Uma ponderação sobre o adoracionismo

de nossas igrejas
Isaltino Gomes Coelho Filho
Numa igreja em que pastoreei um rapaz, de bom nível acadêmico, comentou que “o
pastor não gosta de louvor”. Surpreendeu-me que o não tão rapaz, quase quarentão
dissesse isso. Segundo o Instituto Paulo Montenegro, apenas 26% dos brasileiros
conseguem ler e interpretar um texto. Então, 74% são como o eunuco: não entendem o
que lêem. Mas a pessoa tinha até pós-graduação.
Mas este rapaz-senhor é crente e os crentes têm muita facilidade de colocar na boca
alheia palavras que não foram ditas. Principalmente quando sem argumentos. Mas não
escrevo para criticar os 74%, nem a desonestidade de muitos crentes em sua
argumentação. Lembro Baudolino, de Umberto Eco: “(…) em minha viagem percebi
quanto os cristãos podem se esfolar uns aos outros por uma simples palavra”. Então,
leiam o que estou dizendo, sem torcer e sem colocar palavras em minha boca. Nem me
esfolem. Já o fui bastante e ainda não me recuperei de algumas esfoladas.
Eis o que digo: penso que o “adoracionismo” ou o “louvorismo” que grassa em nossas
igrejas é uma arma diabólica para deixar os crentes enfurnados, fazendo o que gostam,
cantando ingenuidades que não definem biblicamente quem é Deus, o que é igreja, qual
a missão dos crentes, ao invés de levá-los ao testemunho. Entendeu? Se não, por favor,
releia. Nem sempre sou muito claro, mas estou tentando.
A igreja é a única instituição do mundo que não existe para beneficiar seus membros, e
sim beneficiar os não membros. Mas a igreja evangélica brasileira vive mais
ensimesmada, olhando para si, fazendo o que lhe agrada, do que testemunhando. O
adoracionismo ou o louvorismo tem desviado a igreja de sua missão e levado-a a exibir
(por causa dos cânticos banais, sem conteúdo sério) a essência de sua mensagem de
maneira aguada. Muito do que cantamos é genérico, não tem a ver com a mensagem
cristã, não mostra a necessidade de arrependimento do não crente e de santificação do
crente. Arrependimento e santificação são pouco mencionados, e a ênfase é sempre
adorar, mostrado como cantar no culto, sob o comando de algumas pessoas. Aquele é o
momento do louvor. O resto do culto não importa.
A coisa está tão feia, que o jornal inglês The Guardian falou de um novo tipo de
traficantes, no Brasil: traficantes evangélicos. Isso mesmo. Se você faz parte dos 24%
que entendem um texto, entendeu este, mas ficou chocado, releia; é isso mesmo. Como
isto aconteceu? Como pode haver traficantes evangélicos? Porque não se caracterizou
em nossos cânticos e pregações o que é ser um evangélico. Não é cantar na igreja, mas
assumir o caráter de Cristo.
Então, entenda bem o que vou dizer: louvor ou adoração não é a razão da nossa
conversão. Em Efésios 1.12 (“Com o fim de sermos para o louvor da sua glória, nós, os
que antes havíamos esperado em Cristo”), “para o louvor da sua glória” não significa
cantar corinho no culto. No contexto da carta, é mais amplo e muito maior que isso.

