ROMPENDO O CICLO DA EXCLUSÃO

Reconhecimento, Validação e

Uma estratégia para a inclusão

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CIDADE SOLIDÁRIA

validar competências

Certificação de Competências

Um novo instrumento ao serviço do País visando a superação de uma das principais causas de Pobreza e Exclusão nos nossos dias – a Baixa Qualificação dos Portugueses
Texto de Ana Cameira *

A

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) tem em funcionamento, desde Janeiro de 2004, um Centro de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (CRVCC). A funcionar no Largo Trindade Coelho em Lisboa e na Aldeia de Santa Isabel em Albarraque, este Centro destina-se a adultos maiores de 18 anos que, não possuindo uma escolaridade mínima obrigatória, podem solicitar o reconhecimento e validação dos saberes e competências adquiridos nos mais variados contextos ao longo da vida, podendo resultar na obtenção de uma certificação com equivalência escolar ao nível do 4º, 6º ou 9º ano (1º, 2º ou 3º Ciclo) do Ensino Básico. Este Centro integra o sistema nacional de RVCC, que consiste na instalação de uma rede de Centros RVCC, constituída já por um total de 87 Centros. A implementação deste sistema, da responsabilidade da Direcção Geral de Formação Vocacional, vem dar resposta à necessidade de reconhecer, validar e certificar os conhecimentos/com-

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A equipa técnica do Centro de RVCC da SCML com os oito primeiros candidatos certificados no júri de validação realizado no dia 9 de Julho de 2004

petências desenvolvidos ao longo da vida, bem como de promover uma atitude que valorize a aprendizagem contínua. Portugal apresenta níveis de escolaridade da sua população activa muito baixos. No entanto, e de acordo com o Plano Nacional de Acção para a Inclusão (2001), cerca de 62% da população activa com uma escolaridade inferior à actual escolaridade obrigatória (9º ano de escolaridade ou 3º ciclo do Ensino Básico) encontra-se numa situação de subcertificação. Os conhecimentos e competências, desenvolvidos nos mais diversos contextos de vida, não se conver-

tem na obtenção de diplomas. Deparamo-nos então com uma população subcertificada no sentido em que os seus reais conhecimentos têm uma correspondência a um nível escolar superior àquele que possuem. Os objectivos principais da actuação do Centro de RVCC da SCML são: • Proporcionar qualificação escolar a uma população activa (interna e externa à SCML) que não possui uma escolaridade mínima de 9 anos; • Identificar as competências, adquiridas ao longo da vida, dessa mesma população;

• Desenvolver acções de informação, aconselhamento e acompanhamento que visem o reconhecimento e a certificação dessas competências; • Apoiar a população-alvo na construção dos seus projectos futuros; • Contribuir para a valorização de uma população activa até aqui socialmente desprestigiada. No ano de 2004 o Centro de RVCC da SCML registou uma procura por parte de 564 pessoas. Por iniciativa própria procuraram os seus serviços um total de 105 funcionários da SCML, 20 ex-formandos da Aldeia de Santa Isabel (ASI) (na sequência da mobilização efectuada em conjunto com o respectivo Centro de Formação Profissional e 157 outros. Encaminhados por outros serviços registou-se: • Um total de 154 pessoas, identificadas por parte das Direcções de Acção Social Local da SCML; • 10, por parte dos Serviços de Orientação, Formação e Inserção Profissional (OFIP) da SCML; • 105, por parte Centro de Formação da Associação de Escolas do Concelho da Amadora; • 13 por outros serviços/entidades. Formalizaram a sua Inscrição no Centro 479 pessoas, sendo 54,5% da categoria supra-referida, seguindo-se os Funcionários da SCML, com um peso de 21,9%. Em todas as subcategorias de público verificase uma predominância do sexo feminino (gráfico 1). Dos 479 inscritos em 2004, a maioria (32%), tem idade compreendida entre os

Gráfico 1. Total de procura e inscritos no ano de 2004 por género e público Procura H M HM Inscritos H
Candidatos numa Sessão de Balanço de Competências com a formadora de Linguagem de Comunicação e Cidadania e Empregabilidade

