Título: Não sou uma só: diário de uma bipolar;

Autor: Marina W;
Dados da edição: Editora Nova Fronteira, 2006, Rio de Janeiro;
Gênero: Relato;
Digitalização e correção: Vera Lúcia Figueiredo;
Estado da obra: corrigida;
Numeração de página: rodapé.
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ainda que gratuitamente.
Marina W.
não
sou
uma

DIÁRIO
DE UMA BIPOLAR
Consultoria
Dr. Olavo de Campos Pinto Jr., psiquiatra
EDITORA NOVA FRONTEIRA
(c) by Marina W
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O maior pecado? Abandonar-se.
Madre Teresa de Calcutá
É como se minha vida fosse magicamente dirigida
por duas correntes elétricas: contente positiva e
desesperançada negativa - a que estiver em ação
no momento domina minha vida, inunda-a. Agora
estou inundada de desespero, quase histeria, como

se estivesse sufocando. Como se uma grande coruja
musculosa estivesse sentada em meu peito.
Sylvia Plath
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
Adélia Prado
Notou que os ladrilhos formavam pequenos desenhos no chão da cozinha, como
flores desmaiadas. Usava um vestido de algodão, com pequenas riscas. Os cabelos
estavam presos por minúsculas travessas de tartaruga e o batom era cor-de-rosa
claro. Sorriu. Era bom estar ali, ao lado dos seus três amigos: O garagista, a
manicure e a dona-de-casa. Entraram no restaurante e ela se dirigiu ao
proprietário, um português de bigodes imensos.
- Se eu der um pequeno show para seus clientes, posso jantar aqui com meus
amigos, como cortesia?
Olhou ao redor, era o melhor restaurante da cidade. Um salão grande com
mesas cobertas por toalhas xadrez e pequenos enfeites no centro.
8
- Que tipo de show? Ontem esteve aqui um rapaz fazendo discursos.
- Vou mostrar para o senhor. Veja.
Com os braços encostados nas paredes do pequeno corredor, deu um impulso
que fez com que tirasse os pés do chão e alguns segundos depois estava
sobrevoando
a sala. Seus amigos estavam rindo e batendo palmas. Ela sabia que eles nunca
haviam experimentado tanta felicidade. Puxou um a um pelas mãos, e logo todos
estavam
voando. Como num passe de mágica, agora voavam sobre um enorme lago, dando vôos
rasantes na água.
Podem voar! Não tenham medo! Isto é um sonho!
De repente lembrei que tinha de voltar. Eram oito da manhã e precisava
tomar os remédios. Aquela era a pior hora do dia, porque significava recomeçar.
Escovei
os dentes sem olhar para o espelho e voltei pra cama, me cobrindo inteira com o
edredom. Pontualmente a empregada levava leite com chocolate que eu bebia
envergonhada.
"Estou com depressão, falta um componente no meu cérebro", eu explicava. Ela
dizia que eram os vultos, que o quarto dos fundos, por ter se transformado num
depósito
de9 coisas que ninguém queria mais, estava cheio de espíritos ruins. Sabia que
não era isso, mas gostava que ela
pensasse assim. De vez em quando trazia uma espécie de azeite sagrado que
passava sobre minha testa, enquanto pronunciava palavras que dizia ser a língua
dos anjos.
Os dias se arrastavam, meu marido estava no trabalho, meus filhos no colégio ou
jogando videogame. Todos tocavam suas vidas, independentemente de mim. A dor da
depressão
não pode ser compartilhada.
Na primeira consulta, dr. Olavo, meu psiquiatra, perguntou se algum dos meus
dois médicos anteriores tinha dito que eu era bipolar. Respondi que ambos,
embora tenham
demorado muito a chegar a esta conclusão. Ele disse que os psiquiatras em geral
demoram a dar este diagnóstico, como fica comprovado em vários estudos.
A maior parte das pessoas que têm depressões é tratada como se fosse
unipolar, quando na verdade não é. Isto faz um estrago enorme, o mesmo que
qualquer outro

diagnóstico errado, como pneumonia ser tratada como uma gripe comum. Normalmente
demora-se, em média, dez anos para que o bipolar seja diagnosticado de maneira
correta.
Comigo também foi assim.
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Ele precisava saber se eu tinha tido um quadro de euforia, para ver se a
doença tinha dois pólos. Então contei sobre uma viagem que fiz a Nova York
quando
era bem jovem, e também disse que, certa época, eu chegava em casa todos os dias
cheia de sacolas de lojas caríssimas, nas quais normalmente nunca ousaria
entrar.
Foram informações suficientes para precisar o diagnóstico: eu era mesmo bipolar.
Gastos compulsivos são uma característica marcante da doença. Além disso,
quando a euforia aparece, o bipolar se torna um aventureiro. Por isso, quando
olho
pra trás, nunca sei se alguns perigos que enfrentei, e foram muitos, tinham sido
ocasionados pelo meu jeito de olhar a vida ou pela euforia que tomou conta dela.
É muito difícil separar o que faz parte de mim e o que faz parte da doença. O
espírito de aventura é um temperamento pré-bipolar.
A euforia faz parte da doença, é o outro lado da moeda, e o que ocorre
quando uma pessoa está maníaca deve ser visto como um descontrole mental. É o
oposto
da depressão. A tristeza cede lugar a uma felicidade febril. Uma pessoa em
estado de mania é capaz de comprar três carros em apenas um dia, como o jogador
Robert,
13
do América, que em fevereiro de 2006 declarou que era bipolar, em uma entrevista
para o jornal O Globo. O jornalista colocou o nome antigo da doença, maníacodepressivo.
Quando se trata de termos médicos, os repórteres sempre cometem deslizes. A
expressão maníaco-depressivo já deveria ter ido para o espaço, mas é muito
forte. Não
é errado, ainda existe esse termo, porém os jornalistas, em geral, desconhecem a
troca de nomes.
Como já mencionei, gastos excessivos e normalmente inúteis são
características regulares do transtorno bipolar. Carrie Fischer - a princesa
Leia de Guerra
nas estrelas - relata em seu livro The Best Awful que, aos 14 anos, começou a
achar que as coisas estavam meio esquisitas em casa quando seu pai, Eddie
Fischer,
a chamou para ver as roupas que havia comprado em Hong Kong. Quando abriu o
armário, mostrou 175 ternos de cores diferentes, passando por laranja e verde
limão.
A psiquiatra Kay Redfield Jamison, autora de Uma mente inquieta, comprava
dezenas de livros da coleção francesa Penguin, para formar uma "comunidade de
pingüins"
na sua estante. E também kits e mais kits para picadas de cobra, já que se
imaginava ungida por Deus para alertar o mundo sobre o ataque de serpentes
assassinas
que aconteceria em breve - isto é psicose.
Outro exemplo de psicose na bipolaridade: Mary Pat Gleason levou para o
palco sua doença, com a peça
14
Stopping Traffic [Parando o trânsito], encenada no Vineyard Theater, em
Manhattan. A atriz fez mais de cem filmes. Durante as filmagens de O óleo de
Lorenzo via

Um crítico americano elogiou a mensagem da peça (a necessidade de haver abertura em relação a doenças mentais). Quanto mais as células se comunicam. Na Europa. A sinapse é uma coisa bem romântica. Ela quase toca na outra. com um grupo. além de considerá-la cativante e divertida. a sinapse possa explicar os diversos dons artísticos. O que se conhece hoje do cérebro é que ele funciona através de comunicação e. não burra. como se todas as doenças fossem determinadas por apenas um gene. Nunca soube o que tanto conversamos. e a agência de viagens oferecia um opcional por um preço bem baixo. eu estava sozinha.uma luz queimando dentro dos olhos de Nick Nolte. está se falando de um aglomerado de células. Ele ficou horas falando coisas que não entendi. o que não facilitava muito a conversa. mas não era o caso. E o interessante da célula nervosa é que uma não toca na outra. me distanciei do grupo a fim de viver minhas próprias experiências. como se pensava. Além de ela ser superprotetora. Sua primeira experiência com a doença foi quando. pintar. mais o cérebro vai render. Hoje. só existe na célula nervosa. Uma família que já tinha viajado comigo em outra ocasião estava indo pra lá. o que se acredita que exista no transtorno bipolar é um conjunto de genes envolvidos. mas meio inocente. Minha mãe nunca me deixaria viajar sozinha pra Nova York. O que aconteceu na minha viagem a Nova York. Tentávamos nos comunicar usando um pouco de inglês. que o homem procura há milênios. como andar sem rumo ou tomar um café sozinha em Paris. Não seriam menos de seis nem mais de vinte genes. Na cafeteria. por exemplo. imaginou que durante cinco dias um homem suicida estava no parapeito de sua janela .e que depois acabou desaparecendo como uma luz. um rapaz perguntou se poderia se sentar à mesa comigo. como a hemofilia. Disse oui. de 5 a 7 bilhões de células. vai reger. meu vocabulário só permitia isso. e dava uma sensação de segurança. Era um casal com filhos da minha idade. A sinapse do bipolar é uma sinapse alterada e os sintomas se manifestam a partir dela. Poderia também dizer Je t'aime. literalmente. E. Uma envia informação e outra recebe. na fase maníaca. e isso se dá por meio desse quase contato. Quando se fala em linguagem. a cidade americana 16 era a primeira no ranking das mais violentas do mundo. e não apenas um. sem dinheiro. Eu era ingênua para a idade. Se chamava . 15 A sinapse está ligada aos neurônios. aos 21 anos. quem sabe. formando um tecido. Pra minha mãe. Estava indo para a Europa. A sinapse é a ligação entre duas células que. Talvez a alma. empilhadas. esteja justamente nesse quase toque. No final dos anos 1970. então pude ir também. e faltavam cinco dias para retornar ao Brasil. no caso. Além de ser responsável por sentimentos religiosos e místicos. portanto. Sempre se tentou simplificar. como compor. escrever. quase encosta. através de uma gigantesca conversa química. poderia ser chamado de euforia? Não sei se esse episódio não teria acontecido se eu não estivesse com problema nas famosas sinapses. através de uma linguagem.

O espírito aventureiro. hotel bacana de Nova York. Em Viena minha grana acabou. improvisei um leilão e vendi grande parte das compras que fiz durante a viagem. é preciso que exista a depressão. e comportada demais para querer ficar naquela comunidade. voltando para o meu quarto. vi que o lugar parecia uma comunidade. a ousadia são temperamentos que podem estar ligados ao transtorno ou não. Assim que entrei no hall. e 18 meu dinheiro ia sumindo como cubos de gelo na palma da minha mão. em Roma. No ônibus. No transtorno bipolar os dois pólos devem estar presentes. que se parecia comigo. Eu era muito orgulhosa para pedir dinheiro emprestado. Carreguei as batatinhas para o hotel como se fossem jóias. Ainda não sabia que o inferno somos nós. Ignorei o gerente e os outros funcionários e fui catando uma a uma. Estavam frias e oleosas. Todo o grupo tinha se programado para assistir aos espetáculos de valsa e conhecer a maior montanha-russa da Europa. Para formar um quadro de bipolaridade. olhando o cardápio de palavras incompreensíveis. Coloquei o dinheiro em cima do balcão. sem ter comido absolutamente nada o dia inteiro. quando fui buscar. e. Passamos por outras cidades e outros países. tropecei. para que a pessoa possa ser diagnosticada assim. e elas voaram para todos os lados. onde lia Entre quatro paredes e escrevia diários. inglesas e de outros países por onde eu havia passado. uma televisão grande e cinco pega-ladrões na porta. não quer dizer que ela seja bipolar. Fiquei sozinha com Sartre. e. onde um tapete vermelho começava nos degraus de mármore da entrada e ia até o elevador. lençóis e cobertores gostosos. Se eu estivesse em estado de mania. completamente eufórica. Fiz os cálculos e vi que tinha dinheiro para . chegamos à conclusão de que havia uma coisa que eu poderia comprar: um saquinho de batatas fritas. Minha mãe mandou dinheiro para a casa do filho de uma amiga. Mas não se pode confundir a delícia de ter 21 anos e estar vivendo uma aventura com a doença. 19 Nem sei quem me deu a dica do Taft. No caminho para Nova York. me desentendi com a tal família. Tínhamos mesmo que nos separar. enquanto eu não fazia a menor idéia do que me esperava. Certa noite. Eles iam se hospedar no Hilton. Era muito tímida para fazer um leilão. Ele insistiu que eu ficasse por ali. morta de fome. tinha ar-condicionado. quando nos despedimos.Patrick. Claro que não. Sobraram poucas e. Parênteses: eu estava eufórica. No quarto havia uma cama cheia de travesseiros. O chuveiro era quente. Hipomania é euforia. e não fosse ao Vaticano: "Que careta!" Mas peguei os dólares e fui embora. Mas é bom que se esclareça que se uma pessoa optar em ficar com os descolados. e fomos cada um para um lado. ficaria com certeza com os rapazes em Roma. 17 juntei todas as minhas moedas e fui à lanchonete mais próxima. me deu uma medalhinha de presente. A depressão é o avesso da euforia. e ainda cometer uma variedade de excessos. porém mais branda. e a garçonete começou a separar os xelins das moedas francesas. com diárias bem abaixo do normal. a atração por adrenalina.

fiquei nervosa. . Faz parte da mania sair comprando.Você não está voltando para o Rio.83 graus. Afinal. sempre achei que todas as pessoas do planeta estão interligadas. Entrar no escritório da Varig foi um grande conforto. qualquer pessoa podia encontrar outra. mas que antecipá-la era impossível. Ele juntou alguns voluntários e fez um estudo para provar que todos ali poderiam conhecer todo mundo através de conexões com outras pessoas. Passaria uma noite no hotel e. 21 Deus é Cassiano Gahus Mendes. Eu não conhecia a incrível Teoria dos Seis Graus.ou o cara que serviu de inspiração para o filme etc.Vimos você na Varig. em 1967. Nada adiantou. Mas. Claro que essa opção do aeroporto é inviável. etc. iria até a Varig para antecipar minha volta ao Brasil. que me faria compreender melhor o que se seguiu. Achei que não era pra mim. ou bater na porta de uma igreja que. expliquei minha situação . Milgram arredondou. sentada no chão. Supondo que a diária custasse cem dólares. Sugeri ir em pé no corredor. quando vencesse a diária. inventor do telégrafo sem fio. sim. Era noite e ouvi alguém assobiando.Que favor? . eu imaginava que me acolheria. .Um secador.pagar uma diária e meia. grudadas umas nas outras. numa distância de 5. Fora isso. óbvio. Acredito nisso. as coincidências de fato existem. Eram todos brasileiros e me senti em casa. Queria provar que apenas seis pessoas nos separam de qualquer outra do planeta. com a insistência. a não ser que você seja o Tom Hanks . restavam uns trocados. Meu desespero deve ter chamado a atenção das pessoas que aguardavam nas 20 cadeiras azuis. É uma atitude estranha. "Ah.Que encomenda? . olhei pra trás e dois homens se aproximaram. mesmo sem ter dinheiro. como as dos aeroportos. ou na cabine do piloto. A Teoria dos Seis Graus foi criada por Stanley Milgram." . por questões óbvias. Ele se inspirou em Marconi. sábado? "Como eles poderiam saber?" . era uma emergência. era assim que funcionava. que afirmava que. Voltei para o hotel para pegar minhas malas na portaria.perguntou um deles.estava sem dinheiro e não tinha onde ficar. insisti o máximo que pude. aguardando o dia do meu embarque.Você poderia entregar uma encomenda pra mim? . Entrei num supermercado e gastei boa parte em batons. Mas não estava preocupada. Porém me informaram que eu poderia adiar minha viagem por tempo indeterminado. se o mundo estivesse interligado pela sua invenção.Claro que posso. . 22 . Saí do guichê sem saber o que fazer e analisando a hipótese de ficar o resto da semana sentada no aeroporto. Aí. sobravam cinqüenta.Você poderia me fazer um favor? . Tudo muito simples. ninguém pode permanecer lá dentro quando fecham as portas. no dia seguinte.

Que problema. .Não tenho idéia. . Eu e o cabeleireiro ficamos conversando sobre a Cláudia Lessin. quando notei que era sério.Você não tem pra onde ir. . .prosseguiu Ricardo. A encomenda era para o irmão dela. acho que vou dormir em alguma igreja. para um apartamento no Queens.Que rua? . Quentinha que. . Achei que poderia confiar nele.Que número? O número do prédio também era o mesmo. e a imagem da mussarela borbulhando me deixava sem muita escolha. Tinha um conservadorismo clássico e achava meu argumento extremamente válido. Ricardo parecia tão simpático. ia virar Ionesco. afinal. Agradeci meio rindo. . Pensei nos prós e contras. de certo modo. a gente deixa as malas. pois tínhamos um elo em comum.disse. de maneira brutal. carregava uma mochila verde-camuflada e uma mala que não era dele. A rua era a mesma. Fiquei indignada.Que coisa! Qual o número do apartamento? Se ele falasse o número do meu apartamento. Mas ele refez o convite e. O que conversava comigo se chamava Ricardo. e carregava duas malas grandes. . Que absurdo era aquele? . foi antipático. que tinha colocado o resto da comida numa quentinha para mim.Vamos lá em casa. O diálogo se deu com o mais velho. a garota que havia sido recentemente assassinada no Rio. Estavam 23 se mudando de um hotel. Uma teoria furada. nessa altura.Gabriel se manifestou pela primeira vez e.Ela procurou resumiu Ricardo. E se me atacassem no apartamento? Eram dois estranhos. que deveria ter uns trinta e poucos anos. Mas era inocente e tal. já estava gelada no hotel. como se fosse uma gracinha. e saímos para comer uma pizza. . nós vamos te respeitar . . Não falou nada em momento algum. vi o absurdo da questão. . Você mora onde? O bairro era o mesmo. Ele era cabeleireiro e.Meu amigo pode ligar pra você e buscar na sua casa. o que vai fazer? . Mas falou o número da minha vizinha de porta. . Ricardo era um brasileiro típico. poderia tranqüilamente acontecer. um cosmopolita. saberia depois. Tinha gastado mais um pouco de dinheiro almoçando num restaurante brasileiro 24 na rua 46. onde dividiam um quartopor total falta de grana.Eu faço essa linha Amélie Poulain. eu sei. O outro se chamava Gabriel. Você deve estar com fome. Concordei.perguntei. manchete em todos os jornais. Não podia ficar num apartamento com dois caras desconhecidos. para que eu pudesse ajudá-lo a carregar.Então faz o seguinte . .Pode ficar tranqüila.Por que você não vem morar com a gente? Eu não era uma garota descolada. Ao contrário de Gabriel. . o outro tinha 29. Achei bacana um cara só ter uma mochila. eu nem conheço vocês. Levamos a bagagem até o metrô. e com muita.Imagina. saberia que namorava uma loura escultural. Fiz amizade com um garçom cearense.Não somos tarados. mais tarde. De fato estava. O mais velho era meio grande e um pouco gordo. O segundo gesto antipático de Gabriel foi jogar uma das alças da mala na minha direção.

nunca tinha visto nada parecido. Dãn. ele começou a contar sua vida. e cada vez mais com menos convicção. senti medo algumas vezes. quando alguns sem-tetos mexiam com a gente. achei superelegante.. onde conversamos e acabamos nos divertindo muito. Aquilo foi me encantando de uma maneira incrível. Gabriel pediu várias cervejas. Deviam ser umas onze da noite quando largamos as malas no chão. Só dei um primeiro gole e deixei de lado. . Conta. brincando. 25 O cara era hostil sair pra comer uma pizza que ele próprio pagaria era uma situação embaraçosa. Caramba. oito copos vazios. cheio de músicas e mulheres equilibrando bandejas de um lado para o outro. No trajeto. pedia outra pra mim. no centro de Manhattan. Rita Lee apareceria na televisão com a tal flecha de borracha. suas histórias. Saímos de lá por volta das quatro da manhã. mas tenho vergonha de contar . com aquela imagem enorme de um vampiro atrás de mim? . Depois me levou a um bar punk.. Ele me abraçava para me proteger. "OK". Então de um lado da mesa havia oito copos cheios e do outro. e eu dizia "Ei. Gabriel bebeu umas oito.. Fomos a uma trattoria. de John Badham. garçom na Holanda e catador de uvas em Roraima. Toda hora aparecia algum maluco. Fico sem graça.. olhando pra mim: . No bar. Não sei se influenciado pela bebida. Além disso. Adoro essa imagem. Era um lugar pequeno e divertido. Durante a minha vida. Hoje na rua vi um garoto de programa. Foi açougueiro e lanterninha em Paris. eu não deixava ele me beijar nem nada. mas encantada por ele. Pode contar.Estou apaixonado por você. alguns homens se encantaram por mim pelo mesmo motivo: minha espontaneidade e um certo ar inocente. Acho que qualquer mulher ficaria encantada. onde as garçonetes tinham cabelos verdes e usavam flechas espetadas na cabeça. respondi. Ele também tinha sido garoto de programa em Nova York. Muitos anos mais tarde. E minha antipatia por ele diminuiu. não estava apaixonada. tinha largado tudo para viajar.falei. 26 . cozinheiro na Itália. Senti uma mistura de adrenalina e excitação. num lugar onde eu nem conhecia a língua.Você se importa de ir só com o Gabriel? Estou pregado. Ele riu. Ficamos horas. Chegamos a uma pracinha minúscula. na bipolaridade existem alguns elementos fascinantes. e cada vez que pedia uma pra ele. Sentamos na pracinha. Eu não sabia o que dizer. onde só havia uma 27 - pequena árvore e um banco de madeira. E foi um pouco depois que ele disse.. A frase parece ainda mais idiota nos dias de hoje. Repórter de um conceituado jornal paulista. Ricardo caiu duro em cima do colchonete. Fiquei deslumbrada.Hoje eu vi uma coisa. Entrei no apartamento apreensiva.Não fala besteira resmungou Gabriel. Uma cena que ficou gravada pra sempre na minha memória: quando olhei pra trás vi um enorme outdoor do filme Drácula. o país estranho e a madrugada alta. O que eu fazia com aquele homem ali. mas na época eu só tinha visto tal coisa em Midnight Cowboy. dando a impressão de que está atravessada na cabeça da pessoa. tenho namorado!".

enquanto eu 30 me divertia. pelo menos umas duas horas. veja você. . só pra eu deitar um pouco. com o cabelo escorrendo. Eu confiava nele. Ele ria e dizia: . eu não. Gelei. mas o inesperado era irresistível. Na euforia você é capaz de acreditar no pior dos bandidos. Ia chegar atrasado. . Tomamos café preto com torradas no McDonald's. Banho? .Tenho de trabalhar às oito e preciso dormir 28 e minha confiança nele era que eu era infinitamente pelas ruas. Ele riu. desaprovando as compras . enquanto escrevo tudo que passou. ele pediu para tomar um banho. mas já estava certa que iria. estávamos apaixonados. Eu tinha um namorado. Agradeci e fui embora. O Taft ficava bem perto e. Mickey. "Otários". Ele se deitou e coloquei sobre seus olhos uma compressa Yves SaintLaurent. Gabriel então pediu que eu não fosse com ele até a loja.Está bem. Era um homem que desprezava a burguesia. não conhecia aquele cara e ele estava me pedindo uma coisa com a qual eu não sabia lidar. Era vendedor de uma loja especializada em bugigangas para turistas. Gabriel abriu a porta e apareceu com uma toalha branca enrolada na cintura.Sério. Meg Ryan não estava à minha altura. .eram coisas vagabundas e para otários. subi também. nem reclamar. como num filme com Doris Day. O dia clareou e algumas pessoas já circulavam . Voltei à realidade rapidamente. Logo precisou ir para o trabalho. Insistiu para que eu fosse morar com eles. Gabriel. eu ia me dando conta do que estava fazendo: Cláudia Lessin tinha morrido. Eu tinha tomado um banho e colocado um jeans com uma camiseta do Mickey.Eu só te peço uma coisa.Preciso deitar um pouco. . flutuava a meio metro do chão. Enquanto estava no chuveiro. ele não podia falar nada. seu chefe era esquentado e poderia perceber que ele tinha se atrasado porque estávamos juntos. Para mim. Não é preciso dizer que me apaixonei no mesmo instante.Não sabia. que ele vendeu chateado. que você saia do banheiro vestido. Comprei um rádio em formato de lata de Coca-Cola e outras bobagens. Então repentinamente arrancou a toalha e vi que ele estava de calça Lee. quando chegamos ao meu quarto. Na rua. pouco depois que Gabriel subiu a escada velha de madeira que ia dar na loja. Agora.Você se importaria se eu dormisse um pouco no seu hotel? Não esperava mesmo por aquilo. . Fico bonita após tomar banho. Peguei os três travesseiros que sobravam e fiz um murinho entre nós dois. eu disse que não. vejo mais inocente do que imaginava. ele estava sendo desleal comigo e não merecia mais a minha confiança. Porém.Não posso acreditar num lance desses. Colocou tudo numa sacolona. E assim acabaram os últimos centavos. recém-adquirida. Como o dono estava lá. era assim que ele falava. mas acabou cedendo àquela espécie de conforto. Seu chefe era gordo e parecia um mafioso. que havia comprado na 29 passagem por Paris. total.

Éramos uma família. e levar as roupas para lavar. A hora do jantar era sempre o momento quando conversávamos sobre o que tinha acontecido durante o dia. tijolinhos aparentes e escadas de incêndio cruzando as janelas. Minha incapacidade de me fazer entender ao tentar comprar uma cortina para 31 o boxe e a dificuldade de lidar com as máquinas da lavanderia. . . Levei um susto horrível. De fato. No seu bairro. Saía de casa e ia direto para a rua 46. apareceram quatro senhoras mineiras que estavam passeando. Quando o avião pousou. Eram como Butch Cassidy e Sundance Kid. sempre jogava longe. Eles tinham vários passaportes falsificados e o cabeleireiro era conhecido por ter invadido. O cabeleireiro ganhou e ficamos na sala. O edificio era igual ao dos filmes.respondi. Lá. . Por dentro. de baby sitter ou arrumadeira. porque queimava meus dedos. Gabriel era exilado político.De repente alguém me abraçou por trás. Depois eu tomava um banho de espuma. Desceu correndo as escadas e sua mão tinha esbarrado num prego no corrimão. "Sim. e um pouco de sangue manchou minha camiseta. era conhecido por ser o doido que viajou dentro de uma asa de avião. Eu nunca pensei que um troço desses fosse possível. Da sala. sendo que cabia a mim o papel de Katharine Ross. clientes me ofereciam empregos informais. bandeira do Vasco. eufórica. . poucos andares. de madrugada. e alguns se mostravam interessados em mim.Nunca mais faça isso. medalhinhas e porta-retratos com sua mãe e seus sobrinhos. Mas era ele. Gabriel preparava pratos maravilhosos. Um dia fiz um arroz que ficou grudado na panela e despejei todo na lixeira. pra você comprar cigarro. fotos da namorada.Vem morar com a gente . entrando escondido. Não era raro Ricardo voltar e estender uma nota. e meu predileto era arroz francês. quando passavam pra mim. 32 De manhã saíam para o trabalho e deixavam dinheiro para que eu pudesse comprar coisas como frango e Coca-Cola.falou. como uma estrela. Aquilo me divertia muito. contou que a primeira vez que foi a Manhattan fez isso. ele foi direto para o hospital. Faz parte da euforia um poder de sedução.disse. a joalheria de um famoso hotel do Rio. Colocou encostado na parede e perto do colchão tudo que havia num saquinho no chão: santinhos. Todas as noites. ficando no restaurante brasileiro até Gabriel ir me buscar. Tiraram par ou ímpar para saber quem dormiria no único quarto. Não existia realmente felicidade maior. Uma tarde. sim. e ali se tornou uma espécie de segundo lar. eu concordava. Mulheres. tem muita gente passando fome no mundo . Antes de dormir acendiam um baseado. Fomos morar no térreo.Vou pensar .Toma. Eram minhas únicas tarefas. coisas assim. sim!". onde só havia um saco de dormir. e. pela janela da cozinha: . e só cheguei a essa conclusão bastante tempo depois. pude ver Ricardo arrumando suas coisas. Eu apenas ria. no Brasil. aonde eu ia todos os dias.