penso em Amós. e não me deleito nas vossas assembléias solenes. líderes religiosos mais preocupados com sua situação financeira que com a situação espiritual do povo. Eu era um pastor ainda garoto. juntamente com as vossas ofertas de cereais. A leitura do seu livro mostra dominação econômica. Amós disse que o dia do Senhor não seria o triunfo de Israel sobre o mundo. Transformou adoração em festa. encostasse a mão à parede.18-24: “Ai de vós que desejais o dia do Senhor! Para que quereis vós este dia do Senhor? Ele é trevas e não luz. Em busca de triunfo (não escatológico. quando num retiro de pastores (o primeiro de que participei). presumiam. que fecha os olhos à injustiça e à roubalheira é a desgraça de um povo. ou como se. porém. Continua a atitude de trocar votos por tijolos. que abençoa o corrupto. No bolso da camisa do “servo de Deus” que foi a um retiro de pastores. que. que pensa em ganho. Havia grande ênfase no culto. a mentira. empresários exploradores. Queriam o dia do Senhor. Vi semelhanças incríveis entre o Israel do tempo do profeta e a igreja do meu tempo. Corra. Parece que o pano de fundo da opção política é o mesmo: “Quem me oferece melhores condições?”. entrando em casa. . que sacraliza o pecado. Uma igreja que perde sua característica espiritual e se torna apêndice político de pessoas está sob o juízo de Deus. mas o juízo de Deus sobre o povo. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos. no passado). destacava-se um maço de cigarros. Como o triunfalismo da igreja atual. um prefeito foi apresentado como “servo de Deus a quem devíamos honra”. o dia do Senhor trevas e não luz? não será completa escuridade. A situação social e espiritual do tempo de Amós era trágica. eu também vejo. vale tudo. E como se um homem fugisse de diante do leão. A religião acobertava tudo. como fazem os pastores líderes de denominações que apóiam candidatos de acordo com suas conveniências. É a partir daqui que sigo. Havia um anseio por triunfo. não me agradarei deles. Até apoiar a corrupção. Amós viu isso. porque perdeu sua razão de ser. e uma exaltação do status quo político e religioso. me debrucei em Amós. religião de fachada conluiada com o poder dominante. Mais tarde (naquele tempo corruptos não tinham a cabeça afagada) ele foi cassado por corrupção. e não em ser militante. e não de acordo com princípios. Agora trocam-se votos por espaço e poder. fechar os olhos a posições de políticos anticristãos. de 23 anos. e se encontrasse com ele o urso. e o mordesse uma cobra. sem nenhum resplendor? Aborreço. seria o domínio de Israel sobre as demais nações. Ainda que me ofereçais holocaustos. em ser triunfante. pois. Transcrevo Amós 5. Não será. e não em contrição. nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados. em 1972. Uma religião corrompida. sacralizando o poder político. a justiça como as águas.A idéia deste artigo me veio quando. mas que oferecem possibilidades de ganho. tudo regado com muito louvor. O povo dissociou a adoração a Deus do caráter do adorador. Muito inferior a ele. porque não ouvirei as melodias das tuas liras. mas não havia ênfase alguma em caráter. mas terreno). desprezo as vossas festas. e a retidão como o ribeiro perene”. Quando vejo os motivos que levam certos grupos a apoiarem Dilma ou Serra (como apoiaram outros.

Corra. fofoca. cantores e compositores: não transformem o culto em entretenimento. Tenho dificuldades com o louvor que não recorda que somos pecadores. porque não nos descortinam todo o drama da cruz. Pensamos como Israel: adoramos a Deus que. Para Deus. Mentira. proteção dos necessitados. o louvor é apenas barulho. E santidade não é opção. deve ser repensada. e não enfatiza a necessidade de vitória sobre a carne. Omitimos santidade. mas não santidade. Festa. falcatruas. que seremos julgados. porém. Sem ele. Vocês se colocarão sob juízo por desvirtuarem algo tão sagrado como o culto e por pensarem que Deus é um pascácio (para a moçada de hoje.21-24: “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos. a justiça como as águas. impacto na vida e desejo de servir. a justiça como as águas. porém. o maior culto é o existencial. Quer descrição melhor de nossas igrejas? Temos artistas. O estado espiritual da igreja (sou igreja desde os 15 anos. e a retidão como o ribeiro perene”. nos dá vitória.10). nunca vi um estado espiritual como o de hoje. desestabilização de líderes. com seus gritos e os sermõezinhos chamados de “ministração” (honestamente. calúnia.Cantamos vitória. A expressão “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos. nenhum pensante merece isto!). Deu para entender? Para nós. Falamos do triunfo sobre os ímpios. dizendo “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!”. Deus quer justiça social. Deus se indigna com isto. Santifiquem-se. mas faltam-nos santos. mas nos esquecemos que seremos julgados: “Porque é necessário que todos nós sejamos manifestos diante do tribunal de Cristo. Tenho dificuldades com o louvor triunfalista que fala de vitória constante. Mas culto produz o grito de Isaías: “Ai de mim!”. porque não ouvirei as melodias das tuas liras. porque não ouvirei as melodias das tuas liras” pode ser parafraseada: “Afasta de mim a barulhada dos teus corinhos. para que cada um receba o que fez por meio do corpo. mas nossos pecados o levam a indignar-se conosco. ódio. mas um padrão normal para todos os crentes. Antes de serem adoradores (que não é tão relevante . Graça não é cartão de crédito para despesas no mercado do mundo. grupos dominadores. mas não cantamos integridade. percam o estrelismo e o artistismo. e apenas nos apresentam momentos de entretenimento. mas não havia integridade. feito com a vida. relacionamentos decentes. mas pelo dirigente de louvor. Saímos da igreja com uma emoção provocada não pelo Espírito. cantar é o que de mais importante podemos fazer. e a retidão como o ribeiro perene”. tudo isso se alastrou. honestidade na vida. Entendam bem isto. mas de caráter santo. A salvação não é pretexto para pecado. segundo o que praticou. aprumem suas vidas. Não saímos batendo no peito. desonestidades. que Deus é um “mané”). Não consigo entender adoração que não produza santidade. subornado com cânticos. Repito o trecho de Amós 5. Sem isto. o culto vocal lhe irrita. Adoração que mostra o “Deus fada madrinha”. Era assim com Amós. Em quatro décadas como membro de igreja. o bem ou o mal” (2Co 5. Exatamente como no tempo de Amós. O culto era entretenimento. porque não ouvirei as melodias da tua bateria e das tuas guitarras”. que precisamos nos santificar. e a amo e sirvo) é deplorável. mas não mostra a santidade de Deus como aterradora. Deus quer santidade e não cânticos. Nosso grande problema não é falta de louvor. Nosso louvor não o muda. Havia muito louvor no tempo de Amós. sobre si mesmo. A ponto de haver traficantes evangélicos. E a seguir vem o que Deus esperava de Israel e espera de nós: “Corra.

