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O conceito de orçamento público Fernando Lima Gama Junior* No linguajar popular, orçamento é uma relação

O conceito de orçamento público

Fernando Lima Gama Junior*

No linguajar popular, orçamento é uma relação ou um rol de despesas e receitas que determinada pessoa tem para pagar ou para receber durante um determinado período, que pode ser de um mês ou um ano, por exemplo. Não é por outro motivo que nos primórdios do orçamento na Administração Pública, a peça era vista como um documento meramente contábil, sem ne- nhuma ou com pouca vinculação aos instrumentos de planejamento (orça- mento tradicional).

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Auditor Federal de Con- trole Externo do Tribunal de Contas da União em Mato Grosso. Professor de preparatórios para concur- sos nas disciplinas de Con- trole Externo, Orçamento Público, Contabilidade Pública e Legislação Tribu- tária do ICMS. Engenheiro Químico pela Universi- dade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2001. Bacharelando em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

O orçamento, portanto, pode ter um viés mais contábil, enfocando exclu- sivamente os recursos financeiros em uma planilha (uma peça meramente contábil), mas também pode ser um instrumento de planejamento da aqui- sição de algum bem, como um imóvel ou um veículo, quando as pessoas re- solvem reter ou guardar parte de suas rendas por um determinado período com vistas a uma aquisição futura.

Essa integração entre o planejamento e o orçamento se deu com força no meio empresarial na década de 1960, quando passou a ser visto como um instrumento poderoso de planejamento e não só como um documento con- tábil. Essa discussão também teve lugar no setor público que evoluiu de um orçamento que se caracterizava por ser uma mera peça contábil (orçamento tradicional) para ser um importante instrumento de planejamento dos go- vernos (orçamento-programa).

Nos dias de hoje, o orçamento não é apenas uma peça contábil, mas um instrumento de planejamento da Administração, ao passo que a contabili- dade pública, outra disciplina interligada ao estudo do orçamento público, registra as variações do patrimônio público e da execução do orçamento subsidiando a tomada de decisão dos administradores públicos, além de contribuírem para a transparência da administração.

Bancas de concurso costumam exigir o conceito literal de orçamento pú- blico. O conceito mais antigo, mais conhecido e difundido é o do professor Aliomar Baleeiro (1994), que diz que:

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O conceito de orçamento público Fernando Lima Gama Junior* No linguajar popular, orçamento é uma relação

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o orçamento é um ato pelo qual o Poder Legislativo autoriza o Poder Executivo, por um certo período e em pormenor, a realização das despesas destinadas ao funcionamento dos serviços públicos e outros fins adotados pela política econômica e geral do país, assim como a arrecadação das receitas criadas em lei.

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Já nos dizeres do professor Francisco Glauber Lima Mota (2006), “o orça- mento público é um documento que dá autorização para se receber e gastar recursos financeiros”. Já para o mestre João Fortes (2006), “o orçamento é uma prévia autorização do Legislativo para que se realizem receitas e despe- sas de um ente público, obedecendo a um determinado período de tempo”.

Da leitura da definição do professor Aliomar Baleeiro (1994), pode-se iniciar o estudo pormenorizado do orçamento público, já que o texto traz muitos conceitos importantes.

Iniciativa

O texto do eminente professor começa afirmando que “o orçamento é um ato pelo qual o Poder Legislativo autoriza o Poder Executivo”, o que sig- nifica que o orçamento público é ato de iniciativa exclusiva do chefe do Poder Executivo.

O processo orçamentário brasileiro começa com cada um dos poderes elaborando sua proposta orçamentária. O Poder Executivo, o Legislativo, o Judiciário, o Ministério Público, o Tribunal de Contas e a Defensoria Pública elaboram suas próprias propostas orçamentárias e encaminham ao Poder Executivo para consolidação.

Uma vez feita a consolidação, é enviada uma proposta de orçamento da unidade da federação envolvida (União, estado ou município) ao respectivo Poder Legislativo. Assim, por exemplo, no caso da União, os Poderes Legisla- tivo, Executivo, Judiciário, Ministério Público e Tribunal de Contas da União e Defensoria Pública da União elaboram suas próprias propostas orçamentá- rias e encaminham ao Poder Executivo, para a consolidação. Uma vez conso- lidada, a proposta de orçamento da União segue para o Congresso Nacional, o Poder Legislativo federal.

