia. a violência. na verdade provoca a cisão inte­ rior da expressividade. resumem a textura da sua escrita. Nascida no Recife em 57. Vicente Cecim. Por isso as personagens femininas são ao mesmo tempo brandas e desesperadas. No último livro. ela adensa a linguagem através de um estilo conti­ do. A busca de respostas que expliquem um pouco a angústia humana e os reflexos na reali­ dade. O conjunto das vozes não sintetiza a situação actual. Sem se exceder no sentimentalismo rasteiro. separando o trigo do joio para que as potenciais vozes imaginativas possam chegar ao seu destino. Escavando o solo de temáticas sensíveis. é unanimemente repetido por vários críticos. Carlos Nascimento Silva. e o embate de propostas. o mistério são desígnios basilares que ela convoca nas suas páginas. fragmentando-a. Seguiram-se O Lago Encan­ tado de Grongonzo de 87. Patrícia Melo. consolida a realidade traduzida individualmente. regressou aos seus temas originais. A diversidade dos estilos é um factor primacial a nortear o direccionamento seguido. O que pode unir nomes tão distintos como Marilene Felinto. talvez. em 82. é justamente deste carnaval criativo que toda a literatura necessita para o seu aperfeiçoamento. Dizer que na década de 90 a ficção brasilei­ ra viu brotar autores que acabaram por dominar o panorama literário. Patrícia Melo estre­ ou-se em 94 com Acqua toffana. errantes e apai - Postcard ! � .vocos consagrados. Tais aspectos são trabalhados sem volteios estilísticos. Entre os autores com maior projecção. está Marilene Felinto.

Há uma ténue contiguidade entre a autora e Bernardo Carvalho . A recriação de ambientes. oportunismo e a falta de ética de um escritor de obras policiais que se torna um sucesso de ven­ das ao explorar o filão do esoterismo. é respeitado por uma fasquia da crítica que o compensou com dois dos princi­ pais prémios literários brasileiros. Apesar de ser pouco divul­ gado no Brasil. Com Via­ gem a Andara de 89. por sua vez. A primeira obra de Carlos Nascimento Silva. . o alentado romance A Casa da Palma de 96. ou reduz ainda mais o andamento ao repetir os pensamentos e as inquirições do cego que espera a ave iluminada para que ele possa ver ainda mais. sem descurar do equilíbrio ficcional que caracteriza a sua forma explícita de escrever. as naus negras que trazem a vida e a morte. Contrário a tudo ao que foi exposto aqui. um conjunto de contos que exploram áreas como o fantástico. A narrativa orbita em torno da grande senhora portuguesa da Casa da Palma. O paraíso e o inferno deste autor parecem pre­ parar uma escalada audaciosa para conquistar um espaço inimaginável. continuando a sua opressão. Vicente Cecim condicionou uma forma de enfrentar os sistemas formais e os desafios da literatura. o mergulho deste autor sur­ preende pela amplitude e a radicalidade que subjazem nas obras escritas até hoje. com um cuidadoso trabalho de pesquisa histórica. enquanto Patrícia Melo as de Rubem Fonseca. o intuito é reflectir sobre o encontro de culturas que formaram um povo. expôs uma voz com um fôlego notável. aquela que abole os limites e encarna valores revolucionários para produzir efeitos permanentes. sobretudo ao encontrarmos um tratamento dado ao género policial. Como um rendilhado onírico compacto. Tem como ponto dinamizador um territó­ rio metafórico de onde p artem os raios de pro­ pagação: Andara é a Amazónia brasileira metaforizada como região fantasma onde os sonhos são exorcizados. Dir-se­ -ia que Carvalho pratica-o tendo em vista as li­ ções de Borges. Publicou Aberração em 93. o homem e a literatura assu­ mem a renovação a inaugurar o anúncio de novos mundos erguidos sob o poder da verda­ deira criação. o prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte. as narrativas progridem sob o torpor alucinatório da linguagem. . Vicente Cecim representa a tradição ficcional transgressora. movido por um sentido transformador. Através das palavras de Vicente Cecim. O seu discurso desenvolve-se através da intrincada reorganização conceptual da ficção. e Silencioso como o Paraíso de 95. . movido por um sentido transforma­ dor. . aquela que abole os limites e encarna valores revolucionários . e um quoti­ diano marcado por transformações sucessivas. o hiper-realismo e o policial. a criança reden­ tora. Com Viagem o Andara. e Silencioso como o Paraíso. onde trabalha como jornalista. A sua visão esquadrinha os referenciais urbanos. Vicente Cecim condicionou uma forma de enfrentar os sistemas formais e os desafios da literatura. vê-se a mestria de uma mão consciente da instrumentalização leva­ da a cabo. o autor reproduz com apurado senso linguístico a sintaxe do português europeu. No seu domínio. vive actualmente em São Paulo.ambos se estrearam quase na mesma época -. Vicente Cecim deste ce o fio condutor da voz que relata os conteúdos das narrativaso Situadas entre os sonhos míticos e realidades insondáveis.Vicente Cecim representa a tradição ficcional transgressora. a bizarria e a violência do quotidiano. a viagem é a própria literatura que se vê alvo de reformulações conceptuais. Na linha de um Guimarães Rosa. As aproximações acabam aqui: Bernardo Carvalho segue o caminho que sempre palmilhou. O autor adopta um tom a ladear o poético para narrar a vinda do militar que regressa da morte para que as pessoas beijem a sua mão. O romance passa-se no século XVIII. de um Oswald de Andrade. Os diálogos são afinadíssimos. de 95. Nascido no Rio de Janeiro em 1 960. de 89. este autor opera com a mais salutar singularidade. apresenta-se como um amplo cenário a recriar as envolvências históricas de um Brasil em formação. como se estivesse a jogar com os dados dos géneros literários. Índios loucos.

No sobrado sobre a baía Ma r i a Jo ã o Ma r ti n s A verdade de uma cidade são os seus habitantes. com vista à obtenção de matéria­ prima barata e de mercados para o escoamento da produção. um longo. Hermenegildo Capelo . . relato sobre a crescente importância dos jornais na sociedade inglesa do século XIX Um ano depois. No exte­ rior. . antecipando a sua integração nos Estados Uni­ dos e Charles Dickens escreve The Pickwick Papers. como a cidade de São Paulo de Luanda (fundada pelo navegador Paulo Dias de Novais em 1 5 76) . Roberto Ivens. No SÉCULO XIX O MUND O INDUSTRIAL IZADO parte decididamente à conquista do mundo que não o era.Cecil Rhodes. capaz de dividir a África entre os paí­ ses europeus com interesses coloniais. 1 836 cons­ titui-se como um ponto de viragem. Mary Kingsley (coisa espantosa para uma mulher educada na sociedade vitoriana!) . de desconhecido e . dão lugar à ocupação e ao des­ bravar do terreno. Simone de Beauvoir. como se os africanos fossem mera abstracção. fundam-se as Academias Reais de Belas-Artes de Lisboa e Porto e as Escolas Médico-Cirúrgicas. prepara-se já a 2" metade do século XIX e os grandes movimentos que o caracterizarão: entre nós. Nessa data em que o setembrismo triunfa na cena política portuguesa. . torna-se investimento sistemático . ascende­ rá ao trono a soberana que há-de ditar boa parte . . O que antes fora comércio e aven­ tura. de poder . mas o mundo ainda é grande por 6 mil anos". Memórias de lima Mellina Bem-Comportada. o Texas torna-se independente do México. nossa pequena ilha tornou-se muito estreita para nós. David Livingsto­ ne. mas saboroso. Carlyle diria sobre a sua Inglater­ ra natal: ':4. Os entre­ postos costeiros. Este será o tempo de homens com fome de grandes espaços. . Na história de Portugal colonial. frio. criam-se os liceus.cal­ culista. Pelos mesmos anos.

Lisboa.A cidade de Luanda foi a primeira de fundação europeia na África negra. Postal dos inícios do séc. Chamava-se Vitória. tinham por indigno. Vieira de Castro e Passos Manuel declarava proibido todo o tráfego de escravos nas colónias portuguesas ao sul do Equador. tinha dezoito anos e o seu reinado só haveria de terminar algumas gerações depois. E a cidade de Luanda. um decreto assi­ nado pelo Visconde de Sá da Bandeira. Para além de se verificar a continuidade do tráfego a . iniciar um vasto plano de reformas coloniais que visavam construir "um Brasil em África". oriundas da Europa. Na Luanda dos anos 1 840 assiste-se à luta entre as autoridades que pretendem pôr cobro ao tráfego negreiro e toda a secular estrutura montada em torno desse negócio que as novas mentali­ dades. O Ocidente estava. Arquivo Histórico Ultramarino. em 1 90 1 . XX. pois. e m rápida mudan­ ça. propunha-se. assim. A reacção no terreno à decisão tomada por Sá da Bandeira não podia ser mais negativa. figura desta­ cada da ala esquerda do liberalismo português. 47 dos rumos da Europa e do mundo. Sá da Bandeira. Em 10 de Dezembro de 1 836. a primeira de fundação europeia na África negra? Também.

o rendimento público da quase totalidade das colónias portuguesas (postos da Índia. Exemplos desta situação não faltavam na Luanda de meados do século XIX . nesse mesmo ano de 1 836. Pinto de Andrade. Maia Ferreira e consti­ tuíam o poder económico (às vezes. Regada. uma vez perdida a sua con­ dição de grande entreposto negreiro. afigurava-se-lhe uma quase fatalidade. Luanda./) partir dos portos de Ambriz. Matoso de Andrade. o tráfego intercontinental de escravos contribuía com duzentos contos. Angola. subordinação mortal para a província que só partindo o vínculo da escravatura ganhou vida própria e isenta"l . A sociedade que se fundamentava no tráfe­ go negreiro tinha contornos essencialmente cri­ oulos. Para esta última soma. na mesma latitude que o Brasil e a América do Sul. São Tomé e Príncipe e Cabo Verde) somava qualquer coisa como 578 contos. 288 provinham das colónias asiáticas e 290 das africanas. também o A transição para uma economia não esclavagista foi muito lenta e dolorosa. Nos lugares intermédios da administra­ ção e mesmo nos corpos do exército podiam-se encontrar numerosos elementos de famílias locais.s condições geográficas por uma parte e por outra as demográficas e étnicas da região fizeram durante séculos de Angola uma dependência do Brasil e da América espanhola. Arquivo Histórico Diplomatico. 48 . várias vozes (nomeadamente por parte da Junta Governativa. A sua posição costeira. Vieira Lopes. Macau. Lisboa. Françoni. Vendedora de farinha. Moçambique. muita lenta e dolorosa. Cabinda e Luanda. A transição para uma sociedade e para uma economia não esclavagista foi. pois. 'Yl. demorou décadas a encontrar um novo destino. constituindo-se como porta-voz da burguesia colonial) fazem-se ouvir contra o que dizem ser a ruína do comércio angolano. Necessidades Ribeiro Castelbranco. que desde 1 836 dirigia a colónia. Tinham as suas razões. Destes. Segundo Andrade Corvo. Pinheiro Falcão. Nascimento da Mata. Chamavam­ -se Galiano.

a popu­ lação branca da cidade cresce razoavelmente. ardilosamente gerido. provavelmente. Carvalho Bastos ou o médico Saturnino de Sousa e Olivei­ ra. Acrescentavam-se-Ihe outros. por exemplo. Para além da capacidade de eleger um deputado às cortes entre os seus. observados em 1 887. às vezes. o da excepcio­ nal figura de mulher. sobretudo com o Bra­ sil (provavelmente também no tráfego negreiro) . A uma intervenção pode­ rosa no comércio externo.49 político) da cidade. dez anos depois. acima referido. era esta mesma burguesia que intervinha e dominava a actuação de órgãos políticos como a Comissão de revisão de recen­ seamento eleitoral.oriundos da metrópole. Estes homens . estes dados não deixam de ser significati­ vos. passou-se a 32%. do século XVI à 2a metade do século XIX. Morta já muito idosa em 1 853. onde se aludia à profissão. foi presidente daquela entidade. que respondia pelo nome de j\na Joaquina dos Santos. na sua grande maio­ ria . já que o magnífico sobrado em que residiu se localizava no bairro com aquele nome. D. Existia. Se atentarmos nos nomes. A estes somavam-se alguns negociantes brasileiros como Francisco Flores. Estas lis­ tas tornam-se uma fonte particularmente útil. No final do século XIX. que se repetem nas listas ao longo de anos. o poder do mestiço na sociedade que tinha o tráfego negreiro por fundamento econó­ mico) . acrescentava a posse duma considerável frota e de vastos terrenos de exploração agrícola. enveredavam por um cargo político. para uma época em que vigorava o voto censitá­ rio. suspeitas. a situação pouco evoluíra. Dos 1 3. como bem o atestam as listas de recenseamento eleitoral. Ana Joaquina dos Santos justificava o título atri­ buído pelos populares com um vasto império. com efeito. Mas o exemplo mais emblemático é. de menores rendimentos. De resto. talvez não lhe fosse pos­ sível desempenhar papel tão preponderante na sociedade luandense. uma "coincidência" entre elites económica e política. Embora a verdadeira explosão demográfica só acontecesse a partir de 1 940. Ana Joaquina dos Santos deixou aos netos um valioso legado. Se tivesse vivido mais vinte anos. mas quase todos desempenhando a mesma actividade. cujo sistema acabava por entregar o poder político nas mãos dos grupos economicamente mais fortes.8%. morada e capacidade económica dos eleitores. uma das principais características da sociedade luandense foi a concentração do poder económico e político nas mãos da burguesia mercantil. estudioso aplicado das con­ dições sanitárias da cidade e animador das réci­ tas do Teatro Providência. A lista de 1 889 mostra­ -nos. Em breve. apesar do burburinho suscitado por origens mais do que humildes e. verificaremos que desapareceram dos centros de decisão famílias como os Galiano. sobretudo se se tiver em consideração que. Necessida- . que a esmagadora maioria do grupo de maiores contribuintes da cidade per­ tencia ao grupo dos negociantes. era conhecida em Luanda por "Baronesa do Bungo". durante uma viagem a Portugal. Pinto de Andrade. Saliente-se que estes homens eram elegíveis para o cargo de deputado às cortes pelo primeiro círculo de pro­ víncia de Angola. cônsul do Brasil. na última década do século XIX) . afinal. Nas últimas décadas do século XIX.dominavam o grande comércio com as Américas (nomeadamente com o Brasil e os Estados Unidos) e com a Europa e frequentavam com igual desplante as lojas de secos e molha­ dos da zona baixa e os bailes no Palácio do Governador. proprietário de minas e de embarcações que estabeleciam a rota Lisboa-Luanda. Mestiça (simboli­ zou. a burguesia mercantil luandense dominava a Câmara Muni­ cipal (aponte-se um exemplo: António Joaquim Ferreira Gusmão.

nos navios oriundos da Europa. enri­ queciam. A ilegalização e gra­ dual desaparecimento do tráfego negreiro deter­ minaram a substituição das oligarquias (se assim lhes podemos chamar) que. Pedro) e com a abolição legal do tráfego negreiro. Vieira Lopes.tre o Real e o Imaginário). segundo his­ toriadores como Adelino Torres (nomeadamen­ te na sua tese O Império Português en. Luanda importava da Alemanha livros impressos no valor de 1 45 000$000. consi­ derado uma lança da burguesia metropolitana e seus interesses em Angola. quantas vezes contraditórios. com a independência do Brasil (na sequência da qual se temeu a ligação de Angola ao novo reino. como as peças da últi­ ma moda. Matoso de Andrade e Maia Ferreira. de que a burguesia colonial gostava de fazer algum alarde. Lisboa. um grupo distinto e de interesses autónomos. Assim aconteceu durante a primeira metade do século XIX.des Ribeiro Castelbranco. já na segun­ da metade do século. com ele. de onde se importavam livros impressos no valor de 283 000$000 réis2. Esta elite mercantil constituía. Assim aconteceria. Arquivo Histórico Ultramarino. com vários conflitos pro­ tagonizados pelas elites locais e pelo Banco Nacional Ultramarino (criado em 1 864) . face à burguesia metropolitana. pro­ clamado por D. Os livros chegavam.como se impunha nessa época em que a literatura e a cul­ tura francesas eram as mais seguidas e imitadas da Europa -. Julião o Carnaval foi até ao principio do século XX um rito de miscigenação. 50 . Neste postal podemos ver um grupo de cabi n das p reparad o para dançar. embora o maior abastsecedor fosse a França . Em 1 899. Do fortalecimento desta identidade de classe resultará a busca de um certo cosmopolitismo.

As elites mercantis revelaram alguns traços de comportamentos característicos. de Visconde Ponsen du Terrail. que também importava e vendia fatos de linho. Macedo Leal anunciava que recebia assinaturas dos seguintes folhetos e periódicos: . Postal dos inicias do século XX.Atravez do Contin. as preferências deste público. indicam-nos. se não era propria­ mente muito rica. sem esquecer os folhetins românticos.. Lisboa. Mas Julião Monteiro Torres.to dos Homens Vermelhos. Luanda. O Juramen. Paços do Concelho. de Émile Zola. essencialmente destinados ao ócio das senho­ ras. que eviden- . A imprensa. Stanley.Os Subterrâneos de RocKey.Náná. . Isto.O Mandarim.Monteiro Torres. . rece­ bia da Europa essas novidades literárias e rece­ bia assinaturas para publicações metropolitanas e estrangeiras. de Eça de Queirós. com maior preponderância. Arquivo Histórico Ultramarino. Em DezembrQ de 1 880. a burguesia mercantil luandanse dominava a Càmara Municipal. mas talvez ainda mais nas colónias. de Jules Lermine. por­ ventura. embora escassos. - Para além da capacidade de eleger um deputado às cortes entre os seus. mais dada à aventura. se interessava muito pelo exotismo de terras semi-ignoradas.A Mulher de Três Caras. em certa medida. onde uma população já viajada e. não deixava de oferecer algu­ ma diversidade de oferta. comerciante de Luanda. muito bem sucedidos na Europa do século XIX. .A Volta do Mundo (novo jornal de viagens). por sua vez. 51 . Aos grandes nomes da literatura contemporâ­ nea (como Eça e Zola) somavam-se.As mil e uma m ulheres. . os livros e o jornalismo de via­ gens (de que as obras do fotógrafo Cunha Moraes e do explorador americano Stanley são exemplos maiores) . de H . não era o único comerciante envolvido na venda de livros aos luandenses. Tais títulos.ente Negro. recebeu pelo vapor La Plata os seguintes livros: .O Plutharco Portuguez (jornal de retratos e biografias) . Na mesma edição do Jomal de Loanda. M .. .

