Introdução à Mesa Temática de Estudos Culturais e de Género:
Rompendo fronteiras
Rosa Cabecinhas
Universidade do Minho
Rosa Aneiros
Universidade de Santiago de Compostela

A actualidade e dinamismo dos Estudos Culturais e de Género é bem visível pela
vasta e diversificada produção científica que se vem registando nos últimos anos
relacionada com esta área temática nos vários continentes.
Os ‘Estudos Culturais’ e os ‘Estudos de Género’ apresentam origens e percursos
históricos diferenciados.

O início do reconhecimento institucional dos Estudos

Culturais é geralmente atribuído ao Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS)
em Birmingham, Inglaterra, nos anos sessenta, tendo como marcos fundamentais para a
consolidação desta área de estudos, os trabalhos de Stuart Hall, Paul Gilroy, entre outros
(Cf: Lewis, 2008; Mattelart e Neveu, 2006; McRobbie, 2005).
Os Estudos de Género têm um percurso mais diverso e acidentado, uma vez que
esta designação tem sido por vezes usada como “chapéu” para albergar correntes
científicas com posicionamentos epistemológicos muito distintos (por exemplo, Women
Studies, Feminist Studies, Men Studies, Queer Studies, etc.). Em 1949 é publicado Le
Dexième Sexe de Simone Beauvoir, uma das obras pioneiras mais marcantes para o
futuro desenvolvimento dos Estudos de Género, no entanto, o reconhecimento
institucional desta área de estudos só ocorreu nos anos oitenta, tendo conhecido um
crescimento considerável nas duas últimas décadas (e.g., Amâncio, 2003; Silveirinha,
2004; Ferin, 2006; Nogueira, 2001).
As intersecções entre género, ‘raça’, classe social, idade, religião, etc., tornaram
clara a necessidade de articulação entre estas áreas de estudo (e.g., Cabecinhas &
Cunha, 2008; Guareschi & Bruschi, 2003). Esta articulação tem proporcionado o
desenvolvimento de quadros de análise mais complexos.

8º Congresso LUSOCOM

1783

No entanto. níveis de análise e metodologias. as investigações no campo dos Estudos Culturais e de Género estão comprometidas com valores de igualdade e justiça social e visam a promoção dos direitos humanos e a mudança social. Alguns autores referem que se trata de um campo “pósdisciplinar”. pois permitem a confronto dos dados obtidos em diferentes momentos históricos ou em contextos culturais distintos. nenhuma metodologia por si só é suficiente para investigar estes complexos fenómenos. ciências da comunicação. A pesquisa em Estudos Culturais e de Género faz apelo a metodologias variadas: análise documental. reivindicam também um posicionamento crítico face ao modo normal de fazer ciência – despido de posicionamento pessoal e empenhamento político. sociologia. A sessão temática Estudos Culturais e de Género no âmbito do 8º Congresso LUSOCOM ‘Comunicação. filosofia. linguística. enquanto outros reivindicam o estatuto de “antidisciplina” – este termo marca a rejeição das divisões disciplinares e da hiperespecialização e a vontade de combinar abordagens. grupos focais. etc. geografia. história. estudos etnográficos. uma vez que se tornou clara a necessidade de ter em conta não uma simples articulação de disciplinas. os resultados obtidos numa investigação serão sempre contingentes a um determinado momento histórico e contexto cultural específico. uma vez que cada uma apresenta potencialidades e limites específicos. isto é. No entanto. no qual se cruzam os contributos de diversas ciências humanas e sociais (antropologia. já que a linguagem. os conceitos e as grelhas de análise dos investigadores não podem ser simplesmente extrapolados acriticamente de um contexto para outro. Pelo contrário. Os investigadores deste vasto campo de estudo. entrevistas. os estudos comparativos afiguram-se como particularmente relevantes. Diversos autores têm salientado a necessidade de triangulação de diferentes tipos de metodologias. literatura. por mais completo e sofisticado que seja o programa de pesquisa delineado. ciências políticas. mas uma verdadeira fusão na qual as diferentes disciplinas se mesclam. psicologia. etc.  Os Estudos Culturais e de Género constituem um campo interdisciplinar. inquéritos por questionário. Nesse sentido.). Espaço Global e Lusofonia’ é bem ilustrativa da 8º Congresso LUSOCOM 1784 . os estudos comparativos levantam questões delicadas de “tradução” cultural.

