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À CONQUISTA DA DIREITA
Maria José Nogueira Pinto jurista

É curioso que seja Sócrates, mais do que Menezes ou Portas, quem se proponha conquistar o voto do eleitorado de centro e de direita, um eleitorado tendencialmente mais flutuante nas actuais circunstâncias. Vimos como a remodelação e a subsequente entrevista dada à SIC abriram a pré-campanha, com Sócrates a apostar à esquerda e à direita: a remodelação para uns e a "conversa em família" para a outros. Ele sabe que as maiorias absolutas não se ganham sem o centro e sabe, também, que a sua política governativa alienou uma fatia do eleitorado tradicional do PS. A contabilidade está certa e a sua táctica eleitoral vai observá-la metodicamente. A Sócrates interessa pouco uma semivitória - isto é, sem maioria absoluta -, que o tornaria um chefe refém e ratificaria muitas das críticas que lhe têm sido feitas. O seu objectivo foi, desde o início, ser o primeiro político português de esquerda a afirmar-se por aquilo que ele designa de " modernidade", como Clinton, como Blair ou como Zapatero. É claro que não percebeu que Zapatero não é um arauto da esquerda moderna, apenas um prisioneiro de múltiplas tendências e circunstâncias que o levam a misturar uma gestão governativa pragmática com uma agenda ideológica caduca. Mas Portugal, quer no seu processo de transição, quer na sua reconfiguração cultural e política, assemelha-se muito mais à Espanha do que aos Estados Unidos ou a Inglaterra, como é tristemente óbvio. Para fazer e concluir um segundo mandato com a sua imagem de "cheguei, vi e venci" - perdendo depois as eleições seguintes por nos ter cansado a todos até à exaustão, mas ganhando para sempre essa imagem que é o seu motor - Sócrates precisa de uma maioria absoluta. Não que ele tivesse relutância em piscar um olho ao BE ou em acenar com o dedo mindinho ao CDS-PP. Só que esta via, para além de muito cansativa, perturbaria a tal imagem, empurrando-o mais para a esquerda ou mais para a direita, consoante as matérias. Em vez deste desassossego sem brilho sabe que, nas actuais circunstâncias, lhe é mais barato ir à conquista desse eleitorado, o do centro e o de parte da direita, porque o disputará muito mais à abstenção do que ao PSD ou ao CDS-PP, os seus partidos naturais. Acresce que nas legislativas não existe o perigo de devaneios de "independentes" ou arrojos de "facções" partidárias. As legislativas serão feitas com a prata da casa que, como se vê, ameaça não ser capaz de se arear até lá. O que torna este cenário trágico-cómico é a pouca percepção que este eleitorado - mergulhado numa descrença soporífera - tem do modo como o seu voto vai ser utilizado. É que, quer queiramos quer não, as legislativas servem para eleger um parlamento e, a partir daí, constituir um governo. Esse voto vai pois, em primeiro lugar, ajudar à constituição de uma bancada socialista maioritária e, só depois, permitir a Sócrates e ao seu Governo prosseguirem esta hábil exibição de pragmatismo e aparente eficiência governativas. Para comprar o seu sossego dentro da própria casa dará ao seu partido, isto é à sua bancada

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parlamentar, toda uma agenda de princípios e costumes que representa o conjunto de bandeiras e bandeirolas que justificam - para os que consideram a gestão governativa uma questão menor -a existência do velho PS. E é neste jogo, em que uma mão esconde a outra, que se instrumentalizará o voto de cidadãos que, embora não comprometidos com a esquerda, irão garantir a aprovação rápida e indolor de leis inúteis, em que não se revêem e cujo resultado é transformar-nos numa sociedade muito mais inquieta e confundida. Recentemente, um alentejano interpelou-me na esplanada de um café. Queria saber o que eu pensava do facto de qualquer malandro bem falante, em Portugal, chegar facilmente a primeiro-ministro. Sendo Sócrates um bem falante e não sendo certo que seja um malandro, considerando o escasso poder de convocatória do PSD e do CDS e, sobretudo, a hipervalorização das respostas aos problemas do quotidiano, que a crise tenderá a agravar, este voto vai vir. O pior é que virá sem contrapartidas nem futuro.

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