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DIREITO E JUSTIÇA E M SÃO T O M Á S DE AQUINO

Eduardo Carlos Bianca Bittar
Doutorando pelo Departamento de Filosofia e Teoria Geral do
Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Resumo:
O autor aborda as principais contribuições que se podem lançar
sobre a obra tomasiana, abordando a ética e o B e m no h o m e m racional, o
Direito e a Justiça natural, passando pelas suas variantes com término entre o
injusto e os vícios da própria Justiça.
Abstract:
The author approaches about the most important contributions of
Saint Thomas' work, and yet the ethics, the Good in the rational man, the L a w
and natural Justice, going through her variants,fínishingon the unfair and
vices of the own Justice.

Unitermos: Justiça natural, definição da lei, regime das leis.

Sumário:
1. Razão especulativa, razão prática e sindérese; 2. A ética e o Bem no homem
racional; 3. Justiça natural e Direito; 4. A Justiça e suas variantes; 5. Finalidade e
funções da lei; 6. A definição da lei e seus elementos; 7. Relatividade e contingência
da lei; 8. O regime das leis; 9. O injusto e os vícios da Justiça; 10. Aplicações
práticas do conceito de Justiça; 11. Bibliografia.

1. Razão especulativa, razão prática e sindérese
Para que possamos apreender com precisão o conceito de Justiça
(iustitia) e a sua aplicação entre os homens, excluindo-se, portanto, d o âmbito de
interesse desta pesquisa qualquer remissão mais aprofundada a discussões sobre a
Justiça metafísica, c o m o o é a discussão sobre a Justiça dos atos de Deus

(Dicendüm

quod necesse est quod in quolibet opere Dei misericórdia et veritas inveniantur —

340

Eduardo Carlos Bianca Bittar

Sum. Theol., quaest. X X I , art. IV), no contexto da philosophia perennis aquiniana,
necessário se faz analisarmos a faculdade que distingue o h o m e m dos demais seres: a
razão (ratio).
O h o m e m é composto de corpo e alma, sendo o primeiro a matéria
perecível que colabora para o aperfeiçoamento da alma, criada por Deus. A alma é
incorruptível, imaterial e imortal e relaciona-se c o m o corpo da seguinte forma: "a
alma está para o corpo assim como o ato está para a potência" A alma constitui-se
n u m princípio vital que distingue os seres conforme o grau evolutivo, assim:
a. a alma vegetativa compõe os vegetais, que simplesmente executam
as atividades das quais desconhecem a forma e ofim;são essencialmente materiais;
b. a alma sensitiva compõe os animais, seres irracionais, que, dotados
de sensibilidade, executam e apreendem a forma do agir;
c. a alma intelectual é inerente aos animais racionais, capazes de
executar, apreender a forma e o fim de suas ações; essa alma é de essência
puramente espiritual.
Assim, enquanto o mais perfeito dentre os seres materiais, o h o m e m ,
acumula as três faculdades a saber, a vegetativa, a sensitiva e a intelectual -, sendo
que a última o particulariza e torna-o capaz de conhecer o fim de suas ações, os
demais seres da scala naturae se limitam, no máximo, a reunir e m sua estrutura
intrínseca duas destas potências, c o m o é o caso dos animais. A s formas angélicas,
por sua vez, estão destituídas de corporeidade, pairando independentemente do
grilhão corporal, o que as afasta da área de interesse deste estudo.
Se a razão foi localizada, pode-se dizer, c o m São T o m á s de Aquino,
depurando-se este conhecimento, que a inteligência é "a faculdade espiritual capaz
de ultrapassar os dados sensíveis e de penetrar na essência das coisas capaz de ler
no interior dos seres"
Desta forma, seguindo o princípio do conhecimento descrito na
definição escolástica de que nihil est in intelectu quod non prius in sensu,
verificamos que se faz necessária a faculdade sensitiva para que haja o conhecimento
e a apreensão do sentido da realidade. Parte-se do material para que se alcance o
abstrato, do particular para que se alcance o geral. O método do conhecimento aqui
referido radica-se nos principais postulados da filosofia aristotélica (De anima;
Parva Naturalia; Analytica Posteriora), essencialmente empírica e sensitiva.
T a m b é m , pode-se dizer que o h o m e m tem o princípio de seus
movimentos e m si m e s m o , mas, diferentemente dos animais, consegue discernir os

age de duas formas: segundo a razão especulativa. O ato moral de escolha do B e m é puramente racional. A nobreza do ato moral consiste em. noção esta secularmente explorada. A inteligência consiste. falar-se na participação conjunta da vontade c o m a inteligência. mais facilmente alcançável pelo esforço e colaboração conjunta. una e indivisa. dirigida por u m a autoridade que deverá ser prudente na escolha dos meios que conduzirão ao B e m C o m u m . Percebe-se nitidamente que o Doutor Angélico segue de perto o pensamento aristotélico no que concerne à ética do coletivo. segundo a razão prática. n u m b e m particular de pequena participação no b e m universal que é Deus. sobre a razão prática que a ética incide. procurando a descoberta e o entendimento das leis que regem o m u n d o e o cercam. atualização). através da inteligência. portanto. no dizer de Aristóteles: "o princípio do ato da inteligência é mais elevado que a inteligência. ou seja. Ainda podemos dizer que a faculdade intelectiva. inclusive c o m valiosas contribuições da doutrina agostiniana. da capacidade de julgar aquilo que é certo e aquilo que é errado. que o h o m e m participa ativamente do m u n d o através da razão especulativa. e da razão . enquanto ser ético particular. N a filosofia tomista este conceito encontra-se sob a denominação de sindérese (sinderesis). Deus lançou no h o m e m . discernir o Mal do B e m e executar o escolhido através da vontade. Esta atitude faz. a verdade real ou a verdade aparente. M a s c o m o se alcança a racionalidade? Seguindo o pensamento escolástico-tomista. procura do conhecimento pelo conhecimento. esta a mais natural e primeira forma de convívio humano. É a sociedade. através da experiência.o télos dafilosofiaperipatética. efetivação. Daí. une-se aos seus semelhantes no convívio social. ou. ou seja. Conclui-se. então. O indivíduo. M a s esta nada mais é do que u m agregado composto de várias unidades familiares. comprova a existência do livre arbítrio (liberum arbitrium).Direito e Justiça em São Tomás de Aquino 341 fins aos quais almeja. destinando-se para u m determinado fim . que tem por fim último a ação (execução. a vontade para que siga no sentido do B e m (o próprio Deus). É sobre o agir. de maneira que a causa final (inteligente) m o v e a causa eficiente (vontade) e vice-versa. pois racionalmente destina-se ao seu fim. da racionalidade partilhada o motor para o alcance do B e m C o m u m . já neste passo da investigação. ainda. conjunto de conhecimentos genéricos e abstratos conquistados a partir da experiência habitual que norteia o ser na escolha e no discernimento entre o B e m e o Mal. c o m o motor universal que é (Motor Imóvel). é Deus" A possibilidade humana de escolher entre valores diametralmente opostos.

