Yuri, Obrigado por sua atenção e graças a Deus por seu entusiasmo!

Não fomos apresentados e, por isso, creio que seja relevante esclarecer algumas coisas; vamos lá? Hoje sou cristão, no entanto, por um grande período eu fui um ardente ativista ateu; e durante esse período muitas perguntas de caráter científico, filosófico e teológico povoaram meus pensamentos. Eu era um indagador inveterado e um grande questionador. Para mim, portanto, investigar com critério aquilo que se vê e se ouve sempre foi sinal de respeito a si mesmo e a sua própria inteligência. Creio que se alguém não respeita a própria inteligência, essa pessoa não pode respeitar aquilo que acredita. Por isso, aprecio toda manifestação inteligente de pessoas que discordam de mim; creio que o debate e a confrontação de idéias enriquecem e nos ajudam a crescer – abrem-nos os olhos. Devido a essa percepção, não sou e nunca serei uma pessoa

irrevogavelmente convicta, pois, como corretamente Nietzsche afirmou, homens convictos são prisioneiros. Contudo, devo te informar também que eu não conheço Nietzsche apenas de ouvir outros falarem dele, como acontece com a maioria. Li e reli praticamente tudo o que há dele em inglês e português, e um sem número de textos acerca dele, muitos de natureza biográfica também.

E, na minha maneira de ver, Nietzsche serve para qualquer coisa, isso se se deseja vê-lo de um “dado” modo. Em Assim falou Zaratustra, por exemplo, pelo próprio estilo de natureza literária em tom de “escritura sagrada”, ele abre o espaço para que as parábolas e ditos “proféticosimbólicos”, muitas vezes abram espaços para muitas compreensões até mesmo distintas entre si, ou da outra qualidade de percepção, às vezes de modo aposto. Ou seja: Nietzsche é pura contradição, e nunca desejou ser entendido como quem “entende” algo. Se Nietzsche se visse como alguém a ser “compreendido”, ele mesmo viraria filósofo, o que ele nunca quis. Além disso, também creio que a “igreja” demonizou tanto o cara, que, com o passar do tempo, e com o reconhecimento de sua “insana-lucidez-insana”, muitos, inclusive cristãos e

ateus, infantilmente, tentaram e tentam fazer Nietzsche dizer o que ele não disse; parece que ainda angustiados pelas injustiças da religião declaradas contra ele, especialmente como o homem que “decretou” a morte de Deus. Nietzsche não se via como você tenta vê-lo. Ele era apenas Nietzsche. E expressava seu desespero de duas formas: questionando todo esquema idolátrico da filosofia; e também da religião cristã. Ora, em ambas as coisas eu concordo com ele, e, na sua declaração da morte daquele “Deus”, como eu já disse antes aqui no blog, eu assino em baixo. No entanto, sem psicologia não dá para ler Nietzsche. Pela filosofia e pela teologia Nietzsche não é nada além de um caleidoscópio de coisas lindas, e, outras loucas. Perfeita e linda insanidade! Partindo de Nietzsche, tanto se pode fazer poesia sobre um bailar metafísico ou até suprametafísico, ou mesmo poesia, como muitos autores cristãos e não cristãos fazem acontecer; como também ele pode ser entendido por um maluco como Hitler como um propositor do reino dos Homens Superiores. Pra mim é melhor Nietzsche ser apenas Nietzsche. De qualquer forma, tenho para mim que a melhor forma de entender a alma e, consequentemente, os escritos de Nietzsche é através de Kierkegaard. Em O Desespero Humano e em Conceito de Angustia, pode-se ver o perfil de um gênio angustiado como Nietzsche. Sim, desse modo pode-se entende-lo. Isto porque, para mim, Nietzsche foi um ser tão psicológico, que a tentativa de entendê-lo de modo descolado de sua história, é algo antinietzschiano. Por isso, embora haja muita tolice em Nietzsche, em muitos pontos eu concordo com ele, e, na sua declaração de morte daquele “Deus”, eu assino em baixo. Digo "Bravo!", em aplauso, ao grito de Nietzsche contra a falência das metafísicas sistêmicas, contra a virtude imóvel e contra a religião que pratica necrofilia, num “caso” com um “Deus morto”. E me alegro que sua angustia tenha gerado brado tão audível. Entretanto, é obvio que Nietzsche não cria na morte de Deus-Deus. Aliás, para ele, essa não era uma questão passível de comprovação ou discussão, nem para afirmar e nem para negar. Nietzsche sabia que assim como a

