Escola Secundária Artística António Arroio Disciplina Língua Portuguesa Ano lectivo 2007/2008

Para Ouvir, Encontrar Memórias, Amar e Sentir...
Maria Leonor Oliveira 1 nº14 – 10º F

Índice de Poemas
• POEMAS DE AMOR
“O Amor”.............................................................................Pág. 4 “Amar”.................................................................................Pág. 4 “2º Andar Direito”...............................................................Pág. 5 “Não Hesitava Um Segundo”............................................Pág. 6

• POEMAS DE MAR
“As Ondas”.........................................................................Pág. 7 “Mar”...................................................................................Pág. 7 “Vozes de Mar”...................................................................Pág. 7

• POEMAS DAS GENTES
“Os Putos”..........................................................................Pág. 8 “Operário da Construção”.................................................Pág. 8 “Lisboa que Amanhece”....................................................Pág. 9 “Mulher da Erva Fresca”..................................................Pág. 10 “Canção de Acordar”.......................................................Pág. 11 “Trova do Vento que Passa”...........................................Pág. 12

• POEMAS DE FORÇA
“Fotos de Fogo”...............................................................Pág. 13 “Canto da Cidade”............................................................Pág. 14 “Aves de Rapina”.............................................................Pág. 14 “O último Adeus de um Combatente”............................Pág. 15 “Pedra Filosofal”..............................................................Pág. 16

• POEMAS DE SENTIMENTOS/SENSAÇÕES
“Amostra sem Valor”.......................................................Pág. 17 “Fome”..............................................................................Pág. 18

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Introdução
Neste trabalho, pretendo dividir os vinte poemas escolhidos, em cinco grupos: - “Poemas de Amor” “Poemas de Mar” - “Poemas das Gentes” - “Poemas de Força” - “Poemas de Sentimentos/Sensações”

Escolhi poemas de diferentes autores, dimensões, esquemas rimáticos e significados. Espero que aprecie a minha pequena antologia!

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Poemas de Amor
“O amor” É o amor O amor é o amor - e depois?! Vamos ficar os dois a imaginar, a imaginar?... O meu peito contra o teu peito, cortando o mar, cortando o ar. Num leito há todo o espaço para amar! Na nossa carne estamos sem destino, sem medo, sem pudor, e trocamos - somos um? somos dois?espírito e calor! O amor é o amor – e depois? Alexandre O’neill

“AMAR” Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e mal amar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. Carlos Drumont de Andrade

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“2º Andar Direito” Ele vinte anos, e ela dezoito e há cinco dias sem trocarem palavra lembrando as zangas que um só beijo curava e esta história começa no instante em que o homem empurra a porta pesada e entra no quarto onde a mulher está deitada a dormir de um sono ligeiro E no quarto, às cegas, o escuro abraça-o como que a um companheiro que se conhece pelo tocar e pelo o cheiro e é o ruído que o chão faz que lhe traz o gosto ao quarto depois de uma ruptura faz-lhe sentir que entre os dois algo ainda dura dos dias em que um beijo bastava E agora, da cama vem uma voz que diz sussurrando: És tu? e a luz acende-se sobre um braço nu e a mulher pergunta: A que vens agora? é que não sei se reparaste na hora deixa dormir quem quer dormir, vai-te embora amanhã tenho de ir trabalhar Não fales, que o bebé ainda acorda não grites, que o vizinho ainda acorda e não me olhes, que o amor ainda acorda deixa-o dormir, o nosso amor, um bocadinho mais deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais E o homem de pé parece um rapazinho a ver se compreende e grita e diz que ele também não se vende que quer a paz mas de outra maneira e nem que essa noite fosse a derradeira veio afirmar quer ela queira ou não queira que os dois ainda têm muito que aprender Se temos…! diz ela mas o problema não é só de aprender é saber a partir daí que fazer e o homem diz: Que queres que eu responda? Não estamos no mesmo comprimento de onda… Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda e eu com ar de filme americano Somos tão novos, diz o homem e agora é a vez de a mulher se impacientar essa frase já começa a tresandar é que não é só uma questão de identidade é eu ou tu, seja quem for, ter vontade de mudar ou deixar mudar Não fales,… E assim se ouviu pela noite fora os dois amantes falar e o que não vi só tive que imaginar é preciso explicar que sou eu o vizinho e à noite vivo neste quarto sozinho corpo cansado e cabeça em desalinho e o prédio inteiro nos meus ouvidos Veio a manhã e diziam telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais que viveste uns dias assim tão brutais e que precisas de convalescença sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença mete um atestado ou pede licença sem prazo nem vencimento, se preciso for (Espero que não seja preciso, porque não sei como é que eles vão viver sem os dois salários…) Vá fala, que o bebé está acordado o vizinho deve estar já acordado e o amor, pronto, também está acordado mas tem cuidado, trata-o bem