66

57 23 209 275

9 107 82 164 11 105 20

66

33 23 9 195 261 60 82 93
200 300

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0

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Outros

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Funcionários SCML

Ex-Formandos ASI

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Para Marie-Christine Josso "não podemos pensar no futuro se não há uma reflexão crítica sobre o que foi o passado e se não pensamos também sobre todos os recursos que acumulámos progressivamente no decurso da nossa vida passada, incluindo também os projectos que deixámos e que constituem potencialidades para o futuro"
26 e os 35 anos, seguindo-se o escalão etário dos 36 aos 45 anos de idade, com um peso de 28%. No escalão etário dos 46 a 55 encontram-se cerca de 20% do total de inscritos. Os escalões etários dos indivíduos com idade inferior a 25 anos e com idade superior a 56 abrangem, respectivamente, 14% e 6% do total de inscritos. A distribuição dos inscritos no ano de 2004 por escalão etário apresenta algumas diferenças numa análise por género, constatando-se que os homens são “mais jovens” que as mulheres (com idade igual ou inferior a 35 anos encontram-se cerca de 66% dos homens e apenas cerca de 38% das mulheres). Numa análise por tipo de público constatam-se, igualmente, algumas diferenças, quer entre o total de inscritos por tipo público, quer entre homens e mulheres da mesma categoria de público. Deste modo verifica-se que os ex-formandos são os “mais jovens”, com apenas 0,5% com idade superior a 26 anos e os Funcionários da SCML os “menos jovens” onde cerca de 54% tem idade igual ou superior a 46 anos. A maioria dos inscritos provenientes da Acção Social Local (ASL) e do OFIP têm idade compreendida entre os 26 e os 35 anos (com um peso de 43%), sendo o escalão seguinte (inscritos com idade entre 36 e 45 anos) o que assume maior peso na categoria Outros (36%). Relativamente à distribuição da idade entre géneros verifica-se alguma homogeneidade nos Ex-Formandos da ASI e do conjunto ASL/OFIP. No que respeita aos Funcionários da SCML e Outros constata-se que os homens são mais jovens que as mulheres (gráfico 2). Em relação às habilitações académicas de entrada a maioria (61%) dos inscritos tem o 2º Ciclo do Ensino Básico (6º ano de escolaridade) não se verificando diferenças significativas entre homens e mulheres. Numa análise por tipo de público constata-se que todos os Ex-Formandos têm o 2º Ciclo completo (tipo de público com maior nível de escolaridade de entrada), seguindo-se os Outros com 67% de inscritos com o 6º ano de escolaridade. Os inscritos da ASL/OFIP e Funcionários da SCML apresentam uma distribuição semelhante, com cerca de 49% de pessoas com o 2º Ciclo do Ensino Básico (gráfico 3). Analisando a situação face ao emprego dos inscritos constata-se que a maioria, 61%, é Trabalhador por Conta de Outrem, seguindo-se os Desempregados de Longa Duração, com um peso de cerca de 20% do total de inscritos. Não se verificam grandes diferenças entre géneros. Numa análise por tipo de público verifica-se alguma semelhança na distribuição

Gráfico 2. Inscritos por tipo de público, género

e escalão etário
100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0%

Gráfico 3. Inscritos por tipo de público, género e habilitações académicas
100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0%

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Candidatos com profissional de RVCC preparando os posters para apresentação em sessão de júri

Gráfico 4. Inscritos por

tipo de público, género e situação face ao emprego
100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0%

Trabalho conta própria Trabalho conta outrém DLD (> 12 meses) Não DLD (< 12 meses) À procura do 1º emprego Outra

H M HM

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dos inscritos por situação face ao emprego entre Ex-Formandos e Outros, com a predominância de Trabalhadores por Conta de Outrem. A categoria ASL/OFIP destaca-se com cerca de 65% de Desempregados de Longa Duração (gráfico 4). Iniciaram no ano, o processo de RVCC um total de 144 pessoas sendo a maioria do género feminino. A maioria dos iniciados é Funcionário da SCML (41%) seguindo-se os Outros (33%). Entre os restantes encontram-se aproximadamente 15% das pessoas que chegaram ao Centro através do encaminhamento por outros Serviços da SCML, designadamente os Serviços de Acção Social Local e cerca de 11% das pessoas haviam sido formandos do Centro de Formação Profissional da Aldeia de Santa Isabel. Foram realizadas 11 sessões de Júri de Validação e Certificação, tendo sido atribuídas 42 Carteiras Pessoais de Competências Chave ainda no ano 2004, das quais 37 cul-

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Gráfico 5. Inscritos que iniciaram e concluíram processo de RVCC por género e tipo de público Iniciaram processo H M HM Concluíram processo
6º ano de escolaridade 1 9º ano de escolaridade Validado 1 6º ano de escolaridade 9º ano de escolaridade 6º ano de escolaridade 9º ano de escolaridade Validado 1
Funcionários Ex-Formandos ASL / OFIP Outros HOMENS

Gráfico 6. Concluídos por escalão etário, situação face ao emprego, habilitações à entrada e saída e tipo de público
>25 anos 26 a 35 anos 36 a 45 anos 46 a 55 anos >56 anos Trabalho conta própria Trabalho conta outrém DLD (>12 meses) Não DLD (<12 meses) Outra <1º ciclo 1º ciclo 2º ciclo 1º ciclo 2º ciclo 3º ciclo
0 5 10 15 20 25 30 35 40

49 95 144

17 3 20 4 37
HOMENS MULHERES MULHERES

minaram na emissão de certificado ao nível do 3º Ciclo do Ensino Básico (9º ano de escolaridade - B3) e 4 na emissão de certificado ao nível do 2º Ciclo do Ensino Básico (6º ano de escolaridade - B2). Verificou-se ainda uma pessoa validada parcialmente ao nível do 6º ano de escolaridade (V). Dos adultos validados/certificados cerca de 55% são mulheres e 45% homens (gráfico 5).

