RELATÓRIO: DISCPLINA ESTÁGIO III – CURSO: CIENCIAS SOCIAIS

Prof.ª Dra. Débora Goulart
Alunos: Márcio R. Barboza, 68.476 - Noturno
Geovana de Oliveira Souza, 63423 – Vespertino
Lillian Lages Lino - 55384- Vespertino

INTRODUÇÃO
Muitos autores como (CALDERÓN, 2007); (BOSI, 2008); (SAVIANI, 2010);
(LEHER, 2010), (GOULART, 2012) dentre outros criticam a opção feita pelo Estado
brasileiro de privilegiar o ensino superior privado (sobretudo no inicio da década de
1990 com a adoção, não obstante a resistência de várias entidades classistas), de várias
medidas neoliberais em detrimento do ensino publico.
É consensual entre os pesquisadores apontar para as consequências negativas
dessa opção cujo efeito reflete em queda na qualidade do ensino, conversão da educação
de direito a mercadoria além da precarização do trabalho docente.
Os dados empíricos coletados durante a pesquisa confirmam as proposições dos
autores sustentadas em outros trabalhos.
O levantamento empírico foi realizado no Sindicato dos Professores do ensino
privado de Guarulhos (SINPRO)

1

nos meses de agosto a novembro de 2014. Foram

analisados 1503 homologações referentes ao desligamentos dos professores atuantes nas
principais faculdades particulares do município durante o período de 2004 a 2014.
Agradecemos o acolhimento e o apoio dado por todos os funcionários do
SINPRO durante a realização da pesquisa: Andréa Harada – presidente da entidade –
Suellen, Augusto e principalmente ao Gabriel (Gabu) pela paciência com que nos
auxiliou em relação às duvidas que surgiram durante a analise dos documentos.
1 O Sinpro-Guarulhos formado em
estabelecimentos
de
ensino
http://www.sinproguarulhos.org.br/.

2001 representa
privado
do

os professores dos
municipio.
Site:

Acreditamos que o presente trabalho possa colaborar com o esforço das
entidades de classe, dos movimentos sociais e estudantis que lutam em prol de
condições dignas de trabalho para os professores e por uma educação publica e de
qualidade para todos.
1: Breve histórico sobre a expansão do ensino superior no Brasil
A expansão do ensino superior no Brasil tem como marco o ano de 1808,
durante o reinado de D. João VI, com a criação de cursos superiores.
Durante o período da Regência, em São Paulo e em Olinda, no ano de 1827
foram criados dois cursos de Direito. Além desses, na cidade de Ouro Preto foi criada a
Escola de Minas que, apesar de ter a sua origem datada em 1832, só foi instalada 34
anos mais tarde. As primeiras faculdades brasileiras voltadas para os cursos de
Medicina, Direito e Politécnica eram independentes umas das outras e possuíam uma
orientação profissional elitista, pois seguiam o modelo das escolas francesas com maior
foco no ensino em detrimento da pesquisa.
De modo geral aos cursos criados por D. João VI e às duas mencionadas
faculdades se resume o ensino superior no Brasil até o final do Império. Duas
características são comuns a todos eles: trata-se de cursos ou faculdades
isoladas e são todos eles públicos mantidos, portanto, pelo Estado.
(SAVIANI, 2010, p.5)

As organizações didáticas e o poder de ação nas universidades tinham como base
o sistema de cátedras vitalícias: o catedrático (aquele que dominava um campo de saber)
escolhia seus assistentes e permanecia no topo da hierarquia acadêmica.
É importante ressaltar que nesse período as faculdades são mantidas
exclusivamente pelo Estado. Entretanto, a mudança do regime imperial para o
Republicano, marca a insatisfação dos posivitistas (grupo influente nos primórdios da
República) com o oferecimento do ensino unicamente pelo Estado. Os positivistas
sustentavam que o ensino deveria ser privatizado, condição para o acesso ao
conhecimento racional e científico, sem o qual o progresso do país encontrava-se
ameaçado.

criticava o modelo . Medicina. foi aprovado o Estatuto das Universidades Brasileiras que vigorou até 1961. as reações antipositivistas tomavam corpo com a Fundação da Academia Brasileira de Ciência. Ciências e Letras. Em meio a disputas políticas e ideais que cercavam o mundo da educação. com pouca atenção à pesquisa. Gustavo Capanema. O Estatuto estabeleceu as diretrizes da educação em todos os níveis. por vínculos administrativos. Os educadores da ABE. nesses círculos acadêmicos eram debatidas questões referentes à pesquisa e ao ensino superior no Brasil. no Rio de Janeiro. Essas faculdades seriam interligadas por meio de uma reitoria. Assim. que tinha como foco principal a implementação do Ministério da Educação. além de orientações específicas para o ensino superior: a universidade poderia ser oficial (pública) ou livre (particular) e deveria incluir pelo menos um desses cursos: Direito. conseguiu emplacar seu projeto para a universidade que serviria como modelo único para todo o ensino superior. em 1920. Ainda em 1916. É nesse cenário que a primeira universidade do país foi criada. O presidente Getúlio Vargas (1930-45) criou o Ministério de Educação e Saúde e. Não só os membros da ABE buscaram resistir às políticas educacionais empreendidas na Era Vargas. mesmo antes da construção da primeira universidade. aproveitando o autoritarismo do Estado Novo. anacrônicas para as necessidades do Novo Mundo. Educação. embora mantivessem sua autonomia jurídica. As instituições de ensino brasileiras foram acusadas de atraso por líderes políticos e tidas como ultrapassadas. o ideal positivista é indicado como um dos fatores que comprometeram a expansão das universidades públicas no Brasil. ministro da Educação e Saúde do governo Vargas. Engenharia. O debate sobre os rumos que a educação superior deveria tomar movimentou vários grupos. o qual surgiu durante o Estado Novo. em 1931 com o titular Francisco Campos. Em 1924. no período de 1930-34. com pouca atenção à universidade e as atividades de pesquisa) tiveram pouco espaço no Ministério da Educação.Na Primeira República (1889-1930). os positivistas defendiam os cursos laicos de orientação técnica profissionalizante. descontentes com as medidas adotadas no Ministério. ainda elitista e mais devotada ao ensino. foi criada a Associação Brasileira de Educação (ABE). A Igreja Católica. (voltado muito mais para a formação de professores do ensino secundário. privada do monopólio da educação (nas mãos dos jesuítas durante boa parte do período colonial).

