Textos: leitura crítica.

A leitura crítica, correndo o risco de cair em uma explicação simplista, embora correta, é a
mera opinião de um leitor acostumado a ler muitos livros sobre a qualidade de
determinada obra literária
O que torna esta leitura valiosa é justamente apresentar a opinião de um leitor que estará analisando o original
à procura de falhas, examinando detalhes que passariam despercebidos a um leitor desatento.
Para as editoras, esta opinião é essencial para poder selecionar os originais de melhor qualidade do conjunto
de dezenas de obras que, todos os dias, chegam às suas mãos.
Para os escritores, é essencial poder contar com a análise de um leitor que não dará sua opinião
simplesmente para agradar - pelo contrário, alguém que está pronto para mostrar os problemas em sua obra.
Obviamente, tais comentários só são úteis para aquele que está aberto a críticas e que vá efetivamente
promover revisões para corrigir os problemas apontados.

COMO É REALIZADA A LEITURA CRÍTICA
Avaliar um original, seja um quadro, uma composição musical ou um livro, é sempre uma tarefa subjetiva. Por
mais que tentemos objetivar a análise, dividindo a obra e analisando-a sobre diferentes aspectos, ainda assim
sempre resta uma grande dose de subjetividade, sendo portanto o resultado, em última instância, uma visão
pessoal do avaliador.
Obviamente, as opiniões do leitor crítico se baseiam em sua experiência como leitor e, inevitavelmente, podem
ser influenciadas por seu gosto pessoal; de forma que sua opinião não é um atestado de qualidade (ou de falta
desta); mas sim um ponto de partida para que o autor veja sua obra por outros olhos e possa, caso desejado,
burilá-la para torná-la mais palatável ao leitor.
Não há um manual para isso, mas de maneira geral o leitor crítico irá conscientemente ou inconscientemente
avaliar o original por diversos diferentes aspectos, como por exemplo:

■ Coesão ou Continuidade: A coesão se refere à integração entre frases, parágrafos, capítulos, e tramas do
livro, indicando se o autor consegue manter uma narrativa onde os elementos estão sempre conectados, que
facilita a leitura, ou se dá “pulos” que podem vir a confundir o leitor. Um exemplo simples de problema de
continuidade: em um parágrafo vemos o protagonista buscando resolver um problema, e no seguinte ele
agindo como se o problema não existisse, sem nenhuma pista como foi resolvido. Normalmente, se o leitor
precisa retornar e reler alguma parte do texto para entender a conexão entre as duas partes, ou se ele não
entende a passagem de um ponto para outro da trama, estamos enfrentando um problema de continuidade.

■ Consistência: A consistência se refere à qualidade da obra de manter a mesma “voz” ou forma narrativa em
sua totalidade, ou dentro de cada trama que eventualmente justifique “vozes” diferentes. Por exemplo, se a
narrativa está sempre em primeira pessoa, e em determinada parte ela passa à terceira pessoa sem
justificativa para tal, isso é um problema de consistência da voz narrativa.

■ Coerência: A coerência se refere à capacidade do autor de criar uma realidade coerente para sua história,
sem “surpresas” que pareçam não se encaixar na realidade apresentada. Está intimamente ligada à
suspensão da descrença. Os erros de coerência por vezes são fáceis de descobrir, mas se a narrativa ocorre
em algum local ou tempo exótico, podem ficar bastante escondidos, sendo perceptíveis apenas aos leitores
mais atentos ou experientes. Os erros podem ser básicos, como uma pessoa comum, classe média, utilizar um
celular em uma trama que se passa no final dos anos 80; ou bem mais sofisticados, como incluir cavaleiros

