A Estrela de Jomário

Por Hare Marvin Jomário tinha quase nome de craque. Se considerarmos que ele era reserva do Macaxeira Futebol Clube havia apenas dois anos e nunca havia entrado em campo durante todo esse tempo, pode-se dizer que ele era quase um craque. Mas Jomário não desanimava com sua inexpressividade até ali. Ele sabia que teria sua chance um dia, e saberia aproveitá-la. “Um dia, minha estrela vai brilhar!”, costumava dizer sempre que algum amigo tirava um barato de sua posição modesta. A chance esperada, como sempre fazem as chances, um dia apareceu. E escolheu logo uma data importante, a noite da final do Campeonato Estadual. O Macaxeira enfrentava o forte Atlético de Vila Paninho, conhecido como “A Maritaca” por causa de sua exótica mascote. A rivalidade entre os times era praticamente lendária, e, dos dez Estaduais anteriores, apenas três não haviam tido os dois disputando a final. E já que estamos falando de estatísticas, o Macão havia sido vice nos últimos cinco anos... Sendo que em nada menos do que quatro dessas ocasiões, o campeão havia sido a Maritaca. É o próprio Jomário quem lembra: “A gente tinha treinado com tudo pro Estadual daquele ano, que ninguém mais aguentava perder pra Maritaca, num tem? Acho que o Professor Praxedes era quem tava mais a fim de faturar o primeiro título do time em seis anos. Era um jeito bom de mostrar serviço, já que aquele era o primeiro Estadual dele... Mas se a gente perdesse, podia também ser o último, num tem?” A campanha do Macão tinha sido realmente muito superior à dos anos anteriores, em grande parte graças à atuação do técnico Osvaldo Praxedes, e a torcida esperava muito de ambos, o time em geral e o técnico em particular, naquela final. Para falar a verdade, a atuação de Jomário nos treinos não havia sido das mais brilhantes, justificando plenamente sua inatividade durante todo o Campeonato. Mesmo assim, ele caprichou o mais que pôde nos últimos treinos antes da final, e conseguiu melhorar muito seu desempenho. Antes do jogo, Jomário procurou Praxedes com um pedido: “Eu só faltei implorar pra ele me colocar em campo só um pouquinho, nem que fosse nos cinco minutos finais da partida, num tem? Ele tinha dito que, depois de ter melhorado tanto, eu já tava incluído na estratégia dele como um tipo de arma secreta, pra ser usado em último caso se fosse precisar. Mas, mesmo que não precisasse, ele prometeu que ia me fazer experimentar o gostinho de participar de uma final estadual pelo menos um pouco.” O Macaxeira precisava de apenas um empate para sagrar-se campeão. Claro que tanto a torcida quanto os jogadores achavam que conquistar o campeonato sem precisar vencer o jogo não teria suficiente sabor de forra para quem não via um título havia seis anos... Mas todos se contentariam com o que conseguissem, desde que pudessem desentalar o grito de “É CAMPEÃO!” da garganta. Durante o primeiro tempo, as coisas não haviam ido bem para o Macão. O adversário vinha também muito bem preparado, com um ataque avassalador. Tanto que, aos vinte e oito minutos, o artilheiro adversário Romualdo Capixaba interceptou um passe longo mais desastrado e driblou três “Macas” sem muita dificuldade, abrindo o placar do jogo a favor do Atlético.

