Universidade de Brasília – UnB

Instituto de Ciências Humanas – IH
Departamento de Serviço Social - SER

Angelo Roger de França Costa

A Problemática Racial na Política de Assistência Social
no Brasil:
O Desafio da Especificidade Negra

Brasília, Julho de 2008

Angelo Roger de França Costa

A Problemática Racial na Política de Assistência Social
no Brasil:
O Desafio da Especificidade Negra

Trabalho apresentado ao Curso de
Serviço Social da Universidade de
Brasília como requisito para aprovação
na disciplina, Trabalho de Conclusão de
Curso, sob a orientação acadêmica da
Prof.ª Rosa Helena Stein.

Brasília, julho de 2008.

1

Universidade de Brasília – UnB
Instituto de Ciências Humanas – IH
Departamento de Serviço Social - SER
Trabalho de Conclusão de Curso - TCC

A Problemática Racial na Política de Assistência Social no
Brasil:
O Desafio da Especificidade Negra
Discente: Angelo Roger de França Costa
Orientadora: Rosa Helena Stein

Banca Examinadora:

_________________________________________________
Prof. Dr. Mário Angelo e Silva

__________________________________________________
Prof. Dr. Perci Coelho de Souza

Brasília, Julho de 2008.

2

Dedico a minha esposa Tanailda Pontes Cabral de França. 3 .

Ao professor Mário Angelo que sempre acreditou no meu potencial e me presenteou com sua amizade e conhecimentos. Tanailda Pontes Cabral de França que com seu amor e dedicação me acompanhou todos os dias e com paixão teve paciência nas adversidades. As amigas Marcela Lustosa. Aos membros do Programa Afroatitude-UnB. a minha mulher.Agradecimentos. Andréa Rangel. Ao Deus criador que me capacitou e me permitiu ter vida para conquistar mais uma vitória. A minha mãe que me incentivou a fazer graduação e me ajudou a permanecer mesmo enfrentando dificuldades. A professora Rosa Stein que me orientou cuidadosa e gentilmente na elaboração e execução desse trabalho de pesquisa. E finalmente. 4 . Cristiane Luiz que me ajudaram diretamente na reflexão da problemática da monografia e outras atividades relacionadas. que com a convivência nos encontros e atividades partilharam suas experiência me auxiliando na reflexão da identidade negra e suas implicações.

Brasil.Municípios que receberam co-financiamento para o PAIF em 2004. por meio de convênio para atendimento prioritário às comunidades quilombola. segunda raça/cor. Brasília – DF. Brasil 1993-2003. 1995 a 2005. Brasil 1995 a 2005__________________________________________ 28 Gráfico 5 . Brasil 1993-2003.– Rendimento do Trabalho Principal por nível educacional segundo raça/cor no Brasil 2005_____________________________________________________ 26 Gráfico 3 ._______________________________________ 45 LISTA DE TABELAS TABELA 1 .____ 54 TABELA 2 – Resultado da Eleição.LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Rendimento do Trabalho Principal segundo raça/cor no Brasil de 1995 a 2005 ____________________________________________________________ 25 Gráfico 2 .__________________________________________ 44 Gráfico 6 – Número de Crianças Brasileiras entre 10 e 14 anos ocupadas no Mercado de Trabalho.____________________________________________________________ 27 Gráfico 4 – Porcentagem da população vivendo abaixo da linha da pobreza. 04 de julho de 2008_________56 5 .Número de Crianças Brasileiras entre 5 e 9 anos ocupadas no Mercado de Trabalho.Anos médios de estudos segunda raça/cor e grupos etários.

LISTA DE SIGLAS CNAS – Conselho Nacional de Assistência Social CNCD – Conselho Nacional de Combate a Discriminação CRAS – Centro de Referência da Assistência Social ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente FCP – Fundação Cultural Palmares IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPEA – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas LOAS – Lei Orgânica da Assistência Social MDS – Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome ONU – Organização das Nações Unidas PAIF – Programa Atenção Integral a Família PBF – Programa Bolsa Família PBQ – Programa Brasil Quilombola PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PNAA – Programa Nacional das Ações Afirmativas PNAS – Política Nacional de Assistência Social PNAD – Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio PNDH – Programa Nacional dos Direitos Humanos PNPIR – Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial SEPPIR – Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial 6 .

MDS e outros: Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI. 7 . Os resultados apresentam uma relação insuficiente da problemática racial com a política de assistência social. um controle social externo aos espaços institucionais. A problemática racial precisa ser vista como uma das prioridades da política de assistência social. Analisamos três programas da política de assistência social. e especificamente em relação aos negros na política de assistência social. dificultando uma resposta adequada à demanda racial. o racismo institucional e o preconceito racial que estruturam o debate das desigualdades entre brancos e negros no Brasil.RESUMO Este estudo objetivou analisar a relação entre a política de assistência social e a problemática racial. Ainda no debate de políticas públicas pontuamos sobre a articulação de políticas para o enfrentamento do racismo. O método dialético de aproximações sucessivas orientou a pesquisa documental e a análise dos resultados. a participação de suas representações nos conselhos nacional. IBGE. No decorrer do estudo analisamos o contexto histórico da construção e existência do racismo. Estes programas foram selecionados por sua relevância para o entendimento da relação das problemáticas raciais com a política de assistência social. Também analisamos a composição do Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS. Também discutimos conceitos como a discriminação direta e indireta. e o Programa Brasil Quilombola. estaduais e municipais dessa política. usando dados do IPEA. tendo como premissa que a discriminação racial se apresenta de formas difusas nas políticas públicas e nas demais relações sociais. Como o foco deste trabalho é a relação das problemáticas raciais com a política de assistência social pontuamos o debate contemporâneo de focalização e universalização das políticas públicas. e ainda. Programa Bolsa Família. refletindo sobre a representação dos negros nesse espaço. Essas dificuldades de identificação são resultados históricos e estratégicos do racismo e do preconceito racial. O enfrentamento das desigualdades raciais se apresenta como um desafio e um compromisso para a política de assistência social. Outro elemento para a implementação mais adequada de políticas públicas que debatemos é a participação e controle social como estratégia de participação e democratização.

1 O Debate da Universalização e Focalização_________________________ 32 2.SUMÁRIO Lista de Gráficos e Tabelas_____________________________________05 Lista de Siglas________________________________________________06 Resumo_____________________________________________________ 07 Introdução ________________________________________________________ 09 Metodologia__________________________________________________ 12 Pesquisa de dados____________________________________________ 14 Capítulo I Problemática Racial e o Histórico da Desigualdade 1.2 Articulação nas políticas de enfrentamento ao Racismo________________ 35 2.3 A Participação e Controle Social nas Políticas de Assistência Social______ 37 Capítulo III Análise Sobre a Problemática Racial nas Políticas de Assistência Social 3.3 Racismo Institucional___________________________________________ 29 Capítulo II O Desafio das Especificidades Negras nas Políticas de Assistência Social 2.4 Conselho Nacional de Assistência Social___________________________ 54 Capítulo IV Considerações Finais_______________________________________________ 58 Referências Bibliográficas __________________________________________ 60 Anexos___________________________________________________________ 63 8 .2 Programa Bolsa Família________________________________________ 46 3.3 Programa Brasil Quilombola_____________________________________ 49 3.2 Problemática Racial ___________________________________________ 21 1.1 Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI_________________ 42 3.1 Breve Histórico da Questão Racial no Brasil ________________________ 17 1.

esta pesquisa buscou verificar algumas respostas das políticas públicas de assistência social e como elas têm incorporado a questão racial. Os dados oficiais apontam uma situação alarmante sobre a situação do negro brasileiro. Uma articulação entre as políticas do MDS com a questão racial aparece como resposta inevitável ao quadro de exclusão racial. que.INTRODUÇÃO A drástica situação social do Brasil tem exercido influência na ação do Estado. Essa inserção desigual confere características à população negra. e necessárias. programas e benefícios da política de assistência social. Nessa linha de ação. especialmente nos últimos anos. tendo em vista a sua missão precípua de garantir o direito aos serviços. a maior demandante de políticas é a população negra. que no contexto brasileiro de escravidão e de contínua negligência governamental no enfrentamento da discriminação racial. Outro desafio apresentado no segundo capítulo a ser enfrentado pela política de assistência social é a articulação com as demais ações do Estado para 9 . impõe aos negros uma condição de exclusão. para fazer face às demandas da história brasileira de escravidão. no segundo capítulo será dado realce aos desafios das especificidades negras no interior da política de assistência social. geralmente. Nesse contexto. No primeiro capítulo é apresentado a questão racial e o histórico da desigualdade racial. mediante um conjunto de políticas gradativamente ampliadas para o enfrentamento das situações de miséria e de violação de direitos fundamentais à vida. A missão do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome é promover a inclusão social e a emancipação das famílias brasileiras. Esta é definida como política que deve prover os mínimos sociais a fim de garantir as necessidades básicas. erradicando de forma definitiva a fome e a miséria no Brasil por meio de políticas públicas de proteção e promoção social. Esses desrespeitos à vida acontecem predominantemente com a população negra. demandam políticas de assistência social. A incorporação da referida articulação em todas as políticas públicas é uma das respostas possíveis. aparece como fundamental a compreensão sobre a universalidade e a focalização como estratégias e princípios nas políticas no enfrentamento das desigualdades e promoção da justiça social. Por isso. Nesse debate. Evidentemente essa missão perpassa em outros espaços institucionais e órgãos governamentais.

A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR . É dever do Estado assegurar as condições de acesso e oportunidades iguais para todos na busca de melhores condições de vida. A participação dos negros através dos espaços democráticos na formulação e implementação de políticas identitárias é outro desafio na relação com a política de assistência social brasileira. Este é um produto da nossa história de escravidão que duraram quatro séculos no Brasil. onde se concentra a atuação restrita de enfrentamento ao racismo. como também a maior parte dos desempregados e subempregados brasileiros é negra. articular.afirma no seu site oficial. tem por missão acompanhar e coordenar políticas de diferentes ministérios e outros órgãos do governo brasileiro para a promoção da igualdade racial. Em uma tentativa de responder as demandas sociais históricas da população negra. gerando buracos e cicatrizes profundos no convívio social. onde seriam desenvolvidas todas as ações de promoção da igualdade racial. três grandes objetivos: Um é aproximar as necessidades e perspectivas 10 . no conjunto de ações governamentais. acompanhar e promover o cumprimento de acordos e convenções internacionais assinados pelo Brasil que digam respeito à promoção da igualdade racial e ao combate ao racismo. e pelo menos 70% dos indigentes são negros. refletem também resultados da ausência de políticas públicas de enfrentamento ao racismo e de promoção da igualdade racial para superá-las. promover e acompanhar a execução de diversos programas de cooperação com organismos públicos e privados. Um dos princípios da SEPPIR baseia-se na transversalidade cujo pressuposto é o combate às desigualdades raciais e a promoção da igualdade racial. ainda. que constituem premissas a serem consideradas por todas as políticas e áreas do governo. que o Estado brasileiro não pode ser neutro nas questões raciais. A SEPPIR. Dessa forma não existe uma área específica. Nesse sentido. a política de assistência social. nacionais e internacionais e. em linhas gerais. deve inserir de modo articulado a questão racial nos seus programas. no texto institucional. projetos e serviços. Uma verdadeira participação popular tem.responder as demandas sociais. conforme informações encontradas em sua página oficial na internet. Esse é um desafio que pode ser entendido como um compromisso. Os dados oficiais brasileiros apontam que 64% dos pobres. assim como as demais políticas. especificamente às demandas raciais. o Governo criou em 2003 a referida Secretária Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial.

Assim. o outro é exercer controle para que a implementação seja transparente. a maioria dos atendidos pelas políticas de assistência social (política que atende essas demandas. o segundo é gerar uma cidadania ativa capaz de participar da formulação e implementação das ações que produzam uma política nova e redistributivista. 5º. Nos estudos são destacados o racismo e a sua estrutura institucional. a revelia dos indivíduos. evidentemente articulada com as demais políticas para o enfrentamento eficaz desse quadro) deveriam ser negros. se a maioria dos miseráveis. recebem maior atendimento relativo. e. dos desempregados são negros. eficiente e eficaz. enraizada nas organizações brasileiras de modo sutil. mesmo em políticas residuais. 11 . mesmo políticas universais. em seu art. na prática. dos idosos desassistidos. a participação sistemática da população negra. Nessa pesquisa constitui foco de análise a política de assistência social e sua resposta às demandas da população negra. que estabelece no seu artigo 4º. das crianças que trabalham. inciso IV a igualdade de direitos no acesso ao atendimento. na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis. têm atendido favoravelmente os brancos em detrimento dos negros (MUNANGA. Os dados sobre o perfil dos atendidos. Diversos são os motivos que explicam a diferença entre a demanda por atenção e seus reais atendimentos. os brancos. Em linhas gerais. inciso II. estudos realizados em outras políticas sociais apontam que não se mantém a proporção das demandas potenciais com a demanda realizada nos programas e projetos sociais. Essa análise tem como referência a Lei Orgânica da Assistência Social. 2002). até certo ponto. nos espaços destinados a participação da população como um todo. mas produzem e reproduzem a desigualdade relativa entre brancos e negros. o que dificulta um diagnóstico mais completo. deve estar incorporada nas políticas de assistência social. especialmente com o quesito raça/cor não são abundantes. Assim. por meio dos seus representantes.dos usuários para a gestão da política. Também estabelece. Sabemos que a população negra aumenta sua representação nas camadas mais pobres brasileiras. 2001). A análise dos dados oficiais sobre a inserção da questão racial nas políticas de assistência social é apresentada no terceiro capítulo. Porém. Lei Nº 8742/93. ou seja. com predominância negra nos grupos miseráveis (OLIVEIRA. sem discriminação de qualquer natureza. a participação da população. por meio de organizações representativas.

Assim. Embora. como as comunidades quilombolas. realizando e sofrendo influências simultâneas dos vários fatores sociais. também colaboram para discriminações que se traduzem em materializações negativas para alguns. as relações raciais podem ser consideradas como modalidades particulares de relações sociais. e não podem ser adequadamente compreendidas se analisadas separadas da totalidade social que integram. obstaculizando a sua inserção socioeconômica na sociedade capitalista. Precisamos considerar que as desigualdades sociais se multiplicam e que certos sistemas político-culturais além de entrelaçar-se à organização da economia política em classes sociais. As representações desenvolvidas nas formas de consciência social com base na matéria-prima dessa situação de opressão levaram ao desenvolvimento de uma ideologia racista que chegou até os nossos dias. temos que reconhecer que existe também uma hierarquia racial que é baseada no preconceito e na discriminação dos negros. Metodologia Na perspectiva teórico-metodológica com enfoque marxista são as relações de produção escravistas que colocam os indivíduos em posições sociais de subjugação. das condições socioeconômicas dos discriminados e atribuir essa conclusão a visível inserção precarizadas dos negros aos bens e privilégios sociais é realizar um reducionismo limitador da compreensão do real. o que dificulta a atuação dos mesmos no mercado de compra e venda de força de trabalho. A universalidade do gênero humano não é negada quando reconhecemos a existência da diversidade cultural em combinação com as particularidades das relações interétnicas e raciais. por um lado. mesmo entre os excluídos 12 . Por outro.Neste sentido. Ou seja. seja inconcebível negar a existência de uma hierarquia gerada pela divisão do trabalho. Entender o racismo como resultante. de opressão e violência material e simbólica. exclusivamente. de trabalho forçado. e em ações que atendam exclusivamente os negros. Nessa concepção. baseada na propriedade ou não dos meios de produção. produzindo uma reflexão sobre as respostas institucionais conferidas as necessidades específicas dos negros em duas abordagens: no interior de ações para todos que compreendam as necessidades específicas. a pesquisa de dados nos programas. projetos e serviços da Política Nacional de Assistência Social buscou verificar a participação da população negra nos atendimentos efetivos. de exploração econômica.

