Filosofia 10º ano

1. Stuart Mill (1806-1873)
A ética de Suart Mill é uma visão renovada e crítica da ética utilitarista de Jeremy Bentham
(1748-1832), reflectindo também o ideário positivista de Auguste Comte (1798-1857) e a sua
crença na ciência e no progresso da Humanidade.
É uma ética que reflecte em múltiplos aspectos a nova mentalidade democrática e burguesa que
surgiu em Inglaterra no século XVIII.

Há nesta ética uma clara preocupação por ser

facilmente compreendida pelo cidadão comum e cujos resultados pudessem ser medidos pelos
seus efeitos práticos.
A ética utilitarista denominada "consequencialista" assenta na ideia que cada pessoa deve
articular os seus interesses particulares com os interesses mais comuns, de maneira que a sua
acção seja boa, isto é, proporcione a máxima utilidade a todas as pessoas envolvidas nos
resultados da acção.
Da mesma maneira que cada qual aspira por natureza à felicidade individual, assim também o
bem-estar de todos é um bem para a totalidade dos seres humanos.

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Uma acção boa é aquela que é útil, mas uma acção moralmente correcta é aquela cujas
consequências se traduzem em felicidade (prazer) para as pessoas. A correcção de uma acção
é medida pelas consequências que da mesma se esperam. Um modo de as avaliar é medir o
aumento da felicidade (prazer) e a diminuição do sofrimento dos que são afectados pela
mesma.
O princípio do utilitarismo denominado Utilidade ou Maior Felicidade, sustenta que as acções
são justas (correctas) na proporção com que tendem a promover a felicidade, e injustas
enquanto tendem a produzir o contrário da felicidade. A aplicação deste princípio implica um
cálculo, uma espécie de aritmética do bem-estar, no qual se avaliam as vantagens e
desvantagens das diferentes alternativas de uma dada acção, tendo em conta o grau de
satisfação ou insatisfação que delas se pode esperar.
Neste cálculo devem ser considerados um conjunto de parâmetros para avaliar a
satisfação/insatisfação esperada, tais como: a sua intensidade, duração, certeza ou incerteza,
a sua tendência, probabilidade da mesma dar origem algo da mesma espécie, etc. Este calculo
utilitarista visa seleccionar a acção que seja boa (útil) e moralmente correcta, isto é, que
permita obter o máximo de felicidade (prazer) no maior número de pessoas.

Adaptação, Isabel valente

Direito e Política 1. As normas jurídicas (impostas pelo Estado) tem um carácter de obrigatoriedade. sujeita-se a ser punido pelo Estado. 3. A moral abrange todo o tipo de relações humanas. 4. Isabel valente .Filosofia 10º ano Ética. A política. como razões similares. comungam todos dos mesmos objectivos: Estabelecer e fundamentar um conjunto de princípios e normas comportamentais que permitam evitar ou diminuir os conflitos nas relações entre as pessoas. A Moral. tem como finalidade encontrar a melhor organização para uma sociedade. é igualmente incluída neste grupo. nem todas as pessoas que as cumprem estão convencidas da sua justeza. em termos genéricos. Adaptação. As sanções pelo seu não cumprimenta também são muito distintas. isto é. b) As normas morais não estão codificadas (escritas). o conjunto de normas (leis do Estado) regula não apenas as relações pacíficas e solidárias entre os membros de uma dada sociedade (os cidadãos). leis e outras formas oficiais. 2. o não respeito de uma norma jurídica pode implicar a prisão ou punições mais graves. 2 a) As normas morais só são aceites e cumpridas quando as pessoas estão intimamente convencidas da sua justeza. estabelecendo-lhe um conjunto de objectivos de acção comuns. regras e princípios relacionamento entre os seus membros de forma a aumentar o Bem Comum e evitar os conflitos internos. Embora o Direito e a Moral surjam como factores condicionadores e orientadores do comportamento dos indivíduos. toda a Teoria Política e Direito pressupõe um dado modelo de cidadão e de comportamento socialmente aceitável. Pelo contrário. A própria religião. a Política e o próprio Direito. c) A Moral possui um âmbito muito mais vasto que o Direito. Neste sentido. de acordo com a etimologia da palavra. possibilitando a criação de sociedades mais harmoniosas. possuem contudo muitas diferenças entre si. É por esta razão que muitos filósofos os tratam como instrumentos de domesticação dos seres humanos. ao contrário do que acontece nas normas jurídicas que se apresentam sobre a forma de códigos. mas estabelece também as formas de punição dos que as não acatam. O que infringir as normas estabelecidas. O Direito. O não respeito das normas morais apenas trás como consequência a reprovação social e eventualmente a marginalização. o Direito centra-se apenas naquelas que são consideradas vitais para o regular funcionamento da sociedade.

