“SOBRE O NARCISISMO” FREUDIANO E SUA RELAÇÃO COM A OBRA DE

ARTE: ESTUDO SOBRE A INSTÂNCIA NARCÍSICA NO FILME “CISNE
NEGRO”
ANA CAROLINA LINO LIBERATO
ANA CLAUDIA RODRIGUES FERREIRA
ANTONIO FERNANDO VIEIRA GARCIA
FABIANA CRISTINA GOMES DA COSTA
FABIOLA FERREIRA DE BRITTO
JULY DEMENJON DE SOUZA
NÚBIA PEREIRA DA SILVA
OTAVIO AUGUSTO HORNING
PONTIFÍCIA UNIVERIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

Trabalho elaborado à disciplina de
Fundamentos
Epistemológicos
das
Teorias da Personalidade do Curso de
Psicologia Noturno.
Orientador: Prof.ª Dr.ª Juliana Radaelli

CURITIBA
2014

SUMÁRIO

1
1.1
1.2
1.3

“SOBRE O NARCISISMO” FREUDIANO....................................................03
SOBRE O CONCEITO DE LIBIDO...................................................................03
SOBRE A MELANCOLIA E AS NEUROSES DE TRANSFERÊNCIA..........04
“SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO”, CONSIDERAÇÕES
ACERCA DO TEXTO FREUDIANO................................................................05

2

ESTUDO DE CASO SOBRE O NARCISISMO: PIERRE-MARIE OU
SOBRE A CRIANÇA........................................................................................09

3

O SELF, O EXIBICIONISMO E A OBRA DE ARTE: CONSIDERAÇÕES
SOBRE O NARCISISMO NA SEGUNDA TÓPICA....................................15

4

CISNE NEGRO SOB A ÓTICA NARCISISTA...........................................18

5

REFERÊNCIAS.................................................................................................22

1

“SOBRE O NARCISISMO” FREUDIANO

1.1

SOBRE O CONCEITO DE LIBIDO

2

mas. a libido que foi projetada diretamente para o ego. cuja libido e o interesse do ego. Ambos se apresentam como designação de fontes de energia opertante no indivíduo (Freud. são abandonadas e retiradas para dentro do ego. de modo diferente dos outros instintos. mas para isso. uma energia que se manifesta. Freud não trata muito a respeito deste modo. 2006). denominado narcisismo total. A libido encontrada ligada aos objetos e que é expressão de um esforço para obter satisfação em conexão com esses objetos. o qual é narcisismo (Freud. e essa capacidade para o autoerotismo (atividade sexual do estádio narcísico da distribuição da libido) é a base do atraso da sexualidade no processo de educação no princípio de realidade (Freud. é denominada como libido. 2006). Assim foi dado um nome para essa distribuição de libido.Instintos do ego e instintos sexuais devem ser separados. habitam o ego autossuficiente por ainda serem unidos e indiferenciáveis. mas a ligação não permanecia em objeto. Freud a descobriu ligada em objetos na doença megalomania (casos de demência precoce). Pode-se acrescentar. voltava ao ego. pois a libido do ego transborda de 3 . para ele. Durante o sono da pessoa que dorme. Ao acordar. Para compreender melhor a libido. mas podem trazer perigos se em grau extraordinariamente elevados de prazer. Muitos instintos sexuais começam a encontrar satisfação no próprio corpo da pessoa auto eroticamente. e as demais como interesse (Freud. tanto as libidinais quanto as egoísticas. 2006). e a libido do ego pode ser transformada em libido objetal e esta. que podem ameaçar a vida do indivíduo. também pode deixar os objetos e colocar o próprio ego da pessoa em lugar deles. As neuroses de transferência podem ser explicadas através dos instintos sexuais e instintos do ego. A reflexão sobre o tema decorre da fixação da libido ao próprio corpo e a personalidade da pessoa ao invés de ocorrer com um objeto. e sim. As catexias e energias que o ego dirige aos objetos de seus desejos sexuais. trona-se patológica. 2006). A emissão de libido em direção aos objetos enquanto a massa principal de libido pode permanecer no ego. 2006). que o sono é um estado no qual todas as catexias de objetos. é algo reservado para designar as forças intuitivas da vida sexual. é preciso saber o grau em que os instintos sexuais se comportam em suas manifestações somáticas e mentais. a sexualidade é a única função do organismo individualizado que lhe traz vantagens. pode ser novamente devolvida ao ego (Freud. podem ser denominados como libido. Instintos na visão de Jung. podendo destruí-lo (Freud. 2006). reconstitui-se o primitivo estado da distribuição da libido.