Gabriel namorava uma garota que morava em Santos. quando me viu dormindo com o rosto encostado na mesa.disse uma delas. estava bonita. Quando terminou a história. depois do trabalho. Acordei bem-disposta. Na fotografia. . Na mochila também havia folhas datilografadas. com os olhos semicerrados e os cabelos lisos despenteados. minha filha? . . mesmo na frente da sua.Tenho certeza que ela estaria curtindo muito respondi animada. Me deu uma colcha e adormeci.Ela não está sozinha. Era um depósito cheio de caixas e garrafões. mas ele tinha certeza que sim. realmente pareciam indignadas com a minha situação. Eu era mesmo. Também deixei uma foto lá.Mas você já sabia. porque sabia que lá dentro havia coisas escritas por ele. chegando e me dando um beijo nos cabelos. 34 Ela poderia namorar quem quisesse e Gabriel também. Quem sabe.Fiquei conversando na mesa delas. e insistiram para que eu aceitasse um dinheiro emprestado. Passava algumas tardes em uma pizzaria. Deitei num sofá e ele improvisou uma mesinha. ele não se importou.Como você pode ficar assim sozinha. tantos anos depois. até o dono do lugar dizer onde eu estava. né? Você leu as cartas. que recusei de imediato. Elas eram bem ricas. As coisas que eu não entendi nas cartas fizeram sentido e fiquei muito envergonhada. me chamou para descansar lá dentro. que evidentemente não dei. Uma vez fiz uma coisa muito desleal. Uma pena eu ter visto e devolvido. além de uma historinha. virando ao contrário uma lata grande de massa de tomate. enquanto tomava vodca. penso que Gabriel também poderia ser bipolar. Nunca mais conheci ninguém que escrevesse tão bem. ela tinha um problema sério e ele estava me contando tudo. que trabalhava no caixa. de mulheres de várias partes do mundo. Quando Gabriel passou para me buscar na cantina. Parece cinema. ele me disse: . Tinha 35 . Minha vida era um filme. nas quais ele tinha escrito uma espécie de autobiografia. e dizia que entre eles não existiam pactos de fidelidade. enquanto ele trabalhava. Abri sua mochila. a mochila tinha um monte de cartas de amor. e repetindo sempre que era Gabriel que ela amava. Na verdade. onde um italiano louro e bonito dava em cima das mulheres. Ficava escrevendo meus diários em uma das mesas e às vezes ele me oferecia uma fatia de pizza com Coca-Cola. de maneira divertida. Pedi para ler. . está comigo disse Gabriel. estranhou minha ausência. Gabriel começou a me contar coisas sobre a menina. Outra colocou escondido uma 33 nota de cem dólares na minha bolsa.Cara. Como eu poderia estar naquela cidade sem ter sequer um dólar? Pediram o telefone da minha mãe. Acho que elas ficaram mais preocupadas ainda. Encontrei fotos e cartas da namorada que realmente relatavam seus casos amorosos. No fim da tarde.Fico pensando se fosse minha neta . Certo dia. você é totalmente maluca .ele disse. Olhando de longe. consternada. . mas não é. Eu neguei. coisas muito íntimas.

repentinas mudanças de humor. . No dia seguinte. Para finalizar. no metrô. "Não me aluga". quando apareceu sua foto no jornal. me deu de presente um engradado de madeira com seis garrafas caçulas de Coca-Cola. que se tornaria moda. de forma violenta. . com 21 anos. 36 Eu queria que o trajeto não acabasse nunca. . Um cara simpático. Meus óculos estavam tortos. simplesmente estava embriagada. conheceu a rua 46. mas em pouco tempo ele estava lá. costumava dizer. Muito tempo depois eu iria com aquela jaqueta à Cinelândia. para avisar do secador. Era amável.Parece que você está voltando da guerra. chorava sem parar e ficou de cama. Também sumiu. mas era dificil de encontrar.Pra você assistir ao filme do avião. Então vou pular logo para o último dia. . os cinco dias se transformaram em dois meses. quando eu comentava alguma coisa que tinha visto. chorava. Gabriel comentou: . Agora nós vamos voltar a comer sanduíches. eram presentes pra ele e os sobrinhos. Pediu que eu ligasse para seu irmão quando chegasse ao Rio. quando os dois foram me levar até o terminal do ônibus que me conduziria ao aeroporto.Fala pra tua mãe não te deixar mais assim. Um dia brigamos muito feio. Gabriel37 me entregou um saquinho cheio de relógios roubados da loja onde trabalhava. No táxi. tão usado que a correia estava puída nas pontas. Era como se eu fosse uma princesa. por favor. Me deu seu Timex. As pessoas podem ser muito diferentes umas das outras. Quando chegamos. em uma matéria sobre traficantes. O secador estava cheio de drogas. Nunca tinha ouvido essa expressão. Era Síndrome da China. Esta história é imensa e daria um outro livro. andando de metrô de madrugada na cidade mais violenta do mundo. e algumas vezes hostil. Não assisti ao filme.me falou Ricardo. mas desapareceu. Disse que passaria lá em casa imediatamente.Riram. Em vez disso. uma camiseta e por cima a jaqueta verde. num comício pela Anistia. Eu nunca quis fazer isso com ela. largada no mundo. e muito gente fina. Mas é certo que se jogar de abismos sem nem sequer olhar para baixo é típico do bipolar. numa prisão na África. Enfim. Guardei o dólar por muito tempo. ele me deu um dólar: . logo que cheguei da viagem liguei para o irmão da minha vizinha. era longe. O quente era o Jornal do Brasil. . Não faz isso. o que pra mim era pouco. Também disse: . Mas tenho uma fotografia onde ele parece entediado. assim como a jaqueta verde.E completou: . porque uma das hastes tinha caído e estava presa com durex. foi um episódio de euforia? Acho que essa pergunta jamais será respondida.Você é uma menina muito rara . "Cadê o secador?" Só notaria o porquê da sua aflição meses depois. como ela existem dúzias nas Lojas Americanas. e fiz uma bola de papel com a historinha que tinha escrito pra ele. principalmente quando lia O Globo em pé. presente dele.Você não conheceu Nova York. É meu . muito maior do que eu. Minha família tinha acabado de se mudar para a Barra da Tijuca. eu usava uma saia de lã abaixo do joelho. custava dois dólares. cheio de emoções. O irmão era um alto executivo de uma empresa e mandou o motorista ir buscar.Riram. Mal sabia ele que minha mãe tinha ligado para todos os hotéis de Nova York. de James Bridges.pediu ele. Ter vivido um romance em Nova York. Que nada.

Meu psiquiatra fala que traumas e o modo como fui criada atuam sobre essa vulnerabilidade.explica. . como o estresse. Está explicado por que nunca fui muito além do que me permitia. e o terapeuta recomenda. O livro vai sendo escrito e reescrito. Não posso fazer um livro sobre bipolaridade a doença e as técnicas. Está aos pedaços. mesmo as que nunca viu antes. porque neste estado você confia em todas as pessoas.Não. Me surpreendo. quase nada. não quer dizer que as doenças 43 são puramente biológicas. porque separo as duas coisas: ele cuida da minha doença. e sobre minha doença. Fatores externos. os traumas e condições relacionadas ao meio ambiente também influenciam no aparecimento da doença . Duas coisas diferentes. está muito maníaca. Não aceita a hipótese de o meu transtorno estar ligado apenas às sinapses e diz que existem coisas. Se uma pessoa vai tratar de uma depressão leve numa terapia cognitiva comportamental.Quando se fala que uma célula nervosa conversa com outra quimicamente. que é uma euforia branda. todas as gramas são verdes. e Angela. Olavo é categórico quando diz que a psicanálise ainda não mostrou sua eficácia no tratamento da doença bipolar. E agora essa novidade. . As montanhas do lado avesso recebem relâmpagos furiosos. em várias páginas do Word. Não quer dizer que a doença seja 100% química. inclusive. . A resposta é sempre química. Pelo contrário. porque se sair "cometerá um monte de besteiras". por exemplo. minha psicanalista. Ela acha que a infância e tal também tem a ver. Minha infância. e isso deve incluir algumas coisas.Ela está muito deprimida? pergunto. mas hipomania. Junta-los está sendo dificil. Foi nesse momento 42 que eu soube que não tinha mania. Não pretende me ajudar opinando sobre o livro. Vou descobrindo coisas enquanto escrevo. Só posso escrever sobre minha experiência pessoal. Angela não acredita só em química. Todas as pessoas são bacanas. porque a química do cérebro mudou. Acabei de conversar com o meu psiquiatra. das minhas inseguranças e tudo o mais. uma caminhada de uma hora todos os dias de manhã. minha vida teria sido bem menos excitante do que foi. Tenho que me lembrar de tudo e chegar a conclusões sozinha. mesmo quando a intervenção não é. escondidas ou não. e não posso escrever sobre a doença sem falar de mim. Como quando conto meus sonhos no consultório e ela faz questão que eu mesma interprete.Vivi muitos outros perigos. Digo que. menos ainda. Murilo Mendes Sei muito pouco de tudo. e o psi não influencia. Trata-se de um livro quase em tempo real. que é herdada. Ele estava chegando de uma visita a uma bipolar. . eufórica. que desencadearam a doença. nunca me arrependi de nada do que fiz. a pessoa pode melhorar. A falta de medo afasta o perigo. Se está maníaca precisa ter atendimento domiciliar? Precisa. Que coisa. Dr. Sobre minha família. Para mim é útil.

46 . .. Noto isso agora. volto no tempo e vou gravando conversas e anotando tudo que me contam em guardanapos de papel. E o perdoei. Em determinado momento. . nada.Meu irmão interrompeu meu pensamento. mesmo acreditando que ela sempre existiu dentro de mim. Minha mãe então me disse que meu pai tinha ido viajar. claramente. Meu pai me salvou de um raio. . no dia do seu casamento. Em vez disso. A psiquiatra bipolar Kay Jamison. Não existe mãe. deve ter ficado claro para mim: meu pai havia me abandonado. meu irmão dez. No entanto. e apostava em cavalos. Mas não guardei nenhuma imagem. relata sua infância 44 e adolescência e descreve com minúcias histórias sobre seus pais. sempre pensei nele com amor e orgulho. enquanto olhava um retrato dele. América fanático. . Estas são as três histórias que mais ouvi durante a vida e talvez por isso eu seja assim. Outro dia tive uma crise de choro. Existem tão poucas peças que seria mais prático inventar. estava terminando de se arrumar. claro que ela não era viúva. rompi com ele. e minha irmã apenas três meses. Na certa. conversando com meu irmão. Na minha casa. cinco anos mais velho. quem perdoou foi aquela criança aflita. tive incríveis revelações. todos me dizem. na praia da Rosa. Pudera. Ele me perguntou se eu me lembrava das férias que passávamos na Ilha do Governador. Sobre toda essa história só posso contar: em Portugal. da casa cheia de amigos . um antepassado. Sempre achei que minha memória não chegava antes dos cinco anos. nenhum beijo. Era um homem de coração generoso. como o poeta Murilo Mendes. Não tenho muito para dizer. eu tinha cinco anos. morte era uma coisa que não se comentava com crianças. Na verdade. Depois de ele ter feito isso comigo. O pai do meu bisavô viu uma sereia.Lembro das cadeiras da varanda. Meu pobre pai.Não. não é de todo incomum. Lembrava inclusive de uma aldeia de pescadores. 45 era um pai amoroso. Os dois travaram uma luta e o noivo acabou morrendo. fiquei esperando inutilmente que ele voltasse. nem de algum momento que passamos juntos. Sei pouquíssimo sobre ele: era jornalista. que prefere o termo maníaco-depressivo ao atual bipolar . Para me poupar. não existem irmãos. Quando uma menina tem essa idade. Tudo esquecido. De tudo. quando um gato selvagem entrou pela janela. Mas. Na minha família mentia-se para que as crianças fossem poupadas. alguém que prefere a nuvem ao ônibus. Com a demora.A mamãe era viúva. claro que eu lembrava. Quando meu pai morreu.completei. gesto. provavelmente perguntei por ele.Minha mãe não gostava de falar do passado. seu pai pertence só a ela. Papai sempre estava com a gente. seus avós etc. sem saber que ele precisava ser perdoado dentro de mim. do mar.. E a raiva que devo ter sentido nunca se manifestou.por achar que esvazia a gravidade da doença -. Sim. Durante toda a minha vida. Eu não guardo sequer um flash do seu rosto. era como se nem existisse. do vira-lata.

O que eu não lembro. ela e seu pai estão no Jóquei e a menina olha com admiração para ele. Meu irmão perguntou o que era. durante uma sessão de terapia.E continuou: . e é natural que seja assim. você. Um raio partiu a planta maior ao meio. escrevo. Bem próxima do portão baixinho. Se lembra daquelas pitas que tinham no jardim? Uma grande e outras duas menores? Nunca tinha ouvido falar no nome dessa planta. onde minha avó paterna morava.disse meu irmão. Sempre que contava essa história. O papai agarrou você e correu para um dos quartos. larga e com folhagens pontudas e espinhosas. As coisas que o inconsciente apronta: quando pequena. . no momento que ele me abandonou. num determinado momento. o papai e a 48 mamãe. Meu pobre pai. não diga "Não". . (Quando tinha vinte e poucos anos.Eram três pitas e o jardim era forrado de pedras brancas. correu e. Quase todas.É verdade que o papai me salvou de um raio? Minha mãe contava que. . passando pelo corredor. uma vez. vou te perguntar uma coisa. mas as coisas que lembro são muito nítidas. Fiquei atordoada. me lembrar de coisas escondidas. a perigosa linha de trem. O raio entrou pela casa. E ainda tenho esperança de um dia. apaguei tudo que havia sobre ele da minha memória e o abandonei também. enquanto lembro. torcendo para o cavalo no qual apostou. . a personagem principal se lembra de quando era pequena. o raio disparando pelo corredor? Pedras voando? Estávamos falando de George Lucas? Meu irmão disse que é possível acontecer. perto de Vassouras. Na cena sem som. num flashback. Um raio caiu no lugar onde eu estava e fulminou o canteiro. ou pelo menos do seu rosto. -Zé. eu. estava assistindo a um filme e. meu pai me levava às corridas.) Durante a produção deste livro. Com o choque. então.Aquilo realmente me deixou impressionada. . . E saio procurando pessoas que possam me ajudar a desencavar o passado. E. as pedras voaram para a varanda. com almofadas xadrez? Como poderia me lembrar de tantas coisas sem importância e não lembrar do meu pai. Porque. Meu pai. que está vibrando. São intimidades que estou compartilhando. me apaixonei muito pelo meu pai. antevendo o perigo. mesmo nunca tendo me arrependido de nada que fiz durante meus momentos de euforia. entrou na casa. o tempo todo ali com a gente? Percebi que. A história que cultivei durante tanto tempo era assim: estaria chovendo fino e trovejava. dizia que era uma espécie de cacto. Como assim. me agarrando.A história é a seguinte: nós estávamos na varanda da casa. ou mesmo andando pelas ruas. Mas me lembrava muito bem delas. algumas coisas precisam ser guardadas. eu estava no jardim do sítio. Ficava em Barão do Amparo. 47 Vou e volto no tempo. escrevo enquanto vou lembrando. então me lembro de todos os detalhes.Não foi assim . meus amigos nem entenderam. Não todas. Eu comecei a chorar compulsivamente. e saiu pela porta da cozinha. cheguei a ir adulta para o sítio. não lembro. o filme era bem ruim. Como eu podia me lembrar da aldeia e até de uma cadeira de ferro branca. porque assim você vai destruir a história mais romântica da minha vida.

Então a história era melhor do que eu imaginava. não lembrava mesmo.. nunca sabia para onde ela ia. porque era restrita às visitas: com uma vitrola antiga. Ele recordava tudo. direto do telejornal. onde meu pai morreu. e outras coisas quando eu já tinha mais de vinte anos. da Coppe/ UFRJ. aterrorizada com as notícias que vinham da sala. E me contou uma história tão maluca que só não duvidei porque ele é médico. Na sala havia uma televisão em frente a 50 uma poltrona. Quando pequena dormi lá diversas vezes. O marca-passo entraria no Brasil no ano seguinte. Lembro-me de muitas coisas que aconteceram ali quando eu era pequena. 51 Quando ele parou de respirar para sempre. te agarrando e apagando o fogo dos teus cabelos. Fiquei emocionada e queria saber mais coisas. jamais eram abertas.Zé. O que me impressionou foi que ele morreu "cinco vezes". que balançavam com o vento. As cortinas muito finas de voile.Você devia ter uns dois anos. .Você se lembra da vela? . minha mãe parecia estar sempre viajando.Disse também que. Era uma casa linda e enorme. temendo que algo acontecesse a ela. se a porta da cozinha não estivesse aberta. durante o último jogo da Copa.. Eram as duas coisas que eu sabia. e. Eu sabia que meu pai tinha morrido do coração. quando tudo voltava ao normal. especialista em raios. Meu irmão contou mais do que eu esperava. que davam para o jardim. eu rezava terços sem parar. sempre carregada de uvas verdes. e mais nada. e uma cadeira de balanço. Minha avó exigia que dormíssemos cedo. Mas sabia que não havia luz no sítio. estava no colo da mamãe e inclinou a cabeça indo de encontro a uma vela.emendou ele. Estávamos na casa da minha avó materna. Meu irmão. As janelas de madeira azul-claro. e no quintal delicioso tinha uma parreira. Era um amigo querendo . Tinha um relógio de cuco quase na entrada da sala. Uma árvore de Natal que brilhava e girava. fala da morte do papai. Pedras se lançando contra nós. que ainda não tinha completado dez anos. e ficava numa sala onde nunca podíamos entrar. e eu ficava deitada e insone. e ele me diz que esse tipo de fenômeno de fato existe. imagina. meu pai pegava o radinho de pilha para continuar ouvindo a transmissão do jogo. (Procuro o professor Carlos Portela. Me lembro do quarto de costura e do escritório. além da mesa de muitos lugares. A copa contígua à cozinha era grande. talvez tudo explodisse. foi correndo atender. e seu coração funcionava de modo imperfeito. Mas não na quinta vez. Vela? Não. Seu irmão Fernando fez massagens cardíacas todas as vezes que o coração do meu pai parava. bateram no portão. Uau. Papai morreu aos 36 anos. também me deixavam com medo. Que história de vela era essa? . na Copa de 1962. um piano e sofás de veludo. e tudo era novo pra mim. O papai estava no sofá e voou até você. Ele sofria da Síndrome de Stoke-Adams. o que poderia tê-lo feito viver por muitos anos. na Zona Norte.) 49 . era sensacional.

. Quando olhou para cima.Jamais pensei que você estivesse triste ou com depressão. mas foi impactante: eu não conhecia aquele sentimento. Você não pode ficar deitado olhando pro teto. minha melhor amiga de adolescência. Aconteceu de repente e. sem mais nem menos. Acho que depressão era a última coisa que passava pela sua cabeça.trocar figurinhas. Segundo o dr. Olavo. A pessoa 52 está deprimida mas não é burra. Ficava com Anistia no colo. Não sei como fiquei boa. A faculdade de direito. Que maluquice . Mais do que isso. no entanto. Depressão e euforia eram palavras que pareciam estar restritas aos meios acadêmicos. No primeiro dia de aula me apaixonei por Sidney. Como disfarçar? Ficava deitada na cama lendo. sempre foi livre.como permitiam isso. Achei que você quisesse se recolher um pouco . anunciando a vitória do Brasil. como quem não quer nada. Sempre soube que havia algo errado comigo e aquela sensação. quando nos falamos pela primeira vez. Porque todo mundo vê a leitura como uma coisa nobre. Ontem encontrei Beth Michelsen. por isso considerei normal sua reclusão. Ele conta que sentiu uma mistura de desespero e culpa enquanto brincava. pensei: "Vou me casar com esse homem. "fazia parzinho" com a de jornalismo." Ainda não era um desejo. adoeci. Cada caso é um caso. não sei. ninguém vai te incomodar nunca. mas uma constatação. Ela não sabia responder. Só sei que precisava esconder o que sentia e era um sacrifício estar com alguém. no meu. Não tinha forças nem ânimo. Vão achar que você é preguiçoso. embora não conseguisse nunca sair da primeira página. sem dúvida. mas não podia suportar a realidade. Não me lembro de quase nada durante esse período. que viria a ser meu marido. mas pode ficar deitado lendo um livro. Tinha vinte anos e há três namorava José Antônio. Nunca tinha feito essa pergunta a ninguém. o que daria no mesmo. não teve como me ajudar. receber visitas era como estar na ante-sala do inferno. Às vezes minha mãe pedia aos meus amigos que fossem me visitar. ainda estão. mesmo porque nem sabia que isso existia. Ler é um ótimo álibi. Se você pegar um Shakespeare no original. o céu estava coberto por centenas de balões de gás. Porque eu não sabia juntar a + b. Sabia que papai estava morto a dez passos dali. por incrível que pareça. usando táticas erradas. nem mesmo de nenhum fator externo que possa ter desencadeado a doença. Minha mãe era uma mulher inteligentíssima.contou. Devo ter pensado: finalmente enlouqueci. que eu odiava. Perguntei a ela como eu era vista pelos outros. Não foi uma depressão tão forte como todas as outras que viria a enfrentar na vida. . mas. uma cachorrinha preta do DCE. O tempo passou. só sentia um enorme cansaço e nenhuma compreensão das coisas que se passavam ao meu redor. significava alguma coisa. 53 Você sempre foi diferente. e às vezes levava minha beagle para assistir às aulas. mas pelo menos é um leitor. Sofri minha primeira depressão aos 18 anos. Não me recordo bem como as coisas se passaram e quanto tempo durou. Fazia tudo para chamar sua atenção.

Assim que saí da sessão terminei o namoro. nem de aprendizados. pedindo que eu esperasse mais três meses. e naquela vida namorava José Antônio. Aceitei. aos olhos dos outros era um distúrbio. Eu disse à entidade que iríamos terminar nesta encarnação também. Aos 22 anos me casei com Sidney. Eu me achava extremamente capaz de fazer qualquer coisa. Mas não adianta. Porém. viesse ele "mendigo ou rei". não respeitei o trato e retomei minha função junto ao Sidney. desde o primeiro dia. de Fátima para que ele ande. Agora entendo sua preocupação. Queria ficar perto dele. Então me levou a um centro espírita. marcou uma reunião para saber quem estava a fim de participar. que não serviu de nada. O motorista pode implorar a N. Apenas quando estive eufórica fiquei mais empolgada com as aulas. fui a primeira a levantar o braço. junto com um amigo. Falou também que havia muitos extraterrestres na Terra e eu era um deles. mas nem todos os alunos tiveram coragem de se arriscar. Não perguntei por quê. Eu não vivi. porque essa é a maneira incorreta de se tratar de um distúrbio. Talvez tenha sido o homem que mais me amou. e ela ponderou. o carro só vai andar se você colocar gasolina. me ofereceu a tal viagem à Europa. Via que alguma coisa estava fora da ordem. talvez no mesmo lugar onde estive durante todas as aulas de todos os colégios que freqüentei. esse era o meu objetivo. Minha mãe. como num folhetim. A faculdade também perdia um pouco a graça porque minha mãe ia me buscar ao final da aula.Sidney não me dava bola. Ou por um milagre. minha mãe estava preocupada. mas na verdade só o amor que eu sentia me interessava realmente. e essa busca só cessaria quando finalmente ficássemos juntos. Alguns alunos foram impedidos pelos pais de continuar o projeto. A maior parte do tempo era como se eu não estivesse ali. Ele resolveu fazer uma revista. mas nunca poderia imaginar que eu estava passando por um transtorno de humor. Quando. ia para a faculdade com roupas mais ousadas do que o convencional. o mesmo de agora. Invejo quem viveu intensamente os anos de faculdade. eu não estava ligando para as coisas que o governo aprontava. e sim muito distante. a não ser ouvir que eu tinha sido inglesa em uma outra encarnação. 54 Me tornei sua secretária. Era 56 . Ela dizia que eu estava diferente. indicado por uma amiga de trabalho. porque o que eu via como alegria. Este período não representou pra mim um momento de descobertas.S. estava interessado em mudar o país. inclusive eu. Glauber ainda não tinha dito que Golbery era o gênio da raça e vivíamos a pré-abertura política. em troca do meu trabalho na revista. Disse também que ele iria me perseguir por todas as minhas vidas. É a mesma coisa que um carro ficar sem combustível no meio de uma avenida. embora também escrevesse de vez em quando. mas as possibilidades não são grandes. Supergirl. Mas. quando voltei. 55 Parênteses: é importante dizer que fui levada a um centro espírita.

Quando tudo voltou a fazer sentido. As coisas corriam bem. em vez de ficar feliz por falar com ele outra vez. e eu forrava. geralmente filmes de arte que só conseguia ver pela metade -. "Estou um pouco triste". Fingir não é bom. bater papo. Tudo mudou de maneira vertiginosa. Desde criança aceitei tudo. fingindo que estava lendo. nunca foi manifestada. quando demos conta. E ainda precisa fazer um esforço além da sua capacidade. Tudo era bliss. exausta. me sentia diferente de todas as pessoas. Mas na época o meu humor já não era o mesmo.constrangedor. nada disso tinha . professores. Gabriel sempre achou que tínhamos domínio do nosso corpo e humor. Não poder fazer isso e aquilo. Não existe palavra em português para esse sentimento. e tentava mais uma vez disfarçar.e terminei com Sidney. por perder sempre a melhor parte. ficamos juntos outra vez. A revista fez com que eu e Sidney nos aproximássemos muito. Ele falou para eu sair dessa. Mas eu não tinha vontade de ir à praia. demorando um tempo calculado pra virar a página. não tinha assunto. Foi traduzido como felicidade. Porque você junta a dor ao segredo. éramos muito apaixonados um pelo outro e. Eu não era nada. as reuniões de pauta eram vibrantes e divertidas. Diz Berta Young. "Coloque esse quadro aqui ou ali". Fiquei apática. me tornei adolescente. e. O importante era que ninguém soubesse de nada que se passava dentro de mim. que provavelmente sentia. nada tinha a oferecer e não conseguia entender o que acontecia em volta de mim. a sensação de bem-estar havia desaparecido. E depois de um ano resolvemos nos casar. Nosso romance estava no auge. e era com profundo desânimo que decorava nosso pequeno apartamento num condomínio horizontal em São Conrado. Eu era oca por dentro. Toda a revolta que eu sentia. porém é alguma coisa mais plena. que eu deveria dar um mergulho no mar. o conto de Katherine Mansfield. coisa que nunca aprenderia a fazer. depois do que "fiz com ele". ele confessaria que nunca conseguiu me amar com a mesma intensidade. (Lembrei agora de Bliss. estudar. nosso namoro era quente. e vivíamos sempre juntos. "Forre os sofás de verde-água". 57 Passei a não entender as aulas. como êxtase. tinha medo de que achassem que eu era louca. Gabriel ligou de Santos e disse que estava indo para a Índia. Era seu grande sonho. Não tive mais condições de enganar tanta gente . minha analista ainda está procurando. já estávamos namorando. me sentia profundamente triste. E o ódio.) Não sei precisar quantos meses se passaram até eu cair no abismo de novo. estava alienada. amigos. a personagem principal: "Oh! Não haverá um meio de exprimir essa sensação sem falar em embriaguez e desordem?" A alegria interior narrada por Berta é o que mais se parece com a hipomania. sem ao menos poder desabafar com alguém. sugeria alguém. Para mim.família. tinha tido uma pequena recaída. com a namorada. eu obedecia. muito tempo depois 58 de casados. o que te esgota mais ainda. Ficava deitada o tempo inteiro. Eu estudava à noite e ela achava super-perigoso que eu voltasse para a Barra sozinha. Por isso não me surpreendo que. quando adulta. consegui dizer. Gastava toda a minha energia tentando enganar a todos. Eu não tinha condições de namorar. Sempre aceitei. Ninguém pode realmente entender. namorado .

liguei para José Antônio. Fiquei transtornada e transformei um zero num oito. nunca quis usar véu e grinalda. era centralizadora. que pelo menos desse engano. o que é alegria e euforia. 61 O tempo passou e nunca mais ouvi falar dela. eu fazia o jantar. Não fiquei entusiasmada com a 59 roupa que iria usar na cerimônia. Eu trabalhava num lugar que odiava. e tentei forjar uma felicidade maior do que sentia. fiquei feliz ao saber que havia se mudado para Nova York. a garota passou a ser um fantasma pra mim. como modelo vivo. que ele mesmo me contou. Essa era a minha mãe. Quando chegávamos da Puc. Era de fato encantadora. Antes de viajar.Vou fazer uma mastectomiazinha . (Estava doente. que já era médico.muita importância. seus decotes em vestidos de seda que usava na faculdade. achei um papel com o número do seu telefone. Minha mãe também não dava muito espaço. e não pôde estar presente. Mas quando meus filhos já estavam adolescentes. Certa vez. No dia do casamento. Tsc.Você vai ser operada? De quê? . Até na lua-de-mel me senti assim. O sentimento que me envolvia era desconfortável e me incomodava. o que não gostava era do que ela despertava nele. já que não sabia cozinhar nada. e chorava muito. e quando fiquei grávida 60 acumulava as tarefas de ir à faculdade e cuidar da casa. . mas pouco adiantava. onde posava nua numa escola de pintura. Ela sempre foi muito bacana comigo. e providenciou um terninho branco de linho. Agora. e chorei muito mas não era de tristeza. . de longe. Minha mãe estava internada. estava feliz e triste. as roupas elegantemente provocantes. mas nada que pudesse ser chamado de mania. no caso de ele telefonar. Talvez notasse meu desinteresse. Tinha a pele muito branca e era extremamente sexy. Quando soube dessa paixão platônica. era uma espécie de melancolia. me fazia confidências. aliás não fazia idéia. Ela não contou nada pra gente.) Casei num cartório em Copacabana. Mas quando você é bipolar. Lembro dos períodos de felicidade. passei no hospital para ver minha mãe. O início do meu casamento foi complicado. com câncer de mama. Os momentos de depressão branda foram muitos. fazendo quimioterapia. Será que uma pessoa normal ficaria feliz com a viagem? Acredito que não. mas o que eu poderia fazer? Eu era assim. Na véspera. dizendo que ela havia morrido. é muito difícil distinguir o que é tristeza ou depressão. que geralmente se resumia a ovos com bacon. conversamos bastante tempo. Meu marido se encantou por uma garota que estudava na nossa sala. .ele perguntou preocupado. sua coragem de fingir que conhecia a matéria e ir enrolando o professor com uma história inventada e cheia de nuances. quando ia mandar um terno para a lavanderia. leal. quando meu marido nem sequer se lembrava mais dela. Anos e anos mais tarde. Tinha um ciúme doentio. Eu gostava dela. nem mesmo para o meu irmão. naquela pousada cheia de passarinhos chatos. para que. e só soubemos disso na véspera da operação. vejo sua euforia.disse ela. recebi o telefonema de sua melhor amiga.