São comuns questões de concurso que abordam a questão da iniciati- va da lei orçamentária. Muitas alegam, por exemplo, que seria possível um poder qualquer enviar sua própria proposta orçamentária diretamente ao Poder Legislativo. Nesse caso, deve-se marcar falso. A iniciativa é exclusiva

O conceito de orçamento público o orçamento é um ato pelo qual o Poder Legislativo autoriza
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do chefe do Poder Executivo (presidente, governador e prefeito), não poden- do nem mesmo eventual vício de iniciativa ser convalidado (corrigido pela pessoa que tem a iniciativa).

É importante notar, também, que não é possível o próprio Poder Legis- lativo aprovar o seu orçamento, já que esse é o poder que aprova as leis. Esse é outro tipo de questão comum que deve ser considerada falsa. O Poder Legislativo, assim como todos os demais, tem que enviar sua proposta orça- mentária para consolidação pelo Poder Executivo, para posterior envio ao Congresso (no caso da União).

Portanto, a iniciativa da lei orçamentária é de competência privativa do Poder Executivo, não podendo ser suprida por outro órgão, ainda que do Poder Legislativo.

Orçamento autorizativo

Continuando na leitura da definição do professor Aliomar Baleeiro, vimos que “o orçamento é um ato pelo qual o Poder Legislativo autoriza o Poder Executivo”. Portanto, no Brasil, o orçamento público é de natureza autorizati- va. O que significa isso, exatamente?

Nos orçamentos autorizativos não existe a obrigatoriedade de executar todas as despesas consignadas na lei orçamentária. Esta é vista apenas como peça necessária, uma condição para a execução das despesas, mas não é, por si só, suficiente para a execução orçamentária, tarefa essa do administrador público que, em razão da sua discricionariedade, pode escolher o melhor momento para executar determinadas despesas.

Como nessa visão a lei orçamentária é uma condição para a execução da despesa, convencionou-se chamar os orçamentos autorizativos de ato-con- dição, para diferenciá-lo das outras leis, que em geral criam obrigações, que são chamadas de atos-regra. O Código Penal, por exemplo, é um ato-regra, já que não existe discricionariedade das pessoas no cumprimento de suas determinações. Todo mundo, por exemplo, é proibido de matar ou roubar.

Embora, no Brasil, o orçamento público tenha caráter autorizativo (ato- -condição), a doutrina orçamentária reconhece a existência de outro tipo de orçamento público, o orçamento impositivo. Nele, o administrador pú-

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O conceito de orçamento público do chefe do Poder Executivo (presidente, governador e prefeito), não poden-

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blico perde a discricionariedade para decidir sobre o que deve ser executa- do, já que como lei, nessa visão, o orçamento deve ser integralmente exe - cutado como aprovado. É o orçamento público em sua versão ato-regra, obrigatório.

O STF, ao ser instado a se manifestar sobre o assunto, entendeu que, no Brasil, o orçamento não é impositivo, mas sim, autorizativo. Isso quer dizer que não existe obrigatoriedade de execução das despesas consignadas no orçamento público, já que a avaliação do que deve ou não ser executado está a cargo da discricionariedade do gestor.

É notável perceber que o orçamento público do tipo autorizativo conce- de maior poder ao chefe do Executivo (presidente, governador e prefeito), a quem cabe decidir o que executar. Já os orçamentos do tipo impositivo transferem esse poder ao Legislativo, já que ao chefe do Executivo caberá meramente a tarefa de execução (e não a de decisão) do orçamento aprova- do por deputados e senadores.

A questão das emendas parlamentares é um caso emblemático dessa dis- cussão. Como se sabe, emendas parlamentares são destaques que deputa- dos e senadores (no caso da União) podem fazer no orçamento (da União, de estados e municípios). A ideia inicial era a de que o parlamentar, eleito pelo povo, pudesse tomar parte nas decisões orçamentárias para beneficiar a sua região ou algum projeto prioritário de seu interesse.