a resistência a essa barreira é intransponível (Freud. acredita que o processo de desligamento da libido para com os objetos. 2006). o que chamou atenção da mania de perseguição é que em muitos casos o perseguidor é do mesmo sexo que o paciente perseguido. a contrapartida encaixasse a partir do momento em que Freud. A megalomania é uma expansão direta do ego. Portanto. 1. Entretanto. Entretanto. e bloqueia o retorno a eles. retomaria. já na segunda. um retorno ao narciso secundário que é o retorno do narcisismo infantil. ainda diferem entre si. e assim por diante (Freud. é estreitamente relacionado com o processo de repressão (Freud. As suas formas são descritas como megalomania. delírios de ciúme. os quais seriam suas sombras. a libido em seus esforços para alcançar novamente os objetos (representações dos objetos). loucura sistematizada crônica. original. a partir dessa sua perseguição. 2006). em comparação a histeria e neurose obsessiva. mas. na qual a primeira. o qual acredita estar sendo perseguido e conclui. mas se diferencia pôr no caso das neuroses narcísicas. o ponto de fixação da libido remontam a fase muito anterior do desenvolvimento. no processo de reintegração ou recuperação da libido alcançar os objetos. desenvolvendo megalomania (Freud. 2006). agarra-se a alguma coisa destes. Freud exemplifica seu conceito com o caso de um paciente. Porém. e depois de muitos estudos ficou claro que a pessoa do 4 . primitivo. Na demência precoce (narcisismo). 2006). os quais mostram inequívoca similitude com a histeria ou. que ele deve ser dotado de importância muito especial. mas sim. com menos frequência.maneira que precisa ser representado para não adoecer. mesmo assim. obrigando a emitir a sua libido. o quadro clinico não decorre da libido não retornar ao objeto e sim fixar-se no ego. devido a circunstancias de se haverem recolhido a ele as catexias objetais libidinais. 2006). como representações verbais pertencentes ao objeto (Freud. A forma da doença conhecida como paranoia. Os sintomas podem ser mais explícitos em ruidosos. mania de perseguição. ao se defrontar com uma barreira de resistência é possível demoli-la parte por parte. começa haver uma diferenciação entre neurose de transferência e neurose narcísica. ocupa uma posição não estabelecida nas tentativas de classificação feitas pela psiquiatria contemporânea. com os da neurose obsessiva.2 SOBRE A MELANCOLIA E AS NEUROSES DE TRANSFERÊNCIA O conflito parece com o mesmo de histeria.

mais empobrece a outra. 1. para a do sexo oposto (Freud. o Eu tem que ser desenvolvido. Nacke. Experiências dessa doença em casos mais numerosos levou a concluir que a paranoia persecutória é a forma da doença na qual uma pessoa se defende contra um impulso homossexual que se tornou por demais intenso. por alguma outra pessoa. à transformação dos impulsos libidinais em ansiedade. 2006). Mas os instintos auto-eróticos são primordiais. como o investimento do objeto se tornam possível distinguir uma energia sexual. de uma energia dos instintos do Eu. há uma oposição entre libido do Eu e libido do objeto. a qual pode tornar-se seria ameaça a vida do objeto amado e odiado. Assim as energias psíquicas. toca nele e o acaricia com prazer sexual. os investimentos que podem ser avançados e novamente recuados. que é resultante do processo de repressão (Freud. a libido. por exemplo. A mais elevada fase de desenvolvimento a que chega esta última aparece como estado de enamora mento. A libido retirada do mundo externo foi dirigida ao Eu. edificado sobre um narcisismo primário que foi obscurecido por várias influências. até atingir plena satisfação com estes atos. sendo.3 “SOBRE O NARCISISMO: UMA INTRODUÇÃO”. que absorveu toda a vida sexual do indivíduo. e tem seu contrário na fantasia de fim do mundo dos paranóicos. isto é. seu perseguidor. ou seja.mesmo sexo a quem o paciente mais amava. Dessa maneira há um significado de perversão. 2006). porém. nada mais é que a transferência do problema com a pessoa do mesmo sexo. então deve haver algo 5 . Quanto mais se emprega uma. um abandono da própria personalidade em favor do investimento de objeto. CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEXTO FREUDIANO O termo narcisismo vem da descrição clínica de P. A contrapartida de ocorrer o delírio de perseguição pelo sexo oposto ocorre. um pai por um professor ou um superior. para designar o indivíduo que trata o próprio corpo como se este fosse um objeto sexual. corresponde nesses casos. a substituição da pessoa amada. O narcisismo surge por retração dos investimentos objetais como secundário. Uma unidade comparável ao Eu não existe desde o começo no indivíduo. Isso possibilitou um novo desenvolvimento. que inicialmente estão juntas no estado do narcisismo. Partindo do conceito das neuroses e seus sintomas as emanações dessa libido. de modo a surgir uma conduta que chamamos de narcisismo. olha-o. se tornava a partir de sua doença. A mudança de afeição em ódio.

mas o self no sentido psicanalítico é variável e seus limites não coincidem com os da personalidade. 2006). Por outro lado. e depois esse investimento reforma para o seu (ego). ele indicou a vergonha potencial como motivo para defesa. isto é. Quando o bebê já é capaz de diferenciar seu próprio corpo do mundo externo. ou ao poder. Freud afirmou que uma parte do narcisismo da criança é transferida para o superego e assim ocorrem tensões narcísicas no ego à medida que este luta por viver de acordo com o ideal do ego (Freud. 2006). O conceito de narcisismo primário compreende a afirmação de que o bebe originalmente vivencia a mãe e suas ações. ou a beleza. ou a moralidade. ele identifica suas necessidades e quem ou o que as satisfaz. o sujeito concentra em um objeto suas pulsões 6 . do que da vivencia de um adulto acerca dos outros e de seu controle sobre esses outros. poder. A definição geral do narcisismo como investimento libidinal do self poderia ser compatível ainda com uma abordagem transacional. O equilíbrio do narcisismo primário é perturbado por pressões maturacionais e por tensões psíquicas dolorosas que ocorrem porque as ações maternas são necessariamente imperfeitas e as demoras traumáticas não podem ser evitadas (Freud.que se acrescenta ao autoerotismo. isto é. perfeição e bondade que são projetados na figura parental durante a fase em que essas qualidades gradualmente se diferenciam em perfeição pertencente ao prazer. 2006). O self pode expandirse muito além dos limites do indivíduo ou encolher-se e tornar-se idêntico a uma única de suas ações ou objetivos (Freud. especialmente os aspectos exibicionistas dos impulsos pré-genitais. O aparecimento de libido idealizadora pode ser visto como um passo de amadurecimento no desenvolvimento da libido narcísica e diferenciado do desenvolvimento do amor objetal. como aspectos originais de bem-aventurança. o controle sobre a mãe e suas ações está mais próximo do conceito que o adulto tem de si mesmo e do controle que conta exercer sobre seus próprios corpos e mente. 2006). ou ao saber. Assim. A idealização pode ser apropriadamente descrita como um aspecto do narcisista. segundo o ponto de vista de um mundo no qual a diferenciação eu-tu ainda não foi estabelecida. com suas próprias fases transicionais (Freud. 2006). uma nova ação psíquica. para que se forme o narcisismo (Freud. Freud chamou a atenção para certas funções do ego relacionadas com o id. No caso do narcisismo secundário há dois momentos: primeiro o investimento nos objetos.