introduziu em seus currículos o ensino de cultura religiosa e tornou-se referência para a criação de outras universidades católicas no país. surge a primeira universidade católica do Brasil. em sua maioria da Europa. humanistas e personalistas. Esta temia a influência negativa do liberalismo norte-americano. individualista e protestante. que contou com professores pesquisadores estrangeiros. considerado uma verdadeira ameaça aos valores católicos. A Universidade de São Paulo representou um divisor de águas no sistema de educação superior. São Paulo formulou um projeto político voltado para a criação de uma universidade de alto padrão acadêmico-cientifico. que ampliaram as demandas da educação e o aumento das matrículas. objetivando reagir diante da pouca atenção do governo central à produção científica que deveria realizar-se no interior das universidades.educacional que estava sendo instituído. permeadas por decretos legais. típicos da cultura brasileira e defendidos pela Igreja. 9 universidades religiosas. correspondendo à proposta dos fundadores. Ciências e Letras. com o crescimento urbano-industrial. Em 1934. Data dessa época a participação do Estado de São Paulo na expansão do ensino superior. Liderado por Fernando de Azevedo e incentivado pelo jornal O Estado de São Paulo. no primeiro congresso católico de educação. houve aumento de emprego tanto nos setores públicos como nos privados. Nesse momento. a igreja manifestou seu interesse na criação de uma universidade subordinada à hierarquia eclesiástica e independente do Estado. período no qual foram criadas 22 universidades federais. estadual e livre do controle direto do governo federal. Em 1946. Depois de um ano recebeu o título de Pontifícia. Ao contrário do Distrito Federal. criou sua própria universidade: pública. que equiparou os cursos médios técnicos aos . Paralelamente cresciam as pressões voltadas à expansão do ensino médio e da “lei da equivalência” de 1953. tido como materialista. reunindo faculdades tradicionais e independentes dando origem à Faculdade de Filosofia. o movimento para a criação da universidade ganhou apoio do governo estadual. A USP se tornou o maior centro de pesquisa do Brasil. sendo 8 católicas e 1 presbiteriana. e em 1934 o Estado mais rico do país. A trajetória da expansão do ensino superior obteve novo impulso durante a República Nova.

trouxe a novidade da representação estudantil nos colegiados. foi criada em 1961 a Universidade de Brasília que tinha como um dos principais objetivos o desenvolvimento de uma cultura e de uma tecnologia nacionais ligadas ao projeto desenvolvimentista. deixou ilesa a cátedra vitalícia e manteve a sua preocupação com o ensino sem focalizar o desenvolvimento da pesquisa. tanto de professores e alunos. Seguindo o modelo norte-americano. foram afastados muitos professores. é sancionada a Lei 4. H. Em 1964 com a tomada do poder pelos militares. depois. Contudo. Em 1961. emergiu o projeto da reforma universitária. Frente a esse cenário. acesso que era privilégio para os portadores de diploma dos cursos acadêmicos médios. sob a moldura da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1961. 2000). No início. com a intenção de coibir as atividades de caráter “subversivo”.. reforçada pelas disposições da Reforma Universitária de 1968. Na verdade acabou fortalecendo o modelo tradicional das instituições de ensino superior vigente. possibilitando os mesmo direitos de prestar vestibular para qualquer curso superior. criadas as Assessorias de Informação nas instituições federais de ensino superior. a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. (SAMPAIO. que buscou coadunar duas demandas: . 2000 apud SAMPAIO. organizou-se na forma de fundação e os departamentos substituíram as cátedras. 2011) Com a mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília. em 1968.024. a expansão logrou rapidamente estabelecer uma relação de complementaridade entre o setor público e o privado (Sampaio. Também fortaleceu a centralização do sistema de educação superior ao conceder autoridade ao Conselho Federal de Educação para autorizar e fiscalizar novos cursos de graduação e o poder de deliberar sobre o currículo mínimo de cada curso superior. as universidades passaram a ser objeto de interferência do governo federal.acadêmicos. após 14 anos de tramitação no Congresso Nacional. sem ter a precisão da respectiva proporção. que reconhecia e legitimava a ainda equilibrada dualidade do sistema de ensino superior e.

que deixou de ter caráter eliminatório e incorporou uma função classificatória. prevalecendo a sociedade civil tem-se o modelo anglo-saxônico.540/68) procurou responder a duas demandas contraditórias: de um lado. na periferia das grandes metrópoles e nas cidades médias do interior dos estados.O projeto de reforma universitária (Lei n. Esses elementos nunca aparecem de forma isolada. apud SAVIANI. ou seja. o sistema de créditos. a demanda dos jovens estudantes ou postulantes a estudantes universitários e dos professores que reivindicavam a abolição da cátedra. passando as respectivas chefias ao sistema rotativo e o exame vestibular. de outro lado. o vestibular classificatório e os cursos de curta duração. anglo-saxônico e prussiano. . A expansão das universidades é um dado histórico facilmente analisável. In: DE VIVO E GENOVESI.10) Com a pressão pelo aumento das vagas. A prevalência do Estado dá origem ao modelo napoleônico. 2010. após 1968 ocorre uma expansão do setor privado. e sobre a autonomia da comunidade acadêmica se funda o modelo prussiano (PIZZITOLA. (SAVIANI. que criou inúmeras universidades onde havia maior demanda.5. A partir disso. p. 2010. a autonomia universitária e mais verbas e mais vagas para desenvolver pesquisas e ampliar o raio de ação da universidade. a saber: napoleônico. p. 146. a sociedade civil e a autonomia da comunidade interna à instituição. O que por vezes se perde de vista são os modelos nos quais essas instituições são baseadas. 1986. tem-se um diferente modelo institucional.9) Esta lei também criava os departamentos. os departamentos substituíram as cátedras. Conforme prevaleça um ou outro. sendo 86% nas faculdades privadas. A origem desses modelos se assenta nos elementos básicos constitutivos das universidades contemporâneas: o Estado. p. Em 1980 mais da metade dos alunos do terceiro grau estava matriculada no ensino superior. a demanda dos grupos ligados ao regime instalado com o golpe militar que buscavam vincular mais fortemente o ensino superior aos mecanismos de mercado e ao projeto político de modernização em consonância com os requerimentos do capitalismo internacional.