não apenas para garantir a aplicação. dado que as normas morais se revelaram muito frágeis para o fazerem. Adaptação. surgiu em consequência da crescente complexidade das sociedades. 3 Com o Direito surgiu também o Estado. através de normas jurídicas. fiscalização destas normas. Isabel valente . mas também para concretizar todas os fins que a sociedade assumiu como bons. A necessidade da regulação das relações humanas.Filosofia 10º ano 5.

propriamente dita. pois nenhum deles lhe parece isento de defeitos. o que está bem patente no facto de ter uma linguagem própria. a justiça e a felicidade. Aristóteles Aristóteles submete a questão do Estado e da Política à Ética.pois só na cidade ele se pode realizar e ser plenamente humano. Distingue-se também dos outros animais por ter um sentido de bem e de mal. É neste sentido que quando na sua obra A Política. Thomas Hobbes . preocupou-se também em identificar as possíveis perversões dos diferentes regimes políticos. e divide-se em duas partes: a ética que se ocupa da felicidade individual e a política. Uma sociedade justa é aquela onde os cidadãos se comportam de forma justa. A superioridade da cidade. chegou ao ponto de definir qual era o Estado ideal (Livros VII e VIII) Adaptação. Não existem sociedades justas onde os homens que a constituem não o são. traduz-se no maior número de bens que ela permite alcançar. b) O Estado surgiu para promover um conjunto de realidades inacessíveis ao indivíduo isolado ou ao grupo familiar. John Locke. Esta só é todavia susceptível de ser alcançada através de práticas virtuosas. Se viver à margem da cidade. É neste sentido que afirma . por meio da qual ele se integra e aprende os valores da sua comunidade. da lei e do direito. que se ocupa da felicidade colectiva. permite reconciliar. A sua finalidade consiste em proporcionar aos seus cidadãos o conjunto de meios necessários à sua realização e sobretudo à sua Felicidade. face a outro tipo de comunidades como as aldeias. Jean-Jacques Rousseau 1. A política é a "ciência" que tem por objectivo a felicidade humana. degenera na sua natureza. Aristóteles. 4 Afirma que existe uma tendência natural do homem para a sociabilidade e para formar comunidades." o homem é um animal político . Isabel valente . ao nível individual.Filosofia 10º ano Justificação e Legitimidade do Estado e dos Governos em Aristóteles. É por esta razão que afirma que só a formação moral de cada cidadão. como a amizade e o auto-domínio. justo e injusto e outros conceitos morais essenciais à vida em comunidade. As suas ideias políticas podem ser resumidas da seguinte forma: a) O Homem é fruto do processo evolutivo das comunidades humanas que tiveram na cidade a sua máxima expressão.