Lisboa. a que pela sua grandeza se assemelhava. ou auctorisasse da expedição d'obras publicas. George Tams: '. Em Fevereiro de 1 890. uma artéria nobre da zona baixa da cidade. a intervenção cívica em favor da continuidade de uma política de obras públicas na província. Um desses traços era. precisamente. Passamos pelo gabinete de lei­ tura. setenta e nove cidadãos d e Luanda expuseram a s suas razões para que as dificuldades financeiras do Estado não puses­ sem termo aos trabalhos entretanto iniciados: "Conviria pois que Vossa Magestade houves­ se por bem mandar reformar pelo seu Governo o quadro da expedição d'obras publicas. numa artéria nobre como era a rua Salvador Correia. e subirmos por uma boa esca­ da de pedra que conduzia da espaçosa entrada ao sobrado da casa. Arquivo Histórico Diplomático. onde detinha os seus negócios e.:40 entrarmos n'habitação do médico algu­ mas negrinhas se achavam promptas para nos abrirem as portas. e quasi certo achar-se no fim d'aquelle periodo em circunstancias de lançar impostos sufficientes para satisfazer o juro e a amortisação dos impres­ timos atéfinal realisados. fornecendo-lhe meios que a província não tem agora. constituiu-se em Luanda uma comissão patriótica e não é difícil imaginar quem a cons­ tituía. Mas houve outras intervenções do género. como entendesse. ou antes salão. ou auctorisasse a pro­ vincia a contractar pessoal para continuar e con­ cluir as obras começadas. Numa petição enviada ao rei em 1 2 de Abril de 1 880. empenhada em objectivos muito locais? Em grande parte con­ centrada nà zona baixa da cidade. para as obras projecta­ das'l3 . sobretudo. Manoel José Gonçalves Palhares e mesmo a firma "Palhares & Irmãos") . Entre os signatários deste documento encontram-se vários nomes da elite luandense do final do século XIX: entre eles os Palhares (assinam José Palhares. entramos na larga sala de visitas. A maior parte destes homens eram comerciantes. na sequência do Ultimatum inglês. como entendesse. As suas casas não se deviam distinguir muito daquela que nos é des­ crita pelo viajante alemão. ciavam a sua identidade. muitos deles parte do grupo de maiores contribuintes da província de Angola./) A burguesia de Luanda vivia em grande parte concentrada na Rua Salvador Correia. onde a 52 . mas era natural. Como vivia esta burguesia. e tendo atravessado differentes portas.

boquilhas. 28. rendas. Angola. toma a gerencia do atelier de modista do Centro Commercial de Angola. Os sobrados eram a forma de habitação pre­ ferida por estes grupos (atestam-no os exempla­ res ainda sobreviventes na Luanda de hoje) . p. de tecto altís­ simo eformidável espessura de paredes". a loja. As senhoras rodeavam-se de grande luxo (assim o testemunha o anónimo de autor de Quarenta e cinco dias em Angola: '�s senhoras com quanto ostentem aos domingos grande luxo. . recolhido no bojo do imponente aparado/. com as suas "largas salas caiadas. pongees. reclinada sobre uma cadeira de balanço do Bra­ zil. Arquivo Histórico Diplomático. a rica mobília e o delicado gosto dos adornos da senhora. os grandes consumidores dos pro­ dutos não essenciais importados das potências europeias. esperam receber muito brevemente lindos e esmerados sortidos em cortes para vestidos e b/ouses de seda Pompadow. que a continuarão a honrar com a mesma confiança que lhe teem sempre dispensado. estes homens e estas mulheres asseguravam os seus lugares no grande jogo do civilizador. Lisboa. o seu soalho e paredes linda­ mente pintadas. Estas senhoras e respectivas famílias se­ riam. cachimbo.''6.senhora da casa se achava junto a uma janella. Obras Püblicas. onde espera. . Este era . brinquedos ou perfumes? Assim munidos.segundo acreditava o escritor britânico Rudyard Kipling . p.J Visita às possessões portuguezas /ln costa occiaen tal d'África. etc. o dourado dos espelhos suspensos sobre a consola. p. e tres ou quatro negrinhas escravas. 3 Arquivo Histórico Ultramarino. o armazém e as acomodações dos serviçais.. caixa 868 . edi­ ção de Barcelos. Para a próxima estação. partici­ pa às suas exmas freguezas que a contar de 1 de Fevereiro próximo. aliás. 6 Boletilll Oficial da Prollíncia de Angola. lá estava o aparelho de louça inglesa. maço 869. fazendas de lã e algo­ dã. Em cima. A elegância da sala. 16 de Janeiro de 1909. que ellas seguravam por llIna fita [ . "l . a mobília importada do Brasil ou de Boston. a loja. . Os sobrados eram a forma de habitação preferida da burguesia. 5 Idem. volume V. alfinetes de peito. Duas pequeninas escravas estavam assentadas a um canto da sala com um cazal de lindos macaquinhos.o. Angola. . bordados. 449. Quem senão este grupo consumiria artigos como bengalas. ] "4. Em baixo ficava a cavalariça e.o papel do homem branco em África. "luzia a boa baixela de prata. 207. Arquivo Histórico Ultramarino. por vezes. de tons leitosos e aristocráticos"5. assenta­ das no chão junto della. o armazém e as acomodações dos serviçais.es. por vezes. 1 "A expansão dos portugueses em África" in História de Portugal. Em baixo ficava a cavalariça e. occupadas na costura. charões ricos sobre as pedras de mármore e. guarnições. . Em cima situava·se a residência propriamente dita. communicavam áquel­ le todo um ar prazenteiro de commodidade e riqueza. A elas se destinavam anúncios como este: '�mélia Ferrão da Costa Guimarã. No inte­ rior. crepe da China. . etc. ficava a residência propriamente dita.

uma. ou seja "os" (artigo) que. nunca se aplica a objectos e. realmente. Este crioulo alberga outras determinações que importa mencionar. todavia. o crioulo forro tem ainda hoje como suporte tal idioma europeu. a tais seres quando estão no singular: Nen ké musó fé pan iogó Os defuntos-deuses é que fizeram com que eu melhorasse Nen moçzt libôquê na têflogáfa Os rapazes do Riboque não estão para brin­ cadeiras Quanto ao artigo indefinido. Üa djá di glavmza Um dia de gravana Üa canoá di m u tôlzt Uma canoa de motor Üa nen m igu mu só zudá mu Uns amigos meus é que me ajudaram Üa nen mina cumá mu só ca labá lôpa da mu Umas filhas da minha comadre é que lavam as minhas roupas .o Crioulo Forro Ca rlos Esp ír i to 5 a n to o IDIOMA MATERNO DA coroa do /IIar É o forraI. o artigo definido está desprovido do singu­ lar. ao invés do que se verifica com as línguas africanas. resume-se a iia ou um. que somente se refere a seres humanos e divinos no plural. Há. aliás. que contribuem com 7% apenas. falantes que utilizam a expressão iia nem (uns e umas) . Derivado do português2 dos séculos XV e XVI. que representa cerca de 93% do léxico. falta que pode ser comprovada nestes sin­ tagmas: Sóló bili zá Sol já nasceu Poçón na tê candjá fa3 Cidade não tem luz Deuses e pessoas são precedidos de nen.

tais como banda (de músicos) bando (de aves) cardume (de peixes) corja (de vadios) manada (de bois) multidão (de pessoas) quadrilha (de ladrões) rebanho (de ovelhas) vara (de porcos) são substituídos. por Üa surge por vezes combinado com as pre­ posições de e em. no exemplo seguinte. no entanto. Lôpa sé sá diia sodé Esta roupa é de um soldado Zozé té xinclt 111uala niia lcé José tem cinco mulheres numa casa 55 Os substantivos concretos são em número superior no forro.feixe (de lenha. A pluralização é obtida através d o quantitativo que o s acompanha: . ouvir-se sobre­ tudo no diálogo das mulheres estes lexemas: npiãn . todavia. os quais. os falantes utilizam o vé ou velho. bastante. aos subs­ tantivos. Assim. Bén sá cuá pa sumfé A bondade deve ser praticada montxi ou iô tôcadô vzmgll bisSll pixi vadjin bué ngué ladlón cabia plôcô Ou seja.pinha (de banana) fêssu . mas apenas no singu­ lar. dando origem às formas düa e nüa. quando comparados aos abs­ tractos..Representação do Tchilóli na ilha de 5 Tomé.molho (de chaves. podendo. que significam muito. 58 e 59) Vé sá sébé A velhice é sabedoria São muito poucos os substantivos colecti­ vos no forro. Os substantivos forros não variam e m número. e em vez de velhice. bondade é substituída por bén ou bem. (também nas páginas 56. 57. de capim. que também se aplicam a nomes do géne­ ro masculino e feminino. de vassoura) môiô . de comida) Ora os restantes substantivos colectivos portugueses. respectivamente. muitos dos quais não existem neste cri­ oulo. precedem lzuna­ du. muito. os falantes antepõem o quantitati­ vo montxi ou iô.

Mas não se verifica o mesmo quan­ do os dois nomes se ligam por preposição. além de permanecerem no singular.muitas pessoas Os aumentativos resultam da anteposição do adjectivo mémé (grande) aos substantivos: mémé moçu .rapagão mémé lcé .casarão Ao invés.o mas­ culino e o feminino. seguem a norma portuguesa. alguns.boi e vaca ladlón hómé e ladlón muála .ladrão e ladra nétu hómé e nétu l1wála neto e neta - - 56 . pospõem-se-lhe os adjectivos hómé (homem) e muála (mulher).casinha Quanto aos substantivos compostos. os diminutivos são alcançados por intermédio dos quantitativos piquina e txócó (que significam pequenos). Há dois géneros no crioulo forro . tal como o baná-npón (banana-pão).gato e gata buê hómé e buê mllála . respectivamente.mestre e mestra cabalu hómé e cabalu lImála .filho e filha méssé hómé e méssé Inllála . uma forma de indi­ car seres do sexo masculino e outra para os do sexo feminino: Masculino Feminino alê (rei) gálu (galo) hómé (homem) bódji (bode) compá (compadre) padlastu (padrasto) dónu (avô) padjin (padrinho) 11lanu (irmão) tio (tio) lenha (rainha) nganhã (galinha) 11wála (mulher) cabIa (mulher) cumá (comadre) madlasta (madrasta) dóna (avó) mandjân (madrinha) mana (irmã) tia (tia) Mas quando se pretende especificar o géne­ ro de determinados substantivos (principal­ mente os animais). para o mas­ culino e feminino. Por exemplo. em opé-cabla (pé-de-cabra).rapazinho ké piquina . que em npó/l­ do-ló (pão-de-ló) se transforma em do. porém. que são pospostos aos substantivos: moçu txócó . os falan­ tes prescindem da partícula de.dois irmãos nguê IWl1adu .cavalo e égua gatu hómé e gatu lIwála . Ou seja. caçô hómé e caçô 11l1lála cão e cadela mina hómé e mina lImála .dôssu mallu .

Todavia. mas superior: .Tal como os substantivos. não existe no crioulo forro a forma inferior no super­ lativo. possuindo somente uma forma para o masculino e o feminino: Nen migu n6n sá bllá Os nossos amigos são bons A ca bendê lôpa novu ni vêndê Vende-se roupa nova na loja 57 Importa sublinhar que o crioulo forro man­ tém do português os dois graus do adjectivo: o comparativo e o superlativo. os adjectivos não se flexionam em número. Hózé tlldu cuá sá maxi cam dô quê 6nté Hoje tudo é mais caro do que ontem Moçu mu tlabá m6 moçu bô O meu filho trabalhou tanto como o teu Tal como se verifica com o comparativo. o compa­ rativo apresenta somente as formas superior e de igualdade. A conjugação dó quê (do que) é posposta ao determinante no primei­ ro caso. permanecendo no sin­ guiar: Maiá pali dÔSSll mina mllala glavi mó dêssu Maria deu à luz duas filhas bonitas como deusas Téla nOIn tê iô plé ngladji A nossa terra possui muitas praias grandes Mais: os adjectivos são invariáveis quanto ao género. que se formam antepondo os advérbios maxi (mais) e mó (como) aos subs­ tantivos. respectivamente.

o superlativo absoluto é formado através da repetição do próprio determinanté Mosca vêdê vêdê Mosca verdíssima5 Há determinadas expressões consagradas pelo uso que também servem para formar o superlativo absoluto: Licu so/wnó (podre de rico) Pletu lu lu lu (pretíssimo) Mali mogó mogó (malíssimo) Ximpli tatali (totalmente insonso) Unu tataU (totalmente nu) Vlêmê bababá (vermelhíssimo) Zzílu can can can (azulíssimo) 58 . de superlativo analítico. pode dizer-se que se resume à colocação do quantitativo llllnadu ou mUto (muito) depois do adjectivo.Zefa sa ml/ála maxi glavi di poçón Josefa é a mulher mais bonita da cidade E no concernente ao superlativo absoluto. tal como demonstra este exemplo: PÓ sé sá vé muto Esta árvore é velhíssima Por vezes. Trata-se. pois.

não existe. pior. ao mel/os lia parte qlle baste pam o comercio COI11 os estml1geiros". num depoi­ mento de Gaspar Pinheiro da Câmara de 15 de Outubro de 1766 (A. que (I gel /te /ln/11m/ destas ilh(/s fClI1 lingon sua e comple­ (0. mau (mau) .Blancufenené (branquísimo) FlesClt tatatá (fresquíssimo) Ledê zazazá (arder intensamente) Qllentxi ZllZUZlt (quentíssimo) Cotá uni ltni (cortar em pedacinhos) Fina lequé lequé (finíssimo) Bixifiéfiéfié (muito bem vestido) Monhá potó potó (molhar-se da cabeça aos pés) Lugi miegllé miegllé (brilhar intensamente) Fiô cô cô cô (totalmente frio) SlIZU cotó cotó (sujíssimo) Danado cotó cotó (estragadíssimo) SeClt clacatá (sequíssimo) Vé queté qlleté (velhíssima) Por fim. mas de 'lI/e me lião COllsta haller inscripçr70 nlgumn. ex. "' A repetição de determinado voc. lião sendo negros do mato. não só dizem: Poçó" 1/0 lê callrljá [ti (cidade não tcm luz). Por exemplo. Assim.ina (pequeno) . péssimo. o maior e o menor) não exis­ tem no crioulo forro. assim. 3 Por vezes. 10. mas tam­ bém: Callrljá lI'póç611 11116 (não há luz na cidade). e Ité certo que todos sabem [alar ({ portllgucsn.:íbulo nem sempre representa exa­ cerbação do sentido. fl. I Várias informações breves sobre tal idioma surgem por vezes nos rela4 fúrias histórico-linguísticos dos portugueses que residiam cm São Tomé e Príncipe duralllc O período colonial. máximo e mínimo) e relativos (o melhor.. estou bem) Ou mosca tambor. assim.bô sti bufÍ . por vezes. OIl I/OII{/l11ellfe resgatados. nxô. e tam­ bém os correspondentes superlativos absolutos (óptimo. U.. o pior. tal como é conhecida nas ilhas verdes do Equador. nglandji (grande) e piqu. 4.g/lê guê gllê (ou. H. importa dizer que os comparativos de superioridade de buá (bom) . Tomé. além rios IJ1l1itos que faMa a lingoa franca. Ia por 11116. respec­ tivamente melhor. os forros substituem a expressão neg:'lIiva 110 tê .vol pode ler-se o seguinte: "I-te de mue. Ora quando duas pessoas se encontram. geral­ mente saúdam-se dizendo: . que sig­ nifica. em final de frasco Significa não há. não tem. doe. Língua utilizada neste final do século por dezena de milhares de for­ ros. maior e menor.. 93. . COI11 prellllllcin [nucal. A prová-lo está a expressão guê gllê g/lê. S.

os gestos do quotidiano. É assim também nas matérias culturais que aqui nos trazem. ficam muitas vezes omi­ tidas as suas especificidades e esbatem-se potencialidades e características que os distin­ guem e dão. É o que frequen­ temente acontece com os cinco países africanos que foram colónias portuguesas. as condições e as ini­ ciativas foram sendo sempre diversificadas. Não se saberá com rigor se foi a política "ultramarina" de entender os territórios coloni­ ais como um todo sem particularidades que gerou a ignorância sobre a vivência. mesmo quando solidário. como peça única. quando abor­ damos as suas dinâmicas numa qualquer análi­ se. À força de serem com insistência observados de forma globalizante. ou se. na ânsia de "standardizar" do Minho a Timor. as oportunidades.através de um abraço que. primeiro. .em que as partes desse todo se aparta­ vam cada vez mais. . as atitudes culturais das comunida­ des naturais desses espaços geográficos. em cada país desde a independência. também na criação artística. misturava uma vez mais tudo e todos. Basta pensar um bocadinho para se clamar o despropósito de tão tremendo erro. agindo com total indepen­ dência. ao contrário.Os Teatros as Luzes e as Som bras Viagem muito rápida pelas histórias do teatro dos países africanos de língua portuguesa. aceradas facas de dois gumes. Em cada território. . Terá sido a primei­ ra hipótese. já que cada um protagoniza uma história que não deve sofrer colagens e evoluiu. exi­ gindo tratamentos autónomos. a unidade estratégica de acção dos vários movimentos de indepen­ dência facilitou que do exterior os olhares mais desatentos e os discursos mais superficiais con­ tinuassem a conceber a nova realidade pós-colo­ nial . Posteriormente. dessa ignorância ostensiva saíram as bases dessa política cega. depois. a cada um. as razões. Por isso falare­ mos de cada país separadamente. factor de peso para a razão e lógica da sua existência independente. a que se juntou Timor A n tó n l O L oja N e ve s AS HERANÇAS HISTÓRICAS SÃO. como não podia deixar de ser . MUITAS VEZES.