No entanto, o instrumento foi desvirtuado e as emendas parlamenta- res passaram a ser usadas como forma de corrupção, apadrinhamento e compra de votos, entre outras irregularidades. Atualmente, embora os par- lamentares ainda possam fazer as emendas parlamentares, fica a cargo do Poder Executivo decidir se elas receberão ou não recursos orçamentários. Se o Poder Executivo decidir não mandar verbas financeiras para a emenda, embora aprovada, ela não é executada.

Muitos parlamentares, insatisfeitos com a não execução das despesas orçamentárias consignadas por meio de emendas, tentaram encampar a tese de que o orçamento público, por ser lei, deveria ter execução obriga- tória, ou seja, queriam que no Brasil fosse adotado o modelo orçamentário impositivo.

Assim, o Supremo Tribunal Federal foi acionado e decidiu que o orça- mento é ato-condição (condição necessária para execução da despesa),

O conceito de orçamento público blico perde a discricionariedade para decidir sobre o que deve ser
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mas não ato-regra (obrigação no sentido restrito). Desde então, ficou claro que o orçamento no Brasil tem natureza autorizativa, ou seja, não existe obrigatoriedade da execução das despesas lá consignadas.

Natureza jurídica do orçamento público

A natureza jurídica do orçamento público também gera debates e está intimamente ligada à questão tratada no tópico anterior, sobre a obrigato- riedade ou a discricionariedade na execução das despesas do orçamento.

O orçamento público é, em última análise, uma lei formalmente aprovada pelo Poder Legislativo. Tem formato de lei e é aprovada como tal. Mas sendo o orçamento no Brasil um ato-condição e não ato-regra (ou seja, não é obri- gatório, mas autorizativo) qual seria a natureza jurídica do orçamento?

Em consonância com a decisão anterior, de que o orçamento é apenas uma peça autorizativa, o STF, instado a se manifestar sobre o assunto, deci- diu que o orçamento público é lei apenas no sentido formal.

As leis podem ser classificadas em leis materiais ou em leis formais. Lei formal é aquela que tem “cara” de lei, ou seja, é formalmente aprovada pelo Poder Legislativo. Todas as leis que são aprovadas pelo Poder Legislativo são leis formais.

Entretanto, nem todas as normas aprovadas pelo Poder Legislativo são leis materiais. Lei material é aquela norma que tem abstração e é genérica, não tendo destinatário certo. É um conjunto de hipóteses normativas abstra- tas. Assim, quando o Código Penal diz que matar alguém é crime e comina as penalidades para quem mata, a norma não está dizendo quem vai ser pe- nalizado. Todo aquele que matar alguém (exceto nas hipóteses de exclusão de crime) está cometendo crime, não tendo a lei destinatário certo, sendo genérica. Assim, o Código Penal é uma lei em sentido material.

Por outro lado, suponha que uma lei conceda aposentadoria vitalícia a um cidadão em razão de ele ter sido reconhecido, por exemplo, como herói da pátria. Nesse caso, temos uma lei formal, pois aprovada pelo Poder Legis- lativo. Entretanto, ela não é genérica e tem destinatário certo: a sua natureza jurídica é de ato administrativo e não de lei. Atos administrativos, em regra, têm efeitos concretos, assim como as leis meramente formais (chamadas leis de efeitos concretos).

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O conceito de orçamento público mas não ato-regra (obrigação no sentido restrito). Desde então, ficou claro

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Nesse sentido, o orçamento público é considerado um “ato administrati- vo” revestido de formato de lei formal, não sendo, portanto, lei material, mas sim, lei de efeitos concretos.

Mandado de segurança e orçamento público

Quem já estudou Direito sabe que o mandado de segurança é um re- médio constitucional que visa repelir ameaça a direito causado por agente público ou quem tenha poder de ordem pública (uma concessionária, por exemplo). Mandado de segurança é uma ação subsidiária, ou seja, ela só é cabível quando não é possível a impetração do habeas corpus ou habeas data, outros remédios constitucionais para finalidades diferentes.

Assim, quem tiver um direito ameaçado que não esteja amparado por habeas corpus ou habeas data e cujo autor da ofensa seja agente público (ou que tenha poder de ordem pública) pode impetrar na via judicial uma ação constitucional chamada mandado de segurança, desde que o direito seja líquido e certo (o que quer dizer, em termos bem resumidos, que não seja necessária dilação probatória, ou seja, a questão não deve ser de fatos, mas de direitos).

