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RESUMO

Os escritores românticos para conquistar um público leitor e atender a seus
anseios, envolvem suas heroínas num halo de beleza, integridade e de todas as
qualidades ideais que podem ornar o caráter, o corpo e a alma de uma pessoa.
Alencar, com sua experiência jornalística e sua observação da sociedade de seu
tempo, cria histórias de intrigas, de namoros adolescentes, do amor e da honra.
São pinturas de perfis femininos, retratados de mulheres fantásticas, ao mesmo
tempo delicadas e fortes, submissas e sedutoras. Esse estudo tem por objetivo
analisar o perfil e a vida das mulheres maravilhosas criadas pelo excepcional
autor José de Alencar.
Palavras-chave: José de Alencar; Romantismo; Mulheres maravilhosas

1

ABSTRACT

The romantic writers to conquer a reading public and to take care of its yearnings,
involve its heroines in a beauty halo, integrity and of all the ideal qualities that can
the character, the body and the soul of a person. Alencar, with its journalistic
experience and its comment of the society of its time, creates histories of intrigues,
adolescent, the love and the honor. They are paintings of feminine profiles,
portraied of fantastic women, at the same time delicate and strong and seducers.
This study it has for objective to analyze the profile and the life of the wonderful
women created by the bonanza author Jose de Alencar.
Key words: Jose de Alencar; Romantism; Wonderful women

2

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO........................................................................................................06
I- O ROMANTISMO NO BRASIL............................................................................07
1.1 Poesia..........................................................................................................07
1.1.1 Primeira geração: nacionalista ou indianista.......................................07
1.1.2 Segunda geração: ultra-romântica......................................................08
1.1.3 Terceira geração: condoreira...............................................................09
1.2 Prosa............................................................................................................09
1.3 Teatro...........................................................................................................09
II- CARACTERÍSTICAS DO ROMANTISMO.........................................................12
III- JOSÉ MARTINIANO DE ALENCAR..................................................................20
3.1 O estilo de José de Alencar.........................................................................20
3.2 As modalidades em Alencar........................................................................22
3.2.1 Romances urbanos ou de costumes...................................................22
3.2.2 Romances históricos...........................................................................23
3.2.3 Romances regionais............................................................................23
3.2.4 Romances rurais..................................................................................24
3.2.5 Romances indianistas..........................................................................24
IV- MULHER: ASSUNTO PREDILETO DOS ROMÂNTICOS................................26
V- ALGUMAS DAS HEROÍNAS CRIADAS POR ALENCAR..................................27
5.1 Ceci: a heroína de “O Guarani”...................................................................27
5.1.1 A idealização em Ceci..........................................................................28
5.2 Iracema: a heroína dos lábios de mel.........................................................29
5.2.1 Iracema: a pátria amada, mãe gentil...................................................29
5.2.2 Iracema: a mulher natureza.................................................................30
5.3 Lucíola: o perfil da heroína urbana..............................................................31
5.3.1 Apresentação da obra..........................................................................31
5.3.2 Lucíola e seu contexto.........................................................................32
CONCLUSÃO.........................................................................................................33
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................34

3

INTRODUÇÃO

O Romantismo é a arte do sono e da fantasia. Valoriza as forças criativas
do indivíduo e da imaginação popular. Opõe-se à arte equilibrada dos clássicos e
baseia-se na inspiração fugaz 1dos momentos fortes da vida subjetiva: na fé, no
sonho, na paixão, na intuição, na saudade, no sentimento da natureza e na força
das lendas nacionais.
No Brasil houve vários romancistas a se destacar José de Alencar que
embora tenha se formado em Direito, dedicou-se à literatura e ao teatro com
bastante empenho. Foi considerado o fundador do romance nacional e produziu
obras-primas fincadas na realidade brasileira. Também mostrou habilidade em
construir complicados caracteres2 femininos. Destacou-se por suas inúmeras
obras, focalizando a presença feminina; dentre elas, pode-se destacar: “Senhora,
Diva, Lucíola, Iracema, Til e A Viuvinha”. Nos enredos 3 dessas e de outras
histórias da época romântica, José de Alencar sempre coloca a presença feminina
em destaque.
Os escritores românticos para conquistar um público leitor e atender a seus
anseios, envolvem suas heroínas num halo 4 de beleza, integridade e de todas as
qualidades ideais que podem ornar o caráter, o corpo e a alma de uma pessoa.
Alencar, com sua experiência jornalística e sua observação da sociedade
de seu tempo, cria histórias de intrigas, de namoros adolescentes, do amor e da
honra. São pinturas de perfis5 femininos, retratados de mulheres fantásticas, ao
mesmo tempo delicadas e fortes, submissas e sedutoras.
Esse trabalho, visa traçar o perfil e a vida das mulheres maravilhosas
criadas pelo excepcional autor José de Alencar.

1

Fugaz – pouco duradouro
Caracteres - títulos
3
Enredos - tramas
4
Halo - auréola
5
Perfil – descrição de alguém em traços rápidos
2

4

I- O ROMANTISMO NO BRASIL

O movimento romântico brasileiro tem como marco inicial o ano de 1836,
quando Gonçalves de Magalhães publicou, na França, um livro de poesias
românticas intitulado Suspiros Poéticos e Saudades. Ainda nesse ano Gonçalves
de Magalhães lançou, juntamente com Araújo Porto Alegre, Torres Homem e
Pereira da Silva, a revista Niterói.
Esse movimento dura até cerca de 1881, quando foram lançados os
primeiros livros que apresentavam tendências realistas e naturalistas: O Mulato,
de Aluísio Azevedo e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Para melhor explicar o Romantismo brasileiro, convêm dividi-lo em três grupos:
poesia, prosa e teatro.
1.1 Poesia
O movimento romântico brasileiro durou quase meio século. Por isso, é
comum que seus autores apresentem semelhanças e diferenças entre si.
Tomando por base as diferenças, é possível formar grupos que possuem algo em
comum e, dessa forma, dividir o movimento em três fases ou gerações.
1.1.1 Primeira geração: nacionalista ou indianista
Essa geração é marcada pelo nacionalismo, patriotismo e, sobretudo, pela
exaltação da natureza brasileira que, devido a sua exuberância tropical e
erotismo, se contrapõe às paisagens das terras européias. A figura do índio, em
substituição a dos cavaleiros medievais, passa a ser vista como um espécie de
mito6 e lenda, porque representa a nossa volta a um passado genuinamente
nacional.
O índio, por ser considerado o legitimo formador da nação brasileira, passa
a ser idealizado, ou seja, os primeiros Românticos o vêem sempre sob um ângulo
positivo e lhe atribuem características de herói. Surgem assim o mito do bom
6

Mito – pessoa, fato ou coisa real valorizados pela imaginação popular.