sem atropelos. mas sempre com estas raízes culturais da representação. um espaço multidiscur­ sivo. Se a importância do burgo de Luanda moti­ vava às digressões de companhias portuguesas à costa ocidental africana. . dos 'Anjos. Nesses rituais ancestrais a forma dramática aparecia como elemento de fixação de aconteci­ mentos. uma tribo. a fazer vir troupes lisboetas. é obra de padres missionários. Um baluarte desse movimento foi a Liga Nacional Africana. o desempenho teatral como herança da prática italiana. dos mais equipados aos mais improvisados.a maioria delas elaboradas com rigor artístico insuperável podem ser. com um palco e uma representação como nos acostumaram na Europa. Não custa acreditar em tal distribuição de elencos . de 'Satanás. de Henrique San­ tana. um espanhol. que se desejava cosmopolita e longe dos horrores e privações dos combates: tiveram impacto a Companhia de Teatro Alegre. pela falta de estudos e ignorância do seu todo e por não ser esse acto gigantesco de antropologia o que nos é. a de Raul Solnado. que promoveu algumas peças. agora. descobriam no teatro uma forma útil de apresentar aos novos créus quadros mimando os céus divinos. dando-se à representação de peças temerárias que foram. fiquemos pela noção de que estas "gestualizações" . como um pouco por toda a África. de Lourenço Marques. assim. as escrituras sagradas e os momentos solenes das comemorações. embo­ ra nestas coisas seja sempre bom destrinçar os documentos que credibilizam as afirmações. de outro a Protestante. é de registar. e os seus mentores. catalizador dos sobressaltos da sociedade. Representadas em salões paroquiais. apressam-se as autoridades. . O "outro lado" respondia com uma prática de pendor nacionalista. alto-relevo dos momentos maiores da vivência comunitária: pode ir buscar-se a tais atributos o primórdio da "representação teatral" se a. Nos grandes espaços angolanos. em 1932. a Sociedade Artística. as representações de âmbito religioso só nos prin­ cípios da década de 60 passam a dar lugar a uma mistura de referências bíblicas com a realidade africana. inventando outros próprios do momento sacralizado. capaz de. mimando passos do dia-a-dia. embora não enun­ cie as suas fontes em tão magna questão: "Nota saliente e curiosa deste longo período [ . de José e de Maria' só poderem ser representadas por indi­ víduos de tez branca. alvo da perseguição da PIDE. se não mesmo por vezes o de 'Herodes.Eco da alma. consideradas as pri­ mevas coreografias de povos que. As raízes cristiis estarão. ) é o facto de a figura do 'Menino Jesus. Este é. ritua­ lizado. com a pro­ gressão de meios e de contactos com outras for­ mas dramáticas. 61 Avancemos na senda de uma síntese da his­ tória teatral de cada um dos países que nos pro­ pusemos referenciar. Carlos Vaz assevera-o no seu livro sobre o teatro africano. sendo o papel de Judas. e ficou conhecida pelo Teatro Gexto (Grupo Experimental de Tea- . fazer distinguir um povo. caricaturização de indivíduos do meio. desenvolvendo os auto­ res e a cultura africanos. pedido. Com o início da luta armada no território. De um lado a Igreja Católica. a representação da peça Renúncia pela Compa­ nhia Teatral Berta Bivar . de Flm'bela Queiroz e Artur Semedo. especialmente as militares. E até as marionetas de Gonçalo Navarro.tentarmos nas formas ritualizadas dos momentos significativos dos agregados huma­ nos. pelas diferenças abissais.Alves da Cunha. presentes não apenas nos instrumentos como nas temáticas. irão edificar o seu discurso teatral. também. expressamente destinados aos pretos". a distrair as tropas em campanha e a animar o burgo. Todavia.

Por ele passaram nomes como António e Domingos Van-Dúnem e Gabriel Leitão. in revista Setepalcos. Grupo de Amadores de Teatro. e apresentará duas peças. no Festival de Lagos. se tentar apresentar naquele palco uma peça de temática angolana falada em quimbundo. com a presença de monitores cubanos. Logo em 1976 criava-se a Escola de Teatro e Dança que formou actores como foi capaz. o poeta. que representou o primeiro espectáculo no país independente: O Poder Popula/: O grupo dura menos de um ano. As pessoas formadas pelos cubanos passam a constituir o GIT . 62 . Tomé e Príncipe. que vai dar origem ao Tshinganje. 95) e que mais tarde. semi-profis­ sional. Júlio Almeida) orientaram experiências teatrais direc­ cionadas para as crianças das zonas de comba­ te. Orlan­ do Albuquerque (O Filho de Zambi e Ovinda). Com estaleca quase profissional. caindo sob o fogo de crí­ ticas radicais.telho Ninguém Toca ( 1 978).Grupo de Instrutores de Teatro. Nov. que reorganiza os actores "desafectados" compulsivamente. A independência traz para Luanda e subúr­ bios essa experiência de teatro de agitação e pro­ paganda. que viria a extinguir-se em meados da década de 70 e que terá sido o responsável por. A Liga era um reduto do teatro "negro".tro). Augusto Baptista/Cena Lusófona. Nesses últimos anos de regime colonial começaram a aparecer os dramaturgos angola­ nos: Domingos Van-Dúnem (Auto de Natal). Com a nova "respiração" social. começam a aparecer textos dramatúrgicos: Costa Andrade dá à estampa O Povo Inteiro (1 974) e No . Pepetela. A Vida Ferdadeira de Domingos Xavie/: O Ministério da Cultura apoiará a iniciativa destes jovens. Estávamos em 1977 -78. Já em 1 961 ali se formou o Grupo Músico-Teatral Ngongo. o GIT vai transpor para o teatro um romance de Luandino Vieira. de vivência rural ou frequentadoras do Cen­ tro Escolar Augusto Ngangula. Mas ainda Antonino Van- "O Pássaro e a Morte" . Vai ser substituído poucos meses depois pelo Xilenga-Teatro. antropólogo e cineasta Ruy Duarte de Carvalho escreve o poema dramático Noção Geográfica ( 1 974) sobre os anos de opressão. integrado na frente Leste. que interpreta "medíocres e espalhafato- sas montagens balletico-teatrais" (Mena Abran­ tes. ainda hoje activo. e os arregimentou no GAT. que passam a constituir o GET . António Cabo (Fam ília Até Certo Ponto!). E na mata militantes combatentes do MPLA (Costa Andrade. separadas as duas componentes do ensi­ no. uma infantil e outra a partir de uma narrativa oral tchokwe: Foi Assim que Tudo Aconteceu. apresentado pelo Elinga-Teatro. em 1 972. sob a direcção de José Mena Abrantes e César Teixei­ ra. Estava dado o primeiro passo para a presença da rica tradição o ral dos povos que constituem o mosaico angolano na esfera da representação teatral moderna. Elsa de Sousa. aproveitando dos ecos do trabalho desen­ volvido no Brasil pelo Teatro Experimental do Negro. chegará a apresentar-se no estrangeiro : a peça História de Angola foi presente na Nigéria. e em S.Grupo Experimental de Teatro.

1 . Do ponto de vista cultural. João Maimona. radicado em Lis­ boa. a verdade é que a qualidade dos seus trabalhos "continua a ser manifestamente primário e de uma fragilida­ de conftagedora. -Dúnem. São. com direcção de José Sousa Sobrinho e que está agora instalado na Escola Nzinga Mbande. Com A Corda. José Mena Abrantes. . José Mena Abrantes funda o Elinga-Teatro. dirigido por Domingos Lobão na Escola Io de Maio e integrando o teatro. pela persistência dos projectos. O Oásis. tendo ganho o Concurso Provincial de Teatro de Luanda. Casimiro Alfre­ do e Pepetela. Seguiu-se A Revolta da Casa dos Ídolos ( 1 979) . crítico e histo­ riador Mena Abrantes podem pecar por demasi­ ado exigentes e rigorosas. não deixam de ser ele­ mento de reflexão. bons ins­ trumentos para animar um sentido crítico cons­ trutivo que faça desenvolver o rigor e a temperança dos grupos angolanos. hoje extinto. mais três colectivos. a dança e a poesia. Perante as dificuldades da guerra civil. Se o I Concurso Nacional de Teatro. Windhoek (Namíbia) e Estrasburgo e Marselha (França) . mas vivem tempos difíceis. Se as palavras do encenador. de Pepetela. É nessas primeiras décadas do século . Embora nas últimas duas décadas tenham vindo a lume várias obras dramatúrgicas de autores como Domingos Van. Com O Pássaro e a Morte veio ao FITEI -95. apoiado por uma empresa hoteleira. O Grupo Cul­ tural Makote. que venceu em 1 989 o I Concurso Nacional de Teatro. o seu exíguo número estará liga­ do à falta de incentivo por serem poucas as pos­ sibilidades de encenação. Pepetela entrega à história a "primeira obra de teatro angolano já estrutura­ da como tal" (Mena Abrantes. Ainda hoje está activo o Colectivo de Artes Horizonte Nzinga Mbande. reuniu 1 8 grupos de 14 províncias. não indo quase nunca além das boas in tenções [ . O Grupo Serpente. . o mesmo acontecendo na Expo-92 de Sevilha. fundado em 1 986 por antigos combatentes. também. Ouagadougou (Burkina Faso) . os fautores da arte teatral não esmorecem. é dirigido por Antó­ nio Pedro Cangombe e baseia o seu trabalho na divulgação de temas tradicionais. com Nand­ yala ou a Tirania dos Monstros. As eventuais excepções só confirmam a regra". sem dúvida. Represen­ tou Angola no FITEI-92. foi fundado em 199 1 .Dúnem. foi a muitos títulos um acontecimento que atingiu a pacatez das ilhas. a músi­ ca. Augusto Baptista/Cena Lusófona. e estará presente no II Festival de Teatro Africano. Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo."As Virgens Loucas". em Itália. Apresentou -se com grande impacto em festivais em Yaoundé (Camarões) . Armando Correia. in revista Setepal­ cos). em 1989. Merecem ainda referência. que vai representar A Revolta da Casa dos Ídolos. Em Maio de 1 9 88. muito antes da existência do campo de concentração salazarista do Tarrafal . A chegada de deportados portugueses a Cabo Verde. Manuel dos Santos Lima.

N A "Revista d e fantasia e critica local DE BEN EFICÊNCIA 64 . Fala-se ainda de forma quase mitológica do "senhor Pires dos monólo­ gos". empre­ gando-o como ao português nas suas charlas. especialmente da morna. comadre linguaruda que punha a nu os podres e as inconsequências da sociedade da época. Naquele tempo. a capital. com vários membros do elenco a cumprir quadros musicados. A PIDE pediu. A censura velava. consoante os programas. compere que fez histó­ ria. . dinamizada por João Coelho Pereira Serra. aparecem vários grupos de entusiastas de onde se destaca a Troupe Cénica Colibri. picante e demolidor. em crioulo.� � P 'l'E S E N T A A Nas décadas de 1930 e 1940 eram muitos os saraus realizados no salão de festas do Sport Lisboa e Bissau. � 29 d E M . se lançam numa experiência que redundaria em sucesso arrancado a ferros. jovem irreverente. alO de 1948 o· seu . Acontece que o monólogo foi dito mesmo. mas apesar da momentânea apetência para a representa­ ção. Era igualmente umà revista. Não descuremos a influência das represen­ tações de autos pastoris e pequenas peças sobre datas marcantes do calendário religioso movi­ mentadas pelos missionários que sempre zela­ ram. CÓMifsitrir�ENEMERÊNCIA .GI'UpO Cénico ). a coberto da inexistência de gra­ vações. compere. Só nos primeiros anos da década de 70 é que alguns jovens do Liceu Gil Eanes. a PIDE também. e que falava bem o crioulo. � . para que essas récitas fossem uma norma. Aprimoravam-se na crítica social. com quadros.hoje o mais concei­ tuado dos actores cabo-verdianos. tudo. na cidadezinha da Praia. que empolgava assis­ tências até às lágrimas ou o riso. Estamos nos finais dos anos 50. . a actividade lúdico-teatral vai definhar num ápice. Lalacho. com presen­ ças em múltiplos filmes -. de um grupo orientado por Rato de Almeida.que se inicia a actividade teatral duradoura e mais ou menos organizada em associações soci­ ais ou grupos de récitas. do Mindelo. especialista nos ditos. tomado de amores pelo lugar. alto quadro da administração colonial. como Fernando Queijas (primeiro grande nome da música cabo-verdiana. no sátão de. . conhecido pelo nominho de "João Pirolito" por ter uma fabriqueta de gasosas com berlinde. 27 . [ . ] . a ser conhecido no exterior) e com o famoso Omero Martins. Também ficou na memória Fernando Tristão. para uma récita que teria a p resença do comandante Peixoto Correia. com várias sessões . e disponível a toda a popu­ lação. nas suas instituições. e ficou na memória a persona­ gem de "Nha Kuma Sapato Bedjo" (A Minha Comadre Sapato Velho) . bastou que negasse ter dito o texto que a censura cortara. Apresentavam espectáculos de base revisteira. defendida pelo então nóvel actor Lalacho. preparara um monólogo em crioulo. festas do Sport Lisboa e Blssaú'. Leu e não gostou: todo cortado. Pela década de 40. mas um improvisado! Grande momento social e cultural terá sido o que se viveu durante as representações de Viva Cabo Verde!. militar português que se radicou no arquipélago.

Uma ousada rebeldia saudada na "capital do império" pelo Diário de Lisboa. com direcção artística de Fran­ cisco Fragoso: a literatura oral e o espírito musi­ cal tüo desperto nos cabo-verdianos vão ser ele­ mentos preponderantes na sua prática. mas quando os monitores teatrais são chamados a preparar condições (em várias ilhas. segundo recor­ da Lalacho. através das . Lalacho foi para a escola de actores do Centro Dramáti­ co de Évora (Cendrev) . Subitamente. funcio­ nou um atelier de máscaras. Lalacho continuou com experiências de tea­ tro na rua. um julgamento em que sobressaíam os valores da alfabetização. acompanhado de Lalacho.65 programadas para o cinema Eden-Parque. dado por monito­ res alemães. que se en cheu para ver a peçaA FO/ja. terá dito. de Bertolt Brecht. o então responsável pela organização. um ori­ ginal do director da companhia. " élan" que alimenta vocações e estrutura o espírito colecti­ vo: os grupos da Juventude Africana Amílcar Cabral. ajudan- do a redignificar a tabanca e o batuque. saído Fragoso das lides do palco. Com a saída para as universidades dos ani­ madores desse grupo liceal. que chegou a representar Gervásio. vindo de Moçambique. Entretanto. do escri­ tor Gabriel Mariano. após as horas na repartição entrega-se ao projecto teatral que levará à cena a peça Capitão Ambrósio. e de registo de acon­ tecimentos e episódios pícaros. Quando regressa às ilhas. nos últimos anos. de Osvaldo Osório) . a actividade teatral só vai ser retomada após a independência. p redomi­ nando os da Praia e de S. Estes são grupos independentes. em 1 978. Entretanto. é para toda a gente. para além dos debates. um 20 Encontro de ani­ madores e uma "viagem de trabalho" do ence­ nador Mário Barradas que. deveu-se ao entusiasmo de Jorge Encarnação. Luís Fonse­ ca (hoje. Nicolau. onde. e o hoje conhecido funaná. e as coisas morrem. Quadro do Ministério dos Negócios Estrangeiros. que nunca chegou a concretizar por faltarem. Ficou famosa a peça Rei de Tabanca. Simultaneamente com estas experiências outras se desenvolvem. ou os de crítica social como Kria Fama Bô Deta Bô Dorme (Cria Fama e Deita-te a Dormir) . os prometidos apoios. Vicente. discu­ tindo a vantagem de saber ler. óptimo! Mas o que é preciso é que se criem estruturas abertas a todos os interessados". de Alves Redol. que conclama as câmaras munici­ pais a mandarem representantes até à ilha de S. com a ajuda de duas coo­ perantes: uma brasileira e a economista portu­ guesa Maria Luís. Era mais do que a vontade de montar uma peça. percorreu o arquipélago dirigindo "ate­ liers" em todas as ilhas. como as do colectivo Korda Kaoberdi. nos anos 60) e onde chegou a desempenhar funções de assistente de encena­ ção de Luís Varela. especialmente com os sketches peda­ gógicos. um dos dinamizadores: "Não é exclusivamente para m ilitantes. e puseram em pé um atelier de preparação de actores. "à boca de cena". Os que quiserem ingressar na JAAC por se sentirem lá bem e pelo seu trabalho. Lalacho vem para Portugal. pela sátira. géneros musicais muito expressivos através da função narrativa de temas comunitários. Mas outro movimento ganhava corpo com a prática da construção de uma nova sociedade. Já no declínio do movimento. Este projecto culmina com o lo Encontro Nacional de Animação Tea­ tral. onde estava desde 1 959. como Maria Ka Ta'ntende Nada (Maria Não Entende Patavina) . é ainda para tentar tudo pela montagem de uma adaptação "crioula" de As Espingardas da Mãe Carral. embaixador) . quadro da Embaixada de Portugal. por sugestão de Mário B arradas (com quem tinha trabalhado em Moçambique. A JAAC é uma estrutura partidária. até então rele­ gados para os confins das localidades do interi­ or. Lala­ cho volta a Cabo Verde.

