Excertos Sermão

11º Ano de Escolaridade
I
Lê atentamente o seguinte texto:
(...) Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acompanhava,
e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens de um rio,
eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em acção de
que o queria tragar. Gritou Tobias assombrado, mas o anjo lhe disse
que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra; que o
abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse, porque lhe haviam
de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando que virtude
tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar,
respondeu o anjo que o fel era bom para sarar a cegueira, e o
coração para lançar fora os demónios: Cordis ejus particulam, si
super carbones ponas, fumus ejus extricat omne genus
Daemoniorum: et fel valet ad ungendos oculos, in quibus fuerit
albugo, et sanabantur (Tob. VI – 8). Assim o disse o anjo, e assim o
mostrou logo a experiência, porque sendo o pai de Tobias cego,
aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel, cobrou
inteiramente a vista; e tendo um demónio chamado Asmodeu morto
sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo Tobias; e queimando na
casa o coração, fugiu dali o demónio e nunca mais tornou. De sorte
que o fel daquele peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou os
demónios de casa a Tobias, o moço. Um peixe de tão bom coração e
tão proveitoso fel, quem o não louvará muito? Certo que se a este
peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um
retrato marítimo de Santo António.
Responde às seguintes perguntas:
1.

Insere o excerto acima transcrito na obra a que pertence.

2.
Vieira, no seu sermão, pretende criticar a sociedade que o
rodeia enaltecendo as virtudes dos peixes e rebaixando os seus
defeitos.
2.1. Indica os peixes referidos neste capítulo da obra.
2.2. Refere as qualidades do peixe referido neste excerto.
2.3. Explica o sentido metafórico dessas qualidades.
3.
Santo António, referido no excerto, é o elo de ligação entre as
qualidades do peixe referido e as qualidades dos pregadores.

já que não seja de emenda.2.» Tão alheia cousa é. Se os pequenos comeram os grandes. Morreu algum deles. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá. nem mil. Grande escândalo é este. porém. vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas. era menos mal. Vedes vós todo aquele bulir. vós. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis. lá do mar para a terra. bastara um grande para muitos pequenos. não: não é isso o que vos digo. vedes aquele subir e descer as calçadas. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá. para um só grande. todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos. é que vos comeis uns aos outros. mas a circunstância o faz ainda maior. peixes. ouvi também agora as vossas repreensões. vivais de vos comer! Santo Agostinho. Servir-vos-ão de confusão. para encarecer a fealdade deste escândalo.1. não bastam cem pequenos. Olhai. que pregava aos homens. Indica de que forma pode este excerto mostrar o aspecto conceptista de Vieira. mostrou-lho nos peixes. mas da mesma natureza. sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças. quero que o vejais nos homens. não só da razão. 6. I Lê atentamente o seguinte texto: Antes. . mas como os grandes comem os pequenos. 5. Explicita a quem se dirige e qual a crítica implícita neste excerto. Justifica a presença do anjo neste excerto. Não só vos comeis uns aos outros. que vos vades. vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. para cá. que sendo todos criados no mesmo elemento. para a cidade é que haveis de olhar. assim como ouvistes os vossos louvores. Não. Indica a analogia existente entre Santo António e o referido peixe. peixes. 3. proversisque cupiditatibus facti sunt. muito mais se comem os Brancos. 4. A primeira cousa que me desedifica.3. para que vejais quão feio e abominável é. vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. que prego aos peixes. Aponta no texto duas caraterísticas formais muito próprias de Vieira no seu discurso argumentativo. Se fora pelo contrário. senão que os grandes comem os pequenos. vêm a ser como os peixes. e eu. que se comem uns aos outros. vedes todo aquele andar.