e o outro era ligado ao setor privado. apreciava a expansão do setor privado em nível de graduação. havia um jogo de interesses entre dois grupos: um se opunha aos privatistas e lutava por verbas públicas direcionada exclusivamente para as instituições públicas. buscando um estudo público laico e gratuito a todos e em todos os níveis. as universidades públicas sofreram um processo de “limpeza ideológica” por meio das cassações de professores.p. Apresentada a construção histórica educacional do Brasil.” 2. outrora de exclusiva atuação do Estado para a iniciativa privada. que também almejava acesso às verbas públicas. dente as principais características neoliberais que afetam diretamente o ensino. acreditando que a distribuição de faculdades isoladas dificultaria a mobilização política dos estudantes. para atingir o objetivo de segurança e desenvolvimento. pois tem como principio a conquista individual em detrimento da ação coletiva e da melhora na distribuição da riqueza produzida socialmente. “É sobejamente conhecido o fato segundo o qual a educação superior no Brasil sofreu enorme expansão desde meados da década de 60 do século XX. a redemocratização política já colocavam as novas discussões em prol de uma nova dinâmica educacional. Conforme destaca Oyama (2009. destacaremos as seguintes: a) Transferência das mais diversas áreas (inclusive da educação). pode-se verificar uma tendência de crescimento do setor privado no ensino superior. Em contrapartida. Os países que adotam o neoliberalismo devem assumir seus pressupostos. 4).O governo militar. Neste ínterim. no caso da educação. assim como a diminuição da interferência do Estado nos negócios educacionais. O neoliberalismo compõe um sistema que se coloca como receita a ser adotada pelos países que buscam crescimento econômico e melhora na qualidade dos serviços públicos por meio da presença da iniciativa privada em várias áreas da sociedade. atinge também as relações sociais. Esse sistema não se restringe à economia e às políticas publicas. Iniciada em 1985. dado que o Estado é ineficiente e oneroso e b) Precarização do trabalho docente que envolve: . OS IMPACTOS DO NEOLIBERALISMO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA: CRESCIMENTO DAS IES PRIVADAS NA DÉCADA DE 1990 Nesta seção buscaremos compor um breve panorama sobre o impacto das medidas neoliberais no Brasil no campo da educação.

as quatro maiores IES são privadas . o item b assim como outros efeitos do neoliberalismo que implicam na precarização do trabalho docente serão analisados nas próximas seções. comprometendo o sistema educacional com as demandas do mercado de acordo com as tendências nacional e internacional. a partir do final da década de 80 alcançou números cada vez mais significativos o que corresponde à aplicação do governo brasileiro do receituário pregado pelos órgãos internacionais. por exemplo). pg. impondo a diversificação da oferta com oferecimento de facilidades para a inserção/ampliação do setor privado na operação de instituições educativas. nos concentraremos. medido segundo critérios do mercado de trabalho e a introdução da concorrência na educação. verdadeiros mecanismos responsáveis disseminadores das medidas neoliberais na educação: Compondo quase 90% das IES do Brasil. Os dados abaixo mostram como o crescimento das IES privadas. O aumento na participação do setor privado na oferta do ensino superior no Brasil (processo que. simplificação do trabalho e desvalorização da titulação e da experiência dos professores. com a definição de políticas baseadas no critério econômico de “custo-benefício” para o setor público da educação. 2012. estatal) ampliação das atividades privadas na rede estatal em seus vários níveis. Nesta seção nos ocuparemos principalmente do item a. com destaque para o peso das proposições elaboradas pelo Banco Mundial desde a década de 80.8) Embora seja correto afirmar (conforme veremos adiante) que o neoliberalismo alcançou todas as modalidades do ensino a partir da década de 1990.baixos salários. os programas federais passaram a objetivar a diminuição do gasto público com educação. conforme vimos. devido ao recorte da presente pesquisa. inclusive com a transferência de propriedade estatal para privada. as instituições privadas triplicaram seu número entre 1985 e 1996. No Brasil. redução o poder de resistência dos setores contrários ao eixo das reformas educacionais (sindicatos e movimentos por educação publica. sobretudo na influencia desse sistema no ensino superior privado fazendo apenas referencias pontuais à educação superior como um todo e às outras modalidades do ensino (fundamental e médio. incentivado principalmente por órgãos internacionais como Banco Mundial: De forma efetiva. (Goulart. vem ocorrendo no país desde a Proclamação da Republica) teve novo impulso a partir da década de 1990.

A L. durante a ditadura as faculdades privadas deveriam atender ao projeto do governo para a educação: deveriam formar profissionais e não oferecer qualquer tipo de educação critica. mas sempre sujeitas ao controle centralizador da União. João VI todos eram mantidos com recursos públicos. algo que atendia ao projeto de educação tecnicista do governo. 79% dos alunos estão matriculados em IES públicas e. o que classifica este país como um caso desviante diante da perspectiva abordada por Nunes et al (2005) já que. dentre os países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE). o que caracterizou esse período de expansão foi a ideia de que as faculdades particulares teriam papel suplementar no crescimento do ensino.D. retomando Saviani (2010) dos cursos criados e mantidos por D. o setor público responde por 64.B de 1961 manteve a tendência do controle estatal na educação ao conceder autoridade ao Conselho Federal de Educação para autorizar e fiscalizar novos cursos de graduação e o poder de deliberar sobre o currículo mínimo de cada curso superior.1 – MUDANÇAS NA LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL IMPLEMENTADAS NOS GOVERNOS DO PSDB E DO PT: A CONSOLIDAÇÃO DO PROTAGONISMO DAS IES PRIVADAS Como vimos no inicio do presente trabalho. contribuindo sem dúvida com a expansão no número de matriculas.2% das matrículas no ensino superior. . A tabela abaixo ilustra bem o cenário de matrículas e abrangência das IES públicas e privadas. nos 14 países tomados como parceiros desta organização.. as medidas do governo brasileiro voltadas para o aumento da participação do setor privado no ensino superior não são novas. No entanto. ganharam força com a Republica e continuaram a receber incentivos durante o Estado Novo e com o Golpe de 1964. 2.

para a diminuição do papel do Estado na educação que passa cada vez mais a privilegiar o empresariado do ramo educacional e enxergar nesse processo a solução para a “democratização do ensino”.264. 2. de junho de 1997. Oyama (2008).Mencionamos esses casos para demonstrar que durante certo tempo. diminuir o papel da União no financiamento da educação além de flexibilizar as leis trabalhistas que encareciam o trabalho docente e impediam a criação de novas vagas no setor privado. e foi implantado nacionalmente em 1º de janeiro de 1998 (Leher. .2: A POLÍTICA EDUCACIONAL NO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Dentre as inúmeras políticas adotadas durante o governo F. Nessa seção buscaremos apoio principalmente nas obras dos seguintes autores: Bosi (2008). 5). de setembro de 1996. o Governo buscou manter as rédeas dos rumos da educação em suas próprias mãos. 9.H.a Lei de Diretrizes e Bases de 1996. Em consonância com o projeto neoliberal. 14.C que aumentaram a participação das IES privadas na educação brasileira e acarretaram precarização do trabalho docente destacaremos as seguintes: . Silva (2009). Era preciso sobretudo manter o processo de privatização da educação. e regulamentado pela Lei nº. o desmonte do protagonismo do Estado na educação só seria possível caso houvesse mudanças na legislação. e pelo Decreto nº.424. de 24 de dezembro do mesmo ano.Instituição do FUNDEF (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) 2 .o Decreto 2. Leher (2010). 2010. 2 O FUNDEF foi instituído pela Emenda Constitucional nº. pg. no entanto com o neoliberalismo vemos de forma explicita a passagem da expansão das faculdades privadas como parte de um projeto do Estado. Sampaio (2011) e Goulart (2012) a fim de analisarmos como as mudanças na legislação conduzidas no Governo Fernando Henrique Cardoso e mantidas (até aprofundadas) nos Governos Lula e Dilma contribuíram para a implementação do receiturário neoliberal no Brasil e quais as implicações desse processo na precarização do trabalho docente.306 de 19 de agosto de 1997 . 2.