5

selvagem7 e o termo indianismo, que marcou essa primeira geração de poetas
românticos brasileiros, cujos principais representantes são: Gonçalves de
Magalhães e Gonçalves Dias.
1.1.2 Segunda geração: ultra-romântica
A segunda geração de poetas românticos brasileiros foi fortemente
influenciada pela poesia de Musset e pela de Lord Byron. A influência de Byron foi
tanta que essa geração também ficou conhecida como geração byroniana. Além
de manter, com exceção do indianismo, os traços da primeira, essa segunda
geração é caracterizada pelo spleen (palavra inglesa que significa "baço"). No
século XIX era atribuído a esse órgão a capacidade de determinar o estado
melancólico das pessoas) e pelo mal-do-século. Isso quer dizer que essa geração
estava impregnada de individualismo ou egocentrismo, subjetivismo, negativismo,
pessimismo, dúvida, desilusão e tédio constante.
Cabe aqui um parêntese: Grande parte dos poetas dessa geração morreu
muito jovens, vítima da tuberculose. Por isso, é comum a associação do termo
mal-do-século a essa doença. No entanto, o mal-do-século, que caracterizou a
segunda geração de poetas Românticos não foi a tuberculose, mas o tédio, a
melancolia e a inadaptação à vida, que levavam os poetas a desejar a morte, pois
ela era a única maneira de o indivíduo libertar-se do fardo que era viver.
Uma outra característica que marcou essa geração foi o satanismo ou o
culto ao demônio. A imagem do poeta ultra-romântico 8 era igual a do Anjo Rebelde
(diabo). Ambos, por estarem insatisfeitos e inadaptados ao seu universo, se
rebelaram contra as regras que regiam seus mundos e o preço de tal rebeldia foi
a condenação às trevas e à solidão. Por isso, é comum na poesia dessa fase, a
presença de aves noturnas, cemitérios, caveiras etc.
O tema mais abordado por essa geração é fuga da realidade, manifestado
na idealização da mulher, da infância e na exaltação da morte. Esse tema é
tratado quase sempre em tom de humor e ironia, como se o poeta estivesse rindo
de sua própria desgraça. Os principais destaques dessa geração foram: Álvares
de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, entre outros.
7
8

Bom selvagem – estado puro do indígena, sem ser corrompido pelo progresso urbano.
Ultra-romântico- poetas surgidos na literatura depois de 1938.

6

1.1.3 Terceira geração: condoreira
Essa geração é caracterizada pelos ideais abolicionistas e pelo culto ao
progresso. Os seus poetas foram fortemente influenciados pela poesia políticosocial do francês Vitor Hugo. Por isso, essa geração também ficou conhecida
como Hugoana. O termo condoreiro vem de condor, ave que habita a Cordilheira
dos Andes. O Condor, por conseguir alcançar grandes altitudes, representa o alto
vôo que a palavra pode alcançar em defesa da liberdade. O principal
representante dessa geração foi Castro Alves, seguido de Tobias Barreto e
Sousândrade, cuja poesia ficou esquecida durante muito tempo.
1.2 Prosa
O romance, que até antes do Romantismo 9 não fazia parte da cultura
brasileira, só começou a se desenvolver após a vinda da Corte para a cidade do
Rio de Janeiro. Com a urbanização da cidade, surgiu uma sociedade
consumidora, formada por estudantes, profissionais liberais, que necessitava de
alguma espécie de entretenimento. A princípio a importação e a tradução de
romances europeus satisfaziam esse público.
No entanto, o processo de independência do país gerou, nesse leitor, uma
espécie de espírito nacionalista, que exigia uma tonalidade tipicamente nacional
para os enredos dos romances. Para atender essa necessidade os romances
passaram a descrever os costumes da vida urbana e rural e contou histórias de
heróis indígenas. Os primeiros romances foram publicados em folhetins, seções
publicadas nos jornais, que traziam capítulos de histórias de ficção com um
desenrolar muito lento. Isso se dava porque, ao final de cada capítulo, o leitor
ficava ansioso para saber a continuação da história. As novelas de televisão de
hoje possuem exatamente o mesmo esquema dos romances publicados em
folhetim.
O romance, nesse período, foi o gênero literário mais consumido pelo
público. Eles tornaram-se verdadeiros sinônimos de diversão, pois permitiam ao
leitor identificar-se com os personagens e viver uma realidade que a vida lhe
9

Romantismo – importante movimento artístico e de idéias, do início do séc.XIX, abandonando os
modelos clássicos e o iluminismo, passou ao individualismo e valorizou a sensibilidade e a
fantasia.

7

negava. Dessa forma, o leitor tinha uma espécie de "compensação" das
insatisfações e frustrações que a vida lhe causava.
A fórmula para tanto sucesso talvez esteja na estrutura dos romances. A
maioria das histórias girava em torno do amor, uma vez que o amor é considerado
pela maioria das pessoas o maior sentido para a existência humana. Os
personagens viviam em um mundo maniqueísta, ou seja, o bem só existe se
estiver em confronto com o mal. Por isso, os personagens que amam são sempre
belos, generosos e corajosos. Já os que não tem a capacidade de amar são feios
e mesquinhos.
Os protagonistas dos romances geralmente amam e sofrem muito para
poder superar todas as dificuldades que lhe são impostas para concretizar esse
amor. Por isso, o herói do romance é sempre dotado de qualidades fantásticas.
Nessa época havia uma super valorização da família que é percebida na clara
defesa do casamento. O ato sexual só poderia acontecer depois que o casamento
estivesse sacramentado e até mesmo os heróis mais rebeldes tinham o objetivo
de se casar e constituir família. Por isso, o romance termina sempre quando os
personagens centrais se casam.
O primeiro romance nacional foi O Filho do Pescador, escrito por Teixeira
e Souza em 1843. No entanto, a obra, devido a sua trama confusa e à falta de
observação dos costumes da época, não agradou ao público, não teve o
reconhecimento da crítica da época e, para a maioria dos críticos, não serve para
definir as linhas que o romance nacional seguiria. Por isso, e pela aceitação que
teve junto ao público leitor, cabe à obra A Moreninha, do médico Joaquim Manuel
de Macedo, lançada em 1844, a honra de ser o primeiro romance romântico 10
oficial da literatura nacional. Os principais romancistas brasileiros foram: Joaquim
Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar.
1.3 Teatro
Desde

a

Independência,

em

1822,

um

exacerbado 11

sentimento

nacionalista tomou conta das nossas manifestações culturais. Esse espírito

10
11

Romance romântico – romance de autores da época do Romantismo.
Exacerbado – intenso.