a do ideal do seu eu. 2006). uma consciência formada no ego oriunda das influências e exigências parentais e culturais desde o período da tenra infância que efetivariam uma ação de censura sobre estas influências. em agradá-lo para reconquistar o seu amor. há um investimento objetal.” (Nazio. investimento libidinal homossexual. mas isso só pode ser feito através da satisfação de certas exigências. p. O ego-ideal advém da satisfação infantil considerada pela criança como perfeita. que em geral se dirige para a mãe e o seio como objeto parcial (Freud.sexuais parciais. ou. “sua majestade.100. Ao longo do texto freudiano “Sobre o Narcisismo”. Freud (2006) argumenta um pouco adiante sobre o agente psíquico que manteria e vigiaria este ideal e seus processos de idealização. 2006). que ela não é tudo para ela. p. a criança vai percebendo que ela não é o único desejo da mãe. donde referida ao ego-infantil. 59). o bebê começa a ser destronado. 2006) no que concerne à exaltação do objeto à mente. o ideal do ego. senão. no que se refere ao investimento libidinal à estrutura egóica. 1988. acarretando na idealização do mesmo. o objetivo consistirá em fazer-se amar pelo outro. por outra via. contudo pode-se traduzir o termo por “Recalcamento”. a constituição narcísica do sujeito no que concerne as suas escolhas objetais e o investimento libidinal nas mesmas. Outro aspecto mantenedor do Ideal de Ego e seus processos de idealização refere-se à conservação da libido homossexual enganchada ao desenvolvimento do ego que inicialmente se afastaria do narcisismo primário e retornaria à recuperação deste estágio dentro do qual estaria presente a satisfação e o investimento libidinal do ego. 1 O termo freudiano em alemão “Verdrängung” é traduzido na edição Standard (2006) por “Repressão”. ocasionando assim. Com o tempo. pág. (ii) quando a idealização diz respeito ao objeto. Freud acrescenta o termo “supervalorização sexual” (FREUD.101. Essa é a ferida infligida no narcisismo primário da criança. recusa característica do afastamento do narcisismo primário: (i) a idealização sobre a libido do ego produz um ideal de ego em que a projeção a si refere-se ao ideal que o mesmo elabora ante ao narcisismo da criança que já existiu em si. agora na forma de ego-ideal produz duas formas de idealização tal como uma saída ante a recusa da passagem do valor satisfatório infantil. perpassa para sua efetivação pelo mecanismo de recalque e o aparecimento de um ideal “fator condicionante da repressão1” (FREUD. A partir daí. 7 .

assim. sobressaltando-se quando as catexias são satisfatórias. em que tragicamente morre ai cair da cômoda ao chão. residual do narcisismo primário. (ii) contudo. ficando empobrecido em contrapartida ao benefício do Ideal do Ego. O advento do Ideal do Ego provoca a idealização dos objetos antes de seus investimentos libidinais objetais. Uma mãe com um édipo assinalado com o primeiro filho chamado Pierre. tendo como objetivo o deslocamento da libido para este ideal. imposto de fora. Auto-estima primária. (iii) A auto-estima é caracterizada pelo psicanalista (2006) em três partes: 1. 3. dando origem ao Ideal do Ego. efetivando. Satisfação da catexia objetal.Nesse sentido. o ego ainda provoca catexias objetais libidinais. (i) o afastamento do narcisismo primário da vazão à formação do Ideal do Ego. Os anos passam e ela tem o 8 . 2. 2 ESTUDO DE CASO SOBRE O NARCISISMO: PIERRE-MARIE OU SOBRE A CRIANÇA. Esta mãe passa a se sentir morta perante a morta de seu filho amado. este ideal. brilhante e maravilhosa. adentro disto formata o ideal sexual dos objetos em sua relação com o ideal do ego (FREUD. 2006). Onipotência relacionada ao investimento libidinal egóico.