o que implicou em uma perda superior a R$ 40 bilhões no período de seu governo. Contudo. segundo o mesmo autor o FUNDEF foi responsável pela retirada do protagonismo da União no financiamento da educação básica: “ Para não repassar recursos aos estados a União não hesitou em burlar a Lei do FUNDEF.H. 17 [1997].C. era reduzir as disparidades regionais. dizia-se na época. . corrigindo o valor do custo-aluno-ano conforme um índice inferior ao previsto na referida Lei.. auxiliando o ensino dos municípios mais pobres. o financiamento seria dividido pela União e pelos municípios. Acrescente-se a isso a Desvinculação de Receitas da União. para autores como Leher (2010) os valores represados foram utilizados para pagamento da dívida publica.O FUNDEF tinha como principal objetivo o financiamento da educação básica no país. a desvinculação acarretou imensos prejuízos ao financiamento da educação ao desobrigar 20% da receita de impostos e contribuições. fomentou a municipalização e desamparou a educação infantil e o ensino médio O FUNDEF está de acordo com as medidas neoliberais que sustentam a transformação do papel da União na educação.[. e 27 [2000]).8 bilhões no período 1998-2002. aprovada em 1994. reduzida a participação do Estado estava aberta a passagem para o crescimento das IES privadas. que deve passar de principal financiadora para regulamentadora e fiscalizadora das atividades de ensino. que ampliou o saqueio governamental das verbas educacionais. a intenção. além disso. A não correção do valor do FUNDEF provocou um calote da União de R$ 12. reduzindo a obrigação constitucional do governo federal de aplicação em manutenção e desenvolvimento de 18% para 14..] A municipalização levada a cabo pela implantação do Fundef que como mecanismo de centralização/redistribuição de recursos. Criada sob o nome de Fundo Social de Emergência esta medida foi sendo prorrogada sucessivamente (pelas Emendas Constitucionais 10 [1996]. sendo que a União seria a responsável pela maior fatia do financiamento. a parte que cabia à União acabou contingenciada durante boa parte do governo F..4%.

aos primeiros não é incumbida a tarefa de desenvolver pesquisas. Aos segundos. por sua vez. mais especificamente no setor privado. de produzir novos conhecimentos. especialmente no que diz respeito à criação e extinção de cursos na sede e ao remanejamento do número de vagas oferecidas. como foi levantado em 2008. Esta comparação e distinção é essencial para visualizar o papel do mercado e sua aplicação na educação. como sinaliza Sampaio (2011): O primeiro sinal de que transformações estavam ocorrendo na educação superior. Para nossos propósitos a principal distinção a ser destacada é a que separa centros universitários de universidades. Esta condição lhes direciona para a democratização e abertura desenfreada de novas vagas e cursos.30) Como podemos confirmar na tabela abaixo. tanto financeiramente quanto pedagogicamente. ampliar o número de centros universitários. foi a corrida das instituições privadas para se transformarem em universidades. .. A grosso modo. é muito mais vantajoso.2011. as alterações de universidade para centro universitário ou faculdade .logo. Ao disciplinar o princípio de autonomia para as universidades. p. não é uma mera questão de nomenclatura. Para o capital privado.O DECRETO nº 2306 O Decreto nº 2306 de 1997 teve papel significativo no aumento das IES privadas. é fundamental a produção científica. centros universitários e faculdades determinando as competências de cada um. Além disso. por meio dessa medida houve a classificação e diferenciação das instituições de ensino superior entre universidades. a constituição de 1988 criou um instrumento importante para o setor privado: a possibilidade de liberar-se do controle burocrático do antigo Conselho Federal de Educação (CFE).(SAMPAIO.

pois representava recebimento garantido das mensalidades por meio de dinheiro publico. . para muitos autores.]” O projeto liberal de transformação da educação de direito à mercadoria devido a passagem do ensino das mãos do Estado para a iniciativa privada não estaria completo sem a implementação da L.5 milhões de reais em 2007. Porém o subsidio dado pelo Governo é alto uma vez que o Estado assume parte da divida dos estudantes inadimplentes. em 2010. O FIES teve uma execução de 685. 14) sustenta que :“Em 2007.O FIES 3 O Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior representou a participação direta de recursos públicos em instituições privadas. dos 467 mil contratos ativos. (abaixo da SELIC). diminuição da taxas de juros que passou de 6. a carência para o pagamento da divida pelo estudante é de 18 meses (1 ano e meio) após a conclusão do curso. Leher (2010. o programa teve. o PROUNI (Programa Universidade para Todos) implementado no primeiro mandato do governo Lula. concebido como forma de democratização do ensino visava a entrada dos mais pobres no ensino superior. o governo banca esse custo. Como os membros das classes mais desprivilegiadas não podiam arcar com as mensalidades nas instituições privadas.5% para 3. .O decreto nº 2306 de 1997 representou forte mudança institucional a favor do crescimento das IES privadas..B (Lei de Diretrizes de Bases de 1996).. Criado em 1999 durante o governo de FHC e ampliado no Governo petista de Lula. passados 18 meses da conclusão do curso. totalizando R$ 498.D..4% a.a. 55 mil contratos estavam em atraso.[. O programa foi bem acolhido pelas faculdades privadas. em troca. 3 O Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior é um programa voltado para o financiamento da graduação de alunos matriculados em instituições privadas. representa a continuidade das medidas neoliberais na educação que privilegiam o setor privado em detrimento da qualidade na educação e da valorização do trabalho docente. pg.5 milhões. em seções posteriores veremos como. outra medida que expandiu o setor privado com o agravante de envolver recursos públicos no financiamento de empresas privadas foi o FIES (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior) . cabe ao estudante restituir os cofres públicos pagando a divida a juros baixos.