Ou seja. sendo assim. Porém. 2005). como os cenários de classe que traduzem tais sistemas em vantagens ou desvantagens relativas. ligação e interação com os outros fenômenos. nada. a sua relação. ajuda na ampliação da exploração de alguns e ao mesmo tempo fragmenta a classe dos sem propriedades como um todo. há alguns que sofrem outras exclusões que contribuem para a negatividade maior do seu ser e estar no mundo. Este método é adequado para essa pesquisa. a depender do gênero. e o capitalismo usa essas diferenças tidas como naturais para acirrar as competições. O principio da contradição afirma que a transformação de um determinado fenômeno se dá pela coexistência em seu interior de forças contrárias. qual seja. mas há que entender tanto os sistemas que emprestam conotação peculiar a cada identidade. mas em continua transformação. sendo de fundamental importância à compreensão deles em sua totalidade. Os fenômenos são compreendidos em movimentos contínuos. da raça e do momento no ciclo vital. com sentidos próprios. o método dialético de aproximações sucessivas. sendo assim o pensamento é construído ao internalizar a sociedade onde o individuo é criado. existe uma ação recíproca entre objetos e fenômenos. O estudo de um fenômeno com base no método dialético implica considerar o seu movimento próprio. vistos como estáticos. incluindo a sociedade. Tais sentidos são construídos cultural e politicamente. ou seja. E o último princípio indica que esta transformação ocorre pelo acúmulo de elementos quantitativos que serão em determinado momento transformados em qualidade (TEIXEIRA. embasada na competição. totalidade. são entidades acabadas. Essas considerações contextualizam o método escolhido para orientar a pesquisa. hierarquias e formas de viver a classe. Essa diversidade. pois admite uma perspectiva histórica de transformação que possibilita pensar nas contradições próprias do processo. e de maneira nenhuma. esta internalização acontece com a 13 .socialmente por força das relações capital e trabalho. Na totalidade. A transformação contínua indica que o movimento é uma qualidade inerente a todas as coisas. Na reflexão marxista o pensamento é um produto do cérebro que é um produto da natureza. Assim. transformação contínua e a transformação de quantidade em qualidade. mesmo entre os pobres há gradações. Os princípios que orientam este método são a interpenetração dos contrários. O pensamento marxista ponderava que são várias as populações para o capital. vislumbrar um modelo social mais justo e inclusivo.

especialmente da 10ª a 14ª edição. A Pesquisa de Dados. Nessa perspectiva a problemática do racismo. Desses grupos emergem lideranças que empoderados pela coletividade escrevem seus nomes na história. A complexidade da temática racial deve ser entendida em suas várias formas. A pesquisa objetivou verificar a inclusão e participação da população negra nos atendimentos efetivados nos programas. foi compreendida como fenômeno coletivo e repleto de contradições. projetos e serviços. pois os indivíduos não estão eternamente presos às estruturas que os condicionam. vamos refletir a partir dos dados produzidos pelo IPEA e apresentados em seus Boletins de Políticas Sociais: Acompanhamentos e Análises. sua compreensão necessita de uma incursão na história dessa política e do racismo no Brasil para entender sua relação. Assim. 2005). compreender sua movimentação contínua e o sentido de suas transformações. no viés da discriminação direta e indireta. pois admite que as vivências são experimentadas de maneira particular pelo indivíduo e o pensamento é a síntese das interpretações da realidade (TEIXEIRA. especialmente quando se fala de políticas públicas. é possível a transformação. Esse materialismo dialético também é chamado de materialismo histórico. e também. participar do debate das políticas identitárias. onde os fenômenos não são avaliados como resultantes de ação individual em um momento histórico. o materialismo histórico não é determinista. que orientou toda a pesquisa. Essa relação da política de assistência social e a problemática racial é o objeto desta pesquisa. Essa é a premissa. O marxismo entende que a mudança na sociedade humana e a construção da história são processos coletivos impulsionados pela dialética entre opressores e oprimidos. Além destes foram usados outros dados disponibilizados pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome sobre seus programas. no interior da política de assistência social. Assim. projetos e serviços e produzir uma reflexão sobre as respostas institucionais conferidas às necessidades específicas dos 14 . A reflexão proposta tem como pano de fundo os conceitos que visam à compreensão das questões raciais e o reconhecimento das pessoas negras como sujeitos de direitos.interpretação particular do sujeito gerando as diferentes formas de condutas num mesmo contexto social. Portanto. Assim. interação e integração. Para isso.

educação de qualidade. especialmente no que diz respeito aos potenciais usuários (demanda potencial) das políticas de assistência social. que já estavam presentes. basicamente a população negra como alvo daquela ação. no seio do capitalismo. Ou seja. O PBQ foi escolhido por representar a resposta da política de assistência social a problemática racial e apresenta as possibilidades de uma ampliação da perspectiva de enfrentamento das desigualdades raciais. nessa pesquisa. com os dados disponíveis sobre os efetivos atendimentos (demanda realizada) pelo MDS a partir do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) de 1993 a 2003. tendo como indicador de análise. a análise estará restrita aos 15 . porém. pois a sua prática. entretanto. religião. como. O PBF por sua vez auxilia na resposta a demanda de permanência nas escolas. O Instituto de Pesquisa e Econômicas Aplicadas – IPEA – desde o ano de 2000 vem avaliando as políticas sociais brasileiras. incorporou como um de seus indicadores o quesito raça/cor nas suas análises. tais como. ainda lentamente. Em relação à política de assistência social o IPEA sistematizou os dados dos atendimentos realizados pelos programas. e se configuram como carta de intenção. projetos e serviços separando-os em vários indicadores. Outra premissa para a escolha do PBF e a sua abrangência nacional com mais de 11 milhões de beneficiados. as efetivações dos atendimentos caminham. gênero. 2003. a qual. por exemplo. para a totalidade da demanda. se configura de maneira difusa e exige uma ação complexa. identifica. uma demanda potencial ainda reprimida. A identificação da demanda leva em consideração os indicadores sociais disponíveis. idade e localidade. o recorte racial a partir dos dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – bem como os dados sobre o retrato do Brasil. os indicadores do trabalho infantil As ações públicas ainda não foram suficientes para erradicá-lo. e produzindo boletins periódicos de acompanhamento e análises. do Programa Bolsa Família (PBF) de 2005 a 2008. Então temos uma demanda atendida. causando impactos em toda a sociedade. A partir do seu 7º Boletim de Políticas Sociais. O PETI foi escolhido para análise. existe uma demanda para política. e que se coadunam com os critérios exigidos em cada ação da política. Para tanto. especialmente na população negra. e a população negra é a que mais evade nas séries iniciais. tendo em vista sua interação com duas questões relevantes para o entendimento das questões raciais: trabalho e geração de renda. do Programa Brasil Quilombola de 2004 a 2006. foram estabelecidas relações entre essas duas demandas. porém.negros no interior da política de assistência social tomando como referência a demanda social existente. somando a outros.

p. 16 . sem o recorte de idade. qual seja: “Um dado suporta uma informação sobre a realidade. da 14ª edição do Boletim de Políticas Sociais de 2007. Com os referidos dados foi possível identificar a demanda social (demanda potencial) dívida por raça/cor para a política de assistência social e a sua correspondência nos atendimentos efetivos (demanda realizada). Porém.16). No referido grupo de dados o debate tem como referência o Estatuto da Criança e do Adolescente. O uso dessa metodologia possibilita um debate sobre a correspondência e relação entre a demanda potencial e a demanda realizada referente à população negra. técnicas e políticas que concretizam a demanda realizada. principalmente. implica uma elaboração conceitual dessa informação e o modo de expressa-la que possibilite a conservação e comunicação” (FLORES. o que possibilitou confrontar os principais normativos da política de assistência social gerando significado à ação política racializada. O segundo grupo de dados busca estabelecer comparação entre a população branca e negra no contexto das políticas de assistência social.indicadores de raça/cor. com o auxílio dos instrumentos normativos que estabelecem a demanda potencial e as práticas administrativas. considerando jovens de até 25 anos. destacando-se a utilização abrangente. é a correspondência dos programas. concentrando a discussão nas crianças e adolescentes. ou seja. os instrumentos normativos da política de assistência social e os direitos das crianças negras. Nos casos em que não for possível identificar a demanda realizada será feito uma discussão com a demanda potencial e a elaboração do programa. A compreensão do termo “dado” utiliza como referência a definição de Flores. 1994. mas. Os dados foram sepados em dois grandes grupos: o primeiro referente aos dados da população jovem. O acompanhamento que vem sendo efetuado pelo IPEA permite remontar o histórico dos atendimentos. projetos e serviços aos grupos raciais. Tal relação ganha maior relevância. no presente trabalho. e voltadas para as demandas sociais.

CAPITULO I
PROBLEMÁTICA RACIAL E O HISTÓRICO DA DESIGUALDADE

1.1 Breve Histórico da Problemática Racial no Brasil
O racismo no Brasil produziu desigualdades sociais gigantescas. Estas
desigualdades foram verificadas em diversos estudos e hoje negar a existência de
racismo é um exercício conceitual complexo. Para os militantes do movimento negro1,
negar o racismo e as práticas de discriminações raciais é uma estratégia para legitimar
as desigualdades sociais de cunho racial. Na maioria das vezes, essa negação é
baseada em interpretações equivocadas, distorcidas ou intencionalmente adotada
como sinônimos de democracia racial, um mito social com repercussões no imaginário
nacional.
Os diversos estudos apontam a discriminação racial como um elemento do
real, presente no cotidiano dos brasileiros e uma grande barreira para o exercício
verossímil da democracia (MUNANGA, 2004). Em quase todas as dimensões da vida
humana os índices da população negra são inferiores aos da população branca. A
população negra reside em espaços carentes de políticas públicas essenciais para o
exercício da cidadania. Os jovens negros têm morrido violentamente em maior
quantidade que os jovens brancos. Os negros têm menos da metade da renda dos
brancos. Os tipos de ocupação são, em sua maioria, precarizadas e com pouco
prestígio social. O tempo de escola e a qualidade da educação da população negra
são inferiores a população branca (OLIVEIRA, 2001).
Estes e muitos outros dados constroem o contexto contemporâneo de
existência da maioria da população negra, no qual, apresenta-se não somente um
quadro que revela resultados da exposição da população negra à pobreza, mas
também é a resposta concreta da discriminação racial histórica. São estes elementos
que há séculos fragiliza e exclui os negros do acesso aos direitos, benefícios e
privilégios sociais.
Existem muitas informações importantes em toda a história do Brasil para
apresentar a questão racial e suas determinações culturais, sociais, políticas e
econômicas. Esses elementos surgem com o processo de escravidão e o tráfico
1

O Movimento Negro não é homogênio. Em seu interior existem vários segmentos que podem discordar
ou consensuar em alguns aspectos da compreensão do real, e especialmente nas estratégias para combater
o racismo. Atualmente a discussão sobre o Movimento Negro aponta para uma heterogeneidade tão densa
que considera expressões pontuais de resistência como construtos desse sujeito coletivo e histórico.

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negreiro. Recebem uma ênfase, nesse momento histórico, a resistência de todos os
negros, especialmente aquela expressa pela formação dos quilombos e a preservação
da cultura africana2. Os relacionamentos inter-raciais, discutido profundamente por
Munanga (2004), que produziram a mestiçagem e com ela a identidade nacional
pautada em uma pretensa assepsia racial, o conhecido mito da democracia racial. No
final do século XIX e início do século XX foram adotadas um conjunto de medidas
legais que colocava fim, formalmente, com a escravidão, mas impossibilitava os
negros do acesso aos bens e direitos sociais. Nesse contexto a ação do Estado era
decisiva na concessão de privilégios para grupos não negros. Estes vários elementos
reforçam o pensamento da existência de bases racistas na construção do Brasil como
uma Republica Federativa em 1889.
Octavio Ianne, 2004, dialogando sobre classes sociais e raças no Brasil,
apresenta um pensamento sobre esse período:
É um engano pensar que as condições adversas em que vivem os
negros e mulatos são ditadas pela competição no mercado; e muito
menos pela competição livre no mercado. Sim, não há dúvida de que a
competição é um dado da situação. Mas ela só opera a partir das
condições de monopólio em que se colocam os brancos, em geral, e
cada categoria de branco, em particular. É verdade que desde a
abolição os negros e mulatos se achavam em condições desvantajosas
para competir com o branco, nacional ou imigrante. Mas também é
verdade que desde a abolição os brancos monopolizam o poder
político e econômico, o acesso à educação, à cultura. (IANNE, 2004,
p128).

Esses

elementos

históricos

servem,

nesse

projeto,

como

breve

contextualização, pois são riquíssimos em definições e extensos para a análise
proposta. Assim, o período que irá receber maior relevância será o período posterior a
década de 80 com as múltiplas ações governamentais a culminar na criação da
Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial.
No regime militar o sistema oficial de informações reprimiu a divisão por
raça/cor fortalecendo a concepção de democracia racial. Essa repressão retirou o
quesito cor do Censo de 1970. Assim, os poucos dados da desigualdade racial era dos
Censos anteriores.
Os conhecimentos sobre a desigualdade racial no Brasil se intensificam
nos anos 80 com a abertura política e a retomada das informações sobre a questão

2

A história possibilita contextualizar e compreender o sujeito coletivo e histórico, especificamente neste
texto os negros, que recebem das estruturas uma imposição sobre suas ações, limitando suas
possibilidades.

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racial. Inclusive a divulgação completa em 1985 da PNAD (Pesquisa Nacional de
Amostra por Domicílio) de 1976.
Somente na segunda metade da década de 80 é criada a primeira
instituição pública com objetivos de realizar ações destinadas à população negra, a
Fundação Cultural Palmares, um resultado da luta do Movimento Negro no Brasil,
embora ainda vinculada à questão cultural, com pequena incorporação nas demais
políticas. Os militantes do Movimento Negro exigiam representações no governo que
se destinasse à cultura afro-brasileira. Em 1979, os militantes constroem o Centro de
Estudos Afro-Brasileiro. Os debates e conferências promovidos por eles contavam
com a participação de embaixadores de países africanos. Na criação, em 1985, do
Ministério da Cultura se instalou a Assessoria de Cultura Afro-Brasileira, que teve
como dirigente o militante do Movimento Negro, Carlos Moura.
Em 1988, com a movimentação da criação da Assembléia Nacional
Constituinte e também o ano em que se lembrava o centenário da abolição da
escravatura, o Movimento Negro levou as reivindicações ao então Presidente da
República, José Sarney, que propôs a criação de uma Fundação. Em 22 de agosto de
1988 era instituída a Fundação Cultural Palmares, por meio da lei n° 7688. O primeiro
artigo da lei define o principal objetivo da FCP: "promover a preservação dos valores
culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da
sociedade brasileira".
Com os vários estudos e diagnósticos das condições de desigualdades
raciais as demandas para a Fundação Cultural Palmares cresceram. Ampliou
consideravelmente suas atribuições.
A década de 1990, especialmente a segunda metade, vários eventos dão
novo fôlego à mobilização pela igualdade racial, tendo importância central à “Marcha
Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida”, realizada em 1995.
Esse evento histórico teve uma participação de milhares de pessoas quando foi
entregue ao então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, um
diagnóstico sobre as condições de vida do negro no Brasil, e nele, várias propostas de
ações para a superação do racismo e das desigualdades raciais. O resultado foi à
criação do Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra (GTI
População Negra), ligado ao Ministério da Justiça. A idéia surgiu na agenda política a
partir da articulação de setores do Movimento Negro que defendiam uma atuação mais
incisiva do governo federal no estabelecimento de políticas públicas para negros que
não fossem restritas às questões culturais.

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Contudo. educação. no qual se propunha a conquista efetiva da igualdade de oportunidades. cujas metas ampliaram as fixadas no I PNDH no tocante à valorização da população negra. esse debate ganha relevância na agenda política para que fossem retomadas as discussões para preparar a participação brasileira na III Conferência Mundial de Combate ao Racismo. o reconhecimento dos males causados pela escravidão e pelo tráfico transatlântico de escravos. As ações estabelecidas foram direcionadas para as áreas de justiça. Na prática. Essas ações não ampliaram o debate sobre as desigualdades raciais que tiveram sua intensidade relativamente diminuída até o ano 2000 na agenda política. então vinculada ao Ministério da Justiça. devem ser combatidos por meio de medidas compensatórias. Em 2002 foi instituído o Programa Nacional de Ações Afirmativas coordenado pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos. recolocando a questão racial nas discussões e debates políticos. essas ações governamentais não surtiam efeitos eficazes para minimizar as diferenças entre negros e brancos. tendo em vista que em 2001 ocorreria a conferência mundial sobre a temática racial. foi criado. raciais e étnicos que sejam objetos de discriminação racial ou de outras formas de intolerância. foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos (II PNDH). Xenofobia e Intolerância Correlata. Essa preparação trouxe grandes efeitos. Discriminação Racial. Ainda no ano 2000 foi instituído o Comitê Nacional para a Preparação da Participação Brasileira em Durban. no II PNDH. e há também. o Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD). por decreto presidencial. Esse programa tem por objetivo implementar uma série de medidas específicas no âmbito da administração 20 . presentes até hoje. em que foi instalado o GTI População Negra foi criado pelo Ministério da Justiça o primeiro Programa Nacional dos Direitos Humanos (I PNDH).No mesmo ano. Esse Comitê tinha uma constituição paritária com representações do governo e sociedade civil. promovida pela ONU em 2001 na cidade de Durban. Depois da Conferência de Durban. O Conselho tem como um de seus objetivos o incentivo à criação de políticas públicas afirmativas de promoção da igualdade e da proteção dos direitos de indivíduos e de grupos sociais. dentro da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos. Em 2002. continha um tópico destinado à população negra. na África do Sul. que constituem crime contra a humanidade e cujos efeitos. 1996. trabalho e cultura. que dentre as várias ações.