os autores novos usar isso com cuidado. ■ Clareza: A clareza indica se o texto é ou não facilmente lido. mas que tenha uma cadência ruim. sob a pena de cansar os leitores antes que eles cheguem à essência da obra. com raras e honoráveis exceções o narrador e os personagens devem se ater ao que é necessário para o desenvolvimento da trama. embora a falta de clareza por si só não possa ser usada como um indicativo da qualidade da obra. uma boa leitura crítica irá apresentar uma conclusão com os principais aspectos que chamaram a atenção do leitor. Consultor literário internacional. gramaticais ou de concordância. e quando esta diagramação é significativa para a obra. e este problema isoladamente não afete a avaliação geral da obra. leva o leitor a ter a impressão de que as coisas demoram a acontecer. Um texto que seja bom em outros aspectos. Este pacto é na verdade o somatório de todas as características comentadas anteriormente. e que com isso ajuda ou prejudica a leitura. ou ritmo. por exemplo. ■ Linguagem: A avaliação da linguagem ou “voz narrativa” visa indicar se há alguma característica específica da linguagem que se destaca no livro. “A grande diferença entre um escritor amador e um profissional é que o escritor amador acha que uma ideia inspirada basta. não apresentando “pontas soltas” ou divagações que não contribuem para a história como um todo. ele simplesmente irá indicar que a obra necessita de revisão. evitar grandes trechos em itálico ou negrito. que impactam no ritmo da leitura. ou se. assessor de autores e cirurgião de texto (story doctor) ■ Diagramação: A avaliação da diagramação só é avaliada pelo leitor crítico quando o original é enviado a ele já diagramado (o que não é muito comum). Embora as editoras normalmente contem com revisores. Um exemplo clássico desta abordagem pode ser visto em O Nome da Rosa. James McSill. demandam uma revisão cuidadosa. que a ação não se desenvolve. Embora ter uma cadência lenta possa ser recurso narrativo válido. mas pode soar estranho se a história não é regionalista. Correção: O leitor crítico não indica os erros ortográficos. ■ Cadência: A cadência. com excesso de palavras eruditas ou excesso de detalhes interrelacionados pecam pela falta de clareza. parecendo que o escritor não tomou o cuidado de evitá-los. posto que qualquer erro pode comprometer a compreensão do leitor. Um dos pontos mais importantes desta conclusão é o veredicto do leitor crítico sobre a capacidade do texto de criar e manter a chamada “suspensão da descrença”. fazendo-os desistir da leitura nas primeiras páginas. incluindo a concisão e a consistência. diagramações que demandem algum cuidado especial em cada página. pois. que dificultam a leitura da obra. um livro com uma linguagem carregada de regionalismos pode ser interessante se a história se passa na região onde seu uso é comum. Obras comerciais raramente possuem narradores dados a arroubos poéticos ou filosóficos.com “armaduras reluzentes” no século VI. Também é conciso o texto que evita rodeios e que não peca pelo excesso de detalhes. Por exemplo. o leitor se sente “de . por algum motivo. Algumas regras básicas se aplicam. e pela organização das tramas e capítulos. Além disso. e o profissional sabe que a ideia também precisa ser inspiradora”. como. ■ Concisão: A concisão se refere à qualidade do texto de ser conciso. Textos rebuscados. também chamada de “pacto de verossimilhança”. indicando se o original consegue garantir a apropriada imersão do leitor na obra. que apresenta sua opinião sobre quais são os pontos fortes da obra e o que falta – caso falte algo – ao original para que fique “pronto para ser entregue” a uma editora. do texto é resultante da velocidade de leitura sugerida pela fluidez e clareza do texto. onde Umberto Eco deixou claro que as primeiras centenas de páginas são deliberadamente lentas para “transportar o leitor à velocidade com que as coisas aconteciam na Idade Média”. como utilizar fontes diferentes para tramas diferentes. devem ser usadas com muito cuidado. além de encarecerem a produção da obra (o que pode desestimular algumas editoras). quando as armaduras eram criadas basicamente com couro. Além dos pontos acima. o escritor deve estar ciente que uma obra com muitos erros de português pode desanimar os avaliadores da editora. A cadência está associada a diversas outras características do texto.

. onde não há escolas de magia. E se em algum momento o livro quebra esta aceitação. complicado é justamente conseguir atingir o âmago do leitor. o leitor – seja ele crítico ou não – está com a mente no mundo real. usualmente com resultados frustrantes. aqueles pontos absurdos são verdadeiros. E. por absurda que seja. a alma de qualquer história: vale a pena contá-la? Ela é original. de maneira simples mas cheia de profundidade: “Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. Se o texto consegue levar o leitor a “aceitar” a realidade apresentada. o escritor conseguiu “suspender a descrença” do leitor nesta realidade. No meio você coloca ideias”. monstros no jardim ou discos voadores. única. Porque seguir regras é fácil. ainda assim há um elemento essencial a ser avaliado. inspiradora? É como Pablo Neruda dizia. Ele aceita que. Ao iniciar um livro. salta aos olhos do leitor que a história é falsa. se um livro atende de maneira perfeita a todos estes pontos.fora” da narrativa em alguma parte do livro. na realidade do livro.