como a Lei estabeleceu que não haveria uma única forma de contratação.B abriu espaço para formas de contratação cada vez mais flexíveis. tal constatação contraria as orientações da própria L.. FIGUNIMESP. A L.D.] nenhuma dessas medidas seria possível sem o alicerce para a implementação dessas políticas que se deu com a aprovação da L.394/96. e deve ser vista como medida liberal paralela ligada ao crescimento do setor privado na educação superior. abriu espaço para interpretações e regulamentações posteriores. permitindo sua caracterização como uma lei minimalista. 5 Repetimos aqui o grupo de faculdades que fizeram parte do estudo: UNG. FACIG.. de 20 de dezembro de 1996. ENIAC.D. ESPA. o sistema privado privilegiou o regime “horista” e de tempo parcial do docente o que permitiu a burguesia de serviços pagar salários mais baixos ao corpo docente. Segundo Goulart (2012): [.A L. que modelou o sistema nacional de maneira bastante flexível. capaz de abrir espaço legalmente para posteriores regulamentações que incentivassem os programas de reforma educativa Um dos grandes problemas da L..B – Lei nº 9.D.D.B é que ela é considerada uma lei minimalista. o salário pago pelo setor privado é muito baixo. isto é. PRO-FAC e ULBRA .B de 1996 4 Dado que a educação nas mãos dos empresários passa a ser vista como mercadoria é preciso sobretudo flexibilizar a legislação trabalhista uma vez que o barateamento da mão de obra docente é fundamental para a maximização das taxas de lucro. Forma explicita de precarização do trabalho docente.394.D. No gráfico 1 temos o salário médio pago ao professor universitário das principais faculdades particulares de Guarulhos 5 4 Lei nº 9.B que no artigo 67 atesta que a valorização do magistério passa pela obrigatoriedade dos sistemas de ensino assegurarem ao “magistério publico planos de carreira com progressão funcional segundo a titulação ou habilitação e o desempenho do professor”.

GRÁFICO 1 Obs.3 mil em média) e ferramenteiros (3.com.br/noticias/geral. Acesso em 25 de novembro de 2014.estadao.170529e. a permanência do docente na 6 Os dados referente ao ano de 2014 vão até o mês de setembro 7 Fonte: http://economia. o salário médio pago aos professores universitários nos últimos 10 anos 6 é muito baixo (R$ 1987. Rotatividade calculada em anos Embora 2013 tenha registrado alta elevação na média salarial (ganho de mais de 90% em relação ao ano anterior. entretanto a baixa remuneração é um fato. . interrompendo a tendência de queda verificada em 2011 e 2012).entre-os-graduadosprofessor-e-o-profissional-mais-mal-pago. Os professores estão entre os profissionais com diploma de ensino superior que recebem os mais baixos rendimentos quando comparados com outros trabalhadores que investiram menos na formação como agentes penitenciários (3.00). já se tornou lugar comum falar sobre os baixos salários do magistério.4 mil) 7 Os baixos salários levam os professores a trabalharem em mais de uma instituição o que contribui ainda mais com a precarização.

4%) são contratados como horistas e trabalham em regime de tempo parcial em contraste com os docentes das IES publicas nas quais mais de 80% do corpo docente trabalha em regime de dedicação exclusiva. Já no setor público. sinal inequívoco de precarização. cinco anos ou menos de atuação na IE. No gráfico 1 a média de rotatividade do professor é de 5 anos. Associado com os baixos salários o docente não encontra alternativas em termos de salário digno a não ser trabalhando em várias instituições.5% dos doutores. contra os 22. esse percentual é de 35. Com mais de 10 anos de atividade. os dados de 2005 pouco se modificaram no decorrer dos anos 8. no setor privado. É altamente significativo saber que em 2005 6 a cada 10 professores das IES privadas trabalhavam em quatro instituições.D.7%. ou “senioridade”. no setor público. 42. o trabalho por excelência desenvolvido nas instituições particulares é (senão exclusivamente) o ensino.7% dos doutores do corpo docente. Até mesmo em relação aos especialistas. Com até 5 anos de atuação na mesma IE. A flexibilidade da L. o setor privado dispõe de um corpo docente com pouco tempo de atividade na instituição. mesmo concentrando 8 O ultimo Censo da Educação Superior realizado em 2013 pelo MEC não traz mudanças significativas nesse cenário. 58.4% exercem sua atividade no setor privado.5%). enquanto apenas 14. conforme já ressaltamos. trabalham há mais de 10 anos na instituição. abriu espaço para diversas formas de contratação do trabalho docente. Segundo Silva (2006) os dados do Cadastro Nacional de Docentes da Educação Superior de 2005 permitem afirmar que: Quanto à antigüidade. majoritariamente (70%). aproximadamente 160. nas universidades publicas mais da metade dos doutores permanecem mais de 10 anos na instituição .B. os mestres no setor privado têm. Da mesma forma. .mesma faculdade não é incentivada.063 professores das IES privadas. ao passo que. o principal regime de trabalho no setor privado consiste na contratação do professor “horista” cuja jornada se dá em tempo parcial. esse percentual chega a mais da metade dos doutores (56.7% do setor privado.5% dos mestres atuam nas instituições públicas. Quais os efeitos desses dados sobre o cotidiano do trabalho docente? É sabido que as IES particulares não valorizam a pesquisa nem a extensão.000 (75. do total de 212. ensino voltado para a empregabilidade dos alunos e não para a elevação do corpo discente a formas superiores de cultura e conhecimento cientifico. informação confirmada por dados oficiais. atuam no setor público 35.

é que o Governo Lula e 9 Realidade. à educação estritamente conformista e instrumentalizadora de uma inserção social sem autonomia. A prioridade ao ensino não significa apenas a concentração das funções docentes voltadas para a formação exclusivamente profissional dos alunos. pela não realização de concursos para as instituições públicas. dado a falta de tempo do docente obrigado a lecionar em várias faculdades. quem conduz a semiformação?. 2.3 – A CONTINUIDADE DAS MEDIDAS NEOLIBERAIS DURANTE OS GOVERNOS LULA E DILMA Embora a chegada do PT ao poder tenha acalentado os sonhos daqueles que combatiam a precarização do ensino intensificada nos governos anteriores. para muitos docentes das universidades públicas em função da degradação de seus salários. . recorrendo a semiformação.a função docente no ensino este é necessariamente prejudicado. também. Especialmente nesse último caso. a simplificação da atividade docente está em consonância com as exigências do capital pois o trabalho simples permite ao capitalista pagar menos aos trabalhadores. autores como Maar (2002) afirmam que a educação privada contribui para a reprodução do capitalismo uma vez que tem como função controlar socialmente a perenização da sociedade. Refém desse processo. a realidade de muitas disciplinas. Além da precarização do trabalho docente as políticas neoliberais conduzem ao declínio da qualidade de ensino. Segundo Leda (2006): O professor logicamente. O fato. propicia uma rotina de deslocamentos intensos para darem conta dessa jornada. como o valor hora-aula pago a esses trabalhadores costuma ser baixo. muitas vezes em mais de uma instituição. sustentado pela maioria dos autores citados no presente estudo. O ensino privado tem empregado muita gente nesse país. especialmente. O que denota que muitos trabalhadores precisam garantir uma forma de subsistência e a docência no ensino privado coloca-se como “alternativa” para a complementação salarial 9 (muitas vezes denominada de “bico”) ou mesmo única fonte de renda.