21 . Ela se refere a um modo de ser no mundo e com os outros. antropologia. Em 2003 já no Governo Lula. A identidade é abordada por diversas áreas. como a psicologia. fato que gera dúvidas sobre os reais motivos da criação. tornando-se cada vez mais difuso. Mesmo assim. da SEPPIR.pública federal que privilegiem a participação de afrodescendentes. A SEPPIR incorporaria as atribuições da Política Nacional de Ações Afirmativas da Secretaria de Estado de Direitos Humanos e funcionaria como uma instância consultiva do presidente da República. tardia. fundamentados no princípio de transversalidade. Esse atraso acarretou. Mais uma vez é demonstrada a irrelevância que o Governo atribui à luta pela promoção da igualdade racial. chamada Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) vinculada à Presidência da República e com status de ministério. É um fator importante na criação das redes de relações e de referências culturais dos grupos sociais. mulheres e pessoas portadoras de deficiência. Indica traços culturais que se expressam através de práticas lingüísticas. festivas. sociologia. pela primeira vez na história. Essa nova estrutura administrativa tem como principal função.2. em dificuldades organizacionais para a elaboração de ações que se incorporassem ao Plano Plurianual (PPA) 2004-2007. Seria um órgão de articulação e elaboração. foi criada somente três meses após. a SEPPIR. somado a outros fatores. Diferentemente dos demais órgãos que foram criadas no início do governo. ela se da nos níveis sóciopolítico e histórico em cada sociedade: A identidade não é algo inato. foi criado um secretária. com a incumbência de promover a inclusão dos elementos relativos à questão racial com vistas à promoção da igualdade em todas as políticas e ações governamentais. 1. a SEPPIR realizando grande esforço conseguiu incluir. dentre outras sendo possíveis várias formas de compreensão desse conceito. A Problemática Racial Vários conceitos são importantes para o entendimento da problemática racial. Para Nilma Lino Gomes a identidade não é apenas cultural. Essa é a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial que o Governo Federal assume perante a sociedade. no PPA 2004-2007 o megaobjetivo intitulado “Inclusão Social e Redução das Desigualdades Sociais” o desafio de “promover a redução das desigualdades raciais”. Vamos iniciar com a noção de identidade. com a Medida Provisória nº 111.

estas dependem de maneira vital das relações dialógicas estabelecidas com os outros. Ainda Gomes acredita que tanto a identidade pessoal quanto a identidade socialmente derivada são formadas em diálogo aberto. buscando ideais de “embranquecimento”. também na ênfase da diferença” (GOMES. entre outros segregados. Por isso. Trabalhar com a identidade negra se constitui num grande desafio em virtude da constante busca da negação da negritude. etc. possibilitou a renúncia constante para fugir dessa condição. índios e negros. inclusive a negra. A construção dela é gradual é complexa com a síntese de relações iniciando em seu círculo íntimo onde se constitui os contatos com o mundo social e as perspectiva de realidade e de identidades disponíveis. são tão relevantes as lutas identitárias para resgatar a dignidade e direitos dos segregados.rituais. 2005). Assim. A exclusão que essa identidade sofreu no decorrer da história. comportamentos alimentares e tradições populares referências civilizatórias que marcam a condição humana. Fazer parte de um grupo desvalorizado em todos os seus atributos físicos. “A ênfase na identidade resulta. nacionalidade. culturais e sociais não pode ser considera a alternativa mais atraente. são negociadas durante a vida toda por meio do diálogo dialético com o exterior e com interior. Assim. na verdade. uma identidade pode ser adequada para um momento e descartável para outro. No debate político e na pauta de reivindicações a identidade. que podem ser até conflitantes e exigem atenção. Todo o processo identitário é construído dialogicamente. Referente à identidade racial. pois é a partir desse espaço que respondemos as interpelações. é importante perceber a sua construção histórica baseada em estereótipos. 2005. o sujeito com o meio. classes. Na condição de sujeitos sociais podemos admitir muitas identidades. As identidades não são construídas isoladas. geralmente é invocada para ampliar a visibilidade dos grupos excluídos como as mulheres. tempo e lealdade em espaços e períodos diferentes. (GOMES. a negra. Então se reconhecer naquela identidade significa responder as interpelações se sentido pertencente a um grupo social de referência.). Pois são muitas as identidades culturais e sociais que nos definem (gênero. Essa identidade não prescinde a consolidação de uma identidade mais ampla de sujeitos sociais. p 41). 22 . Estas múltiplas e distintas identidades constituem os sujeitos. e que perdura de maneiras semelhantes até hoje.

divisões em raças. entende o conceito de raça como uma construção social que abrange essas diferenças. a compreensão de raças hoje é necessariamente social (OLIVEIRA. que não são raças. e entendem que o fato assim comprovado cientificamente deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais. Essa seria a proposta de uma sociedade desracializada. afirmam que só existe uma espécie humana. vermelhos e negros). As ciências sociais reconhecendo as desigualdades que se estabeleceram e se reproduzem com base no fenótipo. o conceito de raça vem sendo violentamente contestado. como uma estratégia de negar a existência de raças no Brasil. ou solicitações. Peter Fry (2006) entende que o modelo de socialização brasileiro não comporta a racialização. não existe raça biológica. Depois da implementação. Ivone Maggi (2006) acredita que as ações afirmativas aumentam o racismo. ele escreve que raça é um conceito ocidental dos séculos XVIII e XIX. ou a socialização concreta. onde os indivíduos são divididos por suas diferenças. que 23 . Essa proposta esbarra no evidente distanciamento entre a inegável afirmação cientifica de inexistência de raças biológicas com a prática social. a racialização se configura no abandono da identidade mestiça nacional que promove a harmonia entre as diferenças. de políticas públicas voltadas para a reparação dos negros no resgate da dignidade de sua identidade e do acesso igualitário aos direitos políticos e sociais. pois não existem raças biológicas. produzindo laços afetivos e familiares. Estes e outros se delongam em estudos que demonstram a inexistência biológica de “raças” humanas. e assim invalidar as ações afirmativas e políticas redistributivista. assegurar o status quo de discriminação dos negros e hegemonia branca. que caracterizava os povos a partir das diferenças visíveis e os hierarquizavam (os brancos são superiores aos amarelos. ou seja. que em essência.Para a melhor compreensão da identidade racial é necessário entender o conceito de raça. com os vários estudos recentes. pois segrega a sociedade. Para o Movimento Negro o conceito raça não é biológico. mas raça é um olhar político que codifica a história do negro no mundo. não são heterogêneas e no cotidiano convivem juntos. Assim. as políticas de ações afirmativas e políticas universais que reconhecem as especificidades negras. Nessa linha de raciocínio. Joel Rufino dos Santos (1980) faz um estudo sobre o racismo e primeiramente tenta compreender raças. 2001). pois o Brasil não tem um processo de construção de identidade que define as raças separadamente. As ciências naturais. assim.

2005. nas conversas familiares. o gozo ou exercícios. Embora o 24 . é porque raça ainda é o termo que consegue ar a dimensão mais próxima da verdadeira discriminação contra negros. Por que será? Na realidade. a raça ainda é o termo mais usado nas conversas cotidianas. ou melhor.” (ONU apud SANT’ANA. nascem da repetição irrefletida de prejulgamentos que já ouvimos mais de uma vez e finalmente tomamos como verdade. Essas diferenças. levianas e arbitrárias. na mídia.recebem contornos específicos na história. Nilma Gomes acredita que o conceito de raça é o que mais possibilita a compreensão da idéia do racismo para entender a condição de exclusão que os negros são submetidos: Por mais que os questionamentos feitos pela antropologia ou outras ciências quanto ao uso do termo raça possam ser consideradas como contribuições e avanços no estudo sobre relações entre negros e brancos no Brasil. restrição ou preferências baseadas em raça. consideradas como fenômeno biológico. social ou cultural. que tenha como objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento. Para a discriminação acontecer temos o elemento do preconceito como base. negativas. pela religião.45) Da categoria de raça derivam outros conceitos como a discriminação racial que é definida pela Convenção da ONU em 1996 como “qualquer distinção. mas que não surgem do nada e não são individuais (OLIVEIRA. historicamente de vários modos (pela linguagem – “os bárbaros são os que não falam grego” -. Os preconceitos são opiniões prévias. 2004). Essa negação impediu o Estado e a sociedade de agir e buscar alternativas para resolver o problema. A negação do racismo orientou o discurso oficial brasileiro durante décadas e serviu para acentuar ainda mais as desigualdades sociais e as mazelas que recaem sobre a população negra. em condições de igualdade. quando se discute a situação do negro. Esse preconceito também serve de base para o racismo. Em geral. (GOMES. no caso brasileiro. Para Kabengele Munanga (2004) o racismo é um conjunto de práticas e teorias que estabelece uma hierarquia entre as raças. por si só. p. exclusão. dos direitos humanos e liberdades fundamentais do domínio político. do que é o racismo que afeta as pessoas negras da nossa sociedade. cor. Os resultados históricos de subordinação acentuaram as desigualdades que alimentam. executado pela discriminação racial confere aos negros uma condição histórica de exclusão. agrupadas. a construção da identidade racial. 2001). descendência ou origem nacional ou étnica. e da diversidade. pela localização geográfica e pelos traços físicos) produzem efeitos no imaginário social que não são arrancados com a simples afirmação da inexistência de raças. Então o racismo.

pesquisa do IBGE. em 2001.3% do que recebeu um trabalhador branco. edição especial 2007.acompanhamento e análise nº 13. os dados oficiais da população branca e negra obtidos pela PNAD. Houve melhoria nesse indicador. o Estado não assumiu uma política nacional contínua e articulada para a promoção da igualdade racial.7%. 49. como a universalização das políticas sociais produziram efeitos positivos nos índices da população negra. Gráfico 1 Analisando essa diferença o IPEA a julga como inaceitável e apresenta duas hipóteses para sua origem.movimento negro e outros setores da sociedade denunciassem o racismo e oferecessem propostas políticas para sua superação e o enfrentamento das desigualdades sociais. a primeira diz respeito à condição do negro antes de 3 Esse gráfico foi elaborado pelo IPEA no seu Boletim de Políticas Sociais . p. em média.3% do salário de um branco e. O gráfico 13. As poucas ações estatais somadas a outros fatores. 25 . IBGE. em 2005. mostra que um trabalhador negro auferiu. desde e Constituição de 1988. 287 utilizando os dados da PNAD. tão-somente 53. uma vez que em 1995 um negro recebia 48. contudo não encerrou a distância abismal e relativa dos brancos. Atualmente e de maneira gradual as condições dos negros vêm sofrendo sensíveis alterações.

sua entrada no mercado de trabalho e a segunda a discriminação sofrida pelo dentro do mercado de trabalho. op. 287 IPEA.. 286 26 . cresce de forma mais ou menos constante. Ao relacionar os negros com a mesma escolaridade dos brancos. Esse dado contradiz o argumento corrente que justifica a diferença dos rendimentos exclusivamente pela questão educacional. tanto para brancos como para negros.cit. op.. a população negra tem rendimentos menores. p. de duas faixas etárias: jovens e adultos maiores de 14 anos. para negros e brancos.cit. O gráfico 35 mostra a evolução da média de anos de estudo entre 1995 e 2005. a discriminação se configura no mercado de trabalho e também nos acessos e continuidades na educação formal. p. O número médio de anos de estudo. Considerando o início na vida profissional os negros entram com níveis educacionais inferiores devidos ao histórico de discriminação na educação. e na qualidade da mesma. Então. Gráfico 2 Os dados referentes à educação da população adulta também apresentam as sensíveis mudanças nas desigualdades. havendo uma leve tendência em direção à redução do hiato: 4 5 IPEA. O gráfico 24 apresenta que as duas hipóteses se completam na compreensão da discriminação do negro no mercado de trabalho. e jovens de 15 a 24 anos.

O gráfico 46 mostra que a proporção de indivíduos vivendo abaixo da linha da pobreza se reduziu em quase dois pontos percentuais.9 em 1995 para 1. 6 IPEA. o que se observa é que a pobreza cai para todos. 289 27 .7 pontos – o que implica uma taxa anual de 0. A esta taxa.5 em 2005 e a esta taxa a igualdade ocorrerá somente em 40 anos. também se percebe as mudanças que podem ser atribuídas a vários fatores.8. Enquanto a redução para brancos foi de 2. o que quer dizer que a redução foi de 0. em 2005 cai para 1. Gráfico 3 Referente à pobreza. Ou seja. mas que esta redução não foi homogênea entre os grupos raciais.enquanto em 1995 o hiato entre negros e brancos era de 2.27 pontos – para negros esta redução foi de 7.cit. p. a igualdade entre negros e brancos ocorrerá em 67 anos. A diferença se reduziu de 1. mas cai mais para os negros que para os brancos. op. dentre eles destaco os programas de transferência de renda e a pressão do movimento negro em relação à discriminação o que tem impulsionado uma sensibilização das desigualdades no país.. Entre os jovens de 15 a 24 anos.71 ponto/ano.1 anos.1 pontos.

a perspectiva de que isso é um problema do negro. incluindo Florestan Fernandes. a denúncia não pode soar como um simples diagnóstico 28 . 5 anos abaixo das mulheres brancas e 3 anos abaixo dos homens brancos o que contradiz a tendência mundial de mulheres viverem mais que homens. Fundamentados nesses dados surgem as várias denúncias contra o racismo. apresentando que isso era um problema dos brancos que faziam a discriminação e denominou de patologia social. embora necessária. Ou seja. denunciaram a desigualdade no Brasil em contraposição à pretensa democracia racial brasileira um mito que encontrou em Gilberto Freyre (1933). Sobre a expectativa de vida a população afrodescendente brasileira a diferença é de 6 anos em relação à população branca (64 anos negros e 70 anos brancos). Em essência. ainda na década de 50. no livro Casa Grande e Senzala sua defesa mais contundente. Porém. Mulheres negras têm uma expectativa de vida de 66 anos. As denúncias ocorrem em diversos momentos da história. a proposta de Ramos era a participação do negro na resolução dos problemas. um intelectual negro. para a superação das desigualdades. Nesse debate entrou Guerreiro Ramos (1955). Estes e muitos outros dados oficiais explicitam a condição desigual e precarizada da existência do negro na sociedade brasileira. recebendo contornos teóricos específicos. A partir de 1950 muitos estudiosos. esta denúncia. era o protagonismo negro no enfrentamento das discriminações. tem. contudo elas não são o suficiente.Gráfico4 Nessa velocidade os negros alcançariam o mesmo nível de pobreza dos brancos em 52 anos e a pobreza da população negra só seria superada em 65 anos. em sua maioria.

cor serão submetidas a processo criminal. 29 . sujeito à pena de reclusão nos termos da lei”. Essas duas perspectivas tiveram grande influência e repercussão no movimento negro e nos vários intelectuais que problematizaram a questão racial. institucional. nem tão pouco. Estas e outras ações possuem o princípio de não-discriminar. As discriminações indiretas são mais sutis e causam conseqüências mais graves no contexto social brasileiro. censura aqueles que discriminam explicitamente.da condição de exclusão ela deve ser acompanhada com proposições de enfrentamento que tenham os negros como sujeitos da sua história.3 Racismo Institucional As várias denúncias que apresentavam as condições de subalternidade da população negra exigiram uma reflexão mais aprofundada sobre a discriminação racial. Para a discriminação direta o Estado Brasileiro admitiu a postura de criminalizar. Percebeu-se que a discriminação agia de duas maneiras distintas: a primeira de maneira direta. todos os construtores do índice de desempregados negros e. caput XLII. artigo 5º. Hoje ainda existem muitos que se encerram na denúncia e não avançam nas proposições participativas e positivas de combate as discriminações raciais. Todas as pessoas que privarem alguém de seus direitos fazendo qualquer distinção. 1. Os vários índices sociais das desigualdades raciais são produzidos por esse tipo de discriminação. onde os agentes não são identificados. e a segunda de forma indireta. o contexto que fragiliza a educação da população negra. pois personalizava o agente discriminador. restrição ou preferências baseadas em raça. pois os mesmos rompem com a perspectiva nacional hipócrita de harmonia total entre as raças. contudo atingem as discriminações diretas que possuem um agente identificável. o imaginário social brasileiro. exclusão. explícita e facilmente identificável. Capítulo I. O Estado não poderia penalizar todos os causadores da pobreza e indigência negra. coletiva. Além da criminalização por parte do Estado. Surgiam os conceitos de discriminação direta e discriminação indireta. A Constituição de 1988. da não discriminação. construído no ideário de democracia racial. aponta que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível.