assassinato do pai por um substituto. abrindo os braços e as pernas. o sonho repita-se e por outro. no ventre. Duas constantes nessas dúvidas sobre o papel dos autores: um vigoroso ódio fratricida e o sentimento profundamente enraizado de possuir em si um recurso escondido. o desconhecido. ser o mais forte (Leclaire. por duas vezes operada: se a recordação da segunda intervenção é bastante precisa e pormenorizada – oclusão intestinal –. mas o fato de que. Renaud procura um psicanalista por ter um mesmo sonho frequente. delegado de quem sonha. não teria levado vantagem por ter atingido com uma martelada o seu querido irmão? A não ser que tenha sido ao contrário. uma dor descrita como uma dor interna e que se reproduz ao menor pretexto. seu pai é atacado por um desconhecido que. com o rosto contra o chão. 1977). já tematizadas pela análise pela analise fecundação umbilical. por um lado. Em uma pequena sala. Primeiramente. anal. que persista o sintoma que ocasionara a sua evocação: uma sensibilidade dolorosa do lado esquerdo da região ilíaca. a ação de escapar dando um pulo de pernas abertas: esse gesto lembra uma cena de perseguição espetacular pelo pai. ginecológica possivelmente. ficou gravada. Não é sua simplicidade imaculada do ponto de vista psicanalítico. Renaud. como um filho maravilhoso mas nostálgico ao olhar materno. que torna insuficiente esta interpretação. esterilizante sem dúvida. “No ventre” é também onde a mãe foi. Faz-se necessário. oral. 9 . Uma criança maravilho nos facina sem podermos nos afastar dela. que lhe permite em qualquer ocasião. 1977). sumariamente. o pai é atingido apesar de haver tentado evitar os tiros dando um pulo com as pernas abertas e caindo em seguida. renunciar a ela seria morrer (Leclaire. e uma profunda hostilidade para com a mãe. lhe dá um tiro com um revolver. de um malandro que havia atacado Renaud e que estava prestes a causar-lhe mal: não se sabe se o agressor foi acusado a perseguição. a primeira continua sendo enigmática. Ao crescer.segundo filho. consolidados em torno de uma bastante comum perseguição anal (Leclaire. O tumulto gerado por essa ação vingadora impõe a Renaud uma outra narrativa que substitui a primeira em sua lembrança: uma briga violenta com o irmão mais velho: incerteza sobre a natureza da luta: o mais jovem. prosseguir a análise do sonho em seus menores detalhes. Renaud. O sonho é bastante claro. mas a imagem de alguém (Renaud um menino? um homem?) tentando impedir sua fuga. o qual é predestinado a renascer todos os dias o seu irmão falecido em sua existência. sem que assombra de um rebate falto tenha podido ser afastada ou confirmada. Existem detalhes associativos ao relacionar ao estar “no ventre” mas suspeita-se que esses conduzem a uma serie de perplexidade infantis. 1977).

desejou a de sua mãe. A partir desse momento de sua análise. o que é atingido. Algo muda para ele. determinante para ele. antes de tudo. Começando assim. A partir daí. pode aparecer esperando um filho. Renaud também sempre comentava do sonho também frequente que seu pai matava um cãozinho afogado. também o pai na posição de protetor. sempre enigmático. aquele que aparecia claramente na primeira recordação. Seria possível continuar a desenrolar todo o fio das associações: a mãe morta de um amigo próximo. a história de Pierre-Marie (assim denominado devido a junção da morte de seu irmão mais novo Pierre e a dor da Virgem Maria. e depois a de sua mulher. filho de seu pai. na esquina de uma praça por alguém mais forte do que ele. acerca da ambivalência dos sentimentos de Renaud. a mãe certamente escapou por pouco da morte: as pungentes efusões da convalescença atestam a todo momento. é a sua própria imagem de criança maravilhosa e prodígio – como muitas crianças – que vem a frente da cena de seu inconsciente. Pierre-Marie aprece como substituto de Pierre. apesar disso ter sido elucidado.. fez a fantasia da morte de seu pai. confirmado ao menos por outras duas. 1977). em uma delas. e seu grande problema consiste em matar a representação de Pierre-Marie. já era possível o analista reconhecer a ruptura de sentido que da estrutura 10 . substituto de Pierre morto. Além do “assassinato do pai”. na outra. morto.. 1977). Pierre-Marie começou a vagar em sonhos em volta de cemitérios. Pietá dada pela mãe de Renaud) (Leclaire. Renaud é atacado sem ser socorrido. passou a discutir veementemente com sua filha mais velha até enviá-la para análise também. será ele quem encosta contra a parede um de seus fiéis amigos que o aborrecia mais do que de costume. o próprio Renaud que reconhece sentir-se. indicar que a cólera violenta em relação a seu pai que havia matado o cãozinho e a imensa piedade pelo animal constituíram a vida de acesso ao impasse.Nas duas ocasiões. Mas. Após as primeiras sessões ele não havia mencionado mais este acontecimento determinante de sua pré-história. é uma criança e sem dúvida. por enquanto. Nas sessões.. 1977). no ventre da figura paterna do sonho. e o sintoma persistia. o sonho inicial repetia-se. tínhamos todo material necessário para reconhecimento dos sentimentos devotados à mãe: grande amor e fantasia de espedaçamento. Assim. continua e recomeça (Leclaire. uma vizinha e amiga querida marcada por um traumatismo de nascimento (Leclaire. de morte do Pierre menino. Foi preciso chegar até o menino em perigo. No entanto. Pouco a pouco impõem-se a lógica arcaica do inconsciente: assim como a mãe em posição de poder aparece provida de um pênis. Para os psicanalistas trata-se de uma fantasia bastante comum. É suficiente.