Assim. fazendo deste u m estado de ignorância do B e m (Dicendüm quod. certamente. dotado de faculdades apetitivas e intelectuais próprias. Ainda aqui se vêem ecoar as palavras aristotélicas inscritas na Ethica Nicomachea (livro VII). o Bem. Isso é o que se pode chamar de u m a verdadeira lex ethica naturalis. A ética e o Bem no homem racional O homem.. distar do que seria o melhor para o animal. pois o Mal é a simples privação do B e m .. X L I X . que não são inatos. Este algo melhor deverá. é: bonum est quod omnia appetunt. a capacidade de discernir. XLIX. M a s o que é o B e m que guia a ação como causafinal?O conceito. por meio de seus processos seletivos de conhecimento. já definido anteriormente por Aristóteles. quaest. no sentido de dominar a sua natureza instintiva: sibi ipsi et alliis providens (Sum.S u m Theol. todo ser tem como fim o B e m .. mas sim conquistados a partir da .. IV). a impulsividade e a paixão intestina.2). como ser racional por natureza.. I-II. de m o d o a estabelecer o fim da razão prática. ou seja. quaest. art. Dicendüm quod nullum ens dicitur malum per participationem. Assim. se faz de grande importância. sicut ex dictis patet.. 2. é capaz de agir segundo as orientações dadas por ambas as faculdades.342 Eduardo Carlos Bianca Bittar prática. malum quod in defectu actiones consistit semper causatur ex defectu agenti . IV.91. ou m e s m o . far-se-á conduzir de acordo com o que esta m e s m a razão. a sindérese (sinderesis) atua. Aquino nega u m a ontologia ao Mal. Theol. Unde. e o desejo maior de cada u m é a atualização deste último. q. Mais ainda. II. para o h o m e m . qüe não deixa de corresponder a u m a participação da lei eterna. Toda esta especulação faz crer que o imperativo da razão sendo a distinção entre os seres. Reminiscências platônicas na dicotomia irascível/racional podem aqui ser radicadas. a. imperando por sobre a instintividade.S u m Theol. de escolher e de optar. para o ser agente. apreende como melhor. cum malum sit privatio boni.Sum. Unde nono oportetfierireductionem ad aliquid quod sit per essentiam malum . X L I X . que preceituam u m a doutrina que faz do agir ético u m agir pendular entre o vício e a virtude e se lastreia na escolha entre a dor e o prazer. quaest. sed per privationem. donde podemos afirmar que não existe o Mal como fim de u m a ação. Todo o conjunto sinderético de informações acumuladas forma u m grupo de princípios. art. . agindo prudentemente no relacionamento com seu próximo. para o que o concurso da racionalidade. Theol. art.

formalmente falando. II. cap. é racional: rationis prima regula est lex naturalis. a saber: a. Hoc est ergo primum praeceptum legis. O h o m e m se guiará por princípios imanentes hauridos a partir da experiência que formam o que se pode chamar de u m a lei natural. in V Ethic. XXVIII. b.. assim dirigida e m sua finalidade. (Sum.Direito e Justiça em São Tomás de Aquino 343 experiência. C. a. u m a vez que. 2.94. 2). VII)" (Sum. é rudimentar. "lustitia autem proprie dieta debitum necessitatis requerit: quod enim ex iustitia dicui redditur. Justiça natural e Direito Do que já foi dito até o presente momento. o justo e o b e m assumem u m caráter relativo. II. E mesmo. art. ut dicitur in X Metaph. .2). ou seja.. materialmente falando. Aequale autem est realiter médium inter maius et minus. quaest.1 3. A conclusão é a de que é u m a relação de débito recíproco entre o h o m e m social e seu semelhante que dá lugar à existência da Justiça dentro da comunidade civil. que dirige a razão prática. Gent. cap. tidos e m consideração absoluta e universal.Theol. X). ou.2 aplicou e m seu sistema filosófico a categoria do justo meio entre extremos opostos (mesotés).. pois necessita do Direito Positivo. Gent. 1). será fazer o B e m e evitar o Mal (bonum faciendum et male vitandum). nos próprios termos do Aquinatense: Et ideo primum principium. quae est: bonum est quod omnia appetunt.. verdadeiro hábito interior. in ratione practica. est quod fundatur supra rationem boni. "Et ideo médium iustitiae consistit in quadam proportionis aequalitate rei exterioris ad personam exteriorem. I-II. secundum Philosophum. pois n u m a perfeita composição fornece à lei natural dois elementos que se conjugam harmonicamente: o racionalismo e a experiência (empeiría). XXVIII. c. Theol. LVIII. do qual é diretriz. verificamos que São Tomás de Aquino. é insuficiente e incompleta. C. só pode ser considerada c o m o princípio norteador ou origem do Direito. O primeiro princípio da razão prática. quod bonum est faciendum et prosequendum et malum vitandum (Sum. "Cum iustitiae actus sit reddere uincuique quod suum est". q. adalterum est. ex necessitate iuris ei debetur" Ainda: "lustitia enim. seguindo as lições do Philosophus. a partir do 1. Esta lei natural apresenta características básicas. identificamos o justo e o b e m como imutáveis. (lect. Mas. cui debitum reddit" (Sum. não correspondendo à sua totalidade. Por outro lado. para efetivar-se. u m a vez que é fruto da razão prática e sinderética do h o m e m .