Noutros termos: numa sociedade como a brasileira. desfigurada por séculos de discriminação generalizada. 103). Age de maneira complexa no funcionamento das organizações. O debate sobre essa questão aponta que as desigualdades raciais também podem ser constituídas por instrumentos discriminatórios que agem. que atesta a insuficiência de uma atitude estatal negativa. Essa modalidade de racismo age nas instituições sociais. 2003. no modo que elas se estruturam e produzem a naturalização da hierarquia racial.Hédio Silva Junior no seu texto publicado em 2003. Mesmo a discriminação racial se configurando como um fenômeno social perverso e possuindo uma relevância no processo central da dinâmica da produção e reprodução da desigualdade e da pobreza a temática tem dificuldade em ser incluída na agenda política. portanto. à revelia dos indivíduos. ou ação positiva. Vale dizer. incumbe ao Estado esforçar-se para favorecer a criação de condições que permitam a todos se beneficiar da igualdade de oportunidade e eliminar qualquer fonte de discriminação direta ou indireta. O elemento novo nesse conceito é à separação das manifestações individuais e conscientes que caracterizam o racismo e as discriminações raciais combatidas por lei. ou estabelecem condições de igualdade de oportunidade. no livro “Educação e Ações Afirmativas: entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica” sobre as ações positivas e negativas do Estado apresenta o seguinte pensamento: É a história. até certo ponto. O racismo institucional não é uma declaração explicita de discriminação racial e não atua com manifestações e atos abertos. contudo essas ações negativas só alcançam a discriminação direta. como de resto demonstra a inutilidade das declarações solenes de repúdio ao racismo. abstencionista. limitada à mera intenção de não discriminar. programas e serviços não atendendo igualmente os negros e brancos. que terminam por diferenciar privilégios. Essa forma de racismo é denominada racismo institucional ou estrutural. compreendida como comportamento ativo do Estado. A isso se dá o nome de ação afirmativa. no sentido de não discriminar. p. Essas são ações limitadas. O avanço na compreensão das discriminações indiretas. em contraposição à atitude negativa. 30 . (SILVA. e especificamente do racismo institucional pode colaborar fortemente com o combate a desigualdade. pois não restituem. passiva. Nesse contexto é necessário compreender a discriminação indireta em sua complexidade para apresentar propostas de enfrentamento que respondam as demandas históricas. A criminalização do racismo é uma expressão da ação negativa do Estado que possui a intenção de não discriminar. não é suficiente que o Estado se abstenha de praticar discriminação em suas leis.

cultura. práticas e comportamentos discriminatórios adotados no cotidiano de trabalho das instituições. de forma mais ampla. esse conceito de racismo institucional permite compreender. a produção e reprodução das desigualdades raciais brasileiras. do preconceito ou dos estereótipos racistas. O IPEA no seu Boletim de Políticas Sociais nº 14 define racismo institucional de maneira bem interessante. origem racial ou étnica. pois lança as desigualdades para um debate político e social mais amplo. (pp. ao mesmo tempo possibilita a retomada dessa questão para as suas dimensões institucionais. 31 .216-217). Na compreensão das questões raciais dentro das políticas de assistência social a incorporação desse conceito auxilia na elucidação das práticas e das decisões políticas. produzindo de maneira difusa a desigualdade. inclusive na implementação de políticas públicas. bem como as suas difusas expressões no cotidiano das instituições.As conseqüências dessa modalidade de racismo extrapolam as relações interpessoais e revela-se no contexto organizacional. em larga medida. os quais são resultantes. Assim. Ela manifesta-se em normas. políticas e sociais. O racismo institucional pode ser definido como o fracasso coletivo das organizações e das instituições em promover um serviço profissional adequado às pessoas por causa da sua cor.

Porém esse debate necessita ser mais bem precisado. serviços e direitos sociais. o modo como se entende a estrutura social capitalista vigente. aqueles que dela necessitarem deveriam ter acesso indiscriminado. a grosso modo. geracionais. Já a universalização seria a escolha pela equidade e uma resposta redistributiva as desigualdades sociais. O debate sobre a focalização ou a universalização das políticas sociais se realiza em pontos conflituosos e necessariamente contraditórios que definem. Nesse eixo. pois busca incluir os cidadãos no universo de bens. ou seja. a visão de justiça social e a composição da sociedade. Na prática governamental das políticas de assistência social. os projetos. direitos e serviços que são patrimônio de todos (BOSCHETTI. explicitando os conceitos e princípios de cada ação. sem recortes raciais. que desconsideram o princípio da equidade e não assegura o direito a todos. deve ser estudado para não incorrer em 32 .CAPITULO II O DESAFIO DAS ESPECIFICIDADES NEGRAS NAS POLÍTICAS DE ASSISTÊNCIA SOCIAL 2.1 Universalização x Focalização O princípio da universalidade garantido legalmente direciona a política de assistência social para a redução das desigualdades sociais. especialmente a definição de justiça social sob cada ótica. Em linhas gerais o debate se pauta em um binômio simétrico onde a focalização se apresenta como a escolha pela eficiência e conseqüentemente pelo residualismo. Considerando que o desemprego e subemprego acontecem com maior incidência na população negra. configurados em direitos sociais. que vem sendo usado para escamotear as desigualdades raciais. 2003). 2003). de gênero. bens e serviços. programas e serviços têm realizado seu atendimento reforçando e resgatando o primado liberal do trabalho que diminui a possibilidade de garantia de renda e bemestar não associado ao exercício do trabalho (BOSCHETTI. aptos ou inaptos ao trabalho. conseqüentemente interferindo no acesso aos patrimônios de todos. inserir essa especificidade racial contribui com a discussão do princípio da universalidade. pois em essência se configuram em políticas seletivas e focalizadas. pois evidentemente destina-se aos cidadãos que não tiverem acesso aos bens. embora não proporciona indiscriminadamente a todos os cidadãos pobres e ricos.

erros nessa simetria (universalidade – equidade . dependendo das concepções de justiça social. seja em termos das políticas econômicas – notadamente políticas fiscais que visam preservar o nível da demanda efetiva –. Theodoro e Delgado se inserem nesse debate na defesa da universalização e no combate a focalização: Há. nessa lógica existem recompensas e punições as escolhas mais ou menos responsáveis. ao contrário. focalização – eficiência – residualismo). pois entende que as políticas universais podem assumir mais de um modelo. o mercado não está imune à ação regulatória do Estado. pois entende que as chances e a construção social são marcadamente desiguais. 2003. p. portanto. políticos e de cidadania.04). seja nas políticas sociais – universalização do acesso aos serviços públicos nas áreas de educação. Na ótica universalista. Kerstenetzky (2005) amplia esse debate. “a justiça é elaborada como uma combinação complexa de valores. confere ao Estado a atribuição de prover uma rede de proteção social. um eixo explícito que confere um dado direcionamento à política social de cunho neoliberal. p. Assim os cidadãos teriam suas necessidades asseguradas fora da lógica do mercado. garantidos pelo estado de bem-estar social. a vertente que admite a existência de incertezas nos mercados. um seguro contra incerteza. Nessa perspectiva. A concepção redistributivista de justiça social acredita que o contexto social tem uma relevância significativa. respostas aos méritos individuais. 2005) A outra concepção. A idéia de justiça “mercadocêntrica” atribui ao mercado à função de distribuição das vantagens econômicas. Ampliando essa concepção mercadocêntrica. Nessa concepção as políticas universais nos agrupariam em uma comunidade de iguais em termos de direitos sociais. 124). redistributivista. 2005. o marco da ação do Estado em termos de políticas sociais estaria ancorado na perspectiva de um mercado funcionando livre das amarras jurídicoinstitucionais e da política social como uma espécie de ação complementar à capacidade alocativa do mercado. Assim o Estado assume um papel importante na redistribuição das vantagens socioeconômicas. seguridade social e mercado de trabalho (THEODORO & DELGADO. onde as oportunidades foram diferenciadas por 33 . Essa seria uma idéia de política universal pautada em mínimos e centralizada no mercado (KERSTENETZKY.redistribuição. mas também a liberdade política e a igualdade econômica” (KERSTENETZKY. a de mercado ou a redistributivista. respondendo não apenas a eficiência e a liberdade econômica.

ricos e pobres. decididos por estudos sistemáticos sobre as reais necessidades do problema que se espera solucionar. por exemplo. Nessa concepção as políticas que queiram assegurar os direitos a todos podem fazer uma combinação com políticas focalizadas e universais. As prioridades servem como instrumento de foco. como ação reparatória. educação e saúde universais. na medida em que diminuiriam as distâncias que normalmente tornam irrealizável a noção de igualdade de oportunidades embutida nesses direitos (KERSTENETZKY. Um exemplo são as políticas universais de educação que não conseguem eliminar o distanciamento entre negros e brancos. Se as políticas fossem universais 34 . a focalização como instrumento de aperfeiçoamento das políticas universais tendem (claro se caminhássemos para a justiça social redistributivista) a desaparecer. aqueles direitos são letra morta ou se cumprirão apenas em um horizonte temporal muito distante. que gere eficiência. A focalização nesse sentido complementaria a universalização.vários aspectos engessando as escolhas e o acesso. ou não ter condicionalidades. de desiguais oportunidades de realização de gerações passadas que se transmitiram às presentes na perpetuação da desigualdade de recursos e capacidades. ou seja. que não devem se limitar nelas mesmas. Boschetti (2003) chama estas condicionalidades como prioridade. Em uma sociedade que existe um grande déficit universal a focalização torna-se. afeiçoando-se à sua lógica. primeiro. pois o direito deve ser assegurado a todos. Em certo sentido. Assim a prioridade não seria associada à seletividade e sim um instrumento de gestão que atenderia prioritariamente. como complemento. como. necessária para restituir a grupos sociais o acesso efetivo a direitos universais formalmente iguais . por exemplo. A focalização na perspectiva redistributivista passa a ser uma possibilidade da gestão em ter um foco.acesso que teria sido perdido como resultado de injustiças passadas. p.08). o mercado não tem capacidade de produzir adequadamente justiça social (KERSTENETZKY. Há um sentido possível de focalização. Portanto. focalizados nesses grupos. cada vez mais importante. os mais necessitados daquela ação. em virtude. pois o residualismo é resultante de uma concepção mercadocêntrica de justiça social. 2005. A focalização então pode assumir o papel de ações reparatórias. essas ações complementariam políticas públicas universais justificadas por uma noção de direitos sociais. Esse foco pode. 2005). Sem a ação/política/programa. É certo que quanto mais equânime for à sociedade menos relevante serão as políticas focalizadas. onde a universalização ou a focalização é elemento menor na opção em ter como verdadeira “política social” a política econômica que em longo prazo iria “incluir a todos”.

suas necessidades. assistência social e previdência) esse princípio de articulação. elemento que confere características de universalidade as políticas sociais. se faz necessário legitimar enfoques de gênero e de cunho anti-racista e por reconhecimento de singulares perspectivas étnico-raciais nas políticas de cunho universal. não sendo diferente para a política de assistência social é realizar uma ação integrada para responder as demandas sociais. um de garantir os direitos a todo o universo previsto na LOAS. Mary Garcia Castro escreveu um artigo sobre as políticas da juventude. Embora Boschetti estivesse falando da articulação com as demais políticas sociais. não são somente por estruturar máquinas político-administrativas no plano do nível executivo de governo (as secretarias especiais). A articulação entre as políticas de ações afirmativas e as políticas de assistência social é uma proposta fundamentada no princípio de transversalidade e universalidade. dialeticamente. assim como defender que mais do que ter mulheres e negros contemplados em distintas políticas como beneficiários. Em outro sentido. por exemplo. sistemático. Ela acredita que universalização só é coerente quando compreende as especificidades de cada grupo. 2004. Assim o racismo não pode ser visto como matéria exclusiva da Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (SEPPIR). especialmente as definidas pelo modelo de proteção social brasileiro (as políticas de saúde. então seriam universais e focalizadas. precisa ser incorporado nas ações de enfrentamento ao racismo. os que estão dentro do critério e das categorias estabelecidas. A questão da prática integrada do Estado é uma discussão que vem ganhando espaço na teoria que orienta a gestão e a administração pública. especialmente a racial. (CASTRO. sistema. mas também dialoga com as políticas raciais e de gênero. Debatendo sobre as políticas públicas de identidades e as ações afirmativas. a universalidade dá um caráter de articulação com as demais políticas sociais. a universalidade assume dois sentidos. produzindo uma rede. p 02) 35 .2 Articulação nas Políticas de Enfrentamento ao Racismo Um grande desafio para o Estado. de proteção social contínuo. Se a discriminação racial estiver presente nas políticas de assistência social não é possível pensar em igualdade de acesso ao atendimento conseqüentemente em universalidade. Os desafios enfrentados pelo movimento feminista e de mulheres como pelo movimento negro. mas garantir que os movimentos sociais. por conselhos. 2. Segundo Boschetti. estejam representados na formulação e acompanhamento dessas políticas.contemplariam todos e todas.

2004. do setor empresarial e assim por diante. de distintas populações. O desafio da implementação e da concretização de políticas exige o compromisso dos vários atores sociais do conjunto do governo. Ou seja.O enfoque identitário nas políticas públicas atende um conjunto de necessidades dos grupos específicos que seriam desconsideras nas práticas universais tradicionais. e outra que atinge especificamente as necessidades negras visando à superação das desigualdades e das iniqüidades que acometem a população negra (exemplo: ações voltadas para os quilombos). assim como buscas por vivencias e subjetividades projetadas que conferem formas de ser do povo negro. sem contestar os parâmetros de referencia para tal igualdade. ao novo. detalhe para quem seus programas são destinados. (CASTRO. p. se se circula apenas na quantificação de necessidades qualificadas por tipo de população. Os negros.06). buscase mais que o direito de ser igual. linguagens próprias. as políticas sensíveis às necessidades e às singularidades das identidades. mas ao mesmo tempo reivindica a promoção de programas e ações específicas para combater as desigualdades produzidas pelo racismo histórico. as políticas gerais. sem cara. Por um enfoque racial tanto se identifica bases discriminatórias quanto construções históricas de rebeliões em distintas dimensões. Comum forma de ajeitar o velho. cada entidade. sujeitos de direitos. Não basta pedir que em uma matriz. Nessa linha de ação não basta apenas pensar em meras reparações sem protagonismo das populações envolvidas. Castro apresenta essa idéia realçando o rompimento com as práticas políticas velhas e possibilitando o novo: Não basta questionar políticas universais porque essas não seriam sensíveis a necessidades focalizadas. alem de cotas como forma de diminuir desigualdades. são duas vertentes de atuação política no enfrentamento das discriminações raciais: uma no seio da universalidade para que as políticas não privilegiem os brancos e entendam as desigualdades relativas. sua historia e o direito à diversidade cultural e religiosa. Por outro lado é direito dos desiguais alcançarem a universalidade por meio de políticas afirmativas com enfoques identitários no plano de alterar desigualdades. cada ministério. Nessa busca de igualdade e reconhecimento as políticas devem ser orientadas para a redistribuição e para alterar as desigualdades. Ou seja. A SEPPIR tem acompanhado os vários Ministérios no desenrolar das várias políticas para que se tenha uma interface com as necessidades específicas dos negros em cada ação. da energia criativa da sociedade civil. Por essa razão a SEPPIR. pedem o reconhecimento de suas diferenças identitárias. Enfatiza-se que as políticas de ação afirmativa devem ter orientação redistributiva. 36 .

controle e participações intensas nos anos 90. diretrizes e indicativos de programas e ações que têm como objetivo assegurar êxito e perenidade à implementação de programas e medidas. mas. destinadas à promoção da igualdade racial. especialmente o Movimento Negro. contudo precisamos refletir sobre a questão racial no conjunto dos programas. mas é pensada como a presença de direitos sociais. projetos e serviços. 2004. No âmbito da política de assistência social. 2. Ao Estado cabe à responsabilidade e garantia dos direitos assegurados na Constituição. fez parte dessas lutas políticas. instituições públicas e privadas e movimentos sociais. tornando maior o abismo da distribuição das riquezas. O reconhecimento dos direitos sociais e políticos e a compreensão das funções e papéis do Estado possibilitaram o acompanhamento. sobretudo administrativas. na sua elaboração e implementação. A partir de sua implementação. na elaboração de sua Política. evidenciando a identificação de contradições que culminam na ampliação das desigualdades sociais.responsável pela coordenação das ações governamentais optou. na qual a democracia não é confundida apenas como um tipo de governo. identificouse que tais conquistas foram caracterizadas pela presença e constante participação. no caso. tanto dos setores progressistas.742/1993). sociais e democráticas. p. A política da igualdade racial consubstancia-se em um conjunto articulado de concepções. assistência. educação e outras. 37 . e o descreve nos seguintes termos: A Constituinte que tivemos nos anos oitenta foi essencial para o processo democrático.3 A Participação e Controle Social nas Políticas de Assistência Social As últimas três décadas foram marcadas por conquistas políticas que recolocaram os direitos sociais em pauta. significa também a ampliação da noção de democracia. Na política de assistência social esse diálogo já se materializou em um programa de atenção as necessidades específicas dos quilombos. econômicos e culturais (CHAUÍ. Marilena Chauí apresenta esse período como essencial para a democracia. Esse é um grande desafio da transversalidade racial na assistência social. 1). como dos conservadores sob a égide do neoliberalismo. na implementação das políticas de saúde. esse período foi marcado pela elaboração da Lei Complementar como a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS-Lei 8. pela realização de um amplo diálogo com diferentes instâncias do Governo federal.

a estratégia apontava para a possibilitava de uma participação maior da sociedade civil. que a Constituição de 1988. e os não-lucrativos. orienta a organização das políticas de seguridade social. Nunca poderemos chegar a um ponto que nos permita dizer que a democracia está acabada. O período é caracterizado pelo desmonte fiscal e orçamentário (CHAUÍ. ao mesmo tempo em que grupos lutavam pela implementação da cidadania e a ampliação dos espaços democráticos. tendo como base o objetivo da descentralização política. como as empresas. revelou um esvaziamento da democracia. A democracia é um processo que devemos conceber como em permanente construção (COUTINHO. 38 . esse objetivo. sobretudo porque é um permanente desafio. De acordo com o estabelecido na Constituição. a democratização é um valor universal. É. Assim. 131). visando o caráter democrático da gestão. demonstrando a incapacidade do Estado em dar respostas às necessidades sociais básicas. pressupondo que o governo local é mais sensível e vulnerável as pressões populares. entre outros. o que acaba impondo a busca de alternativas ao enfrentamento as diversas expressões da questão social e a luta pela efetivação dos direitos sociais. dissemina-se um discurso de que a sociedade também assumir a sua parte na por meio da participação solidária. como as ONGs e entidades sociais. a proximidade do governo local às reais necessidades da população. culturais e políticas no quadro de uma institucionalidade em permanente expansão. Não podemos esquecer que o contexto nacional nesse período era a grande influência do neoliberalismo em favor da redução do gasto social público. 2006) e pela ampliação da população excluída do acesso a bens e serviços. Ainda assim. próprias do modo de produção capitalista. de expressar seus anseios e de obter efetivamente conquistas sociais. envolvendo tanto os setores lucrativos. vem se configurando como uma estratégia para escamotear a pobreza e redistribuir a responsabilidade do enfrentamento da questão social com o Governo Local. 2000. os Municípios e a sociedade. Paralelamente. p. bem como a fonte de sua criação. Entretanto. nesse contexto. também. Essa contradição e dialética é destacada por vários autores: Só pode haver democracia para as grandes massas da população se elas forem capazes de se organizar. a estratégia tinha implícito em seu enunciado. Análises dão conta de que o governo local não tinha capacidade econômica e política de resolver os problemas gerados pelo acirramento das desigualdades sociais.O debate e a participação contraditória no presente processo. Essa perspectiva está relacionada à diminuição da intervenção do Estado e da redução das políticas sociais.