Sempre achei estranho não poder ler mas poder ficar olhando para as paredes. enquanto contavam como seus filhos tinham mudado sua visão do mundo. durante o expediente. O ciúme. Estava mal. apesar de amá-lo muito. colocando o livro dentro da gaveta. encontrava outras mães que tiveram bebês na mesma época que eu. nadava. quando um dia se levantou bem cedo e se deitou na linha do trem. O fato de estar sempre triste por ter ciúmes exagerados se mistura aos momentos de distimia (depressões brandas) que passei. desestimulante.Este sou eu. quando é destemperado. Senti uma pontada de inveja. já que não havia tarefa alguma. tipo das nove às seis numa repartição pública. diziam o que eu deveria e não deveria fazer. Quando 62 cheguei. mas nossas palavras eliminavam a harmonia da conversa e foram ignoradas. aberto em cima da mesa. negativa. e quando acabamos de jogar o peixe tinha morrido. pude cuidar do bebê. Quem é ciumenta sabe o que é isso. Disse o quanto era absurdo ler no trabalho. ser feliz me consome". e todas as mulheres me pareciam lindas. sentadas a uma mesa em volta da piscina. eu estava pesada. sorriu e comentou: . Tive uma crise de choro. que era agradável e se misturava à reserva florestal. Passei a trabalhar em duas assessorias de imprensa. que a fralda não deveria ser 63 trocada daquele jeito. Estavam sempre sorridentes e orgulhosas. graças à ajuda da mãe do meu marido. a frase que tinha chamado sua atenção era: "Não tenho tempo para nada. Odiava visitas. Quando passeava com o carrinho pelo condomínio. foi muito tranqüilo. e tudo aquilo me deixava tonta e cansada. Li Boquitas pintadas aos pedaços. Um casal de amigos me ligou pra jogar buraco na casa deles. Quando Maria Clara nasceu tive depressão pós-parto e. com depressão pósparto. Quando estava alegre. ouvia música clássica porque sabia que faria bem ao bebê. Percebi que eu estava com o mesmo problema. Eu não sabia diferençar uma coisa da outra. Isso é tudo o que menos se parece comigo. Quando fiquei grávida. que não precise de criatividade. Sentia muito sono e não tinha estímulo algum para cuidar de um bebezinho. é parente da depressão. Realmente não posso ter um trabalho como esse. e falei que também estava triste. escrevia poesias. Normal. Achei que tinha sido por minha causa. estava feia e muito magra. ao espiar um livro da Adélia Prado. Eu não soube como me desculpar. só fiquei triste quando a licença-maternidade acabou e tive de deixar Maria Clara para voltar ao trabalho. só achava que era neurótica. fazíamos reuniões e era sempre muito divertido. Um dia. uma delas declarou que não sentia nada disso. . As pessoas me afligiam. Eu tinha que inventar coisas para fazer a fim de me livrar do tédio. fui olhar o aquário. Quando meu marido foi cobrir o Carnaval na Sapucai. que estava usando a pomada errada. porque envolve tristeza e nada mais. O ciúme me deixava exausta. Sidney tinha acabado de completar 22 anos e era destemido em relação ao mundo. uma do estado e outra do município. Passei a ler escondido. Um dia. Uma vez abri um livro e minha chefe "nazista" me deu uma bronca. Essa depressão não demorou muito a passar. Não sabia que tinha uma doença.Estava morando com o marido e seu bebezinho em Florença.

de Copacabana ao Leblon. nossa casa vivia cheia de amigos. e. e conversávamos 65 horas nos botequins da redondeza. A Globo era líder absoluta. nos mudamos para o Horto. podíamos nos dar ao luxo de ter mais de duas horas livres. duas semanas depois de sair da emissora. Comíamos no Plataforma e incluíamos sempre no pedido a famosa farofa Dolabella. e levei flores que arrancamos das árvores nas ruas. em coma. Éramos casadas. no Natal. Meses depois. tínhamos filhos e responsabilidades. enquanto meus irmãos conversavam sobre seu quadro clínico. Hoje. por isso. e ele foi amamentado aos embalos de Rod Stewart. Por que ser tachada de eufórica. Um dia especialmente representativo resume nosso estilo: depois de passarmos uma noite cheia de adrenalina. No finalzinho dos anos 1980. Eu era redatora da TV Globo. carro cheirando a maconha. Apenas olhava o que acontecia. Eu ficava numa poltrona lendo revistas em quadrinhos. minha amiga de infância. Fomos para o velório. fechando-os logo a seguir. seu estado já estava grave demais. se todas as minhas amigas tinham o mesmo ritmo? Então acho que era só alegria mesmo. um apartamento com janelas verde-esmeralda que davam para a floresta. tentando escapar de uma série de blitze. minha mãe foi para o hospital. Foram alguns dias assim. aquelas coisas. Não havia nada para fazer lá. qualquer hora era hora de voltar pra casa. Eu não estava lá. usando termos que eu não conhecia. Sentei-me na parte de trás da ambulância. comecei a trabalhar no Centro Cultural 66 Candido Mendes. Ficamos ao seu lado quando ela estava no 64 quarto. Nunca se sabe. Ela estava tão mal que sabíamos que morrer seria o melhor conforto que poderia receber. Nada impedia nossos almoços no Vaticano. Meu filho Francisco nasceu nesse mesmo ano. Nosso ponto era o Real Astória. me sentia ótima e ganhava bem. daí a graça. De vez em quando algum de nós saía para comer alguma coisa ou tomar um café.Sentia muita saudade. é certo que eu não voltaria. como programadora de cursos. Alegre ou eufórica. restaurante do jornalista Daniel Más em Botafogo. providenciou tudo com carinho e eficácia. Queria ir ao Rock in Rio. Num pequeno terraço. Mas existem erros que só percebemos muitos anos depois. por um triz não atropelamos o José Lewgoy. Eu era criativa e rapidamente consegui fazer com que as inscrições subissem de trezentos para mil alunos . as coisas são assim. além de o meu salário ser baixíssimo. Saía com minhas amigas várias vezes porsemana. Quando. estávamos todos juntos no quarto. Não estive lá hora nenhuma.meio-dia às nove . Diante das comidas deliciosas. ela abriu os olhos e olhou pra nós. Como tínhamos o horário ideal . Calamares. dizíamos que "Deus trabalhava na cozinha". Minhas amigas bebiam muito e bolachas de chope formavam torres surreais sobre a mesa. Quando as crianças tinham por volta de cinco anos. Não tive depressão pós-parto. em Ipanema. Rosana. Era fevereiro de 1984. no Leblon. mantínhamos um jardinzinho selvagem. finalmente.

até que. falar pelos cotovelos. Acho que a euforia gosta de coisas ilícitas. e não conseguia ficar fazendo um trabalho que qualquer outra pessoa poderia fazer. Vivia eufórica. santinhos. no início dos anos 1990. como insistiu que eu saísse pelas 67 ruas. não tinha ânimo. bolava festas que terminavam no café da manhã e Sidney estava sempre reunindo jornalistas e criando programas de rádio que se tornavam sucesso. Sem falar das inesquecíveis aulas de filosofia. Euciana. não faz parte de uma doença. Fazia muitas coisas malucas com minhas amigas. passeávamos no Jardim Botânico. Havia perdido toda a energia. Grande Candido José. Marília Valls era a vitalidade em estado bruto e dava aulas de moda. que viria a ser minha melhor amiga. nada. inquieta. nossos filhos eram saudáveis e eu dançava com eles como nos musicais da Broadway. Eles me davam chocolates. Eu era adulta e agora cabia a mim tomar as providências. Apenas meus amigos do trabalho sabiam que eu estava mal. meu tapete voou pelos ares. a falta de sono e o dinheiro que eu gastava com pilhas de presentes. assim como não sabia quais deveriam ser tomadas. Nossa casa vivia sempre cheia. Mas quando as aulas já estavam em andamento. Era perfeito. O que marcava minha euforia era a superaceleração. (Claro que brincar com os filhos traz grande alegria. 68 Foi meu primeiro colapso violento. The horror. Além de trabalhar muito.) Ainda não tinha começado a ter a série de depressões profundas que devorariam parte de minha vida. Fazia mingau enquanto cantava canções que criava na hora. Não tinham como não saber. e ele não só concordou. As aulas de Antonio Cicero tinham como alunos convidados Caetano Veloso e Marina Lima. não tinha quem me ajudasse a tomar decisões. Gostava de entrar escondido no cinema. Com certeza por insistência minha. orações e afeto. Meu marido estava ocupado ganhando a vida e não o culpo por ele não ter me dado todo o apoio que eu precisava naquele momento. Carlos Henrique Escobar falava de Sartre e Fernando Gabeira sobre jornalismo. fazia minha sobrancelha e minhas unhas. Eu estava energética. era angustiante ficar na sala. a fim de ter idéias novas. Sidney não compreendia a doença e não . era bacana.por mês. Estava aceleradíssima e em dois dias bolava mais de quarenta cursos: Gringo Cardia ensinava sobre cenografia e Afonso Beato. Modéstia à parte. entrasse nas livrarias e fosse ao cinema. eu e Luciana fomos à praia e entramos no mar com roupa e tudo. Tudo parecia perfeito. onde Luiz Carlos Maciel narrava o mito da caverna de Platão e Junito Brandão contava histórias sobre Helenas e Narcisos. Num almoço de Natal. fotografia de cinema. onde Fred Pazos programava festivais de Bergman e filmes franceses. compreensão das coisas. inventávamos personagens e eu contava histórias sobre Leila Diniz e Jacqueline Onassis. Como eu não queria incomodar ninguém. pois não conseguia permanecer parada. the horror. Maneco Quinderé dava aulas de iluminação e Rubens Corrêa se encarregava de workshops para atores profissionais. porque aumentam a adrenalina. nem é bom citar. Disse ao diretor que não suportava ficar trancada.

sem nenhum tipo de proteção. percorri todo o circuito esotérico. Sem ter idéia do que estava acontecendo comigo.) O mundo ficou negro. além de entrar em todas as igrejas e me entregar a todos os segmentos do espiritismo. Chamar os amigos. Mas precisei . convocar os parentes e dizer que a vida está barra pesada. Não contamos nada a ele. durante todos os períodos em que esteve internado. Pouco depois soube que isso se chama angústia. tarólogos. envolvida em conversas com médicos. quando o ponteiro marcava três horas. ia à nossa casa todos os dias ficar com as crianças. era como se fosse um relógio biológico. Como era a única pessoa que poderia se ausentar do trabalho. evidente. Cinco anos depois. não havia nada de bom. macumba e até exorcismo. Doía muito. para me livrar daquela sensação. "Cuida da Maria Clara". mas. Meus amigos se ofereciam para ir comigo a todos os lugares. em uma das internações. (O legal é o contrário. Não conseguia pensar em algo trivial que pudesse comentar e estava constantemente de cama. Ia trabalhar todos os dias. Fiz simpatias. Tinha como modelo minha mãe. O que parecia uma qualidade. Ficava sentada numa poltrona. e era muito dificil manter algum tipo de diálogo com as enfermeiras. Ele é de natureza feliz. cartomantes. mas pelo absurdo da questão. e coisas poderiam escapulir dali. Também não tinha idéia do que estava acontecendo comigo. promessas. Eu não falava nada. e sempre tentei tudo que fosse possível. Tomei passes em igrejas messiânicas. Todas as vezes que fiquei deprimida nunca me conformei. como se estivéssemos ali para roubar roupas de cama. Não pelo dinheiro. perdido a capacidade de comunicação. os jantares eram longos. por mais 69 absurdo que parecesse. Era uma coisa que eu não tinha condições de fazer. Além do mais. e sua melhor amiga. dava conta de qualquer coisa que acontecia. deve ser estranho e perturbador encarar o oposto. alguns lençóis haviam sumido e incluídos na nossa conta. que trabalhava muito e. hoje vejo como grave defeito é uma espécie de orgulho e onipotência. meu padrasto. Tomava conta dos nossos filhos enquanto trabalhávamos. Porque era insuportável continuar. que viveu exatamente o tempo previsto pelo médico. Mário. mas eu sempre agradecia e dizia que não. e é certo que via meu comportamento como o de uma mulher preguiçosa.tinha noção da sua gravidade. estava profundamente triste. videntes. e apertava o edredom contra o meu peito. foi a última 70 coisa que minha mãe disse a ele. Eu me jogava na cama. Eu tinha emburrecido. a sensação era que ele estava completamente aberto. massagens indianas. Fui a um lugar onde se limpam auras. não sabia manter um tipo de diálogo onde eu fosse a parte que reclama. eu precisava largar tudo o que estivesse fazendo e sair correndo pra casa. fui encarregada de ser sua acompanhante no hospital. mães-de-santo. Receber abraços e beijos traz conforto. não tinha luz no fim do túnel. e o cobertor me dava segurança. três meses. meu padrasto foi acometido por um câncer no estômago. com bom humor. Minha família. me deu a tarefa de reclamar na recepção.

Porque aquela sala de espera era o único lugar onde eu me sentia bem. Quando saímos do laboratório. Experimentei uma série de remédios. mas fui.que os lençóis permaneceram na nota. quando a sessão terminou: Não vou embora. sabia muito bem o que estava dizendo. que significava que eu era maluca. me interne. O pior momento de todas as minhas depressões. e eu sentia vontade de gritar. 72 Sei que às vezes o texto parece melodramático. e meu padrasto começou a desmoronar em cima de mim. já que não podia receitar antidepressivos. mas não tive forças para folhear. O médico. Não queria sair de perto daquela mulher de quem eu não precisava . sempre mal. Julia. Fui levá-lo para fazer um exame de sangue. ele estava muito fraco. Era uma depressão reativa. não que não quisesse.se é que usei algum . Ela achou que seria melhor procurar um médico. e não sei comparar o que senti com nenhum outro momento da minha vida. 73 Nunca tive uma atitude assim.71 ir. Mas não podia contar pra ninguém que estava passando por um colapso. Ele se apoiava em mim para não cair no chão. lendo várias vezes a mesma página de um livro. mas não se importa. experimentando todo o tipo de droga. Um deles me deixava incapaz de dormir. até encontrar uma que lhe sirva. quando o horário era uma da tarde. foi durante essa época. Talvez fosse um recado do tipo: "Não vou embora. que já foi definido como "a dor em estado bruto". o que fez todo sentido pra mim. Nas primeiras sessões não pude falar nada. a quem agradeço toda a paciência e o carinho que teve comigo. minhas pálpebras simplesmente não fechavam. Muitas vezes chegava à análise às dez da manhã. Seria capaz de passar o resto da vida ali. até conseguir entendê-la. menos eu. Peguei uma revista em cima da mesa. É como uma pessoa bêbada que começa a dançar em cima da mesa: ela sabe o que está fazendo. o mais assustador. Médico? Sabia que médico significava psiquiatra. mas não me faça voltar lá pra fora. Fomos atravessar a rua. mas não conseguia parar de chorar. Mário era alto e magro e já estava muito afetado pela doença. Fui à psicanalista que me recomendaram. Porque nesses casos a pessoa se torna uma espécie de cobaia. mas quem nunca sentiu depressão não pode compreender esse sentimento. disse que eu estava com depressão. o absurdo e o constrangimento. Eu continuava na mesma. Na sala de espera havia um rapaz com graves problemas de paranóia. mas não era uma questão de química. para avisar como estava me saindo. livre-se de mim como achar melhor. Um pesadelo se juntou à dor secreta." Não sabia como me comportar. estava muito além do meu alcance. minhas forças acabaram. O psiquiatra me receitou um antidepressivo que não funcionou. Ligava pra ele o tempo inteiro. e meus argumentos foram tão débeis . Um dia disse à minha analista. se tornando uma pessoa extremamente ossuda e pesada. Não tinha condições de acompanhá-lo. me coloque numa camisa-de-força. meus olhos pareciam dissolvidos. Era como se todo mundo tivesse nascido com um roteiro. A idéia me pareceu hum ilhante.

Não podia enganar até mesmo o homem que eu amava e era casado comigo. Foi aí que passei a ser a mulher que a todos engana. Fiquei muito tentada a fugir com ele. estava desesperada. Ela me levou pra casa.esconder nada. É o mesmo que ter diabete. Gostei muito de ouvir aquilo. Ficava tensa. aquilo não podia estar acontecendo comigo. teria o mesmo perfume? Talvez. De fato. As vezes precisava entrevistar um ou outro professor que aparecia com propostas. do tipo que não gosta de incomodar os outros. No dia seguinte o psiquiatra me telefonou e pediu que eu fosse até seu consultório. Tive muito pudor para contar. meu corpo é que havia dado problema. Era demais pra mim. porque é nome de filme do Louis Malle. porque não sabia conversar. Nem sequer chorei porque não podia aceitar o que ele estava me dizendo. sentia medo. uma mulher tão inteligente como você. Se a rosa tivesse outro nome. o mundo era hostil pra mim. Ele sorriu. não aceitou. Ficava monossilábica. tinha um monte de empregos. não conseguia dizer o nome da doença. A única pessoa para quem contei o que se passou foi meu marido. 74 Num certo momento. Ele não fazia idéia do que fosse aquilo e não tinha muito tempo para pesquisar. mesmo porque não tinha outra escolha. Candido. Pelo menos era involuntário. e eu não somava um com dois. Não era. Era como ter um carimbo na testa escrito "zona perigosa". não 76 era normal. Mas não tinha coragem de pegar ônibus. Química. Não era minha culpa. . tentando captar alguma coisa. Não sei dizer o que senti. . Eu tenho um problema sério. Um rapaz apareceu dizendo que queria dar um curso sobre Jesus Cristo. Eu era diferente das outras pessoas. pelo contrário. Por que comigo? Minha alma se desgrudou do corpo. Enfim alguém tinha nomeado aquela série de sensações. com quem já havia conversado diversas vezes. Ele tentou me consolar com o que parece ser o mantra dos psiquiatras: . e não eu. Não podia ser verdade. E disse. carinhoso: . Embora pareça surreal. transmitia uma certa sabedoria. Não conseguia mais trabalhar. Foi como ser soterrada viva. A louca. Se a expressão "psicose maníaco-depressiva" já tivesse sido trocada por "transtorno bipolar de . E abriu mão de horários. meu corpo era o culpado. A vida borbulhava. eu era uma farsante no meio das pessoas normais. era horrível demais.Aconteceu uma coisa terrível. Se estou me tratando.Você é maníaco-depressiva. no entanto. sempre quis ter sopro no coração. teoricamente.Me admiro. de carro.Você deve estar feliz! Você sempre quis ter sopro no coração. Ainda sou uma pessoa muito envergonhada. vou ficar boa. ele não passava nenhuma espécie de loucura. Simplesmente não entendia nada do que as pessoas falavam. Por que ele estava dizendo aquilo? Então sou louca mesmo. não havia outra saída a não ser pedir demissão. Me receitou lítio. Disse que eu estava com depressão química e tudo aquilo ia passar com remédios.

Quase sempre. hipomania) pode ser tão sutil que se confunde com o temperamento da pessoa. 70 anos depois. o que é um problema capaz de levar a diagnósticos errados e perigosos. O título ia direto ao ponto: Transtorno bipolar. pesquisadores da Usp lançaram o primeiro livro sobre o tema no Brasil. quase 60. bipolares que parecem não ter a doença. Especialistas nos Estados Unidos foram quem fizeram renascer essa idéia. por outras classificações oficiais. Em muitas . pois a depressão é muito forte. A divisão de subtipos e espectros bipolares é uma volta a uma idéia do finalzinho do século XIX. Olavo. Não é pouca gente que acha que depressão nada tem a ver com bipolaridade. Embora se pensasse que houvesse um certo equilíbrio entre as fases maníacas e depressivas. Então a expressão se transforma em um estigma. dormir pouco. me remetia ao filme de Hitchcock e outras paradas ainda mais sinistras. e o título mudou para Do espectro bipolar à psicose maníaco-depressiva. Porque a mania não envolve necessariamente psicose. Além disso. No tipo 2 existe um estado de excitação marcada-mente menor. meu psiquiatra. coisas grandiosas. por exemplo. na minha avaliação infantil. E a depressão consome o maior tempo da doença. mas principalmente. não seria identificado. A psiquiatria descobriu que nem todo maníaco-depressivo é psicótico. São hipomaníacas e apenas aceleram. Muitos apresentam o estado psicótico. 500 mil são bipolares. Psicose envolve delírios. que foi bem caracterizada pelo psiquiatra alemão Kraepelin. mas nem sempre. e é comum falar demais. Geralmente essas pessoas são identificadas como 79 achando-se num estado anormal e são tratadas. mas a parte da excitação (mania. lançaram uma segunda edição. Ninguém nunca poderia saber disso. É de cair pra trás: em cada duas depressões. início do século XX. Ou seja. e também pode envolver alucinações. No início dos anos 1980. Ninguém merece ajunção dessas três palavras que.77 humor" minha reação poderia ter sido outra. explica dr. Muitos têm delírios e alucinações. Os subtipos facilitam identificar o bipolar que. O tipo 1 é a antiga psicose maníaco-depressiva. Com a ampliação do diagnóstico. das depressões". 78 "Ampliar os subtipos é importantíssimo para identificar. em cada um milhão de depressões. Você sabe. se enrolar na parte financeira e nas relações amorosas. quando o bipolar na fase de mania fica tão excitado que todo mundo percebe que ele está péssimo. e se ele estiver errado o tratamento não tem a mínima chance de dar certo. hoje se vê que as depressões ocupam pelo menos três a quatro vezes mais tempo que as excitações. Algumas ficam mais produtivas. a medicina trabalha com um diagnóstico. o nome da doença deixou de ser Psicose ManíacoDepressiva e passou a ser Transtorno Bipolar de Humor. É preciso que se saiba que o transtorno bipolar trata não apenas. em 2005. E guardei o segredo por quase vinte anos. uma é bipolar. e começam a acreditar em coisas que não estão acontecendo. e as pessoas conseguem viver em sociedade. mania é derivado do grego e significa loucura. Repare: em 2002.

Isto é incrivelmente comum. e vem ao Rio de Janeiro no verão. 81 A coisa mais importante. é preciso que fique muito claro: para que exista o diagnóstico de transtorno bipolar. sem a participação de reguladores de humor. entram em depressão. correr atrás dos livros usados e organizar a festa de inauguração. pode fazer com que ela fique hipomaníaca. um tempo depois. Odeio injeção. O quadro de mania não fica muito claro e. caracteristicamente. ou agressiva os sintomas podem ser confundidos com seu temperamento. No entanto. pode ficar hipomaníaca.um quadro comum em lideranças políticas. Os tipos 1 e 2 são indiscutíveis e incorporados às classificações universais. dois dias depois. por exemplo . Sonhei que tinha uma empregada gorda e um sebinho no Jardim Botânico. quando um jornalista me disse que a mulher de um senador da República era "maníaco-depressiva". Foi tudo tão rápido que em menos de um mês eu já era uma livreira. muito estourada. A mania só é identificada porque. e volta e meia precisava fazer exames de sangue para a contagem de lítio. "Na grande maioria dos casos são usados apenas antidepressivos e. ou excessivamente ligada a sexo. geralmente homens com muita energia e muito poder . A bipolaridade do tipo 3 é interessante (se é que uma doença pode ser chamada assim). Contei para o Sidney e ele perguntou por que eu não abria um. Ele falou baixo. O tipo 4 englobaria os pacientes que foram a vida inteira muito ativos. por isso. porque é desencadeada 80 por fatores externos. Muitas sofrem de depressão unipolar e. resume o psiquiatra. Fiquei animada com a idéia e. Considero o mais difícil de ser diagnosticado. não estão representadas aqui. trata-se apenas de um tipo de temperamento. mas. bem baixo. é que o tema deste livro é transtorno bipolar de humor. A empregada do sonho também não demorou a aparecer. nas últimas décadas de vida. Fui melhorando com o remédio. aquela picada não significa nada. Mas nem todas as pessoas que têm depressão são bipolares. Exemplo: se uma pessoa mora no Alasca. Se isso não acontece. depois da euforia tem que haver a depressão. O temperamento aventureiro já é um temperamento prébipolar. Isto tem de ficar bem claro. se transforma em depressão. É um quadro difícil de ser diagnosticado. 82 . O fuso horário (pra mais) também incita o quadro de ativação. geralmente quando perdem o poder. É aí que a pessoa se dá mal. a maior parte das pessoas se trata como se fosse uma depressão unilateral. Ele me ajudou a montar a loja.e. achei um imóvel para alugar. as depressões se tornam cada vez mais fortes e presentes". pois se a pessoa for muito impulsiva. O tipo 5 é delicado. Tornei a ficar bem.pessoas. A única vez que alguém comentou comigo sobre essa doença foi em uma festa. que no inverno tem duas horas de sol. ela é tratada como se fosse unipolar. porque se confunde com o jeito de ser do doente. mesmo não havendo ninguém por perto. presta atenção. O tratamento com antidepressivos. não é uma doença. quando você está gravemente deprimido. portanto. um "estilo aventureiro" se confunde com esses períodos de euforia. O grande problema do tipo 5 é que quando pinta uma depressão.

assim como uma pilha de livros franceses. muitas passavam depois do trabalho. os vizinhos conseguiram arrombar a fechadura. Gostava de trabalhos temporários . Nunca consegui ter uma carreira porque passava longos períodos de cama. Foi a crise mais forte que já havia tido até então. Não me lembro de nenhum fator externo responsável pela depressão seguinte. quase escorregando naquele chão alagado. Em 1992 me sentia realizada com meu sebinho. iguais aos de pão francês. "Sendo que em primeiro lugar a Viralata. Algumas pessoas estavam sempre por lá. De repente o velhinho se aproximou e disse que conheceu bem seu bisavô. numa galeria do Jardim Botânico. capazes de acabar com o humor de qualquer um. embora na anterior eu tenha sofrido muito. me dizia que as duas coisas mais legais do bairro eram o Mil Frutas e a Vira-lata. pensava. o astral tão leve que coisas bacanas não paravam de acontecer. Pessoas com rodos e panos de chão enrolados em vassouras. Foi uma festa. na livraria porta-com-porta com a minha. Um dia estava tendo uma noite de autógrafos. em parte pela aflição de não saber do que se tratava. Depois de muito tempo.na porta tinha sempre um aviso de volto já. porque ele é muito eficiente . Ele ficou lá um tempão. Nunca me dei com esse remédio. sob hipótese nenhuma. Que bom que fiquei boa. mas muito mais legal era estar com a calça jeans dobrada. Eu achei esse episódio muito divertido. diz que não posso. que foram o tempo exato das minhas euforias. Trabalhos temporários são ideais para bipolares. e uma rádio que levava o seu nome .tive três. a caixa d'água havia transbordado e a água escorria pela galeria. Tudo tornou a desmoronar em volta de mim. pareciam divertidas. tinha um jornalzinho de papel kraft. Um estudante da Puc. Disse que o nome dele estava na Enciclopédia Inglesa e me mostrou o verbete. Lamentei. Quando voltei. quando eu enjoava de ficar trancada ou ia buscar as crianças no colégio. As embalagens eram saquinhos finos e pardos. Era uma grande festa e eu vivia num mundo onde só coisas boas aconteciam. falar mal do lítio. Pretendia ir ao Ceará. Olavo. O cinegrafista estava me contando que pretendia fazer um média-metragem sobre seu bisavô. Era muito bom. e claro que sabia.na verdade uma coletânea de músicas de que eu gostava." As coisas aconteciam assim. quando entrou um senhor muito velhinho. Uma vez dei uma saída até o supermercado . dr. olhando livros antigos. que comprava Jack Kerouac e Bukowski. chamado Vira-lata. Mas meu psiquiatra. Até coisas desagradáveis. um dos fundadores da Padaria Espiritual. A livraria era toda charmosa. Eu tinha um cliente cinegrafista que de vez em quando aparecia para conversar. antes de voltar pra casa. Duas coleções verdes do Monteiro Lobato foram destruídas. Ou porque não tinha talento pra isso. Tomando lítio. assim como o pessoal da Padaria. a fim de tentar encontrar alguém 83 que o tivesse conhecido. movimento modernista cearense que antecedeu a Semana de Arte Moderna de 1922. Eu era feliz. pensei que finalmente estivesse estabilizada para sempre.Sempre achei que a minha depressão estivesse ligada ao fato de não me realizar profissionalmente.