2). q. e. como manifestação da lei eterna no mundo (lex aeternd). tem u m a amplitude maior que a da moral. através do método indutivo (do particular para o todo). mas apenas ao h o m e m . A Justiça moral demanda a adequação de todo ato humano ao seu fim e a forma como é executado este ato. O justo natural diz respeito a homens e animais. quando existe u m relacionamento do ato com suas conseqüências. debitam 3. mérito da faculdade racional humana capaz de estabelecer relacionamentos do tipo causa-efeito. Estes impõem ao h o m e m u m a conduta externa. não são e não significam o mesmo. et imperfecte" (Sum. engloba o Direito. praecepta secunda. I—II. que são os princípios sinderéticos imutáveis e universais. tornam-se contingentes no tempo. prima praecepta. pois algo que é sinderético só pode ser alcançado através da experiência empírica. e isto por ordenar toda a comunidade civil ao B e m C o m u m (Sum. potest dici virtus generalis. O Direito não é a Justiça. LVIII. Theol. "Unde et iustitia legalis. . b. Esta frase demonstra a magnitude da Justiça legal. art.. A lei natural (lex naturalis).. suo modo. quando tomado e m u m a consideração absoluta. enquanto que a Justiça legal se refere apenas ao ato exigido para o cumprimento de deveres sociais.. Theol. criando situações. Desta maneira. art.4 mas busca a mesma. que compõem a parte mutável do justo natural. portanto. secundum quod ordinat ad bonum commune. A Justiça (iustitia) e o Direito (ius) se interelacionam.3 varia no tempo. q. sorte de reificação racional-material de algo que possui quintessência espiritual. no espaço e segundo as variações da natureza humana (Sum. não sendo o método dedutivo (silogismo) o mais apropriado nesta busca.344 Eduardo Carlos Bianca Bittar momento e m que são instituídos pelo h o m e m . proibindo condutas (Sed matéria iustitiae est exterior operatio. 4. M a s o justo natural não pode estar plenamente contido no Direito. virtude moral maior.. e esta. art. II-II. q. e é aqui que aparece a prescrição legislativa. secundum quod ipsa vel res cuius est usus. estabelecendo obrigações. Theol. 6). sed. sendo que o Direito visa a poder estabelecer de maneira plena a Justiça. O ordenamento éticojurídico parte do necessário para estabelecer conclusões e..1—II. c o m o tudo o que é contingente. concluímos que a lei natural é formada por dois tipos de princípios: a. 3). "Dicendüm quod ratio humana non potest participare ad plenum dictamen rationis divinae. 57. por sua vez. consistindo e m conclusões retiradas dos princípios primeiros. XC1. Logicamente.

justo natural (díkaion physikón).2.3. é o direito c o m u m a todos os homens. 2. 4. Aqui se pode constatar a presença espectral da recorrente oposição katà physiní katà synthèken. X ) . D e u m lado. art. 3.2. esta última sempre presente e muito influente sobre o pensamento tomasiano e m função de seu comprometimento c o m a filosofia peripatética. justo despótico (despotikòn .2. N o s esforços de conciliação das concepçõesfilosóficagrega e jurídica romana. extraída da leitura do Livro V da Ethica: 1. e ius positivum. livro V ) . o Doutor Angélico acaba por elaborar não apenas u m a conceituação eclética . Theol. justo na relações não-voluntárias. divergindo da posição aristotélica.1. justo legal (díkaion nómikon). segundo a definição de Gaio quasi quo iure omnes gentes utuntur -. e m Aristóteles. este próprio da natureza racional do homem. justo corretivo (diorthótikon díkaion). justo político (díkaion politikón).2.2.1.2. justo comutativo. de onde se origina o ius gentium. 2. e o justo natural (dikaion physikóri). justo total (díkaion nomimón). justo doméstico (oikonomikòn díkaion). 3. a iluminar a explanação da temática. Então. 1946).1. 2. 2. justo particular (díkaion íson). enquanto que o Direito natural é algo que advém da razão humana e tem força própria dada pela natureza. que.díkaion). obedece à seguinte árvore semântica. Raffo Magnasco. justo conjugai (gamikòn díkaion). 3. 4. sobretudo e m função de seus comentários à obra de Aristóteles (La justicia: comentários a ei libro quinto de Ia Ética a Nicómaco. justo distributivo (díkaion dianemetikón). A Justiça e suas variantes As inúmeras classificações do ius ou do iustum apresentadas por São Tomás de Aquino representam a fusão da conceituação dada pelos jurisconsultos romanos e daquela dada por Aristóteles (Ethica Nicomachea.. o filósofo grego entendia o justo político (díkaion politikón) c o m o gênero maior capaz de englobar o justo legal (díkaion nomikórí). Argentina.Direito e Justiça em São Tomás de Aquino 345 proportionem habet ad aliam personam — Sum. LVIII. de sede aristotélica. 4. próprio da natureza racional do h o m e m e sujeito a variações de acordo c o m a localidade onde se desenvolve. de acordo c o m a natureza animal do h o m e m . dando-lhe força coativa. 4. justo paternal (patrikòn díkaion). entre o que é por natureza e o que é por força da técnica humana. 4.1. quaest. os jurisconsultos romanos entendiam ser o ius passível de divisão e m ius naturale. trad. de Benito R. o justo. D e outro lado. T a m b é m o Direito Positivo requer a atuação de u m a autoridade que o institua. 2.