As informações aos usuários também devem ser claras e acessíveis e orientadas para a autonomia. na administração do Fundo. Ela é essencialmente dialógica. que o exercício da gestão democrática seja repleto de conflitos e contradições. 11-12) No contexto de gestão democrática a participação tem o objetivo de aproximar as reais necessidades da sociedade com a formulação e implementação das políticas. pois. situa-se a despolitização da própria questão social e a ameaça de ver frustrada a universalização e a efetivação de direitos sociais legalmente adquiridos. p. nas orientações as entidades. admitindo o potencial dos vários membros da sociedade. e ampliar o exercício da democracia na medida em que suas especificidades serão compartilhadas. Deve ser um valor incorporado ao cotidiano da Gestão. Essa idéia é retratada por Nogueira. É importante. 2006) Na política de assistência social.Uma consideração importante sobre este discurso é que por trás do deslocamento da esfera pública para a esfera privada. valorizando a ação dos indivíduos como sujeitos coletivos de sua própria história. geralmente motivados por seus interesses específicos. no manuseio de sistemas e recursos. considerar a democratização da gestão como o lugar onde se negocia o consenso entre os diversos atores sociais. na fiscalização dentre outros. a democratização da gestão não pode ser entendida como o simples preenchimento dos espaços institucionais destinados à participação. 2006) Na perspectiva os movimentos sociais não é essa participação que se propõe. ou seja. Assim. Entende-se. e transcorre em ambientes éticos e políticos povoados de pessoas. mas também possibilita publicizar os interesses em disputa. mas se abre para o universo organizacional como um todo. Os Conselhos Federal. (CHAUÍ. marcada pelas contradições neoliberais. que podem vir a ser substituídos pelo dever moral de atender à pobreza. (NOGUEIRA 2004. Aponta-se. nessa conjuntura. é uma proposta de democratizar a gestão como já assinalado. desejos e interesses que não podem ser simplesmente 'gerenciados'. quando apresenta alternativas para a democratização do Estado: Por se dispor a dirigir. Estaduais e Municipais de Assistência devem ser respeitados nas deliberações. coordenar e impulsionar a formação ampliada de decisões. a participação diz respeito à partilha da responsabilidade com o Governo. 39 . a gestão democrática opera em um terreno que não se esgota no administrativo. Por meio de espaços coletivos como os conselhos de políticas. o movimento negro e os representantes dos negros em outras esferas possuem elementos fundamentais para aperfeiçoar as políticas. (CHAUÍ.

à sua qualificação permanente sobre as questões relacionadas à política pública. como se efetiva o exercício da autonomia dos conselhos sociais em relação aos governos. e nas demais instâncias participativas. acompanhamento e monitoramento das políticas. da gestão e dos conselhos. A partir da Constituição de 1988 foram instituídos os conselhos sociais com tais funções. existe um espaço destinado à participação da população que. deve incorporar a diversidade para o enfrentamento das desigualdades e da discriminação. promovendo e assegurando o pluralismo. ainda se constitui um desafio para o processo democrático. assim como assinalamos anteriormente. estaduais e municipais de caráter deliberativo e composição paritária. exercendo pressão política para a sua real efetividade. efetivo. Segundo Munanga (2004) o pluralismo é uma resposta política à diversidade. a participação prevista. Contudo. entretanto. Nesse sentido o movimento negro deve somar-se aos esforços dos demais grupos para controlar a implementação da política de assistência social. eficaz e com qualidade. A LOAS instituiu os conselhos nacional. a fiscalização sobre como se constrói a representação da heterogeneidade dos movimentos sociais. A participação da população e o controle social são coisas distintas que dependem do grau de institucionalização que a política confere. mas também se investe na formação 40 . Porém. Sendo assim. de modo a assegurar o exercício eficiente. explicitando a vontade dos legisladores e da sociedade em afirmar a transparência e representação dos movimentos de base nos processos de elaboração.se organizou de forma participativa e descentralizada com a criação de conselhos atendendo o disposto na Constituição Federativa do Brasil de 1988 nos artigos 194 e 204. O direito de ser ativo no exercício da cidadania reivindica por representações e organizações políticas no Estado. a partir da Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS . A assistência social. A composição dos conselhos integrados por representantes da sociedade civil é um avanço na gestão pública brasileira. como oportunidades e importância da representação dos negros nos Conselhos. como é o caso das representações dos segmentos nos conselhos. determinando que para receber recursos federais os municípios devam ter conselhos e planos municipais de assistência social.assim. desvinculado da instituição. assim como o governo. não deve excluir a efetivação de um controle social e democrático. essa proposta esbarra no distanciamento do Movimento Negro em relação à da política de assistência social.

Participação é mais do que estar representado em órgãos colegiados. É dispor de conhecimentos e recursos para poder exercer controle social de políticas. conselhos. quer seja para negros. Desta forma. Contudo é necessário cautela com a retórica. ou ser ouvido sobre uma determinada política ou ação legal. e esse controle deve ser exercido mesmo que se trate de um Estado de bem estar social ou gestionado por um governo companheiro. no empoderamento para o acompanhamento. controle social de tais políticas. 41 . elemento vital na luta política por justiça social.de sujeitos de direitos. um dos construtos básicos de uma política de identidade. é participação. mulheres ou jovens. por exemplo. que é facilmente observada nos debates sobre esse conceito.

FAT. e foi regulamentada com a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas) em 1993. sexo. em um processo de resgate da cidadania de seus usuários e inclusão social de suas famílias. Atualização do Mapa de Focos de Trabalho Infantil e Apoio Técnico à Escola do Futuro Trabalhador. tanto os instrumentos normativos quanto a gestão tem se esforçado para assegurar essa universalidade. Ações socioeducativas para Crianças e Adolescentes em Situação de Trabalho. mas se deparam com necessidades específicas de ações direcionadas. Fiscalização para Erradicação do Trabalho Infantil. Para isso. Na prática. concessão de Bolsa a Crianças e Adolescentes em Situação de Trabalho. 42 . O PETI tem como objetivo erradicar todas as formas de trabalho infantil no País. Para analisar a problemática racial nesse programa é preciso entender o que estruturou a concepção contemporânea da política de assistência social. ele é composto por sete ações: apoio aos Fóruns de Erradicação do trabalho Infantil. O MDS implementa esse Programa articulado com o Ministério do Trabalho e Emprego – MTE. Publicidade de Utilidade Pública. adicionado à oferta de Ações Socioeducativas e de Convivência. a Subsecretaria de Direitos Humanos. Basicamente a Loas e o ECA apontam para a universalidade das políticas assistenciais.CAPITULO III ANÁLISE SOBRE A PROBLEMÁTICA RACIAL NAS POLÍTICAS DE ASSISTÊNCIA SOCIAL 3. A política de assistência social foi incrementada após a Constituinte de 1988. religião dentre outros. manutenção da criança/adolescente na escola e articulação dos demais serviços da rede de proteção básica e especial. o Fundo Nacional de Assistência Social FNAS e o Fundo de Amparo ao Trabalhador . adolescentes e jovens sem discriminar por cor.1 Programa de Erradicação do Trabalho Infantil -PETI De acordo com o site oficial do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS) o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI – consiste na transferência direta de renda do Governo Federal para famílias de crianças e adolescentes em situação de trabalho. Assim as ações públicas devem ser orientadas para todas as crianças. Outro marco importante para refletir sobre as questões voltadas ao PETI é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que foi aprovado três anos antes da Loas. em 1990.

Esse quadro foi significativo para brancos e negros. atendendo a igualdade formal estabelecida na Constituição de 1988. Essa redução pode ser atribuída a vários fatores como a universalização e ampliação da rede de ensino.87 milhões de crianças de 10 a 14 e de 209 mil de 05 a 09. sendo que suas concepções universalistas e focalizadas parecem razoavelmente compreensíveis. possuem intenções verdadeiramente importantes. verificamos que não existe nenhum dispositivo no ECA. É importante salientar os esforços do Governo e da sociedade em reduzir a participação de crianças e adolescentes no mercado de trabalho. De 1993 a 2003.022 correspondendo a uma redução de 67%. para 78. Já em 2003 esse número reduziu significativamente para um pouco menos de 1. Acreditam que o PETI. O tema das desigualdades raciais. crianças brancas de 10 a 14 anos reduziram sua participação no mercado de trabalho de 1. Contudo. na luta por não discriminar. hoje incorporado ao Programa Bolsa-Família. Em 1993 tínhamos 3. Essa ausência pode ser explicada pela busca de igualdade. bem como para determinadas atividades econômicas (canaviais.77 milhões de crianças de 10 a 14 anos. quando refletimos sobre uma atenção aos negros e aos índios. carvoarias. e mais de 527 mil. dentre outros). elaborados pelo IBGE (ano). como pode ser observado nos quadros 5 e 6. em 2003.63 milhões para 43 . que pode não passar de uma elegante forma de afirmar que as assimetrias serão preservadas indefinidamente. no PETI e na LOAS que retratem essa condição desigual. de 05 a 09 anos.Marcelo Paixão e Luiz Marcelo Garvano (2005) salientam o caráter focalizado do PETI. Eles sugerem que houve uma aceitação ideológica do acerto direcionado dessa medida. embora a gênese seja orientada para combater todo e qualquer trabalho infantil: Os autores chamam a atenção sobre a orientação do Programa para uma faixa etária determinada (de 7 a 14 anos). De acordo com IPEA sistematizando os dados do IBGE sobre o trabalho infanto-juvenil revelam uma redução considerável na quantidade de crianças ocupadas no mercado de trabalho. do preconceito e das discriminações sofridas pelos negros não fazem parte das preocupações dos principais instrumentos normativos e evidentemente fica fora do foco das ações públicas universais ou focalizadas. Mais uma vez nos esbarramos na mera consagração do princípio formal da igualdade de todos perante a lei. Quando analisamos separadamente os grupos raciais percebemos que em 1993 haviam aproximadamente 235 mil crianças brancas de 05 a 09 anos e esse número reduziu.

5%. reduziu-se de 24. Brasil 1993-2003.176 para 130 mil. equivalente a uma diminuição percentual de quase 55%. ocorreu redução na taxa de participação de jovens de 10 a 14 anos. de ambos os grupos raciais. entre os negros. entre 1993 e 2003. ______________________________________________________ Gráfico 5 – Número de Crianças Brasileiras entre 5 e 9 anos Ocupadas no Mercado de Trabalho.8% para 1%. 44 . em percentual mais de 47%.3% para 13. No mesmo período. no mercado de trabalho.7%. e de 3. a taxa declinou de 18.741 mil. Entre os brancos. no período de 1993 a 2003. representando uma diminuição percentual de mais de 55%. Considerando as crianças negras de 10 a 14 anos essa redução foi de 2.1%.13 milhões.14 milhões para 1. entre as negras.5% para 1. reduziram de 293. o percentual de crianças de 5 a 9 anos ocupadas reduziu-se de 2. entre as crianças brancas. Já as crianças negras de 05 a 09 anos. Quando utilizamos o total de crianças brasileiras.8% para 9.

Brasil 1993-2003 Estes números podem ser considerados animadores. e em 2003 mais de 63%. Fica evidente uma maior participação de crianças negras no mercado de trabalho. A diferença na participação no mercado entre crianças negras e brancas de 05 a 09 anos é ampliando. quando relacionamos os grupos raciais percebemos que em relação aos brancos essas reduções são mais contundentes. e nem mesmo está presente nos instrumentos normativos que orientam esse Programa. Outro desafio aparece quando analisamos as condições relativas de negros e brancos. de 10 pontos percentuais para 26. 45 . E as crianças negras de 10 a 14 anos. ampliando a diferença de 14 para 20. não existir nenhuma ação específica. representavam quase 57%. O impressionante é que diante desse quadro de 63% de crianças de 05 a 09 anos e 60% de crianças de 10 a 14 anos serem negras.______________________________________________________ Gráfico 6 – Número de Crianças Brasileiras entre 10 e 14 anos Ocupadas no Mercado de Trabalho. contudo. já em 2003. O mesmo acontece com crianças negras de 10 a 14. Em 1993 as crianças negras de 05 a 09 anos representavam mais de 55% das crianças ocupadas. mas ainda temos crianças em trabalho infantil. e embora esteja em curso uma redução significativa de sua participação no mundo do trabalho em ambos os grupos raciais. o que exige um grande desafio para efetivar a erradicação da sua participação no mercado de trabalho. nesses 10 anos. 60%. compondo a maior parte do público alvo do PETI. em 1993.

Algumas análises consideram um programa assistencialista. o programa reduz esse custo e aumenta o incentivo para que as famílias mantenham suas crianças por mais tempo no sistema escolar. dentre outros. O principal custo para uma família pobre é a renda não auferida pelas crianças no mercado de trabalho no período por elas dedicado ao estudo. O breve artigo de José Jorge Camargo. O PBF se apresenta como referência da política social do Governo Lula. titulado “O Bolsa Família é um Programa assistencialista?” 2006. Terceiro. Segundo. poderá ser extremamente eficaz na redução da pobreza e da desigualdade no futuro. ultrapassando a mais de 11 milhões em 2008 de beneficiários. tanto políticos quanto sociais. Neste Programa existe condicionalidades para a transferência de renda. E quarto. a taxa de retorno social é maior que a taxa de retorno privada da educação para esse grupo da população.2 Programa Bolsa Família O Programa Bolsa Família tem sido matéria de muitas análises e publicações. As crianças que tem suas famílias beneficiadas precisam cumprir o calendário de visitas aos postos de saúde e estarem matriculadas na escola pública. Para os defensores dessa política a condicionalidade é o que afasta a definição de assistencialismo e diferencia o PBF das demais políticas de transferência de renda. Outras consideram um programa de investimento nas crianças das famílias pobres e. O site oficial do MDS apresenta quatro pressupostos para a implementação do programa: O primeiro entende que as decisões quanto à educação das crianças são tomadas por seus pais com base em um cálculo de custos e benefícios. o custo de permanecer na escola é relativamente mais alto para os pobres. Ao condicionar a transferência de renda à permanência da criança na escola. o objetivo do Bolsa Família é reduzir o custo da educação para as famílias beneficiárias. Esse assédio se dá especialmente pelo grande contingente de atendidos. que a única forma de gerar crescimento sustentado de longo prazo. 46 . pois seus resultados. que a principal fase de aprendizado é entre a concepção e os sete anos de idade. estadistas. publicado no site do MDS possui o seguinte pensamento sobre os pressupostos: Com base nos pressupostos. Isso significa que o investimento em educação tem taxa de retorno social tão mais elevada quanto mais cedo é realizado.3. como tal. têm despertado o interesse de intelectuais. reduzir a desigualdade e a pobreza é pela melhoria na distribuição de educação da população.

sendo que 42. porém um pouco mais de 2 milhões dessas pessoas ainda não são beneficiárias. ou seja. de 29.Como ressaltamos nos capítulos anteriores. Contudo.02% são pretos. Sabemos que a identidade negra é muito mais do que ser pardo ou preto. Em relação aos brancos 26. 75. considerando aqueles que atendiam aos critérios de até ½ salário mínimo per capita. aquela com renda domiciliar per capita abaixo de ¼ e ½ salário mínimo. Vamos analisar a problemática racial. onde pode ser identificado que. estabelecida no valor de R$ 120. pois 80% das famílias que atendem os critérios são 7 No dia 01/03/2008 entrou em vigência o salário mínimo no valor de R$ 415. nesse universo de 11 milhões de beneficiados.5% estão dentro dos critérios. 47 . das quase 58 mil famílias beneficiadas no Acre. 59.00. A Caixa Econômica Federal disponibiliza.1% de negros. e 4. Assim.00 por meio da Medida Provisória nº 421/2008. três salários mínimos por família. foram efetivados o pagamento de 57. em seu site. considerando que a discriminação sofrida pelos pardos é da sua “parte” negra. 79. segundo faixas etárias selecionadas e raça ou cor de 1995 a 2005.3 milhões de pessoas estariam aptas a fazer parte do Programa. De acordo com os dados do IPEA. encontramos no último ano (2007). Realizando uma relação simples entre esses dois dados. qual seja. os negros são de longe.953 benefícios. considerados os critérios de renda. tomando como amostra quatro estados que foram premiados pelas práticas estaduais de cadastramento (cadastro único): Acre.7% da população são pardos. então essa problemática atinge com mais intensidade as famílias negras.2008 8 O IBGE adota a soma de pardos e pretos para compor o mesmo grupo racial – negros. (diagnóstico obtido depois da atualização do cadastro único). identificando a população que atende aos critérios de renda fixados para acesso aos programas e serviços da política de Assistência Social.9% são negros8. e ainda. entre aqueles com ¼ de salário mínimo per capita. 80% delas deveriam ser negras. os critérios de participação do Programa Bolsa Família exigem renda máxima per capita um pouco acima de ¼ de salário mínimo7. e embasados na idéia de representatividade. Ceará e Tocantins No Acre. Contudo a auto declaração destinada à cor contribui significativamente para construir um retrato social e racial do Brasil. Rio Grande do Norte. Outra exigência consiste em ter crianças em idade escolar matriculadas. no mês de junho de 2008. a folha de pagamento do Programa Bolsa Família. considerando que 20% incluem-se entre aqueles com até ½ salário per capita e. os mais pobres. 13.1 % com ½ de salário mínimo per capita e 17% com ¼ de salário mínimo per capita. levando-se em conta a metodologia utilizada pelo IBGE.02. é uma opção política.