Indica qual o defeito referido neste excerto. 2. Vieira.3. Este defeito dos peixes acaba por ter uma circunstância que o torna ainda mais grave. 2. come-o o sangrador que lhe tirou o sangue. enfim. demonstrando o seu valor na compreensão do texto. come-o a mesma mulher. comem-no os testamenteiros. II . comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes. Explicita a quem se dirige e qual a crítica aí implícita. 3.2. Aponta no texto duas características formais muito próprias de Vieira no seu discurso argumentativo.1. 11) Tão alheia cousa é. e já o tem comido toda a terra.Comem-no os herdeiros. comem-no os acredores. que o curou ou ajudou a morrer. o levam a enterrar. Explica o sentido metafórico desses defeitos. no seu sermão. 5. e os que. 2. come-o o que lhe abre a cova. come-o o médico. 3.4. pretende criticar a sociedade que o rodeia enaltecendo as virtudes dos peixes e rebaixando os seus defeitos. 4. mas da mesma natureza (l. que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa. 2. ainda o pobre defunto o não comeu a terra.Explicita o sentido do excerto transcrito e as razões apresentadas que justifiquem tal afirmação. 3. Indica qual o outro defeito dos peixes não referido neste excerto 2.2. cantando. Responde às seguintes perguntas: 1. Insere o excerto acima transcrito na obra a que pertence. o que lhe tange os sinos. não só da razão. . Indica tal circunstância. Apresenta os argumentos utilizados por Vieira neste excerto para reforçar a sua crítica.1. comem-no os legatários.

Descobre no texto 2.1. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos. 2. uma oração coordenada adversativa. uma oração subordinada condicional. Rescreve a primeira frase do excerto no discurso indirecto. ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho.1. a quem muito bem conheceram vossos .4.2. tanto me moveram o riso como a ira. S. uma oração subordinada integrante. porque haveis roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. E começando aqui pela nossa costa: no mesmo dia em que cheguei a ela. haveis de ser as roncas do mar?! Se. tem pouca língua. quem tem muita espada. peixes. direi agora. 2. I Lê atentamente o seguinte excerto: Descendo ao particular. com uma linha de coser e um alfinete torcido. vos pode pescar um aleijado. Pedro. o que tenho contra alguns de vós. ordinariamente.3. Isto não é regra geral. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque. uma oração subordinada relativa. 2. 2. mas é regra geral que Deus não quer roncadores e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam.

E porque tanto calou. e vindo de aí a pouco ver se o fazia. e quem se toma com Deus. António. amigos roncadores. pretende criticar a sociedade que o rodeia enaltecendo as virtudes dos peixes e rebaixando os seus defeitos. e no cabo. Assim que. quanto mais blasonar disso. tanto roncar. que pode acontecer ao menor peixe? Medi-vos. para dar com ele em terra. que ele só avançou contra um exército inteiro de soldados romanos. Pedro. no seu sermão. ninguém houve jamais que o ouvisse falar em saber ou poder. tinha mais desculpa a sua arrogância na sua grandeza. Pois que vos parece. non potuisti una hora vigilare meum?1 Vós. como já vos disse. Duas cousas há nos homens. pois dele manam todos. senão também do que tinha blasonado: Si. achou-o dormindo com tal descuido. sem haver quem se lhe atrevesse. e foi tanto pelo contrário. que os costumam fazer roncadores. Vieira. nem roncar. e logo vereis quão pouco fundamento tendes de blasonar. Disselhe Cristo no horto que vigiasse. eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas que de Malco. Se o rio Jordão e o mar de Tiberíades têm comunicação com o Oceano. é sinal de dormir nela. que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha roncado e barbateado Pedro que. Pilatos roncava de poder: Nescis quia potestatem habeo?(“Não sabeis que tenho poder?”) E ambos contra Cristo. só ele havia de ser constante até morrer. desafiando a todos os arraiais de Israel. e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar. «e não pudestes uma hora vigiar comigo»? Pouco há. que fim teve toda aquela arrogância? Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda. por isso deu tamanho brado. que não só o acordou do sono. Mas ainda nas mesmas baleias não seria essa arrogância segura. Responde às seguintes perguntas: 1. . e tanto poder. se todos fraqueassem. bem deveis de saber que este gigante era a ronca dos Filisteus. o verdadeiro conselho é calar e imitar a Santo António. Antes disso já tinha fraqueado na mesma hora em que prometeu tanto de si. porque ambas incham: o saber e o poder. Insere o excerto acima transcrito na obra a que pertence. se fosse necessário. tinha tão boa espada.”). como vós mesmos experimentastes. sempre fica debaixo. irmãos roncadores? Se isto sucedeu ao maior pescador. Caifás roncava de saber: Vos nescitis quidquam (“Vós não sabeis nada. O que é a baleia entre os peixes. Contudo. sois o valente que havíeis de morrer por mim. O muito roncar antes da ocasião. Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus. e se Cristo lha não mandara meter na bainha. era o gigante Golias entre os homens. como devem ter. que só ele fraqueou mais que todos. Se as baleias roncaram. tendo tanto saber. Mas o fiel servo de Cristo. 2. Quarenta dias contínuos esteve armado no campo.antepassados. e agora tanto dormir? Mas assim sucedeu.