Vicente e S. . tudo se reanima. "o Alansó". as piadas eram entre colonos e para leitura da Administração. Serão. Santo Antão. e mobilizou em torno da sua experiência alguns colonos devotados à arte de Talma.o". então.verdiano e um desafio concreto à capacidade de criação e realização que se vem sentindo no teatro em Cabo Verde. Muitos destes saraus eram apresen­ tados no salão de festas do Sport Lisboa e Bissau. Também o teatro infantil conheceu diversos desenvolvimentos. segundo narrativa de Car­ los Vaz no seu livro Para o Conhecimento do Tea­ tro Africano. até pela mão de missionários. nos armazéns da Casa Gouveia. e que desde sempre desdenhou potencialidades que se vislumbravam na representação tradicional. Abando­ nam o porte amistoso e as brincadeiras. Bafatá e Bissorã pude­ ram assistir ao seu trabalho. . principalmen­ te em Mindelo e Santo Antã. Dirigiu-o Porfí­ rio Costa. António José Flamengo já trabalhara em Lisboa na revista. em Bissau. Augusto Baptista/Cena Lusófona. Participaram o CCPM. ainda hoje realizadas e com bas­ tante influência no decurso anual da vida das respectivas comunidades (os mangantas e azim- "De Volto do Guerra'. e o próprio Flamengo definia estes trabalhos como "revista africana de fantasia e crítica local". o potentado comercial da colónia. S. Nicolau. Mas as comédias. uma co-produção do Grupo de Teatro Casa Velha. e grupos das ilhas de Santiago. Estamos quase certos de terem existi­ do representações na segunda década do sécu­ lo. Um dos gerentes da empresa rival. envol­ vem-se em luta. de um acto só. não tardará a organizar uma troupe "adversária". Duraram e chegaram a entrar pela década de 40. como acontece com a Dança do Boi. como A Cigarra e a Formiga. Era formado por esforçados actores guineenses que ousaram levar a sua arte a várias localida­ des. Há grande interacção entre as gentes das ilhas. . interpreta­ da através de um bailado esquemático que mima a história de dois bois que se divertem pastando. Da ritualidade e danças iniciáticas do Nyau e do Mapico. dos anos 3D.iniciativas do Centro Cultural Português da cida­ de do Mindelo e do orientador do seu grupo de teatro. João Branco. as iniciativas ori­ entadas por Henrique de Oliveira. o Juventude em Marcha e o grupo Frank Cavaquim. em digressões que passavam a ser aconteci­ mentos maiores. a partir de 1 995. Falta ainda escrever com cautela e minúcia investigadora os primórdios do teatro moderno na Guiné. Em Setembro de 1 997 realizou-se o terceiro festival. o vencedor conquista a intru­ sa . com representantes de Portugal e do Brasil. pequeninas. "europeu". Na passagem para a década de 60 funda-se um grupo de teatro em Bolama. e teve múltiplas dificulda­ des porque a temática insistia habitualmente em problemas das populações e as entidades e casas comerciais não estiveram para apoiá-lo. uma festa que conduz à cidade do Porto Grande grupos amadores de diversas ilhas. cumpriam o seu p apel no recreio das gentes apossadas da cidade. Produções Olá (Moçambique). e cresce o projecto teatral que leva à animação do Minde­ lect. até que a entrada de uma vaca no seu prado os deixa em grande exaltação. "funcionando como um estímulo ao teatro cabo. O Mindelact vai continuar a ser o fermento da vontade de fazer teatro em Cabo Verde. A vida dos autóctones não era para ali chamada . a Casa Guedes. Bissau. mas datam só da década seguinte as primeiras referências a espectáculos de teatro urbano. Encenavam-se histórias tra­ dicionais locais e contos portugueses. e do Teatro da Rainha (Portugal). A revista imperava. a polícia política ter-lhe-á feito a vida tão difícil que a arte não vingou. Teve existência efé­ mera. louvando-a ou criti­ cando-a. 66 . .

crítico de teatro e director do grupo da Associa­ ção Cultural da Casa Velha. as cari­ caturas de diversos tipos sociais com os tiques das várias comunidades laurentinas. com as suas operetas-cómicas onde apareciam as "ingénuas". o Vasco da Gama. de Tete.ica e Madalena. mas representado por um branco enfarruscado. A estas formas remotas junta-se outra tradição de representar: a dos contadores de histórias que.uma estética teatral e uma visão da sociedade e dos africanos segun­ do a óptica do colonizador e a sua cultura. crítico teatral. em que a poesia. actor e encenador. terá sido o grande iniciador. que mantêm esses rituais mesmo quando migrantes nas cidades). ou autos cómicos como Aventuras de Um Herói. a teia dos conceitos europeus vai ignorar a riqueza destas tradições e impor . ultrapassando sem dúvida a maioria das capitais de distrito: cerca de dez casas de espec­ táculos misturavam a actuação teatral com outros momentos. É ainda a sua direcção lendária que desponta no princí­ pio do século.bas. enquanto drama­ turgo. "existem em todo o país e acompanham as suas narrações com uma mímica. . a então Lourenço Marques rivalizava com as grandes cidades portuguesas em número de tea­ tros. do Maputo. por vezes muito expressiva. os "galãs". o Cri­ ad01: Tinham as apresentações lugar num barra­ cão arvorado a teatro.agens da h istória".como se esperaria pela prática política que está na base social de quem o produz . Era Eu. e lllna modulação de voz de acordo com os vários person. nos finais do século passado. vários estudiosos fizeram análises e descrições. O período colonial traz outra visão do tea­ tro. a ginástica. São dele dramalhões como Crime An. os macondes de Cabo Delgado. rápidos entractos e quadros de óperas célebres . numa terra com tanta gente ostentando a verdadeira cor! Nesta época. Os Cavaleiros do Arcabuz ou SuaA/teza. como relata Machado da Graça. e até um preto aparecia . Carlos Silva. .

entre outras. e o TALM. na Beira. o rigor dos estatutos segregava das salas de espectáculos os negros e demais comunidades secundarizadas pela máquina colonial. Segun­ do informação de Machado da Graça. Paralelamente às peças de teatro ligeiro. Ambos vocacionados para o teatro de vanguar­ da. Bec­ kett. O conhecimento da existência de um públi­ co potencial fez estender até ao Índico as digres­ sões africanas das companhias lisboetas de revista. Por via dessas viagens aparecerá a primeira companhia profissional na capital. desenvolve-se a prática revisteira. quando peças de Imagem da co-produção luso-são-tomense "Cloçon Son': Augusto Baptista/Cena Lusófona. por altura dos anos 40. encenando. Albee. abordan­ do as contradições do seu discurso. entusiastas das artes de Talma. sendo as de autoria de Fernando Baldaque e Arnaldo Silva muito apreciadas (por exemplo. A reprodução de peças. O'Casey. Tea­ tro dos Estudantes Universitários de Moçambi­ que. Foi sol de pouca dura. É já para o final da primeira metade do sécu­ lo. que faziam a primazia destas programações.compunham programas alinhados ingenua­ mente. de 1 936. o que poderá ter sido um incentivo para os actores. orientado por Mário Barradas. Cervantes. tendo mesmo sido criado num momento em que se pode até falar de crise na capital -. não era só em Lourenço Marques que estas experiências se desenvolviam. Uma excepção fez dirigir os olhares para a problemática moçamb icana. na presença de um trio de peque­ nas obras que denunciavam a ordem racial esta­ belecida pelo colonialismo português. que ali se radica e catali­ za a paixão de amadores locais. cinco obras de Gil Vicente. Antes. rotundo êxito repetido com Palhota de Moçambique e Zona Perigosa) . dirigido por Inácio Gouveia. muitas vezes desenhados e escritos por esses laurentinos da colónia. levaram à cena peças de Sttau Monteiro. de Areosa Pena no Xai-Xai. 68 .o TEUM. Teatro de Amadores de Lou­ renço Marques. com a presença em Nampula de Fernando Barroso. Tchekov. adeptos do teatro ligeiro e do teatro "de formas superiores". Todavia. O Império das Laurentinas. Só na década de 60 as coisas mudarão. Miller. e com a acção de dois grupos importantes na capital . que se desenvolve o gosto pelo teatro em várias associações culturais e recreativas. o Grupo Dramático Edu­ ardo Brasão. de Malaquias de Lemos à frente da Cooperativa de Teatro da Beira (que haveria de representar O Dia Seguinte. É destes primeiros anos d e 4 0 a polémica que opõe. de Luís Francisco Rebelo). operetas. as condições não estavam ainda criadas para a sustentação de carreiras dedicadas ao tea­ tro. Estáva­ mos em 1 959. que chegavam a integrar no seu repertó­ rio quadros de temática local. revis­ tas faz-se ininterruptamente. cerca de 1 950. Afonso Ribeiro ainda escreveria o drama Três Setas Apontadas ao Futuro. criada pelo actor Henrique Santos. com quem Fernando Gusmão trabalhou. A movimentação teatral parece estiolar até aos fenómenos dos "sixties". nas páginas dos jornais e no Rádio Clube de Moçambique (RCM) . e a falência foi declarada.

em que a magia do espectáculo e a simbiose entre actores e espectadores transforma cada representação num inolvidável acontecimento interactivo. estudantes e trabalhado­ res. dirigido por Gilberto Mendes e nascido de uma "dissidência". uma inquietação. algo de pedagógi­ co. instrumento para debate e instrução. quer para a prática cénica moderna do primeiro grupo. São ainda dessa época obras como Chibalo. São levadas à cena por um grupo de guerrilheiros. os progra­ mas conhecem sempre salas a abarrotar. agrupamento j uvenil animado por Pedro Paulo Ferreira. nas matas e nas zonas liber­ tadas pela guerrilha da Frelimo (Frente de Liber­ tação de Moçambique). Enquanto isso. como veremos.em torno da vivência moçambicana. sobre cujas remi- . e Javali Javalismo. Destaque-se o trabalho do conjunto ligado à Direcção Nacional de Cultura nos bairros periféricos do Maputo.um mais eru­ dito. num trabalho mili­ tante de intervenção política. enaltecido pela crítica de vários países pelo nível bastante elevado. A PIDE ataca sem perda de tempo. criou os grupos-satélites ama­ dores Gungulinho 1 e 2. aliás. uma crítica contundente à Conferência de Ber­ lim e ao "mapa cor-de-rosa". Tanto o Mutumbela Gogo como o Gungu (que. Esta é. de Orlando Mendes. Esta caminhada e o potencial de interesse que se percebe por parte de um público de olhar atento e predisposto para o jogo teatral são os alicerces para a situação actual. um pilar que se mantém eruptivo sob a direcção de Manuela Soeiro. um grupo não-profissional que reside igualmente no Teatro Avenida e que é o alforbe de novos talentos para a companhia­ mãe.:eleni. quer para o trabalho de cariz "boulevar­ diano". levado a cabo por grupos instáveis. uma das mais brilhantes caracterís­ ticas de uma situação teatral que surpreende o forasteiro e se desenvolve em várias vertentes. A sua acção ultrapassou esta fase de campanhas militares. É um sucesso de impacto.69 Lindo Lhongo foram encenadas por Norberto Barroca (na sua estada de dois anos. preferencialmente maputense. pois havia múltiplos graus de leitura. e Um Minuto de Silêncio. sobre o colonialismo. entretanto. com laivos revisteiros. e é um autêntico vulcão que tem possibilitado veios que se vão autonomi­ zando: o M 'Beu. e o Teatro dos Jovens Continuadores. Com o seu apoio e o do departamento de Cultura do Governo serão apresentadas várias peças paradigmáticas do ambiente cultural dos primeiros tempos da jovem República Popular: A Partilha da África. Com a dissolução da estrutura herdada da guenilha. de Marcos Tembe. Rui Nogar. e o Gungu. A referência imediata faz-se ao Mutumbela Gogo. mas através dele lançava-se um olhar críti­ co para as formas tradicionais de estabelecer casamentos. e dá atenção parti­ cular aos originais moçambicanos. Mia Couto. 1 9 70-72) p ara o TALM : Os Noivos ou uma Conferência Dramática sobre o Lobolo e As Trinta Mulheres de MW. entre outros. procurou novos caminhos. o pri­ meiro dos quais analisava realmente o lobolo (o dote entregue pelo noivo à família da pretendi­ da) . Quanto à sua relação com o público moçambicano. o teatro era arma de cul­ tura. impondo-se mesmo depois da independência. Para quem não tem podido acompanhar as suas digressões a Portugal. tendo levado à cena Bernardo Honwana. sobreveio um tempo em que o teatro. é importante realçar a qualidade internacional do trabalho destas companhias. O Grupo Cénico das Forças Armadas de Moçambi­ que foi ferramenta imprescindível para realçar a justeza da luta de libertação e retratar a socieda­ de colonial. Diz-se-Ihe que era uma "coisa de escola". estando o último na base de uma actividade lúdica infantil) se desenvol­ vem estruturando o seu discurso . outro mais popular . que é uma peça sobre temática africana.

Strindberg. do corpo já pujante mas sempre em neces­ sária progressão dos seus espectadores. Lourenço. Xigutsa. Moliere. que não se restringe a ele. já 70 . distrito de Boane. muita da emigração para o povoamento madei­ rense terá vindo do Minho. Mburi Ya Ti Mburi. do edifício das suas múltiplas companhias e gru­ pos. Soyinka. Tomé e representam-se repetidamente. de gestos cénicos. por momenclaturas mais próximas da origem dos textos: Tragédia do Marquês de Mân tua e o Impe­ rador Carlos Mago (ou Cario to Mangano) . etc. Tragédia do Capitão Congo. uma vez que o primeiro texto tem fixação em português: foi escrito por um poeta e dramatur­ go madeirense. mas sem deixar de rematar com a informação de que há dezenas de colectivos amadores.niscências se ergue um edifício tipicamente afri­ cano.ço­ Congo e o S.go são característicos de S. antes de todas essas especulações. como os maputenses Orpheu. apegada o mais das vezes a projectos claramente difinidos e maturados por uma prática séria e persistente: foi o caso do Tchova Xita Duma . dividem-se as opini­ ões sobre quando chegaram à ilha. que apresentou impor­ ta lHes textos de Brecht. o Dan. A história do seu teatro é uma valoro­ sa coluna do seu desenvolvimento cultural. de vontades múltiplas de representar. Também o Auto de Floripes se repre­ senta (ainda hoje) no norte de Portugal. nas clareiras e nos terreiros. Chico Buarque de Holanda. Auto de Floripes. que funciona consoante uma filosofia de agrupamento amador mas em que o "profissio­ nalismo" com que encara o trabalho de van­ guarda orientado por Machado da Graça através de peças de Eugene O'Neil. Os moçambicanos só precisam de ter aten­ ção em criar condições para que o tecido orgâ­ nico que constitui o seu teatro se desenvolva sempre. Trata-se de uma obra clássica. a explicação que mais me contenta: os moçambicanos adoram teatro e criaram laços valiosos com a sua essência. Birago Diop ou do português Pitum Keil do Amaral -. nos quintais.deve ser real­ çado. -. Aliás. Gota de Lume ou o grupo da Escola Básica Agrá­ ria de Umbelúzi. durante a maior parte do ano (de preferência na estação seca) e o mais das vezes no interior da ilha. mas igualmente por uma postu­ ra em palco que define uma escola bem arqui­ tectada e que conquistou centenas de adeptos ávidos por deliciarem-se com uma saborosa sátira que faculta contornos picantes às contun­ dentes críticas da sociedade e da classe política. Projecto Mwana. do século XVI . Se quer o Tc1úloli. Haverá milhentas justificações sociais e psicológicas para o fenómeno? Por mim gostaria de registar. É tempo de deixarmos de nos espantar com esta profusão de iniciativas. espalhados pela periferia da capital e em certas localidades do interior do país.neste momento desactivado. Pirandello. Traduzamos. quer o Danço Con. do Grupo Cénico 4° Con­ gresso e do grupo da Associação Cultural da Casa Velha. pelo que não estra­ nha que possam até ter sido os mesmos a intro­ duzir as duas peças no pequeno arquipélago africano. A vontade é estabelecer uma data condizente com a chega­ da dos primeiros colonos vindos da Madeira. As suas origens são remotas. da escola vicentina e de nome Baltazar Dias. Fiquemos por aqui. Fugart. consubstanciado pelas histórias e tipos representados. através do cimento dos seus actores. Aos dois expoentes do teatro moçambicano actual j untam-se outras experiências que demonstram igual personalidade. Tudo na representação são-tomense se cen­ tra na trindade de peças que dão corpo a uma extraordinária história de "miscigenação" de textos e práticas teatrais: O Tchiloli. sempre que "encomendados". Thaguma.