8

nacionalista também atingiu o teatro. No entanto, a literatura dramática brasileira
ainda estava no início e dependia de iniciativas isoladas.
Muitas peças, a partir de 1838, foram influenciadas pelo Romantismo. O
romancista Joaquim Manuel de Macedo destacou alguns mitos do nascente
sentimento de nacionalidade da época: o mito da grandeza territorial do Brasil, da
abundância da natureza, da igualdade de todos os brasileiros etc. Esses mitos
nortearam a maioria dos artistas românticos desse período.
O primeiro passo para a implantação de um teatro genuinamente brasileiro
foi dado no dia 13 de março de 1838 quando foi encenado a tragédia 12 Antônio
José ou O Poeta e a Inquisição de Gonçalves de Magalhães. No mesmo ano, a 4
de outubro, foi encenada pela primeira vez a comédia O Juiz de paz da roça, de
Martins Pena. A peça deu o pontapé inicial para consolidação da comédia de
costumes como gênero preferido do público.
As peças de Martins Pena estavam integradas ao Romantismo, portanto,
eram bem recebidas pelo público. O autor é considerado o verdadeiro fundador
do teatro nacional, não só pela quantidade de peça que escreveu, mas também
pela sua qualidade. A importância de Martins Pena foi tanta que o critico Romero
(1840 p. 30), uma vez escreveu:
Se perdessem todas as leis, escritos, memórias da história brasileira
dos primeiros cinqüenta anos deste século XIX, e nos ficassem somente
as comédias de Martins Pena, era possível reconstruir por elas a
fisionomia moral de toda essa época .

II- CARACTERÍSTICAS DO ROMANTISMO
12

Tragédia – peça teatral, de ordinário em verso, e que termina, em regra, por acontecimentos
fatais.

9

Grande é o número de características que marcaram o movimento
romântico, características essas que, centradas sempre na valorização do eu e da
liberdade, vão-se entrelaçando, umas atadas às outras, umas desencadeando
outras e formando um amplo painel de traços reveladores.
Para aqui discuti-las, vamos seguir os aspectos considerados os mais
significativos por Domício Proença Filho em sua análise dos estilos de época na
literatura.
1. Contraste entre os ideais divulgados e a limitação imposta pela realidade
vivida
O universo conhecido se alarga, o Século das Luzes deixa um rastro de
anseios libertários, desloca-se o centro do poder; a dependência social e
econômica, a inconsciência, o desconhecimento estabelecem para a imensa
maioria, no entanto, uma existência marcada por limitações de toda ordem.
2. Imaginação criadora
Num movimento de escapismo, o artista romântico evade-se para os
universos criados em sua imaginação, ambientados no passado ou no futuro
idealizados, em terras distantes envoltas na magia e no exotismo, nos ideais
libertários alimentados nas figuras dos heróis. A fantasia leva os românticos a
criar tanto mundos de beleza que fascinam a sensibilidade, como universos em
que a extrema emoção se realiza no belo associado ao terrificante (vejam-se as
figuras do Drácula, do Frankstein, do Corcunda de Notre Dame e a ambiência que
os rodeia).

3. Subjetivismo

10

É o mundo pessoal, interior, os sentimentos do autor que se fazem o
espaço central da criação. Com plena liberdade de criar, o artista romântico não
se acanha em expor suas emoções pessoais, em fazer delas a temática sempre
retomada em sua obra.
4. Evasão
O escapismo romântico manifesta-se tanto nos processos de idealização
da realidade circundante como na fuga para mundos imaginários. Quando
acompanhado de desesperança, sucumbe ao chamado da morte, companheira
desejada por muitos e tema recorrente em grande número de poetas.
5. Senso de mistério
A valorização do mistério, do mágico, do maravilhoso acompanha a criação
romântica. É também esse senso de mistério que leva grande número de autores
românticos a buscar o sobrenatural e o terror.
6. Consciência da solidão
Conseqüência do exacerbado subjetivismo, que dá ao autor romântico um
sentimento de inadequação e o leva a sentir-se deslocado no mundo real e,
muitas vezes, a buscar refúgio no próprio eu.
7. Reformismo
Esta característica manifesta-se na participação de autores românticos em
movimentos contestadores e libertários, com grande influência em sua produção,
como foi a campanha abolicionista abraçada por Castro Alves e o movimento
republicano assumido por Sílvio Romero.

8. Sonho

11

Revela-se na idealização do mundo, na busca por verdades diferentes
daquelas conhecidas, na revelação de anseios.
9. Fé
É a fé que conduz o movimento: crença na própria verdade, crença na
justiça procurada, crença nos sentimentos revelados, crença nos ideais
perseguidos, crença que se revela ainda em diferentes manifestações de
religiosidade cristã – fé. Não se pode esquecer a profunda influência do
medievalismo na construção do mundo romântico, dele fazendo parte a
religiosidade cristã.
10. Ilogismo
Manifestações emocionais que se opõem e contradizem.
11. Culto da natureza
A natureza adquire especial significado no mundo romântico. Testemunha e
companheira das almas sensíveis, é, também, refúgio, proteção, mãe acolhedora.
Costuma-se afirmar que, para os românticos, a natureza foi também personagem,
com papel ativo na trama.
12. Retorno ao passado
Tal retorno deu origem a diversas manifestações: saudosismo voltado para
a infância, o passado individual; medievalismo e indianismo, na busca pelas
raízes históricas, as origens que dignificam a pátria.

13. Gosto do pitoresco, do exótico

12

Valorização de terras ainda não exploradas, do mundo oriental, de países
distantes.
14. Exagero
Exagero nas emoções, nos sentimentos, nas figuras do herói e do vilão, na
visão maniqueísta a dividir o bem e o mal, exagero que se manifesta nas
características já listadas.
15. Liberdade criadora
Valorização do gênio criador e renovador do artista, colocado acima de
qualquer regra.
16. Sentimentalismo
A poesia do eu, do amor, da paixão. O amor, mais que qualquer outro
sentimento, é o estado de fruição estética que se manifesta em extremos de
exaltação ou de cinismo e libertinagem, mas sempre o amor.
17. Ânsia de glória
O artista quer ver-se reconhecido e admirado.
18. Importância da paisagem
A paisagem é tecida de acordo com as emoções dos personagens e a
temática das obras literárias.
19. Gosto pelas ruínas
A natureza sobrepõe-se à obra construída.
20. Gosto pelo noturno

13

Em harmonia com a atmosfera de mistério, tão próxima do gosto de todos
os românticos.
21. Idealização da mulher
Anjo ou prostituta, a figura da mulher é sempre idealizada.
22. Função sacralizadora da arte
O poeta sente-se como guia da humanidade e vê na arte uma função
redentora.
Acrescentem-se a essas características os novos elementos estilísticos
introduzidos na arte literária: a valorização do romance em suas muitas variantes;
a liberdade no uso do ritmo e da métrica; a confusão dos gêneros, dando lugar à
criação de novas formas poéticas; a renovação do teatro.