tirando-o do entretenimento. quando apenas está pondo uma roupa nova em um movimento antigo. e não ato de exibicionismo manipulador e gratificador de emoções. Mas se você serve (deixemos o neopentecostalês de “ministra”) é servo da igreja. de volta. mas realmente ser servo dela. em que todas as igrejas fazem as mesmas coisas: um período em pé. DANIEL Posted: 17 Feb 2010 10:24 AM PST Isaltino Gomes Coelho Filho O colega Pr. Lembrem-se que é falsa a afirmação “Eu canto pra Deus. Os grupos de louvor são clones uns dos outros. tudo se copia”. de qualquer maneira.com/2009/11/uma-ponderacao-sobre-o-adoracionismo-denossas-igrejas/ O RELIGIOSISMO DO PR. amém?”. do que faz bem a uma faixa etária. sem santidade. e vejamos o culto como um pecúlio de toda a igreja e como algo que deve produzir em nós um impacto espiritual que nos leve a clamar por pureza de vida. com suas profecias. sem adornar. Não é implicância ou rabugice. Como no montanismo do passado. no passado. e não para os homens”. e muitas vezes saio frustrado. A artificialidade me deprime. não deve se impor a ela.isaltinogomes. Precisamos considerar esta questão com seriedade. chamávamos de “cantar corinho”. Você não quer a ditadura da naftalina. que é a reconciliação com um Deus santo. Deus se irrita com o barulho do louvor entretenimento. Prisca e Maximiliana alegaram ter revelações diretas do Espírito Santo e profetizaram com línguas extáticas. no hábito de terminar toda pergunta com “amém”). Muita gente acha que está inovando. Então. Então vá cantar no banheiro. http://www. Quero ser edificado.assim). Chacrinha disse que “na televisão nada se cria. mas essência. mas não consegui fugir-lhe). Ele usa o termo para designar a atividade religiosidade que se desvia do foco da verdadeira fé. Mudemos o foco atual de nossos cultos. Era isso que Deus queria: que o culto fosse transformador da vida. Ah. usei um neopentecostês. está aí. E prezo retidão. criando um movimento novo. amém? (Pronto. Sua mãe e sua avó sabem do que falo. sim. Uma de suas características era tirar o foco de autoridade da igreja e colocar em pessoas que eram receptáculos especiais de Deus. O “louvorismo” passou a ser o momento mais importante do culto. um shiboleth. quando Montano. Eu criara “adoracionismo” e “louvorismo” para designar o frenesi em nossas igrejas com o período do culto que. o atual montanismo neopentecostal vê um lugar . Eis minha ponderação. sejam servos. Dá-se o mesmo na teologia. Daniel Teixeira de Azevedo é o autor do neologismo “religiosismo” (desculpem-me a aliteração. “cueiro” não é palavrão. ouvindo uma oração e um sermão antes de cada cântico. muita gente se irrita com o barulho. O velho montanismo do segundo século. permita-me usar a minha: “Não quero a ditadura do cueiro. porque tem ouvidos sadios. Não quero ser manipulado nem vou à igreja para ver estrelas ou receber entretenimento. Aliás.