quando passeávamos diariamente no Jardim Botânico. meu filho me disse que eu só tinha sido mãe na época em que eles tinham sete. ficava imaginando como seria bom desaparecer de vez. onde havia uma cama e uma televisão. os sintomas eram idênticos aos da depressão passada. Perguntava o que eu tinha. Ficava deitada e encolhida.Mamãe não está passando muito bem . . Brasília era um tédio sem começo. oito anos. porém mais fortes. e fiquei aliviada quando ele trocou de emprego. fechei minha livraria para acompanhar meu marido. cansada e mal conseguia me manter em pé. Tinha a sensação de que ele estava sempre me testando. sem conseguir parar de chorar. que tinha sido transferido para a sucursal da rádio CBN em Brasília. despeito. Eu era péssima mãe. Aqui estou encadeada à minha rocha: forçada a não fazer nada. e as expressões "Vou tomar um banho de sais" ou "Ai. condenada a deixar cada preocupação. Eu não soube responder. meio e fim. Uma vez o rapaz abriu um livro e perguntou o que era separar o joio do trigo. Sempre fiz tudo que pude. Ele vivia me perguntando coisas que eu não sabia responder. A livraria era 88 comprida e através da porta de vidro Só se podia enxergar um pedaço dela.para um grande número de bipolares. e não tinha culpa de não ter forças por causa da depressão. meus sais" têm essa origem. se um dia fizerem terapia. Então eu apagava as luzes e me deitava no chão de borracha preta. Não sei o que eles guardaram de tudo isso. Estava lunática. Ele sugeria que as pessoas se banhassem nas águas que continham li-tio. A ausência de praia . Porque isso não dá motivo para ir ao hospital e. Não era um lugar hostil. Com certeza. Em casa costumava me esconder no quarto de empregada. 89 Racionalmente ele entendeu. e sempre ouvia: "Estou com dor de cabeça". Com as portas trancadas. Dizia que estava adoentada e tinha vomitado sem parar. O médico Aretaeus da Capadócio foi o primeiro a perceber a doença. e não pude fazer muitas coisas. Faz pouquíssimo tempo. Deixava de ir à loja e ficava debaixo do edredom. que eu mantinha sempre desligada. Dois anos depois de ter sido inaugurada. ao mesmo tempo. Virgínia Woolf Foi um golpe saber que voltaria a entrar naquele túnel dos horrores.dizia eu para os meus filhos. quase me desculpando por existir. embaixo de um monte de cobertores. tentando ter um mínimo de privacidade. Eu tinha um office-boy e ansiava por ficar sozinha. entende-se que a pessoa está debilitada. mas as marcas emocionais permanecem de outra maneira. Eu expliquei que foi justo quando fiquei doente. péssima esposa e também não sabia ser uma livreira. Ele observou que algumas pessoas tinham ciclos de profunda tristeza que se alternavam com momentos de tremenda felicidade e excitação. irritação e obsessão arranhar e rasgar e tornar a voltar. Aretaeus da Capadócio também descreveu os sintomas da diabetes e da enxaqueca. terão muitas coisas para falar sobre mim durante esses períodos. mas uma cidade onde se depende de outras pessoas para ser feliz.

e eu estava sempre em estado de depressão branda. Conheceria pessoas e. As pessoas são muito ligadas umas nas outras e criam fortes laços de amizade. minha filha. teria um namorado virtual. Eu tinha tanta vergonha dos seus olhares críticos que me tornava patética. era eu. Questão de essência :) Nos momentos em que estive legal. quando nossa empregada foi embora. mas não interessava a ela. enquanto ele fatiava os legumes. O problema não era Brasília. com uma 90 suíte e mais seis quartos: das crianças. tinha acabado de deixar minha livraria. Esta é a parte boa de lá. Meus apelos começaram a perder força. Usava o computador para escrever cartas. Fiz o que pude para convencer todos. nossa piscina vivia cheia de escorpiões. Se tivesse internet. era um cachorro grande. mas não sei se cheguei a convencê-lo. quem sabe. Como somos Simpsons de cabo a rabo. e fui a única contra a idéia de comprá-la. gostava de regar as plantas e cozinhar. Um deles tinha um quadro-negro que pegava toda uma parede. Eu tinha vergonha dele. dois de hóspedes e um que transformamos em escritório. Tínhamos uma husky siberiana. gostava do frio e. então se tornava inútil. como se fossem garrafinhas jogadas ao mar. Era uma casa feita para uma família feliz. qualquer hora. "Não estou me sentindo bem".e esquinas faz de reuniõezinhas quase diárias um hábito. . aprendi a dirigir. talvez para acumular coisas. Tínhamos um motorista que. que ficavam no meio-termo entre usar e jogar fora. mas fazia muito calor lá dentro. entre os vários que estavam para chegar. Não faltaria muito para eu vir a detestar aquele homem. tinha pedido um cachorro no seu aniversário de 12 anos.que estava esgotada. dormindo ou chorando. Um cachorro e três gatos. Mas permaneceram vazios durante o tempo que moramos lá. Não lembro qual era a raça do outro. Morávamos numa casa de sete quartos. Não trabalhava. tirei carteira. Nossos filhos acabavam sempre dormindo no mesmo andar que o nosso. justificava. como um sótão. nunca falava de depressão. minha vida poderia ter sido diferente. além do que ela era linda e em poucos minutos já estávamos apaixonados. Quem nasce pra Homer não chega a Flanders. passou a fazer os serviços da casa. Pegava o telefone e fingia estar falando com alguém sobre frilas que eu andava 91 fazendo. ficava lendo na piscina. uma enorme churrasqueira e um pomar. Mas eu estava sempre trancada no quarto. Era uma casa de três andares. além de levar as crianças para a escola. Esperaríamos até o dia seguinte e ela poderia escolher outro. porque não fazia nada. num outro quarto com teto pontudo de madeira. Mas ansiedade é um dos sobrenomes da nossa família. meus amigos não moravam lá. No entanto. acabaríamos de volta ao calor do Rio. imprimi-las e enviá-las para os meus amigos do Rio.e cuidava da casa inteira. Tinha piscina. Nunca soube para que serviam. horta. jardins. Maria Clara. fazia mousses de maracujá odeio . mesmo medicada. sem contar outros dois que ficavam fora dela e davam para a varanda do térreo. Fomos à loja de animais e na vitrine tinha apenas dois tipos de cachorros.

que vendia todo o tipo de coisa considerada de emergência. 93 Hoje acordei pensando nela. Tenho uma calça Lee que tem um rasgo. como numa música do Jorge Benjor. Dizia. ela abanaria o rabo. Acho que se não parei de fumar nessa época. Nunca a vi de outro 94 modo e acho que seus cabelos eram pretos. no joelho. e comia tudo que via pela frente. Não chovia nunca. roçando os joelhos em cima das pedras. mostrava o resultado de tanto cuidado. 92 Muito tempo depois de adquiri-la. por exemplo. Éramos malucos por ela. É como casca de cebola. Às vezes. eu pegava meus filhos. que se um ladrão entrasse na casa. Depois eu conto o que aconteceu com minha cachorra. Na verdade. As laterais dos jardins eram de cerca baixa de arame farpado. quando ela caía. eu dirigia como se estivesse num bate-bate de um parque de diversões. branquíssima. Seu nome é Renata. nunca vi seu rosto direito. colocasse as orelhas para fora do carro. lenço da mesma cor em volta dos cabelos e chapéu. Peço licença para reproduzir uma pequena crônica que fiz sobre Brasília. Usava várias camadas de filtro solar. quando estávamos descendo a rampa da garagem. um terreno vazio. Uma vez. Eu morava em Brasília e os dias eram secos e intermináveis. e eu sentia tanta saudade da chuva que. Porque não posso pensar nela. que está muito escondida. e quando vem à tona me deixa muito mais triste do que posso suportar. podíamos fazer casacos com os pêlos recolhidos. se tiver coragem pra isso. Nosso sonho era ter um cachorro que. ia pra rua e ficávamos girando de braços abertos. As crianças serviam de buzina e sempre que era preciso colocavam suas cabecinhas do lado de fora e gritavam biiiiiiiii! biiiiiii!. não vou parar mais. e sua pele. Nunca. Em alguns momentos pareciam trêmulas de medo. que ficava no pomar. quando viajássemos. Vestia sempre um jogging branco .Seu nome era Loba. De um lado havia outra casa. eu pegava o fusquinha e ia até o armazém mais próximo. Renata era razoavelmente bonita. Às vezes. Olhando agora. não posso deixar de sentir saudades e também de agradecer a Deus por nunca ter atropelado um cachorro sequer. ela fugia. li sobre sua raça e nada podia ser pior. Eu costumava encontrá-la no meio do caminho para me exercitar com ela. Tinha obsessão por caminhar e fazia isso cinco horas por dia. que um dia foi muito moderno. o que deixava todos doidos. Loba começou a correr e tomei um tombo. Nossa casa ficava no final do Lago Sul e era longe de tudo. se for tirando uma por uma chego até ela. Acho. e será surpreendente se eu conseguir escrever sobre ela. . Não podíamos colocá-la no canil. pois cada maço que terminava era uma novela pra comprar outro.ela vai me perdoar por eu não me lembrar da grife -. Depois de varrer o chão. porque tínhamos pena. mas ela tinha medo da janela e precisava ir no meio. Sujava a casa inteira. e do outro. Roubava comida de cima da mesa.

meu ex-marido deu um carro para o seu filho de 14 anos. só sei que existe o Jornal Nacional . melhor dizendo. com um tom de voz que me lembrava que aquilo era apenas um detalhe e que eu não tinha captado o espírito da coisa. mas eu preferi ficar. sem querer.o nome não é Jornal Nacional? .Fui arrumar meu maleiro. porque. Londres é uma cidade fantááááááástica. numa peça onde eu era uma simples coadjuvante. corria para reproduzir tudo no meu diário. bárbara. nasceu na Iugoslávia e foi criado em Londres e nos Estados Unidos. me senti desconfortável porque uma das personagens é maníaco-depressiva. de Rubem Fonseca. mas tão esnobe. Quando eu chegava em casa não sabia se estava exausta da caminhada ou de ouvi-la contar o seu dia-a-dia. o inglês do Rodrigo é perfeeeeeeito. tenho um armário só de jeans. E por falar em diário: quando li Agosto. Gosto de fazer um brunch aos domingos. devem correr e ler a crônica "Brasília". as pessoas amam. aí acendo as velas dos castiçais. numa casa fantásssstica. que moram num castelo. que parecia uma personagem de teatro. não vejo tevê nunca. mas ela nunca me deixava passar disso.dizia ela. Porque nunca ninguém descreveu tão bem uma cidade. sabe.Um carro pra uma criança de 14 anos?! conseguia eu dizer. 96 O fôlego de Renata era uma coisa que realmente me impressionava.De dezembro pra cá fiz três viagens: NY.". Quando vou à Europa. um último modelo. . trago temperos de viagens. um amigo do meu sogro é banqueiro em Nova York. a gente toma um uisquinho.. coloquei tudo pra lavar e também minhas duas pilhas de abrigos.Importado . uma vez. aquele café enorme. Palavra de honra que Renata era assim. uma loucura! tive uma proposta pra morar nos Estados Unidos. chocada. gosto de almoçar nos fins de semana quando já está anoitecendo. minha Vuitton estava mofada. uma espectadora.) Claro que se vocês quiserem conhecer mesmo a cidade. vou dar uma festa medieval. .Acontece que Renata era esnobe. o melhor corte de cabelo que eu fiz foi em Milão. quer dizer. mas não um carro qualquer. trago sais de banho de viagens. Às vezes iniciava uma frase: "Eu também. um emprego fantáááááástico. . Entrava na ducha e imaginava que Renata devia estar se preparando para tomar champanhe na sua banheira de espuma. Bélgica e Disney World. o pai dele é inteligentíííííííííííssimo. gosto de tomar banho de banheira . meu marido não é de lugar nenhum. a pessoa 95 mais inteligente que eu já vi. com o Rô.. quando eu voltava pra casa. convidar os amigos pra degustar vários pratos. do meu lado estava aquela princesa e algumas modelos da Lancôme. fico na casa dos meus sogros. Minha participação se limitava a alguns "ohs!" e muitos "puxa!". uma vista maravilhooooooosa. é filho de diplomatas. de Clarice Lispector. meu marido. me convidou pra morar lá. Sou muito criativa. Em junho.banheira para dois com o Rodrigo. importado. Renata era uma dessas pessoas que adoram dizer quanto são formidáveis. quando eu estava na faculdade tinha de fazer o trabalho de grupo sozinha porque era a única que falava inglês e francês. Brasília é uma cidade muito dooooooooooooida! (Os diálogos acima são ipsis verbis. Eu ainda .

Perto da nossa casa tinha uma coruja branca. com o surgimento dos blogs. na maior parte do tempo com depressão. Olavo acha que. 97 Sempre que possível. a atitude definitiva para se livrar da dor. como ela deveria ser curtida. E ainda acho que a maioria devia ter. Quando Sidney chegou. talvez fosse o certo dizer. mas achava que aquele nome se encaixava em mim. e a única resposta que encontro é que os remédios já não dão mais conta. felizmente nunca precisei de tratamentos mais radicais. eu idem. é uma coisa moderna. Pensei que meus ossos estavam se partindo e que a seiva jorraria de mim. na época. pré-histórico e selvagem.Sylvia Plath Dr. uma mulher preguiçosa que mal tem paciência para tirar a tampinha do ralo da banheira. o dublê de motorista e cozinheiro. e a cada lampejo eu era sacudida por um grande espasmo. Quando meu marido chegava. sacudindo-me como se o mundo estivesse desabando. não respeitava minhas determinações. tratavada horta e dava enormes caminhadas em torno do lago. Não é préhistórico. sentada na borda da banheira. como uma planta cortada ao meio. Preferia isso a reconhecer minha fraqueza e pedir ajuda. 99 O psiquiatra diz que estou redondamente enganada. eu já não gostava dele. Às vezes tomava banho de banheira. que estava sempre no mesmo lugar. Digo que considero um tratamento pré-ansiolítico. não há nenhuma necessidade de ser barra pesada. Sylvia Plath preferiu o gás do forno a ter de se submeter a outro choque elétrico. E jamais tentei o suicídio.Eletrochoque é ótimo para tratar de transtorno bipolar. . e por um tempo muito menor. Fiquei me perguntando que coisa terrível eu teria feito. por isso passava o dia inteiro no quarto. Falamos sobre eletrochoques. um estalar de luzes azuis. . me enrolei em uma toalha e me arrastei para a cama. E procura deixar as coisas em pratos limpos: . Ele era um cara tão atrasado e machista. Ficava lá dentro. a mentira. O suicídio é a dor que extrapola. Escolhi ficar com a parte pior. e que agora. Virginia Woolf e Sylvia Plath certamente não seriam levadas ao suicídio. que era enorme. e disse que foi por preguiça. A personagem tinha um diário. para que ele não me visse chorando. e uma vez estava tão fraca que saí da água. eu corria para o nosso banheiro. Mas que coisa mais louca. Hoje é feito de outra maneira. perguntou. Então alguma coisa desceu sobre mim e me agarrou. e comecei a pensar que todos os maníacosdepressivos também tinham. como eletrochoques. estranhou que a água ainda estivesse lá. Manoel. Porque as máquinas são muito avançadas e a corrente elétrica que passa pelo cérebro é muito menor. Sidney curtia a casa.não sabia que tinha a doença. 98 Apesar das angústias que sentia. Ficávamos sozinhos em casa e. Pegava frutas no pomar. "Por que você não esvaziou?". Sei que algumas pessoas precisam disso. Ainda mais de uma mulher fraca. e elas são obrigadas a suportar o horror. e das muitas outras que viria a sentir no decorrer da minha vida. Eu ouvi um guincho no ar. Eu não tive coragem de dizer que foi por fraqueza. que não aceitava receber ordens de mulher. só as do meu marido. foram substituídos. se devidamente tratadas.

mas não necessariamente. Em relação ao suicídio. e. Olavo. mas é um absurdo continua o dr. multiplica sua impulsividade por três. Estudos em várias culturas (indígena. e.Ainda existem no Brasil lugares que fazem a seco. literalmente. Por sorte. chinesa) mostram que quem se mata está doente. um vidro de pílulas. ela não sabe. ou quando saía dirigindo o fusca sem freio. de suicídios completos . . ele não está necessariamente ligado à intensidade da depressão. meu marido fez um churrasco para seus alunos da faculdade de comunicação onde dava aulas. européias. oriental. Dr. uma coisa dessas e pronto. Então.que eles usam para diferençar das tentativas . uma vez por mês. Assustador 101 também é saber que 70% dos bipolares tentam o suicídio. Ele chegava em casa por volta das sete e meia. de comer. o que é muito grave e triste. tinha direito a uma viagem de avião para o Rio. Ele pode ser usado na fase de mania e de depressão. 100 de ir ao banheiro. . Eu tinha um ciúme louco do Sidney. Porque uma das características da depressão bipolar é a impulsividade. Existe quem ache que o suicídio é uma coisa filosófica: a pessoa é muito sofisticada intelectualmente e acha que não vale a pena viver. uma depressão onde há uma lentificação tal que a pessoa entra em catatonia e pára. como num filme amalucado. e fechei a janela do quarto para não ouvir as vozes femininas que se misturavam com as dos rapazes. O instinto de preservação da vida é muito forte. tinha a sensação de que iria enlouquecer. ela vai morrer. O eletrochoque é extremamente benigno. quando recebíamos hóspedes do Rio ou partes das nossas famílias iam nos visitar. a pessoa nem está sofrendo tanto. em Miguel Pereira. . Olavo explica: . duradoura e não acontecer nada.chegou a 6%. Aproveito para tirar a dúvida que sobra: . sim. de tão sólido. Existem vários tipos de cânceres que não têm 6% de mortalidade. Enquanto outros bipolares podem passar por uma depressão tenebrosa. é seu único efeito colateral. É seguro.É a mesma coisa que você operar o apêndice numa pessoa acordada. Mas vivi alguns momentos de alegria: banhos de piscina com as crianças.Geralmente.É feito com a pessoa anestesiada. Não é verdade. Certa vez. Parecia essas mulheres alucinadas dos filmes. eficaz e resolve. e são dados bem recentes. A bebida. É recomendado nos casos em que a idéia de suicídio é muito intensa. uma Glenn Close de papel passado. dá uma alteração de memória recente que não é contínuo. apenas para dar um exemplo. E aí o eletrochoque é salvador. se você não tirar a pessoa do quadro. Então minha amiga Denise telefonava e me chamava para ir ao seu sitio. Estes números são principalmente americanos.Às vezes a pessoa que se mata não está mais deprimida do que outra.Mas não é usado apenas quando os remédios já não funcionam mais? . se você não contar que ela sofreu um eletrochoque. Os números variam de 6% a 20%. de beber. mas têm fontes asiáticas. Um trabalho de Kay Jamison. mas vê uma janela. se voltava uma hora mais tarde. Poderiam cortar meu ciúme à faca. E usava as passagens sempre que a euforia começava a se insinuar. Outros estudos mostram uma cifra maior. é rápido.

Ele foi falar com ela. às vezes. No finalzinho da tarde. Mariozinho baixou a cabeça depois que ela deu a reunião por encerrada. admirando a floresta formando um vale. onde num passado muito distante havia acontecido uma coisa que amaldiçoaria o lugar para sempre: um motorista levava uma moça muito bonita (sempre as moças são superbonitas). uma espécie de sede. Em vários períodos de euforia fui encontrar com as meninas. tudo era kitsch e colorido. Tomamos cerveja e comemos fatias de pizza num boteco. e Denise e Viviane me esperavam na estação. quando chegou em frente à casa. Na mesa larga da cozinha fazíamos as refeições. antes de ir pra cama. mergulhávamos num lago de água escura. mas o resto do dia passávamos na casinha da Denise. 104 Já eram altas horas da noite quando passamos de carro por uma estradinha sem luz. naquele mesmo dia. Estávamos com uma crise de riso engasgada. os moradores locais iam tocar forró até tarde. Fomos ao clube da cidade fazer sauna. No clipe da minha vida tem essa cena. A comida era deliciosa. sua namorada. também estavam hospedados Viviane. por dentro.Eu sou pobre. enquanto lá dentro fumávamos e batíamos um "papo-cabeça". tomando cerveja e lendo ou conversando. apesar de seus empregados serem seus grandes amigos. fomos a tantos outros lugares que não conseguiria me lembrar na ordem. Lavamos o carro num lava-jato. Um dos empregados nos mostrava todo o processo de preparo do café. Logo na entrada de cercas brancas. pediu desculpas e disse que aquilo não tornaria a acontecer. E não . A mãe do bebê morava no andar de cima. na frente de todos que trabalhavam lá. Os planos eram: comprar tochas e ir para o sítio. subíamos um barranco íngreme e sentávamos lá no alto. Denise estava doidona. para conhecer uma casa abandonada e mal-assombrada. Na hora de me deitar. outro casal. mas achava graça da reclamação. e nos ensinava a moê-lo. Um dia. ia para a casa central e. e. e não sei como deu conta do problema. como num cenário de Almodóvar. madrugada alta. e Claudio e Mariozinho. E. o que se transformou numa pequena reunião. Em uma das viagens. ficava a casa da sua 102 mãe. De noite. arrumar tudo para uma festa de aniversário. as sementes secando ao sol. Deu uma confusão dos diabos. mas não admito pouca-vergonha. Então fomos direto conhecer um bebê que tinha acabado de nascer. depois que passou. Entramos pela cozinha de um restaurante. O caso é que o rapaz se posicionou: 103 . Mas a felicidade bagunça as previsões. Denise tinha pulso firme. cheguei a Miguel Pereira ao meio-dia. quase um castelo. e. O paraíso. ela disse que ia pegar o dinheiro para pagálo. Nesta temporada. o que já achei inusitado. sempre havia couve no almoço e café preto no bule da cozinha. pegava minhas meias. e nem fora dela. De manhã ficávamos sentados na grama. e. um dos rapazes beliscou a bunda de um jovenzinho que trabalhava na horta.É um dos meus lugares preferidos no mundo. que passavam a noite penduradas na lareira. a gente não parava de rir. que ficava mais acima. Depois da visitinha.

Depois fomos andar de balanço.Alguns caras de lá se interessaram por você .disse Denise meses mais tarde. Quando saímos de maiõ. era como estar no topo. o que ficaria 105 demonstrado tempos depois. olhando uma casa mal-assombrada e caindo aos pedaços. o dinheiro havia acabado e a empresa de comunicação que meu marido tinha foi arruinada pela má administração no Rio. como aquelas ilustrações das caixas de lápis de cor suíças. Eu dormi num ateliê onde o dono da casa pintava camisetas com vários tipos de duendes. Chegamos ao sítio à meia-noite. até achar o corpo seria difícil. em Visconde de Mauá. Era mais do que felicidade. com certeza feita por um carpinteiro amador. Era o mesmo que voar. Estava quimicamente alterada. Era muito alto e dava para um abismo. A euforia é uma superexcitação. . O dono da casa e sua namorada passavam o dia dançando músicas do Cidade Negra. embrulhadas em toalhas brancas. é como uma droga permitida por lei. Essas viagens. blablablá). Depois de um ano. Significa dizer que se alguém caísse. E tudo acontecia assim. onde eu aproveitava cada segundo. Atrás da casa havia uma árvore enorme com um pequeno quadrado de madeira. como nos contos de fada. sustentado por duas cordas grossas. Numa outra temporada. a dona da pousada nos ofereceu doce de goiaba. Paramos em uma pousada em Maringá. Demorou tanto. Quem o recebeu ficou atônito (imagino) e falou: "Mas ela morreu há muito tempo. A casa onde estávamos hospedadas era cercada por enormes abóboras. num jipezinho aberto atrás. A euforia nos torna atraentes. fui com elas pra lá. Quando entrou na sala havia um enorme quadro da mulher (existe sempre um quadro. Ele apontou o retrato e disse que ela havia pedido para ele a esperar etc. Na parede. com outra depressão. com a luz e os faróis acesos." Ouvi essa história milhares de vezes na vida. que o motorista tocou a campainha para saber o que estava acontecendo. O que é preciso que se compreenda é que minha felicidade não era real. Eram as mesmas frutas recém-chegadas. Cindy Crawford usava tranças e uma jaqueta de camurça marrom. Coisas assim sempre aconteciam comigo durante a euforia. Abóboras de verdade. Ela alugou um quarto para as duas e outro pra mim. Eu não estou inventando. pronta para passar mais uma temporada no inferno. 106 E aconteceu uma coisa poética. na casa de um menino lindo de 19 anos. Depois de me esbaldar. para vender goiabas. os pregos saltavam como flores enferrujadas. Eu não queria ir embora nunca mais. a proprietária perguntou se não queríamos pegar uma sauna. Denise vendia legumes na Maromba. representaram picos de felicidade .e me faziam esquecer que em breve eu entraria em outro ciclo. Com certeza foi idéia minha. Aceitamos de cara. A parede era de vidro. E sim o fato de estar numa estrada onde não se enxergava um palmo. entreaberta. Não me surpreendi.voltou mais. sempre composta de vários tipos de legumes refogados. mas isso não importava. A euforia vai além da alegria. e dava para um bosque nublado. Carregando caixas de ovos no colo e tomando conta das caixas de tomate sob os meus pés. O resto do tempo que . Havia uma pilha delas sobre uma mesa de madeira. e não lembro qual das duas não quis se arriscar. Fazíamos uma refeição por dia.

entro num túnel de culpa. Muito maníaca. comecei a ter colapsos. No terreno imenso. ela construiu. todos natimortos. cheio de curvas e sombras. Eu pegava aqueles bichinhos. e Manoel finalmente foi embora.107 passamos na casa foi contraditório: sete quartos e nenhum dinheiro para comprar Coca-Cola nem Hollywood. Impulsiva. Sob o sol do nunca. meu peito liso sem rumo ou barco busca o riso a esmo. Íamos visitá-la sempre. aos prantos. e as reclamações eram constantes. Estava acelerada. os gatos começaram a cruzar e tiveram um filhote atrás do outro. dois anos mais novo do que eu e surfista . lavava. que morava numa casa enorme e tinha vários cachorros. No andar de cima morava uma senhora doente. na Lagoa. e resolvi dar a Loba para meu cunhado. me apaixonei por um cara do comitê. passava e arrumava a casa. Absolutamente não posso mais escrever sobre isso. decidi pelo primeiro que vi. Ir pegar os envelopes na loja de revelação era meu único divertimento. 108 Acho que nunca mais fui totalmente feliz depois disso. Também levamos os gatinhos embora. Ela teve filhotes. Nos mudamos para a Asa Sul. Imediatamente comecei a trabalhar em uma campanha política. para alugar um apartamento e procurar escola para os filhos. nem camas gostosas para dormir. Loba destruiu o sofá a mordidas e não parava de latir um instante. Meu assunto era o "removedor X12". do ninguém. e aconteceram coisas terríveis. cintilo à deriva. estava sempre de olho. como se fosse uma história inverossímil. Eu agora cozinhava. nuvens. essa cortina que esvoaça na luz trêmula da tarde. Tudo piorou quando. uma cabana usando folhas secas de uma bananeira. Eles não tinham mais edredom. Ledusha Spinardi Voltei de Brasília meio ano antes de Sidney. pilhadíssima. e um dia salvou um dos seus filhotinhos de uma coruja. Não existem tantas coisas para se fazer em Brasília. e chorei quando soube como ela fez para dar à luz. Eram depressões violentas. Estou escrevendo como se nada disso tivesse acontecido. mas não era a mesma coisa. enrolava num pano e ia jogando lixeira abaixo. sem ajuda. sempre tirava fotos. A casa se transformou num inferno. Porque se começar a pensar na minha cachorra. Teve gravidez psicológica e seus uivos. traziam queixas de todos os vizinhos. Nos momentos em que estava bem. do nada. próprios da raça. de ficção. Foi uma mãe exemplar e solitária. Quando aparecíamos para ver os cachorrinhos. para um sítio. Foi uma das piores coisas que já fiz na vida. estressados com a mudança. nuvens ainda que ásper. De repente. Tudo poderia ser resolvido de uma forma tranqüila se eu não estivesse naquela situação.

uma das meninas me perguntou.Anh? Você estava conversando com o chefão do tráfico daqui! Ooops. Para se ter idéia de como eu estava eufórica. Tivemos uma espécie de namoro platônico.. sabe. .. Hahahaha.. por que você não diz logo o nome da doença? Eu não conseguia. Ela esperou. preciso te contar uma coisa. depois alegre. 113 Ela citou várias doenças de maluco. até mesmo as chatas.Lu. puxei minha amiga pelo braço e fomos até uma sala vazia. ..Não consigo. ele estava contando coisas da sua vida..Não estou entendendo nada. . Era como um fla-flu.É uma doença. . já na reta final da campanha fomos até uma comunidade vertical no Leblon. . Sempre que a depressão passava. Estava confiante porque tinha acabado de comprar o livro de Kay Jamison. uma doença. misturando censura e medo: . mas nenhuma certa. . mas porque o trabalho era de fato estimulante. já que depois contei para o meu marido. ... Fiquei toda feliz.Pior eu. todas as pessoas me encantavam. 112 Achei que era hora de contar à Luciana sobre minha doença. que poderia ficar 24 horas acordada sem me dar conta -. . . me arrumar e ir para o comitê era muito bom.. eu achava que finalmente estava livre do transtorno.Que doença? . Mas não era esse o caso. Ela não achou a revelação nada de mais e falou: . Fiquei tão envolvida que não percebi que o resto do grupo já me esperava na van. das vezes que tocou "com a Gal". sua paixão pela música..Você sabe com quem estava conversando? .Ele também se apaixonou por mim .O quê? . Quando dei por mim. Essa não é uma revelação bombástica. Sabe. quando entrei no carro. a pessoa fica deprimida. Acordar. Eu estava encantada. Apesar do ritmo de trabalho ser frenético .. mas não tinha jeito de eu conseguir falar o nome da doença.não pra mim. eu sou maníaco-depressiva. os shows nos quais tocava percussão. Um negão rastafári veio saber o que estava havendo e contei que estávamos apenas distribuindo brindes. que se ajoelhou.Lu.Lu. não só por saber que iria encontrá-lo.Matou alguém? Ri. e pela primeira vez pude me identificar com alguém que sofria do mesmo mal.a euforia nos torna sexy. e. falta um elemento pra ele funcionar direito.. Fechei a porta.Não posso falar. 114 Começaram a buzinar e fazer sinais e me despedi dele. Levamos bolas para as crianças e os imprescindíveis bonés e camisetas. que sou gorda. era demais pra mim.. E não entendia por que tanto drama.Você é uma princesa.Fala logo.É uma coisa no meu cérebro. beijou minha mão e disse: . Eu tenho uma coisa pra te contar. . Lu. . Ela falou uma série de opções. era divertido ouvir suas histórias.