não é frequentemente tão bem indicado como na história de Pierre-Marie: representação inconsciente propriamente dita. coração de 11 . o destino. a mãe por demais negligente ou apaixonada. e na maioria. ou então. nem qual criança é morta. somente o verbo indicado a ação de matar. a representação Pierre-Marie criança consoladora e substituto vivo de uma criança – são profundamente diferentes daquilo que poderá ser a identificação. uma vez que se encontra inscrita no inconsciente de um outro. ou a constituição do sujeito Pierre-Marie. Se tentar arrolar as variações possíveis acerca da identidade do assassino teremos: o pai. Enfim. daquele que mata. mas quem. O que se tem de matar é uma representação presidindo. O que se tem que matar – para que Pierre-Marrie possa viver – é a representação tão estreitamente ligada a seu nome. qual o responsável pela morte de Pierre? o médico (através do qual é feita a psicanalise). isto é. no desejo daqueles que conceberam ou viram nascer a criança (Leclaire.gramatical da fantasia apresentava: em lugar de “a criança” que alguém mata. é determinado com exatidão. tal qual um astro. a mulher. simples. a formulação inadequada da fantasia “mata-se uma criança” é perfeitamente adequada. dupla ou múltipla. O Pierre-Marie que se quer matar é a representação do desejo de sua mãe. ele mesmo? a sequência de figuras susceptíveis de ocupar o lugar do agente. 1977). tanto mais difícil de ser apreendida e nomeada. o significante dirigente que define o desejo da mãe. é indefinida (Leclaire. vai se constituir finalmente. que o representante inconsciente da fantasia da sua mãe. o pai. a idade. Esse “signo astral”. justapondose o nome do irmão morto ao da Virgem Maria. que o sujeito inconsciente de PierreMarie. voltada a imortalidade. criança devoradora (em lugar de consoladora). vinham o cãozinho. substitutivo vivo de um morto. A interrogação fundamental proposta pela fantasia: qual criança? No caso de Pierre. Três pontos devem ser levados em consideração: primeiro que o estatuto e a sempre problemática identificação da representação inconsciente do desejo dos pais – nesse caso.Marie fica claro que a criança que se tem é ele mesmo e veremos o que constitui a principal dificuldade dessa morte. a mãe. representação a que se deu o nome de Pierre-Marie. Em seguida. o destino da criança de carne e osso. isto é. mas não se sabe quem mata. sua própria filha. seus próprios representantes inconscientes. que aparece primeiramente como a de uma criança que serve de consolação. no que concerne o cãozinho. 1977). de dar a morte. tendo como referência a representação inconsciente de sua mãe. figura não articulada do desejo de sua mãe. qualquer que seja sua especificação figurada ou significante.

assustado pela presença paralisadora da morte. descobre túmulos em cemitérios abandonados. matar outra vez seu irmão. se quer viver. A criança a matar. uma espécie de criança perfeita (Leclaire. E no entanto. 1977). trabalhando muito. constituída a partir do sonho de sua mãe. deve. questionando sua representação narcísica primaria. será investida. é seu irmão. e o mais inquietante de todos. por em perigo a criança mortal do desejo de sua mãe: representante que. e o fato de ter provisoriamente admitido essa morte como a de Pierre constitui uma solida cabeça-deponte no campo fortificado de suas resistências. nem falará nunca (Leclaire. Pierre-Marie.pedra (mais exato do que Pierre). abre trincheiras. Aquilo que procura em seus sonhos. participa com indiferença das alegrias de sua família. no desejo de sua progenitora. o mais íntimo. limitando a intensidade de seu desejo e de suas paixões. ele deve permanecer sempre a criança imortal que substitui Pierre e anula seu desaparecimento: mas PierreMarie. a criança aterrorizante é a representação do representante narcísico primário. Tal representante vai ser investido como um representante que nunca foi nem nunca será o seu. transmite-lhe um golpe fatal: não somente destrói a chave desse 12 . Não fala. A principal dificuldade que Pierre-Marie encontra em viver vem do fato de que. O que ele quer é ser libertado desse medo da morte. 1977). no entanto. antes mesmo de ter nascido. Parte amaldiçoada e universalmente repetida da herança de cada um: objetivo da morte. em que atravessa paredes. criança destinada por sua mãe à imortalidade. daquilo que ele é. ao renunciar a identificar-se com a imagem do falecido. ocupando o lugar de seu irmão morto. embora fosse um corpo estranho. consagrando a essa asfixia o mais puro de suas energias. Pierre-Marie vive com dificuldade. destruir o sonho de sua mãe. pelo sujeito como um representante privilegiado. no seu inconsciente. Pierre-Marie se vê confrontado consigo mesmo. destinada a nunca mais se apagar. e que. que só produzem frutos – que ele não colhe . Como resposta. atinge sua mãe na parte mais sensível de sua razão inconsciente. ele mesmo investiu como o núcleo de seu ser. 1977). ele queima como a chama que brilha em sinal de luto por seu irmão. para fazer dele seu representante narcísico primário. ao mesmo tempo em que destrói sua imagem de luz. vai constituir o mais secreto e até o mais sagrado. necessária ao mesmo tempo que impossível (Leclaire. por sua absoluta estranheza. É a esse representante inconsciente privilegiado que chamo representante narcísico primário. A representação narcísica primaria bem merece seu nome de infans. o mais estranho.no campo de sua atividade profissional.