Bobos e luciferes. cartaz específico da ilha do Príncipe. Para além do grupo da localidade de Boa Morte. no burgo. alguma coreografia de passos. É curioso perceber como o Tch iloli se com­ põe de rituais próprios de representação. como se disse. O Danço Congo passou a Tragédia por influ­ ência do Tchiloli. interpretado exclusivamente no Prínci­ pe. apesar de este trio ser tão feé­ rico e marcar tanto o espírito dos ilhéus! Entre 1 965 e 1 969 o Grupo Teatral de São Tomé subiu ao p alco do Teatro Império para apresentar Os Mangas de Alpaca e D'lambi. e até desenvolveram uma actividade considerável no estrangeiro. a fidelidade.similarmen­ te ao auto levado a cabo pelo povo da aldeia das Neves. Após a independência. apenas a mímica integrada nos pas­ sos de dança e canções. os rituais das três formas tradicionais de expressão mantêm-se. misturam-se já com duen­ des e feiticeiros genuinamente africanos. É uma pantomina que lembra a vida dos escravos congoleses nas ilhas do café e do cacau. Outro interesse reside na forma como o texto "clássico" e o texto "local" se entretecem numa encenação que dura fre­ quentemente um dia inteiro e traz até ao Equa­ dor o imperador Carlos Magno para ritualizar a justiça. Lourenço. uma vez que muitas horas exigem que a mesma seja mescla­ da com diversos afazeres dos participantes­ espectadores. a magia de alguns momentos da trama. em Viana do Castelo . O destaque irá para a actividade dinamizadora de Ayres Veríssimo Major. que assume o encargo como quase que de um ritual se tratando. apesar de penú­ ria em que vivem as Tragédias. Não cabe aqui espraiar o texto. por exemplo) . O Auto de Floripes. sim enunciar como a representação se liga com a vida. tratando da rela­ ção entre eles. A memória das gentes não omite a outra prática teatral. Tomé e Príncipe veio integrar o enlenco da adaptação do romance A Nau de . governo e movimen­ to de libertação (MLSTP) incentivaram diversas iniciativas teatrais. director do Centro de Artes e Espectáculos. sempre um homem mesmo quando as personagens são femininas. bem na tradição europeia. cada papel é representa­ do por muitos anos pelo mesmo "actor". As derradeiras experiên­ cias trataram-se de co-produções com o grupo português O Bando: em Lisboa um grupo de actores de S. A dança é um estímulo certa­ mente inovador da interpretação integrada nos hábitos africanos. a verdade e a razão. Depois da independência. assim como a música tal como hoje é interpretada.71 o Auto.da luta entre cris- tãos e muçulmanos e da presença de uma don­ zela que. o local Cosme Menezes e o português Manuel da Silva. trata . em dia de S. tem uma só representação. com dificuldades para manter os seus guarda-roupas em condi­ ções. Cha­ mam-se tragédias aos grupos que o interpretam (a Ti'agédia Formiguinha da Boa Morte é uma das mais carismáticas) . dois dramas do escritor local Fernando Reis. que foi igual­ mente o investigador pioneiro das artes céni­ cas tradicinais são -tomenses. A segunda peça foi considerada multi-racial por pôr em cena dois agricultores. Mas a prática de um teatro mais "clássico" tem sido esporádica durante todos estes anos. que equilibram os momentos do Tc/liloli com os instantes inadiáveis da sua vida pessoal (necessidades básicas como a alimenta­ ção. o 15 de Agosto. Tragédia Santo António de Madalena. Tragédia Benfica de Bom Bom. exis­ tem outros colectivos: Tragédia Madeirense de Madre de Deus. passando-o por vezes de pais para filhos. nomeadamente as de forma­ ção de vários grupos ligados à Juventude do par­ tido. Tragédia de Caixão Grande. segundo a tradição. tem de p ermane­ cê-lo até ao dia da representação que o cupa lite­ ralmente as ruas do burgo de Santo António do Príncipe. Não há texto de suporte da acção dramática.

São já integrados nas expressões culturais urbanas que se detectam os fenómenos teatrais. dinamizaram-se sucessivos grupos no liceu da capital.Qu. no colégio religioso de Soibada. escrita pelo são­ tomense Fernando Macedo. estes têm uma ligação mais directa com a gestualização mímica que acompanha danças e folclore. A primeira representação de que há memória no território foi efectuada em meados do século passado. Um êxito. Tomé. esse irmão colocado mais a oriente. à parte as representação ritualistas próprias dos actos mais marcantes do desenrolar da vida dos agregados populacionais.ixibá. medida espontânea nortea­ da pela necessidade de defesa das suas raízes culturais. um colectivo de bonecrei­ ros estacionado num lugar recôndito da ilha de S. É por isso que se podem destacar iniciativas nesta área do Seminário de Daré e do Colégio das Madres em Balide. de Pinheiro Torres. mormente em torno dos quadros bíblicos e das alusões a datas festivas litúrgicas do calendário católico. Menção especial para o grupo Pio Mon Deso. e que animavam récitas concorri­ das. A mímica e a dança prevaleceram sobre as fórmulas interpretativas "europeias". cená­ rio. um bairro de Dili. numa acção de formação intensiva da iniciativa do 72 . depois nova peça. Um povo oprimido resiste igualmente através dos seus hábitos e da sua produção cultural e o teatro pode potencializar gritos de revolta e de alerta. longe de África mas perto do coração de todos. Só com a dinâmica criada em torno das Jornadas pela Democracia em Timor. Hoje. Primeiro o workshop. Ser-me-á permitido acrescentar umas linhas sobre o estado do teatro timorense. com música. tal como costumam ser outras peças que os grupos amadores representam. rituais. Na volta. interligando vivências do quotidiano com festas. que traduziam a vontade de emparcei­ rar com manifestações modernas da arte de representar. reproduzindo assim toda a força da sua cultura. Na década de 60. a prática cultural é antes de mais dirigida para a manutenção dos ritos e ati­ tudes tradicionais. em pleno centro de Timor-Leste. e envolvendo principal­ mente timorenses. Não há tradição teatral na cultura timoren­ se. foram os de O Bando a S. Também aqui foram os missionári- os a introduzir a prática teatral. ses­ sões quinzenais com vista ao desenvolvimento do espírito democrático e da prática da cidadania activa . tra­ dições. Este grupo tem vindo a protagonizar um projecto de aprendizagem e j á apresentou "sket­ ches" em torno da dolorosa situação timorense. depois de episódicas mas não menos significativas repre­ sentações por altura da estada dos primeiros refugiados timorenses no Vale do Jamor. Tomé. é que apareceu o primeiro projecto de acção teatral no seio da comunidade timorense. a prática teatral no interior do territó­ rio é muito reduzida. da Uni­ versidade do Porto. a simples reunião de pes­ soas em torno de um projecto cultural não é fácil num clima altamente repressivo e de suspeição permanente. Cloçon San. numa base de ingenuidade e profunda sabedoria popular que compõem uma crítica cerrada a usos e costu­ mes. (Pela Mão de Deus) . dois timorenses integraram o grupo internacio­ nal que estagiou no Teatro da Trindade.dinamizadas pela equipa orientada pelo professor Barbedo de Magalhães. figurinos e actores de S. No seguimento deste trabalho mais sistemático. Na diáspora. Tomé. e que usa as figuras excepcionais talha­ das por mestre Capela. há cerca de trinta anos. mas também portugueses e alguns jovens de outras nacionalidades -. Aliás. de que nem sem­ pre se fala quando se fala de cultura no espaço chamado lusófono.

Timor­ -Leste é. do ponto de vista do Direito Interna­ cional.o actor timorense José Amaral contracenando com a cabo-verdiana Odete Môsso durante o Estágio Internacional de Adores lusófonos.não podem esquecer uma ferramenta tão útil para a mobilização das soci­ edades (até da portuguesa em torno do ideário autonómico timorense) . Carlos Vaz. e ainda o Ministério da Cultura e da Educação . que já vai longo e está tão resumido e incompleto. os seus gritos de revolta. Tomé. de Moçam­ bique. como as que têm a responsabi­ lidade das relações de Cooperação. Lalacho e João Branco. as suas esperanças e mal querenças. Mia Couto. Depois deste roteiro. Entre outros. de Cabo Verde. misturadas num turbilhão de desejos e de criatividade. perspectivando conti­ nuidade ao lançamento destas p rimeiras pedras. E todas as experiências aqui narradas são um pouco da história destes povos. Augusto Baptista/Cena lusófona. da Guiné-Bissau. têm vindo a guardar a recordação desta aventura ainda tão singela e já tão grande do teatro em tão diversificadas paragens. Malangatana. Ayres Major. de S. uma vez que não pode exercer os actos administrativos no interior do território com total liberdade) . Nunca nestas últi­ mas tão difíceis três décadas houve tão boas perspectivas para esse desenvolvimento. a sua ironia acesa. dando origem ao espec­ táculo Fronteira. 73 projecto Cena Lusófona (com a colaboração de Expo-98 e do INATELl . As entidades que lideram a comunidade timoren­ se em Portugal. Cena lusófona/lnateI/Expo'98. José Mena Abrantes. um território sob administração portu­ guesa (tendo o nosso país responsabilidades acrescidas para com a comunidade aqui sedia­ da. Manuela Soeiro. um texto de criação colectiva sob orientação de Rogério de Carvalho. Tea­ tro e vida. A possibilidade de estas sementes poderem desenvolver um plano de dinamização da expressão timorense através da representação teatral é um factor aliciante. � . resta registar os esforços de alguns para que esta memória não desapareça: de Angola. Machado da Graça.

respeitando todas as esquinas da memória. tinha uma história muito antiga. Pertence também à Cultura e à cultura desse país encontrar os mecanismos que conduzam à concepção e difusão das descobertas científicas e de todas as formas de arte. angras. assim como à Cul­ tura pertence o que é profundo no social e men­ tal dos fenómenos culturais. Faz­ -se a cultura dum povo rasgando todos os véus. ilhas. Do encontro da cultura médica europeia do final de Seiscentos com as seculares artes de curar das Índias orientais. para que tudo faça sentido e se possibilite a Escrita da História. plantas e . Na Índia. indecifráveis. mas também pelo que já tinha sido descoberto no mesmo domínio. nasceram Regimentos de Remédios surpre­ endentes.A Escrita da História Oriente Ocidente Is a b e l MO n t e i r o FAZ-SE A CULTURA DUM POVO COM A SUA LÍNGUA. Uma descoberta científica não é deter­ minada apenas pelo local onde aconteceu. apesar da vigilância da Inquisição e dos índices expurgatórios. Os diários de bordo e os rela­ tos dos viajantes. E a percepção do paradoxo começará a abrir horizontes no caminho da ciência. por vezes. Pertence à cultura de um país os mecanismos que conduzem à concepção e difusão das desco­ bertas científicas e de todas as formas de arte. em constante mudança. O Homem aventurara-se na descoberta da Natureza e do desconhecido e d ava conta que a própria Natureza. que mais tarde e em chão firme. os seus feitos mais heróicos. Pertence igualmente à cultura o que é pro­ fundo no social e mental das manifestações do espírito. o fenómeno religio­ so andava ligado à medicina tradicional. a sua literatura. certos animais e minerais eram incorporados ou rejeitados na farmacopeia ou na gastronomia. contariam tempestades e naufrágios. da mesma forma que certas plantas. Cartas de navegar traçaram rotas no mar sem memória e a geografia da terra encontrada enche­ ra-se de nomes de cabos. promon­ tórios e penínsulas.

. os conquistadores e toda a autoridade tirânica. que afirmando-se católico con­ victo. 1 694. demonstram o inte­ resse dos leitores por relatos de viagem e experi­ ências de todo o tipo vividas na Viagem e no Ori­ ente. porque contrárias à lei de Deus. .Albert Eckhout. os naturalistas encontraram unidades auto-evidentes entre plan­ tas e animais. Bossuet. Theotri Rerum Noturolium Brosilioe.excluindo' o homem que mantém a sua unicidade -. misturando o real e o fantástico. o que permitiu a elaboração de um catálogo de todo o mundo natural universalmente utilizável. insurgia­ se contra a guerra injusta. avec sa Relation de nnquisition de Goa ( 1 688) . cativarão mais tarde os historiadores das ideias. Da Igreja. Pid. não merecendo hoje a aten­ ção dos historiadores da literatura. Enviado para Portugal. em 1 6 de Março de 1 668. No prefácio da Nouvelle Relation . cirurgião francês. filho de Luís Dellon. Dellon ( 1 649-1 709?) pas­ sara de médico e relator de viagens a herói. Amsterdão ( 1 699) . dos usos e costumes dos seus habitantes. No século XVII. Reino de França. alemãs. com o título refundi- do para Voyages de M. De regresso a França. feito com a preocupação de apresentar exaustivamen­ te a realidade. As nove edições. é um exemplo desse mundo natural utilizável2. consegue o per­ dão. et dans la Route". a Bossuet ( 1 6271 704) . Nouvelle Relation d 'un Voyage a ux Indes Orientales. . deve esperar-se a defesa das viúvas. solteiro. doenças novas e o modo de as curar. era condenado pela Inquisição de Goa por herege. que pertencia à Companhia das Índias. cujo pensamento sobre a justiça se situava na esfera do religioso. . holandesas e ingle­ sas no século XVII. A partir da segunda metade do sécu­ lo XVII . Dellon. dos órfãos. 75 animais surpreendentes. III (pos!. informam-nos da terra encontrada. À seme­ lhança dos cartógrafos da Terra. por curiosidade cientifica. O "Traité des Maladies Particulieres aux Pays Orientaux. agora símbolo do martírio e da resistência ao poder arbitrário do Santo Ofício. a clemência e a imparcialidade dos seus julgamentos. escrevia. Pedro II. Docteur en Medicine et auteur de la Relation de Goa. levou os naturalistas a empreenderem a catalogação dos espécimes vegetais e animais de forma exaustiva. ilustrando livros e histórias fabulosas contadas por viajantes e divulgadas por uma imprensa que visava satis­ fazer a imaginação e o gosto do público pelo exó­ tico. onde amostras do Novo Mundo se misturavam com as do Oriente e África e a moda de coleccio­ nar tudo o que era estranho. da determinação dos navegadores. Dellon com 23 anos de idade. vol. A confusão estabelecida por esses relatos. circulavam por toda a Euro­ pa. desenhos dos espécimes da flora e da fauna encontrados em terras e mares longínquos. "Sob o n úmero 70. o autor diz ter tido conhecimento de um seu amigo. do espanto e também do medo. Biblioteca Jagiellonska (Libr. 5 anos para as galés de Portugal e para sempre do Estado da Índia''3 . porque são esses livros que melhor representam a opi­ nião comum de uma determinada época 1 . e mais sete em francês e três em inglês no século XVIII. casada já então com D. para cumprir a pena. A protec­ ção do Bispo de Meaux poderia vir a ser neces­ sária a Dellon. ministro de Luís XIV e ideólogo do poder legítimo e absoluto dos reis. A 35). natural d 'Aguede. assistente neste estado. com a cumplicidade do médico de Maria Francisca Isabel de Sabóia. nos quais a descrição das atrocidades pra­ ticadas pela Inquisição de Goa iria ocupar um lugar certo de atracção. fora arbitrariamente e injustamente con­ denado pela Inquisição de Goa. Embarcara para o Oriente. animais e plantas são catalogados. Cracóvia. Dellon dedica a sua obra. Amster­ dão ( 1 699). embora em espécies fIxas e sem mutações. incluído na Nou­ velle Relation d 'un Voyage faite aux Indes Orien­ tales de MI: Dellon. Religioso e também estrangeiro. Livros há que. A 1636). no barco La Force. Amsterdão. educado no respei­ to das leis.

Escrito em língua francesa e editado em Amsterdão no ano de 1699. "Cangé[z] aquecido" cinco ou seis vezes por dia. Mas é o mau uso da pimenta no tratamento dos doentes que o indigna. ao temperamento do doente e à. Mas é em Damão .ao tempo governado por Manuel Furtado de Men­ donça . como alimento. . et dans la Route. aplicam uma enorme quantidade sobre a cabeça do doen­ te. longe de outros olha­ res. não davam a quem tinha febre. Dellon tem consciência e orgulho da sua condição de médico e cirurgião que o habilita para o tratamento e profilaxia das doenças. Biblioteca Nacional (reservados). . nem ovos. diz-nos com admiração. via-se confrontado com novas doenças e dife­ rentes hábitos curativos na Rota. . não metropolitanos. O crescimento não linear da leitura em Portugal. os Panditas. pimenta! " A sangria do pé. para aquecer o cérebro. aplicam sem ino­ vações e sem atenção às diferenças de sexo e idade. da literatura e da historiografia"4. que 'a longa experiência que [os Panditas] têm da região faz com que tenham mais sucesso que os estran­ geiros e que estes sejam obrigados em m uitas oca­ siões a seguir-lhes os métodos. de certa forma. as viagens filosófi­ cas do século XVIII. acrescenta: '1<1. no Malabar e noutros países orientais. et de les Remedes". em quatro ou cinco pin­ tos de água. "Gente sem estudos". nos finais do século XVII. de limão .cujo nome esquecera. purgantes de chicória. que Dellon informa ser prá­ tica corrente na Índia e nos países que visitou. O "Traité des Maladies particulieres aux Pays Orientaux. "Para lá da pimenta que misturam ao canjez. que sem outro conhecimento que um certo número de receitas herdadas. em que irão revelar­ se os pioneiros. Explica ao pormenor como se confeccio­ na: meia libra de arroz. do jornalis­ mo. força da doença [ . que a informação das doen­ ças se cruza com o tratamento dos médicos gen­ tílicos. muitos viajantes estrangeiros referem a inquisição e a censura como instituições causa­ doras do atraso intelectual em todo o mundo português. Ventosas. em Nova Goa. lavagens com folhas de sene e tamarindo. Apenas água e. Na Índia. Irónico. desculpando-se ou acusando. que estudara anato­ mia e utilizava medicamentos químicos e com­ postos. quando com­ parados aos remédios químicos usados pelos estrangeiros. Com tradução e anotações de Miguel Fran­ cisco de Abreu. que eles dizem estar o tratamento com ventosas era um dos métodos que Dellon considerava simples e pouco eficaz. se não querem cor­ rer o risco de insucesso". veio a lume pela Imprensa Nacional no ano de 1 866. Lisboa.são métodos que Dellon consi­ dera simples e de pouca eficácia. de rosas. tanto políticas como pedagógicas. outra obra de Dellon. que depois de bem cozido se coa por um pano fino de linho ou algodão. colher a colher. escreve Dellon. Tal como o autor da Rela­ ção. ávido do fabuloso e exótico. ] Muito tímidos deixam morrer um doente por não ousarem ministrar um remédio que lhes mereça dúvidas"5. "conquistando uma geração intelectual sur­ gida na sequência das reformas liberais. incluído na obra Nouvelle Relation d 'un Voyage faites aux lndes Orientales ( 1 694) de Charles Del­ lon antecipa. estar a apodrecer nos cár­ ceres do Santo Ofício. O médico e cirurgião.0 ouvido vos digo que de vez em quando os Panditas acrescentam ao canjez. refere o olhar do europeu erudito. sanguessugas (quando não se pode sangrar o doente). num tempo em que isso não era comum.e em Goa. Queixa-se. "sem ciência e selTt nenhuma luz de ana­ tomia. sobretu­ do quando a vê utilizada como remédio para as urinas brancas em doentes com febre. merece a sua aprovação quando a compara à do braço. nem caldo de carne ou peixe. na segunda metade do século XVII e primeira do século XVIII. faz-se através de um público erudito que se revê nas críticas dos que nos visitam e também de um outro. nem carne. Narração da Inquisição de Goa ( 1 688).

