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Asas da Palavra

CAPA

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Asas da Palavra

Asas da Palavra
Copyright @ 2004, by UNAMA
REVISTA DA GRADUAÇÃO EM LETRAS

União de Ensino Superior do Pará
Entidade Mantenedora da Universidade da Amazônia

Conselho Diretor
Antonio de Carvalho Vaz Pereira
Édson Raymundo Pinheiro de Souza Franco
Marlene Coeli Vianna
Paulo Roberto Carvalho Batista (Presidente)
Ana Paula Mufarrej

Asas da Palavra

Revista da Graduação em Letras

A revista Asas da Palavra é uma publicação semestral da GRADUAÇÃO em LETRAS da UNAMA que
se define como um espaço multidisciplinar para a divulgação de trabalhos científicos e críticos no âmbito dos
estudos da linguagem, com ênfase à cultura amazônica. Pretende, ainda, ser um fórum de discussão de questões
relativas ao ensino de língua, literatura e tradução; e trazer, a cada número, uma seção especial, dedicada a um
nome de expressão da Amazônia, qualquer que seja sua forma de linguagem para expressar a arte, com o intuito
de incentivar a participação de alunos e professores na pesquisa e produção crítica. É um espaço aberto,
também, para a divulgação de trabalhos desenvolvidos em cursos de graduação e pós-graduação, assim como
textos de criação e tradução literária, a fim de dinamizar a circulação da informação relevante ao fazer acadêmico
e, acima de tudo, colocar em pauta a expressão cultural do homem da Amazônia.

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Asas da Palavra

Asas da Palavra

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287 • CEP 66. tradução.Ana Célia Bahia Silva • COORDENADORA DO CURSO DE LETRAS . ensaios. .8 • Nº 17 • Junho/2004 UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA • REITOR . tinha e rolagem) .Belém-Pará Telefone geral: (91) 210-3000 .Lucilinda Teixeira .Estudos Críticos.060-902 .Josse Fares .Antônio de Carvalho Vaz Pereira • PRÓ-REITOR DE ENSINO E GRADUAÇÃO . I.Rosa Assis . v.Sérgio Sapucahy • PROJETO EDITORIAL .br 4 Asas da Palavra . resenhas.Maria Célia Jacob • COORDENADORA DA INTERIORIZAÇÃO DE LETRAS .revista da graduação em Letras Belém: UNAMA.Coordenação: João Carlos Pereira Di s tri bu i ç ã o / A s s i na tu ra s / In terc â mbi o Assessoria de Comunicação da UNAMA Coordenação: Vanessa Alcântara Av.Selecionado no 8º Salão UNAMA de Pequenos Formatos .Acervo: Casa da Memória .Ana Célia Bahia Silva .Núbia Maria Vasconcelos Maciel • DIRETORA DO “CAMPUS” QUINTINO . Alcindo Cacela.Fax: (91) 225-3909 http:/www.UNAMA.Paulo Nunes .Maria das Graças Alves Salim • COMISSÃO EDITORIAL . artigos.8 Nº 17.Eduardo Silva de Souza Franco • DIRETORA DO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E EDUCAÇÃO .Maria Célia Jacob .br reitor@unama. PÓS-GR ADUAÇÃO E EXTENSÃO . UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA Curso de Letras 800 CDD 400 ISSN 1415-7950 .Marlene Coeli Viana • DIRETOR DO “CAMPUS” SENADOR LEMOS .Mário Francisco Guzzo • PRÓ-REITOR DE PESQUISA . Literatura .Lucilinda Teixeira • IMAGEM DA CAPA: . poesia Periódicos 2. • EDITORA UNAMA .Asas da Palavra Asas da Palavra Revista da Graduação em Letras V.Édson Raimundo Pinheiro de Souza Franco • VICE-REITOR . 2004 Semestral 1.Ilcio Arvellos Lopes Filho.unama. Lingüística.Título: As faces do tempo (água.

Asas da Palavra Asas da Palavra Revista de Graduação em Letras Semestral V.ISSN 1415-7950 5 .8 • Nº 17 • Junho 2004 .

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A BELÉM DE ENEIDA E DE BRUNO DE MENEZES. A ESSES ROMANCES SE UNE O OUTRO. RECOLHI EM DEZ VOLUMES UM DEPOIMENTO AGRESTE E ÍNTIMO DE COISAS E GENTES DE MARAJÓ E BELÉM DO PARÁ.Asas da Palavra “FIEL E TEIMOSO. TORMENTOS E TRABALHOS DE UM PORTO E DE UMA CIDADE. A QUE DEI TODO O MEU FERVOR E A MINHA ESPERANÇA” (Dalcídio Jurandir) 7 . APANHADO NO EXTREMO SUL.

com o patrocínio do Banco Itaú.Asas da Palavra Esta publicação foi elaborada por professores da Graduação em Letras da Universidade da Amazônia . tendo como tema.UNAMA. o escritor DALCÍDIO JURANDIR 8 .

........................................................................................ 75 MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: ANOTAÇÕES EM TORNO DE MARAJÓ . •Josse Fares e Paulo Nunes Pág............................................... A DESPEDIDA É LOGO MAIS..... •Elis Marchioni Pág.......... 57 PERSONAGENS E PROBLEMAS EM DALCÍDIO JURANDIR................... DE DALCÍDIO JURANDIR ...... •Marli Tereza Furtado Pág...... 45 CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA DE DALCÍDIO JURANDIR E O CICLO DA BORRACHA ........... • Silvio Holanda Pág................................................... 97 FAZENDEIROS E VAQUEIRAGEM NO MARAJÓ.......... •Gutemberg Guerra Pág......................Asas da Palavra S U M Á R I O DALCÍDIO JURANDIR: AS OSCILAÇÕES DE UM CICLO ROMANESCO ....................................................................................................................................... .......... DE DALCÍDIO JURANDIR ................................................... •Rosa Assis Pág................................. O FAZENDEIRO-CORONEL......... 109 A NOVA RECEPÇÃO DA OBRA DE DALCÍDIO JURANDIR ........... • Gunter Karl Pressler DOS CAMPOS DE CACHOEIRAS A BELÉM DO GRÃO PARÁ ..... É AGORA´: LINDANOR CELINA PRANTEIA DALCÍDIO JURANDIR” ........ É HOJE..................................................................................................................... 49 PALCOS DA LINGUAGEM: UMA LEITURA PSICANALÍTICA DE CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA. •Benedito Nunes Pág.. •Audemaro Taranto Goulart Pág...... 33 PANORAMA DE DALCÍDIO JURANDIR NA INTERNET: A LITERATURA MARAJOARA NO CIBERESPAÇO ...... Leite Pág........... 81 UNIVERSO DERRUÍDO E CORROSÃO DO HERÓI EM DALCÍDIO JURANDIR ................... 15 DALCÍDIO JURANDIR...................................... •Marcos Vinnícius C................... 121 Pág........ 67 “ ´NÃO INSISTA.. 23 MARAJÓ SOB O SIGNO DA ANTROPOLOGIA E DA ESTÉTICA .............................. UMA LEITURA DO CAROÇO DE TUCUMÃ: VIAS DE SONHOS E FANTASIAS............................. 131 9 ......................... .............................................. • Josebel Akel Fares Pág.............. • Anderson Luiz Cardoso Rodrigues Pág.................. •Julia Maués Pág...........................................

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pelo inusitado conjunto novelístico até então publicado (1972). está sempre aberto a publicações ou republicações de estudos sobre obras de escritores da Amazônia. dedicou o número 04 a Dalcídio Jurandir. Há pouco criou-se. de vez que inúmeras pesquisas afloram. a exemplo de outra “Casas” para abrigar a obra. a exemplo deste número que marca os 95 anos de “vida” de Dalcídio Jurandir. antropólogo. pois ele não é apenas um escritor. confirmou ser ele um escritor que contribuiu para fazer de nossas letras uma literatura universal. porquanto cresce a cada dia o número de leitores interessados em estudar a obra dalcidiana. um largo “pasto” onde o pesquisador garimpa e gapuia. A literatura do autor de Chove nos campos de Cachoeira é pautada num composto narrativo envolvendo ricos e marcantes personagens . Não é sem razão. do mito. oito anos se passaram e a figura desse escritor marajoara volta às páginas desta mesma Revista. costumes. enfim ao universo amazônida que o ficcionista soube criar. desenhar e pintar como ninguém. paisagem. o estudo e as pesquisas sobre este escritor. e não o era até então. no Rio de Janeiro. das águas.Asas da Palavra APRESENTAÇÃO Em 1996. etnógrafo. raízes. Rosa Assis Membro do Conselho Editorial 11 .por serem sobreviventes de uma selva de sobreviventes das misérias humanas. mas acima de tudo psicólogo. paisagem singular. E o nosso escritor amazônida continua sendo premiado. portanto. A narrativa possui uma linguagem própria. cuja forte policromia hipnotiza aqueles que se defrontam com ela. da vida. da terra. dos homens. Na entrevista Um Escritor no Purgatório nosso autor de ficção dissera não ser um escritor de grande público.muitos deles mais fortes .. do rito. a obra dalcidiana representa um inesgotável campo de investigação. com os sentidos voltados ao fundo de nossas águas. a Fundação Casa de Dalcídio Jurandir. Ao ser agraciado pela Academia Brasileira de Letras com o prêmio “Machado de Assis”. o que denota estar o escritor vivo no mundo das letras e das artes – a arte da palavra. sempre comprometida em publicar estudos sobre nomes significativos da literatura de expressão amazônica. a arte da arte . conforme documentam dissertações de Mestrado e teses de Doutorado defendidas nas Universidades do Brasil e do exterior. Dessa forma.... sociólogo. densa de imagens em que “todos os sentidos alerta funcionam”1. que o Curso de Letras da Universidade da Amazônia. das cores. Por tudo isso é que a escritura de Dalcídio transcende o limite do nacional. a Revista Asas da Palavra. mas seus textos eram conhecidos por um seleto público que apreciava a verdadeira literatura. acurada. Agora. através da Revista Asas da Palavra.

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Dalcídio Jurandir 14 .Asas da Palavra “Desde os vinte anos eu sonhava em fazer uma obra que fosse o pensamento da juventude”.

Chão dos Lobos. Pode-se dizer que o escritor maduro. falecido em 1979. Ponte do Galo. mal o romancista chegara à velhice. Professor Emérito da UFPA 15 . integram um único ciclo romanesco. Marajó. num percurso de Cachoeira na mesma ilha . Chão dos Lobos e Ribanceira. Primeira manhã. o seu sonho juvenil. nascido na vila de Ponta de Pedras. de Cachoeira. Belém do Grão Pará. conseguiu concretizar nessa obra extensa o pensamento de juventude.cidade de sua infância e de sua juventude .Asas da Palavra DALCÍDIO JURANDIR: as oscilações de um ciclo romanesco Benedito Nunes* O romance de Dalcídio Jurandir (Ramos Pereira). referindo-se a esse ciclo romanesco iniciado em Chove nos campos de Cachoeira e pela doença interrompido no décimo volume. A primeira oscilação do ciclo é a que vai. onde o autor viveu antes de transferir-se para o Rio de Janeiro. Cresceu por acréscimo. quer pelos personagens quer pelas situações que os entrelaçam e pela linguagem que os constitui. Os habitantes. Ribanceira (1978). é uma formação plural. Dez romances ao todo. posta em ação no Extremo-Sul. focalizada em Chove nos campos de Cachoeira e Três casas e um rio à metrópole paraense. publicados de 1941 a 1978. o * Filósofo. do rural ao urbano. obra após obra: Chove nos campos de Cachoeira. e que excluindo-se Linha do Parque. “Desde os vinte anos eu sonhava em fazer uma obra que fosse o pensamento da juventude”. de temática proletária.a Belém. acompanhando o seu percurso. que dá título ao quarto livro da série. Três casas e um rio. Belém do Grão Pará. e que será ainda em Passagem dos Inocentes. Passagem dos Inocentes. declarou Dalcídio Jurandir. em 1909. Ponte do Galo. Os habitantes. no Marajó (Pará). Primeira manhã.

e que dele. Cachoeira. roçadinhos aqui e ali. vendedores ambulantes na metrópole. alter ego do narrador. por sua vez descenderiam da narrativa “naturalista” do paraense Inglês de Sousa (O Missionário e O Coronel Sangrado) nascido em 16 . com a denominação de roman fleuve . alguma caça. remergulhando na sua infância e na sua juventude. “Era então necessário aquele carocinho na palma da mão. manejado como veículo de imaginação pelo menino.. Tal como acontece em O tempo e o vento. parte após parte. de Thomas Mann. É ele. como a da hereditariedade fatal das taras em famílias debilitadas pela pobreza e pelo álcool. a cujo número pertence o Major Alberto. da Ilha do Marajó à capital do Estado do Pará. empregados das fazendas. salvo as grandes famílias. os personagens. a memória do narrador. O que não está ausente em qualquer das obras que o compõem é. Alfredo só não está presente em Marajó. situações e personagens em períodos de duração determinada. ainda criança transferido para Belém a fim de prosseguir nos estudos. por um pagezinho fazendo artes dentro do coco. os Buddenbroocks. lembrança após lembrança. sua empregada e ama solícita. era movido por um mecanismo imaginário. que faz do conjunto um ciclo biográfico e geográfico. como o que Balzac perseguiu em seus vários romances. Em todos eles encontramos uma história dividida em histórias de diversificada narrativa. a uma urbe rural da Amazônia. pelos seus antecedentes folhetinescos. O primeiro sentido corresponde à execução de amplo e continuado projeto. Porém esse percurso vai estender-se indefinidamente dentro do romance. de suas mãos. em Ribanceira. porque sempre voltando aos mesmos pontos. tomo após tomo. desdobra-se em romances. porcos magros no manival miúdo e cobras no oco dos paus sabrecados”. nascidos nas páginas do primeiro livro. Tal como nesta. a escrita do romance em geral tenda ao episódico. abastece o ciclo do nosso romancista. Entre nós. graças ao mínimo e miraculoso objeto. onde um gado ainda selvagem dispunha de imensas pastagens. que pode depender da memória de quem narra. pertencem à arraia miúda: são vaqueiros. ou José e seus irmãos. os Rougon-Maquard. salta logo em Chove. proprietárias de latifúndios. que o tivera da preta retinta Dona Amélia. Chove nos campos de Cachoeira.” Mas por que se pode aplicar a essa obra sonhada a expressão ciclo romanesco? Muito embora.Asas da Palavra DALCÍDIO JURANDIR: as oscilações de um ciclo romanesco horizonte da ficção do nosso autor. nos dois sentidos que é lícito dar a essa expressão. pequenos criadores. pai do menino Alfredo. como descrita em Três casas e um rio “vivia de primitiva criação de gado e da pesca.e teremos o segundo sentido da expressão. fruto comestível de uma palmeira espinhenta. ordenadora do grande painel naturalista de Emile Zola. os romances de caráter cíclico. o carocinho de tucumã na palma da mão e no ar. de onde magicamente desenrolava a vida que queria [. o romance de Dalcídio. à recorrente multiplicação de ações. sob o título de Comédia humana. não são tão numerosos. de Hermann Broch. como no La recherche du temps perdu. subindo e descendo. personagens e situações comuns.. Octávio de Faria escreveria uma Tragédia burguesa em mais de dez volumes para focalizar a decadência moral e espiritual ou religiosa da sociedade brasileira moderna. de Érico Veríssimo. Mas o ciclo de Dalcídio Jurandir não tem projeto cognoscitivo antecipado nem obedece ao intuito científico de comprovar conceitos abstratos. domésticas. com paisagens. Se não posso deixar de relacionar o roman fleuve de Dalcídio com os de Balzac e com os escritos ficcionais do Nordeste nos anos 30 . escreve-se em Três casas e um rio. como se poderia crer.] Com efeito. antes de retornar. ou. de Marcel Proust. um caroço de tucumã. ainda em Os sonâmbulos.a interligação de cada uma delas com as demais. mas de forma circular.os quais. Salvo as notabilidades locais. em longo percurso temporal. porém . seja o conhecimento do indivíduo em meios e ambientes sociais diversos. Personagem central do ciclo. seja a comprovação de uma idéia ou tese.

Este romance se volta. a Av. drama todo exterior. se não for a sua figura central como ligação entre os romances componentes. O drama daquela família. que inventam os recantos e encantos da grande cidade: as ruas sombreadas de mangueiras. ameaça desabar.Cachoeira (do Arari) e Belém. matuto e bicho do mato. As canoas. no porto veleiro. além de Santarém. em cima da enchente. já marcante em Belém do Grão Pará se tornará definitivo em Passagem dos Inocentes.Benedito Nunes Asas da Palavra Óbidos . da Sé. incluindo um piano.também não me é possível esquecer. refletindo junto ao balcão os violões desencordoados nas prateleiras. está relacionado com aquela decadência. carrega. 17 .68/69). com a qual Alfredo vai viver. de corredor ou puxadinha. enxerto da introspecção proustiana na árvore frondosa do realismo. para Belém. no meio da verdura. de madrugada. lhe parecia que as arroxeadas casas subiam céus a dentro com aquele azul de cima e as nuvens por telhado” (p. lojas e botequins. a uma mudança de casa e de rua. das práticas narrativas do romance dos anos 30. Sob a inspiração da gorda filha do casal. Quem lê Belém do Grão Pará. Só o curioso Alfredo. alternam-se. afasta-se. com a participação dos empregados e de Alfredo. sossego de se respirar o cheiro. As paisagens urbanas e rurais recorrentes . após o início da decadência econômica conseqüente à crise da borracha. que viver lá dentro muito do bem macio. que a adiposa Emilinha mal podia dedilhar. dos fazendeiros. graças à força de auto-análise do personagem e à poetização da paisagem. E na fase das águas grandes. A segunda oscilação do ciclo é a que vai da descrição da realidade rural ou urbana à sua recriação poética. lê a inteira cidade dos anos vinte. como uma certa constrição do meio ambiente e a tendência objetivista documental. de velas içadas. das enchentes. A família.79). as casas baixas ajaneladas. com um estilo indireto livre tendendo ao monólogo. o vilarejo na Ilha do Marajó e a Metrópole. de Santo Alexandre e nas samaumeiras do arraial de Nazaré” (ps. inseparável de sua densidade humana. neoclássico. os sobrados revestidos de azulejos que brilham ao sol. os poucos móveis que lhe restam. É o momento em que a casa. ao nível da rua. Inácia e a filha Emilinha). O ciclo do Extremo-Norte. de perda de status. por esse lado da introspecção. dono de mágico carocinho. nessa recriação poética da paisagem urbana. Os bondes. ao fazer a curva no trecho inundado navegavam. as reformas do Intendente (prefeito) Antônio Lemos. que cheirava a cupim e a mofo. o ciclo de Dalcídio. Ora. enquanto seu Virgílio se deixa subornar pelos contrabandistas perdendo o emprego público. símbolo da perdida distinção social. mas vão habitar uma casa arruinada pelo abandono e pelos cupins. como o romance dos Alcântara (o casal seu Virgílio / D. tal como a tinha deixado. “Viva maré de março visitando o mercado de ferro. De maneira precisa. vê a cidade com olhos preparados para descobri-la. os Alcântara. transferem-se para a rua dos ricaços. o Largo da Pólvora sonolento. afinadas com a herança naturalista. após o lemismo. Não sabia se por causa das mangueiras ou por ficar embevecido nos azulejos de baixo.se personificam na memória de Alfredo. onde Alfredo já estivera e que aquele primeiro abrira num largo panorama urbano. como antes na poetização do interior ou dos campos do Marajó. pareciam prontas a velejar cidade a dentro amarrando os cabos nas torres do Carmo. o seu parentesco espiritual com Marcel Proust. “E que silêncios naqueles azulejos. de novo. no Baixo Amazonas . a fabulação e a rememoração. e que mais visceralmente próximo está do narrador. Nazaré. Alfredo surpreende a riqueza pictórica do Ver-o-Peso. levando-a. um dos principais personagens. São os olhos do menino do sítio. que culminara em 1912. de que depende o mergulho na infância e na juventude. para tentar recuperar o status perdido. para a acolhedora sombra das mangueiras à beira da calçada. Cumpre-nos abrir um parêntese sobre esse panorama. com o Teatro da Paz. esse afastamento.

Essa vigilância podia exercer-se como censura interna ou externa. mas não a causa política. seu sonho de juventude. senão traumatizado. do horror e da repulsa. Assim. Soprou as brasas. para evitar todo equívoco. de Guimarães Rosa. prescrito pelo Partido. É preciso dizer desde logo. em Passagem dos Inocentes. quando esse personagem central descobre que a mãe. Dalcídio não podia afinar com o realismo socialista. desde Chove nos campos de Cachoeira (1941). sempre primou. Gostaria que o relógio se pusesse a trabalhar andando para trás até a primeira hora em que nasceu Mariinha” (p. Linha do Parque. sacrificial. então emocionalmente abalado. sem trair o seu sonho de juventude. desses dados. com Dalcídio. abandonou o pilão. como diria Fernando Pessoa na criação de uma escrita romanesca diferente: escreveu um livro de aventuras. mas requalifica lingüisticamente. da mimese de rebaixamento.. que. o permanente vínculo com a sociedade e com o mundo que essa tendência respeita. Dona Amélia. Lá estão. pelo relevo dado à fala dos personagens. Escritor nato. mas esse impacto estético serviu para despertar nele as mais recônditas potencialidades de sua linguagem. por vezes. de que fala Nortrop Frye. chocavam-se na parede de madeira do chalé.] os passarinhos revoando. assar (aborrecido). pondo em causa o ciclo. o que de qualquer forma gerara uma situação dramática para o escritor.. momento da publicação da Passagem dos Inocentes. que está fora do ciclo. que pelo uso não só de termos locais ou regionais. a meu ver. então fórmula adotada pelo Partido Comunista Brasileiro a que desde a juventude pertencera..211) Esse traço proustiano se adensa com um toque forte. Sem pseudônimo. dirigiu-se para o fogão num andar vacilante. passou a mão cheia de alho nas fontes. a auto-análise prima no episódio da morte da irmãzinha de Alfredo em Três casas e um rio: “Alfredo não quis ver a irmã no caixão [. senão política. de que provém. também preeminente em Marajó (1947). Quis gritar qualquer coisa quando ela se voltou para ele. para esse conflito.para desgosto e indignação de Major Alberto.] De repente. é uma outra escrita. à maneira de Dostoievski. tanto substantivos. como amostras. panema (azarado). despregou os cabelos. cunhando o seu porte altamente memorialístico. com aquele fedor de álcool e de alho. pitiar (cheirar a peixe). adjetivos e verbos. [. não foge ao realismo. foi. de certa maneira foi outro sonho. uma onda de cinza cobriu-lhe o rosto e espalhou-se pela cozinha. Três casas e um rio (1958) e Belém do Grão Pará (1960). quanto expressões coloquiais. Um heterônimo. um tanto recalcadas pela vigilância realística. Alfredo naquele instante não sentia nenhuma piedade por ela e sim um ácido ressentimento quase próximo do ódio. A solução do autor. (p. ele jamais tentaria imitar Rosa. as passagens mais patéticas e pungentes dos romances já mencionados. se embriagava: “Abandonando a mão de pilão. Passagem dos Inocentes. Outrou-se.E para não traí-lo ou trair-se fez-se outro autor escrevendo Linha do Parque. Dona Amélia veio em busca dele e Alfredo sentiu-lhe o hálito tão forte. puxando-o para o seu colo e o acariciou com aquele ardor de bêbada e de louca. mundiar (atrair a caça). encontrei-me. a narrativa do nosso autor. como um dos principais dados de atestação documental da realidade. sereno (os que assistem festa do lado de fora). com personagens heroificados lutando em prol da causa do Partido. no Rio. sem que jamais tivesse podido afiná-lo ou desafiná-lo pelo metrônomo do realismo socialista. que exercera sobre o seu estilo.222) Em 63. O autor é aí uma personalidade literária diferente. como o hálito dos bêbados que se habituara a observar na taberna do Salu ou no mercado. 18 . cheiro de peixe).. Teriam compreendido também?/ Dirigiu-se à sala e olhou novamente o relógio. e seu derivado pitiosa (como pitiú.Asas da Palavra DALCÍDIO JURANDIR: as oscilações de um ciclo romanesco pólos da terceira notável oscilação desse ciclo. ariar (limpar com areia). quinto volume do ciclo. pela leitura de Grande sertão: veredas.

seus continentes e mares de papelão? Mais planeta terra era o seu carocinho sobe e desce na palma da mão. trapezista. como voz de quem conta. riscos. em concorrência com o ponto de vista onipresente de Alfredo. Menina não é mais. despaciente. Passagem dos Inocentes. mas principalmente através da fala dos personagens. também. nessa rápida coleta. rio. Os habitantes. no arame do equador” (ps. É como se em Primeira manhã.Benedito Nunes Asas da Palavra zinideira (zunido de pernilongo). trovoadal. Que melhor exemplo do que caso contado por Dona Abigail em Primeira manhã? “Isso de século seculorum me faz lembrar a vez que fui me confessar no padre. precisamente. entre outras. e ele. suas dicções. mastros. me cochichou: entreaberto botão.de Dona Cecé. cordames de barco. exclamativa. que a história se desdobra em histórias. Mas nunca. é. etc.. que sempre responde a uma realidade humana. usado desde Bocacio e Cervantes. de redondez de não se acreditar. Ensinar era palavrear? Aprender engolir palavra? Alfredo não via os objetos de que falavam as lições. não tolhe porém a introspecção. Em geral. a voz do narrador é neutralizada pela dos personagens a que dá iniciativa. as metamorfoses da língua.115/116) Mas o que sucede nesse texto. me viu. em cores. a que dá plena iniciativa nos diálogos que entretêm. Ponte do Galo. ervas. seu olhar dizia. que não será preciso reforçar com os nomes regionais peculiares de árvores. me assanhando de moça. apoiando-se no imaginário lingüístico da região. Em vez de laranja ou do maracujá. Eu 19 . A partir daqui. do filho dela. fração. navegagens. seja quando dialogam. Chão dos Lobos. então eu já não era menina. o que é um procedimento clássico.. de Leônidas. tristição. colégio. a adesão da voz de quem narra à fala dos personagens. Alfredo. ralhenta. como. já trabalho do imaginário lingüístico. chalé. do marido. eu menina. Uma boa aula de maracujá faltava. ingressam largamente. Andreza e borboleta. nunca. não? Eu podia me confessar? O padre me fazia moça. Chamamos de fabulação da narrativa a resultante da elaboração de uma história pelo discurso que a exprime mediante o ato de narrar. Em Passagem dos Inocentes. Faltava laranja na aula. variar (ter alucinações). verbalizada: “ Por certo a professora nunca viu um laranjal e dele falava na forma de números. não. do bêbado falastrão. foi abrir a janelinha do confessionário. encadeando os fatos numa seqüência de ordem temporal. esposarana. É nesse nível. Assim. a narração propriamente dita. empanemar (de panema).. a dialogação conduzisse a narração e com a narração se confundisse como maneira de ver e de sentir o mundo dos personagens em afluência. era: Quem em mil quinhentos e quarenta e nove chegou na Bahia?. seja quando monologam. social e politicamente dimensionada à qual se ata. o que leva a um grau de máxima aproximação o ato de narrar e a maneira de ver e sentir o mundo de cada um deles . o Cara-Longa.etc. olhe que nunca mais me esqueci dessas palavras. mas ninguém me achando senão moleca. diminutivas (iazinho. velas. Pois o padre. como nos anteriores romances. descerzinho) ou com as várias palavras que o romancista pode ter inventado.. a conversa do personagem consigo mesmo. na fabulação da narrativa e no seu desenvolvimento romanesco... entrefechada rosa.. Os personagens afluem e confluem seus falares. quando não fosse com as diversificadas expressões: vocativa (mea filha). Aquela figuração da terra num globinho paradinho em cima da mesa. a voz do narrador tende a ser neutralizada pela dos personagens. a partir desse Passagem dos Inocentes. no mesmo segundo à roda do sol. Belerofonte. de repulsa ou asco (axi!). seu Antônio. sua reflexiva reação aos acontecimentos e aos outros ou a sua visão do mundo manifesta. como requalificação da narrativa pela linguagem. postado na taberna da esquina. se a dominância do estilo indireto livre evita o completo monólogo..

longa e diversificada passagem dramática. batizado popularmente de tiaguite (do nome do Prefeito. destacase a oscilação do ciclo entre o individual e o coletivo. É como se o romancista fizesse a crônica de Belém . Assim ajoelhada. passa folha de vindicá no braço e peito. se quebrou. Num repente me botei de pé. Arlinda. soa por aí que o forno da Cremação. minha papa-siri.Asas da Palavra DALCÍDIO JURANDIR: as oscilações de um ciclo romanesco escutei duas vezes. te passa sabão. Vou contratar banda de bombeiros. 20 . sua pitiosa. de pluma e sombrinha. a lado de incidentais discursos autônomos. Essa pluralização se torna patente com a entrada.142) Mas por esse mesmo lado. fiz que estava rezando. cego para os cartazes do Olímpia. procissão de santo não era. te desencardir minha encardida! Ariar bem teu corpo. critica os hábitos intelectuais da cidade na década de 20 a 30 (Chão dos Lobos. Dona Cecé da Passagem dos Inocentes. com a menina cabocla Arlinda. toma. Vai dar o seu bordo.visando mais a ação de grupos ou a atividade coletiva. rodeia o chafariz sem água. Doutro modo não. és baé? Pior era se teu tio . faixas.quando. sim.125) Cara-Longa fala mal de todos.26-28) . a mesma Dona Celeste do sobrado de Muaná. meio desfeita na sombra bem fechada das mangueiras. protesto e diálogos cruzados de anônimas figuras do povo. Tiago). parou de vez reduzindo a ferragem. (ps. a descrição dos meninos capinadores de rua. no Umarizal. Prum castigo tu vieste? Te disseram isso? Vai aquela menina. de descobrir que eu chegava a moça. condenando: “Que val que amanhã é quarta-feira. que era?” (p. que acentua o caráter memoralista da obra (vejam-se os trechos da freqüentação do Ginásio Paes de Carvalho em Ponte do Galo e Os habitantes. lá se vai.. por exemplo.. tu precisa é de uma lixa. cai num rebojo fundo. estás ai emplumada saindo daqui pelas mãos dum rapaz trabalhador.tu não vieste para um castigo.que também possibilita pluralizar a narrativa. isto aqui não é um degredo. Vai sair numa carruagem invisível... perto da Santa Casa. protestando contra o descaso das autoridades responsabilizadas pela morte de numerosas crianças. a morte de um carrossel do interior em Chão dos Lobos). avistou:lá se vai. vizinhos e autoridades. Amanhã... Te assoa neste pano.201) Inicia-se.vinda do interior para trabalhar nos serviços caseiros: “. te asseia. “Alfredo correuque-correu para o Largo da Pólvora. cuche! E olhe! Não sei como me vi no meio da rua. possível. mas contente. que desejava fosse a mais nobre Passagem Mac Dowel. ps. fala. queixosa e maternal. Gente.mea papa-gurijuba. então. criticando. adeus.. onde interferem. quase uma invasão ao ponto de vista .maior no caso de Cara-Longa. Não ouviram que principiou a dar uma moléstia nas crianças que os médicos não sabem? As repartições de saúde estão reunindo. das múltiplas vozes em tumulto de uma multidão rebelada. É a sua via amorosa? Cala-te Sardanapalo. cartazes.Deus te livre . Vai passar a cidade em revista.. fiz uma língua deste tamanho pro padre: entreaberto é a mãe. Feriado na Inocentes. na sina do caminhar. deslizou pela macia calçada do Rotisserie. se apagou. engolido pela enchente.. Em tão tamanha acumulação de pessoas que é que acontecia? Alfredo atrapalhou-se. o seu giro pelo Centro. vítimas de um surto epidêmico. um medo me deu. não sabia romper as malhas. aqui podes encorpar ou não cresces. reverendo.” (p. que grassava na cidade. não tem mais onde incinerar o lixo e os cachorros hidrófobos. então que era. depois do espanto. puxa um balde d’água. te esfrega com sabugo de milho.. na estrutura do romance. apostrofando. foi num relâmpago” (p.175/176) Talvez seja esta adesão do narrador ao personagem . a rainha de nossa palhas. já noutro lado. enfiei a cabeça pela janelita. que tantas criaturas.te metesse no orfanato. conferências e mais conferências”.

decorrente do entrechoque dos diversos falares em tumulto.” (p. se encolhe. é uma polifonia de vozes.. no ciclo do Extremo-Norte de Dalcídio Jurandir. em que o ciclo se converte. por muito tempo e de longe. vira farsa.. se não for sonho de juventude. Faixas se sucedem: Sociedade Beneficente dos Funileiros. cailhe um botão do dólmã. Também vim para as próximas eleições..” Toma fôlego o Intendente. a interna harmonia da vívida ou vivida lembrança proustiana. A geografia é bem outra: a sede do Município é uma ruína. Secretário da Intendência (Prefeitura) de uma cidadezinha das ilhas.210) Esse transbordamento dramático. sem proselitismo político. que adquire. Mas a sátira não é arrogante ou perversa. passa-se ao protesto político e à reivindicação social: “Segundo o Eclesiastes. um porte de sátira social. com prioridade. piscando muito. A voz do cabeludo empunhando a bandeira. com múltiplos reflexos internos. aqueles nossos fiéis correligionários defuntos. homens e mulheres. Nesse interior do Pará. A voz de outra mulher. o ciclo do Extremo-Norte cresceria na proporção dessa envergadura. “Alfredo vê os Alcântaras fugindo de casa. que desabava. União dos caldeireiros de ferro. Ao pé da estátua alegórica republicana.. os personagens tornam-se caricaturas. Dona Cecé. a História. em que se alternam Uma voz.. O memorialismo do romance de Dalcídio entra numa galeria de espelhos. Federação das classes em construção civil. em Ribanceira. A mulher grávida. se lembra de Dona Celeste e seu sobrado demolido. 21 . Não estamos tratando de capinar os cemitérios? Desde já agradando. num de seus misteriosos passeios das quartas-feiras. onde vai viver o Secretário. em Nazaré. Salta a toiça de capim. a reflexão salto de clown de um Alfredo melancólico a ouvir do Chefe Prefeito: “Fino. ali chegado depois de haver seguido.” Em concorrência com o realismo do painel sócio-satírico. a caminho do Baixo Amazonas. que envolvem Alfredo.Nomearam-me Intendente Municipal dos Escombros”. o estilo adquire a leveza do transbordamento cômico.. que é sempre recordação da infância. Dos protestos contra a tiaguite. Apanha um caco de azulejo. Neutro diante das altercações e boatos. grupal e coletiva da narrativa. Novamente a ligação biográfica: Alfredo. em correspondência com a dilatada envergadura lingüística. Esta? Esta cidade é toda-toda cemitério. o proveito da terra é para todos. parada no tempo. jamais trágica. aglomeram-se diferentes grupos de trabalhadores. A primeira voz. . Cada romance traz a memória dos que o antecederam. No município pobre.Benedito Nunes Asas da Palavra É uma cena aberta na Praça da República. a rigor cênico da ação. ouviu? Fino. o tamanco na mão. Creio que a partir de Passagem dos Inocentes... dá-se. A narrativa continua em distintiva forma dialogada. Depois.

mistério.foi grelando. bulindo ora no bolso ora na mão do menino Alfredo. 22 . dando ao texto dalcidiano mais encanto.. o caroço de tucumã das narrativas de Dalcídio .. a bolinha . e sempre rebrotando na memória e na imaginação do homem Dalcídio.o carocinho. crescendo cada vez mais...Asas da Palavra . magia. tomando forma firme do princípio ao fim da grande obra.

ou meio mágico meio mítico. Chove nos campos de Cachoeira. mais especificamente na ilha de Marajó e nos bairros e subúrbios de Belém. e rolará pelo ciclo inteiro. ribeirinha. no germinal. logo no início do ciclo narrativo. que de imediato encanta o leitor: é um simples caroço de tucumã. uma espécie de elemento mágico. aliás.Professora da Universidade da Amazônia . e intencionalmente. à exceção do segundo romance. É o próprio narrador. brota desde o começo do ciclo. meu netinho. Rosa Assis* Bernardo. já para o final do primeiro livro. no sentido da coisa simples mas significativa (carocinho. no qual o caroço de tucumã domina do princípio ao fim e quase que produz toda a narrativa. * Doutora em Língua Portuguesa . meu carocinho de tucumã. cenário constante dessa obra cíclica. Marajó. mas que é sobremodo freqüente e importante no primeiro romance. Chove nos campos de Cachoeira. aparece no livro sob outros nomes ainda mais simplificadores. uma leitura do caroço de tucumã: vias de sonhos e fantasias. Ele é "plantado" no texto dalcidiano. dos habitantes do Marajó. por isso mesmo. porquanto é abundante e rico o material folclórico e lingüístico encontrado em cada página de seus romances da série Extremo-Norte. como dissemos. a todos os títulos. Ler a obra de Dalcídio Jurandir é sempre despertar para nova pesquisa.Asas da Palavra DALCÍDIO JURANDIR. apanhado no chão da vida natural. e ao qual. ou melhor. esse caroço. um curioso personagem. proveniente ao mesmo tempo da mata marajoara. no extenso texto dalcidiano. novo estudo. É um elemento constante ao longo de toda a obra. Assim. bolinha). 23 . como veremos.UNAMA. da língua nativa e da cultura popular. interiorana. ambientados na região amazônica. restringiremos com exclusividade nossa análise e exemplificação. Muitas vezes.

imaginações ou devaneios: Voltou muito cansado. como que desamparado. a bolinha sobe e desce na palma da mão. por temer. parte da realidade do mundo para a deformar ou transformá-la. Assim dá um encanto maior. O caroço de tucumã o levara também. Edição crítica de Chove nos campos de Cachoeira/Rosa Assis.E agora? . Todavia.. as coisas começam a acontecer já na primeira cena. Alfredo se aquietou na rede e esperou que seu pai ao menos se levantasse para ouvir Salu. sempre pronta e apta a levá-lo onde quer que o empurrem os seus sonhos e anseios. varinha de condão que as fadas invejariam. desejos e fantasias. Massaud. na saleta. (p. as inúmeras coincidências que se pode encontrar JURANDIR. (p. como se sabe. o encanto vem dos tucumãzeiros da Amazônia. O carocinho tem a magia. no sentido estético do termo. Agora. que tem o dom do maravilhoso. na rede. uma outra linguagem àquela realidade. capaz de operar maravilhas em favor do seu companheiro inseparável e personagem principal e propriamente dito em toda a história: Alfredo Alfredo tinha ainda de buscar querosene. (p. contando baixinho a Dadá o romance da Rainha e Mendiga. As fadas morreram. como se verá. Dicionário de termos literários. quando Alfredo inadivertidamente o deixa cair no chão e sente-se impotente para juntá-lo. parecia proteger aquela fuga. que o romancista marajoara recolheu e recriou para servir como um tipo curioso. aquele caroço que soubera escolher entre muitos no tanque embaixo do chalé. Cultrix. Os campos o levaram para longe. p. sabe dar o Universo a Alfredo. mais uma vez. as reprimendas do pai. 1998. como se fugisse. Os meninos do mundo inteiro não conhecem o carocinho de tucumã de Alfredo. Tem um poder maior que os três Deuses reunidos. criando assim uma outra realidade. de leitmotif do personagem Alfredo. na primeira página. até o último capítulo. e aliás no sentido estritamente literário do maravilhoso fantástico2) rolará pelo livro inteiro. varinha mágica. A garrafa presa no cordão. o carocinho mágico e maravilhoso (isto é. 117) Daí em diante. Todos os trechos do romance que ilustram o presente estudo são extraídos desta edição. E assim termina o Chove. 319 1 24 . do personagem Alfredo.Major. graças ao poder mágico do carocinho que aí faz sua aparição e continuará aparecendo e interferindo por toda a narrativa. Mas é bom. dentro da rede. o carocinho salta no soalho correndo para debaixo da rede do Major. na primeira linha do Chove. – Belém:UNAMA. do severo Major. Daí ser difícil estabelecer com segurança e exatidão uma correspondência direta entre a vida real de Dalcídio Jurandir e a vida literária. imaginária. do folclore regional. 2 MOISÉS. a bolinha no bolso. literalmente sob o signo do carocinho prestimoso e travesso: Alfredo sacode o lençol. conforme se lê no próprio texto do romance. vinda da floresta amazônica e da cultura indígena.o seu singelo talismã (tucumã) ou a sua tosca varinha de condão. 374) 1 Como se vê. Com efeito. isto é. UMA LEITURA DO CAROÇO DE TUCUMÃ: vias de sonhos e fantasias quem define claramente a natureza e os poderes mágicos do nosso pequenino e insólito personagem. poética. perguntava a si mesmo: . 401) O texto literário. quando no escuro. conforme também diz explicitamente no texto o narrador. com a noite. com medo que Major tivesse visto e quisesse ralhar. o carocinho (como é mais freqüentemente e afetuosamente chamado ou invocado) foi a fórmula mágica. até as últimas linhas da última página do romance. Dalcídio. 1974. dar outra forma. São Paulo. E o menino.. não pode jogar o carocinho.Asas da Palavra DALCÍDIO JURANDIR.personagem central da série . Sem coragem para recolher o carocinho. tornando-se desde aí para Alfredo . ao longo de todo o ciclo. e quase personificado.