A criança é quem vai realizar os sonhos de desejos que os pais não puderam concretizar. um herói em lugar do pai. nem nunca ofereceu nenhum acesso a uma tomada de consciência. encontrou um lugar seguro quando se refugiou na criança. tão infantil. pois. mas com que luxo. este também ilustra o problema imposto a cada um de nós pela fantasia “mata-se uma criança”. o ponto mais dificultoso do sistema narcísico. é indelével. Se considerarmos a atitude dos pais para com seus filhos somos forçados a admitir que nela encontramos a reviviscência e a reprodução de seu próprio narcisismo. e sua progenitura será sempre e antes de tudo o suporte excelente e privilegiado daquilo a que eles tiveram que renunciar. Para Freud. “O narcisismo primário da criança. A criança terá uma vida melhor que a de seus pais. 13 . o fato de chama-la com muita propriedade de inconsciente quer dizer que ela não oferece. Este é o problema geral das relações que mantemos com os representantes inconscientes propriamente ditos. Existe. há sempre no desejo dos pais alguma perda a qual não puderam resignar-se – seja ela a de seus próprios sonhos infantis -. recompensa tardia para a mãe. mas ainda matam em uma segunda vez Pierre. 1977). é mais difícil de ser apreendido pela observação direta do que confirmada através de um raciocínio recorrente. 1977). no fundo. A representação narcísica primaria (a criança em nós). os derivados (Leclaire. isto é. essa imortalidade do ego que a realidade ataca sistematicamente. além disso. como todo representante inconsciente. não será submetida as necessidades que estes sabem ser as dominantes na vida.sonho em que ela vive. desposará um príncipe. O amor dos pais tão comovente e. 1977). Se o caso de Pierre-Marie põe particularmente em evidencia a dificuldade em nomear o representante narcísico primário como criança memorial viva. Mesmo que não exista na história familiar um irmão morto. especialmente. uma compulsão a atribuir à criança todas as perfeições. nada mais é que o seu narcisismo que acaba de renascer (Leclaire. os efeitos. aqueles que sucumbiram sob o efeito do recalque originário e de que só conhecemos. tudo aquilo que seus próprios filhos tiveram que suportar como investimento sob a forma da negação ou das realização de sua própria morte narcísica (Leclaire. será um grande homem. O processo analítico devera elucidar e destrincar todas as elaborações secundarias que em sua vida vieram encobrir a necessidade da morte da criança (da representação narcísica primaria) e. obrigando-a a cumprir um luto que ela nunca realizou.

Na obra de Freud. O EXIBICIONISMO E A OBRA DE ARTE: CONSIDERAÇÕES SOBRE O NARCISISMO NA SEGUNDA TÓPICA. especialmente os aspectos 14 . podem-se discriminar duas direções complementares que os analistas tenderam a seguir em seu esforço para ajustar a ocorrência de alguns exemplos de desequilíbrio narcísico a um contexto psicanalítico preestabelecido. Freud chamou a atenção para certas funções do ego relacionadas com o id.3 O SELF.

O aparecimento de libido idealizadora pode ser visto como um passo de amadurecimento no desenvolvimento da libido narcísica e diferenciado do desenvolvimento do amor objetal. a onisciência e a perfeição do superego. A definição geral do narcisismo como investimento libidinal do self poderia ser compatível ainda com uma abordagem transacional. O fato de o narcisismo original ter passado através de um objeto amado antes de ser reinternalizado de o próprio investimento narcísico ter sido elevado ao novo nível de desenvolvimento que é a idealização concorre para a singular importância emocional de nossos padrões. valores 15 . A idealização pode ser apropriadamente descrita como um aspecto do narcisista. ou a beleza. 1985). ele indicou a vergonha potencial como motivo para defesa. O equilíbrio do narcisismo primário é perturbado por pressões maturacionais e por tensões psíquicas dolorosas que ocorrem porque as ações maternas são necessariamente imperfeitas e as demoras traumáticas não podem ser evitadas (BLEICHMAR. Freud afirmou que uma parte do narcisismo da criança é transferida para o superego e assim ocorrem tensões narcísicas no ego à medida que este luta por viver de acordo com o ideal do ego (BLEICHMAR.exibicionistas dos impulsos pré-genitais. 1985). O genitor idealizado era o portador da perfeição e da onipotência originalmente narcísicas tem importância agora para a onipotência. perfeição e bondade que são projetados na figura parental durante a fase em que essas qualidades gradualmente se diferenciam em perfeição pertencente ao prazer. Assim. com suas próprias fases transicionais. O self pode expandirse muito além dos limites do indivíduo ou encolher-se e tornar-se idêntico a uma única de suas ações ou objetivos (BLEICHMAR. ou a moralidade. a imagem cognitiva do genitor idealizado muda conforme o amadurecimento do aparelho cognitivo dessa criança. poder. como aspectos originais de bem-aventurança. ou ao saber. É devido a essas circunstancias que os valores e padrões do superego são experimentados como absolutos. O conceito de narcisismo primário compreende a afirmação de que o bebe originalmente vivencia a mãe e suas ações. 1985). ou ao poder. isto é. isto é. Embora a idealização da imago parental seja a continuação direta do narcisismo original da criança. do que da vivencia de um adulto acerca dos outros e de seu controle sobre esses outros. segundo o ponto de vista de um mundo no qual a diferenciação eu-tu ainda não foi estabelecida. Por outro lado. o controle sobre a mãe e suas ações está mais próximo do conceito que o adulto tem de si mesmo e do controle que conta exercer sobre seus próprios corpos e mente. mas o self no sentido psicanalítico é variável e seus limites não coincidem com os da personalidade.