Esta 5 situação provocava a pobreza e a miséria generalizada. John Locke Adaptação. O poder absoluto do soberano não se destina ao seu gozo pessoal. isto é. neste contexto. considera que todos os outros regimes políticos tem aspectos positivos embora contextos sociais e culturais específicos. Rousseau 3. Esta teoria política justificou nos séculos XVII e XVIII as monarquias absolutas. Os seus direitos foram desta forma confiados a uma autoridade soberana. A sua filosofia política teve um enorme impacto no tempo. ilegítimo desde que não contribua para o Bem Comum. Thomas Hobbes Filósofo materialista inglês. Com excepção da Tirania e da Monarquia. inalienável e indivisível. cujas decisões passaram a determinar a moralidade. segundo Hobbes. Um Estado ou Governo é. mas tem como finalidade dar-lhe as condições necessária para que o mesmo possa estabelecer a paz. O Direito é o que a lei diz. Tem uma visão pessimista da natureza humana. 3. Comprometeram-se a não oferecer resistência à vontade daquele a quem se submeteram (Soberano). O titular supremo do poder político (uma pessoa ou uma assembleia) desfruta de um poder ilimitado. punir os que não cumprem as leis e proporcionar o bem-estar do povo. cada um fazia o que lhe apetecia sem se importar com as consequências dos seus actos para outros. O poder absoluto do soberano é desta maneira a alternativa racional ao estado da natureza dominado pelo egoísmo e a guerra. mas o que a lei diz é o que o soberano afirma. a realização da natureza humana e a felicidade dos seus cidadãos.-J. A sua principal preocupação foi procurar encontrar um fundamento para o poder político (autoridade). quando os homens viviam no Estado da Natureza em que eram todos iguais e portanto tinham todos os mesmos direitos. Isabel valente . 2. A sua filosofia política pode ser sintetizada da seguinte forma: 1. O que preponderava era o egoísmo e a guerra de todos contra todos. Por esta razão. Viveu numa época particularmente conturbada da História de Inglaterra. contra as quais lutaram filósofos como John Locke ou J. O homem não é por natureza bom. 2.Filosofia 10º ano não conclui a tarefa. Defendeu a ideia de que a única coisa que existe é a matéria física e tudo podia ser explicado em termos de matéria e movimento. O medo da morte fez com que os homens resolvessem estabelecer um acordo (Contrato Social) passando a viver debaixo da lei.

a liberdade e a propriedade (os bens que adquire). A justificação para a existência Estado. 4. 1. estando o poder concentrado no rei. não era um selvagem. propõe uma separação de poderes (legislativo. dispondo da vida das pessoas. numa época em que predominavam na Europa monarquias absolutas. afirma. revelou-se uma fonte de conflitos. garantir os direitos naturais e a auto-conservação. Foi por esta razão que os homens chegaram à conclusão que se deviam juntar voluntariamente. 6 2. Se um governo se afasta das suas funções e deixa de defender os direitos naturais dos cidadãos. 3. criado à imagem de Deus. O homem. nasceu em 1632. Locke começou por fazer uma "reconstituição" do modo como surgiu o Estado.Filosofia 10º ano Locke.a vida. assim como a legitimidade para a sua autoridade está na protecção dos direitos naturais dos cidadãos e tem esses direitos como limites. A ausência de uma autoridade para administrar a justiça. Todos os seres humanos possuíam três direitos naturais que ninguém tem legitimidade para pôr em causa: a vida. A humanidade. Os indivíduos eram tratados como súbditos e não como cidadãos. Neste contexto histórico. começou num estado natural. O governo seria entregue a uma instância superior que vela pelo cumprimento dos termos do acordo. É por esta Adaptação. A fim de evitar possíveis abusos do Estado. executivo e judicial). O Estado é assim uma criação artificial dos homens. A liberdade. repensou as relações entre os indivíduos e o Estado. a liberdade e a propriedade garantindo desta forma as condições para o seu livre desenvolvimento (liberalismo). de forma a encontrar uma explicação para o consentimento da sua autoridade por parte dos que lhes estão sujeitos. O Contrato Social deu origem ao Estado. estes têm o dever moral de procurar formas de o substituir. firmando entre si um Contrato Social tendo como finalidade obter a paz. apropriandose dos seus bens e controlando as suas crenças. assim como a justificação e a legitimação da autoridade do Estado. e no caso de não o conseguirem por meios pacíficos. mas um ser dotado de raciocínio e consciência que orientava a sua acção por um princípio moral que denominou lei natural. entre indivíduos que se reconheciam como iguais. mas muito poucos direitos. nestas circunstâncias. assiste-lhes o direito de se revoltarem e de o derrubarem pela força. O Estado agia frequentemente de modo arbitrário. era uma pura ilusão. destinada salvaguardar os seus direitos naturais . Tinham todos os deveres. Através do Contrato os homens transferiram para o Estado os poderes que lhes pertenciam. nomeadamente a criação de Estados absolutos. Isabel valente .