III- JOSÉ MARTINIANO DE ALENCAR

14

Nascido a 1º de março de 1829, em Mecejana, Ceará, foi o primeiro grande
romancista brasileiro. Em 1839, saiu do Ceará para o Rio de Janeiro, onde,
concluiu os estudos secundários.
Datam de seus anos na Faculdade de Direito de São Paulo, as primeiras
publicações de José de Alencar. Com outros primeiranistas da faculdade funda
uma revista semanal Ensaios Literários, na qual publica um artigo que crítica
Questões de Estilo e de História, sobre o índio Camarão 13.
Em 1848, aos 18 anos, Alencar escreve seu primeiro romance: Os
Contrabandistas. Segundo o autor, teve seus originais destruídos por um colega
que usava suas folhas para acender o cachimbo. Se essa história não for criação
de José de Alencar, é explicável, dada a confusão que havia nas repúblicas de
estudantes. Ainda em 1848, transfere-se para a Faculdade de Direito de Olinda.
Como em São Paulo, sua principal preocupação não era o estudo de Direito, mas
a Literatura. Em Olinda, interessa-se pelas crônicas do período colonial, como
fonte de personagens e enredos. Nessa época começa a redigir dois romances
históricos: A Alma de Lázaro e O Ermitão da Glória.
Em fins desse mesmo ano, manifestam-se os primeiros sinais da
tuberculose que acabaria por matá-lo. É obrigado a voltar para São Paulo, onde
se forma em 1850. Em 1851, aos 22 anos, José de Alencar inicia-se na profissão
de advogado, que exercerá até o fim de sua vida, com raras e breves
interrupções. Instalado no Rio de Janeiro, José de Alencar é convidado por seu
ex-colega de faculdade, Francisco Otaviano, a colaborar no jornal Correio
Mercantil, no qual Alencar escreve diariamente sobre os mais diversos assuntos:
os acontecimentos sociais, as estréias do teatro, os novos livros, as questões
políticas, fatos marcantes da cidade. A essa seção deu-se o nome de Ao Correr
da Pena.
José de Alencar estréia como jornalista aos 25 anos, em 1854, e faz muito
sucesso. Tanto, que no ano seguinte é gerente e redator-chefe de outro jornal, o
Diário do Rio de Janeiro, no qual agora publica seus folhetins sobre fatos
variados.
O primeiro folhetim de José de Alencar data de 3 de setembro de 1854, e o
último de 25 de novembro de 1855.
13

Camarão – líder militar indígena brasileiro, da tribo dos potiguares.

15

Em 1856, Domingos Gonçalves de Magalhães, poeta consagrado, que
lançara oficialmente o Romantismo no Brasil, com o livro Suspiros Poéticos e
audades, publica A Confederação dos Tamoios, poema editado às expensas 14 do
Imperador D. Pedro II. Com esse poema, Magalhães desejava dar o modelo da
poesia brasileira.
José de Alencar publica, então, no Diário do Rio de Janeiro, uma série de
críticas ao poema, sob o pseudônimo de Ig. Várias pessoas escrevem também,
defendendo o poeta, inclusive uma que se assinou Outro Amigo do Poeta, e que
era o próprio D. Pedro.
Nesse mesmo ano, 1856, Alencar escreve a Biografia do Marquês de
Paraná, A Constituinte Perante a História e, em folhetins, seu primeiro romance:
Cinco Minutos, que, no fim do ano, é publicado em plaqueta e dado como brinde
aos assinantes do jornal.
A partir daí, aumenta muito a atividade de José de Alencar. No ano
seguinte, 1857, começa a publicar A Viuvinha e interrompe. E é nesse mesmo
ano que, como resposta à polêmica sobre A Confederação dos Tamoios, escreve
O Guarani, o qual aparece, primeiro, em folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, e,
logo em seguida, em livro. O sucesso foi extraordinário, como conta Visconde de
Taunay em Reminiscências:
[...] O Rio de Janeiro em peso, por assim dizer, lia O Guarani e seguia
comovido e enlevado os amores tão puros e discretos de Ceci e Peri e
com extremada simpatia acompanhava, no meio dos perigos e dos ardis
dos bugres selvagens, a sorte vária e periclitante dos principais
personagens do cativante romance [...]
Quando a São Paulo chegava, o correio, com muitos dias de intervalo,
então, reuniam-se estudantes em uma república na qual houvesse
qualquer feliz assinante do Diário do Rio, para ouvir, absortos e
sacudidos, de vez em quando por elétrico frêmito, a leitura feita em voz
alta por algum deles, que tivesse órgão mais forte. E o jornal era depois
disputado com impaciência e, pelas ruas, se viam agrupamentos em
torno dos fumegantes lampiões da iluminação pública de outrora – ainda
ouvintes a cercarem ávidos qualquer improvisado leitor (BERALDO,
1980, p. 11).

O sucesso de O Guarani leva José de Alencar a tentar o mesmo no teatro.
Nesse mesmo ano escreve uma opereta Noite de São João e duas comédias
Verso e Reverso e O Demônio Familiar.

14

Expensas – despesas pagas

16

No ano seguinte, Alencar tenta o drama, e a peça As Asas de um Anjo,
logo depois de encenada, é proibida pela censura por imoral: a heroína, uma
prostituta, embora redimida pelo amor, é forte demais para o provincianismo 15 da
sociedade brasileira.
Em 1860, estréia o drama16 Mãe. A seguir, Alencar viaja para o Ceará,
procurando continuar a carreira política do pai, que falecera. Candidata-se a
deputado pelo Partido Conservador e é eleito. Começa então a carreira política
que há de envolvê-lo, subtraindo-o, embora não totalmente, à literatura.
Nessa mesma viagem ao Ceará conhece seu sobrinho, então com 11 anos,
Araripe Júnior. Esse menino, mais tarde, dedica-se à crítica literária e publicará
um dos melhores livros sobre a obra do tio.
Em 1861, José de Alencar estréia na tribuna parlamentar. No ano seguinte,
escreve Lucíola e o primeiro volume de As Minas de Prata. Em 1864, Alencar
casa-se com Ana Cochrane. Mas o casamento não esfria o romancista: que lança
a primeira edição de Diva, e, em três meses, redige os cinco últimos volumes de
As Minas de Prata. Em 1865, publica Iracema, seu segundo maior sucesso depois
de O Guarani, e, no fim desse ano, começa a publicação de Cartas de Erasmo ao
Imperador. Em 1865 e 1866, publica-se a primeira edição de As Minas de Prata,
em seis volumes.
Aos 39 anos de idade, em 1868, José de Alencar torna-se Ministro da
Justiça. No mesmo ano, publica-se no Correio Mercantil uma carta Alencar
apresentando Castro Alves a Machado de Assis.
No ano seguinte, Alencar candidata-se ao Senado e obtém o primeiro lugar
na votação. Deixa então o Ministério da Justiça e volta à Câmara em oposição ao
Imperador, que veta seu nome ao Senado.
Em 1870, publica A Pata da Gazela e O Gaúcho, com o pseudônimo de
Sênio. Data de outubro desse mesmo ano o pós-escrito da segunda edição de
Iracema. Em dezembro redige a Advertência Indispensável Contra Enredeiros e
Maldizentes, incluída no primeiro volume de Guerra dos Mascates, uma sátira17 a
personalidades do Império.