verdade, Deus só pode ser provado existencialmente, e, jamais elucubrado ou sistematizado. Quando Nietzsche declarou que Deus estava morto, ele se referia ao Deus do cristianismo, o qual, já nasceu morto, posto que surgiu como uma criação humana fadada ao esclerosamento e à morte. A declaração de Nietzsche também tem seus próprios fundamentos histórico-psicológicos. Ele viu o irmão morrer e quase matar o pai de dor com sua morte. Viu o pai, um pastor, se angustiar com a irrelevância do cristianismo. E quando ainda era adolescente, viu o pai morrer e ser sepultado, enquanto em sua alma de criança os sentimentos, com a morte do pai, eram também sentimentos que equivaliam à morte de Deus, de um "Deus" matável, portanto, morrível. Contudo, como eu disse, também há muita tolice em Nietzsche. Por exemplo, sua analise da fé em Jesus é pobre e pouco culta; e sua acusação de que Paulo era o fundador do Cristianismo, para mim, é produto da mais profunda ignorância, e, sobretudo, em razão de que ele via Paulo ser usado para construir as doutrinas subseqüentes da “Cristandade”. Em o Anticristo ele não é parabólico como em Assim falou Zaratustra, e declarou o que cria e pensava a cerca do “Deus” que ele conhecia como defunto... o qual morreu para ele no mesmo dia em que seu pai foi sepultado, sendo ele apenas um menino, e tendo antes disso perdido um irmão. E com relação à possibilidade de haver uma relação real entre o ser humano e Deus — Deus mesmo, não uma abstração ou uma construção religiosa —, ele jamais cogitou, visto que ele estava sim condicionado e traumatizado com a experiência que teve com a “igreja” e com a “cristandade”; como disse no texto, ele viu tanto cristianismo que não conseguiu ver Deus bailando com o homem. Nietzsche era um gênio. E muito do que ele disse acerca tanto dos sistemas filosóficos, como teológicos, como também acerca da “igreja”, são verdade de Deus. Todavia, no coração de Nietzsche, havia acima de tudo o derrame de seu pensar psicologicamente desesperado, certo de que o “Deus” estava morto pelo Homem, e que o Super-Homem — o homem livre de “Deus”, sendo ele próprio deus — haveria de abolir toda virtude “cristã”, obra da fraqueza, e alçar vôos para a suprema nobreza de ser sujeito e diretor de sua própria história. O problema é que no bojo das “virtudes cristãs” que ele desejava abolir da Terra, havia muita coisa que não era “cristã”, mas coisa

de Jesus mesmo; ou seja: do próprio Evangelho. Ele, porém, não tinham meios de saber a diferença e, por isso, reafirmo o que disse, Nietzsche viu e discerniu muito pouco; assim como você está fazendo, ele se limitou tanto seu campo de visão que acabou abdicando de muita coisa e não viu quase nada, posto que Deus é tudo. Nossa dificuldade, em grande medida, está em que você, como a maioria dos ateus, não entende o que é Teologia. Digo mais, você não compreende o que Jesus disse e ensinou. E - pior - assim como Nietzsche, não consegue discernir o que é Cristianismo e o que é a Fé em Jesus. É notável o fato de que você sabe muito sobre os que seguem o cristianismo, ou seja, os da religião cristã; mas, sabe muito pouco ou nada a respeito dos que seguem Jesus. Veja bem, eu nunca acreditei em religião. Eu apenas me converti à espiritualidade e não à religião. E a espiritualidade na qual eu creio não é a dos cristãos, mas sim a de Jesus. Portanto, para falar sobre Jesus da forma que você deseja fazer você vai precisar de muito mais discernimento e percepção. Sim!, falar de Nietzsche é fácil, ele foi apenas um homem, afinal; Jesus, contudo, é Deus. Sim! Você precisa compreender muita coisa ainda. Não adianta vir aqui sem nem mesmo saber fazer distinções básicas, as quais, para mim e para os meus amigos, são sutilizas essenciais. Você fala do Cristianismo como se fosse a minha religião sem entender que não sou e nunca fui religioso. Afinal, quem crê que Jesus é Sumo Sacerdote segundo uma ordem que transcende a religião de Abraão, crê, daí para frente, não mais em religião, mas apenas em espiritualidade em Cristo, conforme o Evangelho. O "Cristianismo" é um ente histórico poluído e pervertido demais para ter qualquer poder de influencia de sal na terra. Insistir nas Cruzadas Cristãs contra o mundo pagão, é ainda pior do que pregar o Islã, por exemplo; pois, pregar uma religião em nome de Maomé é coisa humanamente simples de entender, mas fazer a mesma coisa com Jesus é blasfêmia contra o ser de Jesus. Desse modo, tudo o que Jesus faz e ensina nos evangelhos é o que nos