mas apenas seres susceptíveis de serem Adaptação. Há contudo. opondo-se à formação de regimes absolutistas. A autonomia do indivíduo é a sua liberdade e esta nunca deve ser alienada em circunstância alguma. onde se reúnem os filósofos experimentais. Estes são livres de pensar. em S. nem bons (como defenderá depois Rousseau). na revolução de 1688 em Inglaterra. revelando mesmo falta de unidade. Estes homens não eram nem maus (como afirmava Hobbes). nomeadamente nas suas crenças religiosas. admitindo a hipótese mecânica e corpuscular. Locke parte da suposição que os homens no princípio dos tempos (estado de natureza) viviam em plena liberdade e igualdade entre si. sob pena de se negar aquilo que de mais essencial existe nos seres humanos. Em termos morais. Locke recusa igualmente qualquer intromissão do Estado na vida privada dos cidadãos. Vendo a vantagem em se associarem para resolverem os seus conflitos de interesses e protegerem os seus direitos. A filosofia de Locke está intimamente ligada à necessidade política de encontrar uma resposta para os graves conflitos políticos e religiosos que devastavam a Inglaterra no século XVII. Trata-se de um direito natural inalienável. Participa com os seus amigos e colegas na Royal Society. Isabel valente . Ideias Políticas. mas também dos Direitos Humanos. julgar e agir por si mesmos. por exemplo. As suas ideias tornaram-se a base do Liberalismo. da liberdade de cada um. políticos e na religião. respondendo à questão: Como devemos viver? Que podemos conhecer e quais os limites do nosso conhecimento? Não é pois de estranhar que a sua filosofia seja pouco sistemática. Locke é um filósofo de transição entre as concepções medievais e as ideias modernas. um aspecto a que sempre se manteve fiel na sua filosofia: a exigência de uma autonomia radical dos indivíduos. As suas concepções apoiam-se neste campo.Filosofia 10º ano razão que Locke participa. nasciam livres. A sociedade foi constituída para garantir a garantir.Tomás de Aquino e nos teóricos do direito natural. Os homens. estabelecerem um contrato social criando assim uma comunidade (sociedade organizada). por conseguinte. a liberdade e a propriedade de outros. na Bíblia. logo o Estado não pode em circunstância alguma tomar partido por uma ou outra religião (princípio da tolerância religiosa). Em coerência com estas ideias. 7 Em termos científicos segue as ideias mais avançadas do seu tempo. acredita numa lei natural divina. A religião é do domínio da consciência. independentes e eram apenas governados pela sua própria razão. O único direito que reconhecem (o direito natural) é o que os proíbe de roubar ou destruir a vida.

Tolerância. limitava-se a garantir o respeito pelos direitos naturais (a vida. neste quadro. No caso de estes serem violados. Assim como não existem ideias inatas na mente. defendendo que o Estado não se deve imiscuir nas opções religiosas dos cidadãos. Para sustentar a tolerância na Bíblia. A Bíblia devia ser lida á luz da razão. Adaptação. Em todo o caso. também não existe poder que se possa considerar inato e de origem divina. O poder supremo é o legislativo. os direitos dos cidadãos. A Igreja é uma sociedade livre de homens voluntariamente reunidos para praticarem um mesmo culto a Deus e obterem a salvação das suas almas. Isabel valente . O poder executivo está limitado pelo poder legislativo. estes tem toda a legitimidade para resistirem ao poder constituído. 2. Apesar disso possuem algumas semelhanças. Ora. Os dois tem domínios muito distintos e que não são coincidentes. Locke é apontado como o principal fundador do liberalismo. quer pela Igreja. 3. como defendiam os teóricos do absolutismo. na Carta sobre a Tolerância. Locke defendia que a tolerância era intrínseca ao cristianismo. A ele compete publicar as leis que protegem a vida. Separação de Poderes.Filosofia 10º ano aperfeiçoados.4. quer seja realizada pelo Estado. A questão da tolerância foi durante séculos tratada como a atitude que os governantes tinham para com as crenças e religiões minoritárias. A perseguição por motivos religiosos é ilegítima. Locke. A Igreja. neste ponto. não tem legitimidade para aplicar sanções e penas que saiam do foro espiritual. Estas ideias políticas estão. Defendia-se que a unidade política de um país dependia em grande medida da sua unidade religiosa. A salvação do indivíduo é distinta da sua utilidade neste mundo. mas este está limitado pelos direitos naturais dos cidadãos. nomeadamente entre o legislativo e o executivo. irá procurar mostrar que: 1. Locke advoga a separação de poderes. Locke advoga de forma inequívoca a separação entre a política e a religião. A religião como domínio a salvação pela fé e o culto a Deus e o Estado os interesses civis. faz uma separação entre a "letra" e o "espírito 8 da letra".O Estado não tem por função ocupar-se da salvação das almas. em consonância com as suas teses empiristas. mas acima de ambos estão os direitos naturais dos cidadãos. A função do governo. assim como à razão natural. todas as sanções são inúteis neste domínio. O bem público deve servir às realizações individuais e não a fins colectivos indefiníveis. depurando-a de tudo aquilo que fosse contrário à própria tolerância. dado que não há meios de garantir a adopção de uma dada crença pelos indivíduos forçados a tal. a liberdade e os bens) dos cidadãos.