Faz frio e estamos encasacados. . é uma história complicadíssima. Para ele.Em 1998 tive uma crise de depressão. Filhos tinham sido trocados. e carregava o mundo nas costas. mas também é porque a gente fica interessado. novembro. Foram os dias mais fantásticos 116 e alucinantes da minha vida. por uma série de razões políticas. Eu lembro de conversar sobre essa história com uma pessoa muito agressiva. essa coisa de peito aberto. . vamos dizer assim. da minha regularidade nos ciclos. e eu tinha consciência disso. eu acho que esse negócio de gostar do perigo. e ele concorda que na euforia vemos o mundo de uma outra maneira: . no final das contas. de tanta confusão que eu arrumei. que passa uma 115 coisa meio no olho. isso . O mundo inteiro me agradecia por ter sido capaz de fazer isso. de estar se sentindo tão seguro. sobre o que eu estava fazendo no mundo. um amigo bipolar. perigosa. mas só que comecei a ficar bem demais. elaboradíssima. Ele conta sua experiência. e puxa o lado bom da coisa. Chove fino e atravessamos a rua.Comento com Thiago. A história que inventei sobre mim mesmo. muito barra pesada.Na mania. Tinha descoberto a regra que permitia repor aos pais as crianças que tinham sido trocadas. eu saí como sempre bem. tomei antidepressivo e. uma hipomania e um surto psicótico. Com o remédio saí mais ou menos rápido da depressão. é um sintoma clássico. Tive uma hipomania que durou uns quatro meses. no ano seguinte. E eu tinha descoberto a regra de funcionamento do mundo. maníaco-depressivo modelo. naquele momento. sobre esse lance de se interessar por todo o tipo de gente. Grossíssimo modo. bares. por e-mail. Maníaco. . é basicamente isso. aconteceu a mesma coisa. e minha caracterização de bipolar. da adrenalina. talvez até pela superioridade dele. Era sempre a mesma coisa: começava em outubro.Me fala dos seus delírios. Sentamos numa lanchonete e pedimos café com creme. E. eu tinha essa necessidade de entrar em contato com gente maluca. a polícia teve que me pegar. não era idiota. Dois ou três meses depois eu estava saindo. umas figuras inusitadas. Me sentia onipotente. e olhava no olho. em 2000. Então tive um surto psicótico. meus delírios eram assim: crianças haviam sido embaralhadas.. que acontecia desde os tempos imemoriais. e depois a coisa foi ficando mais intensa. na verdade. que é uma postura meio louca. Foram quatro anos consecutivos. tanta sinceridade. as depressões foram descobertas fundamentais para sua transformação e seu amadurecimento. não sei se é porque ele vai com tanta franqueza. barra pesadíssima. . e logo a seguir pede outro. Meu diagnóstico é considerado claríssimo.O fato de ter feito esta descoberta me atribuía uma série de poderes. O bipolar. Na terceira depressão.Eu acreditava em coisas absurdas. vem daí também. Já estou quase terminando de escrevê-lo e saímos para caminhar na praia. A gente tende a olhar as coisas muito pelo lado positivo. Essa postura peito aberto. Thiago toma o café. Durante a escrita do livro conversei com ele várias vezes. Thiago tem 28 anos e teve quatro depressões. em pizzarias. mais ou menos na mesma época..

justificava toda a minha história, a infância um pouco complicada, justificava
meu sofrimento como o preço que eu tinha de
117
ter pago para realizar essa grande missão, que seria permitir que os pais
localizassem seus filhos perdidos. Era um delírio, mas eu acreditava de fato
nisso, trabalhava
em função disso. Achava inclusive que eu era uma dessas crianças que tinham sido
trocadas. Cismei que não era filho dos meus pais, na verdade eu gritava para o
mundo,
mas é óbvio que estava falando com as paredes.
O garçom traz xícaras e envelopes de adoçantes e açúcar. Thiago continua:
- A forma como a minha cabeça estava funcionando era peculiar demais pra
eu hoje em dia ser capaz de recuperar todos os detalhes dessa história, a
própria
dinâmica, a lógica de como funcionava. Tinha ido para Tocantins, pra um
acampamento, e foi naquele lugar que detonou. Foi lá que vivi os dias mais
esfuziantes, a
maior fase da mania. Da grande mania, antes de entrar no delírio. Eu tenho um
grande carinho por tudo que aconteceu.
- Seus delírios têm tudo a ver com a sua infância. Óbvio, né?
- Isso é verdade. Quando criança eu era muito estudioso, retraído, muito
responsável, talvez fechado demais em casa, preocupado em satisfazer os adultos,
pouco
criança, nesse sentido. Na verdade, acho que as coisas que emergiram quando eu
fiquei maluco estavam todas elas
118
relacionadas à pouca atenção que eu dei àquela criança, tinha contas ainda a
prestar com a criança que eu fui; estou falando uma grande obviedade, acho, pra
qualquer
um que acredita em psicanálise.
O dia está nublado e surfistas se equilibram nas ondas enormes. Peço
torradas com manteiga e mel.
- A mania coincidiu muito com o momento que comecei a pensar sobre a
minha infância. Quando estava começando a dar atenção a ela, fui entrando na
mania. Tanto
que o interior do Tocantins, onde vivi esses dias malucos, me despertou muita
coisa doida e, por uma série de coincidências, me remeteu a lugares da minha
infância.
Encontrei uma casa abandonada, que se parecia com a da minha avó, e achava que
já tinha estado ali.
Na calçada, rapazes descalços passam vendendo amendoins em cones de papel
cor-de-rosa.
- Logo depois disso, comecei um movimento, quase obsessivo, para
descobrir coisas da minha própria infância. Isso envolveu conversar com os meus
pais, ver
fotos, visitar lugares. Foi nesse ano que fiquei meio sem fazer nada na vida, só
me recuperando. A maior parte desse tempo acho que eu estava dedicado a inserir
minha infância na trajetória da minha vida e fazer as pazes com ela. A minha
própria loucura, vamos dizer assim, foi o primeiro movimento.
119
Na verdade, eu justificava essa coisa de ter descoberto a regra de organização
do mundo, da seguinte forma: só fui capaz de descobrir isso porque fui criado
pra
descobrir essas regras quando fosse mais velho. Meus sentimentos da infância
foram o resultado de um projeto de determinadas pessoas que escolheram aquilo e
me
falavam: "Olha, esse menino vai salvar a geração dos pais mais pra frente, esse
daqui foi o escolhido". Então eu teria que passar por uma série de provações e

dificuldades, porque era um predestinado. Sei lá por quem, por algum grupo, uma
seita secreta, uma coisa assim. Por alguém que estava interessado que os pais
recebessem as crianças de volta.
- Minhas depressões foram mais pesadas do que as tuas, acho...
- Devem ter sido, tive contato com pessoas que ficaram piores, eu relativizo.
Tem muito pior. A mãe de uma amiga é diagnosticada como bipolar, mas está há
trinta
anos deprimida. Tentou-se de tudo com ela. Claro que eu tinha aquela dor física,
dor no peito, não conseguia falar direito, gaguejava. Tive um problema de sono
muito
sério na última depressão. A princípio não dormia, acordava no meio da madrugada
e depois eu só queria dormir, o tempo inteiro, chegava a dormir vinte horas
seguidas.
E tive muito apoio da minha família, meus pais foram muito
120
legais, sempre. Quando fiquei psicótico poderia ter sido internado, dado o meu
nível de agitação, mas eles optaram por fazer uma coisa diferente. Sempre
estiveram
do meu lado, sempre foram meus grandes companheiros nessa história toda.
A chuva aperta e algumas pessoas se abrigam sob o toldo da lanchonete.
Pingos estalam na calçada de pedrinhas portuguesas.
Durante as depressões, fiquei num sítio em Minas e, por sorte, era uma
época que a maior parte dos meus amigos estava à toa, então eles fizeram uma
espécie
de rodízio para ficar ao meu lado. Meu pai ia lá, uma vez ou outra, vi minha mãe
uma ou duas vezes durante todo esse período, ela estava muito assustada. Foi um
pouco traumatizante pra eles. Mas por outro lado teve uma coisa muito boa,
porque me aproximei do meu pai. Foi muito bacana.
- Minha vida é cheia de intervalos - digo -: a gente pára de raciocinar
por um tempo, sente que perdeu anos com isso. Você não sente isso?
- A gente perde, sim - concorda. - Quando tudo aconteceu, eu estava
fazendo mestrado em Belo Horizonte. Foi na época do delírio, eu tranquei e vou
defender
minha tese semana que vem. Estou reclamando que o meu mestrado era pra ter sido
feito em dois anos e acabei fazendo
121
em seis. Eu tenho uma visão muito positiva do bipolar, mas sei que fui
privilegiado. Porque conheço outros bipolares que têm uma vivência péssima da
doença, e têm
todas as razões pra isso. Não sou representativo, não sou a regra, outras
pessoas que eu conheço que já passaram por isso, diagnosticados como bipolares
clássicos,
passaram por dificuldades, tiveram suas vidas muito desestruturadas, sofrem
muito. Não gosto de ficar generalizando a partir da minha experiência, porque
acho que
é muito particular. Tenho essa coisa da família, acho que eu tenho até uma certa
estrutura, mesmo mental, psicológica, enfim, lar estabilizado, relação positiva
com o remédio.
Thiago acha que, sendo bipolar, teve mais ganhos do que perdas. E, como Kay
Jamison, prefere o nome antigo da doença.
- Prefiro a expressão maníaco-depressivo, porque acho que transtorno
bipolar é um eufemismo e a intensidade da coisa não fica clara. Eu faço
referência a isso
no meu perfil do Orkut (risos), nunca tive problema. É um problema de identidade
complicada. Sempre fui o certinho, nerd, e o fato de ser reconhecido como louco
me permitiu um equilíbrio, uma identidade, essas coisas. Nunca me envergonhei,
as pessoas ficavam admiradas com isso, de como eu não tinha vergonha de falar.
- E você gastava muito?
122

- Nunca fui de gastar, nunca tive nada de consumista, e acho que isso
contribuiu. Eu diferencio no meu caso três estágios. A hipomania, a mania e o
delírio.
A diferença entre o delírio e a mania é que no delírio eu entrava num mundo
totalmente paralelo. Este mundo das crianças perdidas, onde as pessoas não
morriam, elas
hibernavam, onde havia extraterrestres, e eu me comunicava com outros seres,
enfim, todas essas coisas. Mas nesse período entre mania e delírio, uma vez fui
a um
posto de gasolina e gastei oitocentos reais, com besteiras, chocolates, e
distribuí para as pessoas. Eu me lembro de ter comprado também um livro inútil,
gigantesco,
caríssimo, enfim, vários volumes. Mas logo, logo tiraram meu cartão.
- Thiago, você reagia rapidamente aos remédios ou demorava para se
adaptar?
- Em 2001, iniciozinho de 2002, comecei a tomar a medicação e de lá pra
cá nunca mais tive nem depressão nem mania. Comecei com um antipsicótico e
funcionou
rapidinho. Em 2002 comecei a tomar lítio, me dei muito bem, não tive nenhum tipo
de efeito colateral. Nunca tive
mais nada. O ciclo foi quebrado.
- De vez em quando você transita entre os dois pólos, costuma sentir
euforias brandas?
- Hoje em dia flutuo no meu humor, mais do que antes. Mas as flutuações
estão bem dentro da esfera da normalidade.
123
Sempre procuro ficar atento. Às vezes, quando estou no bar com meus amigos, e me
sinto meio eufórico, agitado, resolvo ir pra casa dormir. Pra mim ta sendo
muito bom, porque nesse período de 1998 a 2001 eu não ganhava em continuidade,
porque a depressão corta, a gente tem que meio que começar de novo, se
reestruturar,
se organizar. Hoje em dia eu faço análise com uma psicanalista lacaniana, que é
psiquiatra também. E controlo a dosagem de lítio. Dormir bem também é essencial
pra
mim. Se fico duas noites sem dormir, já começo a me sentir meio estranho.
Exercício físico me ajuda muito, faço com regularidade, todo dia, eu gosto, e
acho que
isso me ajudou bastante.
- Não sei se com você era assim, mas eu tinha dificuldade de saber o que
fazia parte da minha personalidade e o que era a doença...
- Eu sou assim mesmo ou é porque sou bipolar? Você só pode pensar em você
própria levando em consideração esse fator. Não é?
- Claro. Com o fim dos ciclos você acha que se tornou uma outra pessoa?
- Eu estou sempre querendo fazer um novo Thiago. Engraçado, tenho essa
obsessão de sempre me tornar uma pessoa diferente, mudar. Outro dia eu estava
pensando
nisso, estava precisando de uma depressão.
124
Bato na madeira, ele ri.
- Que fosse uma fraquinha. Porque todas as vezes que eu saí da depressão,
tinha essa dificuldade de recomeçar, mas tinha uma vantagem, que era sentir que
a
pessoa que eu estava começando a ser era diferente da anterior. Sempre era
diferente. A depressão exige que eu me reinvente, que eu seja outro. É óbvio que
eu posso
me transformar, virar outra pessoa sem a depressão, faz muito mais sentido, vai
ser uma coisa muito mais definitiva. Mas eu tava pensando nisso: a depressão,
nem

que Thiago faz questão de pagar.Quando vamos voltar a jantar? Já com o dedo no botão do elevador. Sentamos à mesma mesa. E quando a festa acabou ele estava atracado no sofá com uma garota gorducha. E me possibilitou lidar com uma série de questões. Não sabia mesmo. e aceitar seu convite foi o único modo que encontrei para fazê-lo sossegar.Um beijo na boca . Trabalhávamos de domingo a domingo. Mas logo fui tomada por uma aflição. sei lá. foi uma coisa boa na minha vida.Vamos sair daqui. bobagem minha.Já vi que você está se divertindo muuuito. Era uma relação platônica. mas maliciosa. inventando uma desculpa qualquer. Acabei dançando samba com um dos motoristas da campanha." Eu passei por coisas. o que o deixou furioso. Quando o candidato a prefeito ganhou as eleições. mas não consegui responder a nenhuma das suas perguntas. Quando a música parou. Achei que talvez significasse "estava beijando você". Não que não quisesse. Era um filme no qual eu não podia participar. A primeira coisa que fiz quando cheguei foi checar se o nome do surfista estava marcado na lista da recepção. e mal pude acreditar. Nos despedimos com beijos e aquela coisa carioca de "Vamos marcar! Vamos marcar!" 125 Assim que o surfista chegava.falou. . o que você vai me dar? . Muito. O surfista chamou outra mulher. muito. mas talvez não.Se der os números. Eu quero viver uma história de amor com você . mas não sei dançar separado. e fui falar com ele. Tudo me ajudou muito a me entender. .Sou. eu vi coisas que ninguém sonha. Às vezes pedia que eu escolhesse os números da mega sena. onde ficava o material da campanha. para pegar panfletos e bandeirinhas. É um pouco presunçoso. tomar consciência de outras que eu nunca tinha atinado. toda semana apostava na loteria. Me chamou para dançar e não fui. uma coisa que marcasse uma passagem. E nos fins de semana. O surfista segurou meu braço e disse: 126 .que fosse como um rito. E eu estava sempre na sala dele. O garçom traz a nota. mas é aquela coisa que às vezes a gente fala para os outros: "Eu estive num lugar onde vocês nunca estiveram. mas o cara estava bêbado e inconveniente.Você disse que não sabia dançar. meus filhos perguntavam: . brinquei: . Mas eu não disse nada.Eu estava dançando com você. Ele me olhou: . mas gostava dos diálogos. A chuva já foi embora e também precisamos ir.perguntava eu. houve uma grande festa na cobertura de um hotel do Rio.Você é um sortudo. como se tivesse acordado de um sonho. Eu me achava. Eu achava que esse tipo de cena só existia no cinema. . quando passava em casa pra trocar de roupa. Homens não são muito confiáveis.Esquentem a comida que está pronta no fogão. 127 . ia direto pra minha sala. .E voltava para o comitê. . . Beijei todas as pessoas que conhecia (e conhecia todas mesmo). mesmo sem precisar.respondia ele. eu respondia: .

ouvindo conversas para tentar saber o que estava acontecendo no mundo. não sabia usar a internet e nem tinha . Uma pessoa saudável contaria para sua família o que estava acontecendo. quando a campanha terminou. Porque. estava preso ao trabalho na televisão e na rádio. sempre estava disponível para ouvir minhas confidências.se resume aos dedos de uma mão. para disfarçar. Eu sabia. pediria ajuda. eu era dona de uma livraria. seu marido e seus filhos. Talvez por terem a segurança de saber o que vai acontecer. Como crianças que assistem ao mesmo filme várias vezes.sem contar os nossos filhos . Mas nem pra ela tive coragem de contar. jamais gostei de ter contato com pessoas. e sempre nos amamos muito. um poema de Brecht. escrevi um recado: "Saudades de você." Luciana me disse que eu deveria colocar um s no final da palavra você. Eu vivia no vácuo. Charmoso. Viajei para Saquarema. Sempre achava que no dia seguinte estaria boa. mas não quis. 129 e fiquei lendo Saudades do século XX. embora sol e mar sejam combinações interessantes para quem está deprimido. Embaixo. de Ruy Castro. mas hoje vejo que não foi um sentimento real. da dor. Me sentia ousada. Nesses momentos de dor. para tentar um novo tratamento. minha família . da dor para a recompensa. 132 Todas as noites. Gostava de dormir no quarto sozinha e detestava acordar para ir à praia. Me sentia bem. médica que era casada com meu primo. cada um foi para o seu lado. e eram afetuosos o tempo inteiro. caí em depressão outra vez. e uma das pessoas mais corretas que já conheci. mas meu desânimo era total. Ninguém tocava no assunto. Ninguém sabia de nada. porque já conhecia seu conteúdo. 128 Disfarçar sempre. Parece evidente que havia um esforço mental para tentar criar uma ponte que me fizesse passar da depressão para a euforia. Afinal. Depois dessa vieram muitas. Sou uma leitora compulsiva. enquanto as pessoas iam dando sua opinião. as estantes do consultório eram cobertas por livros manuseados e no original. Quando eu resolvia contar alguma história que tinha lido ou que tinha acontecido comigo. exaustivamente. eu falava: "Também acho" ou perguntava: "É mesmo?". Não estava nem aí. Com o fim do trabalho e apaixonada. era como uma cerca protetora. Rosa. Continuei lá. pela milésima vez. e fugia disso. com minha prima. Era massacrante pra ele. sonho de todas as pessoas que adoram livros. Já havia trocado de médico. Pela primeira vez foi detonada por um fator externo. Mas com a minha família era diferente. Em janeiro. Da vontade de morrer. O novo psiquiatra era um homem interessante. Sidney ficou apenas um fim de semana. Não entendia nada. e era frustrante acordar do mesmo jeito. deitada na cama. durante anos. uma excitação própria da doença. Ficava quieta. Qualquer coisa importante que acontecia comigo eu contava a ela.Foi uma paixão boa de sentir. E. Voltei de Saquarema ainda mais deprimida. Eu ainda estava hipomaníaca quando mandei um cartão de ano-novo para sua casa. imaginava a mesma história. veja hem: quando tive um colapso no início de 1990. que ria muito das minhas histórias malucas. nunca conseguia completá-la. onde fazia incansáveis plantões. mas uma fantasia.

Uma nova ciranda de remédios. Nunca aprendi nada com as depressões anteriores. Impossível me reunir com outras pessoas. sempre fui tachada de "a desligada". Tinha ódio das pessoas dos comerciais. e um Rivotril antes de dormir. Toda minha família observava que havia alguma coisa errada comigo. e você volta a ser uma pessoa que nada sabe. Quando voltava à normalidade. Ficar na cama durante meses é como tirar férias forçadas da vida. a dizer sim para a vida. na minha família. ficava sabendo de pedaços de acontecimentos que me deixavam constrangida. e a terapia já tinha deixado de funcionar. só usava celular por obrigação profissional. Estava constantemente de mau humor. Meu sobrinho tinha sido operado há meses? Me surpreendia: "De quê?" "Por quê?" Não é à toa que. Na pior das depressões sempre consegui me expressar bem quando conversava com terapeutas ou psiquiatras. casamentos e separações. da revista Caras e de todas que apareciam sorrindo felizes na televisão. remédio recém-lançado. como se ela fosse minha mãe ou 133 melhor amiga. tem certeza de que aquele é seu estado normal. Quando chegava alguma visita. porque estava no mundo e não sabia como me comportar. mas era algo velado. porque ela mesma nunca soube usar o abridor. e sempre. Muitas vezes ouvi cochichos vindos da sala. Não tinha e-mail. te dá um nocaute. alguma doença visível que me desse motivo para chorar e ficar acamada. sobrinhos que se formavam na faculdade. que fizesse com que minhas lágrimas fossem consideradas normais. Finalmente comecei a tomar Efexor. Ao retornar. a depressão te pega desprevenido. e que jamais vai sair daquela cilada. Se um dia esqueço de tomá-lo. no Alto da Boa Vista. e odiava os americanos. e conheço pessoas que usam sem controle. pessoas 134 próximas que haviam sido operadas. era sempre como se fosse a primeira. Minha mãe dizia isso como figura de linguagem. com quem me consulto até hoje. me conheceu no auge da depressão e aos poucos fomos percorrendo os caminhos onde coisas estavam escondidas. ficar ao meu lado e dizer: "Vai passar". uma freira de 40 anos largou o hábito e foi morar em Copacabana. Rivotril cria muita dependência. Me lembrava sempre de uma história: quando minha mãe dava aula no Sacre Coeur. porque eram os únicos que compreendiam o que eu sentia. Estive ausente de muitas coisas importantes que aconteciam em volta: a morte da mãe de um amigo. Ou que acontecesse alguma coisa muito grave. eu pedia ao Sidney para dizer que eu estava dormindo. Quando surgia uma nova. E não sabia abrir uma lata. Ela me ajudou muito. Eu simplesmente não sabia de nada. Nunca deixo de seguir a medicação indicada. . Angela Podkameni. Eu me identificava muito com aquela mulher. coisa que ainda não tinha voltado à moda. Eu pedia a Deus que ficasse doente. é a única regra que eu levo realmente a sério. Troquei de psicanalista também: eu e Julia já estávamos muito íntimas. minha cabeça amanhece oca e parece que não dormi.interesse. Minha aparência era péssima e eu não sabia o que falar. Que os outros pudessem entender.

todos sombrios.explica dr. o cérebro ainda está rateando. as funções chamadas executivas. brincando de professora com uma outra menina que morava no andar acima do meu.Uma das coisas que me deixava aborrecida era não conseguir ler. "Tem mais: a pessoa supera a depressão. por ter sido tão comportada. Quando chegou o Natal. desesperada com sua total falta de concentração para entender qualquer livro que pegasse pra ler. Eram tão inocentes que me transportavam para um mundo irreal. E algumas pessoas não entendem por que não estão mais deprimidas. No ônibus escolar. Eu ficava na área de serviço. Ao mesmo tempo. criança. Descobri que reler crônicas antigas do Drummond de 135 Andrade aliviavam minha angústia. E tão nítido: eu. e é essa a imagem que eu tenho de mim quando dou uma espiada no passado. não deixava que eu fosse brincar na rua. não conseguem fazer nada. afetam áreas cerebrais que têm a ver com aprendizado. Loser. precisou apelar para os livros infantis. Só me recordo de mim muito quieta. vestida de baiana. Em determinado momento todas as contas de todos os colares rolaram pelo chão. e não conseguem fazer uma figura. A doença faz um desarranjo e as funções ficam meio bobas. onde todos os meninos soltavam pipas e jogavam bola. Abri a caixa.que essas doenças. curiosa: era um terço dourado. mas essa função executiva do lobo frontal ainda demora para voltar ao normal. com um quadro-negro. na área lateral do prédio. presa aos meus pensamentos .Hoje está se vendo . a madre superiora me pedia que a ajudasse a rezar o terço. Kay Jamison conta que. . memória. não poderia ficar dias na cama. soltas como se fossem balões de ar. Era uma rua sem saída que terminava num morro cheio de casinhas. atenção. para minha proteção. a depressão. Eu era quieta. Estudava numa escola onde freiras andavam pra lá e pra cá com molhos de chaves nos bolsos." Vamos todos pra Barra da Tijuca pegar uma onda maluca Vai a Adriana Vai a Claudinha Vai a Isabela Vai o Zé Luiz Vai a Rosana Vai o Carlinhos Vamos todos dar uns mergulhinhos Rá rá. mas continuam desanimadas: é uma apatia cerebral. O lobo frontal tem a função de coordenador. Mas por que será que a pessoa fica tão burra? . Olavo . enquanto no banco de trás as meninas suspiravam pelo Paul McCartney. recebi um presente. como o transtorno bipolar. numa festa de carnaval no jardim interno do nosso condomínio. e faziam listas dos pecados que jamais poderíamos cometer. Minha mãe dava aulas 140 em vários colégios e.