ainda mais. Mas as matrículas subsidiadas pelo FIES cresceram em ritmo ainda maior no governo Lula da Silva. Por meio de verdadeiras cambalhotas na argumentação.096/05. 2010. Veremos que esse programa acentuou o processo de financiamento de empresas privadas por meio de recursos públicos. idealizado como verdadeiro promotor da democratização do ensino.Dilma mantiveram as medidas neoliberais no campo da educação empreendidas nos governos predecessores. a democratização dos direitos sociais se harmoniza com a mercantilização da educação aprofundada em níveis inéditos na educação brasileira pelos subsídios do FIES e pelas isenções tributárias do Programa Universidade para Todos (ProUni) enraizando. os intelectuais-funcionários agora reivindicam a ampliação privado-mercantil como “um avanço democrático”. Nesse sentido o programa guarda muitas semelhanças com o FIES: O governo Cardoso foi asperamente criticado pelo PT por ter ampliado as matrículas na educação superior privada a partir da concessão de empréstimos subsidiados aos estudantes pelo Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES).a Lei de Inovação Tecnológica A primeira medida analisada será o PROUNI 10 . pg.O PROUNI (Programa Universidade para Todos) . o programa visava o acesso ao ensino superior das camadas mais pobres da sociedade por meio da compra de vagas nas instituições particulares em troca de isenções fiscais. . o vasto sistema privado de educação na sociedade brasileira. Nessa seção abordaremos principalmente duas medidas que representam essa continuidade: . 2-3) 10 Lula criou o PROUNI por meio da edição da Medida Provisória (MP) nº 213 em 2004 no ano seguinte o programa passou a ser a lei nº 11. Apesar de numericamente atender ao objetivo de expansão do ensino superior.” (LEHER. Estranhamente.

No período 2001-2004.3% tem acesso à bolsa do ProUni.3% e 1. Cabe assinalar. ainda. Entre 2005 e 2007. a taxa de frequência líquida à educação superior evoluiu de 9% para 11. em 2001. justificativa do programa. Conforme salienta Leher (2010): As isenções fiscais são adquiridas pela IES independentemente do número de bolsas ofertadas.493/2008-4). na verdade. caiu para 10% na Medida Provisória e quando o ProUni torna-se lei. já tão beneficiados por meio da expansão de vagas no setor privado 11. 2010. na faixa etária de 18 a 24 anos.2% para 13. não obstante as inúmeras benesses do governo brasileiro aos empresários do ramo da educação. as bolsas seriam de 25% das vagas.0%).5%.2% (+ 2. segundo dados da população nessa faixa etária na Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad/IBGE) 2006 (Relatório TCU TC013. os bolsistas do ProUni. a taxa variou de 11.8% (+2. De fato. não tardou para o governo criar o PROUNI o programa atenderia não só aos interesses da burguesia de serviços como também daria a chance para os menos favorecidos cursarem uma Universidade porém o que as IES privadas chamavam de vagas ociosas na verdade são vagas a mais oferecidas (e já previstas) durante os processos seletivos. ocuparam respectivamente 1. as IES privadas tem novos ganhos com a redução para 4.A tão propalada evolução do numero de matriculas. 2012). além disso o programa onera demais os cofres públicos com pouco retorno no que diz respeito ao número de vagas e qualidade de ensino. pg. as IES privadas alegavam que “sofriam” com a sobra de vagas nas suas instituições.8%). As providencias relacionadas a contratação de professores só são tomadas após a confirmação das matriculas. 14) É interessante compreender o contexto no qual o PROUNI foi implementado. que 27.5% das bolsas do ProUni são destinadas a estudantes que já estavam matriculados em alguma instituição de ensino superior privada (LEHER. No projeto inicial. Da população de 18 a 24 anos menos de 0. no período de1996 a 2001 às IES privadas assistiram ao crescimento de 248. estas representam 87% do total das instituições de ensino superior do Brasil .25% de bolsas 11 Dados do Censo Nacional de Educação Superior de 2013 apontam para a continuidade do protagonismo das IES privadas. não se efetivou: Das matrículas realizadas no ensino superior em 2005 e 2006.2% no numero de vagas oferecidas e não ocupada (Goulart.

Além de financiar instituições de qualidade discutível os altos ganhos das IES privadas não representam melhora no que tange a melhoria dos ganhos do professorado (o que contribui para a baixa qualidade dos cursos oferecidos).043. 20.66 respectivamente A autora também destaca que ainda conforme dos dados do TCU. sendo que 17.00.7 tem nota 4 ou 5. embora a média do valor das mensalidades estivesse em R$ 435. R$ 504.39 e R$ 596.integrais.4% ficaram sem conceito.9% possuem nota menor que 3 e apenas 11.00 nas instituições sem fins lucrativos beneficentes.65% nunca foram avaliados pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) e entre os que foram. dos 15. Fica evidente que o mais lucrativo é diminuir o número de bolsas quanto for possível e a diminuição do número de vagas efetivamente atendidas pelo ProUni de 77% em 2005 para 58% em 2008. demonstra que este objetivo tem sido atendido! Com base em relatório realizado pelo TCU. de R$ 916.00 nas instituições sem fins lucrativos não-beneficentes e R$ 1. Segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) o custo mensal de cada bolsa em 2006 era de R$ 495.00 nas instituições com fins lucrativos.876 cursos oferecidos pelo PROUNI 34. GRÁFICO 2 . em 2006 os gastos do setor publico são explicitados por Goulart (2012): Outro ponto que deve ser considerado é o custo para os cofres públicos desta compra de vagas privadas pelas verbas públicas.