a saber: a. que a m o d o de conclusão se deduz do Direito natural e consiste e m capacidade exclusiva do h o m e m . necessita de regras convencionais positivas para que possa garantir a pacificidade dessa interação no meio social. art. sem que se perca a noção da realidade e da imperiosa necessidade de efetivação da Justiça. animal racional. ou seja. Theol. quaest. I-II.Sum. por exemplo. É absolutamente imprescindível a sua existência e m função da necessidade de aplicação da Justiça inter homines. encontrando-se no m u n d o terreno e m companhia de seu semelhante. e sua função consiste e m dar a cada u m o que é seu (Ergo non sufficienter. q. como categoria muito larga. c o m o diz São Tomás: "todo o conjunto do universo está submetido ao governo da razão divina" (Sum.. que a tudo inspira. O h o m e m . por sua vez. ius gentium.346 Eduardo Carlos Bianca Bittar a partir da mera fusão de ambas. a parte do Direito natural c o m u m a todos os homens e animais ou. Theol. na qual se congregam elementos dafilosofia. ius naturale strictissimo modo.da metafísica e do Direito. LVIII. para tudo há u m a diretriz. pois. é derivado do Direito natural. XI). Daí decorre. O ius positum. recebe subclassificações. também do Direito Positivo. a partir da razão divina.l. a Justiça é u m a virtude cardeal. quod dicitur actus eius esse reddere unicuique quod suum est . mas u m a teoria própria. desejando-se ou não. o Direito natural e o positivo. 91. de maneira imediata. é insuficiente. quando no relacionamento entre indivíduos dá-se x para receber x. quod omnia animalia docuit. ainda. particular ou pública. . E. O Direito natural. existe e é imperativa. nesta dimensão. ainda.. assim. necessitando de leis positivas complementares (lex. M a s o ius gentium não se apresenta derivado unicamente do Direito natural. art. E. conforme tenhamos u m pacto limitado a relações inter-individuais ou consentimento geral dado pelo povo ou ordenado pelo príncipe que representa esse povo. E para esta concepção. regente do todo. enquanto categoria sinderética de princípios imanentes ao h o m e m . O Direito natural. que u m a coisa pode ser adequada a u m h o m e m pela própria natureza da coisa. a ordem. notificatur actus iustitiae. Temos. que u m a coisa pode ser adequada a u m h o m e m pelo estabelecimento de u m a convenção. que nos é dada pela lei eterna. configurando o direito natural. resp. per hoc. à maneira de determinação. o Direito escrito). b.). deduzido de m o d o conclusivo e consubstanciado e m leis escritas-positivas. A lei eterna é o princípio e o fim do todo universal.

l). de m o d o a atribuir a cada parte o que lhe é devido segundo seu mérito. Esta última é responsável pela ordenação dos indivíduos na relação com os particulares. ius naturale: c o m u m a homens e animais. referente à distribuição do que é devido a cada u m segundo o objetivo social maior. q. Theol. ao B e m C o m u m (convívio pacífico na sociedade civil) e. art. 96. por ter seu âmbito de atuação limitado às relações que interessam à sociedade c o m o u m todo (nem todo vicio será digno de punição. é aquela que diz respeito. b. É assim que verificamos a importância da existência do justo legal para "ordenar os bens particulares ao Bem Comum" (Sum. A primeira é responsável pela regulação das relações entre particulares. apenas aqueles que atentarem diretamente contra o desenvolvimento do meio social).. imediatamente. partis ad partem.. 4). tendo. suas imperfeições e as contingências oriundas da limitação do saber racional. assim c o m o altamente contingente.Direito e Justiça em São Tomás de Aquino 347 que acompanham as variações da natureza humana. Justamente por não abranger todas as virtudes. I-II. capacidade ou participação dentro da sociedade. mediatamente. Categoria de relevo dentro da doutrina tomista é aquela atinente à diferenciação entre Justiça comutativa e distributiva.5 5. "Potest autem ad aliquam partem duplex ordo attendi unus quidem. Theol. de maneira sucinta. o B e m C o m u m . constituir-se-á e m costumes irracionais e leis injustas. complementado pelo juízo particular. Et hunc ordinem dirigit commutativa iustitia. visando ao particular c o m o singular dentro do todo. Assim. sem força coativa dada pela natureza (Sum. quae consistit in his quae mutuo fiunt inter duas personas ad invicem alius ordo attenditur totius ad . reflexos mediatos sobre o B e m C o m u m e imediatos sobre os particulares. ius gentium: racional. quando se fala e m ius podem-se detectar as seguintes categorias: a. c. c o m u m a todos os homens. cui similis est ordo unius privatae personae ad aliam. ou seja. art. mas somente por convenção. II-II. O Direito positivo. é u m benefício para a comunidade civil. portanto. aos particulares. sendo-lhe u m a corruptela. por sua vez. A Justiça legal. a Justiça legal é completada pela Justiça particular. entre as partes individuais componentes da esfera maior da sociedade. A segunda coordena o relacionamento da parte c o m o todo. se adequado ao Direito natural. mas se estiver baseado na perversão da reta-razão (recta ratio). q. ius positivum: puramente convencional e relativo.61.