No segundo tempo as coisas melhoraram um pouco; a defesa passou a funcionar melhor e impedir os avanços da Maritaca, mas nada de sair um gol. A defesa adversária parecia conhecer cada movimento do Macaxeira, e a bola passava a maior parte do tempo no meio de campo. Foi nos quinze minutos finais da partida que o técnico Praxedes decidiu usar sua arma secreta, para deleite da mesma. Jomário entrou em campo com o coração aos pulos, mas determinado a mostrar o quanto valia. “É hoje”, pensou, “é hoje que a minha estrela vai brilhar.” E ele não brincou em serviço. No primeiro passe que recebeu, partiu com tudo para cima da defesa da Maritaca, e só não marcou o gol que empataria a partida e decidiria o campeonato por puro azar, quando a bola bateu no travessão da meta adversária após passar bem longe das mãos do goleiro César Fernando. A torcida ficou eletrizada. Depois do segundo lance perigoso protagonizado por Jomário, quando um passe longo seu colocou a bola nos pés do seu colega Robertson, que quase enfiou o goleiro adversário dentro do gol junto com a bola, começou a ouvir-se um brado, de início tímido, e logo subindo para um rugido: “Jo-má-rio! Jo-má-rio!”. A torcida depositava toda sua esperança nos pés do estreante. Caberia a ele proporcionar ao seu time a virada que se tornaria lendária na história do futebol do Estado. Quando Jomário recebeu outro passe perfeito de Robertson e disparou para a meta adversária, faltavam apenas seis minutos para o final do jogo. Era como se toda a torcida fosse junto com ele. Apesar de haver apenas uns 1200 pagantes no estádio naquela noite, o barulho dava a impressão de que o Maracanã lotado estava assistindo ao lance e reagindo de acordo. Justiça seja feita, Jomário bem que procurou um companheiro a quem pudesse lançar a bola, mas, com todos fortemente marcados, a única opção possível era mesmo driblar os dois zagueiros adversários que estavam entre ele e Céfer (alcunha do goleiro adversário, que facilitava muito na hora da galera gritar seu nome). Quando o primeiro deles foi deixado para trás, Jomário já não conseguia pensar em nada que não fosse o estrondo ensurdecedor da torcida gritando seu nome. O resto era puro instinto, seu corpo agindo automaticamente da maneira como fora treinado. Após driblar espetacularmente o segundo zagueiro adversário e ficar cara a cara com o goleiro, ele nem mesmo ouvia mais som algum; não enxergava nada além do retângulo do gol e do último obstáculo entre ele e a glória. A partir daqui, apenas as próprias palavras de Jomário parecem apropriadas para descrever o que aconteceu: “Primeiro, eu pensei que aquela luz no céu lá por trás do gol era o Sol que tava nascendo. Mas, mesmo antes de lembrar que o Sol devia nascer de baixo, não já lá no alto, e não tão claro assim, eu pensei que não, não podia ser isso, ainda eram umas nove e meia da noite, num tem? Aí pensei em algum tipo de helicóptero com um holofote muito forte, e isso também era uma ideia ridícula. Cheguei até a pensar que era um disco voador... “Claro que isso tudo que eu pensei demorou acho que menos de um segundo, num tem? Depois, a luz diminuiu, e eu vi o que todo mundo viu: aquela bola de fogo azul caindo e deixando um rastro azul e meio avermelhado também, comprido, comprido... E a bola, que eu tinha chutado de qualquer jeito, passando uns dois metros pra cima do gol. Parecia até que eu tinha mirado naquele troço, num tem?” O meteorito tinha sido realmente enorme, e sua luz havia atraído a atenção de toda a torcida, dos jogadores e até mesmo do goleiro Céfer. Claro que o brilho não fora tão cegante para a maioria das pessoas, mesmo porque três dos quatro holofotes do Estádio estavam funcionando... Mas para Jomário, o efeito havia sido ampliado devido à sua concentração extrema no gol adversário, por trás

do qual a luz surgira inicialmente. Algumas testemunhas do fenômeno, que o haviam observado em locais menos iluminados do que o Estádio, descreveram o espetáculo de forma bastante parecida à do quase herói. Evidentemente, foi o fim do campeonato para o Macão. Os três ou quatro minutos finais da partida nem sequer foram disputados. Jomário teve de deixar o estádio sob proteção policial, pois alguns torcedores ensandecidos o culpavam pela tragédia: o vice-campeonato mais triste de toda a história do futebol (pelo menos foi assim que o jornal da cidade publicou no dia seguinte). Em pouco tempo, porém, todos haviam perdoado o jogador, e reconheciam que ele havia demonstrado uma garra sem igual em seu breve período de glória. O que acontecera tinha sido uma fatalidade, ninguém poderia esperar algo daquele gênero. Mesmo assim, Jomário abandonou o futebol. O golpe tinha sido duro demais. Ele hoje é o bemsucedido proprietário de uma seguradora, famosa pelas apólices minuciosas. E por sua eloquente técnica de venda, onde sua imaginação cria exemplos de imprevistos esdrúxulos, que parecem estranhamente prováveis depois que se para pra pensar... Seu discurso sobre desastres naturais, em particular, garante a venda mesmo com os clientes mais difíceis. O tempo se encarregou de curar a ferida, e hoje ele é o primeiro a rir de sua história única no futebol. Para quem não a conhece (e também para os clientes especialmente duros na queda), ele sempre conta sobre a noite em que sua estrela brilhou. E conclui, num tom ao mesmo tempo divertido e amargo: “Pena que era uma estrela cadente... Num tem?”