Sérgio Godinho

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muito bem, de mansinho que ainda agora vai pisar outro caminho.

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“Não hesitava um segundo” Entre os teus olhos azuis E um quadro azul de Picasso Entre o som da tua voz E o som de qualquer compasso Entre o teu anel de prata E todo o ouro do mundo Escolheria o que é teu Não hesitava um segundo Quantas ondas há no mar Quantas estrelas no céu Tantas quantas nos meus sonhos Eu fui tua e foste meu Entre o teu anel de prata E todo o ouro do mundo Escolheria o que é teu Não hesitava um segundo Entre o céu da tua boca E a luz do céu de Lisboa Entre uma palavra tua E um poema de Pessoa Entre a cor do teu sorriso E todo o brilho do mundo Escolheria o que é teu Não hesitava um segundo Entre o teu anel de prata E todo o ouro do mundo Escolheria o que é teu Não hesitava um segundo.

Ana Moura

Poemas de Mar
“As Ondas” As ondas quebravam uma a uma Eu estava só com a areia e com a espuma Do mar que cantava só para mim. Sophia de Mello Breyner Andresen “Mar” Mar, metade da minha alma é feita de maresia Pois é pela mesma inquietação e nostalgia, Que há no vasto clamor da maré cheia, Que nunca nenhum bem me satisfez. E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia Mais fortes se levantam outra vez, Que após cada queda caminho para a vida, Por uma nova ilusão entontecida. E se vou dizendo aos astros o meu mal É porque também tu revoltado e teatral Fazes soar a tua dor pelas alturas. E se antes de tudo odeio e fujo O que é impuro, profano e sujo, “Vozes de mar” Quando o sol vai caindo sobre as águas Num nervoso delíquio d'oiro intenso, Donde vem essa voz cheia de mágoas Com que falas à terra, ó mar imenso?... Tu falas de festins, e cavalgadas De cavaleiros errantes ao luar? Falas de caravelas encantadas Que dormem em teu seio a soluçar? Tens cantos d'epopeias? Tens anseios D'amarguras? Tu tens também receios, Ó mar cheio de esperança e majestade?! Donde vem essa voz, ó mar amigo?... ... Talvez a voz do Portugal antigo, Chamando por Camões numa saudade!

Sophia de Mello Breyner Andresen

Florbela Espanca

Poemas das gentes
“Os putos” Uma bola de pano, num charco Um sorriso traquina, um chuto Na ladeira a correr, um arco O céu no olhar, dum puto. Uma fisga que atira a esperança Um pardal de calções, astuto E a força de ser criança Contra a força dum chui, que é bruto. Parecem bandos de pardais à solta Os putos, os putos São como índios, capitães da malta Os putos, os putos Mas quando a tarde cai Alexandre O’neill Vai-se a revolta Sentam-se ao colo do pai É a ternura que volta E ouvem-no a falar do homem novo São os putos deste povo A aprenderem a ser homens. As caricas brilhando na mão A vontade que salta ao eixo Um puto que diz que não Se a porrada vier não deixo. Um berlinde abafado na escola Um pião na algibeira sem cor Um puto que pede esmola Porque a fome lhe abafa a dor.