É comum, por exemplo, a impetração de mandado de segurança contra desapropriação de uma área privada por um órgão público ou contra um ato administrativo que negue a isenção de imposto para um deficiente físico. As aplicações do mandado de segurança são várias e ultrapassam os objetivos deste texto sobre orçamento público. Mas o que é importante saber, a essa altura, é que a doutrina entende que o mandado de segurança só pode ser aplicado contra ato concretamente constituído, ou seja, contra aqueles atos que já saíram do plano abstrato para a realidade fática.

Uma lei pode ser absurdamente ilegal, mas contra ela não é possível a impetração de mandado de segurança, já que, enquanto genérica, ela não produz efeito concreto nenhum. Nesse caso, seria possível contestar a lei pelo controle direto (ação direta de inconstitucionalidade) ou, em alguns casos, pelo controle difuso (qualquer ação), mas, em regra, não seria possível discutir normas abstratas no âmbito do mandado de segurança em razão da necessidade de se provar a certeza e liquidez do direito já na inicial.

O conceito de orçamento público Nesse sentido, o orçamento público é considerado um “ato administrati- vo”
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O conceito de orçamento público

Portanto, o mandado de segurança só pode ser aplicado contra atos administrativos, que é a consumação fática de um desejo da Administração e que, de fato, pode gerar prejuízos concretos a alguém. E é, portanto, contra os atos administrativos que o mandado de segurança é possível.

Situação curiosa ocorre em leis tributárias ilegais. Uma vez aprovada a lei ilegal, os contribuintes ainda nada podem fazer de concreto, posto que a lei é genérica e abstrata e nada aconteceu ainda no plano fático apenas com a sua aprovação. Apenas quando o fiscal ou o auditor tributário fiscaliza e/ou notifi- ca o contribuinte para o pagamento do imposto é que a lei ilegal sai do plano abstrato e se torna real, momento a partir do qual é possível a impetração de mandado de segurança.

O que essa discussão traz de prático para o estudo do orçamento público? É que quando trouxemos à baila a discussão a respeito da natureza jurídica do orçamento público e das suas relações com a obrigatoriedade da sua exe- cução (orçamento impositivo versus autorizativo), vimos que o orçamento autorizativo é visto como um ato administrativo travestido de lei formal.

Se o orçamento autorizativo é ato administrativo (disfarçado de lei), então, na prática, os doutrinadores entendem que é possível impetrar mandado de segurança contra ele, embora não seja possível a mesma ação contra a lei em tese (abstratas).

É possível, como já aconteceu, alguma prova de concurso questionar se o mandado de segurança é instrumento cabível contra leis orçamentárias. Do ponto de vista meramente teórico, a resposta é verdadeira, por ser o orça- mento lei de efeitos concretos.

Agora é bom ressaltar que não são todas as partes das leis orçamentárias que têm efeitos concretos. Alguns trechos da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) se prestam a orientar a elaboração da Lei Orçamentária Anual (LOA) e, não raro, criam critérios a serem seguidos nos mais diversos casos. Nesses dispositivos, há abstração e a lei é genérica, motivo pelo qual pode ser insta- da em sede de ADI.

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O STF tem dado por inadmissível a ação direta contra disposições insertas na Lei de

Diretrizes Orçamentárias, porque reputadas normas individuais ou de efeitos concretos, que se esgotam com a propositura e a votação do orçamento fiscal (v.g., ADI 2.100, Jobim, DJ 1.º/06/2001). A segunda norma questionada que condiciona a inclusão no orçamento fiscal

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O conceito de orçamento público Portanto, o mandado de segurança só pode ser aplicado contra atos

O conceito de orçamento público

da verba correspondente a precatórios pendentes à “manutenção da meta de resultado primário, fixada segundo a LDO”, constitui exemplo típico de norma individual ou de efeitos concretos, cujo objeto é a regulação de conduta única, posto que subjetivamente complexa: a elaboração do orçamento fiscal, na qual se exaure, o que inviabiliza no ponto a ação direta. Diferentemente, configura norma geral, suscetível de controle abstrato de constitucionalidade a primeira das regras contidas no dispositivo legal questionado, que institui comissão de representantes dos três Poderes e do Ministério Público, à qual confere a atribuição de proceder ao “criterioso levantamento” dos precatórios a parcelar conforme a EC 30/2000, com vistas a “apurar o seu valor real”: o procedimento de levantamento e