M a s os critérios de igualdade diferem e m u m e outro caso. estabelecendo a igualdade entre aqueles que se relacionam. na Justiça comutativa. Para São Tomás. 6. II-II. e m distributiva e corretiva. n u m a compra e venda. q. sed aliqualis ratio ius . ideal do Direito. II). consistente na repartição dos bens dentro da coletividade segundo a maior ou menor participação meritória de cada qual. além de outras pequenas minúcias. Theol. N a Justiça distributiva. o critério de igualdade é a proporcionalidade. ou ainda. III). II-II. LXI.." Ainda: "Et ideo dicit Philosophus. in qua attenditur aequale non secundum quantitatem sed secundum proportionem'' (Sum Theol. art. Theol. proprie loquendo. 2).Sum. a proporção geométrica.. após efetuada a negociação. "Et ideo in iustitia distributiva non accipitur médium secundum aequalitatem rei ad rem. das trocas. V Ethic.). . sendo que esta última abrangia as justiças comutativa e judicial.. 5. Isto ocorre devido à necessidade partes. existirá desigualdade. Mas a lei não é o Direito m e s m o (Et ideo lex non est ipsum ius. Por exemplo. o critério de igualdade utilizado é o da média aritmética. parte da Justiça social. Finalidade e funções da lei O Direito depende da lei para se consubstanciar no meio social. que será mediada pela Justiça comutativa de m o d o a que cada u m receba cinco unidades. igualando-se a esta a comutativa. lib. et huic ordini assimilatur ordo eius quod est commune. liv. 1).V. quaest. Destarte.348 Eduardo Carlos Bianca Bittar E m ambos os casos a Justiça encontra-se presente c o m o meio de equilíbrio na interação. permanecer com seis unidades de referência e o vendedor c o m quatro. e o faz inscrevendo-se entre os homens. ou seja. LVII. u m a vez que estas noções aqui expostas se encontram cristalizadas na obra do Philosophus grego (Ethica Nicomachea. ad singulas personas'' (Sum. cit. restando apenas u m a divisão global. É pelo intermédio da Justiça. A lei escrita v e m a ser u m a composição que reúne elementos de Direito natural e de Direito Positivo.6 Isto demonstra a expressão da participação da doutrina aristotélica no pensamento do Aquinatense. sed secundum proportionem rerum ad personas. art. (op.. fica suprimida a categoria da Justiça corretiva. art. divisão e m quantidade no exato meio. LXI. valores idênticos segundo u m a média aritmética. O que diferencia a opinião de ambos os pensadores é que ofilósofoperipatético dividia a Justiça legal. q. que a lei causa o Direito. quod tale médium est secundum geometricam proportionalitem. intervindo nas relações humanas.. se o comprador.

verifica-se sua eficácia na coação pelo temor que provoca (cogens metu poenae). M a s a lei não está adstrita a tornar imediatamente o indivíduo particular virtuoso. não obriga. O particular estará adstrito à lei apenas no que concerne à necessidade de manutenção de virtudes conexas com o todo. ao m e s m o tempo. O indivíduo. do b o m cidadão. prohibere: proibir aquilo que possa ser prejudicial ao convívio social. 14h00). A finalidade da lei positiva é conduzir o h o m e m para a virtude. nos levaram a estas mesmas conclusões. podendo. habituar-se a viver na virtude (a lei estará desempenhando u m a função educativa. discernindo-se as sutilezas também aqui expressas no texto tomasiano. É de acordo com essa finalidade maior que a lei desempenha suas funções precípuas. na linguagem aristotélica. com a conduta externa. apenas aqueles que atingirem a outrem ou obstruírem o desenvolvimento da sociedade. sob o título O homem bom e o bom cidadão na Ethica Nicomachea. Universidade de São Paulo. mas o bom cidadão pode vir a se tornar u m h o m e m bom. ordenar as condutas dirigindo-as para o B e m C o m u m . Nas palavras de Aristóteles. a lei forma o b o m cidadão. permittere: não proíbe a conduta e. a lei não proibirá todos os vícios ou tudo aquilo que contrarie qualquer virtude. fazendo-se. b. imperare: ordenar determinada conduta. Departamento de Filosofia. . que é aquele que age retamente independentemente de ser ou não forçado por leis. será forçado a ordenar-se ao B e m C o m u m . Quanto a este último item. desta forma. anteriores reflexões já lançadas no Colóquio Direito e Virtude. A lei se preocupa com o interelacional. u m h o m e m bom. A respeito.Direito e Justiça em São Tomás de Aquino 349 de que o que está positivado obedeça aos princípios naturais humanos para que esteja ordenado segundo a reta-razão (recta ratio). como: a. da ordo naturalis. coagido pelo temor da sanção legal. d. a lei visa a tornar o meio social pacífico o suficiente para que seja favorável à proliferação e ao cultivo das virtudes. M a s a punição é própria 7. 25 e 26 de abril de 1997 (dia 25. e não o h o m e m bom. então. c. dando espaço para a escolha entre fazer e não-fazer aquilo que é permitido.7 Destarte. mas apenas os vícios que atentem contra o conjunto social. punire: incidência da sanção quando da violação do princípio proibido. na F F L C H . nem todos os seus vícios serão recriminados. contribuindo mediatamente para o progresso do indivíduo).

N o meio social.98. A razão prática atuará no sentido de direcionar o h o m e m . 1). dirigimo-nos para a felicidade total. necessários e fundamentais. para o seu fim: o Bem. a lei ordena para a tranqüilidade temporal da cidade .. tem de ser-lhe dada publicidade para que se torne .350 Eduardo Carlos Bianca Bittar do Direito Positivo. q. não-obstante sintético. ou seja. aqueles que estão segundo a reta-razão ordenados com o Bem. Podemos discriminar o fim humano da seguinte maneira: segundo u m a regra próxima que guia a vontade para o Bem. art. contingentes e relativos como tudo o que é humano. caberá ao legislador agir com prudentia na escolha dos meios mais apropriados para que se alcance o fim social. 2.legis humanae finis est temporalis tranquilitas civitatis (Sum. contempla a verdade universal. Segundo a regra suprema. Iremos analisar mais detidamente cada u m dos elementos que participam da essência do conceito de lei. Assim: 1. buscando o interior de si mesma. I—II. ou seja. A razão única. agindo através do intelecto prático. Assim. não existindo qualquer fundamentação segundo o Direito natural. 6. segundo u m a regra primeira ou suprema que é a lei eterna ou divina. Para que u m conjunto de atos se ordene ao Bem. agindo através do intelecto especulativo. promulgada pelo chefe que governa a comunidade'' Este discurso. segundo a regra próxima. gerais e sinderéticos. "A lei é uma ordenação da razão": a razão permite ao h o m e m o discernimento entre o B e m e o Mal. "promulgada'': a lei positiva que visa ao alcance do B e m C o m u m deve ser promulgada. M a s a intercomunicação entre razão prática e especulativa permite que tenhamos a participação da lei natural na lei universal e a busca de fins que acabam por se confundirem. e não só alguns. através de conceitos abstratos. mas todos os possíveis. para confundirmo-nos na universalidade do próprio Deus. A definição da lei e seus elementos De maneira sucinta. congrega os elementos. que compõem o conceito de lei. é a lei natural que se destina aos fins próprios. que é o B e m C o m u m . Theol. a lei consiste numa "ordenação da razão para o Bem Comum. é necessária a escolha dos meios mais apropriados para a consecução deste fim. no dizer do Doctor Angelicus: Deus est primum principium omnis boni. segundo o Doutor Angélico.