5. Para esta corrente filosófica a experiência é a fonte de todo o conhecimento. Locke: 1.Embora todos os conteúdos do conhecimento procedam da experiência. agir pacificamente e dispensar-se a apelar para os magistrados (o Poder Civil). é uma tábua rasa. Neste sentido. Considerado o pai do empirismo inglês. A crença. está no facto de Locke sustentar que nenhuma crença pode ser imposta. A tolerância tem contudo limites. A intervenção do Estado está limitadíssima na esfera religiosa. Locke admite que há verdades com validade universal que são dela independentes. como a salvação da alma só diz respeito ao foro íntimo de cada um. Empirismo. pondo assim em causa os fundamentos das sociedades humanas. Ideias básicas sobre o empirismo de J. mas também está por ela limitado. apreendidas através dos sentidos. Os segundos porque para eles as promessas não têm valor. uma evidência. 4. Não existem ideias inatas. Isabel valente . nem porque se quer. Não se crê porque se é obrigado. onde surge como uma luz interior. uma folha em branco onde a experiência escreve. O Estado deve apenas limitar- 9 se aos actos de interesse público. mas estas em rigor. podem não ter qualquer correspondência em termos de crença dos que nela participam.Filosofia 10º ano A sociedade é também uma associação de indivíduos que fizeram entre si um contrato de reunião. O espírito humano está por natureza vazio. não pode exercer qualquer tipo de violência sobre os seus membros. Mas ao contrário da sociedade.Nada existe no intelecto que já não exista nos sentidos. 2. A Igreja só pode assim favorecer a comunhão das crenças. Não se pode tolerar aqueles colocam em causa a própria tolerância: os católicos e os ateus. a sua prosperidade económica e segurança. A fundamentação para esta posição. O fundamento da sua validade reside no pensamento e não na experiência. 4.Todo o conhecimento depende da experiência. Também as igrejas se devem tolerar entre si. 3. como a matemática. assegurar a ordem e a paz indispensáveis ao bemestar dos indivíduos. Os seus únicos meios de acção são a exortação e a advertência. Os primeiros devido à sua obediência ao Papa e à intolerância que dão mostras para com as outras religiões. a manifestação pública de certas formas de culto. isto é. desenvolveu uma teoria do conhecimento que irá inspirar outros filósofos desta corrente. estas são incomunicáveis. uma Igreja. Não há meios de saber se os indivíduos acreditam ou não nelas. Das Ideias que Incendiaram o mundo Adaptação. As ideias complexas são o resultado de uma combinação de ideias simples.