28. figuras. em entrevista concedida em Belém do Pará. quanto a esse papel mágico ou fantástico do carocinho. sua multiplicação de acordo com o contexto em que aparece.214) Mas quem manda não levarem ele para Belém? Para o colégio? Para longe do quilinho de carne? Do carocinho de tucumã? (p. do açúcar e do pão! (p.. e ambições e miragens. no campo ou debaixo do ingazeiro. Vamos. a vivência marajoara que ressoa. observando. em dez volumes. Todo dia isso. por assim dizer. Esse jogo solitário. costumes.191) Tudo fazia para que Alfredo se encharcasse de sonho. cenas. linguagem. A bolinha subia e caía na palma da mão. livre do querosene. às revistas. mais uma vez. 375) Aliás. são tão evidentes que em muitas passagens do romance parecem de fato corresponder à vida e ao cotidiano que tivera o menino Dalcídio. 25 . Unama. da carne. matriz de toda a obra. carocinho. nº 4. leva quatro quilos de carne para o chalé! O carocinho tinha o dom do maravilhoso.248) 3 Um escritor no purgatório.Asas da Palavra Rosa Assis entre as dificuldades e ansiedades do menino pobre que realmente viveu em Cachoeira do Arari. bichos. (p. 1996. foi capturando almas. surgindo desde o início e gerando toda a obra cíclica.3 Acompanhemos pois. no seu dia-a-dia. projetando-se no comportamento do menino-personagem. coisas. na sua vidinha. de imaginações. a Antônio Torres. Agora ia sem bolinha. (p. In: Asas da Palavra. se tornou em fermento romanesco. Um quilo de carne. (p. p. inclusive. em 1976.. Perdeu a bolinha numa toiça. e as ansiedades e dificuldades do fictício menino Alfredo. Belém. a presença do caroço de tucumã na mão do personagem. sempre recorrendo aos mágicos poderes do carocinho: Já estava aborrecido com aquele mercado. Do grelo no caroço pobre brotou Chove nos campos de Cachoeira. aos caroços de tucumã que joga na palma da mão. 340) Nessa mesma manhã vira o pai de Tales de Mileto comprar três quilos de carne e ele com o seu quilinho . (p. como se lê nos seguintes passos do texto. 371) Carocinho. faça Alfredo no colégio. é o próprio romancista que nos fala explícita e poeticamente. Com o tucumã na mão. Haroldo Maranhão e Pedro Galvão: Luiz Pinto o caroço de tucumã. A febre faz Alfredo mais agarrado à rede. jogado na palma da mão de Alfredo levava o menino ao diálogo com sonhos. miudinho como num búzio.

sofre o escritor. se confundindo. transporta-o para um mundo de riquezas e farturas. se 26 . discorda. (p. seguia na Lobato para Belém. o faz-de-conta. a magia do caroço era a impossível magia da vida. O caroço livra o menino dos perigos. O fato é que os tipos. faz-de-conta era a única salvação. É como se a existência de um dependesse da presença do outro. o passado com o presente. o rio se entristece. os campos floridos onde a bolinha bole. os passarinhos brincando no ingazeiro. seus desejos sexuais. aí parecem se confundir o menino Dalcídio com o menino Alfredo. 378) O colégio era um sonho. Fazia de conta tudo o que pudesse fazer de conta. (p. Nas mãos de Alfredo. no Chove o rio corre. e. (p. bolinha) era a salvação. por onde navega. ou com este se misturando. (p. ou a solução. só seria alguém com o caroço. como imaginar as coisas. até mesmo. era até o impossível. o caroço resolvia tudo. ora discute. . sonha. abandonado por seu dono. ora conversa. como ser mais que Tales de Mileto. rola.. A roda-viva. tanto que sentimos a cada passo da extensa narrativa (em seus romances do Extremo-Norte) a experiência e a história de vida de um homem cuja única riqueza residia apenas na leitura e na produção literária. UMA LEITURA DO CAROÇO DE TUCUMÃ: vias de sonhos e fantasias A bolinha no bolso. O carocinho deve estar dentro da rede. dava alegria ao chalé. os acontecimentos se delineavam e se resolviam. o caroço e Alfredo se identificam a ponto de tornaremse quase que inseparáveis. ou mesmo faz as pazes com o protagonista. como saber viver no faz-de-conta? (p. Na verdade. gerando tantas páginas de tão densa e tão rara sensibilidade. mas nem por isso é afastado. vivido na magia do caroço de tucumã: O caroço ficará nos campos queimados contando a história do faz-de-conta. o personagem-caroço assume. A seguir passa o igarapé.. Se conferirmos a esse romance um caráter autobiográfico. satisfazendo. com o carocinho na palma da mão afastava a morte. também. o caroço (carocinho. Para tudo. mas as mãos paravam fatigadas de tanto jogar o carocinho. é que era o verdadeiro mundo do menino Alfredo. no sentido poético do termo. 119) Ele então armava um Brasil faz-de-conta. as circunstâncias. Alfredo não seria ninguém sem o caroço.398) Assim. (p. apenas em raras situações parece ficar impotente para resolvê-las. numa só figura romanesca. como por vezes acontece. (p. os sonhos do agora menino-rapaz.386) Alfredo. um mundo de sonhos e fantasias. Enfim.Asas da Palavra DALCÍDIO JURANDIR. E por falar em rio. o rio fala. confidencia. aquela roupa na corda. os contextos de vida onde sua narrativa se desenrola misturam-se num só rio. virtualmente. a identidade do próprio Alfredo. seus anseios afetivos. o quarto fechado. o rio transborda. como antes sugerido. 304) Sem o carocinho. 347) Vai procurar o carocinho. indiretamente. nas fantasias mais simples ou nas mais exóticas. 397) No último exemplo. corre. bem vivida ou mal vivida. (p. ou por outra. delineia-se o campo. se chegarmos ao extremo. 250) A bolinha sabia criar o faz-de-conta.

cujos dados foram levantados pela aluna Shirley Oliveira. Leila de Sousa . vivo e pulsando no coração do escritor de Cachoeira do Arari. no meio do qual continua viva a confiança nos poderes mágicos do caroço de tucumã. espécie de caroço de tucumã na palma da mão ao sabor de minha fantasia. Tem um poder maior que os três Deuses reunidos (p. (Vero-Peso). O anel de tucumã traz sorte. junto com a raspa do chifre do boi e do bode. descobre coisas. O caroço só é para defumação. .UNAMA . a força. após trinta anos. Algo se faz naquela outrora vila de minha meninice. 11 de julho de 1975. junto com o piquiá e alecrim o efeito é para afastar olho gordo e espírito maus. a crendice do poder do caroço de tucumã (fruto) realizamos pesquisa em Belém. tem de fato o poder da magia. etc. afasta tudo quanto é coisa ruim. para banho não serve. o inimaginável e até mesmo o mágico dos desejos. datada do Rio de Janeiro. sabe dar o Universo a Alfredo.Alfredo.O caroço de tucumã serve para defesa e defumar a casa com outros tipos de caroços. segundo a crença popular paraense. ratifica-se sua existência real vinculada à biografia do escritor.Universidade da Amazônia . 374) Vale aqui lembrar que o carocinho grelado nas páginas do romance famoso é evocado em uma das inúmeras correspondências que Dalcídio manteve. Terezinha Ângela . ao "germinar" novamente na lembrança do romancista.O caroço de tucumã é um descarrego bem forte.4 Assim. salvo a seu dono . Trecho de carta a Maria de Belém Menezes. a arma. animais secos. com a professora Maria de Belém Menezes. ao longo de muitos anos.o carocinho faz-de-conta! Ele faz que conta tudo e não conta nada a ninguém.O óleo do caroço de tucumã é bom para inflamações e serve também para ameba. Beija-Flor . pois o caroço de tucumã.O caroço de tucumã serve para defender dos maus espíritos. o caroço é o poder. o caroço continuava. da turma 1LEN1. como um elemento presente em sua infância de criança pobre: O espírito comunitário da prelazia de Ponta de Pedras me aquece o peito. Teresa Maciel . sua fiel amiga de Belém do Pará. Quem usa o anel de tucumã fica protegido da má sorte.3 como de fato o confirmou pesquisa feita junto ao povo simples de Belém. faz milagres. portanto. antes de transformar-se em personagem do Chove. Daí percebermos logo que o chão da Apenas para ilustrar esse lado popular.) Joana Nogueira . 4 Cf. Como se constata.17/ 11/98. só para defumação. Entrevistadas: (vendedoras de plantas e ervas “maravilhosas” e “milagrosas”. 3 27 . Às vezes na rede ou na mão.O caroço de tucumã serve para defumação de descarga e afastar maus espíritos. etc. de minha juventude. língua e olhos de peixes. O carocinho tem a magia.Rosa Assis Asas da Palavra esconde.

aparece como referência por ter seus belos campos floridos. Por outro lado. E estas fases podem justificar o vínculo vital e telúrico mais forte de seu romance. desejo/prazer. mas sempre com o mesmo significado nucleal. 117). na sua forma locucional. Amélia. 251) Como se isso não bastasse. Na verdade o passado é uma evocação permanente que sombreia as páginas do Chove. tornando-a mais flexível e amável. Essa forma diminutiva de tratamento. pulava. 5 6 28 ASSIS. Assim se encontra no sufixo diminutivo um meio estilístico que elide a objetividade sóbria e a severidade da linguagem. o mais largo e até mesmo o mais belo rio do mundo: Pois sua bolinha ia fazer o Amazonas o mais comprido. a expressão escolhida para compor sozinha o título de um capítulo. UMA LEITURA DO CAROÇO DE TUCUMÃ: vias de sonhos e fantasias infância de Dalcídio o fez depois um homem-menino. o VIII CAROÇO DE TUCUMÃ.Asas da Palavra DALCÍDIO JURANDIR. por vezes. como se acabou de ler. é uma imagem-símbolo. a Holanda. ofensa. (p. ou apenas sobrevivida. driblava a vida triste e dolorosa. 375) No texto. um impulso negativo: troça. como por ironia. 192) . o mais largo. 46 O emprego dos sufixos diminutivos indica ao leitor ou interlocutor que aquele que fala ou escreve põe a linguagem afetiva no primeiro plano. (p. 251). Só o carocinho compreendia todas as coisas e mudava os caminhos do destino. nº 4. o nosso milagroso. quer. mítico. pai de Alfredo. Nova Fronteira. sua mãe. Rio de Janeiro. como bolinha ou carocinho. (p. (CUNHA. Amélia: campos da Holanda. o que comove ou impressiona . p. nos seguintes termos: Ouvira Major dizer à D. essa bolinha ainda conseguia trazer para o Brasil tudo aquilo que de mais importante estava documentado nas revistas que Alfredo folheava. a par de reduzir-se no texto à mais pura simplicidade do diminutivo. da vida e da morte. guardadas as proporções. para comparar com a beleza do Brasil. digamos. como o fora. aquela Holanda que. escapolia. o mais belo rio do mundo. simples carocinho. que corria. à D. é interessante e pertinente para nossa interpretação afetiva6 envolvendo o significado da lexia caroço. ainda galga lugar de destaque no livro. Não quer comunicar idéias ou reflexões. mágico. p. mas o que quer é exprimir de modo espontâneo e impulsivo o que sente. 1996. Rosa. a não ser. aquela que Dalcídio não teve. quase obsessiva. às vezes também vaga. sempre à procura de uma posterior vida ideal. além de rolar em quase todos os capítulos do romance. Chama-se a isso prados. documentada em Celso Cunha quando cita um passo de Sílvia Skorge. por ser. encapado com formas diminutivas. resultantes de profunda meditação. parcialmente. era o Brasil crescendo a ponto de tornar os nossos engenheiros superiores aos engenheiros holandeses: pois a bolinha fazia os holandeses ficarem por baixo dos engenheiros brasileiros. 1985. explicados por Seu Alberto. É interessante observar que Alfredo escolhe. ela poderia fazer o rio Amazonas o mais rico. Unama. desprezo. utópico. vida mal-vivida. no final dos anos setenta. Dentre os inesgotáveis milagres da bolinha. no início da narrativa. saudade. a do início de sua infância e adolescência5. Celso & CINTRA Lindley Nova Gramática do português contemporânea.quer seja carinho. através de Alfredo. (p. o caroço de tucumã aparece. a força do seu passado nas beiras do Marajó. 250) A bolinha o levava do insondável e imenso mundo dos meninos para onde quisesse levar. Asas da Palavra. (p.

Asas da Palavra

Rosa Assis

Além de todos esses exemplos, em que o caroço passeia na palma da mão
do personagem, ou funciona como elemento apaziguador, tranqüilizador, ou de
força maior, ele surge também como força erótica, transformando o menino em
homem. Para isso, basta lembrar que o caroço pulava na rede, deitava com o menino,
tanto no quarto fechado, como no escuro, sempre às escondidas. E o menino se deixando ficar
escondido, inquieto, por vezes sobressaltado, ofegante. E mais, o caroço está sempre presente nos
sonhos do menino Alfredo (acordado ou dormindo) com as meninas maiores, sedutoras, proibidas,
cobiçadas. O fato é que o prazer do fruto da sua região se mistura com o prazer da vida plena.
Assim, com o permitido e o proibido, ele pode comer, roer, se lambuzar e deixar suas marcas na
boca, nos lábios e nos dentes - o que confirma a insinuação daquele elemento erótico nas significações
do tucumã no texto do Chove, como a seguir se lê em diferentes passagens sugestivas:
Adormecia, a bolinha rolava entre o lençol e o camisão. (p.308)
Nem sempre era a bolinha, eram as meninas como Moça. (p.308)
Alfredo ia pelos campos com a bolinha e se exaltava pedindo a Nossa Senhora da Conceição, que
fizesse Irene muito dele,... (p. 312)
A bolinha seria uma criatura abençoada por Nossa Senhora? Havia muito de pecador, de tentação
na bolinha (p.312)
E Moça é uma ansiedade, a bolinha subindo e descendo, lhe mostrando a vantagem que há nos
meninos maiores para namorar, fazer uma porção de coisas ocultas e proibidas. (p. 283)
e meninas que vieram depois, lhe dando tentações, curiosidades viciosas, proibições, faz-deconta lhe fazendo cada vez mais entendido e triste, desconfiado. (p. 282)

Por conseguinte, o proibido, o seu segredo, o do caroço, não podia se tornar público, era apenas
dele e só dele. Para Alfredo, revelar o faz-de-conta do caroço era acabar a fantasia, era acordar do
sonho, era castrar a sua imaginação. Desse modo, quando sonhou alto demais a ponto de ser ouvido,
e ficou desnorteado, teve vontade de "esbrechar" com o caroço a cabeça de dona Geminiana:
Subiu-lhe a lembrança dos campos queimados e daquele sapo que o espiava através do chalé, uma
tarde, como se o sapo visse e compreendesse o que era que estava acontecendo dentro do caroço de
tucumã pulando na mão do menino.
E distraído, com o caroço pulando na mão, começou a falar bem baixinho, quando tão de repente
aquela mão lhe tocou muito de leve no ombro.
Falando só, hem?
O caroço deslizou pelo braço e rolou para debaixo da escada como se compreendesse o susto e a
vergonha do menino que ficou frio e teve um desejo de morder a mão de d. Gemi, quebrar-lhe a
cabeça com o caroço. (p.122)

O cuidado em esconder o caroço era a maior preocupação de Alfredo, sobretudo quando
o personificava em forma de companheiro ou amigo:
Só a bolinha tomava corpo de gente, era uma amiga. Era o corpo da imaginação. Bolinha fiel e
rica de sugestão! Ela achava tudo, ele achava desde a salvação do Brasil até uma caixa de
charutos Palhaço para sua mãe. (p. 250)

29

Asas da Palavra

DALCÍDIO JURANDIR, UMA LEITURA DO CAROÇO DE TUCUMÃ: vias de sonhos e fantasias

A relação Alfredo/caroço é tão íntima, que o próprio caroço já
personificado dissimula dentro de si aquilo que deveria ser ocultado por Alfredo:
Clara ou a morte de Clara tinha de ficar mistério dentro de Alfredo. Ficou dentro do carocinho.
Toda vez que Alfredo desejava uma menina para passear nos campos, ser amiga dele no colégio,
ler com ele os livros de viagens, o carocinho fazia Clara da idade do menino e era meia hora de
sonho. (p. 283)

Servindo ao mesmo tempo de cofre e confessor, o fiel carocinho guarda os sigilos e as
confissões fantasiosas de Alfredo, traçando nas paisagens psicológicas o perfil do meninohomem, ora sonhador, ora misterioso. Sonhar é para ele, Alfredo, concretizar através das palavras
suas idéias. Sonho é caroço. Assim, em Dalcídio, fantasia, imaginação e sonho se misturam, se
confundem, se somam, e isso só é possível com a ajuda da "varinha de condão", do mágico e
mítico caroço de tucumã:
Os passarinhos revoam em torno do chalé. O caroço de tucumã imaginou que os
passarinhos moravam no chalé. (p.120)
Alfredo correu e foi buscar um caroço de tucumã. Começou a ver os passarinhos
no chalé dançando uma dança esturdia com Mariinha no soalho. (p. 122)
Ficou brilhando dentro do carocinho de Alfredo. No carocinho o cometa voltava a
brilhar no céu de Cachoeira. (p. 305)
De certa maneira, os sonhos de Alfredo acabam virando uma espécie de "vício", digamos,
no sentido mais popular do termo:
Passava a febre, passava a febre de sonhar viagens, tirava o vício do carocinho.
Quando o tenor Florentino esteve em Cachoeira leu a mão de Alfredo. (p. 305)
Por outro lado, quando está doente, com febre, no seu sonho delirante, Alfredo é tratado
com miraculosos remédios inventados pelo caroço, com plantas medicinais da região. E o
carocinho passa de milagroso a curandeiro, bem de acordo com a cultura popular regional:
O carocinho inventava um remédio para febre que não fosse quinino, como já
inventou remédios para vermes que não eram mamona. (p. 370)
Então lhe parecia um pouco bom aquele quarto fechado, ninguém com ele, o suor da febre
passara, a rede, a bolinha em movimento. (p. 347)

Enfim, os sonhos de Alfredo só eram possíveis graças aos poderes de sua imaginação e à
presença constante do seu inseparável amuleto, em especial nos campos batidos, nos escuros,
na calada da noite. E aliás, não se deve esquecer que a lenda indígena do caroço de tucumã é
justamente a do surgimento da noite7.

7

30

Fragmento da lenda: como a noite apareceu “O marido mandou buscar a noite, que lhe foi remetida encerrada dentro de um
caroço de tucumã, [.....]” Esta lenda pertence à série das Lendas Tupis, publicadas pelo Gen. Couto de Magalhães em O
Selvagem (3ª edição, Companhia editora nacional, Coleção Brasiliana, 1935, pags. 231-233)

Asas da Palavra

Rosa Assis

Concluindo, volto a recordar que o caroço de tucumã das narrativas de
Dalcídio - o carocinho, a bolinha - foi grelando, crescendo cada vez mais, tomando
forma firme do princípio ao fim da grande obra, dando ao texto dalcidiano mais
encanto, mistério, magia, bulindo ora no bolso ora na mão do menino Alfredo, e
sempre rebrotando na memória e na imaginação do homem Dalcídio, o escritor, esse ser mágico
em si mesmo, que sabe encontrar e colher como ninguém as palavras mais significativas e
sensíveis para recriar a vida e a linguagem do mundo marajoara. É realmente uma colheita
mágica e poética, sentida, pensada, sonhada, que dá à narrativa um sabor genuíno e pitoresco,
diferente. E tudo por obra e graça de um simples mas significante carocinho, criando suas
"histórias da carochinha" , tão comuns de dizer entre a gente simples do Marajó e desses nossos
perdidos interiores. Como arremata por mim o menino Alfredo, sem deixar qualquer dúvida, já
quase ao final do romance.
Dentro do carocinho bem redondo não muito leve nem também pesado, se escondiam todos os
poderes do sonho, toda a graça do maravilhoso. (p. 378)

Tucumã - s. m. Astrocarym tucuma Mart., fruto do
tucumãzeiro; palmeira da região amazônica, com
frutos oleosos que servem para um tipo de vinho.
Das fibras do tucumãzeiro podem-se fazer rede de
pesca e, até mesmo, redes de dormir. Seu nome
popular é tucum. (ASSIS, Rosa. Vocabulário popular
em Dalcídio Jurandir).

FONTES CONSULTADAS
ASSIS, Rosa Maria Coelho de. O vocabulário popular em Dalcídio Jurandir. Belém,
Universidade Federal do Pará, 1992.
COUTO, Magalhães de. O Selvagem. Rio de Janeiro, Editora Nacional, Coleção Brasiliana,
1935.
CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley. Gramática contemporânea da língua portuguesa. BeloHorizonte. Nova Fronteira,1985.
JURANDIR, Dalcídio. Edição crítica de Chove nos campos de Cachoeira / Rosa Assis.
Belém, UNAMA, 1998.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo, Cultrix, 1974.

31

Asas da Palavra Missunga escutava como se ela falasse do meio do rio. despertaram-no confusamente 32 . Marta acuada no muro do cemitério. numa embarcação ao sabor da vazante. Aos poucos. caídas e abertas como os peixes de Alaíde. cenas de vaqueiragens. donzelas que seu pai deixava. no campo e na beirada. aAs escrituras do pai.

aparentemente fácil. lançado seis anos depois. Entretanto.Asas da Palavra MARAJÓ sob o signo da antropologia e da estética Audemaro Taranto Goulart * Esse Seminário tem como objetivo homenagear o escritor Dalcídio Jurandir. pôr em relevo um mundo enigmático que confronta o leitor com o desafio da sua decifração. pois a oportunidade é a comemoração dos 60 anos de seu lançamento. no entanto. que é a de mostrar o valor da obra do escritor paraense. reunindo estudiosos numa tarefa. * Doutor em Literatura Comparada. voltadas para Chove nos campos de Cachoeira. PUC Minas 33 . que se coloque uma observação prévia: as falas deste Seminário estarão. de Marajó que vou falar. além de ser uma narrativa de irrecusável valor literário. Mas eu não consigo me desgarrar do segundo livro de Dalcídio. É preciso. e considerado importante documento etnográfico e sociológico. pois. quando já tem o leitor enredado na sua sedução. o singular Marajó. logo em seguida. não há como negar que o próprio das obras de qualidade é justamente isso: lançar o seu canto de sereia – representado numa narrativa atraente – e. É. essencialmente. Digo aparentemente fácil porque a obra de Dalcídio é tão instigante que poucos não se deixam seduzir por ela. É exatamente isso que me proponho fazer aqui.

Entretanto. que até as fadas e os anjos entraram pelas janelas do palácio. Para além do ódio. que fez transitar diferentes variantes pela via da oralidade. “Cara de Pau”. O rei traz o tronco para seu palácio e o dá ao seu filho. Salles informa que. o príncipe. para além dessa clara confluência com o mundo folclórico. “Maria de Pau”. remendadora de tarrafas. expresso no irrefreável desejo que o Coronel Coutinho – personagem maior da narrativa – tem pela sua filha Orminda.Asas da Palavra MARAJÓ sob o signo da antropologia e da estética A DIMENSÃO ANTROPOLÓGICA Começo. uma narrativa que se passa no interior do mundo amazônico tem essa dimensão fundadora que nos exemplifica o modo como se deu a inserção do indivíduo no mundo da cultura. o príncipe descobriu que ela era Maria de Pau. como se deu a transformação do indivíduo em sujeito do mundo simbólico. Em Totem e Tabu. É por isso que se diz que a festa do totem é vista como a repetição e a comemoração simbólica do ato criminoso original. a história de Maria de Pau. pois. pois. Reunidos num bando. mataram o pai e o comeram. exceto em determinadas ocasiões festivas. A princesa que ali se escondia. Maria se desencantou. Vicente Salles lembra bem que o tema do pai incestuoso se faz presente em todas as literaturas. E isso é feito através do tema do pai incestuoso. dizendo do que me seduziu nesse livro e que são as instigantes ligações que ele revela com mundos e valores que. no Brasil. soavam mais alto a cada página e eu ia confirmando a importância do texto de Dalcídio na evocação desse sentido revelador do trânsito que o homem realizou da natureza para a cultura. Isso levou à proscrição da morte do totem e à exaltação do pai como o animal totem da tribo. O meu encantamento com essa perspectiva se acentuou mais ainda quando li as considerações que Vicente Salles fez sobre Marajó. 34 . quando ele era sacrificado e o antigo crime era simbolicamente absolvido. formalmente. Afinal. os filhos foram dominados por um sentimento de culpa com a conseqüente necessidade da expiação do ato criminoso. Finalmente. na sua própria interpretação. recolhida de seus pacientes. ao colocar na boca de Nhá Diniquinha. 339). A narrativa estabelece. Para fazer isso. Essa associação da narrativa com o mundo folclórico é indicada pelo próprio Dalcídio Jurandir. um animal cuja vida era sagrada. Os ecos do Totem e Tabu. como diz Freud. À medida que a leitura da narrativa evoluía. Ninguém a conhecia. impôs seu poder absoluto. É o caso da clássica versão da “Cinderela”. parecem estar inteiramente separados no tempo e no espaço. assim. ia ficando mais nítida. há o amor. para mim. ela fugia. freqüenta os bailes e se faz par do príncipe. Marajó vai beber no mito do assassinato do pai totêmico. foram dançar e comer também” (p. que o recolhe ao seu quarto. a princípio. Os filhos foram então obrigados a viver em completa obediência até o dia em que se rebelaram. de Perrault. sua dimensão antropológica. havia um sentimento de ternura em relação ao pai. chegado até nós de fontes ibéricas”. para quem a primeira sociedade humana teria sido composta por um grupo ou grupos dominados por um poderoso macho despótico. antes da meianoite. de Perrault. o príncipe casou-se com ela “e houve tanta festa no reino que até hoje estão dançando e comendo. “Bicho de Palha”. Sua proposição mais celebrada é a da “Pele de Asno”. mostrando a sua filiação ao “velho romance Dona Silvana. Segundo Freud. guardando para si todas as mulheres. Depois. de Robertson Smith e em estudos de Darwin. o “Pele de Asno” aparece sob vários disfarces como “Pele de Burro”. de Freud. Ele sujeitou todos os outros machos mais jovens. na teoria do totem. baseia-se nos estudos antropológicos de Frazer. esse macho era o pai da horda primordial. a ligação com o texto folclórico. Freud apresenta pela primeira vez a teoria que aponta como o homem escapou de seu passado animal. a princesa encantada que foi encontrada “fechada num tronco de árvore de bubuia no mar”. Quer dizer.

ao mesmo tempo. aparece um curioso diálogo entre três narrativas diferentes: a de Marajó. nossas e dos outros. ao dizer que o inconsciente configura-se como algo que pré-existe ao sujeito. “Em quase todos os lugares regidos pelo totem existe também a norma de que membros do mesmo totem não tenham vínculos sexuais recíprocos. condições de toda a vida mental de todo homem e de todo tempo”.Audemaro Taranto Goulart Asas da Palavra Ocorre que os irmãos também se temiam uns aos outros. (Fromm. 1993) Assim. afirmação que Lévi-Strauss reforçou mais ainda ao dizer que o inconsciente seria “o termo mediador entre mim e os outros”. É assim que se estabelece uma relação entre o totemismo e a proibição do incesto. o que tornava obrigatório o casamento fora da tribo. E isso tudo se deve ao fato de que há um elemento essencial estabelecendo essas interações. Desse modo. 1 a 35 . É o inconsciente. tanto em nós como nos outros. não tenham a permissão para casarem-se entre si. constituem formas de atividade que são. e universalmente válida. É o que nos ensina Marcel Mauss. Dessa forma. estabelece-se dentro da tribo um tabu contra o assassínio. as narrativas folclóricas e a antropologia formalizada por Freud não são coincidências mas operações mentais. Para evitar que algum macho quisesse tomar todas as mulheres para si. que têm sua gênese em uma estrutura comum. do que resultou o acordo de que eles deveriam renunciar aos frutos de seu ato comum. a suposta disputa pela posse das mulheres deixou de ser uma ameaça para a organização social que então se fundava. “os dados do inconsciente. Ela faz parte de um vasto painel em que uma rede de relações se estabelece. a história de Maria de Pau (que faz parte do grande diálogo que envolve o romance Dona Silvana e as narrativas do “Pele de Asno”). instância fundamental para produzir a aproximação de fatos e seres aparentemente dissociados. da atividade inconsciente. É a exogamia conectada com o totem”. Essa interação não é uma simples coincidência. É importante ainda acrescentar que. o que significava renunciar à posse das mulheres libertadas. ou seja. elaboradas conscientemente por sujeitos. para Lévi-Strauss. criou-se o tabu do incesto. com o inevitável receio de que um deles poderia querer repetir o pai primitivo. apud Thompson. Por aí se pode ver como o diálogo entre Marajó. a do mito do assassinato do pai totêmico e uma das variantes do tema do pai incestuoso.

recolher todos os seus irmãos dispersos. afinal dessa nova solução. E isso pode ser verificado por todo o livro. há também a confirmação de que o velho Coronel tem um sem número de filhos com inúmeras mulheres locais. vão beber na fonte do mito inaugural da organização social e do mundo da cultura. pode ser vista. por exemplo. como se pode conferir no trecho seguinte: Missunga escutava como se ela falasse do meio do rio. ao pai. Essa revolta está representada nas posições do filho Missunga que se opõe. que o fizesse romper com o pai e salvar Orminda. num relâmpago. no capítulo 10. diretamente. a posse indiscutível de terras e de bens. e esse desejo. numa embarcação ao sabor da vazante. evoca cenas em que o pai aparece. desempenhando o seu ofício de “garanhãoabatedor-de-mulheres”. Na escassa claridade. O pai bateu na porta do quarto e entrou. Veja-se que o Coronel Coutinho. Essas reflexões já são um índice de como se manifesta na narrativa o que corrresponde à revolta dos filhos. toda a sua condição de homem opressor e infeliz. – Quando você embarca para Belém? A fácil pergunta. Tais cenas são um desconforto para Missunga. A evolução dessa perspectiva de confronto com o pai é bastante marcada na narrativa. ouvindo a namorada Alaíde. sobretudo na Vila de Ponta de Pedras. as escrituras do pai. como o macho dominador da horda primitiva. recuperar a melhor lembrança de sua mãe. Ali. Romperia com o pai. que o comovia. novo ainda. donzelas que seu pai deixava. o Coronel age como o pai despótico que domina tudo e todos. de servir à vida. chama a atenção a consciência que o filho tem dos desmandos do despótico Coronel Coutinho.Asas da Palavra MARAJÓ sob o signo da antropologia e da estética Mas vejamos como essa articulação pode ser entrevista na narrativa de Dalcídio Jurandir. quando Missunga. concentra o poder. na alusão à grande quantidade de irmãos seus espalhados por aquelas terras e a necessidade de romper com o pai opressor: Verdadeiramente desejou um grande amor pela morta. Uma pequena amostra dessa condição do Coronel Coutinho. Minha intenção é mostrar essa articulação no Marajó. na cena em que o filho substitui o nome da comunidade de Santo André – dado pelo pai – por Felicidade. 36 . a autoridade. Minha convicção é de que a matriz paradigmática de tudo é a estrutura antropológica que Freud sinaliza no mito do assassinato do pai totêmico. caídas e abertas como os peixes de Alaíde. merecer aquele amor desaparecido (p. A realidade era a morte da moça. Marta acuada no muro do cemitério. cenas de vaqueiragens. Nada sucederia naquele instante àquele homem? Tentou compreender que devia lutar contra o pai. lhe fixara. bem como a narrativa de Dalcídio. E mesmo que o projeto idealizado por Missunga tenha fracassado. despertaram-no confusamente (p. em silêncio. a voz tranqüila. Riu. Aos poucos. uma vez que. as narrativas folclóricas e as correspondentes variantes do Pele de Asno. tal como está no mito do assassinato do pai totêmico. outra mulher na vida de Missunga. o que pode ser observado. no campo e na beirada. flagrantemente. além da dominação exercida. personagem que divide o grande palco da narrativa com seu filho Missunga. que se segue à cena da morte de Guita. 272). os dois homens defrontaram-se. na tentativa de libertar-se da influência paterna. nota-se que ele deixou suas marcas. Assim. não chegava ainda a pensar se podia romper consigo mesmo. indicando a resistência. impreciso. Um dos episódios mais significativos do amadurecimento dessa idéia tem-se no capítulo 38. Além do mais. 88). para dominar a solidão. o que emblema o primeiro ensaio de uma rebelião.

quer dizer. no caso. Desse modo. para a América do Norte. no capítulo 30. percebe-se que Manuel Raimundo surge como imagem especular do Coronel Coutinho. para o nível do enredo do romance. é um primor de invenção da pena de Dalcídio. No nível mesmo da narrativa pode-se perceber as artimanhas. além da sua funcionalidade como mecanismos preparadores do desfecho que culmina com o rompimento de pai e filho. em que se destacam. Já próximo ao desfecho. simplesmente. o que se representa no nível do enunciado com a viagem meio louca que o jovem realiza com Alaíde. E tudo feito num processo articulador em que se fazem presentes os interesses mesquinhos dos subalternos e do próprio Missunga. praticamente. o enunciado do texto revela como a realidade. No capítulo.Audemaro Taranto Goulart Asas da Palavra O certo é que a narrativa insiste. em que a lei se impõe à arbitrariedade. aos poucos. de palavras que se acumulam num discurso balofo e roçagante. Surpreso com a medida. as denúncias contra o autoritarismo. até chegarem a rio da Fábrica. Refiro-me. a terra de Alaíde. Há uma cena. Paracauari. Pode-se mesmo dizer que se trata de uma transposição. já no final da narrativa. significativamente. sustentam uma linha invisível na narrativa que opera no sentido de justificar a substituição de um modelo autoritário e descabido na sociedade civilizada. mais do que nunca. Cenas como essas. É quando Missunga quer ponderar com o Coronel o absurdo que tinha sido a atitude de um dos seus homens que. um tabelião – melhor fora dizer. Ali. Araruna. A morte do Coronel Coutinho. ao impressionante capítulo 32. O leitor. subira o rio destruindo feitorias. nesse ponto. Cajuúna. ilha dos Machados. é constituída de linguagem. sugerir ao filho que vá embora para Belém. um lacaio – que sempre fez o que o Coronel quis. aparecem referências pungentes aos pobres e desvalidos. O Coronel Coutinho não permitiu o aparte e sua resposta é. sendo. aos miseráveis explorados. ele é o braço que operacionaliza os desmandos arquitetados pelo patrão. que dá uma boa demonstração de que Missunga já tinha uma outra mentalidade. deixa-se tocar por um sentimento de comiseração diante de cenas em que seres humanos são tratados como animais. Na verdade. Trata-se do momento em que Sinhuca Arregalado informa a Missunga que o Coronel Coutinho havia proibido os pescadores de armarem feitorias na beirada do rio que passa pelas suas fazendas. de arma em punho. É uma sucessão de lugares: Joanes. como se se estivesse num estágio anterior à civilização e ao mundo organizado pelas redes do simbólico. enxotado por ele. aquele que herdaria tudo. E é aí que o Coronel vem para buscar o filho. diante do susto por que passou. as acomodações por conveniência. A começar pelo fato de que Missunga vai se inteirando da morte do pai e tendo dela a verdadeira dimensão. também dá a dimensão das diferenças entre pai e filho. apesar de o filho sempre ser posto como o sucessor do pai. dos elementos que recobrem o mito do assassinato do pai totêmico. o que resultou na morte de uma mulher grávida. em cores marcantes. além de simbolizar a morte do pai despótico no mito totêmico. Missunga pergunta: “Mas é legal?” Uma outra passagem. 37 . no apontamento das diferenças entre o Coronel Coutinho e Missunga. interesseiro e desonesto. Assim é que Missunga recebe uma carta do Capitão Lafaiete. logo em seguida. justificando a sua evolução. tem-se o rompimento entre Missunga e o pai.

Missunga tinha a garganta seca. o “colapso repentino” com que tentaram mascarar o ato final do velho chefe. Deus o levou.. Mas os caprichos da política são como os caprichos da Parca”. elegendo a morte do Coronel como o momento decisivo de todo o enredo. O ridículo chega a tangenciar o sublime na bajulação a Missunga. no encerramento da carta: “Espero que meu amigo enterre sempre as divergências do passado e aceite esta amizade velha. Apesar do alívio – aquela súbita sensação de ruína iminente – viu a moça desgrenhada despojando-se daquele subitamente cadáver. Um colapso. pois ele como que se orgulha da “causa mortis” (“Um fim conveniente a um Coutinho”). naquela casa da praia em Soure ele passou bem uma semana lá.. no seu momento mais elevado. este sim. esclarecida na conversa de Missunga com o caixeiro da marchantaria e na reflexão que o filho faz. experimentaram com o parricídio. Uma pequena embrulhada num lençol saiu gritando do quarto e até hoje parece transtornada. 301-3) Percebe-se também que há uma preocupação em esconder a causa da morte pelo que ela teria de indigno para a imagem do Coronel.. Como diz Freud. Veja-se que Missunga. revelador e verdadeiro: “Ignoro qual será o destino do nosso município. 302-303). Um fim conveniente a um Coutinho (p. “para além do ódio há o amor”. A narrativa de Dalcídio é primorosa no recortar a morte do Coronel Coutinho. Você é herdeiro dela” (p. de sua vida toda dedicada à causa pública. e isso explica a admiração de Missunga com os detalhes da morte do Coronel. compadre e chefe finou-se quando a nossa terra mais precisava de seus serviços.. caro amigo. Um mundo 38 . É o mesmo sentimento de culpa que os filhos. na verdade. Coronel me havia prometido indicar-me para substituí-lo.. só fez acentuar ainda mais o talhe do grande garanhão. com arrependimento. Ela faz parte do inventário de seu pai. na passagem.) – Exatamente. É nesse momento que se percebe como a narrativa se supera. no mito. do conflito “entre a sua vontade e a estima do pai”. que pesou sobre ela.. É de se notar. Bem sei ou suponho que meu caro amigo não pretende seguir a política nem tenciona substituir seu pai na Intendência. uma outra aproximação com o mito do assassinato do pai. Os páramos celestes o receberam. de seu nobre caráter que se aliava a um coração de ouro.” A insinceridade dessas palavras é logo explicitada no trecho seguinte. mas. Na noite de anteontem. – (. lembra-se. sincera e esta dedicação de velho tabelião e tarimbeiro da vida.. ao ler a carta de Lafaiete. Nosso provecto amigo. logo em seguida: – É que a morte de seu pai foi em circunstâncias que não podem ser conhecidas pelo público.Asas da Palavra MARAJÓ sob o signo da antropologia e da estética Veja-se como Lafaiete se refere ao Coronel: “Não sei exprimir o meu profundo pesar. velho e gordo..

falou da anarquia geral que tal ato provocaria em todas as fazendas”(p. Desse modo. meu nome próprio. Lembre-se que um dos sinais básicos dos ritos iniciatórios é a mudança do ser e um dos elementos que operam essa modificação é a mudança do nome. Desse modo. mais sunga. além de dar dinheiro ao vaqueiro para que arranje uma barraca. há. e quando quis revogar a ordem do administrador. São novos tempos. menos arbitrário. Mas Missunga não se limita a ser o sucessor do velho. inclusive. Vá. Trata de ser um homem de bem. Você de Cachoeira a rio abaixo é livre. A começar pela substituição do pai pelo filho. uma outra sociedade começa a se estabelecer. Recolhe as três crianças mais velhas e as manda para Belém.prefixo diminutivo. Em nossos costumes. o menininho (ou o sinhozinho). no falar quimbundo). Vou mandar dizer em Cachoeira para lhe soltar logo que chegar. para acabarem de se criar com as empregadas de sua casa. naquele numeroso grupo. é o que se pode verificar no batismo e na crisma” (Cândido. Em outra oportunidade. mandou fornecer um paneiro de farinha. está-se diante de um rito de passagem. menos despótico. A morte do Coronel Coutinho e o fato de Missunga vir a ocupar seu lugar abrem a perspectiva da mudança. Dois exemplos ilustram a nova era. (p. Manuel Raimundo. Mas não me apareça mais por aqui. A partir de então. mais humano.. A lei era deixar apodrecer no igapó. o texto de Dalcídio dubla a narrativa mítica do assassinato do pai totêmico. Ao ver o homem ser embarcado preso para Cachoeira. ou revelação do nome verdadeiro. Você afinal de contas tirou carne que não era sua. agora. Nesse sentido.. O patrão respeita a ponderação do administrador mas não deixa de agir de modo humano. No primeiro. “chamou Manuel Raimundo. Como se pode perceber. Antônio Cândido afirma que “os ritos de passagem comportam muitas vezes a atribuição ou acréscimo de um nome. Procure o mundo. por ordem de Manuel Raimundo que via. A propósito. 313). A narrativa do Totem e Tabu ressoa cada vez mais alto em Marajó. afirma com a solenidade de um tom bíblico: “ – É o meu primeiro dia de criação” “No segundo dia de criação decidiu visitar o seu domínio com o administrador”. ao anunciar que aquele era o seu primeiro dia de trabalho em toda vida. Manuel Coutinho.” Essa mudança de nome é de fundamental importância porque confirma o alinhamento da narrativa com o ideário mítico. um entrave para o bom desenvolvimento dos trabalhos. O novo patrão. É interessante verificar como a narrativa trata esse ato inaugural. um mundo novo se abria. que quer dizer menino. Missunga (de mi. A explicação do homem é de que o boi estava morto. o exsinhozinho aproxima-se e diz: – É preciso não quebrar a ordem nas fazendas. morto de febre e que ele apenas aproveitara a carne. seu nome: “ – E uma coisa tenho que acabar. carne. um novo relevo conforma as terras de Marajó. um outro pai. Assim. Ele quer ser um outro e isso configura-se imediatamente. vê-se diante de um “ladrão de gado preso quando esfolava um boi no igapó”. este pôs a mão na cabeça. tem-se a expulsão do vaqueiro Francisco e de sua família. logo a seguir. 314) 39 . 1978). Veja-se que ele quer substituir. é este meu apelido: tenho que voltar e todos me deverão chamar de Manuel Coutinho. dá início a um novo mundo.Audemaro Taranto Goulart Asas da Palavra se fechava com ela. conservado secreto. mas um pai diferente. é importante verificar como o enunciado do texto de Dalcídio explicita esses ecos. roupa.

segundo Freud) e Apolo (Eros). para impedir o perigo dessa ação de Dioniso. recuperando os ensinamentos de Anton Ehrenzweig. onde se cristaliza. seja encobrindo-as através dos mecanismos que explicitam a beleza. surge o controle de Apolo. que tenta destruir a existência individual. tidos como o ponto culminante da excitação – acaba deslocada. o valor criativo da obra de Dalcídio Jurandir. A presença despótica de um chefe que dominava tudo. 1977) Como se sabe. E essa ordem atua no sentido de fazer com que os sentimentos estéticos tomem o lugar das emoções provenientes da excitação. segundo Schopenhauer) que salvaguarda a existência individual modelando o caos dionisíaco em ordem e beleza. Dioniso é a força caótica da vida.1993). primeiramente. num efeito que. Nesse sentido. a presença desestruturadora de Dioniso se faz acompanhar da ameaça que representam as forças obscuras do desejo e da violência emanadas da mente profunda. No seu Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Ou. Apolo é o deus do sonho que utiliza imagens oníricas para controlar a ruptura destrutiva de Dioniso. Nesse ponto. Apolo o princípio de diferenciação da forma (o princípium individuationis. implacável e insensivelmente. a excitação dionisíaca é substituída pela ordem apolínea. Mais tarde. percebe-se que a excitação proveniente da visão do corpo nu – ou. Um dos mecanismos que atuam no sentido de fazer com que a beleza (a estética) encubra ou elimine as emoções perigosas decorrentes da excitação é o que se pode perceber na moda. era despertado pelos órgãos genitais. Ehrenzweig mostra que ao se cobrirem os corpos. acho que seria importante lembrar que Freud desenvolveu também uma explicação para a herança das experiências estéticas do homem. seja eliminando-as desde o começo. semelhante àquele que Freud colocou no horizonte antropológico do Totem e Tabu. Na verdade.Asas da Palavra MARAJÓ sob o signo da antropologia e da estética Como se vê. (Ehrenzweig. Freud presume que o sentimento estético se origina da excitação sexual que é provocada pela visão do parceiro. mantém desperta a curiosidade sexual. se esse sentimento deslocado acaba tornando o 40 . desaparece. ou seja. o que se tem aí é o confronto entre a agudeza da dor e a graça da beleza. Entretanto. Brilha um novo sol. tem-se a luta entre dois princípios básicos da forma do sonho e da arte: Dioniso (Tanatos. está-se diante de uma nova sociedade. de modo nítido. tal efeito passou a derivar também da visão de outras partes do corpo. dos órgãos genitais. agora. Apolo e Dioniso são os princípios estruturais da diferenciação e do caos subjacentes a todas as manifestações da vida. posto que ela vai ser substituída pelo sentimento de beleza que a roupa desperta. o que representou uma espécie de sublimação efetuada pelo sentimento estético. Da mesma maneira. no meu entendimento. Dessa forma. se se pode afastar o interesse dos genitais para dirigi-lo à forma do corpo como um todo (Freud. A DIMENSÃO ESTÉTICA Cumpre. que progride junto com a cultura humana. que aspira à contemplação do objeto sexual mediante o descobrimento das partes ocultas. isso pode ser desviado (sublimado) no âmbito da arte. como se pode ver pelas palavras de Freud: A ocultação do corpo. refletir sobre a questão da estética que é.

desvendando. uma vez que Sófocles trabalha a profundidade do mito. o elemento estético é fundamental na estrutura do texto do trágico grego. o leitor do romance de Jurandir se prende na sedução do confronto pai x filho que ele vai também. Lembre-se que todos os desmandos. reconhecíveis no modo como Sófocles propõe a solução para o enigma profundamente obscuro que Édipo vai elucidando. por outras palavras. essa ação de Missunga percorre toda a narrativa. articuladamente. por exemplo. aqui. que poderia ser um desconforto para o leitor. o espectador ou o leitor sabe que é a busca que o herói empreende de si mesmo) que vai obliterando o horrível da situação. por conseqüência. na sua inexorável caminhada rumo à desestabilização do pai. desrespeitos e desatinos do Coronel Coutinho.Audemaro Taranto Goulart Asas da Palavra corpo belo demais e. 1972) Volto agora para o Marajó. é quando Apolo confronta com o desconcerto dionisíaco. acaba sendo assimilada até mesmo com uma certa facilidade. pouco a pouco. E quando falo de beleza. volte a chamar a atenção e. político e sexual. paulatinamente. a graciosidade 41 . à delicadeza da composição lingüística. ora insinuada nos deslocamentos dos significantes. Chamo logo a atenção para o fato de que a narrativa trabalha com ingredientes preocupantes. ou seja. como o mostram. estou me referindo à sedução estampada no nível da estratégia de seus enredos e todas as sensações daí decorrentes. isso ocorre na medida em que se projetam os princípios dialéticos. Segundo Nietzsche. como que passam a operar num nível submerso ante a sofreguidão com que o leitor acompanha a evolução de Missunga. no enunciado da narrativa de Dalcídio Jurandir. basta que se modifiquem os estilos do vestuário para que o corpo. lá está. Ou. de Sófocles. Mas o belo estético também se manifesta no nível da linguagem. lentamente. “a alegria helênica que se experimenta na presença do lado dialético desta solução é alegria tão autêntica que um sopro de serenidade refletida percorre toda a tragédia e atenua o aspecto horrível dos acontecimentos que conduziram a tal situação”. até alcançar a sua aceitação. desfiando. É essa luta em busca do esclarecimento do assassinato do pai (que. na narrativa de Dalcídio. Refiro-me. prepondera uma dimensão estética bastante eficaz. A propósito. esse movimento dinâmico do risco dionisíaco e da ordem apolínea que vai promovendo o equilíbrio entre a excitação originada na sexualidade e o belo imposto pela estética. na obra literária. Isso é que produz a beleza dos textos citados. conforme o caso. no plano social. Afinal. De acordo com o filósofo. Como disse. no fundo. uma característica que aproxima o homem da animalidade. Da mesma forma com que o leitor (ou. tocando um problema extremamente angustiante: o filho que mata o pai e que se casa com a mãe. Essa perspectiva. até chegar à sua perdição final. novamente. ora flagrantemente exposta. os trabalhos de Georges Bataille. O afastamento dessa perspectiva angustiante é conseguido graças aos mecanismos do prazer estético trabalhados por Sófocles. com o objetivo de verificar a presença dessa dimensão estética na narrativa de Dalcídio Jurandir. torne a produzir a excitação necessária. É. E isso se dá porque. o desconcerto dionisíaco equilibra-se. o problema da exuberância sexual. sem deixar marcas na sensibilidade de quem lê o livro. Ehrenzweig afirma que “a rapidez com que as modas femininas perdem sua atração e têm que ser substituídas demonstra como a luta primária entre a visão pangenital e a reação estética está ainda perigosamente viva”. com a ordem apolínea. Apenas a título de exemplo. o espectador) da tragédia de Sófocles prende-se nas teias da decifração do enigma que a personagem vai. pois. conseqüentemente. (Nietzsche. lembraria aqui as considerações de Nietzsche a respeito do Édipo Rei. desprovido da excitação. em toda a sua extensão. Como diz Nietzsche.

que o autor desconfia da depuração a que submeteu a narrativa. em que o dia parece vir do fundo do lago. ainda assim.Asas da Palavra MARAJÓ sob o signo da antropologia e da estética com que o autor constrói cenas e situações. As virgens novilhas estavam amorosas e belas e o dia parecia nascer do fundo do lago. organiza o que poderia vir a ser a desordem das emoções.Viram os garrotes erguerem e acariciarem as belas novilhas. Não se ouviam mais as vozes dos pescadores na lanceação. Lá estão os significantes metafóricos da conjunção amorosa – garrotes e belas novilhas – que se entregam num cenário bucólico. Os garrotes... Ali estava o corpo líquido e misterioso da mãe do igarapé. mas ele é apenas insinuado. Alaíde corria e desaparecia pelo sinuoso caminho como se. focalizando um encontro de Missunga e Alaíde. com os peitos cheirando a taperebá. encontra-se no capítulo 18. à ternura mesmo com que fala de assuntos que poderiam ser significativamente apelativos. Aponto. lentamente. tentando espantar os pensamentos e as torvas sensações. Missunga levantou-se. Que valeram afinal as samambaias? Deixando-o rapidamente para trás. recortado na imagem auditiva do silêncio dos pescadores e nessa outra. como uma abelha.. a cabeça enterrada no chão onde murchavam as samambaias. de modo nítido. no sentido de que o leitor está diante de uma paisagem natural mas. Mais uma vez. babando. É essa palavra mesmo – tentava – que dá a dimensão do projeto estético de Dalcídio. 250-251) Este é apenas um exemplo dos muitos que aparecem em Marajó. houvesse morto o amante. (p. Outro exemplo. também num processo de deslizamento de significantes em que a sugestão substitui a explicitação crua da relação. a passagem abaixo. pois tentava purificar a paisagem. como exemplo. Note-se como o narrador desvia o rito amoroso entre o homem e a mulher para a paisagem circundante. (. fazendo-se poético. como que preocupado em elidir nela tudo quanto fosse afirmação direta e apelativa da tópica da sexualidade. um vôo de garça tentava purificar a paisagem.) – Vamo. visual e cósmica. (. para encerrar essas considerações. O cenário é puro. que se encontra no capítulo 33 e que fala do encontro entre Ramiro e Orminda: Apearam-se diante do lago e dos campos que a luz descobria. Vejam-se os trechos a seguir: Missunga meteu os dedos na água. 145) 42 . a água coleava como o corpo de Alaíde.. Como um cipó que se destorce. Aqui também se patenteia o ato amoroso. no ato do amor. (p. o estético. uma vez que ela indicia. escuros e lentos avançaram e cobriram as novilhas espantadas.) Voltava e parecia tão separado de Alaíde. insitiu Alaíde. No dia subindo. uma garça vem emoldurar o quadro.

na sua missão de substituir o pai despótico. em que a solidariedade e a fraternidade devem imperar. que apela para a linha direta do contar.Audemaro Taranto Goulart Asas da Palavra Veja-se. humano. é bom que elas sejam re-evocadas. terno. tudo é sugerido. uma nova era. na pressuposição de que aí está o mais-dizer. à sexualidade. tudo é submetido ao domínio da estética. nascer do fundo dos lagos. o protagonista Missunga. ao propor o que seria o saguão de entrada no mundo da civilização. enfim. numa palavra. a delicadeza da cena. de fato. É por isso que em nenhum momento da narrativa se vê Missunga entregue. Dos lagos amazônicos? 43 . explicitamente. mais uma vez. além de tornar as cenas mais graciosas e sublimes. Aí está. como de fato é. como convém à sua função: o de iniciador de um novo tempo. no texto de Dalcídio. Se as coisas ainda não conseguiram ser o que se imaginava com esse novo mundo. sereno. Foi isso que Freud procurou resguardar no mito do assassinato do pai totêmico. Ele não transita nos caminhos da luxúria. metaforizado. não poderia trilhar os caminhos do velho Coronel. Vejam-se as metáforas. Ele teria de ser. veja-se que essa evitação da narrativa crua. Nesse terreno. a esperança de que os dias possam. enfim. ajustam-se ao projeto do livro de Dalcídio Jurandir. tal como acontece com esse livro de Dalcídio Jurandir. De fato.