íamos para o gramadinho. íamos à Floresta da Tijuca e tomávamos chá no Esquilos.Presa nada. colocava bolas de vidro por cima. no volante. Nos conhecemos aos cinco anos. e chorava ao assistir às montagens de Morte e vida severina. Também sempre tive a sensação de não ser normal. Sendo professora. no canal. enquanto sua mãe. Verdade. aceitava. por falar em Alto da Boa Vista. .Minha irmã. E. na qual íamos citando todo mundo que estava presente. só areia. na pista onde passam os carros. minha avó dizia que elas iam roubar todo o nosso oxigênio. mas sabe onde tomávamos banho de mar? Bem na entrada da Barra. A fim de tornar a história da minha infância menos fantasiosa. entendia que existiam coisas que eu não deveria saber e para manter o conforto que a alienação nos dá. agora já são lembranças minhas. a gente roubava rosas escondido na casa dos vizinhos. como não existia o túnel Lagoa-Barra. Minha avó ficou viúva e se casou outra vez. bolos comuns que ela enfeitava com flores de verdade. Não pensem que estou por aqui há mais tempo que na verdade estou. presa? . Aos domingos. isso não era comum. corro atrás da minha única amiga dessa época. Nós tivemos a melhor infância que alguém pode ter. ou Gritos e sussurros. Nunca quis sair de baixo das asas da minha mãe. embora distante da esquerda. um lugar onde havia um lago com peixes e grama em que podíamos rolar. Não havia nada ali. era pequena quando viu na ficha escolar que o nome do nosso avô era outro. Fazíamos piqueniques na sombra das árvores.Você não pode falar nada da nossa infância. Rosana. mais areia. íamos pra Barra tomar banho de mar [escrevi banho de mãe. Ela fazia músicas para cada um de nós e tínhamos uma exclusiva para ir à praia. A Barra cresceu muito rápido. Ela disse que lembrava de tudo e com detalhes. minha mãe era viúva e tinha um Hillman preto. Tudo que a Rosana falou eu lembrava. e nossos passeios eram quase todos de graça. A sala da nossa casa tinha um monte de plantas. onde tem aquelas casinhas lindas 142 de gente rica. Foi uma intelectual. a começar pelo Alto da Boa Vista engarrafado. Mamãe estava sempre fazendo reuniõezinhas e bolos de aniversário para os amigos. era uma viagem chegar até lá. Eram coisas bem modernas. minha mãe tinha meses de férias. Mas e aquela garota quieta. viajávamos demais. Ela descrevia nosso passado como se fosse uma sessão da tarde: . olha que ato falho]. e no Natal. do João Cabral. Íamos tomar banho na Barra da Tijuca e. e do outro lado. Isabela. A lista de crianças ia se modificando de acordo com as que estavam no carro. Eu era obediente.ao contrário. a idéia me apavorou e tudo se desenrolou como um ritual às avessas. Talvez por isso eu nunca tenha tido vontade de crescer. do Bergman. Seria crime? Não tínhamos acesso às informações dos adultos. Realmente: citou 141 nomes de vizinhos que eu nunca conseguiria lembrar. para desespero da minha avó. cantava músicas pra gente. Não tive a excitação do primeiro sutiã . Mergulhávamos e nadávamos de uma margem para a outra.

Também me lembro de outras coisas: um porteiro do prédio escorregou enquanto lavava o corredor e se cortou 144 com a garrafa de água sanitária. no banco de trás..Eu via a tia Lucy como uma executiva. e minha empregada me puxou pelo braço pra gente ver. Na nossa casa sempre havia rosas. uma mulher que saía para trabalhar. ela. percebendo que esquecera a chave da porta. A primeira vez que vi a mentira eu era bem pequena. Diz que cria suas filhas seguindo as regras que aprendeu com ela. Meu Deus. mas não sei usar os talheres direito.". Ele viria a ganhar dinheiro.. e posso ver claramente minha mãe chegando em casa e.por exemplo. Choro ao ler João Cabral. Eu não. O homem ensangüentado ao meu lado no automóvel era apavorante. perguntei à minha mãe do que ela tinha morrido. Se fosse ao contrário. pare agora. chás. se tivesse brincado me lembraria. mesmo com as aulas que ela dava pra nós duas. Minha mãe disse: "Ela estava . Eu era pequena ainda. Eu tenho certeza que não. minha mãe dava aulas de francês em um colégio de freiras. eu tinha dez anos. Ela não era sua mãe. sabe francês. Minha mãe é a figura principal da sua vida. Rosana faz tudo igual. Mas era muito legal o que ela fazia. as esculturas de Sabará. mesmo que estivesse sozinha. dava consultoria para várias empresas. É louca por Paris. Rosana romantiza e às vezes se confunde: . Na pequena cristaleira do quarto. Ela era uma mulher de cabelos lisos e pretos. Minha amiga pegou um lado dela diferente do meu. e arrumava a mesa do chá com louças de família e talheres de prata. Mariana. muitos vidros de perfumes franceses. quase um monopólio. passar da varanda da vizinha para a nossa. Aí é que está. por favor. Hohoho. era assustador. Rosana se tornou presidente de uma empresa criada por ela. 145 Seu corpo estava no chão da sala e do ouvido saía uma pequena poça de sangue. e suas três filhas também eram bonitas. Fizemos um coralzinho improvisado na igreja e cantamos "Senhor juiz. Quando se casou com meu padrasto. moderna . Minha mãe era uma mulher moderna e uma mãe conservadora. com coreografia e tudo. talvez eu estivesse escrevendo outro livro. viajamos várias vezes de carro e conhecemos Minas Gerais quase inteira. era atuário. No jantar. e trabalha à exaustão. adora rosas. A diferença é que a Rosana não era a filha da Lucy. e poderia estar na capa da 143 Exame.me diz. Estava sempre lendo. Viajávamos de carro para todos os cantos. além de min istérios. Festival de Inverno em Ouro Preto. Estava sempre levando ensangüentados para o hospital. talheres de prata. Jorge de Lima se misturava com Jacqueline Susann e estamos conversados. interessantíssima. . Dos meus dez aos 15 anos. essa cena aconteceu tantas vezes.Nós brincávamos com os meninos de salada mista. A vizinha do apartamento ao lado deu um tiro no ouvido.

nem ela sabe ainda. suspirou: 146 Difícil é saber quem a Lucy não namorou. Tantos anos lamentando que não me deixaram brincar na rua. Mentiam por achar que era a única forma de nos resguardar do lado ruim da vida.É verdade que a minha mãe namorou o Heleno de Freitas? . . viajar com amigos e namorado. Você já é adulto e a fila anda. E quando começaram a falar sobre sua maneira de ser. parecia que estavam falando de uma outra pessoa. como as de Paraty. por causa da violência. porque achava o y colonizador." Minha mãe gostava de escrever Luci. e não desgosto do resultado. Quando uma mulher tem uma filha. Estou pensando nisso agora. nunca. as mães cuidam dos seus filhos da maneira que sabem e que acreditam que seja para o bem. quando eu já era quase uma adulta." Pensando agora. fui a uma festa de fim de ano do Colégio dos Santos Anjos. Drummond de Andrade e aquela turma toda. Já adulta. namorar antes de uma certa idade. Como Maria Clara educará sua filha? Provavelmente. achando que era o melhor. Me educou do jeito que gostaria de ser educada. acampar. minha filha certamente tem queixas de mim. quando o primeiro psiquiatra disse que minha depressão era reativa. era verdade. Na reunião fui muito festejada por ser filha dela. aos 18 anos. vejo que tudo isso é bobagem. Minha avó não gostava da minha mãe.doente. e o namoro era uma coisa que se especulava na família. E dirigia caminhões. Cada um é de um jeito. e foi isso que nossa família fez. Acampar. não era uma mentira como pensei a vida inteira. me convidou para ir. Max era um intelectual peso-pesado que freqüentava os saraus que reuniam Pedro Nava. Mas ela sempre se virou acampando em terrenos de pousadas. onde minha mãe estudou. seu melhor amigo da época. Acho que não quero mais saber quanto minha mãe me prejudicou ao mentir sobre a morte do meu pai. e ela podia fazer o que bem quisesse. desistindo. Mas já foi. foram necessárias para que eu me tornasse eu mesma. Nunca impedi que ela fizesse nada. Porque sinceramente acho que depois de um tempo você precisa estar ok com seus pais. Minha mãe era uma sereia. Ela já havia morrido e Max. Ela ficou na dúvida. Tirando as exceções que confirmam a maioria. -Quase caí pra trás. pêra. Perguntei à diretora: . Não tem cabimento nessa altura do campeonato procurar saber por que mentiam tanto pra nós. Cada um faz o que pode. uva ou maçã. olhou pro lado para pedir ajuda e. com dinheiro contado.O jogador era o Raí da época. e ela começou a sair de noite na hora que sentiu vontade. 147 A superproteção. Todas as marcas. Ele me disse: "Nunca conheci uma mulher tão inteligente quanto a Lucy. Eduquei Maria Clara conforme as fases da sua vida. De tempos em tempos os ex-alunos se reuniam. pular 16 horas de abadá em Salvador. achei um diagnóstico feito pra mim. Escrevendo. inclusive o pai que nunca conheci. e era a hora certa. Minha mãe achava que amor era isso. Então foi pra Europa com a irmã. e assim caminha a humanidade. é comum que a eduque de maneira oposta à que foi educada. e todo esse excesso de cuidados que tivemos. Tudo isso junto criou o que sou. me fez engolir tantas coisas que.

Você sabe. . a mamãe falou que ele era delegado e poeta. que nos alimentou. . perguntou o tema. Você não sabe a profissão do seu pai? Eu estava boba. Vou à casa dela pensando em sair dali com pilhas de informações. coisa que nunca consegui falar. . .Descobri na análise que minha mãe sempre impediu que eu crescesse. depois dela vem meu irmão.me falou desanimada.Como ela era? Pergunto cheia de esperanças. .Com essa idade dá pra lembrar de muita coisa. Sempre considerei uma mistura interessante. não estamos falando da mãe de verdade. ela tem tendência a se lembrar do passado com nitidez. 79 anos. Lavava. Realmente eu estava de queixo caído.Minha filha.Eu tinha 12 anos quando ele morreu justificou. delegado. . Minha tia é a memória da família. e agora vou falar uma coisa rapidinho: Quando se diz numa sessão de análise "dane-se minha mãe". pra que você quer saber disso. Freud. o problema é dela. Quando a pessoa vai envelhecendo. aquela. eu disse que sim. Já conheço meu pai.Fala então da sua avó. minha mãe. . respondi que não podia dizer. . A análise serve para me ajudar a resolver minhas inseguranças de adulta e supervisionar minha doença.Tia. ( Repare que as coisas estão difíceis pra mim.. tia. . o que de fato pode ser verdade. tenho mil coisas pra resolver. mil problemas para enfrentar.Eu não. E como todos os adultos. de carne e osso.. . e como não tenho informações para resumir a história da minha família.Tia. Se minha mãe queria 148 que eu fosse sempre uma criança. tia. Minha tia se anima. e que não vem ao caso. isso sem falar no imposto de renda. amo demais os dois.. cozinhava.. recorro a minha tia Alda.Pra que diabos você quer saber tudo isso? Perguntou se era um livro.É. faz tanto tempo. Vivia o tempo inteiro pra lá e pra cá. Como a probabilidade de a doença ser hereditária é muito alta. passava. Então estou vendo agora que o peso da nossa infância e dos nossos traumas devem ser colocados numa malinha e deixados de lado. sou adulta. varria a casa. de 53 anos. . Tchau. a mamãe dizia que ela era o máximo. não lembro. quase uma entidade. .Uma mulher grande. Dificilmente ela entenderia. Mas de uma mãe figurativa. Comecei de maneira bem simples.Não lembro de nada . nos levava aos bailes vespertinos. mas só de uma parte que interessa. minha avó era muito bacana. Minha tia se lembra. . Mas e daí? Eu cresci. .Ah. fala do meu avô.Caramba. 149 .Delegado? Ela se surpreendeu. Já viu uma coisa assim?) 150 . a lembrança mais clara que eu tenho é ela trabalhando muito. .Não lembra? .Ah.

conta ela . não entro eu". o maior luxo.Sei disso não. "Onde meu marido não entra. . De acordo com a versão da minha mãe. te dana. Ana tinha um comprimido de ecstasy na bolsa e perguntou se eu queria dividir. e o corpo não está preparado para esse ritmo. Dividimos o mesmo quarto. Eu quase podia ver uma mesa enorme com copos de cristal. como a tarefa de fechar caixas e caixas de papelão num breve período em que trabalhou numa fábrica e. Muitas vezes a pessoa energizada impõe um ritmo ao corpo. . Quando ele comentava a respeito. que ela tirava das mãos dela assim que ele chegava do trabalho. vieram para o Brasil. disse ela. eu sei. uma amiga. Deu exemplos de trabalhos exaustivos. Estava completamente pirada. No dia seguinte: Chamamos de terra. tive outro processo de aceleração e vertigem.Ahn? Mas a mamãe sempre contou que ela esperava o marido com um bordado na mão. para uma festa de natal. Por conta dessa história do bordado. mas do que a minha irmã contava. tinha muita disposição para o trabalho. Minha tia riu dessas histórias. e a euforia tomou conta de tudo. Existem doenças físicas ligadas ao transtorno . E isso é tudo que consegui apurar. Ué. ." Para mostrar que era "fina".Minha avó era portuguesa . É uma doença de excessos.A vovó. É ou não é uma família pirada? E só agora me dou conta disso. e talvez castiçais. Olavo. te agita. te envolve de nuvens quem sabe aonde vai parar no outro dia? Jorge de Lima Meses depois de carregar uma dor insuportável. Como a família dela não gostava dele. Adorei ouvir isso. Viajei para São Paulo com Ana.Existem 156 doenças físicas vinculadas a ele. . e a maior alegria do mundo é pouca. um flat da alameda Lorena.. Muita.A mamãe também dizia que ela comia antes de o meu bisavô chegar e durante o jantar colocava no prato 151 pouquíssima comida. . feito pela empregada. fazendo os serviços domésticos sem parar. acidentes. muita mesmo. e não só o suicídio. o poema te leva. Eu imaginava minha bisavó com vestidos lindos. alguns tipos de cânceres e outras doenças. . a imagem que eu tenho dela é 150 sempre trabalhando. minha bisavó dizia: "Estava dando o último ponto!" Para mostrar que era prendada.O suicídio não é mais a única causa mortis excessiva no transtorno bipolar explica dr. quando fez mil sanduíches para uma festa. durante uma madrugada. Está se observando o excesso de mortalidade de bipolares por enfartes. Desisto. claro! A euforia sempre quer mais. Mas minha tia não tinha muito mais coisas a fazer. Não das minhas observações. empregados.e meu avô espanhol. ela respondia: "Estou sem apetite. te vinca de cruzes.

nos entendíamos sem precisar completar uma frase. A festa mal tinha começado quando Ana me disse que não se sentia bem. Saquei como tudo começou depois de. Ela realmente estava mal. Por isso muitos bipolares bebem tanto. E. a droga provavelmente continha vários tipos de remédios de tarjas pretas. Não bebi nada. mas Ana ainda ria descontroladamente. se drogam muito e comem demais. seu secador de cabelo pegou fogo e sua amiga precisou impedi-la de pular a janela. Quando voltamos. Estava ligada por dentro. Nhé. Tinha um dentista no grupo que de vez em quando parava de dançar para checar minha pressão. que tinham efeitos alucinógenos e. Pensei que fosse um código. como se estivesse drogada. numa boate. Começou a ter visões no hotel. como se estivesse em outro plano e aquilo tudo fosse virtual. Fomos para o aeroporto. e. todo mundo sabe como é: são todos iguais. e quando entramos no restaurante havia toda espécie de pães. Continuei na minha. estava tendo o começo de uma overdose. Comíamos e engasgávamos de tanto rir. Não sei o que houve (aliás. Eu já estava bem. porque Ana adorava 157 dançar e estava tudo chatíssimo. e de madrugada pediu ao garçom uma sopa de aspargos. eu tive a exata sensação de que estava morrendo. o que não me fez sentir melhor. Ana tinha ataques constantes. conhecia vários truques de beleza. explicando o que de fato aconteceu: Alucinada no banheiro. Mas ela não tinha ido a outra boate. às cinco da manhã. poderia levar uma pessoa à morte. Ela tinha sido modelo. muito acordada. embora me sentindo um pouco estranha. e rapidamente preparou uma máscara de argila para nós duas. . Porque são pessoas que gostam de excesso. Ingerimos a droga e fomos para a festa. mas ela tinha bebido quatro copos. Passei a noite inteira sentada numa cadeira. Estávamos em fina sintonia. quando nos olhamos no espelho. desde o Big Bang. se misturada com uísque. mas por fora estava calada e pálida. estava me sentindo mal por um motivo desconhecido. Hanks. na verdade. Cláudia tinha conseguido amenizar a situação. Olha que coisa. Não importava o que falássemos. omeletes e 158 sucos. um rapaz superbacana. Voltamos ao hotel famintas. Achei que elas fossem a outra boate. ficou sentado comigo à mesa. Minha memória impede que eu me lembre de detalhes e ela me envia um e-mail.bipolar. que afirmou que ecstasy não teria aqueles efeitos colaterais. mas pelo menos me alimentou. Deitei-me de bruços no sofá. mas todas as cafeterias da redondeza ainda estavam fechadas. assim como todas as padarias. queijos. Café da manhã de hotel. estávamos brancas como pessoas mortas. sua melhor amiga. Era tímido demais para dançar. Para todos os efeitos. observando as pessoas. o que de fato estava. Às seis da manhã. como veio dentro de uma cápsula. ela procurou um psiquiatra. observar da janela um funcionário do hotel varrendo o pátio interno. peguei um bloco e comecei a escrever a história da humanidade. Quando cheguei. pois ela estava saltitante e tinha encontrado Cláudia. Saímos para tomar café. observando o comportamento das pessoas e achando todas esquisitas.

Olha que história sinistra. das formas mais alucinantes. Minha auto-estima era inexistente. Gostava de grandes riscos e nada impedia que ela cometesse toda espécie de loucura durante esses períodos. Marcamos um almoço num pequeno restaurante do Leblon e Lorena me conta o tipo de bipolar que ela era. e nem exatamente de onde vieram. e até hoje não tenho idéia de onde foram parar. tinha muita energia. e só depois de uma depressão é que ela notou que alguma coisa não estava bem. seus ciclos terminaram. Quando voltamos para o Rio. Como na televisão todo mundo é meio doido . Trinta mil reais evaporaram da minha mão em uma semana. . era muito bem-sucedida. O risco é que era o fator excitante. Consultamos o mesmo psiquiatra. e impaciente. mas foi arriscada. Medicada da forma correta. sempre achei e sempre acharam 161 que eu era assim. todos os diretores têm um remédio de tarja preta na primeira gaveta -. só sei que jamais viveria uma aventura assim se estivesse no meu estado normal. Ela tem uma força espiritual muito grande e passou a noite inteira rezando e pedindo por mim. Comprei um carro zero-quilômetro enorme de que não precisava. quando na verdade não precisava de nada. era adorada por todos. que durou muitas e muitas horas. Demorou muitos anos para perceber a doença. e pretendia comprar uma supercasa em São Paulo. não me deixou. além de fazer parte de uma doença. Eu não acredito nem duvido dos detalhes. era obsessiva e não tinha medo de nada. Trabalhava na TV Globo. publicidade e principalmente televisão. felizmente. Sua bipolaridade era muito mais possante na fase maníaca. ganhava bem e morava num big apartamento em frente à Lagoa. do meu 161 chefe aos técnicos. muitas vezes sem ter vontade e quase nunca tendo algum tipo de prazer físico. Agressiva meeeesmo. percebendo que seria loucura da minha parte. Era muito ativa. Parece divertida. horas e horas a fio.Transei com 1001 homens e mulheres. Brigava com . e eu não 159 sabia. Um total descontrole e desconhecimento. caríssimo. grande demais para uma pessoa só. Atualmente está internado e não reconhece mais ninguém. bebi e cheirei muito. e isso era até bem-vindo.Sua euforia se confundia com a sua personalidade? Me conta como você era? . O cara que me deu a cápsula é louco. um amigo fez uma sessão de reiki. mas o dono. sei. É muito fácil dançar e se perder de vez. e por isso nos vemos muito menos do que gostaríamos. Tenho sorte de ela estar no Rio enquanto escrevo este livro. porque acredito nas coisas além da matéria). e isso confundiu as coisas mais ainda. da porta de chegada e de saída. Lorena mora em Milão.segundo uma secretária me contou. a euforia 160 de Lorena não chamava atenção.no caso. Também era superagressiva. e suas maluquices nem eram percebidas. Até os vinte. . Felizmente a Cláudia estava comigo. e eu brincava com o perigo diariamente. Transava para conseguir o que eu queria. muito hyper. Era pura perversão da mania ou o prazer de correr riscos.Como trabalhava em cinema. Trabalhava como uma louca.

Quando fazia alguma coisa ruim. me safava dos meus erros numa velocidade incrível. O garçom se aproxima e anota os pedidos. mordia. Depois fui morar em outro país pra recomeçar. chefes. Ficou uma coisa esquisita. Eu não latia. tinha de ter o aval de três pessoas. até ela ter certeza da doença. não. Eram os pequenos detalhes do dia-a-dia que me tornavam exótica. usando um lápis. Eu era uma montanha-russa.E suas depressões? . porque eu sempre queimava o meu filme. O restaurante está cheio. Do meu ponto de vista. . vendo de longe. Tudo que eu conseguia. nem para o bem nem para o mal. mania de grandeza. Um caos. Era como se eu fosse inatingível. com a qual passei nove anos sem falar. mas outras. Como eu era muito rápida. Era muito louco. incluindo a minha família. como. onde ninguém me conhecesse. vivendo só para o trabalho. muito! Mentia pra me defender de um monte de coisas erradas que eu tinha feito. me sentia mal. Uma loucura. porque ninguém mais confiava em mim. impulsividade. por exemplo. A terapeuta queria ter certeza.família. eu era bacana e de repente eu fazia uma grande sacanagem com alguém ou aprontava alguma coisa. Se eu prometia alguma coisa. acho que não me lembro da maioria das minhas loucuras porque elas eram diárias.todo mundo e várias vezes isso me custou trabalhos e amigos. . Eu sabia que algumas coisas não eram boas. eu tinha uma vida incrível e até invejada. e acabava com a sensação de que era necessário sair dali pra recomeçar do zero. namorados -. a sacanagem era das pessoas. Lorena prende os cabelos no alto da cabeça. Era como se eu realmente não tivesse limites. brigas e mais brigas. tudo estava bem. mas pedimos coisas simples e os pratos não demoram a chegar. Por causa de brigas. gastar grana. Era uma menina má. e isso atraía muita gente. E nem me escutavam. ser eficiente. Está calor. Era difícil ser diagnosticada pelo meu estilo de vida. mas eram muito rápidas ou até simultâneas com a mania. perdia.Tinha todos os sintomas clássicos: agressividade. inusitada. Eu sabia que havia feito algo. Nossa. Uma menina bem pequena vende Halls do lado de fora da varanda.. se é que isso é possível. sempre de preto. quer dizer. . queria "conquistar a Ava" (acho que é uma gíria gay. claro. Depois de vários anos batendo de frente com todo mundo . Não compreendia como elas não entendiam o meu ponto de vista. mas não tão grave assim a ponto de as pessoas serem intolerantes.Acho que no fundo eu era muito triste. e conseguia escapar com todas as mentiras. entrava em depressões terríveis. não associava a nada negativo.Eu mentia muito. O engraçado é que. Não tinha 162 nenhuma relação afetiva. mas com uma pendência. Talvez fosse exatamente o que eu queria. Eu sempre fui o meu trabalho. rebelde. mas colocava a culpa nos outros. Eu tinha uma vida em que tudo ia bem. . Perguntou se eu 163 queria tomar medicação e eu disse que. e me camuflei. Conquistar a Ava Gardner. Foi uma das razões que me levaram a viajar tanto. Ela fala sobre seus ciclos e sintomas. conquistar o inconquistável). Na época não tinha consciência disso. Na verdade. eu estava fazendo terapia quando recebi o diagnóstico de bipolar..

fazendo coisas radicalmente perigosas e desagradáveis. O Olavo. que teria sido perfeito. mas ele tinha acesso às informações porque trabalhava na Universidade da Califórnia. Quando eu morava em Sampa. uma agressividade fodida. Daí minha médica disse: "OK. com uma melhora 166 visível. acho. Minha agressividade foi crescendo e virou física.Depois de muitas tentativas de tratamentos. tive uma reação terrível. seria demitida. e devagarinho fui perdendo o meu trabalho. e aconteceu um episódio que foi definitivo e realmente poderia ter acabado com a minha vida. vou te medicar porque sem dúvida você é bipolar e já tá chegando ao abismo. Não só ao normal. ainda estava sendo experimentado nos meios psiquiátricos. Eu tomava o Rivotril para baixar a bola. As depressões que tive foram sérias. em Madri. por acabar falhando. não entendia muito bem o que estava acontecendo e nem por que estava sendo medicada. Não 164 sei como nem por quê. e precisei abandoná-lo rapidamente. Existia um fator autodestrutivo impressionante. com muita violência física envolvida. O Lamitor e o Topamax eram avant-garde. Andava dentro do meu apartamento. Tudo voltou ao normal. Nuvens formam desenhos abstratos no céu.Quando fui diagnosticada estava quase fora do ar. como se fosse para me castigar por não conseguir realizar o que eu queria. . A perfeita bipolar. Passei essa temporada enchendo a cara. É o remédio que tomo até hoje. já tinha feito besteira demais. Após seis meses. vivi uma época terrível.Bom. mas até melhor. até degradante. me receitou Lamitor. Cheguei a usar o famoso Dapakote. meu chefe me deu um ultimato: se eu não mudasse. Ela acende um cigarro. O Lamital é muito antigo e já era usado. eu tive muitas reações alérgicas à medicação. Dizia que tentava encontrar um caminho pra minha vida. sem parar. que tinha uma vista maravilhosa. Lorena usa um vestido de flores e brincos de madrepérola. aos 25. sem grana. acabava me punindo mais ainda. a auto-estima zerada. que apaga logo em seguida. Mas eu já tinha queimado o meu filme. Ficava 165 acordada a noite inteira esperando o sol raiar. Comemos saladas de alface e rúcula. é mais um sedativo. " Eu pedi que ela me desse mais um tempo. que já era meu novo psiquiatra. uma carência terrível. foi o dueto Lamitor e Topamax (e Lamital e Rivotril) que rompeu os ciclos. aquela sensação de perdas e danos. De certa forma. Meu namoro acabou. chorando na varanda. chorando. . O mesmo coquetel molotov que preciso tomar todos os dias. A primeira promessa que fiz a mim mesma. quilômetros. foi nunca mais . Apesar de já estar à venda. tive uma depressão que durou seis meses. O dia está claro e os pombos disputam aflitos os grãos de milho jogados na praça. Já estava sem trabalho. sem ninguém e doente.. depois que comecei o tratamento. e foi o tempo certo pra eu cair no tal abismo. Mas quando já estava na dosagem ideal. porque sabia que seria o melhor pra mim. e o Rivotril era mais como um band-aid. claro. mas entrei na linha. não ser honesta e ser dona da verdade.

colares. Comprava tudo que via pela frente. . sapatos. Nunca mais. Meu médico disse que tinha muito medo de eu ter uma virada. voar de volta para a Europa. então. vestidos de verão. Nem pra mim. .Seguinte: marquei com minha amiga aqui. camisas de paetês. Luciana experimentava roupas 168 enquanto eu ficava deitada no sofá da loja. Queria muito experimentar aquilo e escapar do que estava sentindo. não importando o quê.mentir. eu teria dinheiro suficiente para pagar. Quarenta minutos num banco. E se eu ganhasse na loteria? Mas os cheques batiam e não sei como meu marido conseguiu dar conta de pagar tudo. simplesmente não conseguia ficar em pé. até Lorena precisar se despedir para.Não esquenta. E até hoje estou praticando.Vai. Pouco depois da viagem com Ana. Minha disposição era inacreditável. Jeans. quando isso acontecesse. caí em depressão outra vez. sandálias. cinco sandálias em outra e em uma butique caríssima fiz um enxoval completo de supérfluos. Enquanto ela não aparecia. e eu achava que ia desfalecer a qualquer momento. Voltei pra casa e idem. 167 Minha energia era muito maior do que o meu corpo podia suportar..O senhor é guarda municipal ou da polícia? 168 .disse o policial. . O rapaz me ofereceu uma cadeira quando sentei no degrau da escada. Como perdemos o contato e eu não tinha celular. Ela então me disse que ia dar uma passada num lugar ali do lado. É difícil. no dia seguinte. . Achava que os pré-datados nunca bateriam ou. Um dia estava terminando a sessão com minha ex-analista. porque achava perda de tempo. sobre nada. Na época chegava a dormir três horas por noite. o banco está cheio . Conversamos sobre nossas vidas. Toneladas de livros. não parávamos de bater perna. Não conseguia ficar sentada também. a bête noir dos psiquiatras. você me acorda?". Me aproximei de um guarda.. sem escalas. Eu tinha medo de que o cartão de crédito explodisse na minha mão.. só existe uma hipótese: o banco foi assaltado e Luciana está sendo usada como refém. Comprava três jeans numa loja. e a primeira coisa que eu dizia ao motorista era: "Posso ir deitada?" Falava meu endereço e deitava de olhos fechados. mas foi o que decidi. Fazia faxina às cinco da manhã. várias roupas de festa. e ela não estava. . "Se eu dormir. Todas as idas e vindas foram feitas de táxi. que celebramos com brindes. nem pra ninguém.E emendei: .Vai lá. tudo. Ela nunca ficaria quarenta minutos numa fila de banco. que eu esperasse um minuto.O senhor não conhece a minha amiga. voltei pra casa. Realmente aconteceu o que o médico temia. me deitei rente à calçada na grama de um prédio. Cheguei lá. 167 lembrava de dizer. e Luciana me ligou dizendo para esperá-la em Ipanema. A pessoa sai da depressão fortíssima e entra numa hipereuforia.. acabava tombando. . nunca. Um dia Luciana e eu estávamos em Ipanema. Então liguei pra ela e marcamos de novo.Eu? Eu que sou da polícia? . . Ela deve estar sendo usada como refém para os bandidos. Hoje me parece até cômico tudo que fiz durante esse período.E contei o meu drama. depois você me encontra na Letras & Expressões? Fiquei quarenta minutos na livraria.