e. a própria Providência Divina. A Justiça legal tem como finalidade imediata o B e m C o m u m . devendo colaborar para a consecução do escopo maior. segundo a regra suprema que rege o apetite humano. por sentenças: aplicação da própria legislação. É o caso do pater famílias. pode ser exercido de três formas: a. A lei promulgada não pode ser ignorada pelo h o m e m por ser racional e capaz de discernir. Ainda podemos dizer que o fim último de todos os seres é o B e m C o m u m transcendental. como representante do todo. que não age como senhor de seus instintos. Assim. O particular não pode legislar. através do livre arbítrio. mas tendo e m vista que a sociedade é formada por seres singulares. i. "para o Bem Comum": a lei deve conduzir ao B e m C o m u m c o m o finalidade. por leis comuns: atingem todos os cidadãos. pois a família é a parte no conjunto social. o chefe. Assim: 8. indistintamente. O s indivíduos que fazem parte desse conjunto preservam a qualidade de seres livres e independentes. O B e m C o m u m é algo que não se confunde com a mera somatória dos bens particulares daqueles que estão agregados numa sociedade. e a parte deve ordenar-se àquilo que é geral ou represente o interesse do todo. deve legislar para que as condutas particulares se ordenem ao todo. b. por privilégios: são leis dirigidas a particulares e m casos especiais. Ensaios políticos e filosóficos.8 O justo legal. de acordo com a reta-razão e o princípio do justo meio virtuoso aristotélico. 3. . apenas emitir conselho. mas é algo que supera e transcende essa somatória. O B e m particular transcendental é o direcionamento do indivíduo a Deus.. proporcionalmente. 1984. O desconhecimento da lei só pode ser alegado por aquele que ficou impossibilitado de conhecê-la por estar isolado. que estabelece normas de caráter familiar que não podem ter o caráter de leis. que retoma a tripartição do Philosophus grego.. assim como a lei positiva. Cfr. estejam de acordo e participem da lei eterna. segundo o Doutor da Igreja. optar por fazer o B e m e evitar o Mal. exercendo a lei u m papel indireto ou mediato de auxílio ao particular. c. ao contrário do animal irracional.Direito e Justiça em São Tomás de Aouino 351 acessível a todos aqueles que comungam de u m convívio social. Correia. Daí a imperiosa necessidade de que a lei natural. "pelo chefe que governa a comunidade'': o todo deve legislar para as partes. O grande mérito da ação moral humana está em.. estes se beneficiam da organização e do convívio virtuoso. 4. encarcerado.

realização conjunta da A N P O F . a exemplo do que ocorre com os líquidos imiscíveis. Este último obedece a princípios rígidos. b.9 7. Mutatis mutandis. para que o corpo possa caminhar n u m único e harmonioso ritmo. buscando ordenar a unidade social. a vida virtuosa dos cidadãos e a atribuição de bens materiais úteis para o desenvolvimento social. O acidente (accidens). anteriores reflexões já expostas e publicadas nos Anais do VIII Encontro Nacional de Filosofia da A N P O F Caxambu. aprimorar o existente e corrigir o desordenado. O s deveres do chefe da comunidade. de m o d o a constituírem conhecimentos indissociáveis. B e m particular transcendental: deve ordenar-se unicamente ao B e m c o m u m transcendental. com apoio do CNPq. c. B e m c o m u m temporal: é subordinado aos dois anteriores. da U N I C A M P e da USP. obedecendo a três objetivos: a paz.352 Eduardo Carlos Bianca Bittar a. no conjunto dafilosofiatomista. era esta a proposta aristotélica: realizar a eudaimonía da polis por meio de u m viver ordenado e racional. inflexíveis de causa e efeito. da F A P E S P da I-APEM1G. B e m c o m u m transcendental: destino de tudo. ou ainda. do C A P E S e da FINEP. que são o acidente e o fato natural. A lei de causalidade só é desrespeitada quando da ocorrência do caso fortuito. de m o d o a permitir a previsão da ocorrência desses fatos a partir da simples observação da lei que o rege. Relatividade e contingência da lei No mundo ocorrem duas espécies de fatos. é u m a espécie de fato que não se caracteriza por ser de absoluta e imperiosa ocorrência. sob o título de Poder e legitimidade na teoria política aristotélica (pp. e m apertada síntese para o que segue. a política. a felicidade da comunidade. d. para que se realize o objetivo almejado. ou seja. Isto. mas pela relatividade e 9. a ética e a Justiça estão profundamente imbricadas. promover e conservar a ordem. suprida pela Justiça c o m o virtude (dikaiosyne). a respeito. Assim. Também. por sua vez. O chefe da comunidade civil deve empenhar-se e m instaurar. são os de suprir aquilo que falta. B e m particular temporal: é o B e m do particular na realidade temporal e contingente e subordina-se a todos os precedentes. 25 e 30 de setembro de 1998. mas subordina o B e m particular temporal. 95-96). c o m o no da aristotélica. . nos levaram a estas mesmas conclusões. orientados segundo a reta-razão. que podia se realizar espontaneamente pela simples amizade (philía).