o comunismo ou a socialdemocracia que defendem a criação de uma sociedade mais justa. havendo sobre o assunto perspectivas radicalmente opostas. Estes movimentos tiveram um enorme impulso em 1917. Revoluções com idênticos ocorreram em muitos outros países. Depois da IIª. 10 Os movimentos revolucionários contra o liberalismo. mas também a sua livre iniciativa na economia. assumindo como modelo político a ex-União Soviética (Rússia) e a China. uma corrente política que defendeu não apenas os direitos naturais dos indivíduos. O fosso entre ricos e pobres tornou-se no século XIX verdadeiramente chocante. provocando constantes revoltas na população. Os regimes absolutistas foram sendo substituídos por regimes democráticos liberais. b ) Os que as condenam. Isabel valente . tornaram mais visíveis muitas outras. com a criação do primeiro regime político que proclama a igualdade económica de todos os cidadãos. defesa e regulação das actividades económicas quando a livre concorrência (mercado) se mostrasse incapaz de o fazer. foram ganhando cada vez mais adesões entre as classes mais desfavorecidas da sociedade. Muitos foram os que passaram a denunciar o facto da igualdade jurídica dos cidadãos se mostrar incapaz de proteger os pobres dos desvios do capitalismo. O problema da justiça social passa a estar no centro dos debates políticos.Filosofia 10º ano As ideias políticas de John Locke contribuíram para a criação do liberalismo. Guerra Mundial (1939-1945) o mundo dividiu-se em dois grandes blocos políticos: a) Os que aceitam como legítimas as desigualdades sociais. que reconheciam formalmente a igualdade de direitos a todos os cidadãos. pondo fim às desigualdades inerentes aos regimes liberais. Adaptação. onde as desigualdades sociais fossem suprimidas ou corrigidas. É neste contexto social que surgem então diversos movimentos políticos como o anarquismo . reduzindo o papel do Estado à justiça. na Rússia. assumindo como modelo político os EUA ou os regimes sociais-democratas europeus. em nome de uma nova justiça social. As sociedades liberais se corrigiram várias injustiças sociais do absolutismo.

As questões que aborda por ser sintetizada da seguinte forma: .É possível conciliar a Princípio da Igualdade de Direitos numa sociedade marcada pelas desigualdades entre os indivíduos? A igualdade de direitos não implica o fim das desigualdades sociais? Os indivíduos mais empreendedores e talentosos têm que ser limitados nas suas aspirações? O progresso nas sociedades liberais implica necessariamente a riqueza de uns e a pobreza de outros? John Rawls.Uma Teoria da Justiça (1971). a igualdade. Adaptação. Rawls está comprometido com o modelo económico liberal e procura fundamentar a legitimidade das sociedades liberais. subordina a justiça social ao princípio da liberdade económica (liberalismo). Uma Sociedade Justa segundo John Rawls 11 John Rawls (1921-2002) escreveu a sua principal obra . Isabel valente . procurou no quadro de uma política liberal. e servir para benefício dos menos favorecidos. formular as bases de um sistema ético-político que garantisse um estado de justiça equitativa.Filosofia 10º ano 5. tem uma clara visão optimista dos homens. John Rawls Filósofo americano. que promova a Justiça Social. A desigualdade só seria justificada no caso de estar ligada a funções e posições abertas a todos em condições de justa igualdade de oportunidades. numa altura que o mundo estava dividido entre dois blocos políticos com diferentes concepções sobre a justiça social. O Bloco liderado pela antiga União Soviética subordina a justiça social ao princípio da igualdade económica (comunismo). O Bloco liderado pelos EUA. assentes na desigualdade na distribuição da riqueza. liberdade ou a propriedade. Ele acredita que a solução está na criação de uma Sociedade Justa. confiando nas suas capacidades racionais para resolver estes dilemas.