27%. e 2. Numa certa medida a falta desse dado é pela composição mista das famílias brasileiras e em outro pela ausência dessa preocupação na Gestão do PBF.5% dos que atendem os critérios. A grande participação identificada exige um olhar diferenciado. 60. Referenciado nos dados é necessário ressaltar a ausência da especificidade relativa à problemática racial nos elementos normativos da política de assistência social. mas esse dado não está disponível.08% e brancos 33. mas reapresenta o desafio das especificidades negras na política de assistência social. No caso do PBF. sequer cita o negro. buscando a igualdade de todos. Usando a representatividade. ou as discriminações e preconceitos 48 . pois é necessário conhecer de forma mais detida e pormenorizada demanda de todas as políticas públicas para facilitar a proposição e implementação de ações que atendam os objetivos prefigurados na Constituição de 88. Lá 302. Nos quatro estados mencionados: Acre. 190.064 deveriam ser famílias negras. o texto que o apresenta no site oficial do MDS. Os números reforçam o quadro de exclusão das famílias negras.27%. O cadastro único do Ceará apresentou a seguinte composição: pardos 64. No Rio Grande do Norte. são pardos. para manter a proporcionalidade da demanda efetiva com a demanda realizada quase 603 mil famílias deveriam ser negras. Ceará e Tocantins tivemos uma grande participação negra no público alvo. no total 62.3 mil famílias. pretos 2. o projeto em suas versões. dessas 66. Se aplicássemos a representação para mantermos a relação entre a demanda efetiva e a demanda realizada. não só perante a lei. Os beneficiados em junho de 2008 pelo PBF somam 107. índices apontados segundo atualização do cadastro único. aproximadamente 75% dos beneficiados seriam negros. já apontada nos índices de pobreza. Para verificar essa representatividade seria necessário saber quantas famílias negras são efetivamente beneficiadas no PBF.43% são pretos.93% são negros.negras. Ou seja. mas o acesso a todos os direitos sociais. variando de quase 63% a 80% dos cadastrados.35% deveriam ser negras para manter a proporção de pessoas adequadas aos critérios no recebimento do benefício. Rio Grande do Norte.023 famílias foram beneficiadas em junho de 2008. A hegemonia racial na participação em Tocantins também é significativa. Receberam o benefício quase 900 mil famílias. 75% de todos aqueles que atendem aos critérios de até ½ salário mínimo per capita e no máximo três salários mínimos por família são negros.

educação. como já dito.3 Programa Brasil Quilombola Os esforços da política de assistência social nas comunidades remanescentes de quilombo são dignos de nota. No estudo realizado em 2007. as desigualdades raciais não aparecem.raciais. 3. nem mesmo na avaliação de impactos. especialmente através da redistribuição. que consagra aos remanescentes das comunidades de quilombos o direito à propriedade de suas terras. em 1988 com a Constituição no art. empoderamento feminino. O impacto gerado nas relações de gênero me chamou a atenção. Mesmo depois da abolição da escravidão. coloca a mulher em posição de negociação. 49 . semelhante aos negros. as questões de gênero não estivessem presente nos instrumentos formais de elaboração. pelo menos na avaliação de impactos. bem como os impactos das ações já implementadas. em áreas como saúde. acenando para uma reflexão sobre as desigualdades de gênero. É bem verdade que essas ações têm sua gênese. mas. tanto os bens de natureza material como imaterial. considerações regionais. dentre outros. em 1888. e o segundo considera que essas manifestações sejam consideradas patrimônio cultural brasileiro. impactos sociais. São muitas ações e publicações que apresentam essa demanda. ela foi contemplada. pelo menos no plano formal e institucionalizado. Essa pesquisa foi surpreendida com os avanços obtidos nesses últimos quatro anos sobre a garantia da identidade dos quilombos. a ser protegido e promovido pelo Poder Público. com mais autonomia e poder decisório. Embora. mobilidade social. pelo MDS. Antes de continuar a análise. é importante apontar que “remanescentes de quilombos” não são apenas os descendentes de escravos que fugiram e montaram uma comunidade de subsistência. intitulado: Avaliação de Impactos do Programa Bolsa Família buscou-se identificar os vários resultados. eficácia da focalização. Isso aconteceu com as mulheres que administravam os recursos do Bolsa Família. nutrição. Considerando a participação de até 80% é bem razoável pensar que a problemática racial deveria ser contemplada na sua elaboração e deviria se constituir em foco de preocupação na implementação da mesma. pois o estudo conseguiu identificar aspectos apontados em trabalhos sobre as políticas identitárias feministas: o acesso a renda. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Ainda nos seus artigos 215 e 216 garantem o direito à manutenção de sua cultura própria. apresentação e implementação. O primeiro determina que o Estado proteja as manifestações culturais afrobrasileiras.

uma forma de ver. Ministério do Desenvolvimento Agrário/Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). pois eles recusavam viver em uma sociedade que os consideravam inferiores e os impediam. com formas singulares de transmissão de bens materiais e imateriais para a comunidade. da Instrução Normativa n° 16 do Incra. Dividiram em 14 grandes estratégias: 1- Ações Gerais (assistência jurídica. 7º.887. vamos encerrar essa reflexão apontando que o território e identidade estão intimamente relacionados enquanto um estilo de vida. de 20 de novembro de 2003. estudos e pesquisas). que regulamenta o procedimento para identificação. resistência à opressão. religião e outros. educação. reconhecimento. delimitação. Seu parágrafo 1º determina que: “Autodefinição será demonstrada por meio de simples declaração escrita da comunidade interessada ou beneficiária. O PBQ foi institucionalizado. Nessa pesquisa não vamos nos alongar nas questões da legalização das terras. considerando o disposto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. trajetória histórica. de ter acesso a trabalhos. contando sua história própria. 50 . fazer e sentir o mundo. O Decreto. ouvidoria. terra. por meio do monopólio e da discriminação. Partindo de uma articulação dessa magnitude institucional. era previsível uma ampla agenda de ações. culto e costumes”. de 24 de março de 2004. interministerial. Um espaço social próprio. auto-estima. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e o Ministério da Cultura/Fundação Cultural Palmares (entre outros ministérios vinculados ao Decreto n 4. de 20 de novembro de 2004). Bens esses que se transformarão no legado de uma memória coletiva.887. em especial a Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial. o Decreto nº 4. muitos negros foram para áreas separadas do convívio branco para assegurar sua existência. No Programa Brasil Quilombola – PBQ considera-se. dentre outros. específico. reconheceu como elemento fundamental para a identificação das comunidades a autodefinição.com a Lei Áurea. que diz: “Caracterização dos remanescentes das comunidades quilombos será atestada mediante autodefinição da comunidade”. com dados de ancestralidade negra. Para ser considerado quilombo usa-se o critério de autodefinição. cultura. a partir de uma ação conjunta dos organismos do governo federal. realidade esta. consagrada no art. um patrimônio simbólico do grupo.

desenvolvimento agrário.Promoção da Igualdade Racial (desenvolvimento sustentável. se necessário. mediações de conflitos e intervenções em terras públicas devolutas). dentre outras.Geração de Renda (consórcio da juventude. prioritariamente. a seguinte declaração sobre o reconhecimento das desigualdades raciais: A Política Nacional de Assistência Social reconhece as discriminações étnicas e raciais como promotoras de vulnerabilidades que devem ser enfrentadas pelas ações de Proteção Social Básica.Meio Ambiente (gestão ambiental em quilombos. participação e controle social. 4.Esportes (infra-estrutura esportiva e segundo tempo) e. planejamento. saneamento. a Secretaria Nacional de Assistência Social passou a co-financiar PAIF em municípios que pretendiam atender. 6. 8.Segurança Alimentar (acesso à alimentação e melhoria das condições socioeconômicas).Direitos Humanos (balcão de direitos. áreas de fronteira. 13. e.Educação (Brasil Alfabetizado). avaliação e monitoramento das políticas). 11. (p. moradia.Desenvolvimento e Assistência Social (Bolsa Família e outros benefícios sociais). Encontramos no Relatório GT População Quilombola. comunicação. podem realizar articulações com a política de assistência social. As ações de Segurança Alimentar e de Desenvolvimento e Assistência Social são destinadas ao MDS. 10) 51 .Saúde (saúde da família). como liderança. estradas e pontes).Terra (regularização fundiária. à partir do PPA de 2004-2007. registro civil. 5. educação ambiental e ecoturismo). Essa destinação apresenta elementos reflexivos no debate da política. a população quilombola. 2007. A Política de Assistência Social participa deste processo porque as comunidades remanescentes de quilombos passaram.A Previdência Social. A partir de 2004. não citados nos demais projetos. serviços e programas. 14. 12. a ser consideradas como público-alvo de programas e ações da Assistência Social. 10. inclusão social.Gênero e Desenvolvimento (capacitação e apoio a projetos). artesanato quilombola e aqüicultura). crianças e adolescentes). ações integradas com projetos existentes. 3. 9.Infra-estrutura (luz para todos.2. 7. mas nas demais estratégias.

em combater o racismo e promover a valorização da dignidade e identidade negra ainda estão limitados.Programa de Aquisição de Alimentos – PAA. Contudo. para quilombolas e comunidades de terreiros. a V Conferência Nacional de Assistência Social organizou.312 cestas de alimentos. não há dados que permitam identificar a população quilombola beneficiada. embora muito importante. As demais ações da Política de Segurança Alimentar e Nutricional . em 19 Estados da Federação. seria a expansão da reflexão para todas as camadas da sociedade. Ainda na segurança alimentar foram realizadas ações caracterizadas como estruturantes. incorporando essa preocupação nos demais programas. buscando dar voz àqueles excluídos das representações do Conselho. Um ano depois o Conselho Nacional de Assistência Social montou o GT para estudar as comunidades quilombolas e indígenas. vamos analisar as atividades desenvolvidas em favor dos quilombos e os avanços nessa área. entre as oficinas desenvolvidas. a nosso ver. pois a discriminação racial. Saindo momentaneamente da discussão sobre a focalização das ações de enfrentamento às desigualdades raciais nos quilombos. o foco são as populações quilombolas.Em um dos poucos reconhecimentos das desigualdades raciais que podem ser encontrados nos vários documentos normativos e didáticos da política de assistência social. se explicita o compromisso da Proteção Social Básica em enfrentar as discriminações. embora não negue as discriminações sofridas por todos os negros no Brasil. uma dedicada à discussão sobre “A organização da Proteção Social Básica em comunidades indígenas e quilombolas”. Referente à segurança alimentar no ano de 2005 foram destinadas 260. Os esforços. Esse reconhecimento. O relatório produzido por esse GT ratificou o foco nos quilombos quando se apresenta a especificidade dos negros na política de assistência social. por parte da política de assistência social. onde aproximadamente 15 mil famílias foram beneficiadas com uma verba total de 5 milhões para a superação da insegurança alimentar adquirindo 52 . pois o texto continua apresentando o co-financiamento no Programa de Atenção Integral a Família para municípios que pretendem atender este público. Programa do Leite. e Programa de Cisternas. precisa ser estendido para além das comunidades quilombolas. dentro dos espaços urbanos. consideradas como vulnerabilidade social. Por exemplo. em 2005. também se configura como uma vulnerabilidade social. onde o mais adequado.

Estas famílias estão gradativamente sendo inseridas no Programa Bolsa Família. mas demonstra que existe a compreensão dessa especificidade. Esses números reforçam e explicitam a intensidade da atenção concedida a problemática racial no interior da proteção social básica. não se constitui em grande investimento. os recursos repassados a estes 38 municípios somaram um total de R$ 2.PAIF. em termo de orçamento. e abre espaço para uma participação dos quilombos na elaboração e implementação de outras ações. responde dentro do Centro de Referência de Assistência Social – CRAS – a proteção social básica que tem como objetivo prevenir situações de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições. Pensando nas comunidades quilombolas. e de uma destinação orçamentária mais ampla. No âmbito da Assistência Social. Contudo essa preocupação da proteção social básica está dirigida aos negros remanescentes de 53 . o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI. dos municípios beneficiados. somado a outras ações. serviços para famílias e indivíduos que moram no território de sua abrangência .maquinas agrícolas. dentre outros. Vamos nos concentrar no PAIF. Em 2004. instrumentos para irrigação. e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. visando à prevenção de riscos e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. equipamentos para o artesanato. O CRAS deve ofertar por meio do Programa de Atenção Integral à Família .000. além do Benefício de Prestação Continuada – BPC. O PAIF atende as demandas das populações com vulnerabilidades sociais. incluindo a preservação da sensação de pertencimento social. apresenta a quantidade de CRAS.abriu a possibilidade de co-financiamento com os municípios que priorizem o atendimento aos quilombos no PAIF.00. Embora a quantia de pouco menos de 3 milhões.880. a população referenciada no município e os recursos alocados. pois o mesmo. destacam-se o Programa de Atenção Integral à Família – PAIF e os demais serviços ofertados pelos Centros de Referência da Assistência Social – CRAS. O site do MDS. o Programa Agente Jovem e o Programa Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A tabela 1 apresenta por Estado. apresenta que o Cadastro Único registrou até 2006 mais de 20 mil famílias em 234 comunidades quilombolas. Eles eram acompanhados pela Fundação Cultural Palmares. a Secretaria Nacional de Assistência Social –SNA.

ação específica para os negros não pertencentes a quilombo. pelo menos do ponto de vista orçamentário.quilombo. TABELA 1 . não tendo. por meio de convênio para atendimento prioritário às comunidades quilombola 54 .Municípios que receberam co-financiamento para o PAIF em 2004.

vinculado à estrutura do órgão da Administração Pública Federal responsável pela coordenação da Política Nacional de Assistência Social. Desta forma a contribuição para a ação governamental torna-se mais efetiva quando o Conselho acolhe a participação da sociedade. como órgão superior de deliberação colegiada. No site do CNAS. de acordo com os critérios seguintes: I . como fora. nem mesmo precisa ser o foco de todo movimento social e classe social ou étnica. mesmo para além daqueles representados no Conselho. Por isso. mas ocupam posições estratégicas diferentes. não basta ter representantes.4 Conselho Nacional de Assistência Social É a participação dos usuários que possibilita o pleno cumprimento do dispositivo constitucional que dota o conselho não apenas da função de controle social. permitida uma única recondução por igual período. com sua estrutura disciplinada em ato do Poder Executivo. mas também de formulação das políticas. fiscalizar e acompanhar tanto o trabalho do conselho quanto da política.9 (nove) representantes governamentais. eleito dentre seus membros. permitida uma única recondução por igual período. têm mandato de 2 (dois) anos. Assim reforçamos a idéia de que tanto a participação dentro do Conselho. pode-se encontrar a apresentação de que o Conselho Nacional de Assistência Social –foi instituído pela Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS (Lei 8742.3. das entidades e organizações de assistência social e dos trabalhadores do setor. cujos nomes são indicados ao órgão da Administração Pública Federal responsável pela coordenação da Política Nacional de Assistência Social. de 07 de dezembro de 1993). mas é necessário participar. e conta também com uma Secretaria Executiva. para mandato de 1 (um) ano. 55 . a presença de representantes dos diversos grupos no Conselho também é uma estratégia para assegurar a preocupação e consequentemente à reflexão das especificidades dos grupos no interior da política. cujos membros. Contudo. nomeados pelo Presidente da República.9 (nove) representantes da sociedade civil. escolhidos em foro próprio sob fiscalização do Ministério Público Federal. dentre representantes dos usuários ou de organizações de usuários. O CNAS é presidido por um de seus integrantes. O CNAS é composto por 18 (dezoito) membros e respectivos suplentes. são relevantes. II . incluindo 1 (um) representante dos Estados e 1 (um) dos Municípios.