O objeto é importante apenas enquanto convidado a participar do prazer narcísico da criança e assim confirmá-lo. o bebe experimenta o prazer da mãe em todo o seu self corporal. como parte de seu próprio aparelho psicológico. Quando o ego não experimenta um sentimento de estar ferido narcisicamente quando não consegue atingir seus ideais. 1985). 1985). pode ser visto como importante dimensão narcísica de todos os impulsos instintivos. tornam-se represadas e a emoção de desapontamento que o ego experimenta contém sempre uma mescla de vergonha. experimenta uma emoção semelhante a da nostalgia (BLEICHMAR. Antes que a separação psicológica tenha ocorrido. Enquanto os impulsos narcísico-exibicionistas podem ser considerados como o aspecto instintivo predominante do self narcísico.e ideais uma vez que são partes do superego. 16 . o self narcísico quer olhado e admirado (BLEICHMAR. O que caracteriza o ideal do ego não é sua forma nem seu conteúdo. à frustração de suas ambições (BLEICHMAR. As fantasias narcísicas adaptativamente valiosas que proporcionam suporte duradouro a personalidade (BLEICHMAR. não as amamos. impondo ao mesmo tempo a tarefa de controlar os impulsos instintivos. mas a singular qualidade de despertar nosso amor e nossa admiração. Somos impelidos por nossas ambições. Pouco a pouco o exibicionismo da criança deve tornar-se dessexualizado e subordinado as atividades voltadas para os objetos dela própria (BLEICHMAR. 1985). reagindo com mortificação narcísica. como a expressão de uma ênfase narcísica posta mais no fim do instinto do que em seu objeto. de reduzir as tensões narcísicas e a vulnerabilidade narcísica. E se não conseguimos realiza-lás. Enquanto o self narcísico está intimamente entrelaçado com os instintos e suas tensões. Mas se a grandiosidade do self narcísico não tiver sido suficientemente modificada. O exibicionismo. as tensões narcísicas exibicionistas permanecem carregadas. O self narcísico e o ideal do ego também podem ser diferenciados devido ao relacionamento das camadas superficiais das estruturas com a consciência. em virtude de violentos ataques traumáticos a auto-estima de a criança terem levado a repressão das fantasias grandiosas. 1985). O homem é conduzido por seus ideias e empurrado por suas ambições. em sentido amplo. Os ideais são capazes de absorver grandes quantidades de libido narcísica transformada e assim. 1985). então o ego adulto tenderá a oscilar entre um superestima irracional do self e sentimentos de inferioridade. a fantasia grandiosa é seu conteúdo ideacional.

A empatia é o modo pelo qual coletamos dados psicológicos acerca de outras pessoas e pelo qual. 1985). A base para nossa capacidade de obter acesso a mente de outra pessoa é fornecida pelo fato de que. A sabedoria é atingida através da capacidade do homem de superar seu narcisismo inalterado e repousa na aceitação dos limites de seus poderes físicos. quando elas dizem o que pensam ou sentem. 1985). conseqüentemente. semelhantes as nossas (BLEICHMAR. a sabedoria está reservada as ultimas fases da vida (BLEICHMAR. mesmo que não esteja aberta a observação direta. serve para a solução de um conflito interior e a satisfação de um desejo que modifica a realidade pela criação de algo novo e original (BLEICHMAR. atitude que é moldada através da integração da função cognitiva com o humor. mais fortemente catexizado na juventude. imaginamos sua experiência interior.A relação do narcisismo com a criatividade. 1985). em grande escala. Essa empatia primária com a mãe prepara-nos para o reconhecimento de que aas experiências básicas mais intimas das pessoas permanecem. As energias narcísicas utilizadas no trabalho criativo são aquelas que haviam sido modificadas para uma forma de libido idealizadora. o individuo criativo tem um conhecimento exato dos aspectos do ambiente que tem significação para sua obra e aplica nesses aspectos a libido narcísica idealizadora. A sabedoria pode ser definida como uma atitude estável da personalidade em relação a vida e ao mundo. Uma obra de arte é como um sonho ou sintoma. os atos e o comportamento da mãe foram incluídos em nosso self. ampla faixa de estruturas psicológicas e impulsos instintivos. a criatividade artística e cientifica serve a muitos propósitos e envolve a personalidade total e. intelectuais e emocionais. em nossa organização mental mais primitiva. A personalidade de muitos indivíduos com criatividade incomum é mais infantil que maternal. no qual. 17 . Ou seja. geralmente no ápice durante a maturidade. os sentimentos. a aceitação da transitoriedade e um sistema de valores firmemente catexizado. É o derradeiro degrau de uma escala de realizações psicológicas: partindo dos ideias. no qual um objeto é catexizado com libido narcísica e assim incluído no contexto do self. ma elaboração daquele ponto especifico no caminho do desenvolvimento que vai do narcisismo para o amor objetal. passando pelo humor.

Na trama a mãe da protagonista Nina.4 CISNE NEGRO SOB A ÓTICA NARCISISTA O filme Cisne Negro do diretor Darren Aronofsky é uma obra preciosa para exemplificar os possíveis impasses que podem ocorrer em um relacionamento mãefilha. uma frustração. vivenciou a maternidade como um erro. pois Érika teve que interromper a carreira profissional de bailarina para 18 .