apuração do valor real, que nela se ordena, não substantiva conduta única, mas sim conduta a ser desenvolvida em relação a cada um dos precatórios a que alude; por outro lado, a determinabilidade, em tese, desses precatórios, a partir dos limites temporais fixados, não subtrai da norma que a todos submete à comissão instituída e ao procedimento de revisão nele previsto a nota de generalidade. Não obstante, é de conhecer-se integralmente da ação direta se a norma de caráter geral é subordinante da norma individual, que, sem a

primeira, ficaria sem objeto. [ 19/12/2001, DJ de 21/11/2003).

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(ADI 2.535-MC, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, julgamento em

Portanto, regra geral, as leis orçamentárias (a parte que faz a previsão da receita e fixa a despesa) não estão suscetíveis ao controle jurisdicional em abstrato, como em uma ação direta de inconstitucionalidade. A exceção ocorre na parte em que possuem abstração e generalidade, ou seja, na parte normativa das leis orçamentárias.

Outros aspectos do orçamento público

Periodicidade

As autorizações legislativas devem ser feitas por períodos definidos de tempo, o que chamamos de princípio da anualidade. Se a autorização do Poder Legislativo fosse muito longa ou indefinida, o controle legislativo per- deria o sentido. Por outro lado, se a autorização tivesse um prazo muito curto, o Poder Executivo ficaria engessado. Hoje, a periodicidade é definida em lei e corresponde ao prazo de um ano, que atualmente é coincidente com o ano civil (1/1 a 31/12). Mas essa coincidência não é obrigatória. Alguns países têm o ano fiscal iniciando em abril (Estados Unidos), assim como é possível, na prática, a adoção de qualquer data como termo de início.

Detalhamento

A autorização concedida pelo Poder Legislativo ao Executivo não é um cheque em branco: o Poder Legislativo deve ter conhecimento pormenori-

O conceito de orçamento público da verba correspondente a precatórios pendentes à “manutenção da meta de
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O conceito de orçamento público

zado do que está autorizando, de modo a evitar a autorização de gastos glo- bais. Se a autorização fosse global (sem detalhar onde o dinheiro seria gasto), o Poder Executivo teria muita liberdade para gastar onde bem entendesse os recursos orçamentários. No entanto, se o orçamento for muito detalhado, ele ficará muito engessado e difícil de se adaptar a eventuais mudanças.

Orçamento público e economia

O Poder Legislativo deve autorizar a realização das despesas, de modo que elas não podem ser superiores às receitas previstas, em função do prin- cípio do equilíbrio. Entretanto, é bom ressaltar que a despesa pública tem grande influência na economia. Segundo a visão keynesiana da economia, o aumento dos gastos públicos tem influência positiva sobre o produto inter- no bruto e, portanto, sobre a renda das famílias.

Os investimentos do governo também podem contribuir para o aumento da renda: a participação do setor público, em todos os seus níveis e esferas na economia, é decisiva na determinação do nível de renda da sociedade e da alocação dos recursos pelos entes privados.

A Portaria 163/2001 – STN/SOF estipulou a obrigatoriedade para todos os membros da federação utilizarem a classificação da despesa lá descrita, com a finalidade de estimar a participação do setor público na economia. É que se cada ente tivesse sua própria classificação da despesa seria difícil, ou quase impossível, levantar os agregados macroeconômicos de despesa corrente e de capital para fins de consolidação das contas nacionais.

Atividades

  • 1. (Cespe) Em relação à gestão financeira, julgue o item utilizando verda- deiro (V) ou falso (F). ( ) A atividade financeira do Estado destina-se exclusivamente à obtenção de meios que assegurem a cobertura das despesas decorrentes da atuação das diversas instituições governamen- tais. No primeiro ano do mandato presidencial, não há condi- ções objetivas de compatibilizar a LDO com o PPA. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br

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O conceito de orçamento público zado do que está autorizando, de modo a evitar a autorização

O conceito de orçamento público

  • 2. (Cespe) O orçamento público tem como uma de suas principais fun- ções o controle da atividade financeira do Estado. Para efetivação desse controle, no processo de elaboração da proposta orçamentária, devem ser respeitados alguns princípios orçamentários, os quais não incluem o princípio da:

    • a) universalidade.