embora meu cérebro desejasse escalar o Himalaia. . Luciana apareceu. não tinha forças para me mexer. para passar na melhor loja de cosméticos do Rio. Um dia estava tão debilitada que meu filho entrou no meu quarto para avisar que a farmácia havia chegado. . . Ou coisa pior." Saímos cambaleando pelas ruas. Saímos da loja.Vou te dizer uma coisa: não existe assalto aqui em Ipanema.Como assim? . . Senti que havia um certo desdém na sua voz. 170 Quando íamos entrar no Itaú.. (Note a ousadia:) 171 .Sua amiga disse que a senhora devia estar sendo feita de refém no banco.Casa Alberto! Veio um flashback rápido e revi Luciana dizendo: "Vou na Casa Alberto. Nos afastamos dos policiais.Que bala perdida. não? Por quê? Existe um acordo entre os bandidos e o bairro? Ele pareceu não gostar da pergunta.perguntou.Não existe.Entendo. já não podia me mexer.Você não tava no Itaú? . . posso ganhar uma bala perdida! . . já não sentia vergonha. pincéis. não existe assalto em Ipanema? . Não consegui virar e abri-la. Ele me fez prometer que não faria mais faxina de madrugada. preocupada ao me ver com dois policiais. 169 .reformulei. Se sai um tiroteio..Ele mostrou o revólver como se mostra um troféu.Você não é esse tipo de mulher. . Pedi que ele pegasse o dinheiro pra mim. Ele ficou preocupado.. Minha bolsa estava do meu lado.. .Tá bom .Ah. chegava um pouco mais cedo. Ele se aproximou de um outro PM e contou brevemente meu drama.Tá grilada? Vai lá. rímel. Eu estava deitada. Chegava cheia de sacolas.Como assim. para desespero do médico. . sorrindo. .. . perfumes. Vamos fazer uma coisa: vamos nós dois. .Uma camisa branca.Deixa pra lá. Comecei a ficar muito fraca. .Você não entende de mulheres.Eu? Mas não sou da PM.Que roupa sua amiga está usando? . já desanimada. . porque não existe preconceito contra estafa. em cima de um travesseiro. Pelo contrário. Luciana me olhou com cara de "tá louca?".Era tudo que eu lembrava. promessa que não pude cumprir. . Ele se aproximou. Quando ia ao psiquiatra. cremes.Por que você comprou tudo isso? . que dispensei prontamente. e entramos na butique mais próxima. Sua resposta pôs fim ao assunto. .Nós dois? Piorou. . Fingi não notar a audácia do policial. Fui olhar os livros.disse eu.perguntou com a mão na cintura.Quer ir? . ..Porque sou mulher. Comprava batons. que ficava numa galeria ao lado do prédio do consultório.Que que houve? . bases.

como era de hábito. Coitado de todo mundo. Mas depois soube que a agressão do bipolar não está necessariamente ligada a palavras ou gestos. Eu não suportava mais nada daquilo. Ficava quieta. É impressionante como a dor alheia me confortava. Minutos depois ela voltou e olhou bem pra mim: . e compreendeu perfeitamente. e sempre batíamos na casa uma da outra. Poderiam achar isso. tocou a campainha." Falei com ele: 172 . algumas bem sutis. Ela tinha muita paciência em me ouvir e contava que na sua família havia uma pessoa com o mesmo problema que eu. então meus ciclos continuaram. Provavelmente para pedir um pouco de açúcar. Imediatamente após a virada. Fiquei arrasada. tive outra depressão. Bipolares podem ser agressivos escrevendo ou dormindo pouco. Depois de ter comprado o Rio de Janeiro inteiro. eu estava com os olhos vermelhos de tanto chorar. nunca fui rude. Então meu marido me disse: . de um outro modo.Por favor. Ninguém pode viver assim.Você não está morta. minha vizinha de porta e grande amiga.Encontrava-me tão desamparada e sozinha que contei que estava com depressão química. Eu podia suportar um pouco mais. Eu estava doidinha. olhando para o branco das coisas invisíveis.Isso que você tem é de morrer? . Ela foi amorosa. está viva. Mas não era a mesma coisa. Sentia culpa por ser uma mulher assim. poderiam achar aquilo.Você está bem mesmo? Precisa de ajuda? .) Marília perguntou se eu estava bem e eu disse que sim. os meses se arrastando. Um dia pedi ao meu marido que me deixasse morrer. com café. muitas vezes. Mas meu medicamento não mudou. Coitados dos meus filhos. você tem razão. Às vezes lanchávamos 174 juntas e até hoje adoro aquele queijo prato com pãezinhos franceses quentinhos. Poderiam achar que eu era preguiçosa. Me senti um pouco melhor por ter uma confidente. Disse que eu tinha de ficar em repouso absoluto. Como disse Brooke Shields. Então fazíamos um intercâmbio afetuoso. e não faz muito tempo que me livrei disso. no seu livro sobre depressão pós-parto. eu já estou morta mesmo. precisava de alguém que me dissesse: "Está certo. a . Fui criada ouvindo "o que os vizinhos vão pensar?". temporariamente. eu pensava. como se eu estivesse com a perna engessada e pendurada. que não têm mãe. Permaneci muito tempo da minha vida assim. (Sempre achei que não havia agressividade nas minhas depressões.. Mas está viva. menos de mim. meu médico admitiu que eu era maníaco-depressiva. Existem auto-agressões. Quando abri a porta e ela me viu. como nos filmes. é vista como de burgueses ou desocupados. Um dia Marília. Você está vivendo de uma outra maneira. Que eu deveria me alimentar. e aquelas coisas todas. calada.Respondi que não e ele foi tratar de fazer as coisas dele. que me trazia palavras de conforto. Eu entendi o que ele queria dizer. Não são muitas as pessoas que entendem essa doença que. De fato eu não estava morta. não faz diferença. Nunca gritei com ninguém. porque morávamos no alto de uma 173 ladeirona e o comércio era longe. coitado do meu marido.

fingir que estava feliz. e era constrangedor. chamada Tati. e se eu via um filme na tevê não conseguia prestar atenção no enredo. eu ficava mentalmente formulando bilhetes de adeus. vinhos e talheres. mesmo sem que eu precisasse dizer. e telefonava para meu psiquiatra cada vez que a situação piorava. as visitas se comportavam sempre da mesma maneira. Porque existem dores maiores. Passava as manhãs deitada. eu não ligava. e diziam: "Olha o sol! Olha a lagoa!" Assim mesmo." Piorei: aquilo era mais uma prova de que a vida não valia a pena. no mínimo. era fazer com que eu colocasse minha dor no seu devido lugar. Amo meu irmão e devo muito a ele. Como as pessoas conseguiam ser felizes assim? Quando eu tentava lembrar de episódios alegres do passado. que a lagoa se abrisse em magma e me puxasse para dentro dela. Tinha longas conversas com meu médico. Preferia sentar à mesa com estranhos porque podia inventar que eu era outra pessoa. nos momentos que estive muito mal. Ficava pensando: "Será que um dia isso tudo vai passar?" Quando se tornava impossível dispensar um compromisso social. meu irmão me monitorava e. sem poder me levantar. mas como eram estranhos. minha prima mandava tupperwares com comida caseira. ele sempre corria para o meu lado. sem ter como me alimentar e levando sustos horríveis cada vez que o telefone tocava. eu estaria com cinqüenta graus. Eu queria.dor gosta de companhia. mas no meio do caminho começava a chorar e pedia ao meu marido que voltássemos pra casa. É horrível. Não gostava de receber visitas porque era a sra. Nem sempre eu conseguia sair de casa. Muitas vezes estávamos indo para algum lugar. Comecei a pedir ajuda aos amigos. sempre . como se eu tivesse praticado um crime e precisasse me manter escondida. Sem Assunto. 175 Alguém foi me visitar e disse: "Vi no Jô uma família inteira com Aids. pedindo mais providências. Me vendo na cama. subentende-se. se depressão fosse febre. e uma amiga me arranjou uma empregada. Era quase uma confissão. Minha cabeça estava ocupada o tempo inteiro pensando: "Sou maníaco-depressiva. A intenção das pessoas. Às vezes começava a falar sobre alguma coisa. Quando comecei a ter um colapso após o outro. Fui ao casamento de um amigo. Sidney estava sempre à cata de receitas. mas é verdade. claro. achava que todos eram artificiais. Nem sempre tinha forças para atendê-lo e recados em tempo real me deixavam nervosa. enquanto um grupo dançava rock and roll. Liguei para uma taróloga hippie. nada fazia sentido. uma pessoa meio esquisita. mas não sabia me expressar. puxar um assunto. rir de mentirinha. me sentia jogada às feras. para facilitar o baralho. Mas enquanto elas desfiavam uma lista de horrores." Fiquei sentada àquela mesa com um monte de sobremesas. com exclamações não sei quantas vezes ouvi essas frases. Meus pensamentos estavam fragmentados. era terrível tentar manter uma pose. Fui logo dizendo que eu era "maníaco-depressiva". eu achava que ia conseguir ficar com outras pessoas. 176 Tentava me esconder das pessoas. quando os remédios acabavam nos fins de semana.

Mas o que eu queria contar mesmo foi um dos maiores constrangimentos que já passei na vida. e pertencia a alguém que. usando um tom de voz altíssimo. na vida passada. escritora Francis Ford Coppola. Quando a dor passa. e eu realmente com vontade de me matar. pode crer.. naquela varanda tão pequena: .. sabe?. . imagina.Se você não inventar uma coisa bem desesperadora. Foi lá que eu.Eu não vou falar isso. um senhor me perguntou bem baixinho o meu nome e meu problema. O que é o desespero. Foi uma situação horrível. político Cary Grant. eu disse. Você tá louca? Ela continuou: . Bem. Havia uma fila na minha frente com pessoas sentadas em dois bancos enormes. fomos lá. Aquele pessoal tinha problemas de estômago. aos 18 anos. Ela começou a me levar a lugares onde eu pudesse obter alguma forma de conforto espiritual. cineasta Emily Dickinson. apresentador de televisão Agatha Christie. ator John Clare. A pessoa incorporada falava como se fosse eu mesma. de tão grato. que me causavam inveja. em Jacarepaguá. Descolada. Eu topava qualquer coisa que me tirasse daquela tristeza profunda. poeta Patricia Cornwell. descobri que fui queimada numa fogueira durante a Inquisição. dor no joelho e coisas assim. com muitas pessoas silenciosas vestidas de branco ao meu redor. 178 Ao preencher a ficha. e era noite. já foi a todos os lugares e chegou a se curar de um câncer graças a mentalizações a longa distância. Um tempão depois ele me chamou. Fui e disse bem baixinho ao homem. vamos sair daqui de madrugada. para limpar minha 177 alma das coisas impregnadas das vidas passadas. tinha jardins e piscina. a taróloga me disse pra falar com o cara que eu estava querendo me matar. Vai à Argentina constantemente se juntar a uma turma que faz contatos imediatos de primeiro grau. Tati é o esoterismo. "Todos os bipolares são gênios. Uma coisa. que anotou no caderno. como se dissesse: "Sou uma assassina sem caráter." Naquela época eu era assim.Pode entrar a mulher que quer se matar. Sua vida se resume a viajar em busca de pessoas com poderes paranormais. escritora . Tati sabia que levaria horas até que me atendessem. escritora Winston Churchill. Ou só eu?" 182 Dick Cavett. Como no dia que ela me levou a um centro. Fundada por um médico muito conceituado. todo mundo espantado. "Depressão".achava que alguém me salvaria com algum truque de mágica. deitada numa maca na sala azulada. Ahahahaha. ofereceu-a aos voluntários. Naquele tom que um lugar sagrado exige. podemos olhar pra trás e achar graça de algumas situações. a casa não parecia com nada que lembrasse um centro espírita. Conhece todos os cantos. Era bonita. De vergonha.

. pintor Graham Greene. produtor de cinema Carrie Fisher. poeta Axl Rose. ator Robert Louis Stevenson. filósofo Edgar Allan Poe. quando assumi foi com um certo glamour. escritor qNicolai Gogol. atriz Kristin Hersh. político Leon Tolstoi. atriz Máximo Gorki. editor do Washington Post Abbie Hoffman. atriz 184 Ernest Hemingway. ator Vincent van Gogh. escritor Robert Lowell. escritor Elizabeth Taylor. escritor Sidney Sheldon. escritor Kate Millett. escritor Charles Dickens. físico Platão. cantora Victor Hugo. . escritor Charley Pride. escritora Ray Davies. Sentia algum orgulho por compartilhar o mesmo transtorno . cantor Janis Joplin. escritor qAbraham Lincoln. dramaturgo Robert Evans. cantor Phil Graham. Acho que porque fiquei praticamente vinte anos escondendo a doença.Não se esqueça de Stalin! Verdade. escritor Walt Whitman. escritor 183 Mozart. cantora Marilyn Monroe. guitarrista A lista de bipolares célebres inclui vários nomes da pesada. poeta Margot Kidder. músico Hermann Hesse. feminista Spike Milligan. músico Herman Melville. dramaturgo Ted Turner. empresário Jean-Claude van Damme. Abraham Lincoln e Walt Whitman. ativista político Francesco Scavullo. editor da Hustler Connie Francis. cantora Jimi Hendrix. humorista Isaac Newton. escritor Fernando Pessoa.alerta minha amiga Leandra. atriz Linda Hamilton. escritor Larry Flynt. roqueiro Elvis Presley.Virginia Woolf. Scott Fitzgerald. fotógrafo de celebridades Mary Shelley. dramaturgo William Faulkner. como Mozart. escritora Rod Steiger. poeta F.Cuidado para não escrever um livro sobre o clubinho dos gênios . escritor Eugene O'Neill. o ditador soviético era um bipolar clássico. atriz Robert Frost. escritor Jack London.

Além disso. por necessidade. de 1700 até 1900. Ela analisou todos os poetas. 186 por exemplo. Ou não? . no entanto. são pessoas medianas. e dando apenas minha opinião. Pause. Olavo. o que resume bem a história. só porque é bipolar. acho que este é um critério capitalista. assim como (quase) todas as estatísticas e novas descobertas da ciência incluídas neste livro. Os Estados Unidos serão citados aqui diversas vezes. que por algum motivo não saem da gaveta. a esmagadora maioria de bipolares não é mais criativa do que as outras pessoas. Evidente que sei que. precisa ter uma peça que já tenha sido encenada. e os americanos estipularam um critério de avaliação para não ficar uma coisa frouxa. por exemplo. geniais.com Platão.Em um dos vários estudos sobre bipolaridade chegou-se à conclusão de que os bipolares são mais criativos do que a população em geral. Apesar de ter conexões de trabalho na Europa e na Austrália. Quero que fique claro. Sei da exploração em todos os níveis. da Nike usando trabalho escravo infantil na Coréia. em Oxford. quarenta vezes mais do que a população em geral. . Ou invertendo: você pega os notoriamente criativos e vai ver o percentual de bipolares entre eles. Perderíamos muito. e os psiquiatras devem ter suas razões. se é músico.diz dr. no caso de ser um cientista. Cole Porter. . Os americanos não poderiam estar com a bola mais baixa. Frank Sinatra ou David Lynch. para uma lista tão pequena. mas que é maior do que o número pequeno na população de não-bipolares. O índice de 10% de criativos com transtorno bipolar foi encontrado em vários estudos.completa o psiquiatra -. Meryl Streep. pelo fato de o meu psiquiatra e consultor ter se formado e clinicado nesse país durante muitos anos. O número de criativos na população . Pense na nossa vida sem Fred Astaire.É um número pequeno . Mas um dos critérios é esse. Diogo Vilela disse que os americanos têm inveja de Deus. em geral. existem milhões de bipolares fracassados ou. e chegou à 187 conclusão que o índice de pessoas com transtorno bipolar nesse grupo de criativos era de 40%. presos a uma desconfortável 185 repartição pública. Então usaram como parâmetro o seguinte: se você é um dramaturgo. Chandler Bing. Eu concordei com o Caetano quando ele disse que os americanos são responsáveis por grande parte da alegria desse mundo. Woody Allen. Mas bipolaridade e criatividade são palavras que estão sempre juntas. Saindo da psiquiatria. Coca-Cola. O psiquiatra continua: . entre várias outras barbaridades. escritores e dramaturgos irlandeses. ter pelo menos um trabalho publicado em uma revista conceituada. no mínimo. precisa ter um álbum gravado. é um gênio. criatividade é uma palavra muito abstrata. Como Kay Jamison fez no doutorado dela. internet. que não estou defendendo os Estados Unidos. Muitas pessoas podem escrever peças espetaculares. E as pessoas têm antipatia pelo país. 185 O psiquiatra lembra que é muito importante constar no livro que é comum o bipolar achar que. Mas o critério de definição do que seja criatividade é deles. Matthew Scudder.Os bipolares. Porém.

Precisa ser desmitificado que tratar a doença acaba com a criatividade. mas. A vida dele foi um horror. Quando eles estão no final 188 da vida. Eu não sei. É só acompanhar a vida dos notórios bipolares. se a criatividade de um artista é produzir uma peça no Metropolitan. já é um número gigantesco. porque nós não podemos querer que uma pessoa. porém é muito importante dizer que a doença bipolar não é uma bênção. meio e fim. Não é verdade.Ele teve uma vida miserável. quanto um infarto do miocárdio. e teria pintado mais . "Outra coisa: uma pessoa que está gravemente doente. ao mesmo tempo.Claro que se você deixar essa pessoa num quarto escuro. Van Gogh teria pintado melhor. de conceito de princípio." Equilibrar a doença não significa que o bipolar vai perder a criatividade. Meu médico acha que. Por isso que há o que chamam de arte de tratar do paciente . Schumann se jogou num rio. basta ler as cartas dele para o irmão. cinco vezes mais. Então o que se discute é se ele teria pintado aqueles quadros se não fosse bipolar. acho que teria pintado os quadros bonitos como são. A doença bipolar é tão ruim quanto o câncer de pulmão. mais ou menos. Vai ser um fracasso porque não vai nem estrear.diz dr. Não 188 pode ser glamourizada nem tratada como uma coisa maravilhosa só porque Van Gogh pintou aqueles quadros. é um crime. quatro. meio e fim. se o bipolar for três. dificilmente consegue criar uma obra com começo. que viver um inferno para poderem te prover isso. é uma coisa horrível. As pessoas que vivem às voltas com os sintomas da doença não conseguem produzir. Se fosse tratado.diz ele. geniais como são. Não sei quanto tempo ele levava para pintar um quadro. Digo que conheço alguns intelectuais que evitam tomar remédio por medo de perder criatividade. acho que ele teria pintado melhor. ou um grupo de pessoas. Então. impregnada com o remédio. vai ser um fracasso. Que tem de ser combatida como tal. se fosse tratado. . e ele como artista foi um fracasso total. Então essa discussão de criatividade e 189 não-criatividade é uma bobagem. de data. Não têm produtividade nenhuma. Van Gogh produziu no olho do furacão. pela arte que você vai saborear. mas tornase imensamente grande quando comparado ao número pequeníssimo de criativos na população em geral. É quando a doença tomou conta da pessoa. tendo. é uma tragédia. sofrendo da doença sem interrupção. de ensaio. nunca vendeu um quadro.A lista de geniais é bárbara. Ou têm uma criatividade vazia. . um desastre . mas ele pintava. Resumindo: o número de bipolares criativos não é muito grande. seja responsável pela beleza. por exemplo. um filme de terror. e ele não tiver o mínimo de disciplina. A não ser que ele não receba o tratamento certo. Olavo. . .em geral talvez gire em torno de 1%. As pessoas doentes não têm criatividade. O transtorno bipolar é uma DO-EN-ÇA. os últimos anos são trágicos.

pergunto eu. um caleidoscópio de cor. É o primeiro erro. não consegui ver nada. Quando estava muito deprimido ou muito excitado não produzia nada. está chegando um bipolar. mas também não é o caso de ostentar uma medalha no peito. produz. Cerca de 40% a 50% da população carcerária sofre desse mal.A hipomania é como se você fosse ver um final de tarde na praia. e já vinha aparecendo. primeiro diagnostica como outra doença. Então quando se fala do fim da criatividade. em 2006. trinta quilômetros por hora. se eu pegar um trem para passear no interior da Itália. Está se vendo que a predominância bipolar é de seis a dez vezes maior do que na população em geral. Olavo. você pode ficar mexido com aquilo. não só nos Estados Unidos. Isso seria depressão. uma música . Se eu pegar o trem e em vez 191 de ele andar a vinte. Também não é por aí. O médico que não sabe tratar. . A pessoa não deve ficar dentro do armário. No entanto eu fiz o percurso todo. e ele não sair do lugar. . Então não consegui metabolizar nada. O psiquiatra conta os detalhes: . Tratar é uma coisa. mas precisa da depressão para pegar toda essa informação sensorial. Existe um estudo muito importante sobre Schumann. ele tinha de estar levemente deprimido para produzir mais. também não vou ver nada. 192 Estudiosos estão percebendo que o número de criminosos é o dobro do número de criativos. sofrendo e perdendo sua vida. É preciso temperar as coisas. O mais espantoso é perceber que a bipolaridade está menos ligada à criatividade do que à criminalidade. . O segundo erro é que esses excessos do transtorno bipolar são podados até 190 a raiz. com um medicamento totalmente inadequado que a deixe na cama por meses e meses é outra coisa. estamos falando em tratar errado. O meio-termo é necessário. e organizá-la. na Toscana. Em Nova York. você se senta pra escrever. acabar com o temperamento da pessoa. e até um pouco de depressão. em várias prisões. são estudos avaliando a predominância assustadora do transtorno de humor na população carcerária. para você realizar um poema.Por quê? . for um TGV (trem mais rápido do mundo) e correr a 220 por hora. mas fui muito rápido. É um número assustadoramente alto. e tratar errado não é tratar. Porque uma das marcas da doença é a impulsividade. A depressão permite organizar. É como se eu tivesse ficado parado na estação. Por exemplo. O estudo mostra a produtividade da vida dele em termos de música: quando ele estava na fase muito acelerada a produção não era tão grande.conclui.bipolar. "Uma coisa que as pessoas não entendem é que a aceleração pode ser tão paralisante quanto a depressão. Muitas pessoas criam mais durante a depressão.O que apareceu muito no encontro de psiquiatria de Toronto. uma coisa muito legal. não vou ver nada. Em vários países. um rapaz usa a camiseta: "Sai da frente. Vários pesquisadores americanos estão entrando nas penitenciárias para observar o transtorno bipolar e estão assustados com o resultado. que te marcou emocionalmente." Do tipo não-tem-praninguém. afirma dr.

É gente que levava uma vida mais ou menos normal. Na casa dela havia um lagarto. porque aquele mar é sinistro. o mar perigosíssimo de Itaúna. .conclui. Então eu tive que puxá-la. mas sua ousadia e impulsividade foram responsáveis pela criação de Hollywood. num impulso. Um dia fomos ao Museu do Rock. Mas os caras resolveram. Eles namoraram. mas eu nem precisava beber. mas sempre ligado. porque na euforia as coisas mais singelas se tornam especiais. Ficava em frente ao mar. Sobrando. Dr. Ela é muito na dela. naturalmente. eu tenho medo de tubarão até quando estou na areia. por exemplo. O livro evidencia que um pouco de hipomania criou os Estados Unidos. Fizemos uma feijoada e comemos no jardim lindo que ela tem. todos faliram.. Uma pessoa normal poderia dizer que aquilo era um absurdo. muito sucesso. e às vezes formava uma filinha na porta. Com euforia você puxa mesmo. Então íamos pra outra praia. lugar sem nenhuma condição pra isso. mas lotada como Copacabana. que era no Oeste que eles iam se instalar.A maior parte dos presos não é feita de criminosos contumazes. que a criação de Hollywood foi feita por pessoas de famílias totalmente bipolares. que só dá trégua uma vez por ano. Nós duas morremos de medo de tubarão. Tshiii. tem energia demais. Mas os pioneiros eram bipolares. já me sentia com duas doses acima.O autor percorre áreas fundamentais que foram 192 básicas para estabelecer os Estados Unidos como potência e mostra. Pessoas que cometeram um crime na vida por impulso . com sintomas característicos da doença. O cinema era feito em Nova York. Metade eram fotos do cantor com Janis Joplin. com aquelas músicas inspiradoras. pessoas extremamente produtivas e criativas. tudo é bacana. muito tranqüila. uma pessoa estourada que um dia mata a mulher. para tomar ácido. Qualquer pessoa que tivesse o mínimo de planejamento diria que era impossível tornar o lugar um pólo de cinema. que gostavam de realizar coisas. por exemplo. . Quebraram várias vezes. com água deliciosa. Gostava quando passava de carro e ele estava regando o jardim. o museu é uma reprodução do clima dos anos 1970. porque ele deixava entrar pouca gente de cada vez. É todo atencioso e educado. Ela bebia algumas caipirinhas. que às vezes aparecia de repente. O Serguei devia ser tombado. levamos mesas e cadeiras pro lado de fora e almoçamos embaixo de uma amendoeira. Mas me diga se não deu certo? Morando na Lagoa tive minieuforias. Tinha um quarto todo zen.perguntei. se envolve numa briga de trânsito e fere ou acaba com a vida de alguém.É para meditar? . né? Então. do Serguei. Era psicodélico. Em uma delas viajei com minha prima Cláudia para Saquarema. e um dos capítulos é dedicado ao cinema. Olavo conta que acabou de ler um livro americano chamado Um pouquinho de hipomania. Quer dizer. Todas as paredes eram forradas de fotografias recortadas de revistas. Bipolares não formam um clubinho de gênios.Não. Nessas fases de aceleração. mas resolveram criar uma 193 verdadeira indústria e se instalaram no Oeste. . Quando se pode pegar altos 194 jacarés. E eu queria agitar. .