colocando-as em pé de igualdade com a Revelação. Realizei uma série de pregações evangelísticas e.especial para as revelações de sua legião de homens e mulheres especiais. Tenho sérias dúvidas se a finalidade da igreja é atrair pessoas e depois entretê-las dando-lhes o que elas querem. Muitas pregações que ouvi soam mais a Lair Ribeiro que a Jesus. O religiosismo tem nos brindado com situações atípicas. Nem a pregação. O evangelho pregado por Paulo no Areópago foi o mesmo que ele pregou nas sinagogas. O jeito seria continuar gritando. que ocupa as pessoas. Surpreendem-me debates como “O que a igreja deve fazer para atrair os jovens” ou “O que a igreja deve fazer para atrair a terceira idade”. O conteúdo do evangelho não pode ser mudado. mas eu não grito. Temos religiosismo. Depois me dão a palavra para pregar. sem quebrantamento. Prego para um auditório com a metade das pessoas exaustas e a outra metade que sequer consegue pensar. sua cruz não brilhou. o seminário nada lhes ensinou. para lhes oferecer o produto certo. ao invés de discípulos. É o louvorismo deste rabiscador. E o louvorismo vem na esteira do religiosismo. pulando e gesticulando são situações conflitantes. A pobreza litúrgica dos cultos é deplorável. É o religiosismo do Pr. diferença alguma faria. sim. A falta de bom senso no uso da música faz supor que seus líderes não passaram por um seminário ou. Não temos corinhos com letra evangelística e com música que leve à reflexão sobre salvação. que faz o deleite dos pais das coreógrafas. ouvindo mais sermões do “grupo de louvor”. sua salvação não foi apregoada. Falta bom senso aos dirigentes destes cultos! Dão-me um auditório cansado de tanto pular e gritar. não. sem conversão. Daniel. O carro chefe de um culto cristão deve ser Jesus Cristo. dá-lhes um ar de religiosas. Não consigo ver o Salvador pensando em como alcançar os fariseus. Querem agito. mas não me parece que temos um evangelho conforme o do Novo Testamento. Ouvir um sermão evangelístico e depois ficar mais trinta minutos em pé. e depois o apelo. Ou planejando como sair de uma comunidade de pescadores para uma de figurões. procurando saber o que eles gostariam de ouvir. e que igrejas façam pesquisas junto ao mundo para saber o que o mundo deseja. em alto volume. E mais barulho levaria à histeria. Reflexão. Culto em que Cristo não foi pregado. Os cânticos vinham em sentido oposto ao da mensagem e quebravam seu efeito. que lutam entre si por espaço e ministérios. se passaram. Mas é emblemático: as igrejas não querem pensar. Ou como conseguir mais adeptos e simpatizantes. mas que enfoca apenas o bemestar pessoal e a aquisição de bênçãos. ativismo. Se suprimida. Reconheço haver estratégias diferentes para diferentes culturas. ao findar o sermão. Os que não estão cansados estão num nível de excitação tão grande que não acompanham raciocínio algum. falhou. Por duas . O perigo da igreja nascente de um evangelho desfocado é nosso. sua pessoa não foi exaltada. mas nada acrescentam ao culto. Tenho participado de cultos com uma hora de louvor em alto volume. E se para isso deve elaborar estratégias que muitas vezes comprometem sua essência. Mas a essência nunca foi alterada. tínhamos novamente mais três cânticos esfuziantes. hoje. Nem a desajeitada coreografia. Religião sem reflexão.Vemos um novo evangelho. Sua toada foi a mesma: o anúncio da salvação. O carro chefe de um culto não pode ser o louvor. mas a abordagem foi diferente.

mas de esforços religiosos.vezes ouvi sermões de quase 50 minutos. http://www. num centro espírita ou numa reunião de qualquer associação moral. Foi moralismo e autoajuda. consagração e conversão. que se preocupa em manter as pessoas eufóricas. mas procurar manter as pessoas ocupadas e animadas com alguma atividade religiosa. É um desfocar da verdade cristã. Louvor a Deus que produz quebrantamento. Louvorismo. Religiosismo. Poderia ter sido pregado numa sinagoga. e chama tudo isso de adoração. Como muito do louvorismo. não. seu ensino sequer foi tangenciado. sim. sim. em uma autêntica catarse.isaltinogomes. que produz mera agitação. mas pode ser questionado. não. satisfeitas. Pior. Cristianismo. Não promove uma reflexão sobre a pessoa e a obra de Jesus. em que o nome de Jesus não foi uma vez sequer mencionado. O religiosismo não fala de Jesus.com/2010/02/o-religiosismo-do-pr-daniel/? utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed %3A+IsaltinoGomesCoelhoFilho+%28Isaltino+Gomes+Coelho+Filho%29 .