RELIGIOSAS E FILANTRÓPICAS – FENATIBREF 9 Tabela retirada do documento nome apresentado pelo site oficial do CNAS. 04 DE JUNHO DE 2008.mds. 56 .AVAPE 1º Suplente ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AUTISMO – ABRA 2º Titular UNIÃO BRASILEIRA DE CEGOS – UBC 2º Suplente FEDERAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E INTEGRAÇÃO DOS SURDOS 3º Titular FEDERAÇÃO NACIONAL DAS APAES 3º Suplente MOVIMENTO NACIONAL DE POPULAÇÃO DE RUA REPRESENTANTES DOS TRABALHADORES DA ÁREA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL 1º Titular FEDERAÇÃO NACIONAL DOS ASSISTENTES SOCIAIS . http://www. EDUCATIVO E BENEFICENTE NOVO SIGNO 3º Titular ASSOCIAÇÃO DA IGREJA METODISTA 3º Suplente FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA REPRESENTANTES OS USUÁRIOS E ORGANIZAÇÕES DE USUÁRIOS DA ASSISTÊNCIA SOCIAL 1º Titular ASSOCIAÇÃO PARA VALORIZAÇÃO E PROMOÇÃO DE EXCEPCIONAIS . com o resultado da última eleição.FENAS 1º Suplente ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDUCADORES DE DEFICIENTES VISUAIS – ABEDEV 2º Titular FEDERAÇÃO NACIONAL DOS EMPREGADOS EM INSTITUIÇÕES BENEFICENTES.gov.br/cnas/. 1º Titular CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL – CNBB 1º Suplente UNIÃO SOCIAL CAMILIANA 2º Titular FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES CRISTÃS DE MOÇOS 2º Suplente INSTITUTO SOCIAL.Na Tabela 29 temos o resultado da última eleição para eleger os representantes da sociedade civil: Tabela 2 RESULTADO DA ELEIÇÃO BRASÍLIA. REPRESENTANTES DE ENTIDADES E ORGANIZAÇÕES DE ASSISTÊNCIA SOCIAL.

Maria José Pereira dos Santos representando a Coordenação Nacional de Entidades Negras – CONEN. 57 . histórico de filantropia. de fato. por desinformação. ou seja. é o usuário da política. especialmente o movimento negro. Sejam quais forem os motivos. apresentamos dois: A política de assistência social não ser considerada. a política de assistência social não possui uma interlocução adequada com os movimentos que representam a maioria do seu público alvo. e atualmente. Na verdade nem mesmo no processo de eleição aparecem entidades de representação negra. São vários os motivos para essa ausência da representação negra na política de assistência social. Como foi o caso de Fernanda Lopes. Jurema Pinto Werneck representando a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB.2º Suplente CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL – CFESS 3º Titular FEDERAÇÃO NACIONAL DOS PSICÓLOGOS – FENAPSI 3º Suplente ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL – OAB Essa tabela demonstra que não existe uma participação específica da população negra. não tem um representante desses usuários da política de assistência social. Quando pensamos em outra política como a de saúde. podemos identificar no seu conselho a representação dos negros. Isso fragiliza o controle social do grupo que. expoente do movimento negro. Assim a ausência da discussão da problemática racial na maioria dos programas. ou nos espaços por ele destinados. ou outros motivos. foco de atuação do Movimento Negro. que esteve presente na gestão passada do Conselho Nacional de Saúde. projetos e serviços passa a ser reflexo do debate mínimo com a sociedade civil organizada. todos eles apontam para a gravidade dessa ausência que também se traduz em uma ausência na participação externa ao Conselho.

com redução relativa para a população branca. e 26. São as mães de famílias negras que mais sofrem com o subemprego ou desemprego. onde constantemente são interpelados com os padrões estéticos. De acordo com a sistemática. São as crianças e adolescentes negros que mais trabalham para complementar a renda familiar na busca pela sobrevivência e abandonam a escola. e o mais impressionante é que estes índices alarmantes desaparecem na elaboração. culturais brancos. o que os colocam como público alvo da política de assistência social. dez anos depois. projetos e serviços da política de assistência social. o que representa um aumento de 4. Ter a sua identidade desvalorizada é o que os negros enfrentam no seu cotidiano. as pessoas estejam mudando a forma como se declaram nas estatísticas oficiais. entre 1995 e 2005.4% da população para 49. que discriminam a sua existência. 59. Uma das hipóteses para explicar este fenômeno é a de que. A proteção básica que visa resgatar a autoestima. se não empreender a busca por uma política identitária 58 . utilizada pelas pesquisas do IBGE. Segundo estes dados os negros e brancos estão tecnicamente empatados quanto à representação na sociedade brasileira.5% dos brancos também. São as famílias negras que mais sofrem com a desnutrição.5 pontos percentuais. que passam de 54. As condições precárias de moradias atingem com mais ênfase os negros. os laços familiares. Em 1995. o percentual de negros vem aumentando na população e isto ocorre mediante aumento na população parda e preta. Estes números aumentam quando nos aproximamos das camadas mais pobres.6%. em 2005.CAPITULO V CONSIDERAÇÕES FINAIS Como já vimos. os grupos preto e pardo representavam 45% da população brasileira e. Diante desse quadro a política de assistência social não pode ter um debate raso sobre essas especificidades. ou diminuem seus resultados. avaliação da maioria dos programas. em razão do crescimento da consciência racial. Isso nos leva a quase 65% dos possíveis usuários da política de assistência social são negros.1% dos negros atendem ao critério de renda estabelecido em até ½ salário mínimo per capita. equiparado a uma redução na mesma magnitude no grupo dos brancos. a organização das comunidades será ineficiente se não incorporar a visão do negro. execução. Os salários mais baixos são dos negros. alcançaram o patamar de 49.8% em 2005.

essa necessidade sai do campo do desafio e entra no campo do compromisso ético político profissional. É evidente que essa luta é muito ampla e que a política de assistência social sozinha não será suficiente. miséria. mesmo que lentamente para a compreensão do seu desafio: a incorporação da problemática racial nos debates. elaboração. e em situações de risco. por meio das mediações. Em linhas gerais. A proteção especial não conseguirá resgatar aqueles que estão com seus direitos sociais violados. Contudo acreditamos. articuladamente. nas expressões fenomênicas (pobreza. As expressões fenomênicas da questão social atingem de maneiras desiguais os brancos e os negros. tendo em vista iniciativas como o Programa Brasil Quilombola que a política de assistência social caminha. Assim. implementação dos programas. precarização do trabalho. A visão racializada da demanda profissional é um desafio que necessita de estudos e pesquisas para ampliar não somente a compreensão do fenômeno. se desconhecer quem é o seu público. alcoolismo. Outra consideração é a respeito da nova demanda que surge. esses profissionais têm como objeto a questão social e agem. projetos e serviços.que necessariamente redistribua os privilégios e renda. mas para ampliar as estratégias de intervenção. O desafio da pesquisa e da prática do serviço social nessa problemática é um espaço promissor e importante. especialmente quando se compreende a impossibilidade de vislumbrar justiça social sem atender as especificidades que a população negra requer. considerando que foram poucos estudos realizados com esse propósito. ou se reitera com uma roupagem racializada para os profissionais do Serviço Social. 59 . dentre outros) e visam à emancipação dos sujeitos para romper com o processo vigente de exploração.

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THEODORO. 62 . GARVANO. Relatório GT População Quilombola.mds.OLIVEIRA. Programa Brasil Quilombola: Programa na versão de lançamento retirado do site: www. PAIXÃO. Site: http://www. 2004. Kabengele. Coleção Primeiros Passos. Pato Branco.com. Acesso em: 28 de maio de 2006. 2005. SANT’ANA. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde.mds. Política Social: Universalização ou Focalização – Subsídios para o debate. História e conceitos básicos sobre o racismo e seus derivados. Acessado em 16 de junho de 2008. Fátima. Edival S. Mário & DELGADO Guilherme. 2003.presidencia.terra. Acessado em 20 de junho de 2008. Educação e Ações Afirmativas: entre a injustiça e simbólica e a injustiça econômica. Luiz Marcelo. In: MUNANGA. Saúde da População Negra: Brasil ano 2001. Marcelo. Brasília: Boletim de Políticas Sociais do IPEA. São Paulo. Vigotski e o Materialismo Dialético: uma introdução aos fundamentos da Psicologia Histórico-Cultural. Brasília: Ministério da Educação / Secretaria de Educação Fundamental. O que é o Racismo? São Paulo: Editora Brasiliense. Acessado em 15 de junho de 2008.gov. Superando o Racismo no Brasil. 2003.gov. Fadep.gov. Antônio Olímpio.br/estrutura_presidencia/seppir/publicacoes/brasilquilombola_2 004. SILVA. Hédio. 1980. Reflexão e Espanto: a questão racial na política de assistência social da criança e do adolescente.br/. Artigo capturado no site disponível em: http://virtualbooks. TEIXEIRA. SANTOS. Programa Bolsa Família: definições e números retirados do site http://www. 2003.br/cnas/conteudotematico/relatorios. Joel Rufino.pdf.br/bolsafamilia/.

III – Secretaria do Patrimônio da União. c) do Trabalho e Emprego. Decreto N. com obrigatória disposição de prévio estudo sobre a autenticidade e legitimidade do título de propriedade. 15. A titulação prevista neste Decreto será reconhecida e registrada mediante outorga de título coletivo e pró-indiviso às comunidades a que se refere o art. Em sendo constatado que as terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos incidem sobre terras de propriedade dos Estados. destinado aos remanescentes das comunidades dos quilombos. do Distrito Federal ou dos Municípios. Art. o Incra concluirá o trabalho de titulação da terra ocupada pelos remanescentes das comunidades dos quilombos. após a publicação e notificações a que se refere o art. integrado por um representante de cada órgão a seguir indicado: I – Casa Civil da Presidência da República. será realizada vistoria e avaliação do imóvel. Art. As comunidades serão representadas por suas associações legalmente constituídas. IV – Fundação Nacional do Índio FUNAI. Orçamento e Gestão. Parágrafo único.º 4. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. no prazo de noventa dias. Parágrafo único. caput. de 20 de novembro de 2003 Regulamenta o procedimento para identificação. e nem tornado ineficaz por outros fundamentos.VI Fundação Cultural Palmares. 14. § 1º Para os fins deste Decreto. Parágrafo único. em todos os graus. Art. Expirado o prazo e não havendo manifestação dos órgãos e entidades. h) da Integração Nacional. às áreas de segurança nacional. II – Ministérios: a) da Justiça. Não havendo impugnações ou sendo elas rejeitadas. 18. 134 da Constituição. juntando as provas pertinentes. Art. II – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama. ilhas e lagos. reconhecimento. o Ibama. 9º Todos os interessados terão o prazo de noventa dias. o Incra acionará os dispositivos administrativos e legais para o reassentamento das famílias de agricultores pertencentes à clientela da reforma agrária ou a indenização das benfeitorias de boa-fé. quando couber. A Fundação Cultural Palmares deverá instruir o processo para fins de registro ou tombamento e zelar pelo acautelamento e preservação do patrimônio cultural brasileiro. para oferecer contestações ao relatório. nos termos do art. 7º. Parágrafo único. o Incra garantirá a defesa dos interesses dos remanescentes das comunidades dos quilombos nas questões surgidas em decorrência da titulação das suas terras. a Fundação Cultural Palmares garantirá assistência jurídica. 2º. objetivando a adoção dos atos necessários à sua desapropriação. do Ministério do Planejamento. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. Incidindo nos territórios ocupados por remanescentes das comunidades dos quilombos título de domínio particular não invalidado por nulidade. Fica instituído o Comitê Gestor para elaborar. mediante levantamento da cadeia dominial do imóvel até a sua origem. e) do Planejamento. Os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. marginais de rios. Art.ANEXOS II. delimitação. 11. operando as publicações editalícias do art. 16. d) da Saúde. o Incra e a Secretaria do Patrimônio da União tomarão as medidas cabíveis para a expedição do título. Após a expedição do título de reconhecimento de domínio. encontrados por ocasião do procedimento de identificação. o Incra encaminhará os autos para os entes responsáveis pela titulação. § 2º O Incra regulamentará as hipóteses suscetíveis de desapropriação. 7º efeitos de comunicação prévia. Durante o processo de titulação. 10. Art.887. a FUNAI e a Fundação Cultural Palmares tomarão as medidas cabíveis visando garantir a sustentabilidade destas comunidades. quando couber. Orçamento e Gestão. devem ser comunicados ao IPHAN. prescrição ou comissão. f) das Comunicações. à faixa de fronteira e às terras indígenas. com obrigatória inserção de cláusula de inalienabilidade. Art. Art. a Secretaria Executiva do Conselho de Defesa Nacional. 13. imprescritibilidade e de impenhorabilidade. g) da Defesa. para a proteção da integridade territorial da área delimitada e sua utilização por terceiros. I – Instituto do Patrimônio Histórico e Nacional IPHAN. Parágrafo único. V – Secretaria Executiva do Conselho de Defesa Nacional. o Incra. A Fundação Cultural Palmares prestará assessoramento aos órgãos da Defensoria Pública quando estes órgãos representarem em juízo os interesses dos remanescentes das comunidades dos quilombos. o Incra estará autorizado a ingressar no imóvel de propriedade particular. 19. Art. 63 . Quando as terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos incidirem em terrenos de marinha. 12. aos remanescentes das comunidades dos quilombos para defesa da posse contra esbulhos e turbações. podendo firmar convênios com outras entidades ou órgãos que prestem esta assistência. b) da Educação. conciliando o interesse do Estado. Verificada a presença de ocupantes nas terras dos remanescentes das comunidades dos quilombos. plano de etnodesenvolvimento. Art. Quando as terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos estiverem sobrepostas às unidades de conservação constituídas. 17. Art. dar-se-á como tácita a concordância com o conteúdo do relatório técnico.

O. independentemente do tamanho da área.011/2004: DO OBJETIVO Art. Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. • Decreto nº 433. delimitação. de 25 de fevereiro de 1993 e alterações posteriores. • Decreto nº 4.i) da Cultura. • Artigos 215 e 216 da Constituição Federal. 22. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. § 3º A participação no Comitê Gestor será considerada prestação de serviço público relevante. em qualquer fase em que se encontrem. 18 do Regimento Interno. p. O PRESIDENTE DO INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA. As despesas decorrentes da aplicação das disposições contidas neste Decreto correrão à conta das dotações orçamentárias consignadas na lei orçamentária anual para tal finalidade. não remunerada. 20. Instrução Normativa N. § 1º O Comitê Gestor será coordenado pelo representante da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. o) do Turismo. 25. de 20 de novembro de 2003. Parágrafo único. de 10 de setembro de 2001. e c) dos Direitos Humanos. de 24 de janeiro de 1992.º 16. no uso das atribuições que lhe confere o art. 2º As ações objeto da presente Instrução Normativa têm como fundamento legal: • Artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias. § 2º Os representantes do Comitê Gestor serão indicados pelos titulares dos órgãos referidos nos incisos I a IV e designados pelo Secretário Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. aprovado pelo Decreto 5. destinados à realização de suas atividades produtivas e de infra-estrutura. Revoga-se o Decreto n o 3. observados os limites de movimentação e empenho e de pagamento.64 Regulamenta o procedimento para identificação. assistência técnica e linhas especiais de financiamento.U nº 78. III – do Gabinete do Ministro de Estado Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome.2004. Art.428. A Fundação Cultural Palmares e o Incra estabelecerão regras de transição para a transferência dos processos administrativos e judiciais anteriores à publicação deste Decreto. 182º da Independência e 115º da República. n) da Previdência Social. 21.912. • Decreto nº 59.132. p) das Cidades. l) da Assistência Social. de 10 de setembro de 1962. Art. m) do Esporte. DA FUNDAMENTAÇÃO LEGAL Art.4. da Organização Internacional do Trabalho – OIT DA CONCEITUAÇÃO 64 . • Lei nº 8.887. Parágrafo único. reconhecimento. Art. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Gilberto Gil Miguel Soldatelli Rossetto José Dirceu de Oliveira e Silva III. • Lei nº 4. IV – Secretarias Especiais da Presidência da República: a) de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Art. seção 1. 1º Estabelecer procedimentos do processo administrativo. 20 de novembro de 2003. demarcação e titulação das terras ocupadas pelos Remanescentes de Comunidades dos Quilombos. 24.886. para identificação. O Incra realizará o registro cadastral dos imóveis titulados em favor dos remanescentes das comunidades dos quilombos em formulários específicos que respeitem suas características econômicas e culturais. Brasília. • Lei nº 4. As disposições contidas neste Decreto incidem sobre os procedimentos administrativos de reconhecimento em andamento. j) do Meio Ambiente. 23. de 24 de março de 2004 Aprovada pela Resolução/CD nº 6/2004 – D. de 27 de outubro de 1966. k) do Desenvolvimento Agrário.629. demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. Para os fins de política agrícola e agrária. • Decreto nº 4. A expedição do título e o registro cadastral a ser procedido pelo Incra far-se-ão sem ônus de qualquer espécie. delimitação. Art. de 30 de novembro de 1964. os remanescentes das comunidades dos quilombos receberão dos órgãos competentes tratamento preferencial.reconhecimento. de 26. b) de Aqüicultura e Pesca. de 20 de novembro de 2003 • Convenção Internacional nº 169.504. Art.