ou seja. mais de acordo c o m a lei natural. o acidente está para a imprevisibilidade. u m a alma jovem. c o m o também contingente. dado o surgimento constante de novos fatos. por ser pouco experiente. conclusões retiradas dos prima praecepta. caracteriza-se por ser fruto da razão prática humana. derivar de u m a potência não só dependente. Todas as variações que possam ocorrer c o m u m a lei ou são de acréscimo ou são de subtração. Filosoficamente. portanto. verbi gratia. b. não existindo leis positivas universais e absolutas. a parte contingente da lei natural é a que decorre dos praecepta secunda. o h o m e m caminha lenta e gradativamente do imperfeito para o perfeito c o m o decurso do tempo. c o m o as conclusões só podem ser estabelecidas a partir do trabalho racional. de acordo c o m a própria capacidade de compreensão variável de indivíduo para indivíduo. A razão e o conhecimento humano alargam-se c o m o decorrer dos séculos e. condições pessoais: de acordo c o m a maior ou menor capacidade humana de domínio sobre as paixões e os maus costumes. Assim c o m o a regularidade está para a previsibilidade. conclui-se que a capacidade de extrair. utilizando-se de profundo senso realista. são essas conclusões variáveis extraídas a partir da m e s m a lei natural que informam o conteúdo da lei positiva. e m muito conseqüência dos estudos e investigações acerca de Aristóteles. Destarte. que são absolutos. a partir da lei natural (lex naturalis). A s contingências obedecem a: a. Assim podemos verificar que caminhamos de legislações mais rudimentares para outras mais avançadas e. ou seja. conclusões aplicáveis à realidade dependerá do grau de evolução sinderético do ser humano. c. N ã o se pode prever todo tipo de acontecimento. A natureza humana varia de u m a localidade para outra. novos problemas e novas ações numa sociedade permanentemente e m evolução. Assim. assim c o m o todas as ciências sociais (assim ora chamadas as ciências do espírito). São Tomás de Aquino. A ordem ético-jurídica. condições circunstanciais: variabilidade da natureza humana na determinação do conjunto de valores que definem aquilo que é justo e aquilo que é injusto. afirma . condições temporais: gradatim ad imperfecto ad perfectum.Direito e Justiça em São Tomás de Aquino 353 contingência. que trabalha c o m a conduta dos seres humanos. tem u m a capacidade de compreensão das ciências práticas (philosophia) muito menor que as almas mais experientes. daí a necessidade imperiosa de que se estabeleçam leis adequadas a cada região.

art. Aristóteles. q. 8. elucidando a questão. q. Destarte. numa sociedade ampla. que pasmou a Antigüidade por séculos. na Ethica a lei é posta para a defesa e segurança da comunidade política (díkaion nomimón. Se uma situação econômica surgir. cujo desrespeito importaria na quebra do que é para todos -.. por exemplo. 1). 1. mas não se adequar a casos particulares. Et ideo id quod naturale est homini. existe a necessidade de que os juizes sejam numerosos para que exista a verdadeira efetivação da Justiça. a garantia tomasiana da existência de u m direito à resistência civil. deve-se preferir a lei omissa ou defasada para que se procure o B e m C o m u m . ou seja. potest aliquando difecere" (Sum. Theol.. direito este exercitável por qualquer um. 644 D. art. ensejando o nascimento do direito de desobedecer a lei. já dizia: "Não devemos buscar o mesmo grau de certeza em todas as coisas" (Ethica Nicomachea. 96. 1. 645 A.287 a. o Doctor Angelicus. 57. a este respeito. o Aquinate afirma também: "E sucede com freqüência que a observância de algum ponto da lei é útil à saúde comum e prejudicial em alguns outros" (Sum.287 b) e de Platão (Leis. ou ainda: "natura autem omnis est mutabilis. não dependendo da decisão do chefe da comunidade ou do legislador. pois muitas vezes pode não se adequar ao B e m C o m u m . O regime das leis O que é mais conveniente para a comunidade civil. ou justo total). 674 B): o regime das leis. 6).pois. tendo sido recorrente recurso de argumentação entre os círculos sofistas. Aquilo que é contingente pode ser genericamente correto. tendo seu alcance limitado aos casos mais comuns. que é a finalidade do próprio conjunto social. Reiterando a posição do filósofo. repudiando a paixão. cap. É nesse momento que a necessidade supera a lei. é muito mais fácil que se encontrem poucos bons legisladores do que muitos juizes que possam ser considerados bons para o exercício do cargo. Por sua vez. Theol. III. 2). I-II.354 Eduardo Carlos Bianca Bittar categoricamente que o legislador não pode prever todos os casos que venham a ocorrer futuramente. O que é natural ao h o m e m pode falhar. A s razões para essa escolha são desta maneira apresentadas: a. estar sob um regime de leis ou de homens? Esta é u m a questão clássica. opta pela m e s m a posição de Aristóteles (Política. Aqui há u m ingrediente não-presente na teoria peripatética . . n. II-II. I.

irá apenas executá-la. L V . ao exercer sua função legiferante. iniustitia est. caso contrário será usurpada a sentença. sendo conduzido e deixando-se cegar pelo amor. por motivo de ter sido promulgada segundo o mero arbítrio do legislador ou por não estar adequada a novos tipos de problemas surgidos e m meio à constante escalada evolutiva humana. deixando de existir a objetividade necessária à segurança de u m julgamento apropriado. por sua vez. não vincula os indivíduos. é o efeito da lei. não tendo fundamento natural. procura prever os casos acessíveis à capacidade humana e m momento anterior ao da ocorrência dos fatos. pelo ódio. obedecendo a u m complexo de atos que possam lhe conferir o caráter de vinculatória por ter força natural. nec habet vim obligandi" (Sum. irá analisá-los no momento de sua emergência. o termômetro do justo e do injusto. Se o juiz estiver submisso à lei.. também: "Et ideo. Theol. A lei justa de ordenação do convívio social é produzida pelo legislador. chamada intencional. do contrário será injusto. por sua vez. auuz». si scriptura legis contineat aliquid contra ius naturale. . c.Direito e Justiça em São Tomás de Aquino 355 b.. que guia a prudência do juiz.Sum. escolhendo e elegendo. seja proferida a sentença de acordo c o m a recta ratio. Unde manifestum est quod ius est obiectum justitia . quaest. estando distante da ocorrência dos fatos que poderiam influenciá-lo. pois senão estaremos diante de u m a sentença temerária. art. II-II. O legislador produz o corpo legislativo e m abstrato. O juiz. que. pelas paixões. sicut non dat rolrer iuri naturali. dans ei auctoritatis rolrer'' Assim. art. Verificamos que o julgamento é algo imprescindível para a administração da Justiça entre os homens desde que: proceda de u m a inclinação justa. Theol. proceda de u m a autoridade competente e instituída para o desempenho da função judicante. pois u m a lei só encontra força na natureza. 6). I). o juiz (iudex). Se a lei escrita for injusta. O objeto da Justiça é o Direito (Et hoc quidem est ius. N u m a primeira fase. O ato da Justiça é o ato de julgar. Ius autem positivum scriptura legis et continet et institui!. q. pode envolver-se subjetivamente no caso.10 A noção do que participa do natural é... a sentença baseada nessa lei não será vinculativa ou obrigatória. ita nec potest eius rlorer minuere vel auferre: quia nec voluntas hominis potest immutare naturam. LVII. o legislador (legislatoris). diante do fato.. por u m 10. o legislador atua através do intelecto especulativo. e aquilo que contraria o B e m C o m u m . portanto. "Dicendüm quod lex scripta. Estamos verdadeiramente diante de u m ciclo: a lei escrita deve instituir a lei natural (concretizá-la) para que tenhamos u m a sentença baseada na lei escrita proferida segundo a reta-razão.