A lei da inovação e seus complementos estabelecem parcerias público-privadas (PPP) “institui normas gerais para licitação e contratação de parceria público-privada no âmbito da administração pública”. aprofundando o Plano Diretor da Reforma do Estado de Cardoso. . de 30 de dezembro de 2004.079. . Esta lei foi insistentemente reivindicada pelo FMI. 12 .Obs: Todas as faculdades contempladas pela pesquisa aderem (ou já aderiram) pelo menos ou ao PROUNI ou ao FIES No gráfico é possível verificar que mesmo participando de programas educacionais que asseguram certa quantidade de matriculas (Prouni e Fies) a realidade para o corpo docente continua precária com destaque para as instituições com pior índice de permanência e salário: (Facig/ Cesug e Grupo Torriceli / Anhanguera.A LEI DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA12 Dissemos na seção dedicada as influencias do neoliberalismo na educação que este não se resume a medidas econômicas e políticas. mas que também pode ser visto como ideologia que prega o individualismo em detrimento do coletivo. respectivamente). Lei no 11.

por meio de isenções tributárias (como da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido).973. de dezembro de 2004. objetivando a aquisição de serviços.Dentre as medidas legislativas que possuem esse caráter ideológico destacamos a Lei de Inovação Tecnológica. assessoria e projetos dirigidos aos seus fins mercantis. através da qual. faculta aos docentes o recebimento de incentivos financeiros ao desenvolverem projetos que impliquem desenvolvimento tecnológico em suas parcerias com empresas. 8-9) Mais do que uma mudança institucional que empreende sutilmente a privatização nas insituições publicas. especialmente no ensino superior publico. entre outros mecanismos. assim como autoriza o afastamento do docente de suas atividades acadêmicas para se dedicarem às suas inovações. via pesquisa cientifica. o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial. Com a “Lei do Bem” as empresas podem investir diretamente nas ICT com verbas públicas. venda de serviços consultorias. A Lei aumenta o individualismo e competição entre os docentes que buscam por meio do programa aumentarem seus parcos salários. como forma de acrescentar outras formas de renda ao seu salário e/ou melhorar as condições de trabalho. A precarização revela-se na perda da autonomia do docente frente seu objeto de pesquisa: Uma outra faceta dessa realidade de precarização é a perigosa difusão do espírito empreendedor entre docentes. pg. o que certamente lhe renderão outros 13 Primeiro mandato do Governo Lula . O governo atual 13 foi primoroso em legitimar esse mecanismo de complementação de renda através da Lei nº 10. Por parte do governo a Lei prevê a aplicação de fundos federais nas Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT) em projetos de “interesse comum” com as empresas para acelerar a incorporação de tecnologias. A lei da inovação e seus complementos estabelecem parcerias público-privadas (PPP) na produção de conhecimento e nas atividades relacionadas com a aplicação do conhecimento em contextos produtivos. As empresas podem ir às compras nos laboratórios das instituições públicas! Não é demais registrar que os investimentos da Lei de Inovação são operacionalizados por um órgão regulador. cujo conselho deliberativo é compartilhado pelo governo e pelos empresários (LEHER. denominada Lei de Inovação Tecnológica. dentre outros aspectos. a Lei de Inovação Tecnológica representa a verdadeira imersão da ideologia liberal nas universidades mantidas pelo Estado.

.8 milhões. apresentado na ANPED (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação) em 2009 15 A primeira instituição a negociar na bolsa de valores foi a Anhanguera Educacional. Para tanto. A “MUNDIALIZAÇÃO” DA EDUCAÇÃO. redução de custos. (Silva. . abertura de capital registrada em 23 de julho de 2007. no interior de São Paulo. do Rio de Janeiro. detentora do Grupo Pitágoras. No sistema capitalista as empresas do ramo educacional que adotarem medidas mais “arrojadas” como a compra de faculdades menores. utilizar-se-á como base principalmente as obras de OYAMA (2008) e SILVA (2009). o negócio permitiu a capitalização de R$ 478. venda de métodos de ensino padronizados. presente no artigo intitulado Mutações do trabalho docente no ensino superior..foram implementadas com bastante vigor no Brasil a partir dos anos 90 e mantidas nos governos Lula e Dilma.2 milhões (OYAMA. bem como os impactos dessa tendência no trabalho docente. no Brasil. 2006). fundada em 1994. Embora não avançaremos mais na questão da incursão do neoliberalismo nas instituições publicas não há como deixar de espantar-se com a inserção dos dogmas do mercado no espaço publico e como essa ideologia culmina na precarização do trabalho docente.ganhos. ganhou força nos primeiros anos da década de 2000). Abriu o capital em 30 de julho de 2007 e capitalizou R$ 268. 3. seguida pela companhia Koton educacional. o qual lentamente vê sua autonomia intelectual esvair-se diante dos ditames do mercado. O termo mundialização do ensino 14 refere-se ao processo de formação de grandes conglomerados educacionais. abertura da empresa ao mercado de capitais (momento no qual as IES privadas podem receber aportes de acionistas do mundo todo) 15 . etc. Uma vez que a mundialização atende e amplia o 14 Atribuído à Maria Emilia Pereira da Silva. Esse processo está em consonância com as medidas neoliberais as quais -como vimos. NOVO PATAMAR DO ENSINO PRIVADO? Nessa derradeira seção destacaremos o que parece ser um novo estágio no processo de expansão do setor privado: a chamada “mundialização” do ensino (processo que. de Minas Gerais. É o pragmatismo do mercado invadindo o espaço publico (grifo nosso). A terceira posição é ocupada pela Universidade Estácio de Sá. tenderão a ter mais sucesso comercial. que visualizam a educação como uma mercadoria. cuja abertura do capital ocorreu em 12 de março de 2007. 2008).