e eu já a tentei comigo e com outros. A diarreia. na sua parte mais calosa. insónia. Os médicos gentílicos espe­ ram que a natureza e o calor rebente e expulse o pus das pústulas. como remédios. apesar de ter como curativas as suas plan­ tas. umas vezes forte e elevado. Cobras verdes. Doenças conhecidas na Índia e na Europa distinguem-se nos seus tratamentos. t578. é outra das doenças comuns aos indianos e aos povos de todos luga­ res da Rota. informa que tem o único remédio que cura esta doença. com insucesso. ao sucesso dos Panditas é a prática por eles utilizada no tratamento do Mordechi. . Também eu assim pensava quando che­ guei à Índia. os doentes são totalmente abandonados à sua sorte. e a desprezem por nada ter a ver com a doença. acontece uma grande dissipa­ ção dos espíritos [ o o . de Cristóvào da Costa. rejeitando totalmente o ópio e a coalhada. No Malabar. Antídotos estranhos como a pedra que . utilizam apenas o cangez. colocam-lhes à mão um pouco de cangez. segundo o autor. que o fez tomar cinco ou seis dozes de ópio misturadas com jagre (açú­ car mascavado de palmeira) .den te interrogar o doente sobre a sua conduta. porque viu os seus resultados. Dellon. Aprova a queimadura que os Panditas fazem no pé do doente. e que lhe fora transmitido por uma pessoa que estivera nas Índias e que muitos favores lhe devia. Burgos. mas é de facto necessário submeter­ se à experiência. expostos em sítios fora do caminho e do olhar dos outros. 77 arrefecido. . A primeira concessão de Dellon.-% 0 . depois de ter tentado os meus métodos inutilmente''7. outras tão fraco que dificilmente se pode sentir.d""t�rAlfor. recomendando­ lhe abstinência. acompanhada com grandes dores de cabeça e vómitos. Pimientà: Hoj� da. Dei. "Do remédio também se morre". . o que não é difícil num clima que pelos suores contínuos. Do remédio também se morre . ] Os Indianos que são mais moderados que os Portu. boa comida de fácil digestão. As urinas são vermelhas mas transparentes. Aos doentes que caem numa sonolência provocada pela veemên­ cia das dores. alteração. os europeus são mais atreitos a esta doença pelo uso excessi­ vo q ue fazem do vinho e da aguardente. sempre com sucesso. Os portugueses. É o caso da varicela. fora dos olhares e ouvidos dos pais ou parentes.gueses são raramente atacados por esta incomodidade'1J. o arroz. Raramente estes doentes escapam. Como Dellon verificou. Pela leitura do Tra i té des Maladies verifica-se que Dellon menospreza os tratamentos dos médicos gentí­ licos. um religioso que o médico francês tratava. No capítulo VIII do Tratado. muito contagio­ sa lá e cá. No Malabar. pediu-lhe que chamasse um Pandita. Perto da árvore onde estão acorrentados. Sangrias e lavagens das pústulas antes de estas rebentarem são tratamentos recomen­ dados por Dellon. Embora as precauções dos portugueses lhe pareçam sensatas. para tratamento do Mordechi (tipo de indigestão pro­ vocada por excesso de bebida e comida) . o médico fran­ cês refere uma doença "que os Portugueses cha­ mam de Esfalfados". de uma grande disenteria. a não ser que caiam nas mãos dum europeu'>6. em todo o texto. Esfalfados eram aqueles que esgotaram as forças "no deboche com as mulheres. Planta da pimenta no Tratada das Dragas e MediclflOs das índias Orientais. cobras com veneno rápido e mortal. caldo de pão. Compete ao médico pru. quando têm disenteria. os Panditas dão-lhes várias doses de dez grãos de ópio por dia. O religioso morreu. sem nos revelar o segredo. pulso irregular. pjlll!ihtAi. ovos frescos e vinho com água. o pão e a água que estiver tapada e. carne com bom suco. Os sintomas são a grande secura.d". mas nunca água. "Não duvido que muitas pessoas achem bizarra esta maneira de queimar os pés. tomam apenas os adstringentes. indianos e europeus. completam o tratamento. . ervas e essências. prescrevendo as sangrias somente quando as urinas ficam coloridas. calor.

É frequente entre os negros e raramente a doen­ ça atinge os europeus. M. é necessário uma dieta de alimentos for­ tes. ainda ser de grande utilidade nos partos e na gra­ videz indesejada e nas febres de toda a sorte. provoca graves lesões que só desaparecem quando se conseguem tirar esses vermes manualmente ou então matar com taba­ co pulverizado. uma vez intro­ duzido na pele. misturadas com duas colheres de Água de betónica. nos epilépticos e no caso de apoplexia. descalços. 1595. que ataca aqueles que. nos locais das queixas. Dellon termina recomendando que "Quem quiser utilizar estes dois remédios. uma em jejum. ou golpes profundos no sítio da mordedura são. aplicam-se panos finos de linho ou algodão embebidos numa mistura de pó de pól­ vora decantado em água de rosas e infusão de tanchagem. Este Tratado termina com a descrição da Essência Cefálica que o autor também conhecera na Pér­ sia. Ruviere. Pedra de cobra que cai quando fica saturada e renova a sua força quando posta em leite. segundo Dellon. Amsterdão. Dellon. que recebera esta receita de um estrangeiro que conhecera em Bander-Abassy. embebendo-se do veneno que a cobra depositou. é útil também nas dores dos dentes quando apli­ cada localmente. na Pérsia. O sacrifício de um dedo. espera remédio. invisível a olho nu. próximo de São Roque" (Paris. O bicho. E. os vómitos e o escorbuto ou mal da terra. além do uso regular de pó de víbora. lidam com imun­ dícies ou trabalham descalços nas construções. pelos seus exces­ sos. encontra-os fielmente preparados no Apoticário do Rei. Por­ que nos fala do universal pelo particular. Na Índia. . Pedras de cobra há pou­ cas e nem sempre à mão. Verdadeiramente eficaz nos vapores das mulheres. pre­ conizando tratamentos e conselhos ainda hoje actualizados. Apli­ cada externamente. igual­ mente os mais privilegiados. Quando tal acontece abre-se o local da mordedura e tira-se o sangue envenenado com uma ventosa. Koninklijke 8ibliotheek. que o Tratado de Dellon vale. Se persis­ tir a infecção. nos primeiros capítulos do seu Tratado. Haia. A profilaxia da doença faz-se com duas colheres por semana da essên­ cia. O médico francês relatou. se a frequência da doença atinge os mais desfavore­ cidos (os Negros atacados pelo Bicho) . as doença da Viagem. Outros sítios infectados pelo bicho devem ser lavados com uma decocção de limões a que se junta uns grãos de sal. diz-nos Plantas e frutos da índia numa gravura do lIinerorium . Pedra que se coloca e depois se agarra à ferida aberta pela mordedura e aí permanece sem haver necessidade de a segurar. Para o tratamen­ to da mordedura. A Essência da Pérsia é um remédio subtilíssi­ mo contra a epilepsia e a apoplexia. 78 . Dellon falou-nos da doença e da cura. também. 1 699). de Jan Huygen van Linschoten. No século XVII e ad seculorwn. . É por isso. tem poderes cicatrizantes. outra à noite.dizem encontrar-se na cabeça de outras cobras. procedimentos habituais na Índia. que na intimidade do seu sofrimento. se tomado regularmente no Inverno. Do corpo. na Europa. regados com sumo de limão e um bom vinho para acompanhar. ainda. em todo o Mundo. como era o caso dos portugueses. são os mais sujeitos ao Mordechi e ao esfal­ famento. O Bicho foi o nome dado pelos portugueses à doença provocada por um verme que se intro­ duz nos pés e nas pernas.

os efeitos dife­ rentes em climas diferentes e o perigo da falta de vigor perdido na viagem. dietas e recorria a cer­ tos rituais de magia e superstição. os menos atingidos pelo escorbuto são os capitães e oficiais de bordo porque se alimentavam melhor. "os indianos tinham a ideia que os alimentos influíam nas faculdades intelectuais e morais. Os vaidyas. Numa sistematização digna de nota adopta­ se o diferente e incorporam-se referentes múlti­ plos vindos do conhecimento antigo e do novo. mis­ turados com o sumo de limão galego. continua a esclarecer-nos Maria de Jesus dos Mártires Lopes. Mas 'a. profissionais h indus praticando a medicina ayurvédica. ficando a dor ausente da escrita: "se o mal é muito e invete­ rado aplicam eles próprios um longo ferro incan­ descente que lhes chega aos pés. conhecidos e experimentados por médicos e curiosos. sementes e frutos desconhecidos. aponta as causas da doença: ar seco e abra­ sador.] e deixam supurar as feridas trinta a quarenta dias''". a doença e os seus estragos na intimidade do corpo. assim sejustificava ofacto de a alimentação variar de casta para casta. dietas "cien­ tíficas" e sangrias. se perdem ou não as suas propriedades na viagem. medicamentos químicos. face à miséria do corpo atingido pelo escorbuto. se mantêm as suas qualidades em climas tempera­ dos. que deveriam ser "lavadas com água salgada e esfregadas com vinagre bem forte". ou outros diluentes. quando nos informa de saberes milenares e da dieta alimentar indiana. ignora estas distinções. . alimentos excessivamente salgados. cometidos a cada uma delas. de acor­ do com os mesteres . Esta sabedoria não adquirida em escolas de medicina mas trans­ mitida de geração em geração. Do modo como podem ser usados: moídos ou roçados. essên­ cias. falta de higiene. "Desde tempos imemoriais". com o qualfazem uma grande e profunda escara [ o O . Gravura do século XVII. Colecção particular.Espanhol "destilando a sífilis" num banho a vapor. Dellon. feitos pelo bem comum. Falam-nos de raízes. refere Maria de Jesus dos Mártires Lopes. com água de arroz ou água de rosas. nos inícios do século XVIII. transmitiam os seus conhecimentos num livro secreto a seus filhos que o guardavam religiosamente"l l. Baseado na sua própria experiência e no seu saber. Pela sua observação. sede terrível. da América e de África. sem retoques de linguagem. estrangeiro num país distante que subvaloriza. pedras. o desejo de curar com produtos novos da Índia Oriental. condu­ ziu à elaboração de Tratados 'e RegÍlnentos de remédios. Alerta os comandantes para os cuidados a ter no apetre­ chamento dos navios e na higiene dos marinhei­ ros e embarcações. são comentados ao por­ menor. À experiência e práticas seculares dos médi­ cos gentílicos contrapõe o médico francês seis­ centista. nos­ talgia dos embarcados. As virtudes de cada uma das espéci­ es. regista em muitos passos da sua obra. o modo como se devem usar. como se encontra codificado nos puranna"JO. fora acumulada ao longo das gerações. Dellon. Fotografia de Laura Castro Caldas e Paulo Cintra. prática médica indígena tinha os seus próprios remédios (preparados à base de ervas locais)formas de tratamento. paus.

Autores menores relatam. muito eficaz nas doenças do fígado. O Regimento termina com esta chamada de atenção: "Tudo o referido neste Papel se vende em casa do Reverendo Ignácio Curvo Semmedo. o pessoa que morde logo morre. dos malefícios do demónio. em Lisboa. Sar­ gento-mor . 1889. quando posto pela parte de baixo. a verde como limos do rio. semelhantes ao porco. e o modo como se devem usar. e retornam às nossas conquistas. o Tratado". é elucidativo do contribu­ tos da medicina indiana e árabe em Portugal: '11 experiência dos Mouros e gentios da Ásia foi a mestra que deu o conhecimento para o uso de tais remédios". quase um século depois. seria a mesma da do princípio do Mundo. . que é a Pedra de Cananor". A Arvore da Vida. nas suas obras. a espaçar mais de vinte anos naquele reino [Angola e Reino do Congo]. Dedicado à "Virgem puríssima Nossa Senho­ ra" e com uma "Dedicatória à Virgem Maria Sanctissima da Conceição". que é uma pedra artificial que só algumas famílias detêm o segredo e que se emprega como antídoto na mordedura de cobras peçonhentas (Dellon tinha-a considerado natural) . manuscrito em Lis­ boa Ocidental no anno de 1 73 1 . 80 . antrazes e car­ búnculo. filho do Doutorjoão Curvo Sem111edo em Lisboa". Treze meses passados no mar exigiam um acondicion<unento cuidado dos produtos. Roma. provado tudo com muitas expe­ riências prodigiosas como é publico e se verá no Seg. ou amarela como o enxofre. que provêm de animais corpulentos. que parece acreditar nos seus poderes e assim acon­ selha o Dente de Peixe de Mulher Vilgem porque estanca o sangue da boca. anuncia logo na folha de rosto a receita para livrar aqueles que queiram. Igualmente.A Memória de Varias Simplices que da Índia Oriental. reve­ lam a permanência de produtos asiáticos e afri­ canos nas artes de curar l 3. que considera esses produtos exóticos de singulares virtudes. As informações sobre produtos de África apa­ recem também na Memória dos Simplices do médico português. e de todos os fluxos baixos. É todo um desfilar de pedras com nomes estranhos. também servindo para vida e saúde dos enfeitiçados e dos que têm pacto com o Demónio. Cobras do {ndia de duas cabeços não fazem mal" Fólio 91 do códice anónimo português. feitiçarias. quando colocado sobre o peito. cavaleiro professo da Ordem de Cris­ to. a Pedra de Cobra de Diu. com dentes de javali. Segue-se-lhe uma "relação de muitos e singulares remédios par muitos achaques . Biblioteca Casanatense. . alguns são manipula­ dos no Convento da Arrábida l '!. Chegados a Portugal. a Pedra Safira com a virtude de abrir os olhos nos doentes com bexigas. impresso em 1 727 por Galrão. da autoria de João Curvo Semedo l 2. da América. Y' "Estas cobras copelo que há no {ndia são muito peçonhentas. de meados do século XVI. Alguns feitiços merecem a atenção de Curvo Semedo. as listagens das remessas para Portugal de produtos da Índia. Ms. como é o caso dos Dentes de Enga1a. coisas singulares. Curvo Semedo informa que "todos os simplices conservam as /Jirtudes com que Deus os criou enquanto no corpo de tais simplices não entre corrupção [e que] os bezoáricos [antído­ tos] conservavam-se activos por mais de trinta anos". de abcessos e bexigas. doenças estranhas que atribuem a bruxedos. Tesouro descuberto da arvo­ refim a ã da que sefez a Cruz da Redempção efei­ tos experimentados por Francisco Buytrago. como aquela "que nasce llOS buchos de alguns animais muy semelhante aos cabriti­ nhos e que se chama Pedra Bazar. de que o autor irá falar. com as mesmas características. que depois de moídos se empregam no tratamento de feridas infectadas. e de outras partes do Mundo vem ao nosso Reino par remédio de muitas doen­ ças. feitas pelo Cirur­ gião-mor de Goa. para que não perdessem as quali­ dades terapêuticas. no qual se acharão as virtudes de cada hu. . a Arvore da Vida.