Asas da Palavra “Homem simples e radicalmente avesso a qualquer tipo de marketing”. Moacyr Werneck 44 .

ilustres ou desconhecidas. Para os exploradores. precisamente na Ilha de Marajó. como descreveu o jornalista e amigo Moacyr Werneck.Asas da Palavra PANORAMA DE DALCÍDIO JURANDIR NA INTERNET: a literatura marajoara no ciberespaço Elis Marchioni * Diante da tela de um computador. em qualquer dia e horário. situada na Amazônia. que era um “homem simples e radicalmente avesso a qualquer tipo de marketing”. É por meio dela que hoje tomamos conhecimento de parte das notícias do mundo e podemos nos aprofundar em nossas pesquisas. Jamais sonharia o romancista Dalcídio Jurandir que um instrumento seria capaz de levar informações sobre sua vida e obra para qualquer lugar do planeta. em 2003. curiosos e bisbilhoteiros. o anônimo mergulha no ciberespaço e encontra trechos e citações de uma literatura completamente desconhecida. divulgar relatos pessoais. a internet é uma facilitadora da comunicação. Justamente ele. na ocasião da fundação do Instituto Dalcídio Jurandir. contar ou reescrever a história de outras pessoas. * Elis Marchioni é jornalista e autora do primeiro site sobre Dalcídio Jurandir 45 .

tinha acabado de ler Chove nos campos de Cachoeira e acreditava que era um dos maiores romances em Língua Portuguesa. Seus romances estavam esgotados e não havia nenhuma informação sobre possíveis reedições. denominado Louca por Dalcídio. professor do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFPA e coordenador do curso de Mestrado em Letras. uma busca pelo nome de Dalcídio Jurandir nos sites de busca da internet apresentava apenas um resultado: o comentário pejorativo do articulista Olavo de Carvalho sobre uma discussão entre comunistas na eleição da ABDE (Associação Brasileira de Escritores). que ainda hoje mantenho no ar por curiosidade histórica. Por quase um ano. mas. em 1949. Site do Instituto Dalcídio Jurandir 46 . escondido entre tantos outros mais atraentes do ciberespaço até que foi catalogado nos sites de busca. naquele momento. em 2002. Fiz um site simples. realizado na Ilha de Marajó. Só tomei conhecimento quando o Dr. e que seu autor merecia mais crédito do que ter apenas seu nome ligado a intrigas no meio eletrônico. teve a idéia do I Colóquio Dalcídio Jurandir. Günter Pressler.Asas da Palavra PANORAMA DE DALCÍDIO JURANDIR NA INTERNET: a literatura marajoara no ciberespaço Em 1999. Eu não sabia se Dalcídio era realmente importante para a Literatura Brasileira. o site ficou incógnito. Não tinha consciência do trabalho que os professores da Unama e da UFPA realizavam para garantir a sobrevivência da obra dalcidiana no Estado do Pará.

5 milhões de internautas. leiga e apenas uma leitora comum.com/). A promessa é de que o acervo logo venha para a web e que qualquer cidadão possa consultar. Teses e dissertações sobre a obra dalcidiana pipocaram nas universidades. sobri n h o do esc ri tor. pessoas que possuem pelo menos um computador com acesso à internet.com.google. manuscritos. eu já recebia várias mensagens eletrônicas de estudantes e curiosos da literatura. em 200 3. correspondências e originais de seus romances. f un dou. atualmente. Se antes havia apenas uma citação negativa sobre o autor de Três casas e um rio.institutodalcidiojurandir. segundo dados divulgados pelo Ibope e-rating em janeiro de 2004. na Casa de Rui Barbosa. isto é. blogs e portais de notícias. é de 20. Eu. Não dava para imaginar que tudo isso seria possível há cinco anos. Em 1999. conhecer mais e até incrementar um trabalho acadêmico a partir de fontes seguras e corretas – como é reconhecida a Casa de Rui Barbosa por sua competência no apoio à pesquisa e à história. 47 . o Google (http://www. hoje existem mais de 400 textos sobre ele em sites. todos carentes de informações sobre o escritor de Belém do Grão-Pará. sendo 455 citações em páginas de Língua Portuguesa e 406 em páginas do Brasil.Elis Marchioni Asas da Palavra Na época.hpg. Uma rápida pesquisa de seu nome no maior site de buscas da web. com informações sobre sua vida e obra. confere 467 citações em toda a rede mundial. no Rio de Janeiro. mal se contava quem tinha acesso à internet da própria casa e. Ruy Pereira. Conta com um acervo com mais de 750 livros da biblioteca pessoal do autor marajoara. documentos. amigos e familiares de Dalcídio que conheci por meio do meu primeiro site. o In sti tuto Dal c ídi o J uran di r ( h ttp :/ / www. encaminhava os contatos aos professores. A situação é outra. Dalcídio virou coqueluche entre os intelectuais de Letras de todo o País. o número de usuários potenciais no Brasil. fotografias.br/).

Asas da Palavra "[Alfredo] Embevecia-se olhando as senhas que siá Rosália lhe dava como se elas lhe contassem a maravilha dos bondes mágicos correndo pelo fio elétrico. toda calçada de ouro e com casas de cristal. Então a cidade para Alfredo era um reino de história encantada. 48 . meninos com roupas de seda e museus com muitos bichos bonitos.

bolsista PIBIC/ CNPq. consideram que o homem amazônida ao longo de todo esse tempo. Espelho de índio: a formação da alma brasileira. Maria Odaisa Espinheiro de Oliveira.4 Este estudo é fruto de uma pesquisa que se encontra no segundo ano de desenvolvimento como bolsista PIBIC/CNPq vinculado ao Projeto RESNAPAP (A Representação Simbólica das Narrativas Populares da Amazônia Paraense como Linguagem de Informação). 2 Aluno do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Pará . e mesmo após a chegada do europeu em nossas terras. e. mas recentes pesquisas arqueológicas constatam que essa região já é ocupada por homens há mais de 30 mil anos antes da chegada do europeu nas terras brasileiras3 . pela sua relação muito próxima com a natureza. R. consciência da própria inserção no conjunto da sociedade nacional e. em virtude.Asas da Palavra “CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA”. Em seu trabalho o sentido de identidade é discutido pelo viés do autoreconhecimento. sob coordenação da Professora Dra.br 3 Ver GAMBINI. mais amplamente na sociedade dos homens. p. auto-estima. São Paulo: Axis Mundi/ Terceiro Mundo Nome. principalmente. e destaca que não se deve confundir identidade com superioridade ou pureza racial. 2000. ed. 2. 19-26 e 158-180. ainda preserva uma cultura muito peculiar. de Dalcídio Jurandir e o Ciclo da Borracha1 Anderson Luiz Cardoso Rodrigues2 Não se sabe exatamente há quanto tempo o lugar hoje denominado de Brasil tem sido habitado. 4 O autor discute a identidade étnica não somente pelo sentido da origem histórica. E:mail: anderson@ufpa. do isolamento histórico desse povo ao restante do Brasil.UFPA. Alguns estudiosos. 1 49 . como Paes Loureiro (2001).

De acordo com o mesmo autor. a floresta e os animais não são mais importantes que os sentimentos dos personagens. p. na Amazônia. e o contato com as tecnologias de "ponta" é maior. Dalcídio Jurandir em seus romances. e o aparecimento dos meios de comunicação de massa (Televisão e Rádio) na região da Amazônia. 2001. 39) o regionalismo deve ser crítico e com auto nível de autoconsciência crítica. Para Bella Josef (apud NUNES. as crenças. XX e a terceira quando a região se integra no processo de globalização mundial. Loureiro (2002. Já na cultura urbana. Já Paes Loureiro (2001) analisa esse choque cultural a partir do prisma do conflito de signos ou imposição simbólica. como por exemplo. há maior velocidade nas mudanças. a segunda com a introdução das políticas públicas impostas pelo Governo Federal na segunda metade do séc. nesse ambiente a expressão cultural é densamente representativa da cultura amazônica. uma vez que não se prende somente a fazer meras descrições naturalistas do universo amazônico. tudo é repassado de geração para geração via oral.Asas da Palavra “CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA”: de Dalcídio Jurandir e o Ciclo da Borracha Paes Loureiro (2001) observa que. os mitos. a Amazônia sofreu contatos com outras culturas. forma um mosaico da vida cotidiana dos Cultura indígena na Amazônia habitantes do Marajó e de Belém. 50 . têm pequenas felicidades e sofrimentos. amam. há o dinamismo próprio das universidades. os relatos dos viajantes. o "eu amazônico" ainda não tinha se formado. o rio. além disso. No primeiro. Dalcídio revoluciona em relação ao tratamento da Amazônia no âmbito literário. os estudiosos de Dalcídio preferem enfatizar. o sistema de ensino é mais estruturado. mas. especialmente o ribeirinho. identificando a catequese e a pedagogia dos padres da Igreja quando encarnaram a doutrina cristã na cultura indígena. cada qual assinalado por características bem definidas: o espaço da cultura rural e o da cultura urbana. parte do regional para o universal. Para esta autora. Ou seja. p. pessoas que possuem almas. Dessa maneira. isto é. Ele vai muito além e se eterniza por fazer dos seus romances uma narrativa caracteristicamente psicológica. destacando o viver e o sentir do homem amazônico. principalmente nas grandes capitais como Belém e Manaus. é o que caracteriza o texto dalcidiano. que. predomina a transmissão de informação oralizada. Dessa forma. a presença das trocas simbólicas com outras culturas é mais intensa. a(s) religião(ões). por conseguinte. Alberto Rangel e outros escritores. ou seja. não devendo possuir nenhuma relação de oposição com o universalismo. que reforçou o sentimento de inferioridade face à cultura "de fora". Este ponto de convergência. o regional não subjuga e nem se sobrepõe ao universal. a maneira como por eles é visto o mundo. tal como se fazia na literatura até então. e chama a atenção do Brasil que nessa região não existem apenas exuberantes florestas e animais. isto é. Sendo assim. a cultura mantém sua expressão mais tradicional. que sentem.299) identifica três momentos de "ruptura no processo de construção da identidade amazônida": a primeira com a chegada do europeu na Amazônia. ainda pode-se reconhecer nitidamente dois espaços sociais tradicionais da cultura. essas rupturas ocorreram quando a identidade amazônica se encontrava em processo de formação. Ao longo de sua história. mais ligada à conservação dos valores decorrentes de sua história. o Ciclo da Borracha. aliás.

o autor nos mostra como essa fase influenciou no imaginário do homem amazônico. principalmente aquela população que vive na área rural. concomitante a questão econômica. percebe-se que. quando vivo. a Amazônia foi a região que mais herdou e preservou a cultura indígena. não só na decadência física mas. uma das épocas mais destacadas da história social e econômica da região. 2002. também. se mostrava muito preocupado com a rapidez avassaladora do progresso na região. no primeiro romance do ciclo Extremo-Norte. não está assim ligado somente à intensificação da vida industrial. 135): Ciclo da Borracha "O processo de urbanização experimentado pela cidade de Belém do Pará. preocupa-se em demonstrar que a cultura "de fora" o fascinou e o encantou. nas pequenas cidades e nas comunidades ribeirinhas. tanto que a cidade foi denominada pelo "francesismo". Em relação ao restante do Brasil. torna-se translúcido crer na descaracterização paulatina da alma amazônica. Nesse sentido. posto que as famílias ricas tinham o hábito de mandar seus filhos aprimorarem sua educação nas escolas francesas. e é onde a influência da cultura européia se intensifica. Essa preocupação de Jurandir pode ser percebida em uma carta escrita à Maria de Belém Menezes: 51 . política e cultural que desempenhara durante a fase áurea da borracha". p. financeira. 53) a Amazônia presente de Jurandir "é um mundo em ruínas". Esse ciclo é compreendido por um período de intensa exploração do látex. mas pela função comercial. a cultura também sofre um grande impacto nesta fase de "desenvolvimento" da Amazônia.Anderson Luiz Cardoso Rodrigues Asas da Palavra O contexto histórico retratado no romance Chove nos campos de Cachoeira era o ciclo da Borracha. como ocorreu nas cidades européias e americanas. diante das trocas com o que "está fora". p. Dessa forma. portanto. Essa elite intelectual é que vai determinar o decorurbano europeizado e aburguesado. "Belém tentou tornar-se bem mais européia do que amazônica" (SARGES. Dalcídio. sob a égide de que ela sofreu algumas "rupturas" ou "conflitos simbólicos" (de acordo com os autores citados acima) no decorrer de sua história. na "perda moral". a partir da segunda metade do século XIX. Segundo Sarges (2002. além de se tornar a vanguarda cultural da região. Então. onde é expresso nos verbos "desabar" e "cair". Contudo. a hevea brasiliensis. Na visão de Maligo (1992. nativa da região. e repercutindo. concentrando-se nas grandes cidades como Belém e Manaus. a capital do Pará assume o papel de principal porto de escoamento da produção do látex. 186). Em decorrência do boom gomífero. cuja fase mais significativa se estendeu de fins do século XIX até por volta de 1920. p.

Esse progresso desigual faz robots. Prosseguindo em seus pensamentos. que seu pai lhe trouxe. Campos. não cria alma. roupa suja amontoada. o par de talher." (DALCÍDIO apud MENEZES. 86). Dr. mais infelizes e mais duramente iludidos de que somos civilizados. foi o mundo "feio" dessa casa e de suas proximidades. Esse fenômeno pode ser visualizado em alguns momentos do romance como. o menino se enche de tristeza por não conseguir ver a beleza da cidade como era visto pelos olhos de siá Rosália. porém.. 20). Como pode ser observado nesse fragmento da obra: "[Alfredo] Embevevia-se olhando as senhas que siá Rosália lhe dava como se elas lhe contassem a maravilha dos bondes mágicos correndo pelo fio elétrico. por bem servidos pela técnica [. toda calçada de ouro e com casas de cristal. o padrão europeu se torna o único belo e superior à cultura regional. os bondes que corriam pelos fios elétricos. e ainda se faz presente nos dias atuais. distante do centro da cidade. e os índios também.. da Gualdina. 52 . principalmente. Então a cidade para Alfredo era um reino de história encantada. 1995. 1996. os brinquedos raros e pobres que duravam uma hora. poluída. convida Eutanázio para beber uma "Bier". esse aspecto suscita um fenômeTeatro da Paz . com a chegada do europeu.. Belém se cobriu também de sangue de índio. por exemplo. A cidade onde se fazia o Círio de Nazaré. o padrão europeu de belo se faz mais uma vez explícito. quiçá. igual a qualquer cidade. p. Outro momento em que a imposição cultural se mostra presente na narrativa é quando Dr. Devido às imposições culturais que a região amazônica sofrera no decorrer de sua história. dos dias que esteve na Alemanha e Paris. no capítulo Metafísica para os Vermes. massacrado. quando Alfredo foi para Belém e não pôde sair da casa. mostrando seu desejo de ingerir unicamente cervejas de Hamburgo ou de Munique. a ponto de nos tornar. por sua vez. torneira sempre vazando.Belém-Pará no que Paes Loureiro (1992) chamou de "rejeição da condição cabocla". condenada a urbs desumana. com muito orgulho. de Mãe Ciana. batizou-se nesse sangue. posteriormente. em breve expulso do seu chão. do resto do Brasil. o que viu. do seu Ulisses. do Sevico. se tivesse condições para tal.] Temo pela descaracterização de Belém. p." (JURANDIR.. Ele não queria ver moleques sujos empinando papagaios. mas viu a civilização. Viu a civilização? Nesse momento. nessa visita ao continente antigo se apaixonou por uma francesa e gastou dezenas de contos do dote de sua pretendente. meninos com roupas de seda e museus com muitos bichos bonitos. os museus e o cinema. mais depressa. com a expansão da Televisão e de outros meios de comunicação de massa. esse índio ameaçado. Campos relembra-se. carroças cheias de cachorros presos numa grade. Aumenta a riqueza e multiplica a necessidade. O que Alfredo almejava contemplar era o Teatro da Paz dos moldes da arquitetura européia. o fatinho feito na loja. rua cheia de lama. Tinha visto com os seus olhos não a cidade de siá Rosália mas a cidade da mãe Ciana. Que o progresso não corra tanto. transparecendo como o cosmopolitismo impositivo da civilização européia pousava no imaginário amazônico dessa época.Asas da Palavra “CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA”: de Dalcídio Jurandir e o Ciclo da Borracha "Que a floresta amazônica seja protegida. com o Ciclo da Borracha e.

Anderson Luiz Cardoso Rodrigues

Asas da Palavra

"Conheci ainda Tobias em Recife. Que gênio! Seu Eutanázio, que
gênio! É lírico quando tangia a harpa! Acho ele mais lírico que Castro Alves. Do Castro gosto do seu condoreirismo. Mas as horas já
estão adiantadas e preciso ir a Salu. Quer ir comigo beber uma Bier?
Hem, Eutanázio? Se eu pudesse mandava buscar de Hamburgo as minhas cervejas. De
Hamburgo, não. De Munique! Quando estive em passeio na Alemanha passei dias em
Munique. Ah! as cervejas de Munique! Alemanha é a pátria de Goethe, de Bismark, da
Brahma! Mas sempre Paris me seduziu. Quando estive em Paris, a Cidade Luz, não
bebia cerveja, bebia champanhe e bordeaux! Amei uma francesinha no Bois de Boulogne!
A gente se deita naquela areia fina e a francesinha faz a gente ter desejos de voltar à
França. França, a pátria do intelecto! Gastei algumas dezenas de contos do dote de
minha madame, mas vi a civilização! Ouvi a Duse! Vi Isadora Duncan! A comédia
francesa! Tive paixão pelos ditos do grande, do inimitável Bataille! Depois foi aquela
estação em Nice. A minha aventura com uma corista em Milão. Madame teve que tirar
cálculos da bexiga na Suíça e voltei para o Brasil juiz-substituto e bebedor de cerveja."
(JURANDIR, 1995, p. 119-120).

Os habitantes da vila de Cachoeira admiravam siá Rosália por ter trabalhado como camareira no Teatro da Paz, o maior teatro do Norte do Brasil. Mesmo que nenhum morador
tivesse certeza, ela se vangloriava de tal feito, afirmando, com entono, ter conhecido inúmeros
artistas europeus. O desejo inconsciente ou consciente de conhecer a Europa, ou de ter nascido
europeu, repousava no imaginário de todos da vila, a viúva siá Rosália afirma só não ter sido
possível realizar este almejo coletivo, devido ao seu ex-marido, Saraiva, não ter permitido, pois
conheceu Lucíola Simões que a convidou para morar ou para passar umas férias (o texto não
deixa bem claro) em Lisboa. Como a consolidação deste fato paira como algo muito distante,
quase utópico para muitos, Belém passa a ser um sonho mais concreto e acessível, objeto mais
próximo de desejo dos personagens de Chove nos campos de Cachoeira. "O fato é que se vive
em Cachoeira, mas aspira-se por Belém. A capital é o fascínio, é o desejo mais íntimo de todos os
personagens, (é a aspiração do homem interiorano pela cidade grande) não importa o que vão
fazer, mas estão de alguma forma em Belém", nos diz Assis (1996, p. 46).
"Cachoeira não sabia bem como foi a vida de siá Rosália, em Belém. Contavam que
servira como criada no Teatro da Paz. Ela dizia sempre, com a voz cheia:
- Eu, eu vesti muito artista. Cada roupagem! Era ver uma princesa. Fui camareira do
Teatro da Paz!
Camareira do Teatro da Paz! Pasmava Cachoeira. Os conterrâneos de D. Rosália achavam, até mesmo irritante, que ela chegasse a ser camareira do maior teatro do Norte do
Brasil! Não sabiam ao certo. Uns viam-na em Belém, com a cesta debaixo do braço, a
caminho dos mercados. Outros cansavam de ver siá Rosália, ama-seca, vestida a rigor,
empurrando carrinhos de bebês ricos em Batista Campos. Viam-na no pé dum charão
de doces no arraial de Nazaré, abanando as moscas com um pano. Vendia tacacá no
larguinho atrás da igreja de Nazaré, no tempo da festa. Carregava trouxas de roupas
na rua para casa do Coronel Soares, fazendeiro em Chaves. Era mulata alegre e festeira
no Umarizal, devota do mastro do mestre Martinho, dançadeira de lundu, jogando
entrudo na Antônio Barreto com os marinheiros nacionais. Virava muito mulato, soldado de polícia e estivador no maxixe, na São João. Andando atrás dos bois-bumbás
nas noites de encontro no Umarizal e Jurunas. Ia ao cais esperar navio do Acre que lhe
trazia seringueiros cheios, balateiros com os milhos. Tinha o seu espartilho, as suas
camisas de renda, as suas voltas, as suas chinelas de veludo, os seus bereguendéns. D.

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Asas da Palavra

“CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA”: de Dalcídio Jurandir e o Ciclo da Borracha

Rosália tudo isso fizera e o povo de Cachoeira tinha de tudo isso uma vaga informação.
Falava mais por palpite. Mas em Cachoeira a velha mulata, viúva de seu Saraiva, não
se cansava de repetir:
- Fui camareira do Teatro da Paz. Conheci o maestro Carlos Gomes, artistas de Portugal. Vesti Lucíola Simões. Ela só não me levou para Lisboa por causas do Saraiva.
Saraiva que não deixou." (JURANDIR, 1995, p. 99-100)

Apesar do foco desse estudo ser a obra Chove nos campos de Cachoeira, o seu terceiro
romance, Belém do Grão Pará, onde Alfredo vai completar seus estudos na capital paraense, que
o conflito simbólico se consolida de fato, pois é quando o espaço da narrativa passa a ser a
capital do Pará, que é criada a partir do olhar subjetivo dos personagens. Nas palavras de
Benedito Nunes (1961) "é através da experiência subjetiva desses personagens, Alfredo, Libânia,
Emilinha, Inácia, Virgílio, Isaura, Mãe Ciana e Antonio, que a cidade começa a existir", são os
olhos de menino-do-mato, de matuto que descobrem os segredos e os encantos da grande cidade Belém. Como a cidade de Belém é vista "de dentro" (interior do personagem) "para fora"
(exterior/meio), e como alguns personagens do romance são originários de um ambiente rural,
ocorre um conflito no interior dos mesmos quando se deparam com um ambiente cultural até
então estranho, em virtude de que no chamado Ciclo da Borracha, a cultura européia contrastava com a paisagem amazônica. Nas palavras de Benedito Nunes (1961, p.1), "os personagens
dialogam, defrontam-se com a cidade, que, além de ser ambiente e paisagem, compõe uma
figura multiforme, humanizada e ideal".
Lévi-Strauss (1962) em um artigo intitulado "A crise Moderna da Antropologia" se mostra preocupado para o que chama de o "fim" das sociedades a-históricas. Como observa Galvão (1995, p. 24):
"Sua preocupação com o 'fim' das formas 'nativas' fundava-se, sobretudo,
na concepção de que esses povos estariam sendo paulatinamente incorporados ao que mais tarde se chamou de 'sistema mundial', e que tal passagem implicaria necessariamente, a perda inexorável de alguma forma 'original' de ser".
Foi exatamente a preocupação de Lévi-Strauss que levou Paes Loureiro a estudar a cultura amazônica, assim como, também Dalcídio Jurandir, a retratar o cotidiano amazônico,
além de outros inúmeros estudiosos e escritores, pois achavam pertinente analisar, ou simplesmente registrar a memória, a diversidade e a riqueza cultural desse povo antes que se incorpore,
por completo, ao "sistema mundial". Então, estudar Dalcídio é conhecer, experimentar e preservar a cultura amazônica em suas várias formas e multivozes. É reafirmarmos nossa etnia para
podermos lutar contra a posse, física e espiritual, do capital mundial, é, por assim dizer, a
salvação da nossa mal resolvida identidade.

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Anderson Luiz Cardoso Rodrigues

Asas da Palavra

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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de sua obra. Asas da Palavra. v. 3, n.4, Jun., p. 41-47. 1996.
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LÉVI-STRAUSS, C. A Crise da moderna Antropologia. Revista de Antropologia. v. 10. p. 1-2.
1962
PAES LOUREIRO, João de Jesus. Cultura amazônica: uma poética do imaginário. São Paulo:
Escrituras, 2001. 437 p.
______. A questão cultural amazônica. In: Secretaria de Estado do Pará. Estudos e problemas
amazônicos: história social e econômica e temas especiais. 2. ed. Belém: CEJUP, 1992. 208 p.
LOUREIRO, Violeta Refkalefsky. Amazônida: uma identidade inconclusa. In: SIMÔES, Maria
do Socorro. (Org.) Marajó: um arquipélago sob a ótica da cultura e da biodiversidade. Belém:
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MALIGO, Pedro. Ruínas Idílicas: a realidade amazônica de Dalcídio Jurandir. Revista USP,
São Paulo, n. 13, p. 48-57, 1992.
MENEZES, Maria de Belém. Um retrato de Dalcídio Jurandir. Asa da Palavra. v. 3, n. 4, Jun.,
p. 20-26. 1996
NUNES, Benedito. Crônica de Belém: "Belém do Pará". O Estado de São Paulo. Suplemento
Literário, v. 5, n. 121, p. 1-3, 25 mar. 1961.
NUNES, Paulo. Aquonarrativa: uma leitura de Chove nos Campos de Cachoeira, de Dalcídio
Jurandir. Belém: UNAMA, 2001. 98p.
OLIVEIRA, Ana Gita de. O mundo transformado: um estudo da "cultura de fronteira" no alto
Rio Negro. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1995. 230 p.
SARGES, Maria de Nazaré. Belém: riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). 2 ed.
Belém: PakaTatu, 2002. 212 p.

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O caroço de tucumã já imaginou que os passarinhos moravam no chalé.Asas da Palavra “Os passarinhos revoam em torno do chalé. Ficavam livres do gavião. Dalcídio Jurandir 56 . do fogo dos campos e da baladeira dos moleques”.

Acontece que. Palestra proferida durante a instalação do Instituto Dalcídio Jurandir. Este painel é constituído de 10 romances. seja do Marajó. entretanto. Unama. é preciso dizer-se que este esboço de leitura não chega sequer a constituir um passo. e inicia-se com Chove nos campos de Cachoeira (prêmio Vecchi/D. doutorandos em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC-MG. nos deteremos em dois que nos parecem os mais significativos: Eutanázio (o mais sedutor dentre eles) e Alfredo que. segundo o professor Benedito Nunes4 . 1941). 3 No dizer de Vicente Salles. A obra de Dalcídio Jurandir constitui um vasto painel da Amazônia paraense. na casa de Ruy Barbosa. mas é antes um engatinhar nas sendas da psicanálise do texto literário. Rio de Janeiro.Asas da Palavra PALCOS DA LINGUAGEM: uma leitura psicanalítica de Chove nos campos de Cachoeira. Professores da Universidade da Amazônia. um léxico e uma sintaxe de períodos longos: tudo apontando para aquilo que ali chamamos de Aquonarrativa. nós. Pode parecer estranho o uso deste verbo neste enunciado. seja de Belém ou mesmo da região do Baixo Amazonas. Casmurro. 1 2 57 . Assim. em verdade. nunca nos preocupamos em lê-la através de olhos da Psicanálise. é o alter-ego de Dalcídio Jurandir. José Arthur Bogéa. Marajó é "livro solteiro". Este primeiro romance é a matriz que será desenvolvida nos demais (exceto em Marajó3 ). Há nele um sem-número de personagens e tipos. de Dalcídio Jurandir Josse Fares e Paulo Nunes1 QUANDO SE PEDE LICENÇA PARA MERGULHAR2 NOS CAMPOS DE CACHOEIRA Embora tenhamos uma certa intimidade com a obra de Dalcídio Jurandir. por sua vez. refere-se ao romance como "um livro isolado dentro do Ciclo do Extremo Norte". prima por uma poética das águas: uma semântica. em Bandolim do diabo. a escrita de DJ que tem como cenário a realidade marajoara. julho de 2003. conforme apontamos em Pedras de Encantaria.

Por ela. um excremento de nove meses. dos parentes. ele rasteja. na significância de obscuro. Assim. diz sobre a angústia de amor: "ela é o temor de um luto que já ocorreu. Gemi e Felícia. assim. neste trabalho. dona Amélia. Eutanázio. A pulseira era de se comprar na doca do Ver-o-Peso para as caboclinhas do Puca que nunca usaram pulseiras. um excremento. chegamos ao sentido do não-familiar. no viés da psicanálise. um excêntrico (etimologicamente. Os nove meses dolorosos. Vinha sofrendo desde menino. 1375 ). conforme se pode perceber no seguinte excerto: "Eutanázio pensava que a doença do mundo ele tinha era na alma. faz-se inalcançável. sem uma lágrima. de Dalcídio Jurandir EUTANÁZIO. "deslocado do centro"). secreto. sua mãe tinha morrido. sentiu sede (. Ao rejeitar as oferendas de Eutanázio. estamos nos referindo ao romance de Dalcídio Jurandir. continua sendo um excremento. a moça rejeitava o próprio Eutanázio e transformava a sua existência numa experiência agônica. ao heimlich. Eutanázio sintetiza este sofrimento. Teve uma certa pena de pensar assim sobre a mãe. sistematizada e escrita por Rosa Assis. O par de meias era vagabundo. Irene põe-se no "Olimpo"..Asas da Palavra PALCOS DA LINGUAGEM: uma leitura psicanalítica de Chove nos Campos de Cachoeira. Seu amor por Irene é uma desmesura. metonimicamente. contraditoriamente. Axi!Axi" (p. 1976: 282). Dentre estas. o avô de Irene. apenas a citação da página. tem uma existência marcada de lacunas6 . No entanto. Ele saltou de dentro dela como um excremento. embora o enredo de CCC destaque a vida de duas personagens masculinas. a sua própria mãe contava que o parto tinha sido horrível. sentiu sede e foi fazer uma limonada. inconsciente. Toda essa angústia experimentada desde a infância vai repetir-se na casa de seu Cristóvão. A gravidez foi uma prisão de ventre" (124). Não tinha grandes amores pela mãe. as imagens maternas são recorrentes e muito significativas neste primeiro romance do ciclo do Extremo Norte. ele. Alfredo e Eutanázio. Desde menino? Quem sabe se sua mãe não botou ele no mundo como se bota um excremento? Sim. desdenha do cavaleiro amoroso. Os sapatos pareciam de segunda mão. Talvez por isso se pense no estranho familiar. "entre seus diferentes matizes de significado. viver é sofrer. A fazenda do corte era duma cor para enganar babaquaras (. já rapaz. em nível consciente.. ele. a partir de Winnicot. contido na Edição Crítica de Chove nos campos de Cachoeira. Morrera. representa a expulsão do paraíso uterino. opondo-se. A mãe que.) Axi que eu uso essas porqueiras. a falta que ele. Depois. Em Chove nos campos de Cachoeira (CCC). rejeita suas oferendas: "Irene apareceu e começou a rir dos presentes.Nunca dissera isso a ninguém.. Aquele choro das irmãs. ao usarmos.. parece-nos que Eutanázio corporifica o unheimlich. Enfim." (Barthes: 1991: 22). Ele sofre o luto da agonia primitiva: o ato de nascer que. Seria Eutanázio um enlutado? Cremos que sim. Segundo a professora. aproxima-se do não-familiar. Sim.. FILHO DE PORO E PÊNIA: Se tomarmos a composição da palavra unheimlich.. é possível lê-los com mais acuidade se levarmos em conta a análise das personagens femininas: Irene. 6 No dizer de Márcia Marques Morais. o familiar.) Enfim sua mãe tinha morrido" Fica convencionado que. Morrera. e quando o caixão saiu. portanto. Ele é um masoquista. D. a palavra heimlich exibe um que é idêntico a seu oposto unheimlich" (Freud. Ele. sem uma lágrima. deusa da paz. é renegada por ele: "Eutanázio não tinha grandes amores pela mãe. sente da mãe. Barthes. e quando o caixão saiu. consultar a bibliografia. Contrariando o sentido etimológico de seu nome. lhe pareceu ridículo. aquilo que é familiar. 5 58 .

o repouso. ganhou o aconchego. a Thânatos. a mãe. uma representação imaginária do útero. O nome da doença é palavra interditada no romance. Estamos diante do estranho familiar. Desse encontro. No entanto. o sentimento de rejeição que nela a personagem experimenta. filtrada pela ótica de um poderoso narrador de 3. mas. a prostituta. não lhe dedicava atenção. “pan + demônio”. a poeira molhada. inclusive.ou do seio mau . no dizer do narrador. curiosamente para a personagem. Assim. à cova/terra. uma casa assombrada7 . Dessa forma. acaba por desvelar (e por que não dizer trair?) os sentimentos de Eutanázio.. Diante desta afirmativa. onde nasceu. Numa segunda instância. deixando as três filhas . E se considerarmos a simbologia do elemental terra. traz-lhe a casa de Muaná. ridicularizava-o.Josse Fares e Paulo Nunes Asas da Palavra (124). "a imagem da mãe má . como “um pandemônio”. convém lembrar que a relação de Eutanázio com seu pai. numa instância primeira. Se o desejo supremo dos seres humanos for o equilíbrio. fato que poderia descartar a idéia da projeção do seio mau no pai. colado nas angústias de Eutanázio. que intentaram eliminar o filho. uma casa duplamente demoníaca. Quando enviuvou. conforme Hélio Pellegrino. a "camisa de terra" que o agasalhou. seu Cristóvão.uma delas. Morto. ele. 8 Vide Menezes. "aos instintos tanáticos" (Pellegrino: 1986: 331). desta forma. A atitude de Jocasta e Laio. para corromper-se cada vez mais. Eutanázio levou consigo a doença venérea nunca nomeada por aquele que narra ou mesmo pelas personagens. movido pela piedade. somente Thânatos. parido como um excremento. São Paulo: Duas Cidades.mas levou consigo o filho varão. o major era alheio ao filho. Eutanázio é movido pela pulsão de morte. major Alberto (cujo nome é precedido por uma patente militar. mas de autodestruição" (Chauí: 1984: 63-4). de modo profundo. o lavrador. um homem apodrecendo por uma falta".ª pessoa. refere-se à casa onde Irene morava com o avô. Negar o amor não seria uma forma de reafirmar um desejo édipico? Aquela casa de Cachoeira até poderia ser estranha a Eutanázio. ele é. a partir de Freud.. A casa de Irene era uma casa unheimlich. pode satisfazer tal desejo (.. Eutanázio. afirma que o princípio do prazer "não está necessariamente vinculado a Eros. Do poder da palavra. que encaminha o filho. Vale lembrar aqui o "Funeral do lavrador". Marilena Chauí. diríamos que só a morte conduziria Eutanázio aos braços da mãe boa. onde Eutanázio deu de cara com seus fantasmas. sobretudo ao descobrir sua inclinação para a poesia: O narrador de CCC. o imutável. corporifica o seio mau.será projetada na figura do pai que. de João Cabral de Melo Neto. a paz. A rejeição de Irene leva-o à barraquinha de Felícia. inserido em Morte e vida Severina8 . Adélia Bezerra de. Eutanázio findou entregando-se a Thânatos. o major mudou-se de Muaná para Cachoeira. "sentiu que devia entregar-se a qualquer coisa que ao mesmo tempo contentasse a carne e castigasse a sua impotência para resistir ao riso de Irene". "uma mulher que cheirava a poeira. repete-se em Eutanázio que. A linguagem. major: maior) é tensa. pela autodestruição. por causa de suas privações. Ao tentar preencher sua falta. Cheirava a terra depois da chuva" e "que já tinha estado desde a véspera com um homem suspeito". ou a morte. esta projeção faz-se real na vida de Eutanázio. "algo que deveria ter permanecido oculto mas veio à luz" (Schelling apud Freud. 7 59 . ".. Severino. 1995. é também eliminado. se transformará num perseguidor odiado" (idemibidem).) O ponto essencial é que o princípio de morte não é apenas um desejo de destruição dos outros que seriam obstáculos ao repouso. E. somente ao morrer. No entanto. era cega . 301). sentiu a quase certeza de que ela não sabia se estava contaminada ou não.

humilhassem-no. assim. Era a voz do pai. no dizer do narrador. homem! Largue esse ofício..tinha em certos momentos até vontade de receber mil insultos que o magoassem muito. uma imagem especular de Pênia.) Largue isso.. O que Eutanázio levaria consigo era a Irene do riso mau. segundo a origem do prazer elaborado por Freud. respeitado tanto em Muaná como em Cachoeira. Na hora de sua derradeira agonia. ele não encontrou em Irene. Eutanázio precisa de Irene tanto para viver quanto para morrer. como já foi dito. como figura fantasmática da mãe..ª pessoa. humilha-se. Eutanázio entrança fios. de Dalcídio Jurandir ". O que o major não compreendeu é que a escrita é uma tessitura. no entanto..ela estava grávida de Resendinho . Thânatos sobrepõe-se a Eros? Vale lembrar que Eros é filho de Poros (Recurso) e Pênia (Pena). "que desce à noite dos infernos para recuperar Eurídice. afirma. colecionador de catálogos. Perdendo um tempo inteiro. liga-se ao pathos. conhecedor da História. diz-nos George Bataille. pode ser constatada a partir do seguinte excerto. que "nas fases oral e anal a criança mantém relações duais. Ao tecê-la.. amante das artes. Se. LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS? Se considerarmos as fases da libido. Eutanázio também desceu ao inferno. que. e não recuperou Irene. entretanto. "Mas a mãe é mulher despossuída de felicidade e conforto. ainda que a presença dela tenha se tornado motivo de sua existência.Major Alberto sentou os óculos. é. no fundo. ela estava lá. A repulsa física de Irene por Eutanázio faz com que ‘uma criatura moça e bonita’ se transforme numa ‘máscara odiosa’” (Bogéa: 2002:74). Marilena Chauí. já adulto. seja porque se relaciona com seu próprio corpo. Esta outra metade. no verbete “máscaras”. ele é Orfeu.Uma porcaria! Que ele cuide doutra vida (. Eutanázio. como se vê. colado à consciência de Eutanázio. justamente ele. a odiosa. como no mito do andrógino. é filho do major. por sua vez. [diríamos nós] a procura do impossível" (Fares: 2002). A paixão."): ao querer impressionar Irene. seja porque se relaciona com a mãe ou com parte dela ou com substitutos dela (os objetos parciais)... afirma que elas são “recorrentes na escritura de DJ. era a imagem da própria obsessão de Eutanázio. leu o papel (. impressor de jornais. Eutanázio é incompleto. acerca das etapas da libido.Asas da Palavra PALCOS DA LINGUAGEM: uma leitura psicanalítica de Chove nos Campos de Cachoeira. Eutanázio [parece-nos] reduplica a penúria da mãe. "esboça uma conduta ascética de autopunição" (Barthes: 1991:24). A voz do pai. um leitor. a inimiga. oscila entre a fixação da fase anal e da fálico-genital. Como poeta. que passa pela vida como um doente terminal.. mas aquela mulher." (141). em "Édipo rei". 'nos engaja no sofrimento.. Trate de sua vida. ele nunca a teve. afirma: "Quem sabe se sua mãe não botou ele no mundo como se bota um excremento"(124).não era a Irene que ele amou e sim uma "máscara empastada de lágrimas9". o fantasma dos desejos" (Menezes: 1995: 15). A fixação da fase anal.. a procura impossível'. Como no mito grego. uma vez que ela é. procure o que fazer. a que tudo indica. tanto com partes dele (como se fossem pedaços separados ou 9 60 José Arthur Bogéa. em que o narrador de 3.Não está vendo que você não dá para isso? Que teimosia! Você é um homem de manias. marcado pela desmesura. encaderne os livros. urde um manto de palavras que poderá recobrir suas lacunas.foram mostrar a major Alberto os primeiros versos de Eutanázio. rebaixa-se e. ele busca a sua outra metade. um masoquista ("... é de condenação. O sentimento dele por Irene. perceberemos que Eutanázio. aliás. mansa como água fertilizada . Ela não quis ser a sua alma gêmea. Estude Química. . Eutanázio.) .

. Recorremos mais uma vez a Freud.como se sabe. a idade das primeiras lembranças encobridoras da infância. dentre estes sentimentos. passaremos a investigar as recorrências daquilo que Freud denominou de "lembranças encobridoras". nada mais é que a conseqüência de uma infância infeliz. Eutanázio parece deter-se no sentimento .) Essa relação ternária. sofrimentos que perduram e se arrastam até a morte..os dos conteúdos psíquicos . fantasias agressivas e amorosas. ele procurar em Irene (a configuração da mãe má. entre os 3 ou 4 anos. onde. forma o núcleo do Édipo" (idem: 64-5). grosso modo. às mortes. a criança passa a uma relação ternária (ela. Eutanázio. Embora Freud diga que uma não se sobrepõe à outra. personagem tão densa quanto sedutora. Gemi. entretanto." (Chauí: 64-5). uma espécie de eufemização dos sentimentos. mas como se fosse o de outrem. Daí. feita de amor. aos nascimentos. que Freud localiza o surgimento do complexo de Édipo que permanecerá latente até o fim da puberdade quando deverá resolver-se (ou não)" (idem: 64). são omitidos e quais os que se manifestam. conforme já foi dito. na fase fálica ou genital que Freud identifica o aparecimento do complexo de Édipo. III: 1976:337). varia dos dois aos quatro anos (período que abarca as fases oral e fálico-genital. Pois bem. É ainda a professora quem afirma: "Na fase fálica. É. ele pouco se fixa nos detalhes da infância de Eutanázio. podemos concluir que Eutanázio não resolveu a contento sua relação edípica. ou mesmo em D. demarcada de rejeições e sofrimentos. desde a forma como vislumbra seu nascimento . no texto anteriormente referido: "Devemos primeiro indagar por que se suprime precisamente o que é importante e se retém o indiferente" (Vol. A deduzir-se a relação mal resolvida de Eutanázio com major Alberto (o rapaz "mendiga" o amor do pai) e da rejeição que ele vislumbra por parte da mãe (que no enredo se faz presente apenas através de suas angustiantes lembranças). Ao nos debruçarmos sobre Chove nos campos de Cachoeira. o conteúdo mais freqüente das lembranças encobridoras relaciona-se às primeiras recordações da infância. Pois bem. Eutanázio. Estes deslocamentos . Segundo o "pai da psicanálise".Josse Fares e Paulo Nunes Asas da Palavra autônomos objetos) como com seu corpo inteiro. ora por substituição metafórica como conseqüência de uma repressão. ódio.afinal. o pai e a mãe ou quem faça o papel deles). Ele teria conseguido esse intento? Parece-nos que não. de outro. 61 . é impossível não direcionarmos nosso olhar a Eutanázio. o que é registrado como imagem mnêmica não é a própria experiência.ele obtura suas carências que tenta impedir que a imagem mnêmica desagradável se manifeste.. em seu drama interior. mas um elemento psíquico associado a um fato desagradável. à vergonha. na fase adulta. ao medo. Desse modo. Diz-nos Marilena Chauí: "É nessa fase. Caso isso tivesse ocorrido. ele fora "expelido como fezes" e não nascido parece-nos elucidar que a sua vida presente. Para Freud. como se estivesse diante de um espelho e condenasse a imagem refletida como de outra pessoa que ela deseja ou admira. medo. que refletiu sobre os questionários aplicados a alguns pacientes pelos irmãos Henri. parece fazer confrontar duas forças psíquicas opostas: de um lado. a resistência que tenta impedir que tal preferência seja mostrada. se dão ora por associação de continuidade metonímica. os que.. O curioso é que o narrador parece sonegar-nos informações. Assim. às doenças. a importância do que procura lembrar. inveja. não raro. valeria observar quais. que já envolve os corpos inteiros dos participantes da tríada (. ao enfocar Eutanázio. a representação da mãe boa) a referência materna que ele afetiva/efetivamente não teve. forma-se o complexo de Édipo). não teríamos as chamadas "substituições de conteúdos psíquicos".