15

Provincianismo – costume de província.
Drama – peça teatral em que o cômico se mistura como o trágico.
17
Sátira – composição poética que visa a censurar ou ridicularizar defeitos ou vícios.
16

17

No ano de 1871 publica O Tronco do Ipê e, no ano seguinte, Til e Sonhos
d’Ouro. Em 1873, vem à luz a primeira edição de Guerra dos Mascates e
Alfarrábios, que reúne: O Garatuja, O Ermitão da Glória e Alma de Lázaro.
Nesse mesmo ano, estréia a peça O Jesuíta, fracasso geral de público e de
crítica. Em 1874, sai Ubirajara, o segundo volume de Guerra dos Mascates a Ao
Correr da Pena, reunião de seus folhetins.
Em 1875, aparecem Senhora e O Sertanejo, últimos livros publicados em
vida. Em 1877, José de Alencar viaja à Europa em tratamento de saúde, mas não
consegue se recuperar. Volta ao Rio de Janeiro, onde morre a 12 de dezembro do
mesmo ano, aos 48 anos.
3.1 O estilo de José de Alencar
Seu estilo é basicamente poético. A paisagem e o mundo por ele
mostrados são revestidos de beleza. A natureza surge diante do leitor mais como
uma projeção imaginária da sua subjetividade do que um objeto de observação.
José de Alencar aparece na literatura brasileira como o consolidador do
romance, um ficcionista que cai no gosto popular. Por outro lado, sua obra é um
retrato fiel de suas posições políticas e sociais: grande proprietário rural, político
conservador, monarquista, nacionalista exagerado, escravocrata. Consta que em
1871 o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre e José de Alencar, como
deputado que era na época, subiu à tribuna e disse: “Não vou me dar ao trabalho
nem de discutir essa lei. Ela é uma lei comunista” (BOSI, 1998, p.23). Todas
essas posições, sobretudo o nacionalismo, transparecem em seus livros, de início
espontaneamente e por fim de modo premeditado, como afirma o romancista no
prefácio aos (Sonhos d’Ouro): “A tentativa de fazer um grande painel do Brasil,
cobrindo-o por inteiro, o norte e sul, o litoral e o sertão, o presente e o passado, o
urbano e o rural; inclusive a tentativa de estabelecer uma linguagem brasileira”
(BOSI,1998, p.25).
Alencar defende o casamento entre o nativo e o europeu colonizador, numa
troca de favores: “uns ofereciam a natureza virgem, o solo esplêndido; outros, a
cultura” (BOSI, 1998, p.26). Da soma desses fatores colocados pelo romancista
resultaria um Brasil independente. Isso se percebe claramente em O Guarani, na
relação Peri / família de D. Antônio de Mariz; em Iracema, Anagrama de América,

18

na relação da índia com o português Martim. Moacir, filho de Iracema e Martim, o
primeiro brasileiro, é fruto desse casamento.
Ao lado dessa nova geração, fruto da convivência entre colonizadores e
colonizados, há outro aspecto a considerar: o medievalismo, bem explícito em “O
Guarani”.
Os trechos abaixo são uma mostra, nos quais o uso de termos como Idade
Média, vasssalos18 e rico-homem é significativo:
Em ocasião de perigo vinham sempre abrigar-se na casa D. Antônio de
Mariz, a qual fazia vezes de um castelo feudal da Idade Média.
O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia proteção e asilo
aos vassalos.
[...]
Ele mantinha, como todos os capitães de descobertas daqueles tempos
coloniais, uma banda de aventureiros que lhe serviam nas suas
explorações e correrias pelo interior, eram homens ousados,
destemidos, reunindo ao mesmo tempo aos recursos do homem
civilizado a astúcia e agilidade do índio de quem haviam aprendido.

[eis aí um exemplo do casamento (grifo nosso) apontado anteriormente];
eram uma espécie de guerrilheiros, soldados e selvagens ao mesmo tempo.
D. Antônio de Mariz, que os conhecia, havia estabelecido entre eles
uma disciplina militar rigorosa, mas justa; a sua lei era a vontade do
chefe; o seu dever, a obediência passiva [...] a severidade tinha apenas
o efeito salutar de conservar a ordem, a disciplina e a harmonia [...].
Uma parte dos lucros pertencia ao fidalgo, como chefe.

Esses fragmentos descrevem como seria a sociedade ideal para Alencar:
ao chefe, proprietário e Senhor; tudo: dinheiro, obediência, respeito, lealdade.
Uma sociedade que só interessa ao grande proprietário rural, como o próprio
Alencar; daí as críticas do romancista a certos costumes urbanos.

3.2 As modalidades em Alencar
A produção diversificada de Alencar estava voltada ao projeto de instrução
da cultura brasileira, portanto alguns teóricos da literatura a dividem em cinco
modalidades para melhor entendê-la e estudá-la.
18

Vassalos – os que dependiam dum senhor feudal.

19

3.2.1 Romances urbanos ou de costumes
Alencar retrata a sociedade carioca de sua época, o Rio do Segundo
Reinado, apontando alguns aspectos negativos da vida urbana e dos costumes
burgueses19. Seus romances giram em torno de intrigas de amor, desigualdade
econômica, mas tudo com final feliz e a vitória do amor: “Cinco Minutos” (a moça
tuberculosa que encontra no amor forças para viver); “A Viuvinha” (dinheiro e
fidelidade); “Sonhos d’Ouro” (Guida Soares, moça rica, esconde sua fortuna para
encontrar o verdadeiro amor, sem interesse); “Encarnação” (Hermano era casado
com Julieta, que morre, ele a mantém viva na imaginação, mesmo depois de
casado com Amália: vitória do amor e da dedicação) são alguns romances dessa
modalidade.
A relação se completa com os três perfis de mulher: “Lucíola” (a jovem
prostituta que se julga indigna de um verdadeiro amor); “Diva” (a luta entre o ódio
e o amor; o amor vence); “Senhora” (o amor puro entre dois jovens; a separação
motivada pelo dinheiro; o caça-dotes; o casamento por vingança; a redenção: o
amor vence, está acima de tudo).
A requintada vida da corte é fotografada com fidelidade pela pena do
escritor. Ele descreve com riqueza de detalhes espaços públicos: as ruas, as
lojas, o teatro, os saraus20, as festas religiosas, o Passeio Público e os espaços
privados: os ambientes luxuosos das casas burguesas. O autor não esquece os
tipos humanos: seus atos, gestos, palavras, diálogos, roupas.

3.2.2 Romances históricos
Os romances históricos são considerados pelos teóricos uma criação do
Romantismo. José de Alencar busca inspiração no passado histórico, de
preferência bem remoto ou lendário.