    • b) exclusividade.

    • c) anualidade.

    • d) tolerância.

  • 3. (Cespe) Com relação à política fiscal e monetária, assinale a opção cor- reta.

    • a) Uma forma de financiamento de déficit público ocorre por meio de política monetária expansionista, segundo a qual, por exemplo, o Banco Central poderia aumentar a taxa cobrada sobre emprésti- mos compulsórios aos bancos comerciais.

    • b) Aumentar a emissão de títulos do Governo é política fiscal que de- pende somente do oferecimento de taxas de juros atrativas.

    • c) Postergação de ajustes das contas públicas tende a realimentar, por meio da conta de juros, os déficits em períodos subsequentes, o que torna o ajustamento requerido progressivamente menor.

    • d) O importante quanto à dívida pública não é o seu tamanho, mas a sua composição, e é esta diferença na composição da dívida que distingue os países desenvolvidos dos países em menor estágio de desenvolvimento.

  • 4. (Cespe) O papel desempenhado pelo Governo é fundamental para o funcionamento adequado das modernas economias de mercado. Em conformidade ao arcabouço teórico e aplicado, desenvolvido no âm- bito da economia do setor público, julgue o item seguinte utilizando verdadeiro (V) ou falso (F). (

  • )

    Investimentos públicos na área de infraestrutura e em setores econômicos estratégicos constituem exemplos típicos da função alocativa do Governo.

    O conceito de orçamento público 2. (Cespe) O orçamento público tem como uma de suas principais
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    O conceito de orçamento público

    • 5. (Esaf) Com base nas funções clássicas do Estado, assinale a única op- ção falsa.

      • a) As necessidades meritórias são aquelas que também são atendi- das pelo setor privado e, portanto, não estão sujeitas ao princípio da exclusão.

      • b) A função estabilizadora do Governo concentra seus esforços na manutenção de um alto nível de utilização de recursos e de um valor estável da moeda.

      • c) As necessidades meritórias e as necessidades sociais são atendi- das, no Brasil, pelas três esferas de Governo.

      • d) Na atual conjuntura brasileira, verifica-se atividade governamental no que se refere à distribuição de renda, via ações compensatórias, tais como as transferências de renda por meio da distribuição de cestas básicas.

      • e) A função alocativa do Governo está associada ao fornecimento de bens e serviços não oferecidos adequadamente pelo sistema de mercado.

    Dicas de estudo

    A autorização legislativa orçamentária, muito discutida nessa aula, não diz respeito tão somente à realização das despesas, mas ela é necessária, também, para a arrecadação das receitas. Entretanto, esse chamado princí- pio da anterioridade orçamentária vem sendo bem relativizado no âmbito da receita, de forma a permitir a arrecadação de valores e tributos, ainda que não estejam integralmente previstos em lei.

    O aluno deve estar bem atento, também, aos tipos de classificação do orçamento e à discussão sobre o orçamento impositivo e autorizativo. Uma boa discussão pode ser encontrada no seguinte link:

    <http://jus.uol.com.br/revista/texto/10022/a-necessidade-de-mudancas-

    na-lei-orcamentaria-e-o-orcamento-impositivo>.

    Leitura obrigatória sobre o tema, no entanto, pode ser encontrada no site da Câmara. Trata-se de um texto do professor Roberto Piscitelli sobre a dis- cussão entre orçamento impositivo e autorizativo:

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    O conceito de orçamento público 5. (Esaf) Com base nas funções clássicas do Estado, assinale a

    O conceito de orçamento público

    <http://bd.camara.gov.br/bd/handle/bdcamara/1636>.

    Referências

    BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças. 14. ed. Rio de Janei- ro: Forense, 1994.

    FORTES, João. Contabilidade Pública. 9. ed. Brasília: Franco & Fortes, 2006. MOTA, Francisco Glauber Lima. Curso Básico de Contabilidade Pública. 2. ed. Brasília: [s. n.], 2006.

    Gabarito

    • 1. F

    • 2. D

    • 3. D

    • 4. V

    • 5. A

    O conceito de orçamento público <http://bd.camara.gov.br/bd/handle/bdcamara/1636>. Referências BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças .
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