O que devemos pensar diante disso? Ouçamos o próprio Freud. p. alimentadas pelo Eutanázio já adulto. neste momento. Eutanázio mendigou o afeto do pai. obsessivamente desejada pelo rapaz. p. apontamos a existência de um narrador (narra a dor) de 3. sempre descuidado dos sapatos e da roupa. infeliz. por parte dela. de Dalcídio Jurandir Ao observarmos a conturbada existência de Eutanázio 10 ("Como estudante. deseja vingar-se violentamente da amada: "Irene o esperava para rir.. falar de seus fiteiros. exceto na hora da morte. Afinal. As fantasias de maus tratos para com Irene. 10 62 .. que sempre lhe foi esquivo e por vezes até violento ("Major Alberto dava-lhe tundas e o pequeno com aquele gênio. Entretanto. dizer indiretas. desdenha dele. depois da surra. diz-nos Freud que uma fantasia não coincide completamente com a cena infantil. Se não há indícios que evidenciam a marca da fome (da fome física. O pai. Aprendia com aborrecimento ou indiferença.. É uma personagem marcada por imensas lacunas.". não encontra nela esta referência. bradava apoplético: . por vezes. embora ele procure. [Eutanázio] Mandaria cortar os bicos agressivos daqueles seios. a paz procurada em Irene pela personagem. Ninguém se interessava por ele. raquítico.. Não reconhece naquela mulher serena a Irene que tanto amou. o mesmo não se pode dizer em relação ao amor.. se considerarmos os fatos relativos a Eutanázio." (135). Sigmund Freud. constituindo um caso sintomático e recorrente de lembrança encobridora. Como já foi dito. indecisa. o trocadilho narra+ a + dor se dá através de um processo poético-narrativo por aglutinação. os dedos trêmulos. ele a rejeita.. aquele que é ". contínuas dores de dentes. durante toda a sua existência. Se considerarmos a relação Eutanázio X major Alberto não estaríamos diante de um flagrante de substituição metafórica? Afinal. através do drama de Eutanázio. destrata Eutanázio. faltas ligadas à infância (no dizer do narrador: "Toda a sua infância [de Eutanázio] fora triste.Asas da Palavra PALCOS DA LINGUAGEM: uma leitura psicanalítica de Chove nos Campos de Cachoeira. um sentimento paradoxalmente oposto. afirma que as duas mais poderosas forças motrizes da lembrança encobridora são a fome e o amor. Leiamos o que nos diz o teórico francês: "O discurso da Ausência é um texto de dois ideogramas: há os braços erguidos do Desejo. se o lermos. 137). vacilo entre a imagem pálida dos braços erguidos e a imagem acolhedora e infantil dos braços estendidos" (Barthes: 1991:30). Eis uma síntese poética de Eutanázio. cresce carente de pai e de mãe.. terá. 2001). então. perceberemos que a falta de afeto materno é metonimicamente deslocada para a figura de Irene.a pessoa. como seria talvez o ideal numa relação triádica. 137). 138). O rapaz procuraria em Irene o acolhimento e a paz maternal? Sim. p. tinha os olhos sombrios.". configurando a mãe má. "tortura-o".Eu te acabo! Eu te esmurralho a cara. aparece com o "rosto empastado de lágrimas". Ela que. Eutanázio. A imagem do amor ligado à obsessão e à violência está significativamente representada na relação entre ele e Irene. pelo menos) nas lembranças encobridoras de Eutanázio. como estamos fazendo. penalizada. fazer o "natural" corte metafórico. estão provavelmente ligadas às carências da infância. ainda acerca das lembranças encobridoras. que talvez nos dê a pista elucidativa: "O Em “Aquonarrativa: uma leitura de Chove nos campos de Cachoeira” (in: Pedras de encantaria. Major Alberto não soube. seu patife! Acabo com isso. Ele. constituiria uma manifestação daquilo que Roland Barthes chamou de "discurso da Ausência" (tão lacunar que é grafada com "A" maiúsculo). A mãe só dava pela existência da escola quando sentia falta de Eutanázio em casa.. Oscilo. ao que tudo indica.. nunca indiferente aos maus tratos dirigidos pela moça. quando ela..". frieza ou desapontamento.. Chove nos campos de Cachoeira. e há os braços estendidos da Carência.." (137). apenas baseia-se nela (os seios maternos foram negados a Eutanázio na infância? Amputar os bicos dos seios de Irene não seria reflexo dessa falta?). O pai era indiferente.

) lhe mostre os campos da Holanda. Tinha a pachorra dum amanuense do Parnaso. Ela. quando ele descreve a natureza do Marajó. Ele é um sonhador. da cultura. que o transporta do simbólico para o imaginário. Agora tem que ir ao tanque escolher outro caroço que (. "esposarana". da civilização" (Fages apud Taranto Goulart: 1985).. um objeto transicional. as angústias do cotidiano. durante a quadra junina. possibilitam a Alfredo o deslocamento do real para o imaginário... homem branco. Alfredo investe no sonho da mãe. Costumava ter às mãos um caroço de tucumã. 350). Ele é o major. é válido lembrar que Eutanázio.. achava esquisito que seu pai fosse branco e sua mãe preta (. como se percebe. O caroço de tucumã já imaginou que os passarinhos moravam no chalé. Todo dia assinava o ponto na repartição das musas" (140). Começou a ver todos os passarinhos no chalé dançando uma estúrdia com Mariinha no soalho" (122). de Cachoeira. É com o carocinho que Alfredo transita do simbólico para o imaginário. da realidade para a fantasia..Josse Fares e Paulo Nunes Asas da Palavra passo intermediário entre uma lembrança encobridora e aquilo que ela esconde é provavelmente uma expressão verbal" (p. Vejamos:  "O caroço ficará nos campos queimados contando a história do faz-de-conta. Diga-se de passagem: Alfredo imagina-se nos campos da Holanda a partir do dia em que os vê num dos catálogos do pai que lhe diz tratarem-se de prados. quando então a criança "entra no mundo da linguagem. Não seria por este motivo que Eutanázio esforça-se tanto para expressar-se através de versos? Leiamos: "[Eutanázio] absorvia-se em chapear o papel com teimosas metrificações. Aquele como inserção do sujeito no mundo da lei. através das letras de toadas. enquanto objeto mágico.. secretário da intendência municipal. pois. Ficavam livres do gavião. Este aqui considerado como tempo/ espaço marcado pela fantasia. A linguagem preenche as lacunas da personagem? ALFREDO:ENTRE OS CAMPOS QUEIMADOS E AS HISTÓRIAS DO FAZ-DE-CONTA Menino feridento e empaludado. Era mulato: ". uma espécie de carretel do Fort/Da freudiano. Afora isso.. como poeta do boi Caprichoso. 63 . dava "forma literária" aos anseios do povo. A diferença entre o pai e a mãe de Alfredo é abismal. do fogo dos campos e da baladeira11 dos moleques" (120).) Por que sua mãe não nascera mais clara? E logo sentia remorso de ter feito a si mesmo tal pergunta. o arranque daqueles campos mormacentos" (119). Neste excerto. Os poderes do caroço. Eram as pretas mãos que sararam as feridas. numa espécie de pacto entre o menino e a natureza. era quem. O caroço é. Mas é ela. muito comuns na Holanda. uma criada que fora tomada como concubina. da castração do desejo.  "Alfredo correu e foi buscar um caroço de tucumã. o caroço é humanizado através da prosopopéia.. Através do caroço de tucumã. quem sonha e economiza seus trocados para mandar o filho estudar na capital. entretanto.  "Os passarinhos revoam em torno do chalé. pretos os seios (. espécie de varinha de condão ou objeto mágico com o qual ele transpunha as dificuldades.) brotara daquela carne escura" (122). Alfredo põe-se num ir e vir constante. recurso recorrente da prosa de Dalcídio Jurandir. 11 Brinquedo também conhecido como estilingue.

Isaac Sousa Almeida. O caroço. a falta da mãe. através do jogo (o vai e vem do carretel) do Fort/Da. Aqui vale ler o depoimento do sr. comunicação". com o caroço nas mãos. Assim. Ele representa o corte. pergunta a si mesmo: E agora?" (401). nos momentos de angústia e sofrimento. poderes mágicos.) Esta encenação lingüística afasta a morte do outro" (Barthes: 191: 29). no verbete "ausência". o espaço da lei. símbolo do imaginário. Como nem sempre é possível dispor da mãe. Vejamos abaixo:  No dia da morte de Eutanázio. preciso suportá-la. o carocinho salta no soalho para debaixo da rede do major. oralidade. A ausência se torna uma prática ativa. em Fragmento de um discurso amoroso. a criança acaba. como que desamparado. É como se Alfredo. vendo destruída a relação dual e instaurada a tríada. 12 13 64 . inserindo-se no mundo simbólico. Alfredo. No nosso entender. pudesse trazer para perto de si os seios maternos. Alfredo lançará mão do Fort/Da marajoara: o caroço de tucumã. É ele que. defendida na PUC-SP. O carretel de Alfredo é o caroço de tucumã12 .ª Josebel Akel Fares13. pelo imaginário popular. Três casas e um rio (1958).. recolhida por Josebel em setembro de 2000. produzir ritmo. como foi dito. caroço ao qual são atribuídos. que se situa de imediato no registro do real. vê-se carente de mãe. de uma falta. simulando a partida e a volta da mãe: está criado um paradigma). Tucumã: “palmeira do gênero Astrocaryum” (Cunha: 1997: 795). E o menino. Roland Barthes. É chegada a hora de Alfredo deixar os campos de Cachoeira e ir cumprir seu destino em Belém. como se fugisse. que ela lança e retoma. o que ocorrerá no segundo romance da saga de Alfredo. da Universidade do Estado do Pará/Universidade da Amazônia. abrir o palco da linguagem (a linguagem nasce da ausência: a criança faz um carretel. "Alfredo sacode o lençol. Vou então manipulá-la: transformar a distorção do tempo em vaivém.. traz-lhe o lenitivo. é interceptado pela lei do pai.Asas da Palavra PALCOS DA LINGUAGEM: uma leitura psicanalítica de Chove nos Campos de Cachoeira. fruto de uma palmeira amazônica. após o corte promovido pelo pai. este fragmento é de suma importância para a leitura psicanalítica de Chove nos campos de Cachoeira. pela prof. de Dalcídio Jurandir O FORT/ DA FREUDIANO: UM VAI-E-VEM ESPECULATIVO O Fort/Da nasce de uma privação. um afã (que me impede de fazer qualquer outra coisa) (. explicita o recurso freudiano: "A ausência dura. abundante na região dos campos marajoaras. conforme se pode comprovar na tese "Cartografias marajoaras: cultura.

Josebel Akel. 2002. Hélio. junho de 1996. Orientada por Jerusa Pires Ferreira. oralidade. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Adauto. 1995. São Paulo: PUC-SP.: Hortênsia dos Santos. Rio de Janeiro: FUNARTE. Belém: Paka-Tatu. 2002. Goulart. 1998. Pellegrino. Rio de Janeiro: Imago. Claude. 11 ed. 1994. Pedras de encantaria. Chemama. 1984. (cd rom). Primeiras publicações psicanalíticas. comunicação. Repressão sexual. Fares. Sigmund. Salvador. São Paulo: Brasiliense. EDUnama. Dicionário de psicanálise: Freud e Lacan. "Matrizes e germinações em Dalcídio Jurandir: o canto agônico de Eutanázio". Belém: EDUnama. [Tese de doutoramento]. Belém: EDUnama. Trad. 2 ed. Bogéa. Belém: EDUnama. Bandolim do diabo: Dalcídio Jurandir em fragmentos. Rio de Janeiro: 1998. 1976. Fares. Ágalma. Freud. Barthes. Cartografias marajoaras: cultura. in: Anais do I Encontro da Abralic na Amazônia/ VIII Fórum Paraense de Letras. 1985.: Leda Mariza Bernardino. Fares. et alii. Josse & Paulo Nunes. Roland & Dorgueille. Francisco Alves. Josse. 2001. 2003. Chauí. São Paulo: duas Cidades. (Org) Asas da Palavra: revista da graduação em Letras da Universidade da Amazônia. in: Novaes. Roland..Josse Fares e Paulo Nunes Asas da Palavra BIBLIOGRAFIA CONSULTADA Assis. A conversão da leitura. Edição crítica de Chove nos campos de Cachoeira. "Édipo e a paixão". Rio de Janeiro. 1991. Trad. Belo Horizonte: FUMARC/PUC-MG. Fragmento de um discurso amoroso. Jacob. Rosa. Adélia Bezerra de. Marilena. Cunha. 65 . Menezes. Do poder da palavra. Audemaro Taranto. José Arthur. Maria Célia. Belém. Antônio Geraldo da. Os sentidos da paixão. 1986.

Asas da Palavra Aquele fim os aproximava cada vez mais. como fascinado. se deixara envolver pelo único sentimento real e total. embora lutando contra a fascinação. os fundia e. o da posse universal da herança poupada e tranquila 66 .

entre outros. Lindanor Celina. a disputa pela terra. Bruno de Menezes. No Pará. em particular no que se refere ao Pará. Repertoriar e discutir estes elementos do texto do autor paraense é uma possibilidade para entender o mundo rural do qual se apropriou Dalcídio Jurandir. Palavras Chave: Dalcídio Jurandir. neste trabalho. peões. para dar consistência literária e social a suas mensagens. Escolheu-se. para verificar como as personagens entram em cena e o que representam. o livro romance Marajó. centrada na região norte do país. Dalcídio Jurandir. Gutemberg Guerra * a literatura brasileira em geral. coronelismo. vaqueiros. encontram-se personagens e temas recorrentes do mundo rural como coronéis. campesinato. ruralidade. Marajó. a sujeição do trabalhador por mecanismos diversos. em sua época. João de Jesus Paes Loureiro. Na narrativa dalcidiana. a condição subjugada das mulheres. cobrindo boa parte da produção escrita nacional. Benedito Monteiro. * Professor e pesquisador da Universidade Federal do Pará 67 . Ruy Barata. O fazendeiro-coronel. lavradores. de Dalcídio Jurandir. Verifica-se como estes elementos são descritos do ponto de vista sociológico e como representam uma visão de mundo de um autor da importância deste que é considerado um dos maiores romancistas da Amazônia e do país. o roubo de gado. o rural invade transversalmente os diversos estilos e áreas.Asas da Palavra PERSONAGENS E PROBLEMAS EM DALCÍDIO JURANDIR. pode-se encontrar essa marca em autores como Inglês de Sousa. Coteja-se a construção ficcionista do autor com elementos históricos presentes no mesmo tempo e espaço amazônico.

O direito. vestimentas e utensílios das personagens. enterros. prefeito. mantidas as posições sociais distintas de cada categoria. complexo em suas múltiplas formas de expressão. distanciam da prática social. porém. aparecendo de diferentes formas no romance. utilizando uma edição em que o texto é apresentado em 352 páginas. hotéis. Mas como são construídas as principais personagens naquele livro e como as situações de conflito são identificadas no texto? Para responder a essa pergunta. jornalista). do poder político exercido através dos cargos eletivos (intendência e câmara de vereadores). ou na vila. todos instrumentos de legitimação do poder exercido pelos coronéis (pai e filho). por oposição à sedenarrativa. respectivamente. advogado. pagamentos de dívidas. paternalismo. . postos de saúde. sejam cenários (clubes. o que não impede. portanto. faculdade). este artigo. entre principais e secundários. O mundo rural dalcidiano. As relações primárias. Por isso. das atividades agrícolas. O fôlego exigido para um trabalho dessa natureza é maior do que pode ter um leitor comum. escolheu-se personagens centrais . onde dominantes e dominados convivem. O estilo narrativo de Dalcídio Jurandir. ver Da Matta. professor. o que representou um esforço que exigiria muito espaço para esta breve apresentação. é caracterizado por sua singularidade bipolar. a dispersão geográfica. são indicadores de uma ruralidade efetiva no romance Marajó. este construído sobre favores ou ajudas que se revertem como dívidas (concessões de pequenos lotes de terras ou habitações. da rusticidade nos aposentos. profissões e situações são manipulados para satisfazer os interesses em jogo. O RURAL E O URBANO EM DALCÍDIO A presença da natureza. residências. doenças. O fazendeiro coronel. e o domínio sobre as pessoas. tentouse repertoriar uma por uma delas.Asas da Palavra PERSONAGENS E PROBLEMAS EM DALCÍDIO JURANDIR. A julgar pelo romance Marajó. E os interesses são a acumulação de poder a partir da concentração de propriedades rurais. engenheiro agrônomo interessado na área da sociologia rural.Missunga e o Coronel Coutinho . sem especialidade na área das letras. 1979:169-185. Na cidade. um exercício de observação sobre os aspectos referentes à ruralidade e ao poder político presentes na trama sociológica envolvidos na obra dalcidiana. compadrio. Leia-se. sem que haja a necessidade de um artifício de legalidade. privilegiou aspectos ligados ao seu universo profissional. As instituições públicas aparecem manipuladas pelos poderosos. parentela. Mas a exuberância do texto dalcidiano pode ser vista por outros ângulos. o exercício da cidadania. Apenas para ilustrar. nas 150 primeiras conta-se com mais de 70 figurantes. a falta de serviços básicos como água encanada. expressas ao longo de todo o romance. sejam eles personagens (tabelião. Nunes associa os estilos aos ecossistemas retratados pelos dois autores.representantes do patronato rural no Marajó. médico. como prefere Dalcídio ao se referir a Ponta de Pedras. encontramse os elementos urbanos. a cidadania. escola. 1 68 Para uma distinção entre pessoa e indivíduo. a profusão de personagens construídos por Dalcídio Jurandir em sua obra representa uma verdadeira multidão. estilo que caracterizaria o estilo econômico de Graciliano Ramos. estradas. correios ou outras formas de comunicação. de Paulo Nunes (2001:41) a qualificação de aquonarrativa. com a referência de que o autor. a umidade amazônica e a secura nordestina. O rural é mais explicitamente o espaço do desmando. por sua fluência e abundância em períodos longos recebeu. sem o caráter republicano que marcou a sua generalização desde o século XIX. indicam uma sociedade organizada com destaque nas pessoas1 . empregos). ou tendo seus nomes diretamente associados aos papéis. onde as pessoas podem ser identificadas pelos nomes e papéis que cumprem. As relações de clientelismo. da lei do mais forte. como é o caso. Cargos. aparecem sendo exercidos ali.

inapetência). Capitão da Guarda Nacional. Os atos de apropriação são enumerados e descritos com detalhes dramáticos. 67 e 68). Marcelino. os cabelos brancos. pela onipotência do Coronel. Sua ligação com a terra vem expressa ancestralmente por sua ascendência. Sêco. estreitando cada vez mais o cerco em torno das últimas e teimosas pequenas propriedades que deixavam. estavam feitas as escrituras por Lafaiete (p. Marajó para Coronel Coutinho e alguns fazendeiros grandes era um mundo à parte. descrito esparsamente no texto. . fechando os lagos para os pescadores e os próprios vaqueiros. Um pescador. o sexo praticado pelos vaqueiros com os animais surpreendido pela onipresença do Coronel. dos parentes. antes mesmo que as vítimas comecem a ser declaradas (p. as malhadas e as ferras. A preocupação em firmar as propriedades em cartório aparece. o que aparece em frases plantadas na narrativa pela expropriação. Dona Mariazinha (p. o primo Guilherme (p. A associação com a nobreza é patente neste trecho. enfim de lutar com o grande domínio rural. o próprio Tenório (p. 12).. Pode-se enumerar. lhes pertencia totalmente (p. as orelhas como que tremiam. Não só o aspecto da caçada mas o domínio sobre a vida íntima das pessoas. 59). responsável pelas falsificações de documentos no cartório a favor dos grileiros. o casal Felipe e Januária (quando eles e outros posseiros se espantaram. disputa com Missunga a gestão das fazendas (quando tenta deslocar o vaqueiro Manuel Raimundo) e o amor de Orminda. mau carater. 16 e 17). os lagos e as fazendas de Cachoeira (p. doença. entre os expropriados pelo coronel Coutinho. no texto. com uma imagem fagocitótica: Devorava pequenas fazendas em Cachoeira. filho do coronel-fazendeiro Joaquim Alvares Coutinho. por artificios variados. os olhos sem cor. 35). O autor expressa a avidez generalizada do coronel por terras. o pai de Tenório (p. privado. antigo vaqueiro do "Paraíso" ousara entrar num lago da fazenda e foi morto a tiros pelo vigia (p. Neto de fazendeiro.sabia dominar os sítios e a vila de Ponta de Pedras. 59). subserviente ao velho Coronel Coutinho. demonstra uma avidez por aumentar suas extensões de terras. a cara engelhada.. A entrada do ex-vaqueiro Marcelino em um lago proibido é punida com a morte. Peça chave no processo de apropriação das terras pelo coronel é o tabelião Lafaiete. 69 . o coronel vai sendo revelado ao longo de todo o texto. mas compondo um personagem importante na trama romanesca.11).Asas da Palavra Gutemberg Guerra O VELHO CORONEL MANOEL COUTINHO Presente desde a primeira cena do livro. Este domínio sobre o ambiente (terra. água. tomando terras. 57). com a qual mantém um romance. pessoas) era mantido pela força e crueldade: Coronel corria os campos do Arari dirigindo a matança dos jacarés. vizinhos ou quem quer que se apresente em situação de fragilidade (dívida. 28). surpreendendo vaqueiros no amor com as velhas éguas e as vacas mansas nos encobertos.

O fazendeiro coronel. A narração da morte do Coronel é descrita como o rito de passagem de Missunga: Aquele fim os aproximava cada vez mais. Outras. Gado e gente: Coronel queria ter o povo na mão (p. Ermelinda assume. Isto se reforça pela posse das mulheres se realizando em lugares diversos. pelas regalias que lhes dispensa. Seu poder se expressa. mas também nas de Lafaiete. filho do Coronel Coutinho. atuando como mediadora em muitos casos. em fazer ou ter feito cursos universitários nos Estados Unidos. De que serviam as vacas e as mulheres senão para aumentar os rebanhos? (p..Asas da Palavra PERSONAGENS E PROBLEMAS EM DALCÍDIO JURANDIR. Mas não só de terras se constitui o poder dos coronéis. por essa posse das mulheres e. nas casas das fazendas espalhadas pela ilha. A FORMAÇÃO DO FAZENDEIRO-CORONEL Missunga. como a comadre Engrácia. e do próprio Missunga. o coronel pesa sobre as mulheres. No contraponto com o pai. 303). machismo. cruzar o seu fidalgo sangue português com o das índias. conflituado interiormente com as possibilidades de incesto com as mulheres que deseja. 302). com uma jovem que . Mesmo na morte. D. São muitas as mulheres que aparecem como tendo sido possuídas pelo Coronel Coutinho. se deixara envolver pelo único sentimento real e total. definha e morre de desgosto. que sonha. mas que não se realiza. e na sua aparência arquitetônica. um lugar de destaque na vida do Coronel e de Missunga. Missunga é visto como o futuro coronel melhorado e estas expectativas vão se acumulando nas falas do próprio coronel. De certa forma. de um lado. criada e mantida durante toda a trama. demonstram contudo que parte do poder dos coronéis se expressa pelo domínio do ventre das mulheres que habitam suas terras. com todos os componentes de autoritarismo. mãe de Missunga. é construída como a esposa oficial que. embora lutando contra a fascinação. Branca. passo a passo. como amante. os fundia e. traída. embrulhada em um lençol saiu gritando do quarto e até hoje parece transtornada (p. 70 . Algumas outras mulheres vão ser descritas. é elaborado. expressando um poder que se espelha na casa bem situada geograficamente. apenas sonha. A terra se explica pelas criações que nelas pode manter: Seu maior empenho era ter gado (p. como a casa alugada na Serzedelo Corrêa na qual habita Ermelinda.. seu pai. 156). ambição por terra e posição social. no romance. Missunga é o coronel em formação. através de uma constante tensão: uma expectativa de ruptura entre o novo e o velho coronel. 28). embora humanizado e reciclado pelo narrador a partir de traços psicológicos angustiados. em detalhes. 28). Teria falecido em plena atividade. Missunga se nega ao que lhe pretende atribuir o pai: assumir o mesmo papel de coronel. E mulheres: Coronel dizia aos amigos em Belém que sabia povoar os seus matos. o que lhe daria uma distinção exigida pela fricção com as mudanças sociais em curso. quando em Belém. a ex-escrava Benedita. mostradas genericamente. é construído no romance como uma esperança de reprodução do coronelismo que se exercita na maior ilha fluvial-marítima do mundo. Tanto o ambiente quanto as vestimentas e luxo da casa e da amante são descritas com detalhe (p. o tabelião. de outro. encher a terra de povo com a marca dos Coutinhos. como fascinado. o da posse universal da herança poupada e tranquila (p. embora letrado (advogado). 35).

cai no silêncio. como Benedito. Em tudo o que faz. O apelo do coronel não deixa de ser respondido com o nervosismo do picapau martelando a macacaubeira. O poder oligárquico e aristocrático são produtos da força militar e do poderio político acumulado. Os símbolos de poder vão ser utilizados ao longo da narrativa revelando as marcas de soberania. Embora personagem de peso significativo no romance. atributos e habilidades de índio (p. uma vez que. herdeiro da fortuna do pai.Asas da Palavra Gutemberg Guerra A cena inicial do romance mostra o velho coronel chamando o filho. a preguiça e lassidão. 9). símbolo de nobreza européia. 9). referido em passagens onde se entrega ao banho de igarapés (p. 12) . ou ordem. Dona Ermelinda é apenas uma das mulheres do coronel. pode desfrutar de prazeres urbanos. que exerce mal e sob o escárnio dos outros (ver p. O cão tem nome emblemático. mãe de Missunga. Missunga é filho do coronel Coutinho com D. com os atributos da nobreza. como vimos acima. com nome de rainha e santa. o fracasso é patente e vai aparecer durante o texto como algo inerente à fragilidade intelectual dos coronéis. o tempo livre. Ainda na primeira cena. O forte do poder no mundo rural e feudal não é o mérito pela inteligência. 71 . em uma tomada em que personagens e cenário expressam poder. Branca. O parapeito do casarão é uma sinalização subliminar da imponência do ambiente patronal. Homem e natureza em confronto. este atributo burguês. nos momentos em que a relembra para contrargumentar com o pai: . O trabalho é realizado por outros. Branca como a mediadora entre o poder autocrático dos coronéis (pai e filho) e os subordinados. Adiante. seguindo o cão. podendo ser identificados desde as vestimentas até os gestos: caçadas. 12 e 25). - Nem mamãe? (p. característica das personagens dalcidianas. serviçal com nome de negro. 115). mas também em outras passagens. Missunga entrou no capoeiral vizinho. Na faculdade de Direito. civilizados. a voz do coronel chama o filho e seu apelo. Vencido e pouco disposto a enfrentar o mundo selvagem. Na caça. Ele não caça javalis nem raposas: Com a cisma de haver tatu perdido ou alguma cotia nas toiças. aparecendo armado de espingarda. como o pai teria feito na sua juventude. A figura de Missunga é construída. porém literalmente vencido diante do mato virgem (p. Na seqûencia da 1a. uma sala de jantar com dez janelas para o rio é citada. 32). Sua preguiça e lassidão. dando uma aura de generosidade e sofrimento purgatório tanto a ela como ao filho. 2001:46 e 47). meu filho. e se torna a principal mulher após a morte de Dona Branca. a esposa oficial.Aquele administrador. Exibia no ombro a espingarda e espreitava os esconderijos mais próximos (p. cena.108). debruçando-se no parapeito do casarão. fêz por mim o que ninguém faria. sobretudo o não-trabalho e o tempo à sua disposição. ex. embora sua distinção venha ajustada às condições ecológicas marajoaras. Janelas nas casas antigas eram símbolo da riqueza das famílias. Missunga responde pela fala do narrador. justificado pela ausência de Dona Ermelinda que tinha ido visitar uma pessoa doente no Araraiana . os anéis. pintam D. adentrando no romance pelo exercício da caça. aspecto também acentuado por Nunes em seu já citado trabalho (Nunes. Missunga estréia no romance. a amante que ele assume em uma de suas fazendas. Famaleal. a associação com a nobreza e o fracasso vão aparecer retratados de forma recorrente ao longo do romance. Ser caçador é apenas uma diversão. Missunga é retratado como um fracassado. portanto. muito mais adiante (p. Cenas de lembranças (flash-backs). é signo do poder.as primeiras damas fazem serviço social.

juízes.Asas da Palavra PERSONAGENS E PROBLEMAS EM DALCÍDIO JURANDIR. Missunga é revelado ávido de mulheres desde a mais tenra infância. Missunga assume o comando das fazendas e o vaqueiro passa a ser o seu braço direito. possuir mulheres é um atributo do poder no Marajó. bravias e mansas. tomando conhecimento da extensão do seu patrimônio. fedia a peixe. tão natural com uma animalidade inocente. 163 e 164). búfalos. até o momento em que consegue liberdade para investir em um projeto próprio. como possuidor de muitas mulheres e filhos. sendo descrita como a própria natureza selvagem: . Alaíde é sua companheira neste projeto mas o nome da tentativa modernizadora de Missunga dissolve-se com a volta do pai. lojas. A utopica Felicidade gravada em uma tabuleta de madeira é finda arrancada por uma mulher para dela servir-se como remo. de um lado e. terras. em angustiadas contradições para uma escolha. Alaíde era mansa como a terra sentindo as raízes. Adelaide. Missunga. lanchas. a inquietação das árvores sob a trovoada. as marés. 75). do futuro herdeiro que tem que conviver com o pai e suas ordens. Manoel Raimundo troca com o coronel Coutinho em uma moeda que bloqueia o acesso de Missunga ao coronelato até a morte do seu pai. Depois da passagem do velho coronel. Antes disso. tão inocente. em certas horas. servos..(p. calor.. barcos. Manoel Raimundo. Vaqueiro experimentado. cartórios. Guita. Marta. Alaíde. concretizando sua formação de patrão tem como impecilho e existência e vigor do pai. assume o terreno expropriado de Felipe.. frutas rachadas no chão (p. 13) . manifesta-se também como poderoso no campo das proezas sociais. desejando e possuindo uma coleção de mulheres do povo.. a lama da várzea na vazante (p. depósitos nos bancos. ilha e romance. Seu projeto de tomar as rédeas das fazendas. imbuído da idéia de uma associação com os japoneses.O capítulo 47 é prodigo em descrever os poderes acumulados pelo velho e herdado pelo novo coronel que. todas.. os namoros são a sua principal ocupação. Missunga vive no romance a dificuldade do príncipe. O fazendeiro coronel. exercendo o seu poder delegado pelo coronel Coutinho sobre o vasto rebanho. Se abandonava com um jeito um pouco distraído. Ensaia um passo de modernização da administração das fazendas quando o pai se afasta e ele. o hálito de Alaíde. 72 . Entrelaçando confiança e dependência à uma relativa autonomia e competência. de outro a presença marcante do gerente. suas irmãs.. Hilda. Era a herança. Alaíde vai ser a preferida para habitar a fazenda Felicidade. Vai viver de conflitos pelas comparações entre Orminda. irmãos e contas a receber. no colo de Mariana. Parte significativa da contradição calcada na possibilidade do incesto vez que as mulheres do Marajó poderiam ser. comemora seu primeiro dia de trabalho igulando-se ao criador: É o meu primeiro dia de criação! Quarenta mil reses redondas. que havia naquilo a sensação quase do incesto (p. a melhor cavalaria de Marajó. Contrata e assalaria trabalhadores e dá o nome de Felicidade às terras em transformação. faz parte da herança dos bens do velho. tão tranquilo. Mais do que desejar. 29).

CONCLUSÃO A figura do coronel apresentada no romance Marajó. como o roubo de gado. Belém. NUNES. as mulheres. Secretaria de Estado de Cultura. 3ed. Desportos e Turismo. O novo coronel. Roberto. são todos elementos sociológicos dignos de uma leitura mais refinada e de uma resposta que possa ser dada à proximidade entre ficção e realidade. depois de exercitar o domínio de sua herança. Dar conta de cada uma delas implica em sair recolhendo cada uma de suas características para montar o quebra-cabeça. As situações de conflito no campo. Memórias. como se o afastamento (morte?) do senhor implicasse o fim de suas desejadas. Unama. de Dalcídio Jurandir. 2001. Carnavais. CEJUP. Paulo. figuras de densidade lírica significativa na obra de Dalcídio Jurandir. as contradições entre peões. A morte do velho coronel é descrita como tendo sido no pleno exercício de sua virilidade. 73 .. JURANDIR. O romance encerra. Rio de Janeiro: Record. de terras. de Dalcídio Jurandir. os conflitos pela terra. 1979. Aquonarrativa: uma leitura de Chove nos campos de Cachoeira. Dalcídio. neste texto. 1992. apenas uma parte do que seria suficiente para mostrar a figura do coronel e algumas situações em que ele se envolve por força do seu papel. embarca para o Rio de Janeiro. A riqueza de detalhes apresentadas nos cenários. BIBLIOGRAFIA CELINA. Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 272 págs. situações e no comportamento das personagens confirma o sólido trabalho de observação e registro que Dalcídio Jurandir exercitava e utilizava em seus trabalhos. Lindanor.. Mas estes ficam para outro trabalho. descrevendo-se seu afastamento da ilha como um misto de pesadelo e morte. Belém. DA MATTA. Faz-se. Outras personagens merecem o mesmo tratamento. Belém.Gutemberg Guerra Asas da Palavra As personagens do romance são construídas detalhadamente ao longo de todo o romance. é construída associando o poder conferido à categoria pelo domínio do tempo. como o vaqueiro Ramiro. em ambientes onde se confundem com a natureza. fazendeiros e seus administradores. 1983. Pranto por Dalcídio Jurandir. Ênfase no desejo e na posse de mulheres caracteriza tanto o velho coronel como o seu herdeiro. porém com a morte de suas amantes. de gentes e de gado. Marajó.

não é romancista quem quer! Escrever bem é dever de todo alfabetizado. Não é escritor quem quer. é uma coisa muito séria. E não é artista quem quer.). É uma arte...Asas da Palavra "A literatura. Em âmbito nenhum. Todo o que tem um curso primário bem feito deve escrever correto. (. minha senhora. Mas escritor?! 74 .

é uma desmemória feminina (que não necessariamente será feita pela mulher. janeiro de 81. para registrar. perante um mar que ele jamais vira. pelo movimento da escrita. sem êxito completo. verão de 81. E sobre esse pranto. "ficção". o Dal. a forma total de um acontecimento vivido. 75 . duas vezes iniciado: em Madri. melancólico. É HOJE. "autobiografia". Lindanor Celina pranteia em forma de memórias Dalcídio Jurandir.memórias (1983). a descontinuidade do tempo da memória agora estreitamente ligado ao plano da imaginação. 1 2 Professora da UNAMA e do CEFET O livro foi finalizado em Lisboa. uma nova littera: em que se tenta recuperar. Paris. A DESPEDIDA É LOGO MAIS. do suor e das lágrimas2 . resolutamente encetado em Skyros. fevereiro de 1980. é que iremos enveredar. senda em que a memória se mistura à ficção. Na verdade. "diário". como carinhosamente o chamava.Asas da Palavra “ ´NÃO INSISTA. em "Pranto para Dalcídio Jurandir" . Cannes. É AGORA´: Lindanor Celina pranteia Dalcídio Jurandir” Júlia Maués1 Dificilmente deixa seu lugar aquele que habita próximo da origem (Hölderlin) Há um novo território sendo percorrido pela literatura em que se desfazem todos os rígidos limites das amarras dos gêneros literários territorializados como "memorialismo". Montparnasse. em forma de narrativa ficcional. no inverno de 81. um texto com gosto de sal do próprio mar. segundo os ensinamentos de Freud). "poesia". porque a escritura se apropria do tempo como um continuum.

" (P. A DESPEDIDA É LOGO MAIS. quase esquecendo que daqueles idos mais de 50 anos são passados anos. Desde Homero na Odisséia. ergarçadas pelo tempo. faz favor. quando Eneida conseguira passagens para todo um bando de escritores do Rio . ou o registro de todos os encontros em forma de diário para não trair-se tanto agora: "Onde anda tanta coisa preciosa que ficou para trás? Cada um dos minutos que nos deste. idem). transportando-nos para o dia de sua primeira entrevista com Dalcídio. Lindanor. como se isso fosse possível. resolvem-se num diálogo com Dalcídio. Chico Mendes. ilusoriamente. e a carona no carro de Linda e Durval. buscaria desfazer durante o dia o trabalho noturno da memória. fornece o emblema de Penélope ao texto de memórias. com seus esquecimentos lacunares. esta não. na fidedignidade da memória.. a recordação. franqueado ao leitor que de repente. para deixá-lo sair em forma de amor gerado em muita palavra ("ô. introvertido. No entanto. apesar disso. Aeroporto de Val-de-Cães. Assim. deverá imprescindir da ficção. apud. Lindanor pontua a geografia da sua memória calcada em locais que nos são familiares em Belém. por isso mesmo falsos em relação ao tempo real. da vinda do seu amado. É HOJE. mas adiando o parto. Dr. É como com Papai . ao contar a sua espera do amante Ulisses. a tessitura narrativa dos que não estão mais lá. aos domingos. Ruy Barata. e na urdidura. Castello Branco. Durval. para Benjamim. José e Luísa Conde. jornal em que ela escrevia suas crônicas. garantindo assim. nos são mostrados pela personagem Penélope. o narrador proustiano. nos fios que servem de suporte à trama.. com Paulo Plínio Abreu. recuso! Essa dor. ah.. o marido. na trama. um Pontiac. o procedimento o tecer panos delicados de dia para destecê-los à noite. na sala de Machado Coelho. esse tecer e destecer de tramas fictícias. entra em Belém do Pará. a narrativa de Proust teria. Este leitor toma também os fios do tempo e percorre a fiação. parafraseando Lindanor").Jorge Amado. Eneida festejada. Mauritônio Meira. às avessas.) Agora é tarde. na medida em que escrever memórias significa um fazer e um desfazer aquilo que de fato se viveu. Será assim que esse tipo de texto. Assim. eu não devia ter imediatamente transformado em palavras. filhos pequenos. tempo do Círio de Nazaré. mesmo estando na Grécia. Penélope. para poder atravessar o tempo e resgatar o étimo do acontecimento original. Zélia Gattai. E ela lamenta esse esquecimento que poderia ter como suporte uma maior organização para guardar as cartas. muitas palavras. Dalcídio moreno e bonito. sem também lá ter estado. quando sugere que o processo de memória de La Recherche esteja mais próximo do esquecimento que propriamente da reminiscência. Ela aprendera a tecer a sua própria dor com os fios que lhe escapavam das mãos num processo de espera do futuro.. não. ao trabalhar com o texto de Marcel Proust. o esquecimento (Benjamin. o trabalho. mestre das suas escrituras. e que. o que somente lhe foi possível graças à sua esperteza em saber enganar. para que não morresse? Hoje é que vejo (. como um tecido esgarçado. de Skyros na Grécia. a inteireza do eu daquele que escreve e tenta rememorar. pode vivenciar uma experiência livrandoa do esquecimento. Dal. sob a desculpa do preparo do enxoval que pela desfaçatez jamais é concluído. É AGORA´: Lindanor Celina Pranteia Dalcídio Jurandir” Nessa vertente talvez corramos o risco de ter apenas um pranto parido a fórceps por alguém que estivesse grávida. ela sequer desconfiando que ali se passava a Glória de estar com aquele que seria o seu grande amigo. orientador literário. digno. Era o tempo da Folha do Norte. segundo Lúcia Castello Branco (1994). Nesse contexto lembramo-nos de Walter Benjamim. o seu mentor. 15) 76 . cada hora da tua vida que conosco partilhaste. e o Tribunal. no tecido propriamente.Asas da Palavra “ ´NÃO INSISTA. Raymundo Moura e ela. a densidade da ficção que entremeia essas memórias já desterritorializadas.

à rua Conselheiro Furtado. onde o passado se quer presente e o presente é sempre passado. O alcance da rememoração é exatamente a tentativa de viver de novo. É uma arte. em Itaiara . Cremação. Todo o que tem um curso primário bem feito deve escrever correto. outra vez. da diferença entre um escrito e de um texto literário autêntico: "A literatura. dentre outros.Icoaraci. (Fisionomia da Metrólpole Moderna. Bachelard (inserção do sujeito como um ser de linguagem). Mas escritor?! (p. (p. Lúcia.Asas da Palavra Gutemberg Guerra Houvesse esse cuidado o livro não seria de memórias. tampouco ela Lindanor está na Europa. Dalcídio não está mais lá. Cannes. Em âmbito nenhum. ao presente e passado junta-se a imagem das cidades onde foram vividos os momentos agora à mercê da emoção imaginada. talvez resistisse sinfronicamente. sítio de Santa Isabel. porque esse agora está sendo construído. 1994) No caso de Lindanor Celina sobre Dalcídio Jurandir. (. do cuidado com o texto. apesar das devidas diferenças.). (Castello Branco. Ouvir. Deleuze (noção de objeto virtual).. cada momento. Afinal.. mas em Belém bangalô da Vila Monção . Laranjeiras. acreditam que a tessitura da memória tenta recuperar o que foi perdido no tempo. como uma lei do que será lembrado (é só revivido que o vivido se deixa vislumbrar) . 14o. Não é escritor quem quer. Travessa Frei Gil de Vila Nova. ver. foram nesses lugares que Lindanor aprendeu as lições da necessidade de lapidamento da palavra. que. Copacabana. "Ali.103) 77 . Freud (noção de traço menemônico). o desejo de reter o tempo não vem como uma obrigação do agora. no Rio de Janeiro . a cada hora. Essa preocupação com as relações do tempo e sua incidência sobre o trabalho da memória são preocupações teóricas de Bérgson (noção de tempo como um continuum). todos estradas textos de uma vivência. Principalmente desse captar tudo. é uma coisa muito séria. E não r artista quem quer.quartinho da Lapa. cuja característica específica é a incorporação escrita da cidade ou da cidade como escrita em que a escrita se torna uma estrada-texto. Bolero. não é romancista quem quer! Escrever bem é dever de todo alfabetizado. Barthes (estudos sobre a escrita do eu). mas que não sabíamos aquilatar o valor no momento em que se deu. registro do vivido para não ser esquecido. 1994) nas Representações da Metrópoles Imagem da Cidade e Imagem do pensamento. onde o futuro se introduz como uma determinante. nesse absurdo lugar de um tempo sempre presente que se esvai". Taverna da Glória. Não é só saber escutar o que as pessoas falam. e só porque foi perdido no tempo é que tentará ser achado..ali. E se nele houvesse poesia. aquilo que foi gratificante. Flamengo. na Grécia.. ruas de Belém. Leblon. Mas. seria um prontuário. ou o que a leitura nos traz. Derrida (a noção da "diferença") e Lacan (noção de objeto a). andar. 65) Ou os lugares para aprender o que escrever e como: A nossa profissão é feita destas coisas. Val de Cães. e reinterpretado por Willi Bolie. Porto do Sal. minha senhora. Condor. Arraial de Nazaré. erigindo-se do texto como uma escritura vertical nos moldes configurado por Walter Benjamim. Botafogo. gravar o máximo. Cidade Esplanada .

quem sabe. o eu funde-se com a palavra ficcionada. desenha na letra uma marca-sulco sob a sua impressão ou a marca da sua passagem por ali. é um prazer mesclado de pena. atingindo o que Lacan denomina de lituraterra . ou numa Taverna da Glória? Mas as tavernas da Glória morreram todas.. não só explica porque a memória é simultaneamente presente e o passado. Nessa tentativa de costurar o tempo.(Deleuze. será Deleuze que. e sempre um "era". que possam recuperar o vivido. e ele só é recuperado enquanto perdido. se esmaga sob o peso da mágoa. a pena por vezes interfere tão forte que a alegria a bem dizer se apaga. restaurar um eu íntegro. e espalhados desorganizadamente dentro de quem viveu. então. numa maneira específica de organização da literatura feminina. o texto mostrase como um sujeito cheio de fraturas.. para Lacan. que se isto é um prazer. E estás na Grécia: em Skyros. incrível: este livro não era para ser escrito em Belém. então a distância não é bem o que deveria ser. agarra-te ao caderno. em que não é mais possível distinguir o que foi vivido do que é ficção. se ele só existe ao ser recuperado.(p. porque o texto agora se escreve com o próprio corpo ou no próprio corpo de quem escreve . as diferenças entre as formas de apreensão do tempo pela memória feminina devem ser vistas segundo Deleuze. ainda que te doa. Coisa boa. o texto todo de Lindanor é um lamento pela perda no tempo de uma amizade experimentada no tempo da saúde de Dalcídio e no tempo dos tremores do Mal de Parkinson. A Psicanálise. falei em distância. através da utilização do conceito de "objeto virtual". é sempre um outro: é sempre algo que já não é.Asas da Palavra “ ´NÃO INSISTA. suturado sem lacunas. De fato. em que por mais que a palavra escrita procure restaurar o vivido. capturam somente restos de grafia. risco. como assinala com clareza a questão da representação: "se esse objeto é um resíduo do passado puro. sim.jornal é pássaro que longe voa . de cisões. Agarra-te. 60) Esses textos calam fundo porque mostram o seu próprio umbigo.como "o modo como ela a Psicanálise procura na Literatura a sua outridade. uma invisibilidade. agarra-te àquele tempo. É AGORA´: Lindanor Celina Pranteia Dalcídio Jurandir” Assim as escrituras literárias da memória tentam de um lado atingir a linearidade do tempo em que o sujeito tenta recompor. vamos indo. A DESPEDIDA É LOGO MAIS. 78 . e nessa esfera em que memória e identidade se confundem. uma ilha de que Dalcídio talvez nunca ouviu falar. a não ser a não ser em alguma crônica tua extraviada . pelo traço da diferença e não da semelhança. do "nunca mais" . Assim. de outro. alteração. Gilles 1988) Lacan refere-se a esse tipo de escrita como "uma acomodação dos restos". ou o que é imaginação e o que é realidade.. que na verdade. numa linguagem pulsional como se fosse a língua da mãe-terra em que se conjugam paradoxalmente a plenitude do sentimento amoroso erótico de Eros com o sentimento de finitude da morte de Tanatos. apesar disso: "Não importa. trapos amoroso perdidos para sempre. ele só se dará a conhecer como re-presentação. no gesto da representação.quase uma Semiótica inspirada na Psicanálise. deixando o que poderíamos considerar como mancha mnemônica de si mesmo na palavras.alguma terá ido bater ao apartamento das Laranjeiras. Assim. encontra-se um determinado Real. enquanto presente é presença de um mesmo que. ali pelo Porto do Sal. mesmo esta. É HOJE. um indizível que é dito. Distância. como pudesse imprimir uma "mancha". Nesse sentido o texto confunde-se sob os domínios da Psicanálise e da Literatura .literatura e vivência esfregam-se. é uma impossibilidade.