como pobres e marginalizados. a ) Situação Original. Maximini designa o critério que deverá ser seguido na escolha dos princípios da justiça: maximizar todas as oportunidades e calcular o risco previsível para as diferentes opções.Critério "Maximini". Só nesta situação de imparcialidade e equidade os indivíduos podem estabelecer os princípios de justiça que devem reger uma sociedade justa que concilie a máxima liberdade individual com a igualdade de direitos para todos. Para que as 12 decisões. Isabel valente . tomadas nesta situação original. Os indivíduos colocados na "situação original" devem imaginar-se na pior de todas as situações sociais. Rawls defende que todos os indivíduos que abordem a questão da justiça da forma anteriormente descrita. b ) Princípios de uma Sociedade Justa: Adaptação. Ele irá mostrar que todo o homem razoável. onde os indivíduos estabelecem um contrato social sob certas condições. Os indivíduos deverão ignorar quem são e esquecerem os seus interesses particulares. no qual os indivíduos estabeleceram o Contrato Social que passou a reger as suas relações sociais. Trata-se uma situação idêntica ao estado natureza ou estado natural imaginado por John Locke. isto é. o que implica uma distribuição equitativa dos direitos e dos deveres entre os cidadãos de modo a gerar a máxima cooperação entre eles e uma correcta distribuição dos benefícios alcançados. Estes direitos são invioláveis e não podem ser instrumentalizáveis sob nenhum pretexto.Filosofia 10º ano Há um ponto que nenhuma sociedade justa pode abdicar: o respeito pelos Direitos e as Liberdades que gozam os cidadãos. colocado nesta situação imaginária. ao contrário do que admitiam os utilitaristas. Kant. sejam inteiramente justas é necessário respeitar as seguintes regras: . Nome que designa a situação imaginada por John Rawls. . Os princípios que forem estabelecidos deverão atender apenas ao interesse geral.Véu da Ignorância. A Justiça deve ser a regra de qualquer sociedade humana bem ordenada. apenas pode desejar pertencer a um sistema social o mais equitativo possível. tendo por base uma situação inicial hipotética. A sua filosofia política assenta numa concepção universalista da Justiça (deontológica). John Rawls estabelece os princípios de uma sociedade justa. só podem chegar aos princípios que a seguir enunciaremos. seguindo um modelo inspirado em I. De acordo com este princípio é sempre preferível escolher a opção mais segura que implica o menor risco para todos.

Isabel valente . Uma sociedade onde os mais talentosos e empreendedores sejam os únicos beneficiados é uma sociedade injusta. Deverá actuar sobre o mercado livre corrigindo as distorções e proceder à redistribuição das riquezas de modo a proporcionar aos mais desfavorecidos as condições para melhorarem as suas condições de vida. tendo apenas como exigência que as mesmas sejam compatíveis com a liberdade de outros indivíduos. Uma sociedade justa. c ) Estado e Cidadãos. A desigualdade só pode ser socialmente existir na condição da mesma se traduzir em benefícios para os mais carenciados. Adaptação. reduzindo as desigualdades naturais e sociais. Esta igualdade de direitos não deve constituir uma limitação ao seu desenvolvimento. Princípio da Diferença. O regime democrático decorre naturalmente deste princípio. As liberdades individuais deverão ser tão extensas quanto possível. Princípio das Liberdades. iguais para todos. isto é. John Rawls sustenta que compete ao Estado promover a igualdade de oportunidades dos indivíduos. As liberdades básicas são iguais para todos os indivíduos. As desigualdades sociais e económicas devem cumprir duas condições para serem admissíveis: a) Ligarem-se a funções e posições abertas a todos em condições de justa igualdade de oportunidades (princípio da oportunidade justa). baseada nestes princípios aceita a desigualdade entre os indivíduos mas garante a todos eles as mesmas oportunidades básicas. 2. e compatível com o mesmo sistema para todos. 13 Independentemente da condição social todos os homens deveriam gozar do mesmo estatuto. Cada pessoa tem um igual direito a um sistema plenamente adequado de liberdades e de direitos fundamentais. O Estado deve organizar a sociedade de modo a compatibilizar as liberdades e garantir as mesmas oportunidades básicas.Filosofia 10º ano 1. b) Servirem para o maior benefício dos menos favorecidos ( princípio da diferença). ter as mesmas oportunidades básicas.

14 Adaptação. Isabel valente .Filosofia 10º ano Os cidadãos devem acatar as leis da sociedade. Rawls admite a legitimidade de acções militares contra Estados opressores que violem os direitos dos seus cidadãos. mas tem toda a legitimidade para não o fazerem (Desobediência Civil) no caso dos princípios da justiça estarem a ser violados. numa perspectiva muito próxima da social-democracia europeia. A filosofia política de John Rawls tem para muitos dos seus críticos apenas um objectivo: contribuir para atenuar as desigualdades das sociedades capitalistas propondo formas mais equitativas de distribuição da riqueza.