as dimensões simbólicas subjacentes à estética publicitária e o chamado “ocidentalismo” serão alguns dos temas abordados. A tradicional “secundarização” da mulher na sociedade e o seu reflexo deformado nos meios de comunicação são analisados com ferramentas das ciências da comunicação. 8º Congresso LUSOCOM 1785 . as minorias étnicas.). as vivências das diásporas em diferentes contextos culturais. grupos de discussão. análise de conteúdo. contribuindo assim para a cristalização de estereótipos sociais e para o reforço das visões dominantes. etc. etc. o campo dos estudos culturais e de género oferece novas ferramentas conceptuais e metodológicas para a construção de uma visão poliédrica e interdisciplinar dos fenómenos comunicativos. Os trabalhos apresentam um carácter fundamental e aplicado. As vozes femininas são ainda muito escassas nos meios de comunicação e as imagens veiculadas sobre as mulheres são pouco representativas da diversidade dos papéis que estas desempenham na sociedade. Nesta mesa serão ainda apresentadas comunicações sobre as dinâmicas identitárias. indo desde os fundamentos teóricos até á observação prática e a análise crítica dos fenómenos estudados. etc. icónica e multimodal). etc. a construção do ‘Outro’ nos media. sobre as mulheres. estudo das audiências. a recepção da arte feminista. estudos etnográficos dos media. no cinema e na literatura. demonstram bem o que ainda há a fazer no sentido de promover uma sociedade mais igualitária e plural. A perspectiva de género oferece novos enfoques e olhares e conduz aos questionamento das análises tradicionais dos media. A violência de género. Assim. análise de discurso (verbal. o papel das audiências nas reconfigurações identitárias. As diferentes comunicações oferecem perspectivas diversas sobre temáticas extremamente pertinentes para este campo de estudos.. os fenómenos migratórios e sua representação mediática. imprensa. análises comparativas. as representações das identidades culturais e políticas. religiosas. da psicologia e da sociologia para desocultar mitos e tabus e as suas consequências nas representações da mulher veiculadas pelos meios de comunicação de massas.  diversidade e dinamismo deste campo de estudos no espaço lusófono. As técnicas de investigação empregues no desenvolvimento destes trabalhos abrangem desde o estudo da produção mediática e os mecanismos de regulação. Os estereótipos veiculados nos media (televisão.

Dilemas e Desafios.) (2004). 43-65. L. (2003). discurso e género. O género no discurso das ciências sociais. VX (1). (2001).207-238). & Neveu. S. (1998). The Basics.). Silveirinha. M. (Ed.) Psicologia social nos estudos culturais. (1949). E. Análise Social. Petrópolis: Editora Vozes. Psicologia.) (2008). A. vol. London: Sage. McRobbie. Lewis. 8º Congresso LUSOCOM 1786 . (1996). K.  Referências Bibliográficas Amâncio. N. Mattelart. Nogueira. As Mulheres e os Media. A Televisão das Mulheres: ensaios sobre a recepção. Hall. Beauvoir. 687-714. Construcionismo social. J. Lisboa: Livros Horizonte. A. S. (2006). (2005). P. Ferin. Modernity and Double Consciousness. Media and Cultural Regulation. Porto: Porto Editora. Lisboa: Quimera/Bond. Paris: Gallimard. Cultural Studies. & Cunha. Gilroy. Porto: Campo das Letras. (Eds. London: Verso. C. XXXVIII (168). Cabecinhas. M. Perspectivas e desafios para uma nova psicologia social. (Eds. The Uses of Cultural Studies. (Ed. The Black Atlantic. & Bruschi. In Thompson. Guareschi. J. The centrality of culture: Notes on the cultural revolutions of our time. (Org. L. Le Deuxième Sexe. Comunicação Intercultural: Perspectivas.) (2006). (2005). R. Introdução aos Cultural Studies. London: Sage. London: Sage (pp. I.