79 . Gaston. obrigatoriamente. Belém. grita contra a luz que está morrendo: trad. mas um pranto entalado. Pranto por Dalcídio Jurandir. A escritura e a diferença. São Paulo. o seu mundo . Walter. no. por quem dobram os sinos. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA BENJAMIM. 1. Cachoeira do Arari. 1988. cujos sorvetes eram todos os preferidos por Jorge Amado: cupuaçu. Ática. Obras escolhidas: magia e técnica. instado a viver a ver a realidade presente. Diferença e repetição. 1986. do Bruno! E o Mendes? O Ruy? E o Levy? Me fale do Levy! Ah!. não é seu chefe? Me diga! E o Cléo Bernardo?. Lindanor. deixando não um grito. 1988. abacate. por ele. mangaba. SECDET. por ela. v. São Paulo.Gutemberg Guerra Asas da Palavra das noites boêmias e passeios noturnos no Rio de janeiro. O espaço literário. Brasiliense. graviola. Porto Alegre.17-32. LACAN. como para não deixar seu amigo partir. na mente. goiaba sorvetes da sorveteria Santa Rita ou Santa Marta. açaí. segunda versão). milho verde. 1. V. bacuri. dos banhos de piscinaigarapé em Santa Isabel e Itaiara. nos olhos.. DERRIDA. porque suportar a realidade é impossível muitas vezes ao homem que está ali. sob a pena de subjugar-se à morte. Maurice. pp. BLANCHOT. Rio de janeiro. pp. . DELEUZE. Rio de Janeiro. por todos nós. cajá. Jacques. jaca. E embora a busca persista e o homem quer viver no presente aquilo que foi para preparar o que virá num eterno movimento continuum. O Moura. 1985. E a essa morte Lindanor resiste bravamente citando Dylan Thomas: Do not go gentle into that good night (Não entres docilmente nesta noite mansa/ grita. Soure. Graal. 3a. Ana César. bacaba. BACHELARD. São Paulo. Jacques. trazia-o no peito. das perguntas inquietas sobre os amigos de Belém "Mas me conte do Machado. Rocco. ad infinitum. pp197-221: O narrador. 1971. CELINA. coco. Questões que comprovam que Dalcídio nunca desgarrou-se do seu Pará. tapioca. taperebá. A dialética da duração. Lituraterra. Falângola. do De Campos.o mundo do Marajó. 1987. ananás. arte e política. tampouco ela partir assim da gente. Che Vuoi. Gilles. 1. manga. Perspectiva. dos serões no apartamento de Rute. Ponta de Pedras. edição. da frutas. 1983. 36-49: A imagem de Proust. a Belém da pupunha.

Asas da Palavra Talvez por isso eu entenda a região amazônica sem precisar do apoio dos localismos. Prefiro falar. Ao falar em literatura "da Amazônia". BENEDITO NUNES 80 . denominação que inclui uma perspectiva regionalista. estou me referindo apenas a uma origem. por exemplo. em uma literatura "da Amazônia" e não em literatura "amazônica". uma procedência e nada além disso.

objeto de estudos demorados da moderna teoria da narrativa (Genette. como queria José Paulo Paes.ainda que dilacerada. ao contrário. A linguagem dalcidiana não é apenas. Tomemos o seguinte trecho: "Os japiins mais de longe teimavam disfarçar aquela solidão grande 1 Professor da Universidade Federal do Pará 81 . nacional/universal. se integram a valores outros. estabelecendo seu lugar na prosa narrativa tanto em relação à tradição que remonta a Inglês de Sousa quanto a Proust e a Faulkner. como plena de modernidade pelo sentido de crítica da metáfora. subjetivo. para além de limites espaciais. pleno de cor local. justamente por comporem um espaço ficcional. por exemplo. sem dúvida. O tempo. num movimento dialético de afirmação e negação. "linguajar pitoresco". o que temos no criador de Missunga e de Alfredo é a ficcionalização de valores culturais amazônicos. que. ao mesmo tempo que se faz cíclico acompanhando a geografia marajoara. Literatura é cultura.Asas da Palavra MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: anotações em torno de Marajó Sílvio Holanda 1 Ler Dalcídio Jurandir impõe ao crítico o desafio de romper dicotomias do tipo local/regional. torna-se introspectivo. não se cingindo apenas pelo fluxo e refluxo das marés. memória . no entanto. firmando-se. Barthes e outros).

ainda está inédito). p. 3 PAES. diante desse contexto interpretativo. 1970] Série “Extremo Norte” 1967 1971 1976 1976 1978 1941-1970 BRANDÃO. a miséria. Marajó. o que é tão discutível quanto a miopia interpretativa adstrita ao perímetro da literatura regional. Benedito. Dalcídio Jurandir. São Paulo: Cultrix. 1992. José Paulo. sem. dos quais nove já estão publicados (Ribanceira. 1991. por vezes.” 2 4 Eis um quadro sintético da série “Extremo Norte”: Chove nos Campos de Cachoeira Marajó [escrito em 1939] Três casas e um rio Linha do Parque Belém do Grão Pará Passagem dos Inocentes 5 6 82 1941 1947 1958 1959 1960 1963 NUNES. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. interpretável mesmo por um leitor que não tenha navegado pelos rios Arari e Marajó-Açu. tornar incompreensível a construção hiperbólico-metafórica "rios de miséria e febres". são. o item lexical regional japiins (pássaro de plumagem negra) referencia uma dada região brasileira. Nessa série cíclica. não por adesão sub-reptícia a um colonialismo interno que. . dos vaqueiros que fediam a couro e a lama. os demais romances de Dalcídio Jurandir integram a série “Extremo Norte”. traduzindo. 182. a validação estética de Dalcídio Jurandir precisa ser problematizada. Lidando com um texto não-canônico. no entanto. Todas as citações de Marajó se referem a essa edição e serão indicadas pela abreviatura M. na verdade. propõe-se o romancista a fixar. ("Na cidade. a que o linguajar pitoresco da região empresta cor local. 315. que se deverá compor de dez volumes. A recepção crítica de Dalcídio Jurandir não deixa de salientar. p. o drama social da opressão do homem sobre o homem. Separados pela análise."(M. Esta comunicação propõe. 3. a partir de Benedito Nunes. quanta noite de champanhe. no entanto. Junito de Souza. São ficções que apresentam uma interiorização muito grande. tais como: a imagética do caos. pela linguagem. que seus romances "formam um imenso ciclo amazônico que guarda. À base de reminiscências autobiográficas. seguida do número da página. Dalcídio. 2. segundo volume da série Extremo Norte4 . uma leitura de alguns aspectos temáticos do romance Marajó (1947). Primeira Manhã Ponte do Galo Chão dos Lobos Os Habitantes Ribanceira [esc. considerável distância das experiências regionalistas. ed. as aventuras de uma experiência interior"5. reduz o texto dalcidiano à circunscrição de um regionalismo sustentado tão-somente pela observação e pelo autobiográfico3. ed. com preocupações ora de análise intros-pectiva. a vida ribeirinha de Marajó e aspectos sociais de Belém nas últimas décadas. em termos de ficção. p. o que impõe a fome. a representação do mítico e do feminino e a crítica social. No fragmento citado. Belém: CEJUP. tais temas.. se fundem no texto dalcidiano. 206: “Com exceção de Linha do Parque (1958).Asas da Palavra MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: anotações em torno de Marajó que espremia da terra aqueles rios de miséria e febres caminhando para a baía"2.. v. Assim. Entrevista a José Castello. o preconceito contra o caboclo. no entanto. 1. ora de levantamento sociológico. JURANDIR. tal fixação se faz. 1980. numa prosa algo difusa. longe da vila. espremido do suor e do sangue daqueles caboclos. cada vez mais densa. Petrópolis: Vozes. 18). In: Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira. concluído em 1970. a crítica simpatizante não pode incorrer no equívoco de uma afirmação apriorística do valor estético da obra dalcidiana.

estão presentes também a dor provocada pela morte e a idéia de uma infância destruída. O desejo de uma inércia em que todos os desalentos se afundassem. os gigantes e deuses antigos da velha geração. “A concepção do caráter primário do elemento marítimo de cujo interior surge ou cria-se a terra apresenta. Bem mais raro (exemplos típicos são o escandinavo e o iraniano) figura o motivo do surgimento do mundo em decorrência da interação de dois elementos: da água ou do gelo com o fogo. p. uma natureza universal e essa concepção pode ser encontrada em quase todas as mitologias do mundo. M. 1992. inserindo-se numa dimensão mais ampla de experiência humana: O rio. cobra. 11: “A sombra do sangue dentro do olhar. segundo Mielietinski.. o retorno àqueles terrores de menino diante do sono que o assaltava na sombra da rede sem embalo. dos sustos que Mariana lhe dava. E. Mito e realidade. [. todos os vagos ímpetos morressem para sempre. identificamos uma imagética do fragmentário. [. reduziram Guíta àquele bagaço de cabelo e sangue e àquele redemoinho na consciência. o Caos é anterior à criação e à ordem6. dos latidos do cão naquela noite chuvosa em que. 282-3.” (p. as imagens do tédio e da infância misturando-se. o ponto de partida do processo cosmogônico: O caos se concretiza em sua maior parte como trevas ou noite. Na construção da imagem. subiu o rio morto. sementes. do vazio para a substância. Rosa Maria Coelho de.] Na mitologia indiana existe a concepção das trevas e do abismo (a descrição do inexistente ou Asat como terrível abismo subterrâneo). o pranto silencioso no seu ombro. em algumas culturas. sendo. a imagética do caos e do desalento não traduz uma adesão irrestrita a uma visão mítica da cultura amazônica. há referências à cultura amazônica . como estado amorfo da substância no ovo. considerando o Cf. com ele o medo daquelas trovoadas que arremessavam árvore contra os homens. o vazio contra a substância do cosmo. bem como sob a forma de certos entes demoníacos (ctonianos). da destruição para a criação. no entanto.” 8 ASSIS. seus cabelos sobre o poço. 240-241.. O vocabulário popular em Dalcídio Jurandir. O estirão foi se distanciando. do amorfo para o formalizado. 13. vômito das cobras grandes que rabeiam nos poços fundos9. tais como a serpente-dragão. da água para a terra. pedaços de ilhas desmanchadas. A valorização das irrupções do sagrado no espaço cultural amazônico está presente na crítica da literatura amazônica. Na poética do mito. Cf. como água ou interação desorganizada da água e do fogo.Asas da Palavra Silvio Holanda A IMAGÉTICA DO CAOS E DO DESALENTO Personificação do vazio primordial. Na prosa dalcidiana. a treva contra a luz.] O rio engrossava. mas existe também a concepção acerca das águas primordiais geradas pela noite e o caos10. uma cobra de prata. São Paulo: Perspectiva. no barco do pai. 67: “Um tipo de embarcação a vela”. Em geral. do desmantelamento contínuo. Em Dalcídio Jurandir. passando por um trapiche abandonado onde (por que teria suposto?) devia haver um menino morrendo. a começar pela austra-liana. Mircea. 10 MIELIETINSKI. 9 M. o caos constitui o amorfo contra o formalizado. Vinha a saudade dela. A transformação do caos em cosmo é a passagem das trevas para a luz. assim. A poética do mito. da morte e do desalento7 . Belém: UFPA. a quentura da noite sobre a nua mulher no chão como um caroço de manga. Seria. cobra grande -. como vazio ou abismo escancarado. talvez uma verdadeira experiência da morte. Rio de Janeiro: Forense-Universitária. O mito como "irrupção do sagrado"11 não é a única questão proposta pelo narrador cujo olhar é pós-mítico. p.. p. M. 241) 11 ELIADE. 7 83 . resto da infância e da virgem. no fundo. A curicaca8 deslizava no visgo da cobra de prata. um sono no fundo do rio.rio. 1987. 1989. p.. Tais elementos não podem atribuirse apenas ao valor "documental". lodo. se desenrolava na sombra e ia urrar na baía. a maré enchendo trazia o bafo áspero de mato podre e de bichos. limo. o fogo tem significado cosmogônico e se en-contra como que no limite entre a natureza e a cultura.

(M.Asas da Palavra MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: anotações em torno de Marajó viés mítico como um traço de identidade cultural. de discutir se o escritor amazônico deve subscrever a apologética do mito em moldes eliadianos ou de. (M. (M. Veio a sombra avançando sobre o rio. (M. O rio.. (M. sensíveis ao poder dos caruanas. reverberando. (M. desde o indianismo de Vilhena Alves e do olhar antropológico de Inglês de Sousa. 47). (M. o mítico e o sobrenatural fazem-se presentes nas personagens dalcidianas. uma jibóia. A treva devorou aqueles olhos pesados de lágrimas. da inércia. da cobra grande. 40). o rio estremeceu como uma cobra que se acorda. morno. Como seria a morte ou esta é a consciência mesma? Um par amoroso de osgas caiu da parede. Soure dormia embalada pelo vento. 86). 327). Era preciso ir à vila e apressar Lafaiete em mais uma daquelas escrituras que seu pai sabia mandar fazer de maneira tão fácil e habitual. marcada como diria o Gaston Bachelard de L'eau et les rêves. vejam-se outros exemplos da imagética dalcidiana. (M. 315) O vazio que concretiza o caos se internaliza em Missunga: "Missunga sentia-se como aquela tarde. Que pensam as aranhas? E as osgas caindo no amor? As sensações da morte. 12). (M." (M. encantados com os sons que reverberam nas águas misteriosas do lago Guajará. (M. 29). de culpa iminente. As folhas pingavam luar como sereno. oco e morno. O pai desapareceu. O cemitério jazia numa paz doce. do amor físico. (M. No leve vento. à noite. . Continuou com os olhos cerrados. pelo devaneio gerado pela água: O sol mordia a água que se arrepiava toda. mas sob o império do mítico e do utópico. O mato foi se enrolando na escuridão como se a noite. (M. O rio parecia crescer. viver. pela voz da baía. O sol era um olho de boto vermelhando nas águas. 146). Antes de considerarmos a representação do feminino em Marajó. Missunga acompanhava aquele vôo claro e pensativo sobre o alagadiço e a solidão. Todos os fantasmas rodeavam-no. Como tudo lhe parecia morto naquela vila tão vazia como o seu destino. Trata-se. (M. uma cobra de prata. mundiado pelo sol.. Sua relação com o mundo velho e bárbaro da grande ilha e com o pai é lida através da poética do caos e do desalento. (M.. sob o céu baixo do estirão. Soprou a preguiça e estirou os braços na manimolência da tarde. 328). Embora discutido no nível da enunciação. O sono precipitou-se. (M. do estranho desalento e da extrema passividade diante do pai enchiam o escuro e imaginou um sono na beira do mato. rio vertiginoso e vermelho onde boiava como um cadáver.. movido por um esforço de libertação. quase insinuante e tocada. se desenrolava na sombra e ia urrar na baía. os açaizeiros bailarinos. os passos da onça à espreita. no mundo globalizado. 12) 84 . 316). 18). A frase boiou no silêncio como um bicho morto inchando na maré. 103). 256). 12). os lagos e as fazendas de Cachoeira. dos pajés. 33). Missunga invejou-lhe aquela velhice ciosa ainda do seu ardor. o devorasse. Descia pelas árvores um silêncio mole. (M. (M. Alaíde se delia no braço dele como sapotilha madura. num leito de mangueiras. muitas vezes. a que se soma a passividade diante do pai: Seu pai! Com essa exclamação que fez a si mesmo. daquela patriarcal jovialidade com a qual Coronel Coutinho sabia dominar os sítios e a vila de Ponta de Pedras.(M. como se os amazônicos tivessem o privilégio de. (M. do medo. na história literária regional. não sob a égide da razão controladora (Habermas). 282). 285). opor resistência a uma visão mítica que justifica a injustiça social. 19). penduravam-no na rede. 13).

por exemplo. as mulheres fundem-se à terra e ao lodo primitivo para suportar a opressão que sobre elas se abate. "[v]inha a saudade dela. p. o pranto silencioso no seu ombro. Branca]? Aquele ar de desgosto que ela tentava esconder. Madrid: Biblioteca Nueva. Alaíde parecia possuída pelo cajueiro. Sou sua irmãgaua. é o compromisso com o humano.Sou sua irmãgaua! Sou sua irmãgaua! Seu pai é meu padrinho! Sou sua irmã. que a imagética do caos e do desalento se projeta também no espaço do feminino. Vale destacar. se entreabre ao leitor: Levou-a uma noite para o igarapé. A maré vinha vagarosa do rio.Asas da Palavra Silvio Holanda A imagética do torpor se funde. Luis Lopez-Ballesteros y de Torres. Não pode evitar que Missunga a despisse. aqui. A morte inesperada” (M. Orminda14 . a quentura da noite sobre a nua mulher no chão como um caroço de manga. como na crítica de Erich Auerbach (Mimesis). para Missunga. as águas caíam da lua. Alaíde. 14 M. com a luta contra a opressão. e só a noite. estigmatizadas pelo preconceito dos homens e dos "brancos". o homem. calor. as construções imagéticas em Dalcídio Jurandir. No capítulo 41. La feminidad. 1968. beleza oca em meio à plenitude da fome. com peludo e escuro mistério. os cabelos de prata. afinal. 931-943. Ou brincando com Alaíde. E a cena erótica. (M. funcionais. lama gostosa na alma. . era o que Alaíde cobria com as mãos. do desalento. para além de uma mensagem monolítico-partidária. como uma filha das águas brancas. por vezes. integrando os temas aqui abordados. ficando horas de molho no igarapé. diante do corpo esmagado de Guíta. 33-34) Cf. tentou escapulir-se dos braços dele. o cheiro de aninga. as mulheres dalcidianas . Sigmund. O partido. 13 “E sua mãe [D. balançando o ramo. não é considerar-se feliz? (M. até as imagens da morte? Pensava tirar as visagens confusas. 2. resto da infância e da virgem.. parecia descer na lua cheia. como descascasse uma fruta. o hálito de Alaíde. Pobres ou ricas. v. As folhas pingavam luar como sereno. D. A serenidade na doença.. marcada por uma imagética telúrica e por interditos. pulsante e vívida até em suas entranhas. frutas rachadas no chão. E voltava com uma nova pergunta: isto. o corpo de peixe. Por que as imagens da infância.Ermelinda. fazendo.não podem ser compreendidas apenas em função do "retrato" etnográfico da ilha. branca era a terra. meio sumida entre as folhas."(M. enganchada no galho. o medo. Ao contrário. daquela fartura que seu pai lhe dera. Trouxera Alaíde. FREUD. Por que viera da cidade para aquele torpor? A solidão derramava-se nele como num poço sem fundo. de espingarda no ombro. Trad. Me largue. chupando taperebá. seus cabelos sobre o poço. 22). imaginárias caçadas. associam-se a uma crítica social plena e múltipla de sentido. 13) Pode-se inferir que os processos estilísticos dalcidianos não são meros ludismos lingüísticos. Guíta . 33). In: Obras Completas. Branca13 . com as imagens da morte: A terra lhe transmitia uma espécie de estupidez amorosa e invencível."(M. a quebreira da solidão. 12 85 . meros ornatos excrescentes ao "documentário". 148: “a livre e louca Orminda”. O FEMININO12 Capazes de se aproximar do coração selvagem da vida. 282) O feminino dalcidiano erotiza-se pelo enlace da mulher à terra e à natureza: "Colada ao tronco.

procedente de branco). Gilberto.. (M. de madrinha do povo. 27). Você lá conhece o que é ruindade de índio. Torcido e fiado saía o algodão para os velhos e rústicos teares em que as negras trabalhavam fazendo redes.um dos elementos básicos do patriarcado na descrição clássica de Gilberto Freyre15 está entranhada no trabalho cotidiano das mulheres como nhá Benedita.Não sabe o que é mato.Missunga carrega em seu coração não a história. netas de escravas? Batiam algodão nas madrugadas com dois maços de palmeira caraná sobre um almofadão. 193) FREYRE. meu filho. é um homem quem descreve a mulher: Sim.Asas da Palavra MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: anotações em torno de Marajó No mundo de patriarcal jovialidade (M. 47-48) A mulher cabocla (do tupi kari'boca.. Rio de Janeiro: José Olympio. negra. mas a carta de alforria que Benedita guardava.Gostei sim. escrava. quem bate mais algodão? Não quer mais açaí? Não? Então não gostou. (M. Até as cobras eram mães. não temos vergonha. cabocla. traz o estigma da mestiçagem (branco/índio). 185) Sentia-se [Guíta]. mais mulher. Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária. assim. obscuramente. 12). como o ar de terra semeada. lama gulosa. acordando a vila nas madrugadas. Margarida. presta-se tão-somente à gratificação sexual dos brancos. In: Casa-Grande & Senzala. de protetora. . a mulher assume a condição ainda de um ser viscoso e ligado à terra nos seguintes excertos em que.. (M. pelo recurso ao discurso indireto livre.Você não sabe que uma cabocla besta dessa lhe pode fazer mal? . (M. 85-200. meu filho. v. A memória da escravidão . 1946. 66) "Senhora". Naquela noite as árvores avançaram para ele: Somos mãe. De índio! Afinal você deve partir. portadora de um saber deslocado por novas relações sociais e pelo próprio tempo: O açaí de nhá Benedita trazia o sabor do antigo tempo quando havia escravos em Ponta de Pedras.Eu lhe conto porque nunca mais você pega desse tempo. 15 86 . como no diálogo seguinte entre o coronel Coutinho e Missunga: . Hoje quem é que faz rede. Branca não escondia o seu ar de senhora de engenho. O homem branco jamais deve amá-la sob pena de cair sob o influxo de uma maldade atavicamente concebida. não sabe o que é uma cabocla quando pega rapaz.Mal? . como um rumor de tambor surdo nas palhoças. Alaíde era lodo das águas vivas.. (M. p. Maria de Nantes. escravocrata e híbrida. . que fim levaram Catarina."(M. E aquela cabocla a lhe dizer que o mostrengo tinha a cara dele. 1. Era a "batição". . 178) Aquela coisa naturalmente viscosa [o feto de Alaíde] sangrando. no mundo dos valores de que faz parte o coronel Coutinho. tia Benedita. marca de uma colonização portuguesa ainda presente nos nossos dias. o feminino pode assumir a forma de amparo social: "D.

Que fez no mundo para ter o castigo daquela amizade? Amizade era a sua palavra de amor. pensou.. Branca. compreendeu instantaneamente que ele apenas a desejara e a deixaria para sempre com aquele golpe lhe doendo como picada de formiga tocandeira. Lisboa: Sá da Costa. Afonso VI. Antônio. Teve um súbito e logo contido impulso de se atirar no poço. 269) Porque a terra vinha na água que a banhava e lhe cobria a pele de cabocla como os rios. 349) Na relação com o branco Missunga. p. em Missunga. datada de 28 de novembro de 165916 .já está presente na epígrafe de Marajó. a mão no queixo.] Quando viu Missunga puxar um balde de água. está regido pela interdição e por um profundo sentimento de culpa social em relação à mulher. os encontros com a infância. comunicavam-se com os cheiros. batida de necessidade. (M. de chão queimado. preso irremediavelmente a um mundo que. entregues com sofreguidão ao cio. apanhavam turu. (M. Ela via então naquele homem uma criatura já diferente. 1. VIEIRA. velha Felismina permaneceu muda. dois ladrões. o desejo. Carta 21. Nhá Felismina nos revela que a condição materna tem um componente que escapa a toda metafísica de uma essência feminina: a impotência causada pela velhice e pela pobreza: Em pé. muitas vezes se tornava quase medroso ao abraçá-la. apesar da profunda culpa relativa à sua condição social e de sua terna malícia. escolhiam camarões. recordava cenas e cenas em que brincavam juntos em Paricatuba. Ele chamava. 142) Mais forte. no buraco dos paus pobres" (M. a moleza e o torpor que havia na mulher e na terra. enchendo. reviravam lama. 192-193) A feminidade do espaço . como as plantas e as chuvas. à cabocla: "Imaginava luvas para aquelas mãos que arrancavam guelras. 1951. se passava para a sua família. invocava o nome da mãe para ganhar confiança. embora não tenha a brutalidade dos garanhões felizes. Caboclo não conhece o amor pelo nome. [. a palavra de seu povo quando ama. vendo a lamparina apagar-se lentamente. como seu pai. v. Sou uma pobre. paradoxalmente. considera bárbaro: Voltavam as noites em que esperava Missunga à beira do poço. Um filho morto.Asas da Palavra Silvio Holanda Alaíde. junto ao fogão. 87). atrás de sua barraca. Sua [de Guíta] maternidade se fundia com a da natureza. Alaíde tem consciência da sorte que cabe à mulher no mundo regido pelos coronéis e/ou fazendeiros: Missunga. Falava em D. resinas e raízes esmagadas. há de abandonalá. 16 87 . prefácio e notas de António Sérgio e Hernâni Cidade.referência à lenda das amazonas . cega e tonta para os encontros com Missunga. como nunca. sob o olhar de sua mãe. retirada de uma carta do padre Antônio Vieira ao Rei D. (M. 196-220. In: Obras Escolhidas. o cheiro das árvores. Nesse contexto de vinculação do feminino ao telúrico. (M. correu.. os desejos. Quando Orminda se entregou a Capitão Lafaiete. Pe. iluminava-se daquele impudor tranqüilo e vigoroso da terra. O outro nunca mais voltava da contra-costa. água estagnada e frutos brabos que apodreciam. cobrem de lodo a várzea e as ilhas nascentes. com terna malícia e gravidade. libertos de toda peia. Naquele castigo. falava a sua linguagem. de sofrimento.

em última análise. e pelos santos do oratório de miriti. Cindido entre o novo e o velho . teve a mesma sorte. (M. o Coronel Coutinho . Orminda. tição de fogo acendendo cigarro de homem à porta dos fundos e o dia em que Das Dores se esvaiu em sangue com um parto sem explicação. Ele a ensinaria a amar. do patriarca da vila. buscando-se diferenciar-se do pai. voltando do delírio. um quarto. 75) A mulher. A realidade era a morte da moça. o filho do coronel de Ponta de Pedras. 271-272) 88 . foi serenata toda noite. lhe fixara. (M. Missunga fracassa." (M. ter o pungente heroísmo de olhar fixamente para dentro de si mesmo e retirar a face da morta como o primeiro gesto de reconciliação com o mundo e de aceitação do sofrimento? Com Orminda fracassara. brotando das condições sociais: Aquele corpo de moça tinha misteriosamente desassossegos. Na sua relação com Alaíde e Orminda. Riu. toda a sua condição de homem opressor e infeliz. recolher todos os seus irmãos dispersos. era parte do latifúndio." (M. Alaíde era mansa como a terra sentindo as raízes. o poder da vida. através desse esboço de remorso. Em vez de uma lua na caixa de fósforos havia um corpo naquela saia encarnada da pimenteira. escuro e anônimo. A filha mais velha. tentando abrandar as condições de vida implicadas por uma ordem social que combate. Não devia casar. Foi violão. 272): Não seria possível. afinal. mas da qual. num relâmpago. a inquietação das árvores sob a trovoada. 300). cochicho de homem no terreiro. a Das Dores. Romperia com o pai. clamor de todas as mães de prostitutas e Ladrões.cisão intensificada pela morte de Guíta -. a fazer de seu corpo uma perfeita máquina de prazer. mas esse fracasso diz menos dele do que duma ordem social que tece uma rede de opressão e de morte mesmo em torno daqueles que individualmente queremos proteger. tão tranqüilo. mesmo no sono. em conclusão. o deixava extenuado e tão amargo como se fosse ele o doente. quer romper com o passado. que traz o amargor para Missunga: "Aquele poder de vida. Guita não devia ser possuída pelos brutos da terra. tão natural com uma animalidade inocente. Nem sentiria se a mangueira tombasse. dessa nova solução. Seria possível estender a mão para Orminda através daquela morte? Verdadeiramente desejou um grande amor pela morta [Guíta] . arrancar uma nova vida. tão inocente em certas horas. o banheiro de folhas de açaizeiro para esconder no banho aquela intimidade tão conhecida pela mala aberta.Asas da Palavra MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: anotações em torno de Marajó Seu silêncio era um clamor na sombra. não chegava ainda a pensar se podia romper consigo mesmo. que havia naquilo a sensação quase do incesto. as marés.garanhão feliz -. não consegue libertar-se. na ilha ficcional de Dalcídio Jurandir. que o fizesse romper com o pai e salvar Orminda. uma vez que "ao pai e ao tio sua vida pertencia. contrapõe à impotência masculina de Missunga no sentido de se libertar do mundo bárbaro do Marajó e de suas estruturas sócio-econômicas arcaicas. (M. em reflexão profundamente introspectiva. foi flauta. Se abandonava com um jeito um pouco distraído. Missunga quer proteger o feminino de uma brutalidade que nada tem de intrínseco ao masculino. em Alaíde. 101) Simultaneamente. a exuberância solta do povo.

define as características gerais do pensamento mitológico. 5-9: “Avant qu’existassent la mer et la terre. amas en un même tout de germes disparates des éléments des choses. o que estabelece a inseparabilidade entre o homem e a natureza. entregues. marcado pela reorganização do espaço social pela organização patriarcal. LIMA. tendo por função mais importante a manutenção do cosmo contra o caos. quando sabemos que três ou quatro famílias dividem entre si a maior ilha flúvio-marinha do mundo nos termos de uma geografia ufanista que esconde as misérias das Alaídes e das Ormindas contemporâneas. la nature sur toute l’étendue du monde. O leito das cobras grandes foi demarcado pelo latifúndio. sans liens entre eux. valemo-nos da idéia de ficção. sendo guardado pelos rifles dos coronéis. 18 19 89 . espiando o sono dos pobres. n’offrait qu’une apparence unique. a partir das formulações téoricas de Wolfgang Iser18 e Luiz Costa Lima19 . vv. num processo que se espraia até nossos dias. Johannes Kretschmer. Caiu então um silêncio de princípio de mundo em que os homens se misturavam com os bichos deslizando nas águas e na lama. Minha leitura da obra dalcidiana. mas como problematização da verdade. uma vez que tais imagens extremamente belas surgem mais como a descrição do mundo anterior à "desmitologização". 2v. Quem dixere Chaos. 1996-1999. 1953. 448p. Trad. funda-se nos conceitos de desmitologização e de um tempo pós-mítico. lhes pertencia totalmente. 2. na espuma das enxurradas e na folha dos morurés. Les Métamorphoses. provocada pela nova ordem senhorial. 1990. não como verdade. ao império da fome e do analfabetismo: O lago [Arari] se espalhou pelos campos. Sociedade e discurso ficcional. p. 34. Luiz Costa.. 20 LOUREIRO. ainda. masse informe et confuse qui n’était envore rien poids inerte. indiquemos o conceito de caos em Ovídio. [. A imagética romanesca aproxima-se. em Marajó. Cultura Amazônica — uma poética do imaginário. que Paes Loureiro leu sob a égide do imaginário20 . 1986.. Na mitologia estilizada das Metamorfoses. 436p. Mesmo aqui não há a afirmação da vigência atemporal do mito. recorrendo à imagem de um lodo primitivo. "Marajó para Coronel Coutinho e alguns fazendeiros grandes era um mundo à parte. bateu de leve debaixo dos jiraus. 21 OVIDE. para nos furtar a radicar o valor desta obra justamente na veracidade descritiva em relação a uma cultura amazônica."(M. ce qu’on a appelle le Chaos. Paris: Garnier. Rio de Janeiro: Guanabara. evitando diluir este na psicologia e defendendo a idéia de que o mito "modela o mundo circundante por meio da narração da origem das partes desse mundo"17. do que como uma poética mítica.] ISER. sem negar a presença da oralidade em Dalcídio Jurandir. São Paulo: Ed. dessa idéia de uma massa informe anterior à criação. Fugindo à leitura puramente etnográfica da obra dalcidiana. apontemos algumas linhas de leitura das imagens cosmogônicas presentes em Dalcídio Jurandir. rudis indigestaque moles Nec quicquam nisi pondus iners congestaque eodem Non bene iunctarum discordia semina rerum21 . Antes de tratar desse processo desmitologização. estudioso russo do mito. Belém: CEJUP. o caos é uma "rudis indigesta moles"[massa informe e confusa]: Ante mare et terras et quod tegit omnia caelum Unus erat toto naturae vultus in orbe.”. O ato da leitura. privado. et le ciel qui couvre l’univers. ilhou as palhoças.Asas da Palavra Silvio Holanda O MÍTICO Mielietinski. 28). João de Jesus Paes. comeu as lonjuras. Wolfgang. Tome I.

confirmou a cabocla rindo. A noite desdobra o silêncio em que a voz de Leonardina caminhou para os longes. um apapá. apanhados pelas sucurijus e jacarés. nas agaçabas. o narrador cria um texto que engloba. Missunga via no fundo da água o rosto de Aristides. o caixão na montaria e dentro os botos e os navios encantados. que os vaqueiros e pescadores afogados estão no mundo dos caruanas e sim que nele estariam.. o rifle dos fazendeiros está na mão do vigia atento.” 23 “— Sim. 107) A referência aos caruanas22. O mundo das tribos mortas onde.. Os donos do rio não eram mais os peixes nem as cobras grandes. Recolhia a linha de anzóis com isca de pitomba e nem um aracu. no plano da enunciação. p.. Grande Enciclopédia da Amazônia. invocada para obstar malefícios ou desgraças. sem esse consórcio dialético e paradoxal. Não se afirma. Também na fazenda. ciente de que. a virar o peixe nas brasas [. Carlos. 1968.. No trecho abaixo. exemplo de uma união sobrenatural entre o homem e o boto23. A lenda e o mistério de Paricatuba desapareciam. (M. (M. 2. ao contrário. 260-261) A desmitologização dá-se também pelo desaparecimento dos contadores. — Ela foi esposarana do bicho um verão inteiro. — Deixem de graça.] ROCQUE. quando trabalham nos seus ritos e têm de desfazer qualquer feitiçaria.]”(M. A vazante levaria o enterro. o mítico e o não-mítico. transformando em forma literária aspectos sociais e culturais da ilha. de maneira rara na ficção brasileira. Daí o poder que ela tem. Aquelas chuvas e a enchente lhe davam um novo torpor. São propiciatórios tidos como patronos da família. percebe-se que o narrador não faz a apologia do mito como uma forma privilegiada e mais poética de aceder a uma compreensão do mundo. 450: “Divindade benéfica e secundária. sem cuja memória não se pode transmitir o encanto dos botos e dos navios encantados: Missunga recordava as histórias de seu Felipe. Nhá Leonardina. as mulheres que pariram filhos de bichos. A maré enchendo trazia a morte para o contador das histórias. quem primeiro fez vivença com ela foi o boto. Era o mundo do caruana onde estariam os vaqueiros e pescadores afogados. É que o autor de Três casas e um rio não precisa recorrer a um pseudofolclorismo para dar conta da riqueza e da identidade culturais da ilha de Marajó. Lembram os deuses lares da mitologia romana. força mágica que emerge de um fundo primitivo. fumam o cigarro de tauari. Belém: Amazônia. conheceu. uma voz de criança e de louca. Madrinha Leonardina fez vivença com o bicho debaixo das pe-dras onde nasce a pororoca. v. 226-227) 22 90 . Capitão Guilherme. O vaqueiro prosseguiu: Leonardina amarrou o casco na anin-ga perto do Moirim e esperou pororoca estourar nas pedras. e chamam em seu auxílio os caruanas. mas Coronel Coutinho. agitam o maracá. as piranhas devorando Gaçaba e Mariana de coxas molhadas e lisas em que o menino escorregava à beira do igarapé. Os pajés. não se pode compreender uma das formações sociais mais singulares da cultura amazônica: A pajé enrolou-se toda no fumação que traz a misteriosa força do fundo. Ofende? — retru-cou Orminda fazendo-se íntima e isto animou os homens. Em vez de pororoca veio o boto que soprava para a lua minguante. permite a discussão sobre o papel do mágico e do mítico (se considerarmos as referências aos caruanas como narrativas). [. os velhos pajés se encantaram. a suspensão da vida. as meninas desaparecidas. Sinhuca Arregalado.Asas da Palavra MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: anotações em torno de Marajó Nos lagos próximos onde há peixe. Assem esse peixe logo. Tudo voltava ao lodo primitivo. forma verbal denunciadora de que não há por parte do narrador adesão completa aos valores da personagem. a solidão da água. a explicação da feitiçaria.

A água parada. vozes de afogados. por que perdi. bois bufavam no fundo. [. Nele assistimos ao momento em que Nhá Leonardina perde seu poder evocatório relativamente aos caruanas. perdeu a memória dos encantamentos. lembrança de um outro Marajó mítico. Para ele os caminhos não vinham das águas do mar e dos campos mas das dores do homem. faz-se denúncia. a minha força de enfeitiçar e de fechar os corpos contra o alheio enfeitiçamento? [. Nhá Leonardina olhava o céu. devemos considerar as referências à lenda do lago Guajará e ao mestre Jesuíno presentes no capítulo 49: Guajará era um lago falado. assim. 91 .. a mesma água do encantado que vem do mar. morador na estrada de Joanes para Condeixa. O reino da feitiçaria. apóstrofe contra o mundo da opressão social. ronda em torno das sessões da meianoite. é o capítulo 34. bem como para o narrador dalcidiano os caminhos romanescos vêm das dores do homem. E em vão Orminda tentava levantá-la e conduzi-la para a barraca. ninguém ousava pescar ou atravessar à noite no lago Guajará. Cavalo Marinho? Onde perdi meu corpo bonito. 258-9) Finalmente. O silêncio de Jesuíno era como sono. bichos do fundo. o fumo do cachimbo perdeu o dom do mistério. de todos os náufragos e de todas as lágrimas. as águas e tremia. subia o hálito do lodo e do moruré. (M. (M. Os vaqueiros contavam: tinha comunicação com o mar. O mítico. Para onde o fumo que enche as almas. mais bonito que o de Orminda? Por que dei meu corpo para a pororoca. pedaços de velas. embalsama os feitiços. onde o poder das palavras? Quem cortou a língua de feiticeira que os donos do mundo temiam? Corria ao longo da praia.. lemes.] A sombra do jupatizal caía no lago. Aquelas palavras não tinham mais significação para o caruana com quem a velha Leonardina tivera uma vivência tão longa e tão misteriosa. Com esses poderes o pajé ditava a receita e emplastava a esperança no peito do povo. 323-324) Para Mestre Jesuíno. com ele. nessa discussão sobre a interação mítico/não-mítico.Asas da Palavra Silvio Holanda Um dos capítulos mais relevantes. pelo fundo da terra. boiavam quilhas de barcos. queixa ou súplica. puxa dos poços e dos lagos as vozes da vidência? onde estás. Perdeu a voz. Aquele corpo parecia enorme como o lago abrindo as margens para os descampados tristes. a voz de resistência ao mando dos poderosos: A pajé perdia o poder da invocação... a maré enchia e vazava.] Os caruanas não voltavam. acusação. acompanha os destinos. a lenda enchia os campos. desaparece e. Aquelas palavras.

e o que interessa é averiguar que fatores atuam na organização interna. quanto o outro. 24 92 . No princípio do mundo não foi o dilúvio? Você perdia dinheiro e não fazia nada. em Missunga. Nacional. 1967. A descrição da cisão interna de Missunga. E não deixou uma grande fortuna? Trate de formar-se e esqueça os projetos.Asas da Palavra MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: anotações em torno de Marajó O SOCIAL Incrustada nos outros temas." (M. é um dos pontos máximos da arte dalcidiana: . com efeito. 311) -. foi o zebu. o mestre uspiano defende. In: Literatura e Sociedade: estudos de teoria e história literária. p. menino. do mundo sólido e bárbaro. nem "como significado. 4. o social) importa. ibidem. portanto. o núcleo do problema. segundo a aguda análise de Antonio Candido. interno. pois quando estamos no terreno da crítica literária somos levados a analisar a intimidade das obras. a partir da idéia central de que. O resto deixou que tudo viesse com o tempo. etc. a prioridade da análise estética em relação a outras abordagens do texto literário. o mundo sólido e bárbaro que precisava conservar. aconselha ao discípulo: .. por outro lado. norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente. um fracasso existencial da personagem de mudar situações sociais a partir de uma espécie voluntarismo social: as estruturas anquilosadas perduram contra o indivíduo. em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos.. tornando-se. Antonio. o velho e bárbaro marajó vs. nesse contexto. Antonio. se combinam como momentos necessários do processo interpretativo. Fazia o que a lei da natureza mandava e deu-se muito bem. § É este. 311) CANDIDO. p. Em Marajó quem manda é a providência. o romance Marajó permite se estabeleçam fatores atuantes na organização interna. Não acredito em doutores de gado. contudo. no texto mencionado. uma vez que Dalcídio Jurandir transforma a conflitual do real (grandes proprietários vs. A permanência do mundo velho. e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra. Já ouvi falar na engenharia na Holanda mas isto é lá para os holandeses. vaqueiros. (M. não como causa. afirmada pelo narrador. São Paulo: Cia. O que Deus lhe dá basta. 25 CANDIDO. (M. de maneira a constituir uma estrutura peculiar25 .24" Refletindo sobre as relações entre crítica e sociologia. o externo (no caso. Mestre Raimundo. na dialética da obra literária. a reflexão sobre a sociedade marajora pode ser concebida. O gado não cresce e não se multiplica? Coronel era homem sem projetos. Só uma coisa ele trouxe pra cá.. o novo Marajó. com as quais. ainda culpado preso ao status quo por herança .". a crítica precisa interagir dialeticamente: Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas.) em elemento da fatura romanesca.. revela. mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura. Ed. Isso só melhora quando Deus mandar. Considerado a partir da formulação acima. 311). guia deste no mundo da propriedade. 4. dividido entre o novo e o velho.Ponha estes projetos de lado e consiga o seu diploma. administrador de Mussunga. Crítica e sociologia. o mundo sólido e bárbaro que precisava conservar. menino.

Esperava o barco motor para seguir até Belém e de Belém partiria para o Rio. então. que impôs formas extremas de violência social como a morte do indígena. Missunga preso ao seu mundo. muito estudante pobre copiando dos livros que não podiam adquirir. 320) A opressão passada e presente. / Campos do seu pai. Desgraçados! Se espreguiçava com os seus cigarros e as suas contas a pagar. rico e inútil. Os trenzinhos da Estrada de Ferro tuberculosos tossindo pelos apitos. malhadas. num leito de mangueiras. Cachoeira. currais. apontar apenas a magia. 207) 26 93 . é descrita como um enlace de sofrimento e magia. perdidas aqui e ali nos descampados.. Anajás. um imprevisto e ousado passo que dera! / Respeitável. Assim. longe dos ouropéis turísticos. Tudo ali parecia apodrecer. (M. o garçom. pela voz da baía. era como a essência daquela paisagem sulcada de sofrimento e magia. incômoda sabedoria! [. era a Hilda.] Missunga soube. (M. patriarcal malgré lui26 : Abriu a janela. com pena. a miséria e a morte se confundiam. as tristes mulheres espiavam. o tênis. Belém crescia na várzea lodenta sob as chuvas. é romper a via dialética de compreensão da cultura amazônica pelo narrador: Não pôde fixar nenhum sentimento que correspondesse àquela música dos miritis. seiva e silêncio subindo nas plantas selvagens. Soure. (M. traduz-se na dura inquietação do filho do Coronel Coutinho. advogados e comerciantes. Belém era Adelaide morrendo pelo marinheiro negro. é ver apenas parte do universo romanesco dalcidiano. Soure dormia embalada pelo vento. era o luar. Decorar noventa pontos! . Meninos nus e ariscos fomeavam no quarto escuro onde o amor. “Missunga atravessava os campos. o narrador denuncia ainda a hipocrisia religiosa da elite paraense de início do século XX: Ouvia com indefinível azedume o ora pro nobis monótono pingando daquelas bocas fiéis a Nossa Senhora. lagos. A Basílica exibindo em mármores e vitrais da Itália a vaidade e o temor de Deus dos fazendeiros. Não era a madrugada. como passar na Faculdade. as letras do jogo e o enterro da mulher. Os miriis moles se desfaziam nas mãos dela como para agradá-la. no primeiro ano da Faculdade de Direito. Ela ficava solta na terra. dentro do viés de que olhamos a obra. 327) O romance permite ainda uma reflexão sobre a formação da elite ilhoa a partir de instituições como a Faculdade de Direito (Largo da Trindade): Ele via.. Haveria de passar muito tempo para se libertar da morte de Guíta. de pagar-lhe o hospital. Sentia-se como despojado daquela religião com latim errado e fé bem certa.Asas da Palavra Silvio Holanda A paisagem de Marajó. a grande propriedade ao longo da ilha. Os cabelos inocentes de Alaíde ficariam verdes entre as palmas e os morurés. Chaves. veja só. junto ao mestre amigo. Nas palhoças de vaqueiros. Se mestre Jesuíno tivesse adivinhado a sua história? E por que tantos mortos no seu caminho? (M. cercas de arame. O direito não era conquistado através daqueles compêndios hostis e daqueles inacessíveis ventres que se petrificavam nas cátedras e sim pela honrosa possibilidade que o estudante obteria. 31) Valendo-se de construções estilísticas comparáveis às ecianas (pingando daquelas bocas fiéis). desovando na solidão o seu pensamento desasado e miúdo. Cf. os ais dos desenganados e o silêncio dos que esperavam salvar-se. As últimas chuvas amoleciam o resto de caráter daquela gente de cima. os carapanãs e a Fé na Virgem de Nazaré.estava já.