Pedro II. 1-1 A indicação do Convento da Arrábida encontra-se. cit. Goa Setecentista: Tradição e Modernidade (1750-1 800). do vivido e do sonhado que um povo vai reve­ lando a sua cultura. 1 5 Expressão usada pelos cristãos-novos. cit. Pulverizado. . Texto actualizado. 81 Reservados. e anotações) do texto original de temllllllOs. . B. 9 Dellon. o segundo "Das couzas mais singulares que ha nos Reinos de Angola. 1996.encontrada por Buytrago em Angola e no reino do Congo "e experimentada nos maleciados ener­ gumenos". do médico João Curvo Sem medo. do segredo do sumo de alecrim e do de muitas mais plantas. 13 Remessa do Cirurgião-mar do estado da fndia. 35. op. Numa Advertência ao leitor. dum mundo em tudo diferente e desconhecido. pedras. Reservados. op. Centro da His­ tória da Cultura da Universidade Nova de Usboa. 7 Dellon. N. animais. 1 0 Maria de Jesus dos ivlártires Lopes. op. No final. 1989. 1 C. do Pau de Musunda. pedindo-lhe que criasse uma Companhia das Índias. p. 301. 307. semelhante à do Brasil. (trad. João Luís Lisboa. p.. uma nota: "Para quem estiver inte­ ressado as receitas vendem-se na minha casa". Antigona. cit. Realidade e ficção misturam-se nos Tra ta­ dos de Medicina portugueses da época.. Res 6197 P. Universidade Católica. 3 Castelo-Branco Chaves. f. da Raiz de Muqun­ que que serve para uma infinidade de coisas. manuscrita em tinta. que cruzou informações com outros saberes.N. de tão grande virtude se os bichos venenosos ou cobras o tocarem morrerão. foram também eles portadores nos seus relatos. e de outras partes do k/wldo vem ao nosso Reino. da América. Reservados. 0892. e que aqueles que nada viram não podem zombar do seu trabalho de tantos anos. Centro de Estudos dos Povos e Cutturas de Expressão Portuguesa. E é com esta simbiose do real e do fantásti­ co. I. • p. que receitas milenares transformarão em remédios milagrosos em Por­ tugal. de Curvo Semedo. 1992. em 1667. nos séculos XVII e XVIII. II Idem. Lisóptima Edições. N. p. Pre­ fácio. óptimo contra veneno. 6 Dellon. 1 9 9 1 . B. onde o sobrenatural e coisas de segredo os fazem objec­ to de leitura folhetinesca. . Dellon. Ed. 15. Viajantes e curiosos. cir.C. Francisco de Buytrago explica pormenorizada­ mente como se fazem os Cordeaes e Ajudas. B.. informa Buytrago. cit. Ler nosfinais do Antigo Regime. esclarece que tudo o que relata é fruto da sua experiência. entregue aos cristãos-novos. plantas. O primei­ ro "Da casca da vida". • p. 2 Charles Dellon (699). 1866. 285. 299. remetido de Goa em 15 de Abril de 1800 e recebida em 19 de Janeiro de 1 8 0 1 . 12 fdemoria de varias Simplices que da Índia Oriel/tal. Planta do tabaco. à margem do texto. do pau de Angariaria e caroços dele que cura os calos e serve para oS esquentamentos. N. . 3 1 8. servia para curar doenças de pele. raízes. p. N. produtos exóticos. como já foi referido. No fim deste tratado. Impresso por Galrão em 1727. Da Ásia que "aos poucos se ia perdendo'>J5 continuavam a chegar. Esta obra manuscri­ ta apresenta-se dividida em dois livros. 325. . . que acompanhava os barcos que fazem a carrei­ ra da Índia. Res 2277. raízes e pedras". 294. Cod.I. Reservados. marinheiros e soldados das nossas conquistas. p. • p.. B. s Dellon. op. nota 1 . Porlllgnl nos séclllos À11f] eX

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11I . na folha de rosto da A-IelJlória . • Dellon. EG. A relação do Cirurgião-mor. op. que se enumeram: do pau Cobra ou suas raizes e as suas enormes propriedades nas febres e outras couzas singulares. p. cir. op.I08S!.Quatro Tes­ 4 Miguel Francisco de Abreu. Narração rln Inquisição de Goa. regista no longo rol de produtos asiáticos e africanos. na "Rellação d 'hua Suplíca que fez da Gente da Nação-pergunta e resposta d'etla" dirigida a D.

marcam o início de um novo ciclo em que os portugueses vêem dificultada a sua entrada nos mercados de trabalho estrangeiros e se assiste ao retorno de mais de meio milhão de pessoas dos novos países africanos. . data da morte do infante D. os próprios instrumentos musicais e os que deles derivaram. com a independência dos antigos ter­ ritórios ultramarinos. com as primeiras expedições às Ilhas AS VIAGENS DOS PORTU GUESES QUE CONTRIBUíRAM Canárias e cujo termo situaremos já no nosso século. consideradas corno o início da expansão ultramarina. na década de 60. quando os últimos grandes contingentes de emigrantes portugueses (de 1965 a 1973 foram cerca de 1 200 000) procmam fora do país. decorrem num longo período com início provável no século XIV.Os Instrumentos Musicais e as Viagens dos Portugueses Jos é Ped ro Ca iado (com DOlningos Morais) para o conhecimento e difusão de práticas e saberes musi­ cais. resultantes "da experiência e memória pessoais dosfeitos. . foi cuidadosa­ mente descrita pelos navegadores portugueses que tinham atingido a costa da actual Serra Leoa. Em 1419 e 1420. A recessão económica na década de 70 e o fim do ciclo do Império.documentais. são testemunho desta aventura vivida um pouco por todo o mundo e de que encontramos múltiplas refe­ rências . utilizando também o tes­ temunlw oral e por vezes escrito". ausentes ou esbatidas nas crónicas". Das fontes documentais a que podemos ter aces­ so para o século xv. . nestes seis séculos de viagens. iconográficas. diz-nos Magalhães Godinho serem as "relações". 'a vida dos indígenas. Henrique. terão sido na época considera­ das como uma etapa necessária ao principal objectivo da descoberta da costa ocidental africana que até 1460. Estas datas. as que melhor des­ crevem. melhores condições de vida. pensando erradamente estarem perto da costa oriental de África. partiam do Algarve duas expedi­ ções para a ocupação permanente da Madeira e do Porto Santo. Os instrumentos musicais que os portugueses levaram e os que conheceram nos seus contactos com outros povos. especialmente na França e Alemanha.

uma descrição de um "alaúde" que uma leitura atenta permite concluir tratar-se de um pluriarco. Duarte Lopez. eles fazem-no com os dedos. que assim cantava com diversas vozes. ] também se maravilhavam do som . cantam. que por serem umas mais longas e outras mais curtas se dobram para o "manico". Para Ruy de Matos. em vez de m adeira. pensavam que era algum animal vivo. que é a parte do ins­ trumento que o músico segura (pega) . cantam canções de amor e tocam um alaúde. . cujas formas se assemelham às do pluriarco. relatan­ do o encontro de uma delegação dos reis do Congo com os portugueses. uma figura de costas que parece tocar um instrumento portátil. . duma destas nossasgaitas defoles. . [ . mari nheiro meu. fala-nos de . ] Neste país não se usam instrumentos m LÍsicos. lhes disse. e tinham muito gosto. e lha dei nas suas mãos estando sem vento: pelo que conhe­ cendo sercousa artificial. e o seu bailar é muito diferente do nosso. segun­ do Oliveira Marques. pois tão doce­ mente tocava. mas não bailam senão à noute à claridade da lua. Lisboa. e que Deus a tinha feito com as suas mãos. 1681. que eufiz tocar a um História Geral das Guerras Angolanas de António de Oliveira Cadornega. e vendo-a vestida de cores. Menos de quarenta mil homens dos cerca de milhão e meio de portugueses da época. e com fran­ jas à roda. notando Ruy de Matos que esparrela é a desig­ nação portuguesa de uma armadilha para pássa­ ros e também de um leme de navegação auxiliar. proteger as fortalezas em África e na Ásia. Estamos provavelmente perante o cortejo de um alto dignitário. um outro conjunto de três músicos tocando xilofones portáteis. a África Oriental e navegavam no Índico e no Pací­ fico. os músicos "exprimem os seus pen­ smnentos e fazem-se compreender tão bem. e que nada vale: não usam de nenhuns outros instrumen tos [ . Com esse instrumento. comerciante português que embarca para o Congo em 1 578. que era um i/JStrumento. . dá-nos em 159 1 . e tocam-a com o dedo de um modo simples. e ale­ gres. "Nas festas. 1455 83 Na primeira metade do século XVI as naus portuguesas tinham alcançado as Américas. e as cordas são feitas de crinas tiradas da cauda dos . nada parecido com o nosso (alaúde). pela pena d e Filippo Pigafetta. mas não tem senão duas cordas. possu­ em uma parte plana. senão de duas LÍnicas qualidades: uns são atabales Mouriscos. e maravillw ao mesmo tempo: vendo eu esta sua simplicidade. como quando havia casamentos. embora raramente se aventurassem para além dos estuários nave­ gáveis dos rios e braços de mar. de pele finíssima. chegaram para colonizar quatro arquipélagos e a faixa costeira do Brasil. numa carta de 1 578. estes instrumentos musicais poderão ser os pri­ meiros que na Europa nos mostram a música do antigo reino do Congo. do que causava a admiração daqueles homens. A abrir o cortejo vemos dois tocadores de pluriarco. os outros lima espécie de violetas daquelas que n ós tocamos com arco. que tudo o que se diz com palavras. diziam que era obra celeste. e bailam de bom grado principalmente as m oças. contribuindo decisivamente para o estabe­ lecimento de novas rotas comerciais e o conhe­ cimento de povos e culturas. Garcia Simões. Cadamosto. Nessa descrição. e a seguir ao dignitário.Dos costumes das mulheres deste país. tocando o instrumento". em que é talhada a rosácea.s mulheres deste país são m uitojucundas. transportado numa liteira e acompanhado por músicos. Estes instrumentos têm umaforma estranha no côncavo e no cabo. e defender as rotas comerciais. as cordas estão presas uma a uma às cravelhas. "hua viola que parecia lwas poucas espan'elas juntas". . como de bexiga. e com tanta diversidade de vozes: e pro­ testavam não ter n unca ouvido cousa tão suave". Academia das Ciências. e dos instrumentos músicos de que usam: 'Yl. grosseiro. escritor e huma­ nista italiano.

do instrumento chegam à extremidade do cabo e aí tilintm. bocas das cabaças há umas tabuinhas finas e que res­ soam. consoante a maneira como se tocam as cor­ Parece não restarem dúvidas de estarmos perante instrumentos semelhantes ao represen­ tado na salva portuguesa de século XVI . "que é das. A isso ao o uvido". que é substituído por cinco arcos.coisa espan tosa . Girolamo Merolla. que quase tudo o "Um dos instrumentos mais comuns é a marim- que podemos dizer com palavras. devem juntar o cassu­ to . o que altera a tensão das cordas. um grande e bojudo instrumento com dois ou três palmos de altura. frente ao peito. Trabalho português com motivos africanos. Kubik diz-nos que hoje os pluriarcos se encontram em parte do território do Zaire e no Sudoeste de Angola. rais que se suspendem com uma correia ao pescoço batendo palmas seguindo o ritmo daquela música". O baixo desta orquestra é o quilondo. A estas (cravelhas) penduram placas muito finas de ferro e prata cujo tamanho é proporcional (às cordas do ) ao instrumento e que produzem um cam convenientemente as cordas do instrumento e com os dedos.elefa ntes. desenha e descreve um instrumento. Matamba e outros fazem-se entender tão claramen te. Os tocadores esti­ h u m ba". no Planalto Central e no Sul. que variadas e diferentes no sem braço. vão-se prender às cravelhas. tocando o instrumento. onde teve oportunidade de gravar. do qual sai. aborrece. as cordas de fio de Palmeira". em 1 692. de quatro palmos de comprimento. empurrando ou puxando os arcos (ou varas) presos à caixa de ressonância. que por sua vez fazem tremer as cravelhas. tal como se fosse uma harpa. Inícios do século XVI. se quiserem tocar seis. refere o mesmo instru­ mento. são tan tas as pancadas dos bastões. de longe. harmonia é agradável. designado em Lunkhumbi e Luhanda por chi­ ouvindo-se um som entremeado. . "parecido com uma pequena viola. n/ia desagrada por tamanho espalham um ribombar não diferente do A maior parte das vezes tocam quatro marimbas juntas. que esteve no Congo pouco antes de Merolla. sendofraco. Colecção Particular. mas quando nos António Cavazzi. o podem eles decla- ba: é composto por uma boa quantidade de cabaças rar com os dedos. Redinha diz-nos que o pluriarco se encontra disseminado em Angola no Noroeste. Pormenores de uma salva. E com em nLÍmero de dezasseis. não sei se diga. explicando que o músico o afina. mas sem fundo. . melodia ou barulho (som) que os delicia. na sua Breve e S u ccin ta Relation e del viaggi'o nel regno d i tacculla um pouco mais compridas que um palmo. ofendendo mais que agradando ao ouvido". como o demonstra a figura. . alguns pluriarcos têm estriduladores enfiados nos arcos. Sobre as Lopez/Pigafetta. 1692 84 . fortes e brilhantes e de certos fios que nas­ das feitas com fibras m uito fin inhas de folhas de cem no tronco da palmeira. pinçam magistralmente o alaúde.um pedaço de madeira com sulcos. São tocadas por dois pequenos bastões (paus) e o som Con go. dançam ao mesmo tempo com os pés. O instrumento é tocado com os dedos indicadores de ambas as mãos e apoiado no peito do tocador. tocadores de pluriarco. que parece uma garrafa invertida e é raspado do mesmo modo do cassuto. . com órgão. . mas ressoa nas cabaças. sem agarrar nas cordas. Nsambi. que não é agradável mas tarras espanholas. Lisboa. no meio de duas réguas late- aqueles sons. Na região de Luban­ go. tem boas cor- aproximamos. Nsambi. que se dobram em direcção ao cabo. Ainda mais . que partindo da ponta palmeira ou o u tras plan tas". umas mais compridas e outras mais curtas. "Feito à semelhança das gui­ fazendo grande confusão. Diz-nos ainda que "o som. acima da prisão das cordas. de madeira vermelha chamada (a madeira) Girolamo Merolla.através daque­ le instrumento exprimem os seus pensamentos e Marimba do Reino de Angola. 1591 Tocadores de pluriarco e marimbeiros integram o cortejo de um alto dignitário do reino do Congo. . tal como nos descreve Lopez/Pigafetta no século XVI. em 1 965.

sas. muito delgadas. e um bocado de madeira dobrado em arco. que são os tiples primeiro. XVI e XVII exerciam. etc. Kubik refere que os xilofones portáteis como os que são descritos por Merolla se encontram hoje "em certas partes da África Cen tr a l. com suas vozes differentes. tapa­ das. que lhes chama marimba mas é pouco claro na sua descrição. uma poderosa influência muito aos nossos órgãos. deu-nos isto ou aquilo. se vão seguindo os mais cabaços. posta sobre a bocca do seu cabaço. ao modo de paus de tambor. que por todos são dezoito. de modo que cada tecla fica melhorar o tom e têm instrumentos tiples e baixos. que não quebram. mesma bocca. onde As suas canções são em geral de louvor àqueles para quem estão a cantai. o que significa que os Portugueses comem muitas coisas ao mesmo tempo. Congo". que não De noite vão fazer serenatas ao rei e a quem quer chegue à. 1562 terão chegado vindos do s u l. com vozes mui altas e sonoras. grandes músicos e tangedores que não tem ra sala do rei e à porta da rua e ao redor das suas casas. e outros muito delgados. ou muitos pra­ tos diferentes. Primeira notícia de xilofones em Moçambique: 85 junto ao pé e em cadafundo tem um buraco do tama­ "São muito dados aos prazeres de cantar e tOCai: Os nl10 de uma patacão e n'elle posto um espelho. em vão. e mais músico de todos em cafres. e aquele que faz mais barulho tangem os cafres por cima d'estas teclas com uns paus. que lhefez um presente. de contraltos. Depois d'isto assim armado. que no entanto nos mos. como por ex:emplo 'este é um bom. cul­ que estes tangem. é considerado o melhor músico. umas das e fortes. uns muito gros­ m a rimba passou rapidamente para o interior do sos. não por temperança mas por hábito". feito seus instrumentos são umas cabaças ligadas com cor­ de umas certas teas de aranha. que estão eguaes. André Fernandes. tenores e baixos. bolo de a u to ridade entre m ui tos dos pequenos postos da mão esquerda em revez dos nossos órgãos e chefados localizados a norte do poderoso reino do logo após os tiples. A presença de u m a que ficam todos juntos. Os estados o rganizados que existiam n o n orte de O melhor instrumento. nas poiuas dos quaes . e sustentadas 110 põem trombetas com cera de abelhas bravas para ar com umas cordas. em louvor do rei. são referidos por Cavazzi. Cada um d'estes cabaços tem uma bocca pequena feita na ilharga. acompanhado de uma descrição que confirma o que podemos observar na salva. na abertura das quais cas d'estes cabaços.Os xilofones representados na salva. Este instrumento é compos­ nas regiões limítrofes. e de que não encontramos referência em Duarte Lopez. mas ainda nos há-de dar mais: Duas canções são muito vulgares entre eles: uma é Abenezaganbuia. O xilofone portá­ til "era u m instrumento representativo de reis e outro offício mais que estarem assentados na primei­ chefes. talvez devido à dificuldade de os representar. "Serve-se mais o Quiteve do outro género de Orquestra Real: No sul dos Camarões. tangendo muita differença de instrumentos músicos Angola nos séculos xv. os mais banda d e xilofones portáteis tomou -se u m sím­ pequenos e mais delgados. pois que os Pretos não comem mais do que uma coisa de cada vez e nunca comem e bebem ao mesmo tempo. armados de tal feição actual Congo Brazzaville. chama-se ambira.tra instrumentos com menos cabaças do que teclas. anotou da tradição oral que a orquestra de xilofones per­ tencia ao chefe e nas suas viagens seguia à fren­ te anunciando a sua chegada. A música de corte para to de cabaços de abóboras compridas. postos por ordem. o qual arremeda tural e politicamente. da região do a ntigo A reino do Congo". Este costume expandiu-se rapidamente e cantando a elles muita variedadede cantigas e pro­ em vastas áreas da faixa oeste da África Central. Merolla mostra-nos o desenho da marimba. E sobre todas as boc­ maiores outras mais pequenas.