19

Burgueses – designação dada aos homens que viviam nos burgos, onde não exerciam
atividades braçais ou artesanais, porém, negociavam com lucros e empregavam pessoas e
acabaram por se constituir num grupo com valores distintos.
20
Saraus – concertos noturnos, em casas particulares, clubes ou teatros.

20

O compromisso do romancista com a história restringe-se
essencialmente à reconstituição do clima da época, à fidelidade aos
hábitos, costumes e instituições. Há dois desdobramentos do romance
histórico: o romance de capa e espada e o romance de mistérios. O
primeiro, voltado para a vingança punitiva e o suspense. Já o segundo,
voltado para a exploração das peripécias, surpresas, desembocando às
vezes, na fantasmagoria (BOSI, 1998, p. 80).

José de Alencar escreveu dois romances de fundo histórico, voltados para
o período colonial brasileiro (se bem que os romances indianistas possam ser
considerados históricos): “As Minas de Prata”, que retrata o início da procura de
metais, e “A Guerra dos Mascates”, que reconstitui a briga entre Olinda e Recife.
Atualmente ainda pode se reconhecer grandes sucessos de público que
apelam para a estrutura do romance histórico; como em “O Nome da Rosa”
(1984) de Umberto Eco e o “Xangô de Baker Street” (1985) de Jô Soares. No
caso do escritor italiano, retrata-se um mosteiro na Idade Média. Já o humorista
brasileiro arma uma confusão em pleno Brasil Império. Todavia, o mais
interessante é que em ambos há um clima de mistério que certamente definem o
sucesso destas obras.
3.2.3 Romances regionais
Os romances regionais transferem dos índios para os sertanejos o
“status”21 de símbolo de nacionalidade. Afinal, o Brasil original, o Brasil puro seria
o do interior, o do sertão, longe das influências externas, conservando em estado
natural os traços nacionais. O escritor explora as paisagens e costumes do
Nordeste, dos pampas gaúchos, do pantanal mato grossense, do sertão de Minas
Gerais e Goiás, ora tendendo ao nativismo, ora valorizando os aspectos mais
realistas, puramente descritivo, um documento que registra o modo de vida
daquelas localidades.
“O Sertanejo” e “O Gaúcho” são as obras regionalistas de Alencar. Ambas
mostram o íntimo relacionamento entre o homem e o meio físico. Quando
descreve o nordestino, o sertanejo, o autor consegue montar um quadro mais
próximo da realidade, conhecedor que era da região e do homem. Ao tentar
retratar o gaúcho e sua região, o autor incorre em falhas provocadas pelo
desconhecimento quase total da região Sul.
21

Status – direitos e deveres que caracterizam a posição de uma pessoa em suas relações com outra.

21

Nos dois livros percebe-se a idealização; seus personagens são moldados
a partir do conceito de “bom selvagem”.
3.2.4 Romances rurais
Apesar de não totalmente imbuídos22 de caráter regionalista, “Til” e “O
Tronco do Ipê”, são obras que focalizam o meio rural; a primeira retrata as
fazendas de café no interior de São Paulo; a segunda, a fazenda Nossa Senhora
do Boqueirão, banhada pelo Rio Paraíba, no norte do Rio de Janeiro.
3.2.5 Romances indianistas
É o gênero que popularizou Alencar. Três romances marcaram este gênero:
“O Guarani, Iracema e Ubirajara”. Além do indianismo que reflete o nacionalismo
e a exaltação da natureza pátria, essas obras revelam uma preocupação
histórica. O autor pesquisou documentos quinhentistas e neles encontrou a
família de D. Antônio de Mariz, personagens de “O Guarani”. Há, no início do livro,
uma preocupação muito grande em tudo definir em termos temporais e espaciais.
A natureza pátria aparece exaltada e nela vive um super-herói, o índio, de cultura,
fala e modo de agir europeizados. Em “O Guarani”, o índio, individualizado em
Peri, aparece civilizado, em contato com os brancos.
Coutinho (1999, p.101), defende o elemento indígena como um dos
constituintes dos temas mais marcantes do Romantismo e afirma que já esteve
presente também na poesia. Autores como Gonçalves Dias e José de Alencar
identificam o índio como uma marca nativista, ou seja, própria da identidade
brasileira. É o filósofo “Rousseau” que na verdade, irá divulgar o “mito do bom
selvagem”, fundamentando uma reflexão sobre o estado puro do indígena,
corrompido pelo progresso urbano.

22

Imbuídos - impregnados

22

IV- MULHER: ASSUNTO PREDILETO DOS ROMÂNTICOS

Observando apenas os títulos das obras românticas, percebe-se a
presença muito freqüente do elemento feminino: “A Moreninha”, de Joaquim
Manuel de Macedo; “Inocência”, de Visconde de Taunay; “Senhora, Diva, Lucíola,
Iracema, Til, A Viuvinha, “de José de Alencar; “Helena, Iaiá Garcia”, de Machado
de Assis. Nos enredos dessas e de outras histórias da época romântica, a
presença feminina é sempre colocada em destaque.
Para os românticos, a mulher era sinônimo e símbolo de sensibilidade e de
beleza, do amor verdadeiro e da religiosidade, da família e da perfeição, valores
considerados imprescindíveis para a mentalidade da época. Os leitores buscavam
na leitura das narrativas 23 uma identificação com os heróis e heroínas,
representantes de seus dramas e paixões cotidianas.
Os escritores românticos, para conquistar um público leitor e atender a
seus anseios, envolvem seus heróis e, principalmente, heroínas no halo de
beleza, integridade e de todas as qualidades ideais que podem ornar o caráter, o
corpo e a alma de uma pessoa; são elas: idealização da mulher; o amor
platônico24; o predomínio da emoção sobre a razão; o reinado da fantasia sobre a
realidade; a preponderância da paixão sobre a racionalidade.

V- ALGUMAS DAS HEROÍNAS CRIADAS POR ALENCAR
23
24

Narrativas – formas literárias nas quais se expõe uma série de fatos reais ou imaginários.
Platônico – alheio a interesses ou gozos materiais.