Rosa Maria Coelho de. subiu-lhe o velho desalento de Paricatuba. JURANDIR. In: Obras Completas. BRANDÃO. em síntese. tinha um altar. 100p. não dava para nada. Estou morto. 1996-9. Dalcídio "volta" à Belém de seu tempo. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. vencido pelas estruturas arcaicas e pela barbárie. Sigmund. Josse. Chove nos Campos de Cachoeira. Eutanázio. Todos os fantasmas rodeavam-no. Modernos ficcionistas brasileiros. Rosa. Veio-lhe a náusea da casa do mestre Jesuíno. 76p. FARES. O vocabulário popular em Dalcídio Jurandir. 90p. reveladora da morte do novo em Missunga. Belém: UFPA. capacidade essa que nos faz lembrar o autor de um outro ciclo (Port Wine). Belém. O ato da leitura. Edição crítica de Chove nos campos de Cachoeira. 52) O segundo romance dalcidiano. no âmbito da prosa brasileira. Belém. 16 jun. ALVES. 387p. ISER. (M. nos domingos de maio. que se manifesta ao longo do ciclo. FREUD. FREIRE. O sono precipitou-se. n. rio vertiginoso e vermelho onde boiava como um cadáver. Luís da Silva: decrepitude e angústia no romance de 30. gostaria de ler um trecho de Marajó. a representação fantasmática do feminino. 1998. Mito e realidade. Gylberto. 34. 2a série. Sua família tinha um vitral na Basílica. O Entorno da serpente: um discurso do imaginário tecido em verbo e imagens. ASAS DA PALAVRA. 1998. 1998. as pernas pesavam. 1991. 1992. 1941. p. Marinatambalo: construindo o mundo amazônico com apenas três casas e um rio. La feminidad. Campinas: ABRALIC. penduravam-se na rede. Rio de Janeiro: Vecchi. dizia. 208p. Para nada. 2v. ELIADE. ASSIS. Campinas. Dalcídio Jurandir. 1984. Rosa Maria Coelho de. Marli Tereza. Junito de Souza. pela superação da contraposição estanque do instrospectivismo de Presença e do compromisso social neo-realista. E com seu impetuoso desejo de partir. São Paulo: Ed. trecho singular em que todos os temas por nós abordados . Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2. 183p. um automóvel. O Liberal.a imagética do desalento e da morte. os nervos sob agulhas. 1968. Anais do IV Congresso Brasileiro de Literatura Comparada.Asas da Palavra MITO E SOCIEDADE EM DALCÍDIO JURANDIR: anotações em torno de Marajó Rico e inútil. 133p. Dalcídio. Rio de Janeiro: José Olympio. 328) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADONIAS FILHO. rompendo dicotomias. São Paulo: Perspectiva. espumando. Madrid: Biblioteca Nueva. FURTADO. Noite imunda aquela em que o pajé dançava no braseiro e as banhas chiavam no fogo dos sofrimentos. Dalcídio Jurandir: da re-velação da Amazônia ao Sul. PUC-RJ. saía-lhe o sangue pelos cabelos. Olinda. a dimensão social integrada à fatura da obra . Wolfgang. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Evidentemente estava morto. Por que os mortos não me reconhecem? Por que entre eles não vê Alaíde.se fundem plástica e indissociavelmente em uma unidade. ASSIS. Trad. 2v. Petrópolis: Vozes. Johannes Kretschmer. 1965. as mesmas estruturas arcaicas e a mesma barbárie que puseram fim à utopia político-social dos cabanos: Deitou-se novamente. Rio de Janeiro. 4. 4. Casa-Grande & Senzala. sem saber coisíssima. Rio de Janeiro. 931-943. 1996. Luis Lopez-Ballesteros y de Torres. de articular dialeticamente introspecção e denúncia. 790p. não distingue a mãe e Guíta carregando um enorme tronco no ombro? (M. 94 . Antes de concluir minha comunicação. Belém: UNAMA. Mircea. Dissertação de Mestrado. 2001. 5. Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Enilda Tereza Newman. 1989. pela capacidade de. BATISTA. ASSIS. 1999. 257p. v. p. Cartaz. 1946. ressai. 2v. Trad. 1991. Tese de Doutorado em Letras (Literatura Brasileira). Alves Redol . Belém: UNAMA. Vinte anos depois. com uma criada para distribuir pelas igrejas as esmolas anuais que Deus pedia.

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Os santos na mesa. que não faço milagres. Quero abrir uma janela.Asas da Palavra “Novamente na pedra. nessa pedra. as três cadeiras velhas. o Santo Antônio: te desengana. meu filho. Novamente na pedra. A máquina de costura. Toda faca. acha o seu gume?” 96 . Roçando a cabeça na palha do teto.

na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O autor traça um painel da Amazônia decaída pós auge do ciclo da borracha e nos revela as fantasmagorias desse ciclo econômico na região. em seguida melhor situar o autor na História da Literatura Brasileira. adquire consciência de classe social.ª Enid Yatsuda Frederico e defendida no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). orientada pela professora Dr. Resumo da tese de doutorado. que já começa. O objetivo de nosso trabalho é a análise do ciclo romanesco de Dalcídio Jurandir. dividido entre o universo erudito do pai e o popular da mãe. distanciada do naturalismo de grande parte da produção da década. sob a perspectiva das personagens e do ambiente em que atuam. e. gradativamente. em abril de 2002. Palavras-chave: Jurandir – herói . no sentido de produzir uma obra sempre inovadora. dez deles pertencentes ao ciclo Extremo Norte.Amazônia – decaída. de menino do interior a rapaz urbano. É visível o trabalho de Dalcídio Jurandir em aprimorar as técnicas narrativas de romance em romance.Asas da Palavra UNIVERSO DERRUÍDO E CORROSÃO DO HERÓI em Dalcídio Jurandir Marli Tereza Furtado1 Dalcídio Jurandir (1909/1979) escreveu e publicou onze romances entre 1939 e 1979.Literatura Brasileira. em que segue a trajetória do protagonista Alfredo. 1 97 . para. em Trinta. que luta por aceitar-se mestiço.

em que Dalcídio Jurandir (1909/1979) reescreveu Chove nos campos de Cachoeira. 1963) e seguiu durante o período da ditadura militar. no mínimo. 2 98 Teoria do romance. se fez o objetivo de nosso trabalho. s/d. incidindo o foco nas personagens e no universo em que transitam. desejando ainda acrescentar um romance aos dez que compõem Extremo Norte. pós 64. quando morreu. Lisboa: Editorial Presença. 1958. Os habitantes. 1971. no sentido de produzir uma obra em que o esfacelamento é traço de composição. pós 64. Em ambas as décadas o que caracteriza a obra dalcidiana é seu caráter inovador. gerando dificuldade para enquadrá-la historicamente.Asas da Palavra UNIVERSO DERRUÍDO E CORROSÃO DO HERÓI EM DALCÍDIO JURANDIR Se considerarmos o ano de 1939. a segunda diz respeito aos diferentes momentos da literatura brasileira por que passou a obra dalcidiana. seguindo os passos da personagem Alfredo em seu trânsito da vila de Cachoeira para a cidade de Belém e da infância para a juventude. aparentemente sem grandes problemas com as censuras desses regimes. Se por um lado não foi censurado. que se outorgou o título de “cantor de uma aristocracia de pé no chão”. Para tanto. ficou à margem dos considerados bons romancistas de 30. Ponte do galo. nos apoiamos na tipologia do herói problemático de Georg Lukács2. seu romance de estréia. 1976. curioso o trajeto de publicação de Dalcídio Jurandir por duas razões: a primeira relaciona-se ao fato de ele ter-se iniciado escritor na ditadura de Vargas e ter “encerrado” a carreira na ditadura militar. entrou na década de sessenta retratando a Belém dos anos vinte (Belém do Grão Pará. insistindo na Belém decaída dos anos vinte (Primeira manhã. Dalcídio trabalha (e isso é o mais importante) as técnicas narrativas de romance em romance. matéria do capítulo que abre o trabalho e denominado Alfredo: trajetória de um herói derruído. jargão instituído para denominar a produção literária da década. Tradução de Alfredo Margarido. cremos. Chão dos Lobos e Ribanceira. justamente para não perder de vista o olhar social do autor. Na primeira. e Linha do Parque. 1960. tanto na década em que surgiu quanto na década de setenta. com retrospectivas aos anos áureos da borracha. Ribanceira. o segundo deles resultado de um compromisso com o PCB. não foi incluído no rol do então chamado “romance brasileiro dos anos 70”. ajudará a tirar esse escritor do limbo e renovará as páginas da História da Literatura Brasileira. 1968. e o ano de 1979. Nesse capítulo. 1959). de cunho acentuadamente social. na segunda. Estudar a obra romanesca de Dalcídio Jurandir. Passagem dos Inocentes. temos um percurso de quarenta anos nos quais o autor foi publicando seus livros e ao longo dos quais demonstrou obstinada persistência em dar cabo do ciclo a que se propôs na juventude. Chão dos Lobos. escrito em 1939). 1978). contribuiu nos anos cinqüenta com dois romances(Três casas e um rio. É. . 1976. e para poder justificar a complexidade e excelência de sua literatura. e Lucien Goldmann (1976). o que. que desconhece Dalcídio Jurandir de Os habitantes. por outro também não foi recebido como par dos autores considerados renovadores. publicou ainda nos anos quarenta outro livro escrito em 1939 (Marajó). Lembremos brevemente seu percurso literário: o autor surgiu em 1941 (com Chove nos campos de Cachoeira. a da consolidação do romance renovado. na chamada segunda fase do Modernismo. Ao mesmo tempo em que o autor persiste na pintura do retrato de Alfredo entre os dez e os vinte anos. e focaliza a Amazônia da década de vinte.

já de noite. com um teatro refinadíssimo. perceberemos o deslocamento daquele signo de erudição. deslocados. que encurtou a distância cultural entre a elite paraense e a européia. nos tempos em que a última erigia e desmontava palácios de cristal. não representavam um capitalismo consolidado. ostenta signos de progresso. livro em que Alfredo completa a passagem para a adolescência e no qual. para alojar a Grande Exposição Internacional de 1851. derruiu. de arquitetura moderna. edifício. 3 99 . Amélia. a personagem começará a aceitar-se mestiço e a valorizar a cultura popular local cuja grande representante no ciclo é sua mãe. é considerada a construção mais visionária e ousada de todo o século XIX. de distinção social. diante da ameaça de queda da casa. Major Alberto Coimbra. começando por Chove nos campos de Cachoeira. Trabalhamos o texto enfatizando a personagem de Lucíola justamente porque ela é importante para o processo de individuação do menino que volta amadurecido. ao efetivar o tão almejado sonho de estudar em Belém. uma vez que a Belém renovada por largas avenidas. ignorante de suas regras. Em seguida analisamos Três casas e um rio. assim como deslocados estiveram os Alcântaras. Desmontado e novamente montado. reconhecendo os resquícios do glamour da belle époque. segundo Marshall Berman. em Londres. O Palácio de Cristal foi construído para ser desmontado. em plena estrada de Nazaré. essa burguesia local não tomou precauções contra a competição e esboroou-se em meio a seu deslumbramento. narrativa em cuja economia se entrecruzam fortemente três planos: o “real fictício”. de elevação social. numa versão ampliada. recurso metonímico para representar extensa região e longo período histórico. o piano embaixo da mangueira. em 1854. fariam frente a sua expressão lírica das potencialidades da era industrial. construídas para emparelhar sociedades. recupera-se o áureo tempo da borracha e do Lemismo em Belém. através de técnica próxima do romance histórico. introdutória e embrião do ciclo. junto com os Alcântaras. o menino-rapaz percorre aquela cidade com que sonhara. restarem lado a lado no final de Belém do Grão Pará. sendo que apenas a ponte de Brooklyn e a torre Eifel. grandes praças. A imagem do palácio derruído é referência ao Palácio de Cristal. Aceitando a mãe. já no final de sua trajetória de herói agônico. Na análise procuramos apreender o drama dos protagonistas e a liricização da linguagem dalcidiana. O então menino-rapaz se dá conta de que chegou tarde e vive. O senão dessa elite amazônica assenta-se aí. já as catedrais culturais.Marli Tereza Furtado Asas da Palavra analisamos quatro obras do ciclo. as sobras do Lemismo Ao final da narrativa. uma geração mais tarde. criado pelo inglês Joseph Paxton. no centro da cidade. enquanto a primeira erigia catedrais culturais (leia-se Teatro da Paz e Teatro Amazonas) para sua burguesia. Consideramos a Belém da obra como o palácio derruído de Alfredo3 porque. D. também cultura e natureza. Alfredo resolve um de seus conflitos: aceitar a mãe negra. tanto que. apesar de sólidas. Belém derruída. o mobiliário da família Alcântara é depositado na calçada e o piano fica ao pé da mangueira. porque representante de um capitalismo consolidado que constrói para mais tarde derruir. Caiu o palácio construído com látex. Se recortarmos essa imagem. na qual se retrata Eutanázio. à imitação dos bulevares parisienses. a Belém dos mercados de ferro. alcoólatra e apenas amasiada com o pai branco e erudito. O terceiro romance analisado é Belém do Grão-Pará. cheia de bosques. o simbólico e o imaginário social amazonense para retratar elaborações internas da personagem Alfredo que começa a adolescer. e Alfredo no início de seu percurso. a família que o acolheu. construído pela primeira vez no Hyde Park. Daí o piano e a mangueira. depois de guiado por essa mãe interdita no passeio que empreende à mais lendária que real fazenda Marinatambalo. Nessa obra.

Amélia. mas irreparável. 169) A partir de Belém do Grão Pará a semente germina pouco a pouco. entre as pessoas ricas. enfim um homem. o rapaz Alfredo não se engrena naquele que seria o universo da ordem. pôs-se a torcer as pestanas. se fazia mais ou menos clara a presença de uma luta surda. muitas vezes disfarçada. Esse conflito mergulhou em sua consciência como uma semente. De narrativa em narrativa vai acumulando dados para o amadurecimento de sua consciência de classe e se identificando mais e mais com o universo do trabalhador braçal e com o povo. tão poucas e as pessoas pobres que eram sem conta. que deveria germinar muito tempo depois. aos poucos perde o ginásio e as ilusões. destituído do cargo devido à mudança de governo do país (a revolução de 30) e depois de trabalhar um pouco como mestre de crianças. sem medo de sua sexualidade.Asas da Palavra UNIVERSO DERRUÍDO E CORROSÃO DO HERÓI EM DALCÍDIO JURANDIR nas duas ruas em que moraram depois da queda do Lemismo (a Gentil Bittencourt e a Estrada de Nazaré). Note-se que na venda de sua força de trabalho como secretário de intendência se assenta a diferença com a família de d. sucumbido. uma consciência aguda da ruína de sua sociedade. Na Belém dos Covões. Apesar disso. funcionário público. aquela cidade que o menino conhecera em tenra idade e que repudiava porque contrastava com a visão esfuziante passada a ele pelos que a ela tinham acesso. Ribanceira. e a semelhança com o pai. Embora inicie o enredo como alguém bem colocado na estrutura social. Assim chega à juventude. quase toda de trabalhadores braçais. cujo fio condutor de leitura repousa na tríade ruína. sem qualquer populismo. que errará perdida por uma outra Belém. Nessas perambulações de ginasiano culpado. em Alfredo. Observemos a focalização final sobre Alfredo: 100 . ainda no interior. antecipado pelo autor em Três casas e um rio: “Pela primeira vez. Ao final do romance. ao barraco de dona Dudu. Deslocado se sente Alfredo. culpa e busca. erra Alfredo no enredo dos cinco romances seguintes. Uma busca não nominada e não definida.” “Franziu a testa. Nossa quarta análise recai sobre o último livro do ciclo. inquieto pelo peso de um complexo de culpa muito grande. Alfredo volta a Belém. cuja existência fora antecipada em Chove nos campos de Cachoeira.C. aceitando-se mestiço e participando do mundo do trabalho. mas naquilo que as figuras populares têm de genuíno. num processo lento e dolorido para a personagem. ou pelo universo erudito do pai. o narrador não resolveu um conflito anterior do então menino entre optar pelo universo popular da mãe. a costureira. pois começa a adquirir consciência de si e do mundo em que se insere..” (T. A questão do despertar para a consciência de classe de Alfredo é o fio condutor do ciclo Extremo Norte . lamacenta e fétida.. porque não assimilaram o processo histórico pelo qual passaram. e um processo de busca intenso. p.R. Nesse romance retratase um terceiro momento na vida de Alfredo.

o segundo. no mesmo espaço corroído em que Alfredo busca um caminho. conseguimos assentar a possibilidade de leitura de que essa janela seria a questão ideológica. ainda que dissimuladamente. que não faço milagres. 1974. Outro lado curioso: a protagonização da narrativa é dividida por dois grupos. Operante.Asas da Palavra Marli Tereza Furtado “Novamente na pedra. Toda faca. Novamente na pedra. ou seja. A máquina de costura. Quero abrir uma janela. começo e fim? Relevadas as diferenças. poderia encurtar a distância entre a consciência real e a consciência possível da classe com que se identifica. o que acontece com Alaíde. a liberdade. acha o seu gume?” (R. A busca dos valores autênticos. o Santo Antônio: te desengana. esse herói que por onde anda encontra sempre um mundo em ruínas. meu filho. no trabalho intelectual ou não. como intelectual dessa classe. não se completou na biografia individual de Alfredo. 330). ela parece suspensa da temporalidade demarcada nas outras narrativas do ciclo. na força da juventude. focalizados em seus atos e mandos nas figuras do Coronel Coutinho e de seu filho Missunga. não retiram a narrativa do extenso ciclo. Ao aproximar-se desses aspectos. outrossim reforçam sua integração ao painel intencionado pelo narrador que se utiliza do recorte dentro do ciclo. Fechada a análise da trajetória de Alfredo. como foram Guita e Orminda. Assim isolado. Demonstramos. procura “janelas”. o homem aprisionado nas ruínas construídas em nome de seu progresso. pois. Roçando a cabeça na palha do teto. parecendo anterior a todas. Os santos na mesa. Porto: Escorpião. entretanto. a juventude. Alfredo se colocar na classe proletária e lutar por ela. ele se configura o que Lukács chama de “um estado de consciência psicológica de proletário”4. A divisão dos protagonistas estabelece o assunto: a força degeneradora do latifúndio. 4 História e consciência de classe. é como se ele focalizasse em zoom nessa obra aspectos já anunciados em Chove nos campos de Cachoeira. empreendida pelo herói problemático. forma estabelecida de colonização local. o paralelismo entre o universo opresso das personagens masculinas e o das femininas. a lucidez. insere-se um elenco feminino do qual poucas mulheres acenam com a resistência à prisão daquele universo sem serem por ele sufragadas. e a prisão que esse universo representa sobretudo para a mulher. as três cadeiras velhas. na obra. valores degradados. Embora não possamos fechar interpretações. Os dois seriam fios do mesmo novelo. o primeiro. outro de mandatários locais. nessa pedra. ele os amplia a ponto de servirem de amostragem para todo o ciclo. abrimos um segundo capítulo no trabalho para analisar o romance Marajó. Única obra em que Alfredo não atua. 1973). um de mulheres pobres (Alaíde. A faca encontrará seu gume à medida que. pôs fim à sua trajetória irônica (Frye. 101 . p. ou sem que não se lhes retire o que de melhor teriam. Esses elementos. a aproximam temporalmente do início do ciclo e nos fazem entender o engenho do narrador em configurá-la de tal maneira. Guita e Orminda). O que pesa nesse final em aberto de Extremo Norte é a oposição eu/mundo de seus dois protagonistas: Eutanázio e Alfredo. todavia. Algumas referências.

intitulado Dalcídio Jurandir: 40 anos de representação de uma Amazônia decaída. 1987). o distancia “consideravelmente das experiências regionalistas” e tenta chamar a atenção sobre os aspectos genuínos da obra dalcidiana.com. No ciclo. indica a presença do ciclo como modelo romanesco básico na década. que tiveram larga duração. sem cair nas classificações rápidas e generalizantes5. ao plasmar heróis agônicos em tensão contínua. “qualquer caráter de tendência impositiva.jornaldepoesia. por isso a reinterpretação da tradição literária existente. 1969) e até representante de “um regionalismo menor” (Bosi. apontando a analogia entre literatura e ciências sociais na ficção naturalista de Trinta. A técnica utilizada por Dalcídio Jurandir em sua obra quebra o tom naturalista a que se associa muito do que foi produzido no Brasil dentro dessa linha. ora do “grupo do norte”. as distancia do naturalismo. se narravam transformações que não se deram do dia para a noite. clichê da crítica sobre regionalismo. Logo. discutimos o papel e o lugar do autor em nossa literatura. seja com eles mesmos. o crítico fala de uma espécie de À la recherche na Amazônia.Asas da Palavra UNIVERSO DERRUÍDO E CORROSÃO DO HERÓI EM DALCÍDIO JURANDIR No terceiro capítulo do trabalho. como os do Nordeste. Dalcídio Jurandir transcende a fronteira do mero enquadramento como escritor regionalista menos pelo enfoque do regional do que pela análise crítica das relações sociais. seja com o universo derruído em que se encontram.br). tudo o que ajuda no traço da simultaneidade presente em suas narrativas. Benedito Nunes. parece que foi a tônica em seu pensamento. Em entrevista para o Jornal de Poesia (www. daí os vários volumes para sua representação ficcional. Possivelmente provém dessa tendência dalcidiana de reinterpretação do tradicional em nossas letras a dificuldade em enquadrar a obra Extremo Norte em alguma gaveta rotulada da literatura brasileira. muito do que se falou para realçar sobretudo a obra dos dois primeiros autores vale para alinhar Dalcídio a eles. Apenas a crítica de um seu conterrâneo. Flora Sussekind (1984) por exemplo. tanto com relação à Amazônia. porque “ciclo” era palavra-chave nas interpretações econômicas do país. invertendo a posição do foco daqueles que intentam defender determinado autor ou obra da pecha do regionalismo através da inserção do particular no universal. Como os bons autores dos decênios de 30 e 40. Dalcídio era voltado à reflexão. ora do “amazônico”. ou de requisito de uma equivocada consciência nacional” (Candido. A dimensão regional está presente nos romances dalcidianos. Um aspecto comum na crítica sobre Dalcídio Jurandir é a colocação do autor como representante do regionalismo. sem. às vezes mais esmaecido. a mistura de vozes. no entanto. os monólogos interiores. especificamente José Lins do Rego e os companheiros de Partido. depois de destituírem esse particular do tão batido quanto temido “pitoresco”. Dalcídio filia-se à linha dos autores recriadores de universos decadentes. 5 102 . devido às dores universais humanas. ora do “paraense” (Coutinho. quanto com relação ao país. Graciliano Ramos e Jorge Amado. ou seja ele percebe primeiro uma dimensão universal no particular. O jogo com o tempo. às vezes em tom mais forte. 1978).

sem completar. ainda vige o sistema de herança do grande latifúndio e tudo indica a permanência da mesma estrutura. no Ciclo da Cana-deAçúcar e no Ciclo do Cacau foram necessários muitos volumes para se narrar a decadência das grandes famílias patriarcais nordestinas e do seu modo de explorar as terras. para depois amadurecer. nas ruínas desse tempo um de seus protagonistas (Eutanázio) termina um trajeto de tensão entre ego e mundo e outro (Alfredo) inicia. um trabalho refinado de articulação temporal. para descrever a passagem de um engenho a usina e o aparecimento do grande proprietário burguês . entretanto. que parece mais fortemente carregada de cor local. Daí o retrato de Orminda como uma mulher livre. Voltando os olhos para os dois romances iniciais do autor lembremos que Marajó se faz a única narrativa de Extremo Norte em que Dalcídio retrata de perto a apropriação da terra. tanto num Jorge Amado quanto num José Lins do Rego”. no ciclo romanesco de Dalcídio Jurandir. fraturando a verbosidade do naturalismo de então e funcionando como “faca amolada no modelo romanesco dominante”. no vazio deixado pela queda de um ciclo econômico trafegam suas personagens e do memorialismo de algumas recuperamos o auge desse ciclo já extinto. no final do enredo. e. Há. já acabado. já nos dois primeiros romances. o autor “joga por terra a obsessão fotográfica e documental dominante no neonaturalismo de Trinta. ou de um modelo econômico a outro. se amplia à medida que se revela um passado mais distante. Marajó forma a dupla. identificando-se com as camadas populares desse universo depauperado. Uma das razões a explicar essa sensação com 103 . pelo menos sexualmente. apontada por Flora Süssekind. não deixa. Juntamente com Belém do Grão Pará. Nesse contexto. Observemos primeiramente que o autor se utiliza do ciclo romanesco não para narrar o processo em andamento da queda do ciclo da borracha. correspondente ao imperfeito e mais-que-perfeito. Flora Sussekind destaca a originalidade de Graciliano Ramos que criou a série em lugar do ciclo. entretanto. em todo caso. principalmente porque. A partir desses apontamentos. pois. figurado no pretérito perfeito. O presente da narração. a menos que se queira ver nas visões grandiosas de projetos desenvolvimentistas de Missunga a possibilidade da mudança para a apropriação propriamente burguesa da terra. e Alaíde apontar. Se o modelo agrário persiste e o texto retrata a continuidade desse processo.Marli Tereza Furtado Asas da Palavra A autora diz que Jorge Amado e José Lins do Rego escreveram todo um ciclo para “matar senhores de engenho e coronéis”. de indiciar o aceleramento da industrialização na zona urbana e o movimento que está causando nos interiores. logo. para o trabalho assalariado na fábrica em Belém. ao explicitar em seus romances o trabalho com a linguagem. No contexto interno da obra. abrindo perspectivas diferentes inclusive e principalmente para a mulher que não pode atender mais aquele modelo patriarcal. pensemos em Dalcídio Jurandir inserto em Trinta ao iniciar o ciclo Extremo Norte e ao produzir seus dois primeiros romances: Chove nos campos de Cachoeira e Marajó. entre os dez romances. com os quais participou do concurso Vecchi/Dom Casmurro em 1940. nem a passagem de um modo de apropriação da terra a outro. um transcurso de aquisição de consciência social. Ele desvela o vazio de um modelo econômico.

cede lugar a uma personagem que seleciona dessa paisagem os elementos analógicos e os combina em seus pensamentos conforme suas necessidades e possibilidades estéticas. A linguagem de Marajó continua a liricização já fortemente presente em Chove nos campos de Cachoeira. 6 104 . Cátedra. Aliás. Na diferença de registro. cuja representatividade de princesa presa na torre funciona como paradigma da prisão dos seres humanos naquele universo em que fica mais patente a reificação humana. raríssimas na obra. o homem está sempre presente nos quadros da natureza e mesmo quando encontramos no romance trechos que nos lembram as paradas descritivas observadas por Lígia Chiappini em obras regionalistas . relevando-se “a delicadeza da composição lingüística.ª ed. Rio de Janeiro: ed. pobres-diabos.” para “a ternura com que fala de assuntos que poderiam ser significativamente apelativos” (Goulart. a graciosidade com que o autor constrói cenas e situações. 1987. o tom regional é obliterado pelo drama interno das personagens de Eutanázio e Alfredo. e o sofrimento do segundo. tanto que se aponta para a manifestação estética no nível da linguagem da obra. lagos. prendem o leitor de tal modo que lhe ofuscam o olhar sobre o local.Asas da Palavra UNIVERSO DERRUÍDO E CORROSÃO DO HERÓI EM DALCÍDIO JURANDIR relação a este último romance é o seu papel sui generis dentro do ciclo. Afinal. belissimamente trabalhada no romance. Já em Chove nos campos de Cachoeira. a descrição de um narrador preocupado em reproduzir belamente a paisagem. ele acaba filtrando os elementos de cor local. fauna. percebemos nelas a fratura justamente porque não se distanciam das personagens. corta-se o tom documentário em que o texto poderia cair. a despeito de toda a chuva e de toda a água. ajuda-o a se distanciar do vezo naturalista de Trinta. arrebóis. prova de que Dalcídio Jurandir não amarrou seu texto nas estreitezas do naturalismo que satisfez muitos autores da época. Vicente Salles demonstra a incorporação de formas populares como o “romance de Dona Silvana” na tessitura de Marajó. aliás. quem são aqueles heróis: gauches. no texto “Chão de Dalcídio”. flora e costumes locais. mas também focalizando em zoom o problema agrário da região. ou seja. À medida que é bem sucedido. heróis fracassados? No retrato de Eutanázio e de Alfredo sobrevêm os caminhos da leitura da obra: do existencialismo ao realismo crítico. A forma fechada do “rimance” modela a personagem de Orminda. reforço do conteúdo da primeira. ambos. pastos. sobretudo porque o que seria documento etnográfico incorpora-se como elemento de tessitura da narrativa: “o romance de Dona Silvana” 6 e outras histórias populares. em tensão contínua consigo mesmo. do livro. parecendo retirado dele. publicado na 2. alagados. 2001). em tensão contínua porque quer efetivar o sonho de homem da urbe. Ressalve-se que a obra consegue driblar o peso naturalista do período. de mentalidade essencialmente urbana. pois se utiliza da animização da natureza não apenas para “as paradas descritivas” de que nos fala Ligia Chiappini (1978). Salta dele a impressão de um universo mais fechado e parece que o leitor vê mais de perto a pintura dos rios. As náuseas do primeiro. Logo. por que não. carregada pelo lado fortemente gauche de Eutanázio e. como a da Maria da Pau. lembre-se. de Alfredo. o narrador exercita o máximo possível a fusão da linguagem poética com a referencial. Salta do texto a atmosfera densa. Brasília: INL. mas para revelar o homem ligado a essa natureza. A linguagem.

o incessante trabalho com a linguagem. sobreposições temporais e espaciais. costumes. E o menino-rapaz toma contato com o universo das mercadorias. acha seu gume?”. 105 . os processos técnicos: variação do foco narrativo. num crescendo. No primeiro livro o plano do imaginário social traz à tona o matiz regional. alimentação. razão por que é uma das narrativas em que a cor local parece mais forte. nessa pedra. concomitante ao caminho que vai tracejando de aquisição de consciência social e de opção pelo popular. as trilhas dos romances anteriores. com o poder do dinheiro e com as ruínas deixadas por um ciclo econômico. a cidade. complementando o quadro daqueles mais conhecidos. e entendemos a complexidade dalcidiana na criação de suas personagens Eutanázio e Alfredo. ratificando o traço de modernidade da obra dalcidiana. Lembremos também da ironia do narrador ao criar a personagem expressionista de Edmundo Meneses a viver de miragens sobre a terra local e depois se finar na própria miragem. o retrato do herói e as possibilidades de leitura desse herói. no aprimoramento da apreensão de sua base oral.. como já observamos. protagonista da obra. cortes e recortes na ação. Da simultaneidade vem o esfacelamento. Desse final em aberto. relembremos que. Por outro lado. bem como o retrato de festas populares com tons de carnavalização se encarregam de demonstrar a distância da narrativa de enquadramentos naturalistas. A carga de ambigüidade que carrega a fazenda Marinatambalo e os acontecimentos que lá ocorrem.Marli Tereza Furtado Asas da Palavra Considerando-se. os elementos de composição desses primeiros romances de Dalcídio: a linguagem. A produção dalcidiana dos anos 50. pois. Afinal. Três casas e um rio (1958) e Belém do Grão Pará (1960). Nos romances de Dalcídio que se seguem a Belém do Grão Pará. “um mapa afetivo de Belém. Belém do Grão Pará estabelece mudança no enredo do ciclo. gerando a sobreposição de cenas. o mondongo. modo adequado para fugir da artificialidade com que soariam essas narrativas na voz de um narrador urbano. aprimorando. cremos que temos dados suficientes para alinhá-lo entre os bons romancistas de Trinta. resultando disso. segue. Entretanto. profusão de narrativas encaixadas. voltamos ao início das narrativas. É através de um discurso esfacelado que o narrador focaliza Alfredo ao final de Ribanceira se perguntando “toda faca. distanciado daquele universo. apesar de a cidade de Belém ser pintada num retrato do que lhe é típico. como a ‘história do velho e o lilás’ mascaram a possibilidade da simples coleta desse acervo. Dentro da técnica se ajustam as inserções das narrativas populares na voz dos narradorespersonagens. tudo tem sua razão de ser. bem como o distanciamento do naturalismo. Libânia) a enxergam. tudo resultando na aparente impressão de que se deseja apreender a realidade presente e passada de uma só vez. adensado no registro de costumes locais. mas não radicaliza na técnica. O plano da simbologia e a técnica narrativa impedem que o matiz se transforme em cor e seja traço fundante da significação da obra. é pintada conforme os olhos das personagens (Alfredo. Além disso. Aceleram-se. a inserção de histórias populares no tecido do enredo. conforme expressão de Willi Bolle (2001). frutas. Antônio. ruínas que instaurarão a fantasmagoria de Belém. feiras. há um contínuo flanar de Alfredo principalmente na Belém fétida. o menino Alfredo encontrou a Musa e despe-a para poder conhecê-la.

o mesmo não se pode dizer de seu criador. 7 106 . revelando o pensamento paternalista próprio dessa situação (“Eutanázio achava assim que a sua pobre poesia tinha sempre alguma utilidade”). Se agradava o povo com seus versos. Seu percurso. popular x erudito. O drama de ser assinalado. deslocado em Cachoeira como o seria em Belém. herói urbano. como um intelectual retórico. diz a dona Sensata que “quem inventa somos nós” no ato de narrar (p. Carlos Nelson Coutinho considera “intimista” obras e/ou autores brasileiros que visam tão somente a atender à importação cultural. quase analfabeta. na raiz demarcado pela divisão da cor e da cultura dos pais (a mãe negra. E se a Alfredo ainda resta a demonstração de que deglutiu as histórias de Nhá Fé. de que a obra de Dalcídio Jurandir. mas não atingia satisfação pessoal com tal literatura. queria outra. prossegue até os anos setenta. Dalcídio conseguiu reconstruir de maneira sobretudo poética o processo de decadência (mas também de resistência) de uma região e de seus habitantes.23).7 como as indicações zdhanovistas do PCB. que se liga à ficção realista. cuja matriz era canônica. porém. Dalcídio deglutiu e fez boa digestão do “popular”. sem cair no paternalismo ou no populismo. culto). Ao fechar-se. o pai branco. Alfredo está mais próximo de nós do que Eutanázio. já fraturando o modelo que se tornou trivial. assumiria papel de “intelectual orgânico dessas classes”? Não restam dúvidas ao leitor. atinge menos o leitor do que o drama circunstanciado pela questão da classe social. mas ouve histórias. percorre a tensão repúdio/aceitação do popular. 1973). Em Ribanceira. sem respostas a questões colocadas pela realidade brasileira (1979). mas se identificava apenas de fora com ele. rompendo também com as possíveis versões populistas geradas nesse momento no quadro cultural brasileiro. tem vontade de comer as histórias de Nhá Fé (p. que cresce para a admiração/identificação com esse popular e caminha para sua “inclusão” nas classes populares. centrado no drama ego/belo versus mundo. adequa-se bem ao modo irônico de narrar (Frye. Ao leitor fica a pergunta sobre o caminho de Alfredo: se prosseguisse. fato que o difere essencialmente de Eutanázio (filho de seu Alberto com a esposa branca). Alfredo não escreve versos para ninguém. urbano x rural. centrado no drama eu-individual versus eu-social. ele o conhecia. causado pela ganância do capitalismo aliado a uma estrutura arcaica de relações sociais. primeiro. iniciada em Trinta. mas impotente à criação. incita os narradores populares a contálas para ele e trava diálogo com eles.Asas da Palavra UNIVERSO DERRUÍDO E CORROSÃO DO HERÓI EM DALCÍDIO JURANDIR O primeiro. uma vez que sua problemática existencial transcende o espaço. depois. 289). Eutanázio escrevia os versos do boi e atingia as camadas populares com seus versos. o ciclo Extremo Norte revela o fôlego de Dalcídio Jurandir nos caminhos da experimentação literária: e que fôlego! Graças à deglutição das dicotomias local x universal. o segundo. revelando-se um intelectual articulado ao universo popular de sua região. veste-se bem como herói do modo imitativo baixo (idem). criando um ciclo romanesco que tanto refutou o caminho cultural “intimista”.

Benedito. Rio de Janeiro: Paz e Terra.jornaldepoesia. Anatomia da crítica. Belém do Grão Pará. Lucien. Marshall. Antonio. Rio de Janeiro: Cátedra. Walter. BOSI. GOULART. 1960. LUKÁCS. Rio: Record. Rio de janeiro: Achiamé.. Teoria do romance. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana & A. In: Encontros com a Civilização Brasileira. 1973.. 1979. Rio de Janeiro: Vecchi. 1978. Regionalismo e modernismo. II. Willi. 2001. 1986.1989. Belém: Cejup. A sociologia do romance. São Paulo: Cultrix. Colóquio Dalcídio Jurandir. 1984. COUTINHO. Belém: UFPA/UNAMA. Northrop. São Paulo: Ática. LEITE. 1974. Rio de Janeiro: Cátedra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.com. COUTINHO. JURANDIR.História e consciência de classe. História concisa da literatura brasileira. NUNES. GOLDMANN. Ribanceira. 1. 1987. FRYE. Brasília. Dalcídio. Brasília: INL. Carlos Nelson. São Paulo: Cia das Letras.Marli Tereza Furtado Asas da Palavra REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENJAMIN. Marajó. CANDIDO. Georg. 1978. 1994. 107 . Lígia Chiappini de Moraes. ___________________. 2. Dalcídio. Marajó. ___________________.ª ed. Porto: Escorpião. Colóquio Dalcídio Jurandir. Audemaro Taranto. Afrânio. Vol. s/d. INL. “Chão de Dalcídio”. qual romance? Uma ideologia estética e sua história: o naturalismo.ª ed. São Paulo: Martins. São Paulo: Ática. Chove nos campos de Cachoeira. Três casas e um rio. SÜSSEKIND. BERMAN. FLORA. 2001..br. ___________________. 1941. n. 1978. “Entrevista a José Castelo”. 1978. 1976. Lisboa: Presença. Tudo que é sólido desmancha no ar. SALLES.ª ed. In: JURANDIR. 1978.. 2. Belém: UFPA/UNAMA. ___________________. “A imagem da cidade: de Cachoeira a Belém. ___________________. São Paulo: Cultrix. “Cultura e democracia no Brasil”. Tal Brasil. A literatura no Brasil. www. In: — A educação pela noite e outros ensaios. Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo.. BOLLE. Vicente.º 17. São Paulo: Brasilense. A aventura da modernidade. 1969. Alfredo. “Literatura e subdesenvolvimento”.

] Ritinha esperava. com o terçado.Asas da Palavra levantou-se. um pedaço gordo de carne na mão. a calça manchada de sangue. Não esquece nunca mais a volta do pai.] — Mas com o couro... [. [. saltou para a noite sob o espanto da mulher e dos meninos.. Antonio? [diz Jovenila] 108 ..

Palavras-chaves Marajó. Ele se pauta por uma abordagem intertextual ao articular este romance com outros textos sobre a Ilha de Marajó. primeiramente. Segundo.Asas da Palavra FAZENDEIROS E VAQUEIRAGEM NO MARAJÓ. fazendeiro. Leite* O presente trabalho é uma análise das representações sociais dos grupos de fazendeiros e vaqueiros a partir do romance Marajó (1947) de Dalcídio Jurandir. expomos a situação social dos vaqueiros e suas formas de resistência às relações de poder. Dalcídio Jurandir. de Dalcídio Jurandir Marcus Vinnicius C. como A fazenda Aparecida (1955) e Marajó em tempo de Muratã (1974). a percepção do poder pelo grupo dominante dos fazendeiros e sua relação com os subalternos. Enfocamos. * Professor da UNAMA e FACI 109 . vaqueiro.