“Operário da construção” Mora em barraca de madeira e telha, o operário da construção. No Inverno, o frio faz-lhe ranger o dentes, e a chuva inunda-lhe o sono. Mas longe, nas casas que constrói, alcatifadas, o frio não dói nas cortinas fechadas. José Fanha

“Lisboa que amanhece” Cansados vão os corpos para casa dos ritmos imitados de outra dança a noite finge ser ainda uma criança de olhos na lua com a sua cegueira da razão e do desejo A noite é cega e as sombras de Lisboa são da cidade branca a escura face Lisboa é mãe solteira amou como se fosse a mais indefesa princesa que as trevas algum dia coroaram Não sei se dura sempre esse teu beijo ou apenas o que resta desta noite o vento enfim parou já mal o vejo por sobre o Tejo e já tudo pode ser tudo aquilo que parece na Lisboa que amanhece O Tejo que reflecte o dia à solta à noite é prisioneiro dos olhares ao cais dos miradouros vão chegando dos bares os navegantes amantes das teias que o amor e o fumo tecem E o Necas que julgou que era cantora que as dádivas da noite são eternas mal chega a madrugada tem que rapar as pernas para que o dia não traia Dietrichs que não foram nem Marlenes Não sei se dura sempre esse teu beijo ... Em sonhos, é sabido, não se morre aliás essa é a única vantagem de, após o vão trabalho o povo ir de viagem ao sono fundo fecundo em glórias e terrores e venturas E ai de quem acorda estremunhado espreitando pela fresta a ver se é dia a esse as ansiedades ditam sentenças friamente ao ouvido ruído que a noite, a seu costume, transfigura Não sei se dura sempre esse teu beijo ...

Sérgio Godinho

“Mulher da Erva Fresca” Velha da terra morena Pensa que é já lua cheia Vela que a onda condena Feita em pedaços de areia Saia rota Subindo a estrada Inda a noite Rompendo vem A mulher Pega na braçada De erva fresca Supremo bem Canta a rola Numa ramada Pela estrada Vai a mulher Meu senhor Nesta caminhada Nem m’alembra Do amanhecer Há quem viva Sem dar por nada Há quem morra Sem tal saber Velha ardida Velha queimada Vende a fruta Se queres comer À noitinha A mulher alcança Quem lhe compra Do

seu manjar Para dar À cabrinha mansa Erva fresca Da cor do mar Na calçada Uma mancha negra Cobriu tudo E ali ficou Anda, velha Da saia preta Flor que ao vento

No chão tombou No inverno Terás fartura Da erva fora Supremo bem Canta rola Tua amargura Manhã moça ...nunca mais vem. Zeca Afonso

“Canção de acordar”
Dorme meu filho depressa, dorme que a noite já vem, o teu pai está tão cansado de tanta dor que ele tem. Dor no lombo e no espinhaço, no peito e no coração, dor de estar feito em bagaço, dor de tanta exploração. Dorme meu filho depressa, dorme que a noite já vem, o teu pai está tão cansado, tão cansada tua mãe. Tão cansada de esfregar as escadas que tem a vida, tão cansada de chorar, tão cansada, tão sofrida. Dorme meu filho

depressa, dorme que a noite já vem, do teu pai só herdarás a revolta que ele tem. Crescerás na lama e nu sem ter brinquedos nem bola, verás outros como tu, bem vestidos ir à escola. Dorme meu filho depressa, dorme que a noite já vem, o teu pai é operário, serás operário também. Talvez aprendas a ler se o dinheiro nos chegar, mas tu só vais aprender quando tiveres que lutar. Dorme meu filho depressa, dorme que a noite já vem,

os teus pais muito lutaram e tu lutarás também. Não viverás mais vergado, não terás mais que sofrer, não serás mais explorado, vais lutar e vais vencer! José Fanha