uma personagem do filme. que renasce – narcisismo renascente – ao projetar-se nos filhos. a mãe investe narcisicamente em Nina. O narcisismo primário é a primeira manifestação do narcisismo. pois estes sujeitos não conseguem sair deles mesmos (FADIMAN & FRAGER. No filme. transformado posteriormente em amor objetal. Por tanto a mãe que lamenta a mortificação de seu prazer em ser bailarina. vê no outro ele próprio. representa o Cisne Negro em Nina. segundo Gregório (2012) acerca do narcisismo primário. Freud em sua obra Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914) retrata a imortalidade do ego. atuando de forma a satisfazer as suas próprias necessidades narcísicas (Miller apud Gregório. em um primeiro momento Nina revela sentimentos aversivos em relação à Lily. O narcisista é um ser frágil. assim a impossibilidade desta estabelecer novos vínculos. não se verifica em Nina um desinvestimento objetal relativamente à figura materna. criando. Lily. em detrimento de um reinvestimento em novos objetos. 2012). e desta forma. mostrando-se indisponível para conter e satisfazer as funções narcísicas da própria Nina. O narcisismo renascente dos pais adjunto do narcisismo da criança é o que se define de narcisismo primário. vemos Nina em todo momento em uma constante busca de si mesma. Essa volta ao narcisismo original diz respeito ao narcisismo secundário (FADIMAN & FRAGER. O narcisista lida com os outros como se eles fossem espelhos. 2002). Com a superação do narcisismo primário. em outras palavras. pode-se ocorrer um retorno ao narcisismo original. onde o indivíduo escolhe a si mesmo como objeto de investimento libidinal. direcionados assim para resgatar os pais das próprias frustrações. consiste em um processo normal e necessário que ocorre no desenvolvimento libidinal de todos os indivíduos. mas aos poucos vemos Nina sendo direcionada 19 . é projetado na filha Nina. capacidade que o sujeito tem para fazer suas escolhas objetais. No entanto. isto é.dedicar-se à vida materna. A mãe amargurada projeta suas expectativas no futuro promissor da filha Nina. e seus relacionamentos são baseados em uma constante busca de si mesmo. todos os seus relacionamentos são baseados em uma busca de si. e sua principal característica é a grande dificuldade em estabelecer vínculos e laços afetivos. 2002). exige que Nina vivencie aquilo que não fora capaz de realizar. O desejo da mãe não concretizado de ser uma bailarina de sucesso.

2012). Podemos pensar nos comportamentos de autodestruição como tentativas de Nina se sentir viva. a procura de uma imagem especular com o objetivo de Nina não se desestruturar. ilusão narcísica: o corpo perfeito. sobretudo. defender-se das suas pulsões agressivas. Este fato é visível em vários trechos do filme. onde narcisismo é associado ao um estilo egocêntrico. quando Nina observa o seu reflexo no metro. negando o vazio que sente (GREGÒRIO. Segundo Gregório (2012) Nina confunde-se com Lily. Nina revela uma incapacidade em enfrentar o papel de protagonista de si mesma. Na trama vemos a falta de um ego consistente e coeso em Nina.há um fascínio a Lily. a não ser através dos comportamentos de autodestruição (física e mental). Nina procura esta coesão constantemente nos espelhos que lhe devolve esta desfragmentação. ainda. e pouco solidificada. uma fragilidade ou uma falta de percepção coesa de si mesmo. pois a mesma prejudica seu equilíbrio psíquico. uma ausência de coesão. e pode até ser um auto-desprezo. Nina não reconhece a sua imagem refletida no espelho. Pode-se estabelecer uma relação com o Mito de Narciso. em casa e até mesmo na escola. parece não haver um reconhecimento da própria imagem. e diz respeito a uma relação com a imagem. um processo identificatório e um investimento libidinal. um representação fragmentada de si. uma ausência de coesão da representação de si (GREGÓRIO. 2012) Nina é entorpecida por um fascínio à perfeição. que a perfeição idealizada que Nina procura corresponde a um prazer narcísico que visa. verificandose assim uma falha identitária. e observa nela a parte que falta para o seu mundo interno ficar completo. a dança perfeita e o gesto perfeito. Simões (2014) nos diz que o termo “narcisista” vem sendo muito erroneamente empregado. Nas palavras de Gregório (2012): É importante referir. A procura constante do espelho por parte de Nina pode reenviar para a busca de uma imagem/representação coesa de si. o passo perfeito. A mesma frente ao espelho é defrontada com uma estranheza sobre a própria face. isto é visível através da relação que Nina estabelece com o espelho. isto é. onde Narciso não reconheceu a sua imagem espelhada no lago. Diferentemente do que vemos no senso comum. pois para Psicanálise o conceito não tem um tom depreciativo. 20 .

D. Cisne Negro [Filme Cinematográfico]. Bleichmar. 21 . (1985).) Porto Alegre: Artes Médicas. Trad. J. d.. O narcisismo .5 REFERÊNCIAS Aronofsky. (2010). Ledur. (Diretor).estudo sobre a enuciação e a gramática inconsciente. Fadiman. & Frager. São Paulo: Harbra. Teorias da Personalidade. (E. (2002). R. H.

M.ispa.pt/: http://repositorio. Rio de Janeiro: Zahar Editores. D. (2006). Acesso em 8 de 11 de 2014. (2012).). Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanalise (6ª ed. A. (1989). Simões.12/2588/1/14289.) Rio de Janeiro: Imago.ispa. (C. Trad. disponível e m You tube: Disponível em: < https://www. Nasio.Freud.pt/bitstream/10400. A. (2014). XIV). Narcisismo e a organização narcísica no filme cisne negro. Sobre o narcisismo: uma introdução (Vol. Gregório. São Paulo: Zahar. Freitas.pdf Leclaire. Mata-se uma criança: um estudo sobre o narcisismo primário e a pulsão de morte. O que é o narcisismo?. S.youtube. S. disponível em http://repositorio. (1977). 22 .com/watch?v=0NZnqrkAjh8>. J. Acesso em 08 de 11 de 2014.