23

Alencar com sua experiência jornalística e a sua observação da sociedade
fluminense de seu tempo e a fantasia, cria histórias de intrigas, de namoros
adolescentes, de lazer e ansiedade, que giram em torno do dinheiro, do amor e
da honra. São pinturas de perfis femininos, retratados de mulheres fantásticas, ao
mesmo tempo delicadas e fortes, submissas e sedutoras.
5.1 Ceci: a heroína de “O Guarani”
Cecília, filha de D. Antônio de Mariz, é a heroína do romance “O Guarani”.
Ela vive com a família numa fazenda no interior do estado do Rio de Janeiro, na
qual todos serão atacados e mortos, menos ela, por índios de várias nações
Aimorés que desejam vingar-se do assassinato de uma jovem índia, cometido por
Diogo, filho estouvado25 de D. Antônio e irmão de Cecília. Diante dos perigos que
ela vai correr, o pai aceita os serviços de Peri, um chefe indígena Goitacás, que a
tem por uma deusa, parecida com uma imagem de Nossa Senhora a qual vira
numa igreja incendiada, e se dedica de corpo e alma a seu serviço e proteção.
Peri adora Ceci e a ela rende vassalagem como a uma rainha; Álvaro de Sá, um
jovem fidalgo que se colocou a serviço de D. Antônio, apaixona-se
respeitosamente pela moça; Soredano, um ex-padre, levado por baixos instintos,
tenta raptar a moça para tê-la só para si. Cecília será salva de vários ataques e
da morte com a família, por Peri, o qual também a salvará da morte quando da
inundação do Paraíba, que irá surpreendê-los em plena floresta.
Pode-se fazer uma intertextualização da inundação do Paraíba, com o
dilúvio, presente na Bíblia, sendo os novos Adão e Eva, ou como Tamandaré, a
versão indígena do bíblico Noé, viverão juntos e povoarão a Terra.

5.1.1 A idealização em Ceci

25

Estouvado - imprudente

24

A idealização romântica da mulher aponta para a perfeição. Veja no
fragmento a seguir retirado de “O Guarani”, onde pode ser confirmada tal
perfeição no personagem vivido por Ceci:
O seu trajo era do gosto o mais mimoso e o mais original que é possível
conceber, mistura de luxo e de simplicidade.
[...]
Os longos cabelos louros, enrolados negligentemente em suas tranças,
descobriam a fronte alva, e caíam em volta do pescoço presos por uma
rendinha finíssima de fios de palha cor de ouro, feita com uma arte e
perfeição admirável (ALENCAR, 1958, p. 102).

A sensibilidade romântica se expressa freqüentemente por meio de
sensações físicas. O fragmento a seguir apresenta uma percepção sensorial
reiterada pelo narrador:
Os sopros tépidos da brisa que vinham impregnados dos perfumes das
madressilvas e das açucenas agrestes, ainda excitavam mais esse
enlevo e bafejavam talvez nessa alma inocente algum pensamento
indefinido, algum desses mitos de um coração de moça aos dezoito
anos (ALENCAR, 1958, p. 104).

Alencar apresenta uma personagem angelical, num cenário paradisíaco: a
personagem deixa-se levar pela fantasia e sonha com uma realidade idealizada.
O escritor dá predominância à fantasia e subjetividade.
A heroína Cecília tem em comum com as mocinhas da época romântica e,
também de hoje, o espírito sonhador, as fantasias sobre um grande amor, a
sentimentalidade aguçada. Como comprova o trecho a seguir retirado de “O
Guarani”:
“Ela sonhava que uma das nuvens brancas que passavam pelo céu anilado
roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha cair a seus
pés tímido e suplicante” (ALENCAR, 1958, p. 105).
José de Alencar apresenta uma visão idealizada da natureza, veja no
trecho abaixo:
No pequeno jardim da casa do Paquerer, uma linda moça se embalava
docemente numa rede de palha presa aos ramos de uma acácia
silvestre, que estremecendo deixava cair algumas de suas flores miúdas
e perfumadas (ALENCAR, 1958, p. 100).

25

Ceci é a moça branca que se une ao guerreiro índio, um típico romance
romântico de Alencar que coloca em relevo a miscigenação 26 do povo brasileiro.
5.2 Iracema: a heroína dos lábios de mel
Iracema é uma das inúmeras heroínas de Alencar. Trata-se de uma índia
que se apaixona pelo guerreiro branco. Num romance em que a linguagem é
muito poética e até ritmada. José de Alencar quis fazer uma homenagem ao
Ceará, sua terra natal, contando a lenda de uma belíssima heroína indígena que
renuncia à própria família e à própria tribo para viver seu grande amor proibido,
junto a Martim. Este, durante uma caçada, afastou-se de Poti seu amigo
potiguara, e se perdeu na densa floresta que pertencia aos Tabajaras. Foi ali que
conheceu Iracema, por quem se apaixonou. Como a índia era uma virgem
consagrada ao culto de Jurema, não podia ligar-se a homem algum, sob pena de
morte. O amor foi maior que a lei e o medo. A fuga de Iracema com o homem
branco ofendeu os chefes de sua tribo que declararam guerra aos amigos de
Martim. Iracema viu a derrota de seu povo, amargou a solidão e a insegurança
com as prolongadas ausências do companheiro, e, sofrendo muito, teve seu filho,
a quem chamou Moacir, o filho da dor. A sobrevivência de Moacir, o homem do
Novo Mundo, custa a vida de sua mãe, a mulher-natureza. Martim é o
conquistador da América, terra cujo nome se escreve com as mesmas letras de
Iracema.
5.2.1 Iracema: a pátria amada, mãe gentil
Inaugurando o indianismo e o nacionalismo no romance brasileiro, José de
Alencar, na obra “Iracema”, mistura poesia27 e prosa28, lirismo29 e epopéia30. Em
uma carta, o autor cita o motivo pelo qual escreveu o livro:
[...] Quando em 1848 revi nossa terra natal o Ceará, tive a idéia de
aproveitar suas lendas e tradições em alguma obra literária. Já em São
Paulo tinha começado uma biografia do Camarão, o índio Poti, depois
26

Miscigenação - mistura
Poesia – composição poética de pouca extensão.
28
Prosa – um modo natural de falar ou escrever, por oposição a verso.
29
Lirismo – diz-se do gênero de poesia em que se cantam emoções e sentimentos íntimos.
30
Epopéia – poema longo sobre assunto grandioso e heróico.
27

26

batizado com o nome de Antônio Filipe Camarão. A mocidade dele, a
amizade heróica que o ligava a Soares Moreno, Martim Soares Moreno
é considerado o verdadeiro fundador do Ceará, a bravura e a lealdade
de Jacaúna, aliado dos portugueses, e suas guerras contra o célebre
Mel Redondo: aí estava a tema. Falta-lhe o perfume que derrama sobre
as paixões do homem a beleza da mulher (ALENCAR, 1865).

5.2.2 Iracema: a mulher natureza
Para descrever a beleza de Iracema, o autor usa os símiles (comparação
explícita), apresentados sob a forma de duas imagens postas em paralelo; mas
um caso de idealização da mulher:
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu
Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos
mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de
palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha
recendida no bosque como seu hálito perfumado (ALENCAR, 1958, p.
148).

Iracema é colocada pelo autor como padrão ideal de esposa e mãe do
século XVII:
Pelo amor do marido, ela deixa família, a pátria tabajara. Pelo filho,
sofre até a tortura de aleitar os filhotes da irara; dá-lhe o seu próprio
sangue, misturado ao leite assim tão dolorosamente chamado ao seio;
por ele sofre o desprezo do esposo (BOSI, 1980, p. 98).