“Trova do vento que passa” Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas). Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome. Eu vi-te crucificada nos braços negros da fome. E o vento não me diz nada só o silêncio persiste. Vi minha pátria parada à beira de um rio triste. Ninguém diz nada de novo se notícias vou pedindo nas mãos vazias do povo vi minha pátria florindo. E a noite cresce por dentro dos homens do meu país. Peço notícias ao vento e o vento nada me diz. Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça há sempre alguém que semeia canções no vento que passa. Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

Poemas de força
“Fotos de Fogo” Chega-te a mim Mais perto da lareira Vou-te contar A história verdadeira A guerra deu na tv Foi na retrospectiva Corpo dormente em carne viva Revi p'ra mim o cheiro aceso Dos sítios tão remotos E do corpo ileso Vou-te mostrar as fotos Olha o meu corpo ileso Olha esta foto, eu aqui Era novo e inocente "Às suas ordens, meu tenente!" E assim me vi no breu do mato Altivo e folgazão Ou para ser mais exacto Saudoso de outro chão Não se vê no retrato Chega-te a mim Mais perto da lareira Vou-te contar A história verdadeira Nesta outra foto, é manhã Olha o nosso sorriso Noite acabou sem ser preciso Sair dos sonhos de outras camas Para empunhar o cospe-fogo e o lançachamas Estás são e salvo e logo "Viver é bom", proclamas Eu nesta, não fiquei bem Estou a olhar para o lado Tinham-me dito: eh soldado! É dia de incendiar aldeias Baralha e volta a dar O que tiveres de ideias E tudo o que arder, queimar! No fogo assim te estreias Chega-te a mim Mais perto da lareira Vou-te contar A história verdadeira

Nesta outra foto, não vou Dar descanso aos teus olhos Não se distinguem os detalhes Mas nota o meu olhar, cintila Atrás da cor do sangue Vou seguindo em fila E atrás da cor do sangue Soldado não vacila O meu baptismo de fogo Não se vê nestas fotos Tudo tremeu e os terremotos Costumam desfocar as formas Matamos, chacinamos Violamos, oh, mas Será que não violamos As ordens e as normas? Chega-te a mim Mais perto da lareira Vou-te contar A história verdadeira Álbum das fotos fechado Volto a ser quem não era Como a memória, a primavera Rebenta em flores impensadas Num livro as amassamos Logo após cortadas Já foi há muitos anos E ainda as mãos geladas Chega-te a mim Mais perto da lareira Vou-te contar A história verdadeira Quando a recordo Sei que quase logo acordo A morte dorme parada Nesta morada. Sérgio Godinho

“Canto da cidade”
Dum lado da cidade a liberdade, o super-mercado, o betão armado, o jardim tratado com todo o cuidado tem cravos à volta. E do outro lado,o vento sopra e traz um grito de escravos em revolta. José Fanha

“Aves de rapina”
No azul alto do céu, águias, burgueses, patrões e abutres a voar... - Deixa-os pousar, deixa-os pousar... José Fanha

“O Último Adeus Dum Combatente” Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade. Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade sofri na alma um amargor quando choraste. Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste! Nem só o teu amor me traz a felicidade. Quando parti foi por amar a Humanidade Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste! Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste será a dor e a tristeza de perder-me unicamente um pesadelo que tiveste. Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste que eu conserve em ti a esperança de rever-me! Vasco Cabral

“Pedra Filosofal”

Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso, em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos, que em oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho alacre e sedento, de focinho pontiagudo, que foça através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa dos ventos, Infante, caravela quinhentista, que é cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, paço de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão de átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança. António Gedeão

Poemas de sentimentos/sensaçõ es
“Amostra sem valor” Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível: com ele se entretém e se julga intangível. Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu, sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito, que o respirar de um só, mesmo que seja o meu, não pesa num total que tende para infinito. Eu se que as dimensões impiedosas da Vida, ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo, nesta insignificância, gratuita e desvalida, Universo sou eu, com nebulosas e tudo. António Gedeão

