GASPARÁ: uma estratégia precipitada ∗

O gás natural é um combustível fóssil constituído predominantemente por metano (CH4). Essa fonte energética pode ser utilizada para gerar energia elétrica, produzir vapor, cozer alimentos, aquecer água, reduzir minério de ferro, secar produtos diversos, além de combustível para veículos, dentre outros usos. Por apresentar um baixo fator de emissão de carbono, sua utilização em substituição a outros combustíveis fósseis é também uma boa estratégia para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2). A perspectiva de aumento da participação do gás natural na matriz energética mundial, substituindo parte do carvão mineral, petróleo, urânio e fonte hídrica, fortalece a argumentação de que este é o século dessa fonte energética. Contudo, deve-se atentar para o fato de que cerca de 56% das reservas de gás concentram-se na Rússia, Irã e Catar, o que gera insegurança em relação ao seu preço futuro, sendo este um fator que poderá dificultar o consumo mais amplo desse combustível. A partir de 1990, seguindo a orientação de estudos para diversificar a matriz energética brasileira, o governo federal estabeleceu a meta de elevar a participação do gás natural nessa matriz para 10% até 2000 e 12% até 2010. Diversas ações foram implementadas nesse sentido, destacando-se a assinatura do contrato de compra e venda do gás boliviano, a construção do gasoduto Bolívia-Brasil, com mais de três mil quilômetros de extensão, a criação da Gaspetro, subsidiária da Petrobras, e o lançamento do Programa Prioritário de Termeletricidade (PPT), que objetivava a construção de 49 termelétricas, das quais 43 operariam com gás. Atualmente, a rede de gasodutos cobre quatorze unidades da federação, com possibilidade de ser estendida para mais cinco no curto prazo. Em 2006, a participação do gás natural na matriz de fontes energéticas primárias do país estava em 9,5 %. Em relação ao Pará, existe a perspectiva de que esse Estado possa ser beneficiado pela extensão do gasoduto Meio Norte ou pela possível construção do primeiro trecho do gasoduto do Sul. Uma outra alternativa de oferta de gás natural cogitada para o território paraense é a importação de gás natural liquefeito (GNL). Contudo, todas elas devem ser cuidadosamente avaliadas. Negligenciando o planejamento energético, o governador Simão Jatene, através da Lei n° 6.878, de 29 de junho de 2006, criou a Companhia de Gás do Pará – GASPARÁ, com a finalidade de distribuir e comercializar gás para fins residenciais, comerciais, industriais, automotivos e de geração de energia elétrica, uma postura contraditória para um governo defensor da privatização. Atualmente, o governo petista trabalha na estruturação dessa companhia.
Este artigo de opinião foi elaborado por Marcos Vinicius Miranda da Silva, analista de sistemas energéticos, com doutorado pelo Programa Interunidades de Pós-graduação em Energia da Universidade de São Paulo. Email: energiapara@yahoo.com.br

O Pará não possui reservas de gás natural, caso um dos empreendimentos anteriormente mencionados seja concretizado, acredita-se que a oferta dessa fonte energética não ocorrerá antes de 2011. Portanto, a GASPARÁ terá que ficar em compasso de espera, pois não é prudente iniciar a construção de uma rede estadual de distribuição de gás sem a definição do prazo para o início das obras do gasoduto Meio Norte, que provavelmente levará dois anos para ser concluído. A Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia (SEDECT) precipitouse. Antes de começar a estruturar a GASPARÁ, ela deveria ter contratado uma empresa de consultoria isenta para realizar um estudo sobre a viabilidade técnico-econômica da oferta de gás no Estado. Com base nas conclusões desse estudo, a SEDECT decidiria pela estruturação ou pela extinção da GASPARÁ. A inversão dessa ordem foi um grave erro de planejamento, pois o interesse de sobrevivência dessa companhia poderá influenciar direta ou indiretamente as conclusões de estudos de viabilidade que venham a ser realizados, principalmente quando eles forem financiados ou conduzidos por ela. Em uma estrutura organizada, o papel da GASPARÁ seria de execução das obras, com o objetivo de desenvolver suas atribuições de distribuição e comercialização de gás. O planejamento da oferta dessa fonte energética ficaria a cargo de uma secretaria ou outra instituição governamental que seria criada para esse fim, por exemplo, semelhante à Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Isso é necessário para evitar que os interesses comerciais dessa companhia se sobreponham aos interesses da sociedade O aumento do consumo de gás natural não depende apenas da oferta e da ampliação da rede de distribuição, o preço dessa fonte energética também é um ponto crucial. Por exemplo, o projeto siderúrgico da Rio Tinto, em Corumbá, teve que ser modificado para carvão mineral, devido à incerteza sobre o preço do gás que foi gerada pela estatização das reservas bolivianas. Recentemente, a Vale anunciou que utilizará carvão mineral na Ceará Steel por não poder contar com o subsídio no preço do gás comercializado pela Petrobras. A Usina Siderúrgica da Bahia (USIBA), produtora de ferro esponja, teve que adiar a ampliação de sua planta em função do elevado preço do gás. Esses fatos são um forte indício de que a produção de ferro esponja através do processo de redução direta (DRI) só apresentará viabilidade econômica se o preço do gás natural for baixo, girando em torno de US$ 1,7 por milhão de Btu, como apontado pela Vale para viabilizar a produção de ferro esponja no complexo siderúrgico de Tubarão (ES). Um preço dessa ordem provavelmente só poderá ser alcançado através de subsídio, o que não será aceito pelo setor siderúrgico nacional. Dessa forma, a perspectiva de usar o gás natural para produzir ferro esponja no pólo siderúrgico de Marabá dificilmente será concretizada.

Enquanto o governo estadual encampa a estruturação da GASPARÁ, milhares de paraenses que vivem na zona rural ainda consomem energia como na Idade Média, problema que não será resolvido pelo programa LUZ PARA TODOS. Por outro lado, a produção de biocombustíveis não deslanchará sem o suporte desse governo. Num Estado pobre, os recursos monetários disponíveis devem ser investidos com inteligência. Esse é o primeiro passo para romper as amarras do atraso socioeconômico.

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