O crítico refere-se a seguinte passagem do romance, onde o autor coloca
virtudes de mãe e heroína a Iracema:
Põe no regaço um por um os filhos da irara; e lhes abandona os seios
mimosos, cuja teta rubra como a pitanga ungiu do mel da abelha. Os
cachorrinhos famintos sugam os peitos avaros de leite. Iracema curte
dor, como nunca sentiu; parece que lhe exaurem a vida; mas os seios
vão-se intumescendo; apojaram afinal, e o leite, ainda rubro do sangue
de que se formou, esguicha. A feliz mãe arroja de si os cachorrinhos, e
cheia de júbilo mata a fome do filho. Ele é agora duas vezes filho de sua
dor, nascido e também nutrido (ALENCAR,1958 p. 307).

José de Alencar em sua narrativa privilegia o selvagem ao civilizado. O
narrador conta a história do ponto de vista de Iracema, isto é, do índio,
privilegiando seus sentimentos e não os de Martim, que representa o branco
colonizador: “O sentimento que ele (Martim) pôs nos olhos e no rosto não sei eu.
Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro,
sentida da mágoa que causara” (ALENCAR,1958, p. 142).

27

José de Alencar coloca Iracema como representante da natureza
americana. Todas as imagens que o autor utiliza para descrever a índia são
retiradas da fauna e flora da região. Se não fosse a presença de uma heroína
indígena, que se relacionasse com um branco, simbolizando a mistura de raças, o
objetivo do romance não seria alcançado: exaltar as belezas naturais do país e
contar uma parte da história da colonização brasileira.
O romancista apresenta em “Iracema” um relacionamento amoroso entre
uma índia e um homem branco representando a miscigenação de raças, troca
entre culturas distintas e, conseqüentemente, uma conquista para os brancos. Os
brancos, com seus filhos nascidos no Brasil em miscigenação com nativos,
plantaram para sempre suas raízes em solo brasileiro.
5.3 Lucíola: o perfil da heroína urbana
Lucíola, narra a história de uma menina, Maria da Glória, que se vê forçada
a prostituir-se para salvar a vida de sua família, dizimada pela febre amarela. Para
evitar a vergonha sobre sua família, dá seu nome, Maria da Glória, ao médico que
vai atestar o óbito de uma moça sem família que morrera em sua casa. Adota,
então, o nome da morta, Lúcia, e torna-se uma das prostitutas mais requisitadas
da Corte.
Um dia, Lúcia conhece Paulo. Ambos se apaixonam, e Lúcia, aos poucos,
abandona a prostituição, mas não se realiza sua união final com Paulo, pois ela
morre, não sem antes encaminhar sua irmã mais nova para uma vida diferente da
sua, sob a proteção dele.
5.3.1 Apresentação da obra
A história se passa no ano de 1855, na cidade do Rio de Janeiro.
O título do livro é explicado pelo próprio Alencar, na nota introdutória:
“Lucíola é o lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva a à
beira dos charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no abismo da
perdição conserva a pureza d’alma?” (ALENCAR, 1958, p.8).
A história é narrada por Paulo, jovem bacharel em Direito, recém chegado
a corte. O livro gira em torno de uma prostituta, Lucíola é um romance

28

extremamente moralista e moralizante. Dissocia radicalmente o amor físico e o
amor espiritual. Quando Lúcíola se apaixona por Paulo, começa a afastar-se de
sua vida de prostituição e, mais do que isso, começa a abster-se de qualquer
relação sexual. Inicialmente, recusa os seus fregueses habituais. Posteriormente,
conforme aumenta o amor dos dois, a relação entre ambos torna-se platônica, o
que simbolicamente abre caminho para a “purificação” da moça. Essa
“purificação”, porém, não é suficiente para que a sociedade (nem o romancista) a
perdoe. Por assim dizer, a culpa a impede de casar-se com Paulo, e ela e o filho
que tiveram morrerão no fim do romance. Todavia, o processo de “purificação” vai
tão longe que, no final, Paulo diz textualmente que possui a alma de Lúcia.
Alencar, apesar de todo idealismo romântico, conseguiu, na obra Lucíola,
captar e denunciar certos aspectos profundos, recalcados 31 da realidade social e
individual, onde pode detectar um pré-realismo ainda inseguro.
Lucíola é uma obra representativa da sociedade da corte. O Rio de Janeiro
é um espaço que, a partir da Proclamação da Independência passa por uma série
de transformações, perdendo os traços que possuía durante o período colonial e
sofrendo uma forte influência do estrangeiro, sobretudo da França (ALENCAR,
1958, p.25).
5.3.2 Lucíola e seu contexto
A história é narrada em primeira pessoa pelo personagem Paulo, de forma
que a história é contada de sua perspectiva. Ele focaliza os espaços interiores,
nos quais movimentam os representantes da grande e da pequena burguesia em
ascensão, que almejam alcançar o “status”.
Essa narração limita a visão do narrador, que participa dos acontecimentos
e julga as ações e as pessoas de acordo com os preconceitos e moralismos
impostos a ele pela sociedade. Mesmo depois de se apaixonar por Lúcia, de
conhecer todas as circunstâncias dramáticas e trágicas que a empurraram para a
prostituição e de participar da regeneração dessa mulher, Paulo, que narra uma
história já acontecida, insiste em presentificá-la, como se tudo estivesse
acontecendo no momento mesmo da narração.

CONCLUSÃO
31

Recalcados – reprimidos.

29

Observando-se apenas os títulos das obras românticas, percebe-se a
presença muito freqüente do elemento feminino.
Na concepção dos românticos, a mulher era sinônimo e símbolo de
sensibilidade e beleza, de emoção e delicadeza, de moralidade e pureza, do amor
verdadeiro e religiosidade, da família e da perfeição, valores considerados
imprescindíveis para a mentalidade da época.
Como pôde-se constatar, desde muito cedo, José de Alencar demonstrava
gosto pela literatura e escrita. Com sua experiência jornalística e sua observação
da sociedade de seu tempo, cria histórias de intrigas, de namoros adolescentes,
do amor e da honra. São pinturas de perfis femininos, retratados de mulheres
fantásticas, ao mesmo tempo delicadas e fortes, submissas e sedutoras.
Esse trabalho, mostrou alguns dos perfis e da vida das mulheres
maravilhosas criadas pelo excepcional autor, José de Alencar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

30

BOSI, Alfredo. história concisa da literatura brasileira. 2. ed. São Paulo. Cultrix,
1993.
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Sul América, 1994.
BERALDO, José Luiz. Literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1980.
ALENCAR, José de. Iracema. Rio de Janeiro: Vozes, 1977.
ALENCAR, José de. Lucíola. Rio de Janeiro: Vozes, 1977.
RODRIGUES, Antônio Medina et al. Literatura. São Paulo: Anglo, 1990.