Justifica tal semelhança. de preocupação social. 5.2. por isso deu tamanho brado. 2. Explica o sentido metafórico desse(s) defeito(s). Indica os argumentos apresentados por Vieira neste excerto para reforçar a sua crítica.3. Estabelece um contraste entre este peixe e um dos peixes virtuosos deste mesmo sermão. uma forma verbal no pretérito imperfeito do conjuntivo. uma conjunção subordinada causal. 1.2. Identifica no excerto: 1. Rescreve a primeira frase do excerto no discurso indirecto.4. mostra como a oratória de António Vieira é. um sinónimo de vulgarmente. Santo António. um antónimo de sublimar.5. II 1.2. 1. Refere o(s) defeito(s) do peixe referido neste excerto. 3.3. pode ser equiparado ao espadarte. Indica de que forma pode este excerto mostrar o aspecto conceptista de Vieira.1. 1.Explicita o sentido da frase acima transcrita. . 1. fundamentalmente. através da sua obra. 2.4. uma conjunção subordinada condicional.1. » . Indica os peixes referidos neste capítulo da obra. III Numa composição cuidada. perfeitamente «E porque tanto calou. 6. 2. 2. de cem a duzentas palavras. 4.

e assim lhes sustenta o peso mais a fome. vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar. que os hóspedes ou companheiros. que jamais os desferram. os quais se arrimam a eles.I Lê atentamente o seguinte texto: Nesta viagem. bate fortemente o convés com os últimos arrancos. que mais parecem remendos ou manchas naturais. Pegadores se chamam estes de que agora falo. se acaso se passou e pegou de um elemento a outro. sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto. O mesmo fazem a estes pegadores. Corre meia campanha a alá-lo acima. para se sustentarem do que a eles sobeja. . vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens. tão seguros ao perto como aqueles ao longe. Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às costas. não só se chegam aos maiores. morre o tubarão. tão cerzidos como a pele. desenganados da experiência. depois que os nossos portugueses o navegaram. De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão seguindo de longe os leões na caça. e me admirou que se houvesse estendido este ronha e pegado também aos peixes. e com grande propriedade. Insere o excerto acima transcrito na obra a que pertence. nem voltar a boca sobre os que traz às costas. porque não parte vice-rei ou governador para as conquistas. e em todas as que passei a Linha Equinocial. de que fiz menção. arremessa-se furiosamente à presa. e morrem com eles os pegadores. que não vá rodeado de pegadores. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro soldados. para que cá lhes mate a fome. mais astuto que generoso. Responde às seguintes perguntas: 1. mas os que se deixam estar à mercê e fortuna dos maiores. de que lá não tinham remédio. porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça. engole tudo de um bocado e fica preso. Este modo de vida. despegam-se e buscam a via por outra vida. enfim. Os menos ignorantes. mas de tal sorte se lhes pegam aos costados. porque sendo pequenos.