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À fome quando ela te for apresentada, vais-lhe dizer o teu nome. Muito prazer, não deseja tomar nada? Mas não virá de repente, a descarnada. Vai comer-te lentamente, passo a passo, subindo cada degrau até ao cimo da escada. São cinco paus nas batatas, são mais dez no detergente, mais vinte no bacalhau, até ficares sem mais nada. Quando fores apresentado à fome, vai-te roer a barriga e dar-te a volta à cabeça, e vais estar pronto a roer qualquer coisa que apareça. Vão subir ratos pequenos por dentro das tuas veias, fica-te a garganta seca, só habitada por teias. Fica-te a boca calada, e quando quiseres falar, levas por cima porrada, que és pago para trabalhar

e nunca para ter ideias! À fome, quando ela te for apresentada, vais-lhe dizer o teu nome. Muito prazer, não deseja tomar nada? Ou talvez nãos seja assim, ou talvez seja ao contrário, talvez não estejas disposto a pagar a tua conta e os juros ao usuário. Quando fores apresentado à fome, olha-a de frente e pergunta: Quem é que me prende a mão? Quem é que me corta o passo? Quem é que me bebe o sangue, pela garrafa que faço? Quem é que come esta fome que me tortura, que eu passo? E não esperas pela resposta, constrói tu os teus caminhos, e faz dessa fome, força, e faz dessa força, gente, e à fome faz-lhe frente, agarra-a pelos colarinhos, enfia-a pela boca abaixo de quem fabricou a fome

dos que raparam o tacho! José Fanha

Análise dos poemas
A principal razão pela qual escolhi estes poemas e não outros dentro da vasta lista de opções, foi o facto de achar que estes correspondiam melhor ao conceito que tinha acerca de cada tema. Dentro do grupo “Poemas de amor”, escolhi poemas que falassem sobre: - O significado da palavra “Amor”; - O facto de todos os seres, por mais nobres que sejam, serem atingidos por esse sentimento e dependerem dele para viver; - Os problemas que ele pode trazer; - O “estado pleno” de amar. Dentro do segundo grupo, “Poemas de Mar”, seleccionei poemas que falassem , tal como o próprio nome indica, sobre o mar. Escolhi-os porque o mar é algo que me fascina e com o qual me identifico bastante. O mar cativa-me pela sua imensidão, pelo azul infinito e pela quantidade de vida que este contém. Dentro do grupo “Poemas das Gentes”, falei de: - Classes sociais (principalmente as mais pobres) e as dificuldades em que vivem; - Estereótipos de pessoas e as suas difíceis vidas; - Cidadãos exilados no estrangeiro e as saudades que sentem do seu país. No quinto grupo, “Poemas de Força”, recolhi poemas do pré e pós 25 de Abril, essencialmente, poemas que falassem da falta de liberdade, da Guerra do Ultramar, da revolta do povo, e da censura. Finalmente, no sexto grupo “Poemas de sentimentos/ sensações”, escolhi poemas que abordassem temas importantes, tais como a fome e o desespero que o ser humano por vezes experimenta.

Análise de “Pedra Filosofal”
Análise externa:
O poema “Pedra Filosofal” , de António Gedeão é composto quatro estrofes: - A primeira estrofe tem 12 versos - A segunda estrofe é uma sextilha ( 6 versos) - A terceira estrofe tem 31 versos - A quarta estrofe é uma sextilha Tem rimas cruzadas, emparelhadas e interpoladas.

Análise interna:
O poema tem como tema principal os sonhos, e pode ser dividido em duas partes lógicas: - As primeiras três estrofes, em que o sonho é comparado a: elementos da natureza; a alimentos; a animais; a elementos artísticos e arquitectónicos; a elementos relacionados com a ciência; às descobertas marítimas e suas descobertas e a inventos. - A última estrofe, em que o sujeito poético conclui que o sonho “(...) comanda a vida (...)”, tal como diz o texto, e que

faz avançar e evoluir o Mundo. Conclui também que é sempre preciso ter esperança e confiar nos sonhos!