V – Levantamento da cadeia dominial completa do título de domínio e outros documentos inseridos no perímetro do território pleiteado. Fundação Nacional do Índio – FUNAI. Raça e Etnia da Superintendência Regional em todas as fases do processo de regularização das áreas das Comunidades Remanescentes de Quilombos. sexo. encaminhados ao Incra com anuência da comunidade. com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. o reconhecimento. 4º Consideram-se terras ocupadas por remanescentes das comunidades de quilombos toda a terra utilizada para a garantia de sua reprodução física. cultura e lazer. os espaços destinados aos cultos religiosos e os sítios que contenham reminiscências históricas dos antigos quilombos. Ministério da Defesa. a partir da indicação feita pela própria comunidade. 8º A verificação do território reivindicado será precedida de reuniões com a comunidade e contará com a participação dos seus representantes e dos técnicos da Superintendência Regional do Incra. § 3º O processo que não contiver a Certidão de Registro no Cadastro Geral de Remanescentes de Comunidades de Quilombos da FCP será remetido pelo Incra. quando o pedido for verbal. do Distrito Federal e dos Municípios. para monitoramento e controle. Institutos de Terra etc. agronômicas. àquela fundação para as providências de registro. elaborado pela Superintendência Regional. nos termos do §4º. no trabalho e na apresentação dos procedimentos que serão adotados. resistência à opressão. comercial e de subsistência. observadas as mesmas informações contidas nas alíneas “a“ a “d” do inciso III. RECONHECIMENTO Art. IV – Cadastramento dos demais ocupantes e presumíveis detentores de título de domínio relativos ao território pleiteado. bem como as áreas detentoras de recursos ambientais necessários à preservação dos seus costumes. trajetória histórica. sendo entendido como simples manifestação da vontade da parte. organizações nãogovernamentais e entidades privadas. os grupos étnicoraciais. O Relatório Técnico de Identificação será elaborado pela Divisão Técnica e se dará pelas seguintes etapas. não interrompendo o prosseguimento administrativo respectivo. ecológicas. DA ELABORAÇÃO DE RELATÓRIO TÉCNICO Art. IDENTIFICAÇÃO E DELIMITAÇÃO Art. § 3º A Superintendência Regional do Incra poderá. com trajetória histórica própria. 5º Compete ao Incra a identificação. social. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama. § 2º A autodefinição da Comunidade deverá confirmada pela Fundação Cultural Palmares – FCP. mediante Certidão de Registro no Cadastro Geral de Remanescentes de Comunidades de Quilombos do referido órgão. 3º Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos. as informações concernentes aos pedidos de regularização das áreas remanescentes das Comunidades de Quilombos e dos processos em curso com vistas à inclusão dos dados no Sistema de Obtenção de Terras – SISOTE e no Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária – SIPRA. PUBLICIDADE 65 . segundo critérios de autoatribuição. dotados de relações territoriais específicas. 6º O processo administrativo terá inicio por requerimento de qualquer interessado. inclusive. DOS PROCEDIMENTOS ADMINISTRATIVOS PARA ABERTURA DO PROCESSO Art. c) Tempo de moradia no local (território) d) Atividade de produção principal. I – levantamento de informações cartográficas. contratos e instrumentos similares com órgãos da administração pública federal. municipal. Art.887/2003. englobando os espaços de moradia e.Art. além de estudos técnicos e científicos já existentes. § 2º À Superintendência Regional incumbe fornecer à SD. das entidades ou associações representativas de quilombolas ou de ofício pelo Incra. utilizando-se o formulário específico do SIPRA e contendo. data e local de nascimento e filiação de todos. § 2º Fica garantida a participação dos Gestores Regionais e dos Asseguradores do Programa de Promoção da Igualdade em Gênero. econômica e cultural. § 1º A autodefinição será demonstrada através de simples declaração escrita da comunidade interessada ou beneficiária. observada a legislação pertinente. a delimitação. b) Idade. 7º A caracterização dos remanescentes das Comunidades de Quilombos será atestada mediante autodefinição da comunidade. 10. do Distrito Federal. fundiárias. do artigo 3º. junto às Instituições públicas e privadas (Secretaria de Patrimônio da União – SPU. estadual. com dados de ancestralidade negra. II – Planta e memorial descritivo do perímetro do território. por cópia.). tradições. DAS COMPETÊNCIAS DE ATUAÇÃO Art. a demarcação e a titulação das terras ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos. as seguintes informações: a) Composição familiar. apresentada por escrito ou reduzido a termo por representante do Incra. III – Cadastramento das famílias remanescentes de comunidades de quilombos. VI – Parecer conclusivo sobre a proposta de território e dos estudos e documentos apresentados pelo interessado por ocasião do pedido de abertura do processo. grupos ou comissões constituídas através de ordem de serviço do Superintendente Regional. do Decreto 4. 9º A identificação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades de quilombos consiste na caracterização espacial da área ocupada pela comunidade e será realizada mediante Relatório Técnico de Identificação. § 1º As atribuições contidas na presente Instrução serão coordenadas e supervisionadas pela Superintendência Nacional do Desenvolvimento Agrário – SD e executadas pelas Superintendências Regionais – SR e Unidades Avançadas – UA do Incra. Art. socioeconômicas e históricas. no mínimo. de forma sistemática. § 1º A comunidade ou o interessado deverá apresentar informações sobre a localização da área objeto de identificação. culto e costumes. sempre que necessário. através de Divisão Técnica. estabelecer convênios.geográficas. sem prejuízo da competência concorrente dos Estados.

com obrigatória inserção de cláusula de inalienabilidade. de 20/11/2003. 15. dar-se-á como tácita a concordância sobre o conteúdo do relatório técnico. Orçamento e Gestão. conforme descrições a seguir: I – Quando as terras ocupadas por Remanescentes das Comunidades dos Quilombos incidirem sobre terrenos de marinha. A titulação será reconhecida mediante outorga de título coletivo e pró-indiviso às comunidades. contendo as seguintes informações: I – denominação do imóvel ocupado pelos remanescentes das comunidades dos quilombos. cujo ônus fica a cargo do recorrente. desde que atendidas as normas e instrução estabelecidas pelo Incra. Fica facultado à comunidade interessada apresentar as peças técnicas oriundas do processo demarcatório. serão levados em consideração critérios de territorialidade indicados no relatório técnico. publicará por duas vezes consecutivas no Diário Oficial da União e no Diário Oficial da unidade federativa o extrato do edital de reconhecimento dos Remanescentes de Comunidades de Quilombos e notificação da realização de vistoria aos presumíveis detentores de título de domínio. após as publicações editalícias do art. III – Secretaria do Patrimônio da União. § 1º No caso dos incisos V e VI. Após os trabalhos de identificação e delimitação. objetivando a adoção dos atos necessários à sua obtenção. considerando a incidência de títulos públicos e privados. mediante aprovação em assembléia. 11. registros e matrículas eventualmente incidentes sobre as terras consideradas suscetíveis de reconhecimento e demarcação. A Superintendência Regional. não detentores de domínio.101. Não havendo impugnações ou sendo elas indeferidas. II – Quando as terras ocupadas por Remanescentes das Comunidades dos Quilombos estiverem sobrepostas à unidade de conservação constituída. 11 para efeitos de comunicação prévia. e IV – títulos. do Ministério do Planejamento. identificados no território pleiteado. após a publicação e as notificações. através da Superintendência Nacional do Desenvolvimento Agrário. delimitação e levantamentos ocupacional e cartorial. para. 14. 13. IV – Fundação Nacional do Índio – FUNAI. CONSULTA À ÓRGÃOS E ENTIDADES Art. V – Constatado a incidência nos territórios ocupados por remanescentes das comunidades dos quilombos de área de posse particular de domínio da União. que as recepcionará para subseqüentes encaminhamentos. Parágrafo único. PRAZO DE CONTESTAÇÃO Art. Art. § 2º A Superintendência Regional notificará os ocupantes e confinantes. a Superintendência Regional do Incra remeterá o Relatório Técnico de Identificação aos órgãos e entidades abaixo relacionados. para apresentar recurso. confinantes e demais interessados nas áreas objeto de reconhecimento. Para a medição e demarcação das terras. concomitantemente com a publicação do edital. 66 . DA TITULAÇÃO Art. após concluir os trabalhos de identificação. VI – Para os fins desta Instrução. a Superintendência Regional. a Superintendência Regional proporá a celebração de convênio com aquelas unidades da Federação para execução dos procedimentos e encaminhará os autos para os entes responsáveis pela titulação. III – Constatado que as terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos incidem em terras de propriedade dos Estados. encaminhando-as para as Superintendências Regionais e ou Unidades Avançadas do Incra. será feita a abertura de processo administrativo para retomada da área em nome do poder público. aprovada pela Portaria/Incra/P/Nº 1. Os interessados terão o prazo de noventa dias. à faixa de fronteira e às terras indígenas. 12. III – limites. conforme disposto no artigo 8º. de 19 de novembro de 2003. prescrição ou comisso. às áreas de segurança nacional. II – circunscrição judiciária ou administrativa em que está situado o imóvel. juntando as provas pertinentes. A Superintendência Regional fará análise da situação fundiária dos territórios pleiteados. a Fundação Nacional do Índio – FUNAI e a Fundação Cultural Palmares. 17. DA MEDIÇÃO E DEMARCAÇÃO Art. entende-se como provas pertinentes o previsto em lei. a Superintendência Regional procederá a consulta através da Superintendência Nacional de Desenvolvimento Agrário. § 2º Expirado o prazo e não havendo manifestação dos órgãos e entidades. para oferecer recurso contra a conclusão do relatório.267/01. o Incra estará autorizado a ingressar no imóvel de propriedade particular. a Superintendência Regional através da Superintendência Nacional do Desenvolvimento Agrário encaminhará os documentos à Secretaria do Patrimônio da União SPU para a expedição do instrumento de titulação. a Secretaria-Executiva do Conselho de Defesa Nacional.887. confrontações e dimensão constantes do memorial descritivo das terras a serem tituladas. adotará as medidas cabíveis visando garantir a sustentabilidade destas comunidades. 16. e nem tornado ineficaz por outros fundamentos. em nome de suas associações legalmente constituídas. ouvidos o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente – Ibama. VI – Fundação Cultural Palmares. II – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama. § 1º A publicação do extrato do edital será afixada na sede da prefeitura municipal onde está situado o imóvel. Parágrafo único. IV – Incidindo nos territórios ocupados por remanescentes das comunidades dos quilombos título de domínio particular não invalidado por nulidade.Art. Para este fim. apresentar manifestação sobre as matérias de suas respectivas competências: I – Instituto do Patrimônio Histórico e Nacional – IPHAN. no prazo comum de trinta dias. V – Secretaria Executiva do Conselho de Defesa Nacional. DA ANÁLISE DA SITUAÇÃO FUNDIÁRIA DOS TERRITÓRIOS PLEITEADOS Art. do Decreto 4. e demais atos regulamentadores expedidos pelo Incra em atendimento a Lei 10. sem qualquer ônus financeiro. ocupantes. do Distrito Federal ou dos Municípios. será realizada vistoria e avaliação do imóvel. a Superintendência Regional concluirá o trabalho de titulação da terra ocupada pelos remanescentes das comunidades dos quilombos. devendo ser obedecidos os procedimentos contidos na Norma Técnica para Georeferenciamento de Imóveis Rurais.

DISPOSIÇÕES GERAIS Art. encaminhará à Fundação Cultural Palmares. A Superintendência Regional. 20. A expedição do título e o registro cadastral a ser procedido pela SR far-se-ão sem ônus de qualquer espécie aos Remanescentes das Comunidades de Quilombos. para que possam exercer direitos reais sobre o território que ocupam. Seppir e Fundação Cultural Palmares informados do andamento dos processos de regularização das terras de Remanescentes de Quilombos.068.Perfil Cadastro Único (com base em dados do IBGE 2004) 16. A Superintendência Regional promoverá o registro cadastral dos imóveis titulados em favor dos remanescentes das comunidades dos quilombos em formulários específicos.102.232 67 .Perfil Bolsa Família (com base em dados do IBGE 2004) 11. Art. A Superintendência Nacional do Desenvolvimento Agrário manterá o MDA. 18. Art.imprescritibilidade e de impenhorabilidade. independentemente do tamanho da área. diretamente ou por meio de representantes por eles indicados. ouvida a Fundação Cultural Palmares.887/03. 24. através da Superintendência Nacional do Desenvolvimento Agrário. Parágrafo único. num prazo de 60 (sessenta dias) após publicação desta Instrução Normativa. estabelecerá as regras de transição para a transferência dos processos administrativos e judiciais anteriores à publicação do Decreto 4. para efeito de destaque e tombamento. 19. a Superintendência Regional providenciará o reassentamento das famílias de agricultores que preencherem os requisitos da legislação agrária. Os procedimentos administrativos de reconhecimento dos remanescentes das comunidades dos quilombos em andamento. todas as informações relativas ao patrimônio cultural. 21. REASSENTAMENTO Art. contidos no Relatório Técnico de identificação territorial. Art. empenho e pagamento. Art. material e imaterial. com vistas ao IPHAN. Art. 26. passarão a ser regidos por esta norma. 22. A emissão do Título de Concessão de Direito Real de Uso não desobriga a concessão do Título de Reconhecimento de Domínio. bem como o acompanhamento dos processos de regularização em trâmite na Superintendência Regional. Rolf Hackbart MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COMBATE À FOME SECRETARIA NACIONAL DE RENDA DE CIDADANIA Fazer Out Informações Bolsa Família Brasil Data de Referência População Total (estimativa IBGE 2004) INFORMAÇÕES GERAIS 182. 25. devidamente registrado no Serviço Registral da Comarca de localização das áreas. Art.062. em caráter provisório. 23. Fica assegurada aos remanescentes das comunidades dos quilombos a participação em todas as fases do procedimento administrativo.770 Estimativa Famílias Pobres . Art. enquanto não se ultima a concessão do Título de Reconhecimento de Domínio. As despesas decorrentes da aplicação das disposições contidas nesta Instrução correrão à conta das dotações orçamentárias consignadas na lei orçamentária anual para tal finalidade.687 Estimativa Famílias Pobres . observados os limites de movimentação. Verificada a presença de ocupantes nas terras dos remanescentes das comunidades dos quilombos. A Superintendência Nacional do Desenvolvimento Agrário. em qualquer fase em que se encontrem. Aos remanescentes de comunidades de quilombos fica facultada a solicitação da emissão de Título de Concessão de Direito Real de Uso.

980 40.123 1.Benefício Liberado 62 269.373. UF: Folha de pagamento: UF AC AL AM AP BA CE DF ES GO MA MG MS TODAS 06/2008 Qtde.335 38.Perfil Bolsa Família* 13.769 223.995 742.066.080 Total de Famílias Cadastradas .Benefício Liberado 1.386 *Famílias com renda per capita mensal de até R$120.218 CADASTRO ÚNICO Número de Famílias Benefíciárias .Benefício Liberado Número de Famílias Benefíciárias do AuxílioGás .200 186. Número de Famílias Benefíciárias do Bolsa Escola .00 e que atendem aos critérios de concessão de benefícios do Bolsa Família.Bolsa Alimentação .255 Total de Famílias Cadastradas .447.044 1.152 111. **Famílias com renda per capita mensal de até 1/2 salário mínimo.953 355.Benefício Liberado 11. municípios atendidos 22 102 62 16 417 184 1 78 246 217 853 78 Programa social: PROGRAMA BOLSA FAMILIA Qtde.086. famílias atendidas 57.Total de Famílias Cadastradas 16.618. podendo não corresponder à situação mais recente dos benefícios.595 Número de Famílias Benefíciárias do Cartão Alimentação.Benefício Liberado 18.866 260.087 899.421.989 68 .Perfil Cadastro Único** 16.985 BENEFÍCIOS Número de Famílias Beneficiárias do Bolsa Família .369 Contemplam os benefícios liberados até o momento da geração da folha de pagamento.

828 370.531 1.036.095 541.564 Qtde.332 5.618 417.775 107.194 395.979 33. total famílias atendidas 11.619 129. total municípios atendidos 130.058 186.572 69 .028 96.092 302.052 918.092.MT PA PB PE PI PR RJ RN RO RR RS SC SE SP TO 141 143 223 185 223 399 92 167 52 15 496 293 75 645 139 Qtde.216 507.662 403.