. Vieira. in «Aula Viva» . até porque tudo é ilusão. Indica de que forma pode este excerto mostrar o aspecto conceptista de Vieira. a entreter como tal e se deleitar com os seus jogos. 2. mas fingir essa mesma realidade. Por isso a metáfora é preferida nas obras teóricas e na prática do discurso. pretende criticar a sociedade que o rodeia enaltecendo as virtudes dos peixes e rebaixando os seus defeitos. no seu sermão.2..3. Refere o(s) defeito(s) do peixe referido neste excerto. produzir ilusão. Santo António. Indica os argumentos apresentados por Vieira para reforçar a sua crítica. II Não importa reproduzir ou imitar a realidade. de visão transfigurada do mundo. 2. Justifica esse contraste. 2. 5. A metáfora impõe-se como «principal forma de expressão de um ideal poético de metamorfose das coisas. através da sua obra.Português B. Justifica a referência ao tubarão no excerto. » Explicita o sentido da frase acima transcrita. O recurso de estilo mais adequado a esta finalidade é a metáfora. para que cá lhes mate a fome. enganar o observador. pag.2. 6. tanto no seu aspecto ético como estético. e de deslumbramento do leitor. meio por excelência da transfiguração. 4. «(. de que lá não tinham remédio. mergulhado na ilusão. do convite ao exercício do entendimento para. . contrasta com os defeitos do peixe referido neste excerto. 3.4. Explica o sentido metafórico desse(s) defeito(s). Indica os peixes referidos neste capítulo da obra. faz um comentário global ao modo de pregar de Vieira.1.) os quais se arrimam a eles. 2. 24 A partir da citação transcrita.

para encarecer a fealdade deste escândalo. mostrou-lho nos peixes. Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos . para que vejais quão feio e abominável é. e eu. que. não só da razão. quero que o vejais nos homens. para a Cidade é que deveis olhar.I Lê atentamente o seguinte excerto do Sermão de S. sendo todos criados no mesmo elemento. não: não é isso o que vos digo. e todos finalmente irmãos. lá do mar para a terra. que pregava aos homens. Não. preversisque cupiditatibus facit sunt veluti piscis invicem se devorantes: Os homens com suas más e perversas cobiças vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. para cá. mas da mesma natureza. que prego aos peixes. todos cidadãos da mesma pátria. António aos Peixes. vivais de vos comer! Santo Agostinho. Olhai. peixes. […] Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis. Tão alheia cousa é.

que o curou ou ajudou a morrer. come-o o que lhe abre a cova. cantando. comem-no os legatários. vedes todo aquele andar. Justifica as tuas afirmações. comem-no os testamenteiros. muito mais se comem os brancos. 3. ao nível fónico. vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Quem mais adivinha mais erra. Morreu algum deles. . 4. e os que. 2. que de má vontade lhe dá para mortalha o lençol mais velho da casa. «[…] ainda o pobre defunto o não comeu a terra. enfim. come-o o Médico. o levam a enterrar. O Zé partiu para Roma. apresentando o seu valor expressivo. vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer. vedes aquele subir e descer as calçadas. para Barcelona. o que lhe tange os sinos. e os dos defuntos e ausentes. 2. se realiza nesta passagem. come-o a mesma mulher. e como se hão de comer. Identifica e classifica dois tipos de argumentos utilizados pelo orador. ainda o pobre defunto o não comeu a terra. e já o tem comido toda a terra». justificando as tuas afirmações. Dá um exemplo de uma analogia que se realize no texto. comem-no os oficiais dos órfãos. a Ana. come-o o sangrador que lhe tirou o sangue. e já o tem comido toda a terra.outros? Muito maior açougue é o de cá. analisa a figura de estilo que. Evocaste problemas que teremos de resolver. 4. comem-no os acredores. II Divide e. classifica as orações dos seguintes períodos: 1. 3. Vedes vós todo aquele bulir. vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas. Tendo em conta o seu efeito expressivo. Comem-no os herdeiros. O Zé exortou os presentes para se implicarem mais nos problemas sociais. Documentando as tuas afirmações com passagens do texto e construindo frases bem estruturadas. Localiza a passagem transcrita na estrutura externa e na estrutura interna do Sermão. responde ao seguinte questionário: 1.

muitas vezes. in Dicionário de Literatura. III «Se Vieira procura. mostra que. no Sermão de S. «Oratória». António aos Peixes. Liv. . enquanto instrumentos nas mãos dos governantes.» Jacinto do Prado Coelho. o facto nada tem de excecional: no século XVII. Figueirinhas Num texto expositivo argumentativo de 250 palavras. o orador privilegia a vertente de combate de ideias. A tarefa de olhar pelas crianças é gratificante. conduzir a opinião pública.5. o púlpito desempenhava também funções que hoje cabem aos jornais. à televisão. transformando o púlpito em tribuna política.