Enfocaremos. 30). “insinuava que a vantagem do prestígio está em manter certa distância entre o prestigiado e prestigiadores” — descreve o narrador (M. até assumir a posição de herdeiro. sua amiga de infância. refletia o Coronel: “Perdia o ar de necessário respeito e distância que deve haver entre pessoas de categorias diferentes” (M. de Dalcídio Jurandir.” (M. 1992). também. de significado africano que quer dizer príncipe (SALLES. como A fazenda Aparecida (1955). Portanto. O velho Coutinho tinha uma “teoria”. Sua demora na vila poderia fazer o “povinho” tomar liberdade de pensar coisas. Enfocaremos. depois da temporada na cidade para estudar. A literatura está direcionada na construção do seu efeito artístico. Usando a figura do Papa. . dizia: “Que seria do Papa se estivesse sempre aparecendo ao povo? [. O apelido dado por Guíta. muito menos. em conversas com os amigos. 1992. a percepção do poder pelo grupo dominante dos fazendeiros marajoaras e sua relação com os subalternos. 32).] Que seria do Sumo Pontífice se não tivesse 1 110 De agora em diante será abreviado para M. outros romances.9) 1 . mas social. Coronel Coutinho chama-o. às várias fazendas de gado no entorno do lago do Arari. sobre a Ilha de Marajó. No primeiro capítulo. como Manuel Coutinho Filho. Tal apelido é reforçado pelo pai que dizia quando seu filho saía para caçada: “— Lá vai o Príncipe para as suas caçadas reais. na qual o Coronel é seu Intendente. de sua luta para se impor ao poder do seu pai. neste romance “reina” Missunga. primeiramente. mesmo que parta dele ou para além dele. tem-se apresentação da personagem: “— Missunga. Coronel Coutinho. reino este que se espalha da vila de Ponta de Pedra. p.. Nossa perspectiva analítica é entender a literatura não como um documento histórico ou sociológico e. no presente artigo. seguido pela página.. ó Missunga!” (JURANDIR.. tem-se a narrativa da formação da personagem Missunga. Com isso. Ela é uma escrita autônoma. tendo sido produzida por um escritor na intencionalidade de sê-lo. Isto é. de João Vianna. expomos a situação social dos vaqueiros e suas formas de resistência às relações de poder.Asas da Palavra FAZENDEIROS E VAQUEIRAGEM NO MARAJÓ. 30. para exemplificar esta concepção. ele pensa que é no tempo das Cortes de França. A fazenda Paricatuba é a sede do reino dos Coutinho. de José Carlos Cardoso. Coronel Coutinho estava incomodado com a presença do filho no Marajó. e Marajó em tempo de Muratã (1974). Segundo. DE DALCÍDIO JURANDIR O presente trabalho é uma análise da situação social de fazendeiros e vaqueiros exposta no romance Marajó (1947). não tem nenhuma obrigação de representar o real.. grifo nosso). O PODER DOS FAZENDEIROS MARAJOARAS No romance Marajó. através de representações.

a pompa. também.28). no qual a esposa e a filha da personagem Zé Martinho vêm ao encontro do Major Leocárdio: “Nhá Raimunda enrolou o cabelo. e veio. aos padrinhos”. Esta era a característica do regime feudal. a pressa. ao dizer que os fazendeiros de Marajó “além de detentores tradicionais do poder político local. Traziam frutas silvestres. aos patrões. Branca que iam a Paricatuba aos domingos tomar a bênção” — arremata o narrador (M.. p. remédios. cumprimentar o Major. a qual é vista como um espaço de anacronismo social: “uma sociedade feudal operando hoje prosperamente e pagando dividendos [. E no dizer da personagem Seu Felipe. Fica claro agora por que o escritor. caixas vazias de figo. Contudo.160). nos bancos. A imagem da Ilha como um grande domínio privado é recorrente. sentada na sua poltrona. nas esteiras. 30). discursos. tanto mais é marcado como indivíduo.. Branca. O poder do Coronel era assentado em um cerimonial que participava sua mulher.. 27). ao escrever sobre a Ilha do Marajó chamou seu livro de The Feudal Island. p. vazios carretéis de linha. Branca que tanto os maravilhavam (M. 2004. p. barquinhos.] e monopolizavam o acesso aos três recursos naturais prevalecentes: solo. quanto mais “o homem é detentor de poder ou de privilégio. 1998. É feudal no lado das propriedades. Por exemplo. D. na independência de cada rancho do resto do mundo.36): “O ‘tomar a bênção’ era sinal de respeito.].49.]. lhes pertencia totalmente” (M. no velho alpendre [.” (apud PEREIRA. Queria terra que tivesse povo. na autoridade absoluta dos proprietários. Não era atoa que ele sentiu. n. O livro trata da Ilha do Marajó. As deferências do povo aos poderosos locais expressam uma maneira de relações de poder assentada no personalismo. contando casos. p. Povo ficava agarrado a ele como turu dentro do pau” (M. Dita Acatauassú (1998. p. privado. [.D. 1956. o Vaticano?” (M.. por rituais. mas não podemos deixar de concordar com Alfredo Wagner de Almeida. 28). 35).10. após a morte da mulher. “a ausência das afilhadas de D. ou representações plásticas” (FOUCAULT. Esta questão é presente.] Os curumins lhe traziam ingênuos feixes de miriti com que ela mandava fazer gaiolas.. controlavam imensas extensões territoriais destinadas principalmente à pecuária [. no romance A fazenda Aparecida.. norte-americano Desmond Holdridge. (VIANNA. 111 . Terra por terra ele tinha que enjoava. que viveu entre 1920 e 1940 no Pará. Branca comprava. de 1955. Algumas traziam almofadas para tecer renda que D.Asas da Palavra Marcus Vinnicius C. Haja vista. os papéis coloridos dos embrulhos de D. p. Botão tomou-lhe a benção”. uma ariranha e pediam em troca latas de biscoitos vazias. não concordamos com esta nomenclatura de feudal à Ilha.10). presentes da terra para os amigos em Belém. Branca recebia as velhas comadres. um parente pobre dos Coutinho: “Coronel queria ter o povo na mão. tradução nossa). o próprio narrador de Marajó afirma algo assim: “Marajó para Coronel Coutinho e alguns fazendeiros grandes era um mundo à parte. “madrinha do povo” da redondeza. fez um pitó atrás da cabeça. 48). um filhote de quatipuru. florestais e hídricos” (SUDAM/PNUD. de João Vianna (1998). 1998.. lhe pedindo roupa velha. A sua “teoria” era uma exposição da sua maneira de explicar o seu poder e justificar a hierarquia social que considera tão natural e que recobria as desigualdades sociais. sapatos usados. O respeito é a atitude sempre ressaltada pelos grupos dominantes. os relatos biográficos da proprietária da fazenda Tapera em Soure. as afilhadas que sentavam pela escada. retalhos de seda. plantas. Vejamos: Tardes de domingo. Leite a guarda suíça. publicado em 1939..

contudo. 348). Comparando-a a um paraíso2. Mal nascendo nos charcos de Breves. quando encontra sua fazenda em ruínas. desenhando os campos de Cachoeira. p. no lombo dos animais e das canoas. agüentando sol e chuva nos lavradões marajoaras. Contudo. Com a morte do pai. fantasiava retornar e assumir a fazenda que trazia na memória e dos souvenirs da Ilha. Vivia de uma bolsa. Porém. dizia: Era a ilha que se atravessava no meio da luta entre o Atlântico e o Amazonas para que os dois rivais fizessem as pazes. os métodos da colonização inglesa na África. 1994.. indígenas e bandos de aves pernaltas dominando a encharcada paisagem. deixando-a estirar vagarosamente as suas terras. herdeiro da fazenda Marinatambalo. 247-248. 28) repoduz a mesma imagem da Ilha. resolveu voltar a sua Ilha imaginária. Dita Acatauassú (1998. as dunas de Soure. 247). é apresentado a personagem de Eduardo Meneses. Está contaminada” (TRC. DE DALCÍDIO JURANDIR Retornemos ao romance Marajó. era o próprio paraíso. Quando a olhava no mapa do Brasil. Quando imaginava como iria administrar a sua bela Marinatambalo.] Seu aquele selvagem território (JURANDIR. Esta personagem fora estudar na Inglaterra ainda adolescente. já que só foi ensinado a ser proprietário. enquanto os operários da cidade se tornavam cada vez mais exigentes com salários tão altos. mais colonial e meio indígena” (TRC. sobretudo dos mestiços (TCR. entre a cidade inglesa e a fazenda marajoara era que. Seguiria. Quero a fazenda com essa cor marajoara e tudo farei para que fique mais primitiva. herança da mãe. búfalos. e lá. tem uma decepção. 2 112 . cemitérios. 3 De agora em diante será abreviado para TCR. Marajó que lhe parecia de lodo e aninga. o que faria. aquele disse: “Pensa que fazenda em Marajó é criação de gado na Inglaterra?” (M. Ele se perguntava o que seria dele agora. na década de 1930: “o Marajó d’antanho. presenteados pelo pai nas viagens que fazia a Londres. Sua cultura inglesa era um verniz. 206). p. exigindo cada vez menos o pouco de que necessitavam. Dizia a si mesmo que o conhecimento que adquiriu “foi como água num copo sujo. pés gretados e grossos como aqueles troncos que via encordoados pelos cipós (TCR. inchada de mondongos. 305). ficou isolado da situação econômica da família.. Esta pergunta irônica do velho Coutinho é paradigmática da situação do grupo dos proprietários. seguido pela página. dizia: “Farei mínimas reformas. madura nos tesos de Ponta de Pedras e no barranco de Joanes. Vejamos Em um outro romance de Jurandir. Ninguém pode bebê-la. A família tinha arruinado a sua “herança”. [. que precisava se livrar: Deveria era ter se educado nos igapós da fazenda.”. na fazenda os vaqueiros pareciam mais felizes na sua vida primitiva. quanto ao modelo de exploração da força de trabalho. grifo nosso). Acreditava na inferioridade das raças de cor. Quando de um debate entre Coronel Coutinho e seu filho.. 248)3. que lhe possibilitava os estudos no campo da agronomia.Asas da Palavra FAZENDEIROS E VAQUEIRAGEM NO MARAJÓ. haveria uma grande diferença. Construía para os colegas ingleses uma visão idílica da Ilha do Marajó.. Três casa e um rio (1958).

.6). cerração dos chifres. as corriqueiras: montar a cavalo. contagem” (M. No romance Marajó. p. pois a palavra mais apropriada é assinalação: “recorte na orelha da rês que indica a qeu fazenda ela pertençe” (MIRANDA. Missunga. 4 A palavra assimilação deve ser um erro tipográfico. laçar e trazer um boi arrastado ao cavalo. assimilação [sic]. graças ao treinamento da infância [distinguir pela silhueta o cavaleiro ao longe]. ferrar o gado.. orientar a castração e. A lide da vaqueiragem marajoara A representação da condição da vida de vaqueiro marajoara é apresentada. Ouvindo os “eias” da vaqueiragem tocando o rebanho. defendendo os réus amigos. Era deputado pelo PRF. 21) Todavia. O velho Coutinho responde-lhe que o feitor lhe é muito útil e lhe dá segurança nos seus negócios. se for preciso. vista que lhe roubava reses e assumiria o seu lugar. de várias amantes e de consumir várias boiadas nas cidades de Belém e do Rio de Janeiro. digamos mais práticos. de uma forma mais intensa e explicita no romance Marajó.82). Ele parece. decorria depois de anos de boêmia. na medida em que o título era elemento distintivo dentro de sua classe. As personagens dos vaqueiros acendem as páginas do Marajó a partir do vigésimo nono capitulo. líder da câmara. Os vaqueiros punham os gados na “esteira” cercandoos e conduzindo-os para o curral “para a ferra. O capítulo abre com a reunião dos gados “asselvajados” que se encontrava intocado nos campos — principalmente nas “ilhas-de-mata” (pequena área de mata no meio do campo). O perfil da fazendeira marajoara. 113 . Missunga advogando as suas questões. deputado federal. na qual dizia ao pai que queria administrar as fazendas. Ou de beca. Sue Ann desenvolveu outras habilidades. só de passar a vista num curral. O Coronel Coutinho e o filho. Sue Ann de Miranda Tibery. 1943. p. Ele queria ver o diploma e ter o gosto de comprar o anelão de bacharel. na reportagem de Tatão de Oliveira (1993. o velho Coutinho deseja ver o filho “doutor”. o filho não poderia substituí-lo com melhor capacidade? Missunga secretário-geral. A evidência está no texto jornalistico de Dalcídio Jurandir que usa corretamente o termo (JURANDIR. cortar as orelhas. No trato cotidiano com as coisas da fazenda eram outros os requisitos. o filho do Coronel relembra a conversa com o pai no dia anterior.. Leite Se comparemos a situação da personagem Eduardo Meneses com a de Missunga veremos quanto os predicativos de uma educação formal (título de doutor) só era necessário como elemento simbólico ou de status no reconhecimento social. O seu retorno à Ilha. pois os Teixeira. 51): Ela garante poder conferir. pode ser esclarecedor. p. Tiraria o capataz Manuel Raimundo. 1968. [. se falta algum animal. estão visitando as suas fazendas entorno do rio Arari. os Menelau e os Leão se vangloriavam disso.” (M. no júri. sem nunca estudar. esses projetos eram do Coronel e não do filho. a castração dos novilhos. principalmente no trato com a mão-de-obra.] Em seu aprendizado prático para fazendeira. afirma o Coronel..Asas da Palavra Marcus Vinnicius C. 205)4.

Como sabe trabalhar. cuidava de envolve-los numa dependência quase absoluta que partia o terreno puramente econômico e expandia-se pelas áreas mais diversas. no qual relata suas experiências no Estado do Maranhão e Grão-Pará entre 1739 e 1755. já sabe. Padre João Daniel (2004. senão eles montam em nosso cangote. Examinemos melhor esta afirmação. Manuel Raimundo. uma fazendo de gado. nos quais residem a família do proprietário. Nossos gênios se combinam tão bem. da situação dos bezerros. Furtar-me? Que desfalque de gado já me fez que me abalasse? Dou-lhe tudo quanto quiser (M. Analisemos o lugar-tenente do Coronel. Ele fora seringueiro e havia fugido da “escravidão das dívidas”. o fazendeiro. Aqui fica claro que os planos do Coronel para o filho não são para o trabalho.. etc. Sabendo disso. é a persistência da rotina dos tempos coloniais. Com vaqueiro ele diz duas palavras. e benefício do gado”. Tem seu gadinho. em 1848. da situação da cavalhada. por sua vez. incluindo a doméstica (CARDOSO. em artigo ao Observador Econômico e Financeiro. observou o mesmo modus faciendi descrito por Padre João Daniel. Essa estrutura de organização social. Que gaste. Os currais também são postos estrategicamente à margem de rios.Asas da Palavra FAZENDEIROS E VAQUEIRAGEM NO MARAJÓ. Ele falava isso para não ter suas ordens de demitir dois vaqueiros contrariadas por Missunga. que era contratado “com o ajuste de lhes darem os quartos das crias de cada ano.2). um dependente de seus empregados. de Jose Carlos Cardoso (1974) — descendente de uma tradicional família de fazendeiros do Marajó. deve ser uma questão do administrador e não do filho do proprietário” (M. É analfabeto o homenzinho. normalmente um branco europeu. o capataz era. 230). informa-nos o publicista Dalcídio Jurandir (1943). no seu Tesouro Descoberto do Máximo Rio Amazonas. v. na ilha de Mexiana. p..] Se você me desmoralizar uma ordem. é enfocada também por uma personagem-proprietário de nome Pedro Paranhos. correndo a campina a cavalo para cercar a boiada tocando para o curral. Ele apresenta a estrutura social montada entorno dos currais próximos dos arraiais. administrador das mais de setenta fazendas do Coronel. para a criação ser melhor transportada. 108). feitores e vaqueiros. por sua vez. “Aqui deve haver ordem. Tinha obtido a confiança cega do patrão. a disciplina está perdida” (M. Sua posição é outra” (M. DE DALCÍDIO JURANDIR um general em campo. Passara um tempo no Anajás. do capataz e dos “curraleiros” (como chama os vaqueiros). Escreveu não leu. expõe a rotina de uma fazenda de gado no Marajó. e eles pelo grande interesse que no contrato lucram põem mais cuidado na vigilância. cônscios de sua importância. podia dizer que “a disciplina de uma propriedade. também foi soldado de polícia até tornar feitor e... Era o empregado que sabia das condições da boiada. da dispersão do gado. do romance Marajó em tempo de Muratã. v. Sabia agir com desenvoltura e dureza no trato dos negócios.109). na Ilha de Marajó. traziam o patrão pelas mãos.108). O capataz junto com os outros trabalhadores são responsáveis pela vigia do gado contra animais e os atoleiros. Mas que tino para tratar de gado. [. 82). Finaliza. A citada personagem comentando o sui generis relacionamento entre patrão e empregado que havia antes dele assumir a fazenda do pai — provavelmente na década de 1960 —. O fazendeiro era. afirma a personagem Pedro Paranhos. depois.. Estes. o qual irá abnegar. mesmo sendo analfabeto.. dizendo: “— De qualquer maneira você não pode se comparar com ele. 1974. p.. Segundo Padre João Daniel (2003. Essa relação entre fazendeiros..2. 114 . 231-2). O naturalista inglês Alfred Wallace (1979) visitando.

sua “conta no rancho passava de dois alqueires de farinha. quando não amansa poldro. como no sistema anterior a grande maioria dos vaqueiros ficam devendo em tudo a fazenda. farras. Até tentou livrar-se da única filha. A voz de Manuel Raimundo. o vaqueiro queria se livrar da metade da filharada. 335). botava as marcas no fogo em tempo de ferra. a relação com os vaqueiros mudou: São uns assalariados sem direito a nada. não recebem seus salários mensalmente. ganhava camisas velhas. desfalcava o rancho”. um pente quebrado. como nos informa Miranda da Cruz (1999). procura vaca parida pelos campos. Antônio sacudiu as palavras do administrador. Então. pensando: Quantos anos vaqueirando. Não serve pras minhas fazendas. à fazenda. rodeava. saltou para a noite sob o espanto da mulher e dos meninos. Subitamente. lenços de seda. desatolar bezerro nos lagos podres. dois metros de morim e tudo isso aumentaria com quatro filhos que comiam e vestiam como pessoas grandes” (M. “Parafuso se aproximava dos estudantes.242-3). Chovesse ou fizesse sol. como água: “Vaqueiro não podia aumentar a família. és o tal de Parafuso. Saltemos alguns anos de trabalho para o Coronel Coutinho e quatro filhos. Rita. Antônio apreciava era a época das férias dos filhos dos fazendeiros. contudo após 1940. Contudo. sua vida iria mudar ao conhecer a filha do pescador Zacarias. se atirava pros campos e lagoas. Estavam longe da casa do irmão. um palinha. Mais precisamente. com o terçado. 239). febres. sentava sela. Não cria amor ao gado. ein? Parafuso riu e sentiu de perto o quanto era poderoso aquele branco” (M.. administrador do Coronel. Leite Já no começo do século XX. queimando chifre de gado para defumar os currais. ele disse adeus à vida macia” — constata o narrador (M. Acompanhemos a narrativa da história do vaqueiro Antônio. Porém. 240) (Figura 30). 236). dois quartilhos de querosene. A noite caiu e com ela a fome. era ali. Ele vivia “remanseando”. encilhava cavalo. um pedaço gordo de carne na mão.. 115 . Antonio? [diz Jovenila] (M. “Já taludo. ia correr pelo mato e igapó atrás do gado arisco. Parafuso levantou-se.Asas da Palavra Marcus Vinnicius C. embarques e pescarias ”. pois “via muito bem como os outros caíam arrebentados e podres” (M. um cinturão. [. Chifradas. ensebava corda. que foi pedida pelo canoeiro aos pais da menina: “Vocês me dão que eu levo ela pra Belém. Conheço quem precisa de uma menina assim” (M. Quando sai com a família da fazenda ecoava as palavras do administrador “ ‘Vaqueiro não pode ter familião’ ”. Pelo cálculo do administrador.] Ritinha esperava. 1999. encurtava rédea. Não esquece nunca mais a volta do pai. o fazendeiro ainda residia na fazenda e mantinha seus vaqueiros com o “rancho” (gênero de primeira necessidade) e alojamento para suas famílias. continuam as prestações de contas anuais. ficando todo tempo preso aquela situação (MIRANDA DA CRUZ. vulgo Parafuso. o dia que Parafuso foi demitido da fazenda S. de repente. 241). Maçal.. três barras de sabão. Aposto que és um folião. [. apesar de terem a careira profissional assinada.] — Mas com o couro. postemas. Ele tinha vindo do Anajás. moição do corpo. a calça manchada de sangue. Mas a “peste” relutou e os pais deixaram ficar. Jovenila. gravatas. Quando ela “lhe passou a mão pelo cabelo duro.p. cabelo de espeta. Retomemos o romance guia deste trabalho. para assumir trabalho em fazenda nem pensar. que o interpelou “— Ah. E malandro. Generosas lembranças dos meninos fazendeiro”. ao mandá-lo embora retumbou no seu ouvido. 238).. quando atravessou o caminho do Coronel Coutinho. tudo isso se curava na natureza (M. 236).

Segundo James C. a prática da deferência da benção. presente no trabalho de Scott. ressalta o narrador. com um tom satírico ou zombeteiro — “as chulas corriam os campos. como o senhor. as famílias 116 . claro. 1998. Segundo o narrador: “Mandou escrever uma carta para Belém. cruza-se com o fim da personagem de um outro romance. p. em “Formas cotidianas de resistência camponesa”. Então. 2002). 208). não tenha uma lei que o socorra. 184-185). 1979. a fofoca. lá para os confins de Anajás. Rita teve de ouvir do tio: “— Teu pai é o culpado do que acontece a vocês. Portanto. quando alcançado pelas malhas dum infortúnio cruel. os incêndios premeditados. 2002. improvisam uma letra. que nada faz concretamente a favor do velho vaqueiro moribundo: Não se compreende que um homem. contando ao patrão sua desventura. Marilda de Menezes (2002) informa que as interações dos atores. um direito que o assista. No século XIX. o vaqueiro Ramiro. 2002.Os feitos dos brancos são os temas mais freqüentes dessas canções (WALLACE. pode ser apenas uma máscara ou transcrição pública (SCOTT. Armiro Ferreira. em que os indivíduos se utilizam diversas máscaras para lidar com as situações de poder” (MENEZES. geralmente relacionada com os acontecimentos daquele dia. p. DE DALCÍDIO JURANDIR Depois. 183).Em cima dessa pobre melodia. da qual tiram apenas três ou quatro notas. era um estilo apropriado pela melodia dos cantadores negros que a utilizavam através de uma espécie de viola primitiva.68) Entre esses cantadores de chula. o roubo de gado exposto acima. Vejamos. Porém. p. a sabotagem e outras armas dessa natureza” (SCOTT. na mais enfadonha monotonia. p. Ele havia sofrido um acidente e se encontrava impossibilitado no trabalho da fazenda que anos a fio se dedicará como encarregado.Asas da Palavra FAZENDEIROS E VAQUEIRAGEM NO MARAJÓ. empregue-se de corpo e alma no seu desenvolvimento. a dissimulação. Na narrativa do romance aparece um fala panfletária da personagem Juliano Valente. e. Esta é uma música popular de origem portuguesa. tão valorizada pelo grupo dominante. Um ladrão de gado” (M. a ignorância fingida. (VIANNA. o velho vaqueiro Zé Martinho. Uma interprete do antropólogo americano. chamada Chula. Este era. Para a família sobreviver só restou a filha se prostituir. Identificamos três: a sátira através do estilo musical. o Parafuso. repetindo-as horas a fio. a quebra de gado na hora do embarque e. possa nascer e viver no trabalho construtivo de uma fortuna particular. A narrativa da história da personagem do vaqueiro Antonio. Mas não passou disso. “um vaqueiro do Açaiteua. quando aparecia na vila. 12). os saques.34). batiam bem fundo no coração do povo” (M. Scott (2002). diz que os atores sociais podem apresentar o “fazer ‘corpo mole’. e outra. podemos encontrar uma personagem em Marajó. tudo porque a legislação trabalhista houve por bem considerá-lo trabalhador rural!” (VIANNA. p. faça disso o seu único entretenimento e. 1998. quais são os pontos de resistências dos grupos dominados. Fazenda Aparecida. em Fazenda Aparecida. que “são analisadas como uma teatralização.243). uma forma de resistência é as letras das músicas dos tocadores de chula. e este mandou-lhe alguns mil réis que suavizaram os apertos de uma semana”. a submissão falsa.

armando bem um celim. davam vida” (M. o capataz recebe 10 quilo ‘a escolher’. 1943.. como o embarque do gado que ocorre “durante o dia nas ‘caiçaras’ (portos de embarque) à beira dos campos [. p.Asas da Palavra Marcus Vinnicius C. sem pena. na linha enevoada dos horizontes (PEREIRA. Em torno da carne cerrou-se uma rápida e vigilante solidariedade. o motivo foi medo.. Segundo a personagem Gaçaba — vaqueiro de “varra e ferrão” (M. Sangrava bois velhos pras matalotagens5 do Coronel Coutinho e gostava de se vingar também dos fazendeiros ruins [.].. os barqueiros fazem a travessia da baía de Marajó” (JURANDIR. 248). contudo fora expulso pelo Manuel Raimundo. na paisagem campestre. Gaçaba desceu do cavalo e foi peiar [sic] a bruta. de esconder carne e miúdos. o gado mugia e bufava aos montes nos currais poeirando” (M. podres dos brancos. como o lenço dos maragatos.. a ponto de não ter mais uma camisa curta. “Medo da língua e da música de Ramiro.” — observa o narrador (M. Atira-lhe o relho nos traseiros.. p. p. Depois dos ásperos trabalhos do embarque feito pela perícia e coragem dos vaqueiros. a rês espinoteia e cai com os vaqueiros em cima. Gaçaba e Ramiros estavam. em um artigo. Era tempo de apartação do gado para o embarque. 244). O vaqueiro Ramiro é descrito pelo narrador (M.]. as cordas giravam no ar. e a parte que sobra fica para os vaqueiros” (PINTO. “Carnes sangrentas chiavam no braseiro. seus instrumentos lhe davam aquela liberdade. Uma rês quebrada é rês sangrada.80) — ver Figura 24 e 25. 6 A baeta abriga o vaqueiro “no inverno. — Quebrou! Quebrou!” (M. Ele estava provisoriamente nas terras dos Coutinho. aquela cadência. ao feitor-geral cabe o quarto dianteiro. é matalotagem forçada [. os homens comiam filé com pirão de leite [. p. Como o Capitão era muito ruim para os vaqueiros. 205). As chulas de Ramiro falavam dos vaqueiros. Quebra. os convidados para o adjutório. disserta sobre a indústria pastoril. 1998. então. 65). aquela franqueza que os brancos temiam. as marcas esbraseavam na fogueira. assombrações. ia ajudar os seleiros. p. A matalotagem é um sistema de reparte de carne de gado: “a casa-grande recebe um quarto do traseiro. visagens. O gordo Capitão saltava impropérios contra os vaqueiros. 35). Os versos de suas músicas “seus versos em nada agradam as pessoas visadas. o administrador recebe 10 quilos do outro traseiro.]. Quando a necessidade era muita. pondo a cor mais alacre. mostrando as dificuldades presentes neste empreendimento. Tido como bom curtidor. 247-248).50) 5 117 . 1998.. O feitor fazia vista grossa. mas não podia fazer nada. são entusiasticamente aplaudidas pelos admiradores desse estilo poético” (VIANNA. O mesmo procedimento já era usado desde da época colonial. “Gaçaba combinava com os vaqueiros: o coirão velho nos paga. “As baetas6 vermelhavam ao sol. só tentar recolher a carne das reses quebradas. Leite mandavam-no convidar para beber um ‘mata-bicho’ e cantar chulas” (VIANNA. trabalhando para o primo do Coronel. 247). trataram. Seus companheiros rodearam a rês. 34).. Capitão Guilherme. agora. seu amigo. 208): não tinha emprego certo nas fazendas.. 1956. da chuva e da friagem. Publicista Dalcídio Jurandir (1943). 1964. sinônimo de excelência —.].

248). capatazes etc). principalemnte. 1998. Marajó. Esta visão idealizada se mantinha. como ele há centenas nos campos do Marajó) e a sua adestração com os recursos naturais disponível ao rebanho. eles apresentam pontos de resistências: as músicas satíricas. mas na produção estratégica do grupo dominante. Permitindo ter uma boa figuração da representação sócio-histórica da sociedade que aquelas imagens são devedoras. mesmo correndo na terroada no tempo seco. a qual recobria as desigualdades sociais. 44). Ou nas falas da dona da fazenda Tapera: “O serviço de campo era considerado muito importante. A situação social representada pelos grupos marajoaras narrada nos romances estudados é exemplar. alegoria bem empregada por Dalcídio Jurandir. Manuel Raimundo. nos risos do fazer cotidiano das personagens vivenciadas naqueles textos ficcionais. utiliza-se de táticas variadas para “equacionar” a relação entre a reserva de força de trabalho (Antônio.Asas da Palavra FAZENDEIROS E VAQUEIRAGEM NO MARAJÓ. a quebra das reses e roubo de gado. A estratégia daquele grupo pode ser bem clarificada na percepção da personagem Edmundo Meneses de que “na fazenda os vaqueiros pareciam mais felizes na sua vida primitiva. Ela expressa bem o exercer. Abordamos. para lhe dar diretamente com os grupos dominados. Nossa análise dos romances enfoca dois atores sociais: os fazendeiros e os vaqueiros. p. outras obras de autores paraenses sobre o Marajó. de Dalcídio Jurandir. Em relação aos fazendeiros. do conduzir as condutas do grupo subalterno. 118 . DE DALCÍDIO JURANDIR Nosso trabalho pautouse em apresentar as representações sociais construídas a partir de romances que focam a Ilha de Marajó. Nestes romances. as relações de poder pululam no entretecimento da narrativa. nosso chamado ‘verão’ ou no lamaçal do nosso ‘inverno’ ” (ACATAUASSÚ. é uma “peça” descartável. também. que na “batalha” de administrar sua criação de gado cavalar e vacum. mas era feito com alegria e dava prazer a todos que moravam nas fazendas” e a “destreza do vaqueiro naqueles tempos era saber laçar. exigindo cada vez menos o pouco de que necessitavam” (TRC. Nas dores. nos suores. à medida que deixava o “serviço sujo” para seu “quadro administrativo” (feitores. apresentamos sua “teoria do prestígio” que era uma exposição da sua maneira de explicar o seu poder e justificar a hierarquia social que considera tão natural. o Parafuso. Os vaqueiros têm o seu adestramento através da sua lida com o trabalho com o gado. Lembremos do “general” do Coutinho. pelo grupo dominante. chulas.

João. 11/ 07/1964. Belém: CEJUP. 3. p. Traduçao Eugenio Amado. Fernando. 1943. 2002 MIRANDA. Tesouro Descoberto no Maximo Rio Amazonas. Belém: Universidade Federal do Pará. Raízes.48-65.Marcus Vinnicius C. SUDAM/PNUD. Mimeografado. O Observador Econômico e Financeiro. 77-87. A Ilha de Marajó. Marajó. 1. Vicente Chermont de. 32-44. Belém: Empresa Jornalista e Editora Gráfica. Transformações econômicas e questões sociais na borda do Lago Arari. 1979. Estudo Econômico-social. Viseu: Edição do Autor. A Ilha de Marajó. n. 2002. Marajó em tempo de Muratã. 1992. 2 v. Leite Asas da Palavra REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARDOSO. 21. 1956. 367-381 SCOTT. dezembro de 1993. Marajó. Marajó. Dalcídio. CATAUASSÚ. 1998. MIRANDA DA CRUZ. n 89. minha vida. p. 21. Alfred R. 1992. VIANA. Manuel Nunes. Belém. Rio de Janeiro: Contraponto. PINTO. DANIEL. Raízes. Scott. JURANDIR. Dalcídio. p. Rio de Janeiro. 3. n. ___________. três bois para cada homem. João Pessoa. Formas cotidianas da resistência camponês. 2004. Padre João. Glossário Paraense: Coleção de Vocábulos Peculiares à Amazônia e Especialmente à Ilha do Marajó. Soure. Cejup. Marilda A. Viagens pelos rios Amazonas e Negro. Ilha de Marajó. A Fazenda Aparecida. PEREIRA. 1998. 1999. MENEZES. Belém: SECULT. São Paulo: EDUSP. Pérola do Arquipélago do Marajó. Petrópolis: Vozes.48-54. O cotidiano camponês e a sua importanciã enquanto resistência à dominação: a contribuição de James C. ed. ___________. 2004. p. Senhora da ilha. v. João Pessoa.10-31. p. Michel. 1998. jan/jun. Belém: CEJUP. 1968. Vigiar e Punir. Dita. p.Belo Horizonte: Itatiaia. OLIVEIRA. 28 ed. Belém: CEJUP. In: JURANDIR. WALLACE. 1. 3. 1994. FOUCAULT. Marajó. v. Tradução Lígia Vassallo. 2 v. de. 1974. Três casas e um rio. Globo Rural. ed. Rio de Janeiro. José Carlos. Vicente. Miguel E. Tatão de. Chão de Dalcídio. Rio de Janeiro: Serviço de Informação agrícola. ed. Rio de Janeiro. Manchete. jan/jun. James C. 119 . SALLES. Belém.

A bolinha subia e caía na palma da mão. de imaginações. 120 .Asas da Palavra Tudo fazia para que Alfredo se encharcasse de sonho.

Passagem dos Inocentes. filho e poeta da exorbitante Amazônia. O “desejo de lançar a obra completa”. Em 1998. em Belém. Sete anos depois. Loureiro expressa o desejo de ver reeditada no mercado livresco do país a obra esgotada e fragmentada. a UNAMA. partiu para uma nova tentativa.Asas da Palavra A NOVA RECEPÇÃO DA OBRA de Dalcídio Jurandir Gunter Karl Pressler* A proposta de reedição das obras de Dalcídio Jurandir coincide com um desejo nacional de reencontrar esse grande romancista. respondidas pelo espesso silêncio onde naufragam algumas obras da maior importância de nossa Literatura. só foi desejo. incansável voz contemporânea da terra d’água. Em todos os lugares há perguntas insistentes por suas obras. “Quarenta anos em débito com o acolhedor povo desta terra”. pela professorapesquisadora Rosa Assis. editou os primeiros três romances várias vezes (1991. a editora CEJUP. 1994 e 1997) e — fracassou (!?). Eenfatiza João de Jesus Paes Loureiro em 1984. publicou a edição crítica do primeiro romance e esta prepara a edição * Professor da UFPA 121 . Apresentando a segunda edição do quinto romance do Ciclo. 1992. diz Giorgio Falangola. o editor1.

Asas da Palavra

A NOVA RECEPÇÃO DA OBRA DE DALCÍDIO JURANDIR

crítica do segundo romance. Em 2001, um representante da Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro, expressou o interesse de reeditar, no mínimo, um livro.
Finalmente, o Instituto Dalcídio Jurandir (Rio de Janeiro) planeja juntamente
com a editora da Universidade Federal do Pará com o romance, Belém do Grão
Pará, a reedição do “Ciclo do Extremo Norte”. O que falta para a realização do desejo?
Vejamos o quadro das edições da obra:

ANO

CIDADE

EDITORA

TÍTULO

1941

Rio de Janeiro

Vecchi

Chove nos Campos de Cachoeira

1958

São Paulo

Martins

Três Casas e um Rio

1947
1959
1960
1963
1968
1971
1976
1976
1976
1978
1978
1984
1987
1991

São Paulo

José Olympio
Vitoria

São Paulo

Martins

São Paulo

Martins

São Paulo

Martins

São Paulo/Rio de Martins/NL
Janeiro

Marajó

Linha do Parque

Belém do Grão Pará

Passagens dos Inocentes
Primeira Manha
Ponte do Galo

Rio de Janeiro

Cátedra

2ª ed. Chove nos Campos de Cachoeira

Rio de Janeiro

Artenova

Os Habitantes

Rio de Janeiro
Rio de
Brasília

Record

Janeiro/ Cátedra/ NL

Chão dos Lobos
2ª ed. Marajó

Rio de Janeiro

Record/

Ribanceira

Belém

Falangola

2a Linha do Parque

Belém
Belém

Falangola
CEJUP

2ª ed. Passagens dos Inocentes
3ª ed. Chove nos Campos de Cachoeira; 2ª ed.
Marajó; 2ª ed. Três Casas e um Rio
3ª ed. Marajó

1992

Belém

CEJUP

1997

Belém

CEJUP/ SECULT/A 4ª ed. Chove nos Campos de Cachoeira
Província do Pará

1994

1998

122

Rio de Janeiro

Belém

Belém

CEJUP

UNAMA

3ª ed. Três Casas e um Rio

5ª ed. Chove nos Campos de Cachoeira

Asas da Palavra

Gunter Karl Pressler

Também em 1984 aparece o primeiro trabalho acadêmico sobre o autor,
Enilda Tereza N.Alves defende a dissertação de mestrado, na PUC/Rio de
Janeiro, intitulada: Marinatambola: construindo o Mundo Amazônica com apenas
‘Três Casas e um Rio’ e, em 1991, segue Olinda Batista Nogueira o caminho da
interpretação psicanalítica com a tese de doutorado, na UFRJ, intitulada: Dalcídio Jurandir: ReVelação de Norte e Sul2. Pedro Maligo (Michican University)3, no artigo pouco percebido, lê a
obra no contexto da “representação da Amazônia” e reconhece seu “lugar especial entre os
autores modernistas brasileiros”, constata P.Nunes (2001: 31). A revista do Centro de Letras da
UNAMA (Belém), Asas da Palavra, em 1996, lança um grande passo para a redescoberta da
obra e do escritor: Jurandir foi patrono do II Fórum Paraense de Letras da UNAMA. Em Belém
encontram-se os estudiosos Josse Fares, Paulo Nunes e José Arthur Bogéa com seus trabalhos
de divulgação. Em junho de 2001 aconteça o “Ciclo de Conferências sobre Autores Paraenses”
cujo tema foi Dalcídio Jurandir e, no novembro do mesmo ano, o Colóquio Dalcídio Jurandir: “60
anos: Chove nos Campos de Cachoeira” foi a marca histórica da nova recepção da obra e do
escritor. Em 2002, Marli Furtado volta à Universidade Federal do Pará, na bagagem a tese de
doutorado na UNICAMP sobre o “Ciclo do Extremo Norte”, intitulado: Universo Derruído e
Corrosão do Herói em Dalcídio Jurandir. E, em seguida, tanto no “I Encontro ABRALIC na
Amazônia” (2002) quanto na VII Feira Pan-Amazônica (2003), os trabalhos sobre Jurandir
recebem destaque. Em 2003, no Rio de Janeiro, é fundado o Instituto Dalcídio Jurandir, vinculado
à Casa Rui Barbosa e o fundador, Ruy Pinto Pereira, defende em 2004 sua dissertação de
mestrado, na UERJ, intitulada: Singularidade e Exclusão: o Romance “Chove nos Campos de
Cachoeira”, de Dalcídio Jurandir. No Curso de Mestrado em Letras da UFPA, os projetos
acadêmicos aparecem, ao lado de Projetos de Pesquisa de Iniciação Científica, ganhando o Selo
da Lei de Incentiva à Cultura, além de dezenas de Trabalhos de Conclusão de Curso, em Belém
e nos Campi do interior: Soure e Breves, e da UNAMA, e surgem dissertações e uma tese de
doutorado: Paulo Ornela, Alíce de Fátima N.Moura, Rosanne C. de Castelo Branco e Marcus
Vinícius Leite.
*

*

*

Dalcídio Jurandir nasceu na Vila de Ponta de Pedras/Marajó, no dia 10 de janeiro de
1909, e faleceu, no dia 16 de junho de 1979, no Rio de Janeiro, onde ele viveu definitivamente
desde 1942. Ele publicou dez romances que “formam um panorama amazônico sem paralelo
na literatura brasileira” (Pedro Maligo, 1992: 52) e recebeu dois importantes prêmios literários
brasileiros: o prêmio Vecchi-Dom Casmurro (1941) e o prêmio Machado de Assis da Academia
Brasileira de Letras (1972).
Escrever sobre sua obra significa por um lado, numa leitura histórica, não só rever a
situação social, econômica e cultural do início do século XX, e, por outro lado ser consciente do
interesse atual no autor que não deve se confundir com o ato puramente memorial. A
reminiscência a Dalcídio Jurandir caracteriza-se melhor como rememoração: tirar do
esquecimento da história da literatura brasileira um autor chamado “regionalista menor”; nas
palavras de Alfredo Bosi (1970/1994: 426) que a “literatura regional amazônica [que] assume,
nos casos mais felizes, um inegável valor documental”4. A sua obra, um dos mais fascinantes (e
ao mesmo tempo desconhecido) prosadores brasileiros da Modernidade, no entanto, está à

Publicado sob o título: Dalcídio Jurandir: um Olhar sobre a Amazônia (2003).
“Ruínas Idílicas: a Realidade Amazônica de Dalcídio Jurandir”, 1992.
4
Sobre essa questão diante da recepção da obra de D. Jurandir recomendo o livro de Paulo Nunes (2001).
2
3

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Asas da Palavra

A NOVA RECEPÇÃO DA OBRA DE DALCÍDIO JURANDIR

margem do cânone da literatura nacional. Por que a obra e sua qualidade não
receberam seu devido reconhecimento? Para isso é responsável a má divulgação
da sua obra, publicada em dez editoras? Uma obra esgotada no mercado
editorial, de publicação precária e de circulação quase que inexistente. Críticos
respeitados resenharam os romances, escritores e poetas elogiaram-no (só para selecionar alguns):
Afrânio Coutinho (1957), Antônio Olinto (1959), Benedito Nunes (1964), Alfredo Bosi (1970),
Jorge Amado (1972), Temístocles Linhares (1987), Massaud Moisés (1989). Como se explica a
modesta repercussão?
A crítica de Flávio R.Kothe sobre a constituição do cânone da literatura brasileira propõe
a necessidade de “reexaminar a literatura a partir de uma visão mais ampla de sistemas sígnicos”
(1997: 47). Seria tarefa de investigação recepcional verificar funções e meios de transmissão e
divulgação da literatura no contexto da Indústria Cultural e das mídias de massa, pois a Estética
da Recepção e do Efeito, nas principais figuras, H.R.Jauss e W.Iser, já desenvolveram os
pressupostos teóricos e a metodologia adequada à pesquisa empírica e textual sobre o ato de
leitura e sobre os juízos estéticos do leitor empírico (historiador e crítico) e sua importância na
configuração do cânone literário. Regina Zilberman apresenta a proposta da Escola de
Constança a fim de propor para o Brasil uma “nova história da literatura” (1989: capítulo 3)5.
No caso do nosso estudo sobre a recepção da obra de Dalcídio Jurandir, levantamos
dados da recepção, seus autores (críticos, escritores, historiadores) e sua repercussão na
historiografia literária. Conseguimos caracterizar, num primeiro levantamento, os enfoques
interpretativos e ideológicos, enquanto o outro aspecto da pesquisa investiga a produção e
divulgação da obra dalcidiana desde a premiação em 1940 até hoje. O “horizonte de expectativa”
da crítica é expressão da presença da obra e sua divulgação, mas o que gerou e como foi gerada
a obra a fim de possibilitar a crítica? Esta parte da pesquisa visa a criação dos horizontes; sem
dúvida, o a priori da crítica e do juízo de valores. A crítica institui horizontes de expectativas,
como mostra Jauss (1967/1994), e causa a superação e a ruptura desses horizontes e,
consequentemente, possibilita a reescritura permanente da história da literatura. Faltava o espaço
privilegiado da publicação da obra numa única editora, apoiada pela crítica reconhecida? Além
da diversidade e densidade do debate que instauram horizontes? O que estava na mira da
crítica brasileira nas décadas entre 1940 e 1980?
Como visar, então, a história da produção e da recepção da obra literária? “Monta-se
um cânone a partir de um modelo, e daí se confirma o modelo a partir desse cânone”, diz
Kothe (1997: 49), i.e., a historiografia “escreve a história, fazendo de conta, porém, ela é apenas
o registro da história que se impôs pela qualidade intrínseca dos textos”. No nosso caso,
analisando a crítica brasileira das décadas de 40 e 50, constata-se a tendência de rever a literatura
sob o aspecto de um Neo-Realismo “como uma recuperação da intenção documentária do
naturalismo histórico, mas transformada por uma nova conscientização sobre causas históricas
e psicológicas” (Maligo, 1992: 49); os grandes modelos da inovação literária são Graciliano
Ramos e Guimarães Rosa; pode-se falar da valorização de um “Regionalismo Universal” em
detrimento de um “Regionalismo menor”.

5

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Pode-se verificar todo o debate no contexto da ANPOLL, pois não foi criado por acaso o GT História da Literatura em 1992,
durante o VII Encontro, em Porto Alegre (Cf. os Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS e a s publicações em
torno desse GT).

.. narratologia: “rigor de construção [.. • Metalinguagem.. mas sempre entrecortado de silêncios.. “coerência testemunhal” (Haroldo Bruno). de Alfredo.Lopes). ora macio. “efabulação/narração” (J. modismos. “Marajó. plena de verdade e de beleza. “extraordinária objetividade” (Antônio Olinto).] massa mestiça de camponeses. é literatura brasileira” (Nelson Werneck Sodré).. pesca.] um estilo ora áspero. “romance psicológico” (Adónis Filho). revelando aquela mundiamazonivivência necessária a que o autor regional inscreva-se na trama do universal [. “denúncia de uma determinada situação social” (Herberto Sales).] Surrealismo caboclo de beira de rio. festas e ditos populares.. romance social.] um etnógrafo” (Luis do Câmara Cascudo). vieram juntos do Pará. lendas. o psicológico e o filosófico-existencial: “conteúdo humano” (Herberto Sales). da Câmara Cascudo).. “lítero-discursivo” intrínseco na linguagem narrativa (Homero Homem).. de forma diferente. “Regionalismo documentalista”: “a massa que barbulha em suas páginas [.. “técnica narrativa”(Antônio Olinto). “meditação sobre a arte e o destino do romance” (Heráclio Sales). introspectiva e psicológica” (Afrânio Coutinho).... a “solidão de nuvens” (S. • O universal... “fisionomias de existência” (L. “trouxeram aquela gente [...] regionalismo documentalista” (Nelson Werneck Sodré). gente suada e insignificante” (Astrojildo Pereira).] seus regionalismos” (Sérgio Millet). É um homem que fala” (Álvaro Moreya)..] um quadro de costumes. “a verdade cotidiana. “lembra-me certas músicas em órgão. “evolução estilística”(Ary de Vasconcelos). “valor documental [. em qualquer língua.Gunter Karl Pressler Asas da Palavra Levantamos um pequeno painel da crítica que acompanhava a publicação das obras com as seguintes características: • “folclore” naturalista do século XX. dores.. discurso e linguagem poética..] força descritiva. Um e outro aponta já para características diferentes da obra que somente no final da década de 90 e agora recente tornaram-se fundamentos para uma nova recepção: • a relação do oral e da escrita: “Não é um autor que escreve. 125 . todo um folclore” (Moacir C. livro e nome.. “há um paraensismo universalizado. “o mais complexo e moderno”(Alfredo Bosi). “fidelidade ao ambiente [. “aquela solidão de nuvens baixas e verdes molhados que é Marajó [.Guimaraes Manegale).] literatura regional amazônica” (Alfredo Bosi e Antônio Coutinho). marítimos [...] realidade que ele foi encontrando em longas viagens pelo interior” (Álvaro Moreyra). de tombadilho e campos alagados [. lentas e profundas” (Jorge Amado). completando “a solidão de Eutanázio” (Paulo Nunes) e. Dalcídio Jurandir.] um desenho humano de quem tem a consciência de que o instrumento de criação é a linguagem” (Fausto Cunha). “ corrente subjetivista.] trabalhadores. “romance de costumes e em outras áreas um ‘romance social’” (Adonis Filho). cheio de cismas” (João de Jesus Paes Loureiro). • Romance moderno: “introdutor da paisagem urbana da Amazônia” (Benedito Nunes). pela sua maneira de fazer vida e a gente [. “saga da região do Norte [. • técnica narrativa.Millet).. com a paisagem exata [.

a exemplo de Grande Sertão: Veredas. 3ª ed. J. sempre em perigo de cair na “folclore regional” e até encantos ufanistas. de outro. apoiando-se em Pedro Maligo (1992 e 1998) e a partir de Massaud Moisés (1996. reduzida a Amazônia à pequena floresta de Cachoeira. P. enfoques sobre o exóticos e novos velhos territórios (Amazônia).. Ilustres nomes falaram sobre o escritor. mas já com um olhar diferente. Realmente. Nunes questiona a indiferença crítica diante da obra premiada. A crítica não é ouvida. . * * * Particularidades da recepção — por quê? O CNPq reconhece o mérito dos organizadores do Colóquio. pelo fato de “resgatar” um autor esquecido e. o silêncio? Podemos falar das particularidades do processo da recepção.. É a vez da atualização da crítica e da teoria literária. Por que não na obra de Jurandir?6 Jurandir recria a característica oral na poeticidade da escrita narrativa que parece ser um grande poema escrito em prosa. pois não se configura no horizonte da expectativa marcado pelos nomes dos contemporâneos: Graciliano Ramos. em que se confundem o tempo da narrativa e o tempo narrado encontraram dificuldades na reflexão teórica? A particularidade da linguagem como poética e recriativa de uma certa oralidade se estuda metodologicamente na obra de Guimarães Rosa. Leitor atento das críticas anteriores. podemos observar um interesse crescente para a obra de Jurandir. mas lento – permite “resgates”. o valor estético e a poeticidade da obra revelam-se num discurso histórico inserido na premissa de que cada tempo descobre. 1 126 Cf. em 1999. mas “assuntos regionais” não recebem uma verba do Conselho Nacional. 1992).Nunes encontra sua originalidade com a expressão “aquonarrativa” (1998).Guimaraes Rosa e Clarice Lispector? Os romances de característica naturalista-realista do século XX.. em que a composição sinfônica da obra se subdividia ao mítico [. Pressler. em 1987. numa essência estético-literária eterna objetivamente enterrada na obra. Os novos enfoques críticos ressaltam as características universais da obra: a estrutura narrativa complexa e a linguagem poética no limiar de oral – escrita.] o crítico ainda acrescentava que. destacando o elemento humano. a partir do Colóquio Dalcídio Jurandir: “60 Anos Chove nos Campos de Cachoeira” (2001). mesmo assim. ainda — como constata Paulo Nunes — “uma crítica [. de Guimaraes Rosa. Como explicar. 2001: 28). “atualiza” (Walter Benjamin). significaria continuar num absolutismo tradicional que acredita num valor. um discurso narrativo de cunho indireto livre. A historiografia literária – em movimento permanente.. os trabalhos pioneiros neste linha de Benedito Monteiro (O Cancioneiro do Dalcídio.] impressionista”. A nova recepção iniciou em Belém. Isso combina com uma certa penitência local. de um lado. Julgar a crítica anterior pela não valorização da obra. 2002) come “notas psicológicas e líricas”. uma “vasta narrativa de aprendizagem” (“romance de formação no Brasil do século XX”.. pela percepção da qualidade literária (o aspecto narratológico) e pela contribuição sobre a questão da recepção da literatura brasileira (Historiografia).] no plano rítmico de Proust. incorporando mais um território à nossa literatura” (Linhares apud Nunes. Linhares consegue ver qualidades do romance moderno do século XX: “Antônio Olinto situava o autor [. 1985) e Rosa Assis (O Vocabulário Popular em Dalcídio Jurandir.Asas da Palavra A NOVA RECEPÇÃO DA OBRA DE DALCÍDIO JURANDIR Temístocles Linhares.. Nos últimos anos. rompe e modifique seu “horizonte de expectativa” (Jauss). se deixava ver por completo.) e seu termo “romance-rio”. Uma primeira abordagem da recepção da obra de Dalcídio Jurandir apresenta Paulo Nunes em 1998/2001. faz uma leitura diferente. particularmente. mas com uma estrutura narrativa complexa e complicada.