concerne, e, sobretudo, Seu modo de ser, pois, é da observação de Seu modo de ser e andar que se tem, segundo Ele, a chance de em vendo-o, ver-se também o Pai. Assim, alegremente reduzo-me a Jesus, e aceito os limites da infinita liberdade, e as contenções do amor, e as cadeias do regozijo, e a impotência dos milagres, e a fraqueza de se enfrentar o inferno e os grandes intelectuais apenas com a Palavra. Se você leu e entendeu o que foi dito acima, você percebeu o quão equivocado você está a meu respeito. Creia-me, eu gosto tanto de religião quanto você. A diferença, meu caro, é que antes eu conhecia apenas religiões, hoje eu conheço Aquele que transcende todas elas, inclusive, a crença cega na filosofia e na ciência. Os ateus só falam bobagens contra Deus porque ainda não conheceram Deus; pois, quando o conhecerem já não falaram Dele senão como amor; e conforme o amor se revelou em Jesus; posto que [para além disso] nada mais há para ser dito; sendo que a tentativa é tão ridícula (tão ridícula nada; infinitamente mais que ridícula!) quanto um micróbio tentar descrever todos os cosmos dimensionais que nos cercam. Tal é a loucura humana! Espero ter sido útil. E, por favor, reveja os seus conceitos em relação ao Evangelho, pois, você conhece o cristianismo, os cristãos e toda sorte de religião, mas não conhece ainda Jesus e seu Espírito e, por isso, eu repito o que Jesus disse para Nicodemos, um grande cientista judeu: te é necessário renascer. E tudo o que eu quero dizer com isso é que você deveria abrir a sua mente e colocar as suas convicções e certezas a prova. Pois isso é nocivo para qualquer intelectual, pois nos cega e nos acorrenta à idéias pequenas e comportamentos mesquinhos. Lembre-se que, infelizmente, o cristianismo não é a única religião dogmática que encerra seus seguidores em prisões mentais que os impedem de pensar claramente. Há também o ateísmo (a maioria dos ateus são tão cegos e intransigentes quanto qualquer fundamentalista religioso), a psicanálise e o marxismo. A "crença" em dogmas, sejam eles religiosos ou científicos, embotam o pensamento.

Como

corretamente

afirmaram

Nietzsche

e

Einstein,

a

pessoa

cientificamente convicta não pode pensar muito, senão corre o risco de questionar, nem que apenas sem querer, os dogmas sagrados da filosofia e da ciência e ser execrado por seus pares. Conseqüentemente, a sua liberdade de ação intelectual é mínima, e pode ser exercida apenas naquele quintalzinho onde é seguro brincar. O que explica a posição da maioria dos ateus, que sente uma enorme dificuldade de olhar para o mundo com os seus próprios olhos. Alias, aposto que dependendo do seu estado de espírito (ou falta dele, claro), a maioria pode ser ateu na segunda, deísta na quarta e agnóstico na sexta. Isso se chama imaturidade intelectual e deveria ser evitado. De qualquer forma, transformar a incredulidade irrestrita nesse fechar-osolhos par excellence – mais conhecido como fé cega – foi a mais indecente inversão de valores já perpetrada contra o livre pensamento. Enquanto a religião depende da fé para sobreviver o livre pensamento só sobrevive com a ausência da mesma, logo esse atitude contemporânea conformista de credulidade cega na ciência se mostra um tanto quanto nociva. Pense nisso, meu caro.