A Justiça comutativa. art.. locação. a afabilidade. que consiste na repartição de bens na sociedade civil segundo o mérito de cada qual. N ã o se pode omitir a promulgação c o m o fase importantíssima para que se dê publicidade ao preceito legislativo. pela violência. ordena aos súditos a execução ou efetivação da intenção eleita primariamente por u m ato de imperium. a veracidade. pela difamação ou pela desigualdade oriunda da violação dos respectivos direitos e deveres e m contratos e m geral. que rapidamente se encaminhará para seu fim. se houver acepção de pessoa segundo sua riqueza na eleição de u m cargo profissional. poderá fruir dos benefícios que advirão a esta sociedade. pode ser viciada de múltiplas maneiras. como compra e venda. depósito. o julgamento parcial (quaest. também. permitindo u m relacionamento social . A Justiça distributiva. O injusto e os vícios da Justiça O exercício da Justiça pode ser viciado de muitas maneiras. 9. Theol. L X V I ) .a religião.61. pelo roubo. Assim. q. se existem vícios que pervertem a Justiça. a participação desonrosa do advogado (quaest. teremos a descaracterização do seu conteúdo. pelo furto. a liberalidade. orientando as condutas para o B e m C o m u m . lato sensu. teremos u m vício de Justiça. L X I V ) . então. participam da ordem moral humana. estará viciada caso utilize critérios falaciosos de atribuição.356 Eduardo Carlos Bianca Bittar juízo da razão. pela prisão arbitrária. empréstimo e até e m usufruto. Se a reta-razão orientou as decisões do legislador que ponderou as escolhas pelo justo meio segundo a lei natural . 3). o meio mais adequado para que se alcance a meta colimada. virtudes conexas e m e s m o participantes da Justiça c o m o virtude maior. L X X I ) são todos exemplos de vícios que afetam de maneira direta ou indireta a Justiça. Por exemplo. exercida na distribuição igualitária dos bens nas trocas entre particulares.. orientado pelo intelecto prático ou agente. LXVIII). a acusação mentirosa (quaest. aplica a lei de acordo c o m o seu fim (usus). a violação da propriedade (quaest. II-II.. N a fase executória. O homicídio (quaest. Todos se regulam pelo princípio de que ambas as partes têm o direito à m e s m a quantidade (Sum. LXVII). existem. Assim a piedadefilial. Mas.

quando sua vida estiver dependendo do objeto do roubo. encontram-se. Theol. ou seja. . ainda.. O matrimônio (matrimonium) é algo proveniente do ius naturale strictissimo modo.. 12). se foi o direito próprio do h o m e m racional aquele que instituiu a propriedade privada. na definição do jurisconsulto romano Gaio). de m o d o a evitar grandes disparidades sociais. LVIII. não sendo derivada do Direito natural (quod naturalis ratio inter omnes hominis constituit. cabe ao legislador equilibrar u m a distribuição eqüitativa da m e s m a entre os indivíduos. q. quaedam aliae virtutes secundariae adiungutur: sicut misericórdia. A saber: a. Assim. art. Isto se dá porque o h o m e m integra a família como primeiro núcleo de convívio para depois congregar-se e m sociedade. só o Estado tem o direito de matar e m prol da sanidade do corpo social (ius vitae ac necis). O casamento monogâmico é o próprio para a realização desses valores.Direito e Justiça em São Tomás de Aquino 357 harmonioso que favoreça o desenvolvimento dos valores humanos mais sublimes dentro da sociedade.'' 10. c. C o m o decorrência natural de u m a variação imensa de conclusões retiradas das premissas gerais do pensamento do Doutor Angélico. ou seja.. daquela parte do Direito natural quod omnia animalia docuit. 11. mas decorrente da convenção do h o m e m . amputando-lhe o membro degenerado. cum sid virtus cardinalis. o roubo e o furto não são considerados infrações quando o indivíduo se encontrar e m u m a situação de necessidade. liberalitas et aliae huiusmodi virtutes (. b. Aplicações práticas do conceito de Justiça A propriedade privada encontra seu fundamento no ius gentium. II-II. também. outras aplicações inevitáveis do conceito de Justiça depreendido da forma como foi elucidado. M a s o matrimônio humano difere da união impulsiva e instintiva do animal. do ius positivum. desde que a pretensão seja a autodefesa e não o assassínio da outra parte. uma vez que não é algo advindo da natureza. pois encontra objetivos outros diferentes da mera procriação: a associação do h o m e m com a mulher e a educação dos filhos. a legítima defesa é consentida desde que haja u m a proporcionalidade entre reação e ameaça e.)" (Sum. "Dicendüm quod iustitiae. A escravidão é outra instituição do Direito das Gentes.

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