isso sem falar na expansão da educação à distância) como na mercadoria-educação (na qual os slogans utilizados pelas IES privadas prometem “empregabilidade” são utilizados constantemente) . ou um insumo necessário à produção de outras mercadorias.com/economia/mercados/noticia/2014/07/fusao-da-anhanguera-e-kroton-cria-17-maior-empresa-da-bovespa. os empresários da educação enriquecem com o apoio dos financiamentos públicos. O negócio chegou a ser questionado pelo CADE (Conselho Administrativo de Defesa Economica) pois havia risco de monopólio no setor.abril. a nova companhia passou a ser 17ª maior empresa da Bovespa com valor de mercado de R$ 24 bilhões de reais e responsável pela formação de quase 1 milhão de alunos. o objetivo é o mesmo: maximização das taxas de lucro. habilidades. p. Fonte: http://g1. b) na condição de conhecimentos. venda de material didático. no entanto. Tais companhias buscam criar verdadeiros monopólios 17 como forma de defesa dos seus interesses comerciais: 16 Dados do ENADE (índice que vai de 1 a 5 e mede a qualidade de ensino nas instituições do ensino superior) referente ao periodo de 2008 a 2012 apontam que do total de 568 instituições avaliadas. 2) sustenta que há duas formas básicas pelas quais a burguesia concebe a educação: a) como um serviço que pode ser vendido e comprado no mercado educacional. Com relação à mercantilização. OYAMA (2008. No primeiro caso.br/carreira/noticias/as-instituicoes-de-ensinosuperior-que-bombaram-no-mec. Ou seja. em detrimento da educação estatal. teríamos a educaçãomercadoria e no segundo caso. a fusão foi aprovada (com restrições) em 2014. 531 IES privadas (cerca de 93% do total) receberam notas de 1 a 2. A educação como negócio relega a segundo plano questões relacionadas à qualidade do ensino16. O avanço desse tipo de negócio no Brasil representa a consolidação da opção do governo brasileiro pelo protagonismo das IES privadas na oferta do ensino superior no país. técnicas.com.processo de mercantilização da educação. privilegiando apenas os proprietários dessas empresas educacionais.html . consideradas insuficientes pelo MEC. a mercadoria-educação A principal questão é que tanto na abordagem da educação-mercadoria (marcada pela expansão dos negócios dos conglomerados educacionais como assessoria pedagógica. caracterizado pela exploração e expropriação da riqueza construída socialmente. o neoliberalismo se fortalece.globo. como no caso do PROUNI. Fonte: http://exame. 17 Hoje o maior conglomerado educacional do Brasil originou-se da fusão dos grupos Kroton e Ananguera educacional.

Contudo. apenas algumas instituições (5%) concentravam quase a metade do número de matrículas do ensino superior privado e de outro lado. bem como a conquista da maior fatia do mercado educacional. 8). entre outras medidas promoveram o aumento da taxa de lucros dessas empresas e com isso a possibilidade de redução das mensalidades . as quais. administração profissional. tampouco geraram ganhos para os docentes do ensino superior (em termos de salário e condições de trabalho). estão “indo às compras (OYAMA. 50% das outras instituições absorviam somente 5% das matrículas. GRÁFICO 3 . enormemente capitalizadas. o fato é que tais ações não se converteram em ensino de qualidade. criação de filiais.Em 2002. Supondo-se que esse quadro não tenha se alterado significativamente. 2008. fusões. Os pressupostos decorrentes da mundialização do ensino como gestão empresarial. compra de faculdades menores. é evidente que na ponta do setor encontram-se as instituições que atuam no mercado de capitais. pg. capitalização por meio de ações na bolsa.

Os dados mostram claramente que há insatisfação dos professores do ensino superior da rede privada com os salários e as condições de trabalho oferecidas. No ano de 2011. Em 2005 houve um acréscimo de mais de 50% no número de pedidos de dispensa em relação a 2004 (atingindo o ápice em 2009 com 77 pedidos de dispensa). que a educação mercantilista na forma da mundialização do ensino parece não trazer benefícios para a qualidade e condição de trabalho dos docentes das IES privadas. podemos observar que houve uma tendência de alta no número de pedidos de demissão. Em 2011. pois essa instituição é emblemática no que diz respeito ao fenômeno da mundialização do ensino no município de Guarulhos. 1 a cada 3 professores resolveram pedir as contas. Provavelmente.A partir do início dos apontamentos. 182 professores foram demitidos. Nessa seção sustentamos. desse numero a faculdade Torricelli foi responsável por 131 desligamentos (quase 72% do total). Os pedidos de demissão (458) correspondem a aproximadamente 30% dos desligamentos verificados no periodo.Não nos parece que foi por acaso que o grupo Torriceli tenha sido o campeão de demissões do ano de 2011. Destacamos o fato de que essa faculdade possui cerca de 6. o número de professores demitidos foi quase o dobro da marca observada no ano passado. com base no período analisado de 2011. a faculdade já estava “adaptando-se” ao choque de gestão e reengenharia financeira (que quase sempre implica em corte de gastos com demissões em massa) promovido pela sua futura proprietária. ou seja. número bem inferior a maior universidade de Guarulhos (UNG) que conta com 14. o número de demissões superou as solicitações em pouco mais de 20% (tendência que aparece também nos anos finais do levantamento). Resolvemos isolar o caso Torriceli. o grupo Torriceli foi vendido para a gigante Anhanguera Educacional por cifras milionárias. Nesse ano. Em 2008 temos quase uma intersecção no número de demitidos e dispensados (os desligamentos por demissão superam os pedidos em 8 casos).000 alunos matriculados.400 alunos. daí em diante manteve-se a tendência de demissões e pedidos de .

Com relação ao numero de desligamentos apontados e a precarização do trabalho docente sofrido pelos professores do grupo anhanguera confira denuncia no site do Sinpro – Guarulhos: http://www. implicando em baixas taxas de sindicalização.pdf 19 No ano de 2012. Entidades de Classe. o faturamento do grupo Anhanguera Educacional em 2010 alcançou a marca de R$ 1. os professores reivindicavam reestruturação da carreira. muitos desempenham outras atividades. A proposta do governo rechaçada pela maioria do corpo docente foi aceita pela PROIFES (Grupo que representa somente 11 instituições).br/anhanguera_2011. Movimentos Sociais e Sindicatos) é grande. a qual perdeu 38 docentes no periodo. O tamanho do desafio que se coloca a todos que lutam contra esse processo (Fóruns de Educação.folha. muito menos em peleguismo 19 .uol.Desta forma.sobretudo nas IES privadas. 18 A faculdade Torriceli.com. pois a situação dos docentes das IES privadas é muito heterogêneo. As Universidades e outros grupos que combatem o processo de transformação da educação em mercadoria devem continuar denunciando as medidas neoliberais adotadas pelo Estado e amplamente aceitas nas instituições de ensino superior. Fonte: http://www1. 58 das 59 Universidades Federais entraram em greve.5 bilhão.18 De 2012 até 2014 (término do levantamento) o grupo Torriceli – Anhanguera foi responsável pela maior parte dos desligamentos do período (124 de um total de 340). medidas que conduzem à precarização do trabalho docente e à piora crescente da qualidade da educação .sinproguarulhos. O número supera a UNG que perdeu 114 professores e é mais que o triplo da segunda maior instituição privada de Guarulhos (FIG-Unimesp) . eles não reconhecem sua identidade profissional no exercício da docência. 2012) . O que podemos deduzir do presente estudo é que a marcha frente à privatização e mercantilização do ensino continua em pleno vapor. valorização salarial e melhoria das condições de trabalho. o tamanho do problema não pode resultar em imobilidade.org.shtml. foi comprada por R$ 39 milhoes de reais. Porém.br/mercado/909022-grupo-anhanguera-compra-faculdade-deguarulhos-por-r-39-mi. (Goulart.dispensa.