Goulart Aldemaro T.Asas da Palavra Gunter Karl Pressler Vejamos. o canto elegíaco de um rio: a serpente em “Três Casa e Um Rio” Rosa Assis Marajó: tableau de uma sociedade pós -escravista COLÓQUIO DALCÍDIO JURANDIR: 60 ANOS DE CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA. Dalcídio “volta” à Belém de Rosa Assis seu tempo Aquonarrativa: uma leitura de Chove nos campos Paulo Nunes de cachoeira. Gulat Outras imagens: esboços históricos e Edílson Motta iconográficos do Marajó As cidades (quase) invisíveis de Eutanázio Ernani Chaves Tematização do ato de ler em Dalcídio Jurandir: anotações entorno de Chove nos Campos de Silvio Holanda Cachoeira Willi Bolle A imagem da cidade: de Cachoeira a Belém Josse Fares Mergulhos nos Campos de Cachoeira Elizabeth Vidal Memória feminina nos Campos de Cachoeira Adélia Santoes Irene: a dualidade do “bem” e do “mal” e Cely Valente Chove: a estrutura narrativa do romance moderno Gunter Karl Pressler Universo derroído e decadência do herói em Marli Furtado Dalcídio Jurandir Dalcídio Jurandir: o trapezista no arame do Arthur Bogéa equador Dalcídio Jurandir: uma leitura do caroço de tucumã: vias de sonhos e fantasias Poesia e oralidade 25 a 29 de junho Rosa Assis Benedicto Monteiro julho 05 a 09 de novembro 10 de dezembro 2001 EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DO COLÓQUIO E CONFERÊNCIAS. BELÉM. no final. SALVATERRA E PONTA DE PEDRA (MARAJÓ) Gunter Karl Pressler 2001 ASAS DA PALAVRA Nº12 (BELÉM) PEDRAS DE ENCANTARIA TTEMPO EMPO PERÍODO ANO 127 . o quadro mais atual da nova recepção. BELÉM / CACHOEIRA DO ARARI/ SALVATERRA (MARAJÓ) Marcus Leite Ernani Chaves Zélia Amador de Deus Paulo Nunes Elizabeth Vidal Josse Fares Rosa Elizabeth Acevedo Personagens e problemas rurais em Dalcídio Gutemberg Guerra Jurandir Mito e Sociedade em Dalcídio Jurandir: Sílvio Holanda anotações em torno de “Marajó” Baudelaire dos Anjos Jurandir e a poética da Amarilis Tupiassú degenerescência Vinte anos depois. é universal As esfinges da cidade: mulheres em “Belém do Grão Pará” “Ponte do Galo”: a cidade como labirinto do desejo Dalcídio Jurandir: novas leituras sobre a Amazônia Limiares entre o nacional e universal. de Dalcídio Jurandir Dalcídio Jurandir: oscilações de um ciclo Benedito Nunes romanesco Paulo Nunes A aquonarrativa de Dalcídio Jurandir As temporalidades em Chove Marcos Leite Confluência de diálogos em Chove Olinda Assmar O discurso em Chove: o elo psíquico entre Cleide Cunha narrador e personagem Marajó sob o signo da antropologia e da estética AudemaroT. elaborado por Lília Melo (bolsista da UFPA): EVENTO/ PUBLICAÇÃO BRASÍLIA: MICROEDIÇÃO DO AUTOR II CICLO DE CONFERÊNCIAS: DALCÍDIO JURANDIR BELÉM/UNAMA TÍTULO AUTOR VII Jornada do Conto Popular: Dalcídio Jurandir Vicente Salles A fala ‘caboca’ em “Passagem dos Inocentes” Dalcídio Jurandir: A escrita do mundo marajoara não é regional. um caso de outridade na Amazônia pintada por Dalcídio Jurandir e Mário de Andrade Dalcídio Jurandir: novas leitura sobre a Amazônia Em Dó maior.

CASA DE ESTUDOS GERMÂNICOS/ UFPA VI JORNADA DE ESTUDOS LINGÜÍSTICOS E LITERÁRIOS. um perfil traçado por diversos olhares O romance de formação na região amazônica: Inglês de Souza e Dalcídio Jurandir Marli Furtado Josse Fares Ruy Pinto Pereira Milena Albuquerque Simone Meireles Marli Furtado 17 a 18 de dezembro Airton Nascimento 17 de junho Benedito Nunes Vicente Salles Moacir Werneck de Castro Vivente Salles Paulo Nunes Zélia Amador de Deus Gunter Karl Pressler Gunter Karl Pressler Lília Melo Dalcídio Jurandir. 09 a 10 de julho Marli Furtado Projeto: Literatura Brasileira de Expressão Amazônica: Dalcídio Jurandir “Dalcídio: 95 Anos para sempre” 09 a 11 de outubro Lília Melo Moacir Werneck de Castro Comemoração de 25 Anos da Morte 128 Paulo Nunes Depoimentos de um amigo e companheiro JURANDIR COLÓQUIO DALCÍDIO JURANDIR (UFPA/UNAMA) Gunter Karl Pressler Sílvio Holanda 2003 VII FEIRA PANAMAZÔNICA DO LIVRO (BELÉM) Literatura de expressão amazônica: O universo de Dalcídio Jurandir 16 de abril 2002 I ENCONTR ABRALIC NA AMAZÔNIA (BELÉM) O romance de formação na literatura amazônica Benedito Nunes: leitor de Dalcídio Dalcídio Jurandir: fios mágicos. histórias aquáticas Universo de Dalcídio Jurandir Matrizes e germinações em “Chove nos Campo de Cachoeira” Literatura (Trans-) Amazônica: uma hipótese comparativa (Manuel Scorza e Dalcídio Jurandir) A recepção da obra de Dalcídio Jurandir Dalcídio Jurandir: a importância dos meios de comunicação na receptividade da obra literária Dalcídio Jurandir: nomes e personagens da aristocracia de pé no chão de “Chove nos Campos de Cachoeira” Gunter Karl Pressler Gunter Karl Pressler Lília Melo Grupo de Teatro de Ponta de Pedras sob direção de Angelina da Costa Rodrigues José Varella Gunter Karl Pressler Marli Furtado Lilia Melo Luiz G..Leal Rosanne C.Asas da Palavra A NOVA RECEPÇÃO DA OBRA DE DALCÍDIO JURANDIR (MARAJÓ) KULTUR -NACHMITTAG De Anton a Alfredo: o romance de formação. CML/UFPA “O LIBERAL”(BELÉM) INSTITUTO DALCÍDIO JURANDIR (RIO DE JANEIRO) COMUNICANDO PESQUISA NO CAMPUS DE SOURE DA UFPA II COLÓQUIO PONTAPEDRENSE SOBRE DALCÍDIO Nota: sobre o esquecimento do aniversário da morte do Dalcídio Dalcídio Jurandir: As oscilações de um ciclo (de Marajó à Belém) Dalcídio Jurandir. contador de estórias Depoimentos Dalcídio Jurandir: O menino em busca do caroço Graciliano Ramos e Dalcídio Jurandir: uma contigüidade além do temporal Dalcídio Jurandir: ca(n)tador de grãos do Pará Dalcídio Jurandir. Branco Cleide Cunha Ivone Carvalho Débora Araújo 05 a 14 de setembro 14 de novembro 200 3 09 a 10 de janeiro 200 4 16 de junho 200 4 .. 95 anos – 1909/2004. 25 anos sem Dalcídio Jurandir – 1979/2004. dos Santos Marcilene P.

ZILBERMAN. Pedro. Brasília: EdUnB 1997. Cf. Dalcídio. 1970). Alfredo. etc. Belém: Falangola/PLG Comunicação 1985. Estética da Recepção e História da Literatura. Belém: BIA/UFPA 2003-2004. MELO. Belém: UFPA 1992. KOTHE. In: Id. Latin American and Iberian Literature). “Aquonarrativa: uma Leitura de Chove nos campos de Cachoeira. BOSI. Bandolim do Diabo (Dalcídio Jurandir: Fragmentos). 1ª ed. O Cancioneiro do Dalcídio. In: Revista USP (São Paulo) No. 48-57. de Dalcídio Jurandir.. Olinda Batista. MALIGO. o quadro das obras. “Ruínas Idílicas: a Realidade Amazônica de Dalcídio Jurandir”. Universo Derruído e Corrosão do Herói em Dalcídio Jurandir. MALIGO. BOGÉA. Flávio R. Belém: Paka-Tatu 2003. FURTADO. MONTEIRO. 13. Belém. PRESSLER. A Recepção da Obra de Dalcídio Jurandir. Marli Tereza. Dalcídio Jurandir: um Olhar sobre a Amazônia. Land of Metaphorical Desires. Paulo. NUNES. Benedicto. Gunter. Arthur. 41). JURANDIR. Campinas: UNICAMP/Instituto de Estudos da Linguagem 2002 (Tese de doutorado).Gunter Karl Pressler Asas da Palavra REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA ASSIS. Regina. Belém: UNAMA 2002 (CD-ROM). New York. Pedro. Pedras de Encantaria: Belém: UNAMA 2001. I Encontro ABRALIC na Amazônia. São Paulo: Cultrix 1994 (40ª ed. 5 a 9 de novembro de 2002. The Representation of Amazonia in Brazilian Literature. Rosa. Lília Cristina Barbosa de. Rio de Janeiro: Galo Branco 2003. ASSMAR. pp. O Vocabulário Popular em Dalcídio Jurandir. O Cânone Colonial. Março/Abril/Maio 1992. São Paulo: Ática 1989 (Série Fundamentos. História Concisa da Literatura Brasileira. “O Romance de Formação na Literatura Amazônica”.: Peter Lang 1998 (Wor(l)ds of Change. 129 ./JosseFares.

Asas da Palavra 130 .

década de 1980. Além desta produção autoral. especialmente no Pará. 1976). dissertações. Silvio Holanda. 1976). 1978). 1959). assinalo publicações e eventos institucionais. do extremo sul. 1968). ensaios. editados pela CEJUP. artigos. que ainda consta de Marajó (Rio de Janeiro: José Olympio. nascido no Marajó. que ele intitula de Ciclo do Extremo Norte. Primeira Manhã (São Paulo: Martins. Ribanceira (Rio de Janeiro: Record. 1947). é autor de uma dezena de romances. Elizabeth Vidal. excetuando-se os três primeiros. 1963).Asas da Palavra DOS CAMPOS DE CACHOEIRA A BELÉM DO GRÃO PARÁ: encontro de vozes em Dalcídio Juradir Josebel Akel Fares Alcídio Jurandir. Inaugura o Ciclo do Extremo Norte com a publicação de Chove nos campos de Cachoeira (Rio de Janeiro: Vecchi. Ernani Chaves. Os Habitantes (Rio de Janeiro: Artenova. Belém do Grão Pará (São Paulo: Martins. 1941). Cito os estudos de Zélia Amador. há um movimento acadêmico em torno da leitura da obra de Dalcídio Jurandir. entre os quais destacamos Benedito Nunes. 1958). onde vive sua infância. do ciclo Marajó. defendido na UFRJ). 1960). Ponte do Galo (São Paulo: Martins. Marli Furtado. Artur Bogéa. Rosa Assis. Hoje. A maioria destas obras tem edições esgotadas. das professoras Enilda Newman Alves (defendido na PUC/RJ). Três casas e um rio (São Paulo: Martins. Chão dos Lobos (Rio de Janeiro: Record. Sem deixar de lembrar trabalhos pioneiros. além de Linha do Parque (Rio de Janeiro: Vitória. monografias. como a reDoutora em Comunicação e Semiótica. 1971). Escrevemse teses. Pedro Maligno e Wille Bolle. Gunther Presler. Olinda Batista Assmar (da UFAC. e de alguns importantes críticos. Paulo Nunes. romancista brasileiro. Passagem dos Inocentes (São Paulo: Martins. Professora da UNAMA e da UEPA 131 . Ruy Pereira. Paulo Ornela. que vimos crescer no final dos anos 90 e início do século XXI.

poeta que escreveu o lindo cenário. II. 2 Devido a questão de espaço da revista. e. junto a Casa Rui Barbosa. e ao chegar eu percebi. saudades. Para usar uma expressão de Paul Zumthor. saudades. Publicação semestral. ô Cachoeira de novo aqui estou Ah. a partir do espaço e. Me lembrou de Cachoeira. 3 Este texto registra alguns aspectos do que se conta sobre Dalcídio Jurandir em Cachoeira do Arari. Chove nos Campos de Cachoeira é título do livro de Dalcídio Jurandir. Com estes relevantes trabalhos. Mas que tão lindas paisagens. Minha infância foi roseira. Os campos de Cachoeira: lembranças. III. da terra que nasceu. de Dalcídio Jurandir. dos discursos construídos pela voz. Marajó (MAR). O tucumanzeiro e o caroço de tucumã: dois textos orais. Três casas e um rio (TCR). o Colóquio Dalcídio Jurandir (promoção do Mestrado em Letras/ UFPA e do curso de letras/UNAMA. na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A ação promove entendimentos de significados ausentes. muito especialmente.3. ambientados no Marajó. tanto amor. eu estou. oralidade. O número 4.. especialmente em Cachoeira do Arari. entre eles estão Chove nos campos de Cachoeira (CCC). (Lino Ramos – letra de samba enredo) Os romances do “ciclo do extremo norte”. ô. e com a possibilidade de reedição da obra. Este estudo divide-se em três partes: I. pois. ô Cachoeira minha terra. ô. também imagem. já completou 10 anos. no Rio de Janeiro (2003). cidade rainha do Ararí. e com um coro de vozes-narradoras a reconstruir territórios. O ambiente marajoara retratado na obra de Dalcídio Jurandir. que a cada número estuda a obra de um escritor da literatura de expressão amazônica. depara-se com rastros da passagem do escritor. em parte. 1 132 . Jerusa Pires Ferreira. Belém do Grão Pará (BGP). Estes livros são leituras obrigatórias para qualquer estudioso da cultura amazônico . vi lindos campos verdeados. A revista é editada pela coordenação do curso de letras da UNAMA. comunicação”. Ao caminhar nos campos de Cachoeira e conviver com a população da cidade desvela-se uma nova leitura do fingimento poético do autor.Asas da Palavra DOS CAMPOS DE CACHOEIRA A BELÉM DO GRÃO PARÁ: encontro de vozes em Dalcídio Juradir vista Asas da Palavra1 e a promoção do Seminário Dalcídio Jurandir (Final da década 90 / UNAMA). passagens dos romances. ele é letra e é voz. 2001).marajoara. ô. cidade da região dos campos marajoaras. foi dedicada ao escritor marajoara. foi defendida em maio 2003. orientada pela profa. 1996. fileiras de mangueiras a sorri. bem como seus personagens são colados em pessoas e espaços reais. local onde desenvolvi minha pesquisa de campo de doutoramento. e a criação do Instituto Dalcídio Jurandir. imaginação. que agora crescem. com 20 números. imaginação. Belém do Grão Pará: um roteiro poético do Círio de Nazaré2 I Os campos de Cachoeira: lembranças. frequentemente. acrescento. a memória das personagens. não será possível apresentar esta parte do estudo. A tese “Cartografias Marajoaras: cultura. são. Hoje conservo em um jardim. ô. acreditamos estarmos mais próximos de incluir Dalcídio Jurandir na cartografia literária nacional. Jamais tive a real dimensão do que representava o autor para o espaço marajoara.

para visitar cenas. filha da D. Raimunda. sou primo legítimo do grande escritor paraense. fazemos. ao apresentar-se explica “tenho 75 anos . Lino é meu cicerone. na ilha de Marajó. O rio. né?” 5 . Professora. que falava sobre a presença do pai como personagem de Dalcídio. estas vozes me dirigem no tecido deste texto. porcos magros no manival miúdo e cobras no oco dos paus sabrecados. eu sou de 24 . uma rua beirando o rio. nome que se dá no Extremo Norte às salas de jantar. A casa apontada como moradia do escritor é uma construção humilde. marajoara. ganho na rifa. para ouvir o que se conta. entretanto.5 Em uma rua larga de chão batido. major também de muitas artes. Na parte mais baixa da vila. transbordando nas grandes chuvas. A cidade. conheceu Dalcídio Jurandir na infância. (TCR. difundida a partir da realidade literária oral. Havia um único quarto. 4 133 . a primeira parada na caminhada pela cidade-Dalcídio. produtor cultural. A sua rede de sesta era na pequena sala onde passava horas se embalando. com telhado em duas águas. vivia de primitiva criação de gado e da pesca. Alberto Coimbra. Ivete Paiva6 e Lino Ramos7. onde o autor viveu parte da infância. “ eu não sei porque não li os livros. as pessoas o conhecem de nome ou foram seus contemporâneos. cinco cômodos. 7 Professor. construído imaginariamente. além do que já relatara. para conversar com os parentes remanescentes e com os amigos de infância. roçadinhos aqui e ali. sem a imponência do chalé de quatro janelas do Major Alberto e Dona Amélia. utensílios. devoção do Major. e atulhando a despensa. 49anos (em 2001). respondeu. Agendo-me para um encontro com a cidade-Dalcídio: guardo-me para conhecer os resquícios da passagem d o escritor. formas de foguetaria e de saboaria. Entre os narradores ouvidos estão Raimunda Cunha Paiva5. estreito e raso no verão. todavia há toda uma construção imaginária. secretário da Intendência Municipal de Cachoeira. no bairro de Petrópolis. Ela guarda. o lavatório onde não apenas se lavavam mãos e rostos. mas chapas. No bárbaro guarda-louça. eu e Lino. a vila de Cachoeira. alguma caça. Poucos leram sua obra4.5) Durante entrevista com D. no corredor. a ler catálogos ou a contemplar as duas estantes de ciência popular em edições portuguesas. 6 . rolos. cruzado de redes à noite e com um modesto oratório esperando a sempre tão encomendada e nunca chegada imagem de Santa Rita de Cássia. a casa. em seu interior semelhanças com a morada da ficção: A um canto da varanda. do dia l3 de novembro de 24”. levava canoas cheias de peixe no gelo e barcos de gado que as lanchas rebocavam até a foz ou em plena baía marajoara. p. instalara a tipografia. a partir de descrições das duas obras ambientada em Cachoeira do Arari. Raimunda. adjunto do promotor público da Comarca e conselheiro do Ensino (TCR. gramáticas e dicionários. Via-se. lhe perguntei sobre a possibilidade de outros personagens.Josebel Akel Fares (UEPA/UNAMA) Asas da Palavra Em Cachoeira. major Alberto. vidros de candeeiro. ou seja. Major guardava os poucos instrumentos de sua arte de fogueteiro e fabricante de sabão. p. Cachoeirense. Situada num teso entre os campos e o rio. morava num chalé de quatro janelas o major da Guarda Nacional. de madeira. daquilo que ouviram falar dos romances.

Asas da Palavra DOS CAMPOS DE CACHOEIRA A BELÉM DO GRÃO PARÁ: encontro de vozes em Dalcídio Juradir O texto oral ouvido ali traz-me cenas de infâncias vividas em áreas rurais da Amazônia evocadas pelos relatos do esconder-se ou do correr em busca das “criações domésticas”..narradoras a cenas em que o protagonista real-ficcional. como Jenipapo. corria atrás das galinhas. Estes serviam de “cavalos de caubói”. na cheia. O menino esperava o sinal da isca de carne e pão. sob as tábuas do assoalho. e.9) Alfredo fisgara um peixe. Ainda vejo um pequeno buraco no chão da varanda e sou levada pelas vozes . Enfiava agora a linha. levada por um peixe ou visagem de criança apanhada pelos sucurijus(p. Teimosamente. debaixo da casa8. A linha comprida ia embora. sem anzol. chamando-os de filinhos.(p. devido à temporada alagada.8) Ao apanhá-lo. p. ficava-se entalado ou batia-se a cabeça no soalho. Alfredo enfiava a linha geralmente com um anzol novo.. moradores da casa. Era-me familiar andar debaixo da casa atrás não só dos bichos de penas. explicam-me que era ali. elas são muito mais altas.17). rogando pragas. de pequena altura. Afinal rompe-se a linha. Em alguns lugares da região. corria pelas marés. Giovanni Gallo as chama de “casas caneludas”. um metro acima do terreno. (TCR. ao querer ver o peixe passar pelo buraquinho partia-lhe a cabeça. a indagar porque não choravam e cadê suas mães etc. no mínimo. dentro de seu camisão. com um miolo de pão amarrado na ponta e sentia-se puxando de cima para o rio que o espreitava lá de baixo. lá corria em socorro. A fenda tinha calculadamente menos de um dedo de comprimento por meio polegar de largura. redemoinhos e lagos. o anzol perdido. Por isso mesmo parecia mais perigoso aos dedos e mortal para os peixes. As casas são construídas com. que Dalcídio-Alfredo fugia do mundo com o seu caroço de tucumã. como montada em carneiros. muitas vezes. Os parentes do escritor. que bateu de encontro ao soalho. talvez sardinha. fugia pelo quintal. mesmo que fosse tão pequeno como um peixe matupiri? Por ali só era possível peixinhos que saltavam reluzente no soalho. Se Mariinha. espreitava da porta do quarto. como passá-lo pela fenda. 8 134 . cabelo no rosto. Na imaginação de Alfredo. pescava por uma fresta no assoalho.

como é que a gente diz? Era muito mais. Ivete ratifica. era irmã do meu pai. Margarida Ramos.. subiu pelo esteio desta ponte. Tinha uma bem aqui.. entramos na casa de D. como primo do autor. eram umas manguinhas assim. deserto. Essa casa hoje é da Edite. Se lembra. que ela criava aqueles patos.] Ele desceu a escada e avistou: no casco do Didico aquele menino pescando. Ela veio pra cá pra Cachoeira 135 .. porque existia campo de futebol... guarda uma série de informações vividas ou repassadas pelos seus pais. o Cachoeirense. de lá de trás. chama de ponte. Me pega aqui na beira Alfredinho (PG. era muito melhor. era tudo bem organizado. 35). Enchia tudo.. morreu uma filha do pai dele afogada. pés pendurados sobre o rio. Ah! Enchia muito. tem vez que eu me lembro. Aquela vez. Ele apresenta os dados biográficos do escritor.Josebel Akel Fares (UEPA/UNAMA) Asas da Palavra Andamos mais um pouco. no tempo do Dalcídio. que eu que agora [. no quintal de lá. já foi melhor. a casa lá enchia. tinha o Arari.] É. José Ramos.. Ele conta de uma ponte que ali passava. uma casa ali.. O autor e a família: Lino Ramos. e. a gente andava nas canoinhas. acompanhados da filha. que era bacana. achava melhor do que agora... tivesse funcionado a intendência. né? Eu ainda cheguei a conhecer essas casas.. tinha quintal aqui. tem até negócio de criação. as enchentes. do pai dele. talvez. Raimunda da Cunha Paiva. eu sonho com essas . Rui. . Cachoeira já foi muito bom.. que ela preferia a atual: Enchia tudo. eu sonho. mas não o dá nome.. os afogados. Aqui era um lugar que não tinha muitas casas. A mãe arremata saudosa: Mas.. como um lagarto. Esses postes eram tudo pra esse lado. Lá. era bacana. A mãe dele. a gente ia pra lá. muito mais. [. conta do cárcere por suas convicções políticas.. tinha uma ponte grandona. o pessoal pra ir lá pra cima tinha que vir na canoinha até lá na igreja . e sugere a possibilidade de serem as casas-título do “Três casas e um rio”.. Mas Cachoeira. no meio da rua. mas era do Viloca. e agora fica mais. Lino mostra duas casas antigas. chamada Ponte do Galo. referindo-se ao romance homônimo. aí a água passava por debaixo. tomava banho. suas influências e a gênese dos seus romances: Dalcídio Jurandir nasceu em Ponta de Pedra em 1902 e mudou-se pra Cachoeira em 1910.. conta sobre a paisagem natural. o narrador refere-se repetidas vezes a um trapiche em frente da cidade. de antigamente. num tempo que era mais atrasada. tinha uma mangueira bonita. uma em ruínas e outra onde. Na primeira parte dessa obra. Pois é. certa menina correndo a beirada. A senhora que se embala numa rede. tinha uma ponte aí pra trás bonita. era muito melhor. com as coisas boas que a gente teve aqui. n’era? Muito bacana. mas era muito mais. se jogava de lá de trás.. Entre as conversas e as caminhadas pelo município marajoara. né? A gente brincava. mamãe? Era aqui da casa do Dr. Ivete Paiva. Morreu uma filha. pai do Dalcídio. complementa as narrativas da mãe e saudosa sonha com a velha Cachoeira. num era Lino? Tinha uma casa aqui. Sentou na ponte.. bem aqui defronte. em algumas partes. Tem vez que eu me lembro.

Margarida e capitão Alfredo... Da família do escritor. que ele leu dentro da cadeia. morreu ano passado. Escreveu o livro “Chove nos Campos de Cachoeira”. se não me engano. revive a Cachoeira de outrora. e.] Ele foi secretário aqui em Muaná e em várias outras localidades. cenário romanceado. né?”.]. quando ele foi preso. ele era moreno. muitas cartas. feita por ele. era tio José. ela tinha os dia de beber.. A correspondência que Dalcídio mantinha com a família perdeu-se. que “era mocinha na época dele”. Mas não era todo dia também. daí ele foi para o Rio.. o marido.. dando umas consultas.] Ele morava ali.Asas da Palavra DOS CAMPOS DE CACHOEIRA A BELÉM DO GRÃO PARÁ: encontro de vozes em Dalcídio Juradir do Arari. E ela me responde que são “o Tacinho. num era muito alto. Meu pai que lidava com ela. mas deve ter cópia.Raimunda. o Ritacinho foi logo.. Ele era escritor. Raimunda conta dos tempos de infância. a comove.[. que foi intendente em Cachoeira do Arari e o Dalcídio ficou aqui até uma média de 15 anos de idade. mandou me chamar. mas os laços afetivos com “tio José” são mantidos na memória do primo. meu pai que levava ela carregada. baixo. tá no Rio. moreno claro. Tu tem. o Gallo xerocou e guardou a original.. trabalhou no Diário do Pará. Quando ele foi embora pro Rio de Janeiro. ficava zangado com 136 . comenta a intérprete. foi reunião de família lá. Lino? Pois é. ele escrevia muitas cartas pro meu pai. as viagens da família Pereira. já era formado. que ele chamava pro papai. eu doei tudo pro Museu do Marajó.. Ele começou a escrever o livro dele. na cidade. O capitão Alfredo. D. que também informa sobre os cargos administrativos que o autor assume ao voltar do Rio de Janeiro: Ele era muito ligado no meu pai. pais de Dalcídio. Ele era um cara legal. como em Soure. As cartas que ele escrevia pro papai. Pergunto se ela sabe quem ainda está vivo. Meu pai era ajudante dele lá. saudosa. ele teve muitas funções. Num sei se ele vai lembrar onde está. que pertenceram à infância e à adolescência de D. muitos anos. Tem fotografias dele. ele começou a escrever o Chove nos campos de Cachoeira. era meu pai que levava ela carregada. inspirado num livro de Jorge Amado. Lembro quando foram embora. já era formado. das relações desses com seu pai. se não me engano [.Quando a Fifi veio em Belém. Eles moraram em Belém. quando ele foi daqui. simpático. em Belém. que teve um almoço lá na casa da Nazaré. A partida dessas pessoas. mas ela acompanha o estudo. então. que ela bebia . [. daí eles foram para o Rio. Tu conheceste ele. avisa: “Eu conheci todos os irmãos dele. Quer dizer. Ele foi logo para o Rio. né? Deus o livre. Ritacinho é médico. Sobre Dalcídio? Ele era moreno.. casada com o capitão Alfredo. o mais alto era o Ritacino [irmão do escritor]. Ela contou que a Lindinha tinha morrido. foi o primeiro a ir para o Rio. a profissão. Ele era esquerdista. Sobre a relação D. D. retirando do acervo memorial: A mãe dele morou ali. mas Lino contesta e informa que a Lindinha já morreu. ele pouco durou aí. Tinha muita coisa aqui. Quando ela bebia. que ela queria ver o pessoal. Ritacinho. depois foi pra Belém continuar os estudos e de lá começou a idéia de escrever. num era muito escuro não. Ela comenta sobre os irmãos e os pais do autor. As referências misturam a vida do escritor com a própria vida da contadora. umas estavam já estragadas.. Ainda teve em Belém. Raimunda. foi preso. pai dele. Ele teve cargos. Essas cartas. a Fifi e a Lindinha”. não? [pergunta a Lino].

] . Mataram meu pai. na voz e na letra. Andreza Gomes da Gama.”. Didico. Personagens. comerciante. Por isso tu não te lembra. 148/9) Sobre a morte de Andreza. A Andreza era uma pessoa que ele citava muito no livro dele. Eram os três irmãos falados de Cachoeira. personagens de “Chove. Andreza é a menina-amiga de Alfredo na ficção. Tu te lembra? Estavas cego. Sou a Andreza. Continuava a ser uma cozinheira de mão cheia. Os leitores de Dalcídio Jurandir a conhecem melhor. Ezequias. com a lembrança perfeita do menino e adolescente. que era negra e alcoólatra. lembranças de Cachoeira do Arari fortemente marcadas por Andreza. deste tamanho assim. faz muito tempo.. Era minha tia.] A redação era ali na casa donde . Lindolfo como Rodolfo e Ezequiel como Ezequias.Mas tu não me conheces? Quando eu vim na tua casa. O major era o capitão Alfredo. irmão dele. que se tornou homem feito. Algum irmão teu já morreu? E tu. A amiga da família do escritor se espanta e lamenta ao saber que o escritor já havia morrido e repete sobre a importância dele e dos livros escritos por ele para a cidade. nunca saíste daqui? [. Lino explica que as personagens desse romance são reais e dali mesmo de Cachoeira. 1996. a garota reaparece e depois de uma brincadeira com Alfredo. na tipografia com ele. assombrado com a sífilis e a guerra. lá que tinha as máquinas de datilografia. ele se aborrecia. espalhava o jornal na cidade. no. o romancista da sua Cachoeira (Liberal. Não me viste. campeão de damas na vila que lia o jornal novo chegado de Belém. Fui-me embora para essas fazendas daí de cima. era meu pai. muito unido.. Era quem lidava com a máquina [. te lembra de mim. cego (TCR.3)9 9 in Asas da Palavra –v.. Capitão Alfredo e ela era Dona Margarida Ramos. era. na casa que ele morava. e mantinha-se lúcida. No jornal.. Morreram. Não tenho paia nem mãe. Vi um irmão morrer. ele quem vendia o jornal. o pai dele. que meu pai trabalhava lá.Cego.. p. Cego. a tia Margarida que por sinal. O tipógrafo era o Dalcídio mesmo. tipografia. se apresenta: . amo do boi Caprichoso. nem para costurar ou tricotar. Lindolfo Paiva [.119) Dona Raimunda. ela morreu alcoólatra.. mas eles eram muito unido. que morreu há uns cinco anos. Belém: Unama. Fala do meu pai lá. Fazia o jornalzinho.3. Meu pai era ajudante de lá. 4. era ele que era o dono do jornal.”.. o tipógrafo e oficial de justiça. (p. a imprensa de Belém noticia: Morreu ontem. 137 . filha de Lindolfo Paiva. Ele defende que o escritor apenas troca os nomes das pessoas pelas personagens ficcionais: Dona Amélia seria a mãe dele.] Fabiano Pereira. Ao falar da obra literária de Dalcídio. Agora voltei a morar de vez em Cachoeira com um meu tio. não usava óculos. levaram. chamava atenção. caderno. Andreza morreu aos 101 anos.. com ela tendo convivido nas páginas dos primeiros romances do escritor paraense.Josebel Akel Fares (UEPA/UNAMA) Asas da Palavra ela. Tinha a Andreza. o tocador de pistão. O outro.. como na ficção. em Cachoeira do Arari...13/ 03/93 – 1o. Francisco Costa narra a presença dos tios Mundico como Didico. depõe a presença do pai em Chove e explica as correlações entre personagem real e ficcional. mais ou menos. mas não era de tá brigando. Em “Três casas.. Rodolfo. atrás. Eu sei..

onde o pai também fora pastor. a ficção acompanha a realidade.. A mamãe tinha muita criação. 11 Regina Portal. naturalidade. Meu interesse aumenta. que. o encanto vem dos tucumanzeiros da Amazônia. porco. ela tinha muito. pp. a gente depositava dentro de uma caixa que já estava pronto. II O tucumanzeiro e o caroço de tucumã: apresentação de dois textos (não mais) orais Assim dá um encanto maior. a varinha mágica. (TCR. As fadas morreram. ajuntava os caroços. a ponto que a galinha pudesse comer e os porcos também comiam e patos e etc. Se a gente fosse estudar de tarde.. e a gente tinha um compromisso de manhã. 1998:374). Alfredo escancarou a porta e deu um grito. minha guia nos caminhos de Retiro Grande. tira foto e tinham dois rapazes filmando ela. os moradores reconhecem a importância de Dalcídio Jurandir. poderia levantar daquele berço de rosas e violetas. a gente fazia o seguinte. no verão. como eu falei. ofícios. Mais uma vez. E depois. a massa de cima e picotar tudinho assim. a adormecida menina. quando me conta sobre a natureza da paisagem dos tucumãs.. pato. apresenta-me às autoridades da igreja a qual pertence. ou o tucumã.] todo mundo que vem aqui. que morre ainda pequena. Não tenho a intenção de entrevistar o pastor. ela fica solta. O caroço de tucumã. sei que ele era importante aqui. Amélia estreitou a filha em seus braços. Lino confirma que o autor teve uma irmã e que. tentando pegar-lhe o braçinho(. aquele caroço seca e a amêndoa que está dentro. a varinha de condão que as fadas invejariam. A crônica oral é forte. liso por fora. Ivete Paiva conclui a entrevista. Em Retiro Grande. localidade rural. sacudindo a cabeça que “não. O carocinho tem a magia. ainda criança. nem de me demorar na visita de passagem. Dalcídio Jurandir sussurra-me. dizendo que apesar de não ter conhecido o escritor. E. Tiro dos olhos do menino Isaac11 a emoção do convívio. é objeto mágico da personagem Alfredo10 e também das crianças daquela localidade. era ajudar nossos pais. quer saber da história dele. D. após trinta anos de ausência do menino dos campos marajoaras. nasce e passa a infância no Marajó. totalmente descascado. Major curvou-se sobre a filha. morreu afogada num poço. são apontadas nas entrevistas e nas caminhadas por Cachoeira do Arari. Ainda tem aquela casa. Alfredo é considerado uma espécie de alter ego do escritor. com um gesto. Os meninos do mundo inteiro não conhecem o carocinho de tucumã de Alfredo. aquele caroço assim. que todo mundo que vem. ela solta da casca. A vaca urrava no quintal.Asas da Palavra DOS CAMPOS DE CACHOEIRA A BELÉM DO GRÃO PARÁ: encontro de vozes em Dalcídio Juradir Pergunto ao entrevistado sobre a irmã da personagem Alfredo. esperando o verão.) Viu-a só. como o autor. Observo a simplicidade da moradia e entôo uma conversa rápida sobre viagem. pertencente ao município de Cachoeira do Arari. a Personagem recorrente na obra de Dalcídio Jurandir. a gente fazia aquele processo de com uma faca cortar. No inverno. à cabeceira daquele caixão branco. né? Que todo mundo fala. Tem um poder maior que os três Deuses reunidos. como uma fada negra que.. sabe dar o universo a Alfredo. Ele passara parte da infância em Retiro Grande. ou quando chegasse do colégio. tínhamos o compromisso de quebrar os caroços. não”. (Jurandir. Major Alberto surgiu com os fascículos na mão e Marcelina saiu correndo para comprar uma vela. o nosso trabalho. tão peculiar o território.200 e 201) Muitas outras semelhanças entre vida e obra. 10 138 . realidade e ficção. No verão. outra vez. proferida num só grande fôlego. E ao chegar em casa. mesmo que não seja através da leitura dos romances. com um negror pálido. [. majestosa. muita galinha. Ligo o gravador.

que a massa do caroço de tucumã. uma nova árvore de tucumanzeiro. nem molhado. ele passa por vários processos. Era um alimento muito importante. e quebrava aquele caroço. E. conforme a época que a gente quebrar ele. ele é muito oleoso. executar. quando eu tenho chance. porque a gente comia. eu não sei se era verdade. uma marreta de pau ou de ferro mesmo. normal. a gente fritava aquele bichinho do caroço de tucumã. com esses ingredientes. é o processo da natureza. Aí. numa cuia. porque eu quebrei muitos caroços.Josebel Akel Fares (UEPA/UNAMA) Asas da Palavra gente vai para um cepo. ele morre com facilidade.) Me lembro. fica rude’. Então. justamente. certo?. digamos. Antes dele criar esse bicho. ele fica úmido. um negócio assim]. eu fui pescar neste rio. é uma coisa boa. ainda também. pro rio pra ir pescar. assim. com meus nove. A gente pegava trazia pra casa tudo. [Existia até. tem um bicho. um fato importante do bicho do caroço de tucumã. igualzinho um torrês. eu não vejo já essa consumição para os animais. eu dizia: ‘é por isso que eu sou meio rude pra matemática. ele fica tipo um torrês. dos meus momentos que fui pescar no rio Quió. prejudicava o cérebro de nós.) E. dez anos de idade. muitas vezes. né? (. robustas e os porcos também. E. eu fiz muito isso e peguei muitos peixes. Então. fica assim. na pesca da gente sempre sobrava uma porção. é um lazer que a gente pode exercer. Ele é protegido por um pozinho dentro do caroço. é que quando eu vinha da pesca. traíra. E o óleo. num querem mais ter o trabalho. o restante do bicho (. agente vê aquele buraquinho. ele cria dentro dele. chamado o bicho do caroço de tucumã. tem o farelo. muitas vezes. ele é fragilzinho. porque o menino que come. ele é bem amparadozinho. outros maiores. a duração dele é pouco. do toicinho de porco. o caroço de tucumã.. outras coisas aí. Dentro dele. a gente vai encontrar uns bichinhos. era uma coisa muito importante. é uma distração. Aí. ele está lá dentro. ele cria uma massa. se ele num ficar muito exposto ao sol. naquela ocasião. a gente comia aquele torrês do bichinho do caroço de tucumã. de formação. que eu peguei muitos peixes. ele tem um buraquinho que cabe assim um alfinete. pegava o caniço da gente e se rumava pro Quió. ele cria dentro dele um animalzinho. eu gosto. nesta região. e até hoje eu gosto. Eu num vejo mais. pra dar pra pinto. ainda tem esse processo também. Eu vi. trazia o peixe. no caso. é uma temperatura. Depois que ele cai da árvore. põe dentro do paneiro. E. e depois de frito. a gente ia pescar e eu me lembro. Então. do ofício de pescar. chama o bicho do caroço do tucumã. o porco come a massa de cima. para os animais. Mas é tipo uma lenda. praticar. que fica defronte aqui à casa pastoral e eu. daquela época. Aí a gente pega aquele caroço. a gente vê muito claramente. juntava o caroço de tucumã. entendeu? Tem que ficar na sombra. (. uma história. e quebrava também pra porco. é bem bonito mesmo aquele processo. a gente quebrava miudinho. bem pequenino. Aquela massa de dentro. E o caroço de tucumã.. é um alimento muito sólido.) Nós tínhamos esse trabalho de alimentar os animais. a gente tirava aquele bichinho. e as professoras recomendavam: ‘não comam amêndoa do caroço de tucumã. Pegava de manhã. também. colocava numa vasilha. Que o caroço que fica exposto ao sol.. E tudo isso eu vi aqui no Marajó. a pessoa que come. depois de uns 30 anos. também. quebra ele. ou se deixa de ser. inclusive as criações eram gordas. a gente não utilizava todos os bichinhos do caroço de tucumã. que 139 . jiju. isso. mas eu fiquei com esse negócio. das minhas pescas.. é aquela massa tão gostosa que a gente come. Gostava. peguei muitos peixes nesse rio. pra galinha. até hoje. Eu fiquei com essa. que dá acesso a uma arvorezinha. E quando ele está em processo de crescimento. Aquele caroço bem limpinho. muitas vezes. a gente fritava o peixe com o próprio óleo do caroço de tucumã.. bem importante. na sabatina’. eu ainda tô com vontade de fazer isso de novo. ele num cria isto. ele tem esses processos. com o calor do sol. Então. estudantes. traz pra casa. sobrava. professora. eu ia no mato.. aquele que fica embaixo da árvore. ele vai.. muito importante que existe aqui no Marajó. assim cedo. Aqueles caroços que ficam ali. nem quente demais. Então. tirava. Depois. ele tem um óleo. que a gente chama. A gente ia. Então. eu não sei se é verdade ou não. Quem comia.

mas o índio também comia o vinho do tucumã. 140 . A canhapira leva os mesmos ingredientes. o açaí tem muito a ver. a macaxeira. deste tamaninho assim.] Então. essas coisas [. para não azedar. eu quero fazer pra saber como é que está. eu saí daqui com 10 anos. por onde nasce o maninho?’ Ela dizia: ‘olha. E ela dizia: ‘vão esperar lá com o paneiro’ E a gente ia pra lá. aqui é a única cidade do estado do Pará e do Marajó. E. Quando era de manhã: ‘mamãe. Aí você come uma feijoada ou uma maniçoba. meu filho. Vamos dizer. o próprio açaí. Nós dizia: ‘não mamãe. Eu perguntava: ‘mamãe. Ela chamava: ‘ainda num é hora’. tira aquele bagaço todo. transporta para lugares do desejo. é só tucumã. vocês nem viram.refoga com todos os temperos e põe lá dentro pra apurar. ele nasce no galho daquele tucumanzeiro’. Hoje em dia. bem socado. e embaixo de seus galhos transcorre-se o tempo genésico O aedo é Antônio da Silva Judá. Depois. porque eles continuam essa prática aqui. a minha finada mãe. o tucumã. Aí amanheceu. -‘Inda num veio.charque.. carne seca. E lá nós ficávamos. Lino oferece a receita: um misto de herança afro indígena. nós quer ver o maninho’. Canhapira é do negro. pegar o bicho do caroço do tucumã. (. Então.. se já sabe de tudo. porco. Mamãe dizia: ‘meu filho. o mano de vocês nascerem do tucumanzeiro’. Mais forte na cultura daqui é o tipo de alimentação. côa na peneira. e tinha um pau assim deitado..) Então. ninguém sabia por onde era que moleque nascia. estou a nove meses e estou com vontade de numa hora vaga. que tem muito a ver com o índio. o tio Dada: Olha. sentava lá.Asas da Palavra DOS CAMPOS DE CACHOEIRA A BELÉM DO GRÃO PARÁ: encontro de vozes em Dalcídio Juradir ainda não fiz depois. que na culinária regional é marca da cultura marajoara.. o caroço de tucumã é mágico. por aí. um galho. quero experimentar. nada. que apesar de não ser só do Marajó.[. ele estava do lado dela: -‘ah. Quando foi uma noite. de preferência bem envelhecido. O bicho criado no fruto é isca para trazer o peixe e se extrai um óleo para a fritura e para sarar males físicos. muito indígena. A polpa e a amêndoa do fruto são comestíveis. tudo. ou numa maniçoba. uma comida feita com o vinho do tucumã. você pega a comida em si . põe pra ferver com o sal e uma pedra de carvão. e o mano?’. vão lá pro tucumanzeiro’. Tinha um tucumanzeiro bonito lá. barriguda daquele meu irmão. É quero voltar a emoção! O tucumã alimenta o real e o imaginário. A senhora acredita que nós. E lá nós ia pra lá.. que eu era uma alimentação básica do índio também. que se come a canhapira. A paisagem dos tucumanzeiros também constrói histórias exemplares para explicar tabus e interdições culturais antigos. Eu fico besta de ver”. eu acho. já com aquele fungo. O tucumã é indígena. bucho com tudo . soca ele no pilão. tira o vinho bem grosso. saia do sol’. ela teve. que ele estava com uns oito anos. que eu ainda não tive. o próprio peixe. Pega-se o tucumã.. dá muito tucumã. que se coloca numa feijoada.] Na época. o vinho é o ingrediente principal da canhapira.

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