De noite. muito piores que isso. Fomos à Geribá. Mesmo que você tenha filhos lindos. Controlar a ansiedade é difícil também e ela só atrapalha. bleargh. A felicidade é química. Você sabe que serotonina é tudo. Nelson. Pode crer que não é a mesma coisa. nessa época eu estava nos Estados Unidos". Eu tinha uma amiga que vivia dizendo: "Ah. no dia seguinte resolvemos ir até Búzios. esperando a minha química voltar ao normal. Serra caiu? O dólar disparou? A atriz cortou os cabelos e está namorando o galã das 8? Estou por fora. e nada parece realmente 196 valer a pena. imobilizada na cama. Ah. Por que sem ela. 197 Meu médico. por que sei que existem coisas muito. neblina. Mesmo que você seja a Jennifer Aniston e tenha tudo aquilo que ela tem. Minha serotonina caiu. quando eu reclamo que não agüento mais não poder fazer as coisas. de tão lindo. você não toma nem um chicabom. aos poucos. comendo pipoca. fui revelando que tinha depressões químicas. e quando chegamos à praia não se 195 conseguia enxergar nada. e de repente apareceu um cavalo branco. amigos. "16 DE AGOSTO DE 2006. enquanto dávamos uma volta na praça principal. um êxtase. blablablá. fiz uma tatuagem de estrela cadente. Pra mim. Antes de ir embora. se você visse meu estilo de vida no momento. me diz para eu imaginar que estou com as duas pernas quebradas. Se eu estivesse engessada. foi apenas uma viagem bacana. sabe como é? Você comenta uma novela. A praia estava coberta por uma névoa. marido bacana. sair. recebi centenas e centenas de e-mails. vimos um alemão que. Mesmo assim você não se sente feliz. Não sei como se fala cientificamente. Você vai me perguntar: "E daí? Aonde está a euforia?" Eu digo: para a minha prima. Este post não é uma reclamação ou uma tentativa de me fazer de vítima (nun-ca). meu bem. tenho certeza. ia pegar um monte de filmes na locadora ou ficar assistindo aos filmes a cabo. Despencou. feliz da vida.Por exemplo. Nunca tinha passado por aquela experiência. Estou nos Estados Unidos. trabalhar. fog. do nada. olhando pro teto. Sem ela não há energia. Resolvi porque tenho recebido muitos e-mails simpáticos. alugando as pessoas . de um rapaz chamado Nelson. Um cavalo branco. parecia o Sting na sua melhor fase. uma eleição e ela: "Ah. depois de uma rasteira dessas. não é? A minha caiu e me deixou na pior. possibilidade de tubarões. admirava meu estilo de vida. Uma árvore florida é uau. Tenho um blog e. A hipomania não tem as necessidades que a mania tem. nem alegria. um show do Cazuza." Assim que eu me sinto. de pessoas que notam que ando meio ausente. e a primeira vez que fiz isso. Sting. Deitada. Um deles. nessa época eu estava 196 nos Estados Unidos. mas não importa. Porque durante a hipomania cada detalhe é como se fosse precioso: lagarto. estrela cadente: puro êxtase. me divertir.

pela quinta vez. sabe? Porque você pega um livro mas não consegue se ligar no que está lendo. mas esperançosa porque sei que vai ter uma hora em que tudo voltará ao normal. especial Sorriso. não importa. O exemplo que eu gosto de dar é fazer a pessoa imaginar um carro. ou Transtorno Obsessivo Compulsivo (Toc). Algumas escreviam chorando e relatavam suas experiências com crises de pânico. jornal não dá porque as notícias não ajudam (claro). rápido!". um fusca ou um mustang. Ele disse que virou moda falar em serotonina e os laboratórios médicos estão deitando e rolando. Então também é uma espécie de "tamos aí". como atuam os neurotransmissores. Não entendi uma vírgula. Meus amigos me ligam muito e isso me angustia. Outras diziam que tinham vergonha da doença. 26 DE AGOSTO DE 2002. muito sol. Ele precisa de gasolina para andar. Não é pouca gente que sofre em silêncio. muita pista de dança. (nem Os normais!). porém com conta-gotas. Bem mais complicado. Então você fica deitada na cama. Meu médico contou que não faz sentido dizer "minha serotonina caiu". Conta-gotas. Colocando a leitura em dia. todos os assuntos te escapam na hora H. Não são poucas que sofrem sem saber o que têm. Que agora esse neurotransmissor cura até unha encravada (sic). "Compra uma Contigo pra mim e um pote de Napolitano. Também não é hora de aprender algo novo. certo? Eu sou este carro e o combustível está sendo colocado diariamente." 198 Conversar com os amigos é impossível. Duplo!"). Todo mundo tem defeitos. foi a serotonina que caiu. Juro por Deus que existe um troço desses nas bancas. é um mundo de sensações ruins. seus biquínis. Você se controla para não picar a revista em pedacinhos e diz apenas: "A Deborah Secco parece muito cansada para 22 anos. E. daí você chora. Só a bailarina que não tem. nem aprendido nada. pelo menos 198 o suficiente. Um bom tempo. os pensamentos ruins fazendo fila e se empurrando para ver qual vai se manifestar primeiro. a memória não ajuda. Pouquíssimas se 200 .("Pega uma régua aí pra eu coçar a batata da perna. Este etc. achando tudo meio sem graça. anda. Não parece fácil de entender? Estou escrevendo também porque sei que deve ter alguém que me lê que tem o mesmo problema 199 que eu. entrelaçando os dedos das mãos. tanta coisa legal pra ler! Mas não caí e quebrei as pernas. Etc. No outro dia peguei uma Quem. mas não consegue. Então é isso. Estou aqui lutando. tenta pensar em coisas boas. porque eles não entendem como esse processo demora." Muitas pessoas se sentiram confortáveis sabendo que não eram as únicas a sofrer depressões ou outras doenças psiquiátricas. Todo mundo rindo com seus dálmatas. É como se você não tivesse tido nenhuma experiência na vida. me explicou. Quer saber a verdade? Não há assunto. sabe lá o que é isso? Tem que dar um tempo para o tanque encher. televisão nem pensar.

a pessoa não consegue sequer colocar o pé pra fora de casa. Salve Luciana Vendramini. but thats ok / I shaved my head / And I'm not sad / And just maybe I'm to blame for all I've heard / 202 But I'm not sure / I'm so excited. que haviam tido a doença. e começou a se cuidar. Todo mundo havia tido Pânico. do Nirvana. "Hahaha". É uma doença implacável e a sensação é de morte iminente. Yeah / I'm so lonely. Muitas vezes se 201 separa e perde o emprego.tratam. Yeah "Lithium". Eu fiquei na minha. Agora vê. porque se saísse alguma coisa de muito ruim iria acontecer Roberto Carlos percebeu que suas até então superstições poderiam ter outro nome. Se referir ao bipolar com preconceito é uma coisa tão fora de época. atrizes que estavam fora do mercado declaravam. Conheci um cara que perdeu a mulher. I'm so happy 'cause today / I've found my friends / They're in my head / I'm so ugly. Era bom para o currículo. As pessoas precisam respeitar a dor dos outros. Uma amiga só conseguia passar roupa e ler livros leves. Yeah / I like it / I'm not gonna crack / I miss you / I'm not gonna crack / I love you / I'm not gonna crack I killed you / I'm not gonna crack / I'm so happy 'cause today / I've found my friends / They're in my head / I'm so ugly. in a daze / 'Cause I've found god / Yeah. . Por causa dela que chegava a ficar dez horas no banho. tão século passado. Na Caras. but that's okay. Seu namorado zoou: "Esqueceu de tomar o lítio. Ainda escondia meus sintomas. que. posando em frente à piscina. tornou-se uma doença com uma aura de dignidade. jogando sinuca. que dava a idéia de que estava maluca. I can't wait to meet you there / But I don't care I'm so horny. mas não o emprego. Seu chefe tinha a mesma doença e foi solidário. É antiquado. A mesma coisa em relação ao Toc. um transtorno. Hoje posso enxergar quanto ainda estamos presos a conceitos antigos. Esse rapaz tinha medo de microondas e de ligar a tevê. Eu me perguntava: como elas conseguiam estar em todas as festas mostradas na revista durante o ano todo? É uma falta de respeito com quem realmente experimentou essa doença. but that's okay / 'cause so are you /We've broken our mirrors / Sunday morning is everyday for all I care / And I'm not scared / Light my candles in a daze / 'Cause I've found god / Yeah. e estava com amigos em Búzios. Uma garota de repente falou alguma coisa que não lembro. muitas vezes. but that's okay / My will is good / Yeah. pela sua coragem de expor uma doença que uma pessoa pouquíssimo esclarecida vai olhar como sendo de doido. graças à Luciana Vendramini. No Pânico. Pânico é uma doença que inexplicavelmente entrou na moda e quase se tornou um hit. 'cause so are you / We've broken our mirrors / Sunday morning is everyday for all I care / And I'm not scared / Light my candles. é?". e depois. mas hoje em dia era provável que eu dissesse: "Por que você está falando isso? Você por acaso tem preconceito contra lítio?" Ele estudava psicologia.

parodiando Bogart. e só no dia que concordei com ela vi que estava boa outra vez. escolheria ter nascido maníaco-depressiva. Significa que eu tinha um alto componente de depressão e uma pequena parte de euforia. mas não eram tão fortes. não. Quando o dr. deprimida em último grau. e Leandra foi minha companheira nessa curta experiência. . Também comecei a observar quantos bipolares existiam ao meu redor. morrer. Lembro que um dia. Demorou pouquíssimo para que eu ficasse equilibrada e livre dos ciclos de humor. Ou pessoas com outros problemas psiquiátricos. se pudesse optar.(Não se fica curado do transtorno bipolar. o resto da minha vida.de que alguma coisa acontecesse 205 e me puxasse daquela indiferença profunda. eu tinha medo de me tornar uma pessoa melancólica ou desanimada. Como eu queria ter aquela vida tranqüila!) . estaria me livrando do pólo negro também. Vi muitas peças e filmes.respondeu.Dr. 204 . De vez em quando. de que jeito eu vou ser quando ficar boa? . Tirando os dois pólos. Uma tonelada caiu dos meus ombros. Durante as depressões eu me sentia em estado permanente de espera . Olavo. Você vai ser diferente.Certo dia. A depressão foi bem tranqüila em relação às outras.) Vou ser como todas as pessoas? (Meu sonho sempre foi ser igual às outras pessoas. Porque dessa vez eu conseguia fugir para o teatro e o cinema e desligar meus pensamentos durante algumas horas.Vai ser mais alegre e criativa que a média. diria que a humanidade está um Prozac a menos. e não tinha mais vergonha. Descobri que era uma doença como qualquer outra. Assumi minha doença. mas 204 tratável. o dr. Terei de tomar o remédio todos os dias. especialista em bipolaridade. Mas não me importo mesmo. Chega-se a um ponto . a ciência não pára de descobrir coisas. Eu disse "claro que sim". Fiquei assustada. É um estado delicioso. é uma doença crônica. Ela sempre respondia: "Evidente!" Eu achava avida cruel. perguntou se eu estava disposta a abandonar a euforia. quando ainda fazia análise com Júlia. Eu achava aquilo um absurdo. Tinha todos os sintomas. Porque sabia que. Lorena disse que se preocupou com o tipo de pessoa que viria a ser. liguei para minha prima e perguntei o que ela estava fazendo. o que sobraria? Aquilo me deixou preocupada. eu tinha acabado de reler Uma mente inquieta. Acho que nunca ouvi uma notícia que me deixasse tão animada. E só havia duas opções: voltar ao que eu já tinha sido ou abandonar tudo de vez.Costurando umas roupinhas de crianças . abandonando a mania. O psiquiatra mudou o remédio e passei a tomar lamotrigina. Relia sempre que estava deprimida. Além disso. Olavo me diagnosticou. Grave. Estava inconformada porque no final do livro Kay Jamison dizia que. Ele me receitou um remédio e tive uma 203 rápida depressão mista. . desistir. Porque ela era a soma da sua essência mais a depressão e a mania. A pergunta faz sentido. Muitos anos haviam se passado até que Leandra Pires me indicou um médico. e.Igual às outras pessoas. eu perguntava se ela achava a vida boa. Olavo.

Se nos Estados Unidos já é um .explica o psiquiatra. com o tratamento certo. Não concordo com isso. aquele quadro grave que está ali na tua frente te confunde. estavam em uso de antidepressivos. sem estar associado a estabilizadores de humor.Então às vezes. apenas nos Estados Unidos. Pedi que jurasse. numa viagem normal de turismo. Se você não entende a normalidade de um osso. porque me sentia apaixonada. você não vai perceber uma fratura . segundo os subtipos) que não perdeu o olhar de encantamento diante da vida. nunca me apaixonei por ninguém sem estar eufórica. mudar o ângulo. das vendas de remédios.Se você não entende o bipolar no seu estado normal. Em Nova York. você não sabe bem o que é. você não vai entender quando ele está anormal. meus impulsos sempre tiveram um certo limite. Por exemplo. Sorte de 206 ser um tipo de bipolar (2. Quando se está apaixonado a química do nosso corpo se altera e traz um contentamento. Minha analista sugere que. depois que a doença se manifestou. para você procurar um diagnóstico. Se não fosse bipolar talvez tivesse ido a Nova York e voltado pra casa. e uma coisa que me assustou. Me apaixonei muitas vezes e sei que o que sempre sentia vinha da mesma substância que conheci aos 15 anos. "Existe uma associação que publica dados das farmácias. e pedi a ele que. Eu posso dizer que já estive no céu e no inferno repetidas vezes. Durante muito tempo minha vida foi comandada por dois pólos nítidos. teria transado com o surfista. todos terão temperamento depressivo. "O médico precisa se afastar. mas como ela era antes. O temperamento não é como a pessoa é durante a depressão. Se fosse maníaca. somente 24% dos bipolares estavam usando estabilizadores de humor. quase metade. Gabriel me contou que ele e o amigo às vezes faziam festinhas. Tive sorte de. sem freios. Com cocaína e outras drogas pesadas. Sendo hipomaníaca. A depressão não vem com um indicativo na testa: Sou bipolar. Não há nada mais maligno para o tratamento da depressão bipolar do que o uso de antidepressivo isolado. mas não tudo.que a saída parece impossível de ser encontrada. O tratamento . não ter perdido a alegria que pontuou minhas aventuras. Creio que se eu fosse maníaca continuaria o trajeto da euforia. não fizesse festa nenhuma. Se afastar do quadro agudo e perguntar sobre as coisas de 207 que a pessoa gosta. Se você perguntar sobre o temperamento. ou ao menos iria beijá-lo. com a depressão tendo um espaço muito mais acentuado do que a mania. os remédios demoram semanas e semanas para surtir um pequeno efeito. é que. e como ela era antes de ficar deprimida. . como resistir se a vida te ignora? A dor não passa nunca. um osso que se quebra é um osso que não estava quebrado. enquanto eu estivesse ali. durante a depressão. quando tive meu primeiro namorado. Analistas e psiquiatras podem saber muitas coisas sobre nós. em um estudo de 2003. E 48%. meu corpo estava cansado.

e o começo de uma amizade. mas se você não sai de casa considera-se que você não está trabalhando. deve ser por volta de 12% a 15%. aquelas paradas. em que tinha sido batizado.ele realmente adorava cafés. tomando um carioca ou um curto . mas se você extrapolar os Estados Unidos. Foi o que eu pensava. fiz coisas burocráticas como ir ao banco. Antes de voltar para o Rio. Era uma confusão atrás da outra. Estou falando dos que têm diagnóstico de bipolar. Cheguei a ficar 27 horas no computador. Depois. Então resolvi me mandar para São Paulo e ficar sozinha. No Brasil. de vez em quando. no final da madrugada. e por dois dias seguidos derramei Coca-Cola no teclado do notebook. vendo filmes que meu filho tinha gravado pra mim. Da primeira vez a empresa consertou sem problemas. Em 2004.número vergonhoso e assustador. Estava escrevendo meu primeiro livro. onde morou com os pais quando era pequeno. providenciar 210 a entrega do videocassete e devolver os filmes à locadora. ficou um encantamento no ar. trocava 209 e mails. Peguei fitas na locadora 2001. Foi me buscar às nove e meia da noite. Tínhamos muito carinho um pelo outro. blogueiro com quem. Zeca ligou. muito preocupante". De tarde. onde ficávamos conversando até fecharem as portas. conclui o psiquiatra. sentimos uma empatia imediata. Estou percebendo que essa história é parecida com a de Nova York. a diferença é que. mas o video estava quebrado. Fomos ao edifício Copan ver a arquitetura de Niemeyer. Era dia claro quando me mostrou a Igreja de São Bento. Quando nos encontramos. Deixei o computador lá por vários dias e precisei comprar um teclado novo. correr para ver o que estava passando na tevê. mas fiquei sem jeito e não aceitei. atender a telefonemas. que servia sopas de madrugada e café pela manhã. e não tinha um minuto de sossego. Perguntavam onde estavam o abridor. A uma padaria espetacular. de roupas quentes e debaixo da coberta. e me deixou de volta no flat ao meio-dia.. só viemos a namorar meses mais tarde. pra cá é preocupante. gravatas. 24 horas. Peguei ônibus e trem. Não sentíamos sono. Ele achava que me conhecia de outras vidas. Não existe um número. na melhor das hipóteses. Então me pediam coisas o tempo inteiro: fritar ovos. Alguns incidentes atrapalharam meu projeto de tranqüilidade. Tive de arranjar outro rapidamente. andávamos pra lá e pra cá o tempo inteiro. Quando fui embora.maravilhoso nome. escrevi o dobro do que escreveria no Rio. se ofereceu para me levar ao aeroporto. minhas depressões já tinham desaparecido. Precisava ver filmes e escrever sobre eles. e o lugar era tão longe que tinha estrada de terra. Não paramos um minuto: me levou a vários bares bacanas da Vila Madalena. De bar em bar. além de ficar no quarto do flat. na versão paulista. Quando tudo se acalmou. No dia seguinte. fui embora no começo da noite. a fachada de um hotel chamado Cineasta . aqui certamente é pior. O caderno de 208 cinema de Marina W. roupas limpas. fui beber chope com Zeca. Que ninguém discute que é bipolar. embora nossa correspondência fosse irregular. . mas na segunda me indicaram aonde eu deveria ir.

Ver sua casa semi-arrumada. que tem todo o tipo de comércio à disposição. são caminhões de mudança. Além do mais. Parecíamos dois grandes amigos dividindo a mesma casa. No final de 2004. Chorei tanto que fiquei com medo de voltar a ter depressões. Acordei normal.Meu casamento se arrastava. cobrava preço de tabela. Fui morar na Gávea e. que nossos sentimentos estavam acima de uma assinatura. Nossa separação não poderia ter sido mais tranqüila. fui conhecer sua casa e me surpreendi ao ver os lençóis floridos . pela primeira vez. e eu ficava direto trancada no escritório. depois de 23 anos de casados.. dizendo que não conseguia imaginar envelhecermos separados. Era tudo que mais queríamos durante todas as nossas férias na praia: que os quatro estivessem com a gente. diante de um mundo enorme e. Se estivéssemos um do lado do outro seria um abraço. Na volta da viagem. indicada 211 por uma amiga. Eu estava tranqüila como se estivesse indo ao cinema. estávamos todos ali. sem criar nossos netos. e minha família e meus amigos estavam ao meu lado. quando em meia hora eu transformaria num lar. lancei o livro e estava felicíssima.era sempre eu que escolhia essas coisas. Acho deselegante manter uma pessoa que já virou irmão ao seu lado. De noite. Fomos com Maria Clara e seu namorado. e. por ironia. liguei para uma advogada. levantei e escrevi um e-mail. possivelmente. me deixou melancólica.. Separar-se é muito caro. papeladas. mas agora 212 de maneira diferente. De madrugada. achamos que seria bom para os dois nos separarmos. O casamento é que estava amarrado à rotina dos casamentos longos. os gatos. caixotes cheios de cds e livros. e Francisco com sua namorada. Ele respondeu que iríamos criá-los juntos. onde não havia nem uma padaria por perto. em um lugar horizontal. e meio sem querer. nem conta. Nosso maior desejo era estar sempre com os bebezinhos e. Já tinha me livrado da depressão e estava legal. Visitamos muitas praias e restaurantes. . Ele ficou tenso e calado no trajeto até o centro da cidade. quando passamos pelo Aterro do Flamengo. Além de competente. achava que ele estava desprotegido sem mim. Engraçado acontecer nessas condições. A pessoa precisa chorar todas as perdas para não adoecer por dentro. as crianças. antes de dormir. cheio de promessas. Rapidamente estávamos assinando a sentença. e me senti um pouco esquisita. Sidney alugou um apartamento no Jardim Botânico e. Viajamos todos para Búzios. Mas fiquei lá apenas seis meses. Sidney trabalhava muito. como um shopping ao ar livre. Por isso. divertida e sincera. Na volta. começou a tocar no rádio a música que embalou parte do nosso namoro. Foi uma despedida digna. tive uma crise de choro. Asa Sul. Éramos duas pessoas que se amavam. Havia mais de duzentas pessoas na Livraria da Travessa. Foi uma resposta gentil e carinhosa. Com exceção de Brasília. seu trabalho na televisão mudou de horário e ele não precisava mais acordar às quatro da manhã. Porque sempre morei no alto de ladeiras ou em lugares inacessíveis. estragá-los. Pela primeira vez. escrevendo o livro.

Ainda espero encontrar o homem da minha vida. Tati Quebra-Barraco . com todo o tipo de comidinhas. de acordo com suas necessidades. Comecei a transformar sonhos em planos e a tratar da minha saúde. Estava sempre me dizendo: "Vou te levar pra conhecer um lugar. charutarias. monumentos. Ficávamos na varanda da casa dela. Foi uma separação sem traumas.. talvez. Pouco depois precisei voltar a São Paulo. pracinhas. Um jeitinho diferente. galerias. coisa que nunca tinha feito antes. enquanto ele conversava com a vendedora sobre quilates e lapidações. Comecei a caminhar... restaurantes chineses." Eram lojinhas. quando a internet fica fora do ar também. não conseguia 212 me imaginar sem elas. Essas coisas que as mulheres conversam enquanto bebem. mas Sidney vai ser sempre o cara mais importante de todos. Nunca pensei que ela fosse falar isso e achei bonito. e agora podia beijá-lo. "Não quero ter um meioirmão". É difícil descrever a sensação de liberdade: é querer viver inteiramente tudo que sou por dentro.Nossa vida social juntos era muito restrita por causa disso. Pode vir que a chapa é quente . típica coisa feminina. Chorei muito até que tomassem a decisão. além de ser o pai dos meus filhos. Se você quiser. cinemas antigos. fazer ginástica e tentar me alimentar de modo mais saudável. chafarizes. As crianças vieram morar comigo. Não eram mais crianças e já estavam na faculdade.. Afinal. essa mudança brusca poderia me fazer entrar em depressão. que reunia várias barracas. mas. e também à feira comer pastéis fritos na hora.. Tudo foi ainda mais divertido do que da primeira vez. explicou. Curtimos muito. exatamente metade das nossas vidas. Na Tiffany's.. suas ruas prediletas. se já não estivesse devidamente medicada. Me hospedei na casa da poeta Ledusha Spinardi. sei que posso contar com ele para qualquer coisa e ele sabe que pode contar comigo. fiquei percorrendo a loja usando anéis e pulseiras de diamantes.. tomando vinho tinto e contando nossas intimidades. Fomos a um galpão enorme.. Quando estão com saudades do pai dormem lá. e acabamos passando o resto da semana juntos. E tomamos muito cuidado para não invadir a intimidade um do outro. com quem havia feito amizade através de dezenas de e-mails e papos intermináveis ao telefone. 214 Zeca me telefonou. Eles vieram morar comigo e circulam pelas duas casas. tínhamos passado muito tempo juntos. Embora a gente se veja muito pouco. Sem ter medo do perigo. Gostava de me mostrar coisas e me levava para conhecer farmácias e supermercados. Maria Clara me surpreendeu quando pediu 213 desculpas e disse que ficaria onde seu irmão ficasse. mas na minha família usamos crianças como sinônimo de filhos.

era o homem ideal para mim. e seu encantamento parecia ter acabado. disparou palavras violentas como pedradas. Mas o temperamento bipolar é impulsivo. Ele ficou mal. como livros. Coisas interrompidas ficam pairando no ar e nosso romance tinha sido muito ardente. Errei. Estava muito feliz e nunca gostei tanto de uma cidade. faz um super efeito. e um dia resolvi terminar tudo. dizia.foi tudo muito especial e lindo. Me dava coisas adoráveis. medalhas. Joguei todas as coisas fora: pedras. embora tenham certeza que não. Gostava de me ver cantar e dançar. foi muito estúpido comigo. tudo. aliás um apartamento superbagunçado. Andávamos de mãos dadas pelas ruas desertas. me tratava de modo tão delicado que fiquei aborrecida quando. mostrei o Arpoador e o Leblon e.Nosso namoro foi feito de idas e vindas. Meses depois. tão íntimos e quase palpáveis. bilhetes. Tive uma intuição de que tudo daria errado. Mas o namoro tinha terminado e nunca mais soubemos um do outro. duas coisas que não faço bem. No reply. tercinhos. santinhos e coisas que brilham. Ele 219 me acostumou mal. Além disso. Gostava dos nossos silêncios. Eu preferia ignorar seus defeitos. Quando estive em São Paulo. e essa frase. livros. nos falamos por telefone afetuosamente. para uma mulher que foi casada tanto tempo. Eu tinha meia dúzias delas. Dançamos juntos sua música preferida. uma espécie de Pânico mais bemfeito. Ele fazia planos para se mudar para o Rio a fim de ficarmos sempre perto um do outro. percebi que sua atitude era compreensível. me arrependi e tentei consertar. e mais curto do que aquela paixão poderia supor. o tempo todo. "Adoro ouvir você falar". Todos os apaixonados são iguais. Eu tinha pisado na grama. meias. pedimos sanduíches americanos de madrugada numa padaria perto da casa dele. e eu usava um vestido dourado . medalhinhas para me proteger. Mas Zeca era orgulhoso. além de objetos que pertenciam a ele. Quando a raiva passou. Como eu. de modo inesperado e infantil. avental. Mas eu adorava me sentar no colchão do quarto e assistir à televisão ao seu lado. e ele ficou com ódio de mim. xícaras. que me permitia fazer mil coisas ao mesmo tempo. cuidando dos animais de dia e olhando as estrelas de noite. o que deixava seu humor instável. Zeca preferia o sonho. como nunca senti com ninguém. e imaginávamos nossa vida no interior. não sei por que fiz isso. mas fui salva por uma minieuforia. me explicou depois. "Minhas únicas armas". e a tristeza se diluiu . Eu só pensava nele. aventais 218 de chef e meias de lã. Nas vezes que veio ao rio. e tínhamos um programa de rádio de mentirinha. Com certeza ele também não ligava para os meus. ele roubou uma xícara para mim. o fato de Zeca também ser bipolar. Foi um romance tão intenso que só poderia mesmo ser breve. No automóvel. no shopping da Gávea. e relapso em relação aos remédios. numa crise de mau humor. cantávamos músicas antigas do Roberto Carlos às alturas. Não é motivo para se terminar um namoro. Também me arrependi desse gesto impulsivo. potes de café floresta. Terminamos por e-mail. além de copinhos de cachaça e tudo que fosse possível enfiar no bolso sem ninguém perceber.

Minha vida se transformou numa série de coincidências felizes e eu acordava no meio da noite com achados brilhantes. O amor era falso e se quebrou. A vida não dá espaço pra nada que dói. sente saudade. Ainda carreguei aquele sentimento por um bom tempo. e o que eu sentia foi desaparecendo. quando te assaltam e quando deixam de te fazer sofrer. acordar cedo. um remédio para me ajudar a dormir. mas gosto de poder apreciar as coisas e ver graça em tudo. arrumando meus livros e papéis. algumas paixões merecem champanhe duas vezes. acabou. A paixão pesa quando não correspondida. químico? Mas tudo é químico mesmo. você vai. mas. na época que eu estava feliz. a vida é curta. tenho tido pequenos picos de alegria e tristeza químicas. exige coisas. É. embora tivesse um lado imaturo que ele gostava de cultivar. Não sei se essas minieuforias podem vir a me prejudicar. Comecei a tomar Seroquel. tantas coisas pra fazer. as coisas vão se ajeitando. Mas um dia nos distraímos. dorme. acorda. o mundo não pode esperar. Porque não existe nada o que pensar. E você vai. você precisa se ligar. precisa ir. O noivado fica por conta das pessoas apaixonadas gostarem das coisas lúdicas. E cada um 221 foi para o seu lado. falando muito. e as lembranças que tinha aos poucos foram envolvidas em névoa. porque nada poderia ser feito." . A pessoa não consegue ser feliz. e se porta como um convidado que não se manca e fica rendendo uma conversa que passou do ponto. Fico um pouco angustiada. Zeca era um homem experiente e sabia que minha vida não cabia na dele e a dele não cabia na minha. como a psiquiatra americana. como me dar conta de que a lua que eu via no céu era a mesma lua que ele podia ver da sua janela. você se movimenta.comentou meu psiquiatra.no meio do corre-corre. e duram muito pouco para eu me queixar. Mas o tempo não pára. uma casa pra cuidar. Passava noites em claro. racionaliza. o tempo passa. tudo passa. É engraçado. filas de banco. correr atrás. temporariamente. Eu chorava muito por conta disso. dormindo pouco e distribuindo prédatados pelas lojas do shopping. na época: "Me apaixonei. até que um dia acabou por completo. Eu era totalmente apaixonada 220 por ele. as fichas caem. a gente se esquece. não confundir com lúcidas. gosto de ter nascido com este . Os momentos de melancolia são mais raros. se distrair. e nosso amor rolou e caiu num abismo. você precisa trabalhar. você precisa ir. e te puxa. o mundo te espera. A sensação de felicidade é quase constante e é bacana viver assim. Mas o tempo passa. você pensa. embora nada que lembre as faxinas de antes. namorei e noivei. Anotações no meu diário. Fiquei alguns meses acelerada. Sou a soma de tudo que senti e. Espero nunca mais ter que me esconder debaixo de um cobertor. mas no dia seguinte estou me sentindo bem de novo. Não havia como recuperá-lo. você entende. Desde janeiro de 2006.Namoro de bipolar com bipolar é uma festa . 222 Às vezes ainda gosto de arrumar a casa de madrugada. o amor no abismo. a vida te puxa pelo braço.

Se cuide. quarta. Para aproveitá-la. é preciso estar bem. terça. A vida é segunda. Nunca pensei que um dia falaria isso. em outubro de 2006 pela Lis Gráfica Editora. e acho legal ter um jeito que preserva um pouco a Marina que andava de balanço nas alturas. sábado e domingo. Edição Luciano Trigo Jancy Medeiros Revisão Guilherme Bernardo José Carlos Ratamero Produção gráfica Ligia Barreto Gonçalves Este livro foi impresso em São Paulo. eternamente. quinta. tentar descobrir seu significado e por que estamos aqui. para a Editora Nova Fronteira.transtorno. . mas o que eu posso fazer se viver vale a pena? Desisti de compreender vida. sexta. O final começa a se tornar piegas. Não consigo imaginar minha vida de casa para o trabalho. Agradecimentos Luciana Conde & Fred Pazos.