. o afamado trilo especial das m ulheres da África Orien tal. outra mulher o papel de solista. que se ouvem tão longe com as de um bom andamentos distinguem-se bailarinos. "e os Chope e parte dos Shangana têm um tipo de marimba m uito mais apelfeiçoado do que os povos do Norte. o qualem logardos cabaços tem uma maneira in visível. mentos. D'estes instrumen tos há m uitos. considerado subgrupo dos Shon a Karanja". chamados sanje. que cada uma tem sua voz diJferen. . noutros andamentos toma uma ou João dos Santos. simplesmente está sentado Refere ainda Frei João dos Santos os lamelo­ fones. Orquestras de Marimbas: Chikhulu "Na Zona Sul de Moçambique aparecem os Margot Dias. e todas estão postas em car- 110 . Antigamente a orquestra completa parecia ter ainda um 6°. [ . do tamanho de uma noz.tenor. diz-nos Margot Dias. tangendo com estes dois paus por cima das teclas. regressando de gedores. Makonde. que só era concedi­ da excepcionalmente a mulheres que se tinham dis­ tinguido por qualquer razão.tenor. tal como os xilofones. Debiinda . pre­ cisamente pelas suas orquestras de marimbas. . e outros retumbam as pancadas dentro nas boccas dos caba­ em que este coro dos dançarinos está sen tado no chão ços. Mbingwe .te. . de maneira que grupo de bailarinos. Shirima e Lomwe".estão pegados uns botões de nervo. [ . vestidos com trajo tradicional. é primento de uma espécie de 's uite orquestral ' com vários anda- velgas são nove sómen te. citado por Margot Dias e relativo aos "músicos do rei Quiteve. sendo de sublinhar a apreciação que faz da música e dos músicos. Dole .con trabaixo". Estas 86 . 1 Há sempre entre os componentes um músi­ . khulu. co que é considerado como o melhO/. An tigamente esse papel solista era uma honra. debiinda. quasi ra fila. acompanhado de orquestra. - gela. tipo en tre dole e debiinda: Chilanzane . mbingwe. . de com­ outros que o podem substituir sem dificuldade. espalmadas. que saem das cravo. • um palmo. "Todos estes povos". O entendimento com toda a orquestra dá-se de bém chamam ambira. 1986 Chope como sendo os mais afamados músicos. são muito interessantes pelo cuidado posto na descrição dos instrumen­ tos. feitos em peloiros. há vários umas vergas de ferro. dançam uns solos pitorescos. temperadas 110 fogo de tal maneira. que se apresentam de uma forma bastante ú nica na África Oriental quanto à maneira de usá. 1 586. faltando este. em Moçambique: centro da primei­ "Outro instrumento mLÍsico tem estes cafi'es. [ . 1 Os instrumentos que formam a orquestra são hoje em geral 5 tipos de marimbas. que os tocam muito bem". designa por ambira. Sanje . Mas. e delgadas. passa entre as filas 1586 de bailarinos em passo de dança.soprano. watimbila. . numa carta do padre André Fernandes de 1562 que nos descreve a música dos Tsonga (parece que da região de Inhambane). novo às fileiras. e o testemunho de Frei João dos Santos em "Ethiopia Oriental". fazendo o kulun­ A referência à primeira notícia sobre a exis­ tência de xilofones em Moçambique. Em outros e suaves. 1723. Roma.alto. que devem pertencer ao povo dos !l1ateve. mas na exibição não se distingue como Ines­ tre. Um instrumento de branda e suave música. 1 . que. dole e chi- «Marimba de Cafre» in Gabinelto Armerico de Filippo Bonanni. mas é todo deferro a que tam­ da. alguns só de orquestra. [ . trajo influenciado pelos guerreiros angón is. e fazem uma harmonia de vozes mui consoantes e só canta. 1 [ 1 A m úsica tocada tem uma forma própria.las. e é ele que toca geralmente os solos da entra­ como este que tenllOdito.baixo. perto de lVlanica. . e can tando umas palavras. outros com mais um m uito leves. e m uitos tan­ fileiras. . chilanzane. que compõe e ensaia. tipo de marimba.

através do deserto do Sara. alargando-se progressiva. por­ que é mais brando e faz mui pouco estrondo". Portugueses. De modo que sacudindo-se os ferros e dando as pancadas em vão sobre a bocca da escudeI/a ao modo de berimbau. . O Sul da Europa beneficiou até ao século XV do tráfico transahariano. Martim Afonso encontrou na Bal1ia uma frota que se julga estivesse empenhada no transporte de escravos. que para isso trazem crescidas e compridas. sem contar com todos os que morreram ao defende­ rem a sua condição de seres livres. Como foi possível resistir a tal situação sem perder totalmente a sua identidade. tocando-lhe n'es­ tas pontas que tem no m. e tão ligeiramente as tocam. segundo este autor. Utilizados principalmente em serviços domésticos nas casas ricas das cidades mediterrânicas. toda uma teoria de que não era peca­ do. diz-nos Oneyda Alvaren­ ga. para o mundo mediterrânico. A cultura africana. Paulo) em 1538. fazem todos juntos uma harmonia de branda e suave mlÍsica de todas as vozes mui concertadas. eram também procurados para combaterem nos seus exércitos. além disso. diz-nos António Carreira. então. cultura e religião? A primeira remessa de escravos africanos de que se tem notícia certa. sem contar com as perdas d e vidas durante a travessia do Atlântico. além de escassa e dispersa. João dos Santos. como em cavalete de viola. e chegadas umas às outras. Vicente (hoje Estado de S. e d'ali se vão dobrando sobre um vão que tem o mesmo pau ao modo de uma escudeI/a. levada por pessoas reduzidas à escravidão e transportadas à força das suas terras. diz-nos Pierre Vergel'. antes necessária e benéfica. que até meados do século XIX levou para fora de África um número estimado por Curtin em cerca de dez milhões e que Inikori corrige para 1 4 milhões. começa o tráfico de escravos no Atlântico. holandeses. a África ao sul do Sahara perdeu nestes dez séculos cerca de 25 milhões de pessoas. em finais do século IX. franceses. António Carreira sintetiza em "Notas sobre o tráfico de escravos" os motivos que levaram à sua importação: 'fi população autóctone do Novo Mundo. sobre o qual ficam as outras pon tas no m: Este. em cerca de oito milhões o . de 850 a 1 890. atravessou o Atlântico nas condições mais peno­ sas que é possível imaginar. Pro­ pagou-se. internava-se na mata inacessível e rebelava-se contra os invasores. chegou aos engenhos da capitania de S. mas não soa tanto e tange-se ordinariamente na casa onde está o rei. ingleses. era rebelde ao trabalho discipli­ nado. não se lhe reconheci aptidão para as tarefas exigidas pelos europeus. embora Arthur Ramos refira que em 1 53 1 . 1586 o início do tráfico de escravos da África Negra. segundo Inikori. a ser quantitativamente significativo no século IX. espanhóis. como faz um bom tangedor de tecla em um cravo. com as unhas dos dedo pol­ legares. iniciada pelos portugueses. com especial destaque para a América do Sul e as Antilhas. não havia mal nenhum em fazer dele escravo. a sujeição do africano à escravidão até porque ele possuía especiais quali­ dades e também robustez para trabalhos árduos. Estimando-se. dinamarqueses e americanos basearam. tangem os cafres. só vindo a declinar no século XVI devido à abertura de novas rotas comerciais pelos navegadores por­ tugueses e espanhóis no século À'V. 87 tráfico muçulmano transahariano. a exploração e colonização de extensos territórios. Com a descoberta e exploração da costa oci­ dental africana. Há ainda a notícia de terem trabalhado como agricultores e mineiros no sul do Iraque. nesses enormes contingentes de escravos. Este instrumento é m uito mais mlÍsico que o outro dos cabaços. pregadas com as pon­ tas em um pau. podia desse modo conquistar a redenção!" No século XVI era a costa da Guiné a prin­ cipal fornecedora.reira. começa. sem esperança de regresso. Desde que baptizado e integrado no seio da Igreja.

Paulo. quase todos do calendário católico. especialmente com a costa ocidental. Kupferstich-Kabinett. os escravos eram encorajados a dançar e a celebrar à sua maneira. e tomavam menos árduo o seu trabalho realizado ao som de cânticos". . miscigenando-as com os costumes e tra­ dições dos ameríndios e dos colonos europeus. 647 milhões e Arthur Santos em 5 milhões. Angola e Moçambique. ] A capoeira foi difundida por angolanos no Brasil. Thier Buch. fazendo soar os tambores.] "Em Angola. as tradições da preparação para a guerra têm sido referenciadas desde os primeiros tempos do contacto com os portugueses. diz-nos Pierson. As canções e danças dos escravos. Capoeira [ o o . Os contactos com África mantiveram-se ao longo de todo o período esclavagista e mesmo depois.Escravos africanos dançando ao som de tambores e instrumentos de cordas. fI. . nas plantações da Baía. na Nigéria. Oneyda Alvarenga diz-nos que "durante o seu longo cativeiro. apesar das diferentes culturas de que provi­ nham. com eles os escravos preenchiam os seus raros ócios. atingiu os seus valores máximos. [ . Pierre Verger ajuda-nos a compreender melhor o que se passava: "Nas festas católicas. devido à descoberta de diamantes e de ouro e ao desenvolvimento da cultura do café em S. Cavazzi (1687) descreveu e desenhou instrumentos musicais usados em danças guerreiras no actual território do noroeste de Angola. que Curtin estima em 3 . Nos séculos XVIII e XIX. Os brancos imaginavam que eles dançavam em homenagem à Virgem Maria e aos Santos. Nunca se saberá ao certo quantos escravos foram levados para o Brasil. 88 . 105. comemoravam os dias de festa. que se mantêm até 1 905. durante os século XVIII e XIX. Zacharias Wagener (1614-1668). Na rea­ lidade a Virgem e os Santos era apenas uma fachada. eram danças rituais trazidas de África e dedicadas aos seus próprios deuses". Os africanos tiveram força suficiente para refazer a sua música e instrumentos musicais. Dresden. os seus cantos e dançasforam pra­ ticamente a única diversão que lhes era permitida. através das carreiras regulares entre a Bahia e Lagos. mente ao Congo. cujo verdadeiro significado era desconhecido dos seus amos.

em Trás-as-Montes e nas Beiras interiores.Guadiana. Eles reuniam -se nas plantações. e o pandeiro meramen tefes- . . A parte instrumental. . No Baixo Alentejo. para a melodia e o acompa­ nhamento harmónico.icamente vocais. Na Ilha da Madeira a braguinha generalizou-se tanto como instrumento citadino. ali. lamentando o declínio da gaita de foles e do pandeiro nas terras ocidentais. . consequência imediata da crise que se instalara na sociedade portuguesa e que a Peste Negra apenas ajudou a revelar. permite-nos concluir que as particularidades das várias regiões estavam defini­ das no que de essencial as viria caracterizar e que Ernesto Veiga de Oliveira nos descreve no seu pano­ rama (actual) músico-instrumental português: "Por toda a faixa ocidental do País em geral. mas por vezes com a utilização de facas: o que mais tarde. no. usualmente sem armas. encontramos ftmdamentalmente.m pouco de m odo a parecer uma dança. Gravura do século XIX. exprimindo também.como preparação para uma possível luta de guerrilha. o tamboril e a fla uta. nas A mobilidade de populações durante este período. apa­ recem ainda hoje ligados a arcaísmos que se relacio­ nam com a sua estrutura. na m úsica cerimonial e na música lúdica. etc.canções coreográficas e sentimentais. e portanto de diri­ gir e controlar os movimentos dos lutadores. o panorama nuísico-instru. A música e os instrumentos populares resul­ tantes das profundas modificações que o pais vive. onde "já não há hi gaita nem gaiteiro".que por toda a parte mos­ tra a peculiaridade de ser um instrumento exclusiva­ mente feminino -.ece­ Nas terras pastoris do Leste. além dos raros e esporádicos tações se aproximavam. nas terras além. aparece. que se manterá até ao final do século XVI. exemplos de música arcaica e austera.men­ tal é totalmente diverso do que ocorre no Ocidente. e apresenta características especiais. quando existe. como a de 1 3 6 1 . vindos da sua 'casa grande. e que Gil Vicente tão bem refere no Triunfo do Inver- Beiras interiores. muitas vezes duran­ te a n oite. lado. o adufe . à margem dessa forma essencial. a ino­ apenas vocais. O crescimento da população a partir de 1 450. des­ ximação do homem branco". Em meados do século XV. a gaita-de-foles e o pandeiro. . Estes instrumentos. a m usica instrumental é pra­ ticamente inexisten te e oseu significado é oftlscado pelo relevo e a beleza da sua forma característica . na litlllgia. nas fensiva 'brincar de Angola: Geralmente um sinal formas musicais populares mais correntes e caracte­ dado pelo tambO/. vai alterar signi­ ficativamente a distribuição demográfica que se tinha mantido quase sem alterações durante os quatro séculos que se seguiram à Reconquista. com marcada inci­ dência dos tipos arcaicos. canções de tra­ os Negros interrompiam o seu. limitada a nascente pela bar­ [ . Notamos. 1979 múltiplas categorias. é acom­ panhado por migrações internas do campo para a cidade e da montanha para a planície. na música profana e na música lúdica. a calgoftmda­ mentalmente das vetustas espécies do ciclo pastorial: ram a resistência de várias gerações".os cordofones. Colecção particular. ) Quando os Brancos proprietários das plan­ reira serrana central. . avisava os participantes da apro­ rísticas . para praticar várias posições e técnicas de ataque e defesa. de que Oliveira Marques nos diz ter dizimado "talvez um terço ou mais da totalidade da população" e a que se seguiram outras pestes.os corais polifónicos e un. que são no u. o carácter da área. pelo seu. que "dizimaram e enfraqu. a população por­ tuguesa começa a registar um saldo demográfi­ co positivo. treino e m odificavam­ balho. . corais solenes e mais géneros similares. nas suas Gerhard Kubik. como instrumento popular tocado por camponeses ou ((vilãos». as mais das vezes juntamen te com a voz e com tambores percutivos. do Minho à Estremadura. na tenni­ nologia da Capoeira se chamaram 'golpes: Os encon­ tros eram acompanhados m usicalmente por um tam ­ bor capaz de transm itir mensagens. garradas e desafios. na música ceri­ monial. em Trás-as-Montes. apenas com ftmções cerimon ia is. contrariando o decréscimo popula­ cional que se verificou a partir de 1 348 com a Peste Negra.

conhece uma uti­ lização generalizada. incluindo crianças -. e João Fernandes (segundo um relato feito à revista Paradise of the Pacific. onde a sua difusão é. como instrumento urbano. e Manuel Nunes. o instrumento favorito das rusgas e das ocasiões de carácter lúdico e festivo das romarias minho­ tas. no cateretê. - 4 1 9 pessoas. nas novas terras. Tocadoras de Hula. tendo depois forma­ do um conjunto com A ugusto Dias e João Luís Cor­ reia. na fábrica e loja de móveis que abrira na King Street. nos conjuntos regionais. Hawai. burguês. para a rainha Emma e a rainha Lilinokalani.. festas. no bumba-meu-boi.lhe logo o nome de 'ukulele' que significa 'pulga saltadora : figurando o modo peculiar como é tocado. O cavaquinho foi. tocado de ponteado. nascido na Madeira em 1 854. e pouco relevante. por outro como instrumento citadino.. por um lado como instru­ mento popular de camponeses ou "vilãos". de 1890. ilha para Honolulu no barco à vela 'Ravenscrag' num contingente de emigrantes A colonização da Madeira.mifestações cul­ turais. o que ele fazia gostosa mente . no palácio de I1akla e no pavilhão de Verão. pertencente a ou tro em igrante também pas­ sageiro do 'Ravenscrag. por toda a área. Ernesto Veiga de Oliveira: " [ J o cavaquinho ou braguinlw. no choro. de Janeiro de A braguinha foi introduzida no Hawai por um emigrante madeirense. Colecção particular. servidas. Os emigrantes e colonos portugueses recria­ ram. O 'u kulele' tornou-se extremamente popular em Honolulu. que porém não sabia tocar e o emprestara a João Fer­ nandes para que este entretivesse os demais com­ panheiros na longa viagem até Hawai. Augusto Dias e José do Espírito Santo. como nos diz Jorge Dias. tendo deixado marcas duradouras em Cabo Verde e no Brasil. todos os naturais queriam que João Fer­ nandes tocasse. que não sabia tOCaI. as tunas. tocado de ponteado em conjuntos de que fazia parte a alta sociedade funchalense. Manuel Nunes. por instru­ mentos musicais. e deram . numa viagem pela rota do cabo Horn que demorou quatro meses e vinte e dois dias. que era um centro de m úsica. quando era o caso. Na ilha da Madeira. o mencionado João Fernandes (que tocava também rajão e viola) eJosé Luís Correia.em danças. 1 922). Entre esses emigran­ tes vinham cinco homens que ficaram ligados à his­ tória da introdução do cavaquinho em Hawai: dois bons tocadores. e que Joel Serrão nos diz ser um factor importante da sua estrutu­ ra económica e social. dança e cultura. é o ponto de partida para a emigração portuguesa. na chegança de marujos. ficaram encantados. juntamente com a viola. trazia na mão uma bragui­ nlw. e três construtores. que conservam até aos nossos dias características que nos permitem estabelecer. o cavaquinho. designa­ do localmente por braguinha. Surge ainda por todo o país. c. no samba. João Soares da Silva.foi introduzi­ • • • Contrariamente ao que sucede nas terras ociden­ do em Hawai por um madeirense de nome João Fer­ tais. a despeito de uma relativafre­ quência em certas partes da Província. Os hawaia­ nos. notando ainda a sua influência na música erudita brasileira. no último quartel do século XIX. são escassos e nandes. e quefoi da sua menos representativos dasformas originais correntes". Será da ilha da Madeira que a braguinha viajará para o Hawai. referenciada por vários autores brasileiros. tendo aí recebido o nome de «ukelelell (<<pulga saltadorall). por vezes. a sua origem regional em Portugal. etc. com destino às plantações de açúca/. ao desem barCaI. etc.tivo. em especia l na festa do seu aniversário. na primeira metade do século xv. Depois de os recém -chegados estarem ins­ talados. os cordofones. serenatas. de Iolani. quando o u viram João Fernandes tocar o pequeno instrumento. O 'Ravenscrag' chega a Honolulu a 23 de Agos­ to de 1 8 79. as suas m. especialmente em Lisboa e no Algarve. que será uma das cons­ tantes da história de Portugal. nos bailes pastoris. passou a constru­ ir esses instrumentos. geral­ mente em conjuntos instrumentais. Parecem ter começado muito cedo as suas viagens nas mãos de emigrantes e colonos. Tocou assim para o rei Kalakaua. mas que 90 .

"Gabinetto Armónico".. " Navegação Primeira de Luis Cadamosto". Notas sobre o trriJ7co português de eSCIOllOS. v1ayers.<. AI1golflll 1mits iII Black IHasic. mas adaptando-os às suas possibilidades e con­ dições locais. 1 944. 2" cd. Como nos diz Margot Dias.. As clI/tllrns negms do NO/la lHllndo. 1986.. 1937. André FEHNANDES. cit. Lisboa. Filippo BONANNI. ao revelar o seu sentir profundo em todas as actividades que integra. I. Instrtlmellfos A'/usicnis Popl/lares Portugueses. ÜEthiopia Oriental". j\·lário Ruy Rocha de MATOS. a Porlllguese gift to Hnwni. António CABIIEmA. in Boletim Latillo-Americano de A/fÍsica.e Slaue nade. l'vlanuscrito. cujo preço era então de 5 dólares.ADA. in l'vlargot Dias. Garcia SI�IOI::S. A/lIiqlle lHlIsicnl lllSlrl/11Iellts flnd thei. 1965. in \( r

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