Em 2004 40 pessoas obtiveram validação/ /certificação no nível escolar imediatamente a seguir ao que possuíam, e duas pessoas, obtiveram certificação ao nível do 9º ano, possuindo à partida apenas 1º ciclo

Comparando a escolaridade de entrada com o nível de certificação alcançado, 40 pessoas obtiveram validação/certificação no nível escolar imediatamente a seguir ao que possuíam, e 2 pessoas, obtiveram certificação ao nível do 9º ano, possuindo à partida apenas 1º ciclo. Verifica-se ainda um Funcionário validado parcialmente ao nível do 6º ano de escolaridade não se registando, desta forma, um aumento da escolaridade (gráfico 6). Numa análise da “taxa de conclusão” do processo por tipo de público (rácio entre os adultos que iniciaram e os que concluíram o processo de RVCC em 2004 por tipo de público) verifica-se uma taxa de conclusão de 35% para os Outros, 33% para Ex-Formandos do CFP-ASI, 20% para Funcionários da SCML e 14% para adultos encaminhados pelas Direcções da ASL e do OFIP. Não obstante, o processo de RVCC ter uma duração média de 50 horas é, no entanto, um processo individualizado. Assim, a maior taxa de conclusão para Outros e Ex-Formandos encontra-se relacionada com o facto de a maioria destes adultos terem menores necessidades formativas (prévias e complementares ao processo de RVCC), para além de apresentarem maior autonomia e motivação. Quanto aos Funcionários e aos adultos encaminhados pelas Direcções da ASL e do OFIP a menor taxa de conclusão deve-se a maiores neces-

Não obstante o processo de RVCC ter uma duração média de 50 horas é, no entanto, um processo individualizado

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Ainda que a certificação/validação constitua o culminar do processo, a intervenção do Centro, pela metodologia adoptada, permite ao indivíduo a possibilidade de redefinir um percurso de vida que promova a sua autonomia pessoal e profissional
sidades formativas. Verifica-se ainda, que os adultos encaminhados pelos serviços da ASL/OFIP carecem de um maior número de sessões e de um maior apoio individualizado. Ainda que a certificação/validação constitua o culminar do processo, a intervenção do Centro, pela metodologia adoptada, permite ao indivíduo a possibilidade de redefinir um percurso de vida que promova a sua autonomia pessoal e profissional. A própria passagem pelo Centro de RVCC, pela adopção de uma intervenção individualizada e com base na história de vida do indivíduo, constitui certamente um instrumento de inclusão social. A participação no processo de reconhecimento, validação e certificação promove a valorização e crescimento dos indivíduos. Ao confrontar-se com o seu percurso de vida, o indivíduo simultaneamente auto-consciencializa-se dos conhecimentos e saberes adquiridos ao longo da vida, promovendo, desta forma, a (re)definição de um novo percurso de vida. Grande parte do público que procura o Centro, e nomeadamente no que respeita aos públicos encaminhados pelos serviços de Acção Social Local, não têm a noção de que determinadas vivências são potencialmente ricas em termos de competências e saberes. Consideram, na sua maioria, que nada do seu passado é importante, o que coloca logo à partida um entrave à perspectivação de um projecto futuro. Para Marie-Christine Josso “não podemos pensar no futuro se não há uma reflexão crítica sobre o que foi o passado e se não pensamos também sobre todos os recursos que acumulámos progressivamente no decurso da nossa vida passada, incluindo também os projectos que deixámos e que constituem potencialidades para o futuro”. Um estudo efectuado sobre o Impacto do Reconhecimento e Certificação de Competências Adquiridas ao Longo da Vida constata que os principais efeitos de um processo de RVCC incidem, exactamente, em dimensões pessoais de carácter eminentemente subjectivo: reforço da auto-estima e da auto-valorização, reconstrução ou mesmo definição do seu projecto pessoal e profissional. A consolidação destas variáveis pessoais contribui, indirectamente, para a empregabilidade e para a inserção socioprofissional dos adultos. De acordo com este estudo, o processo de RVCC, embora não directamente direccionado para o efeito, tem promovido uma aproximação ao mercado de trabalho por parte de desempregados e inactivos. No inquérito efectuado aos adultos já certificados verifica-se: 29,2% dos adultos que se encontravam desempregados no início do processo de RVCC estavam empregados seis meses após a certificação; 15,4% dos inicialmente inactivos passaram a considerar-se desempregados seis meses após a certificação; os indivíduos que se mantiveram desempregados (entre o início do processo e seis meses após a certificação) passaram a estar mais motivados para arranjar trabalho.

Joaquim Castelo e o seu poster apresentado em sessão de júri

Um estudo de Impacto do Reconhecimento e Certificação de Competências Adquiridas ao Longo da Vida constata que os principais efeitos de um processo de RVCC incidem, exactamente, em dimensões pessoais de carácter eminentemente subjectivo: reforço da auto-estima e da auto-valorização, reconstrução ou mesmo definição do seu projecto pessoal e profissional

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Sessão de júri de validação, no Auditório da Aldeia de Santa Isabel da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

29,2% dos adultos que se encontravam desempregados no início do processo de RVCC estavam empregados seis meses após a certificação
O Centro de RVCC, como resposta integrada no âmbito da actuação da SCML sobre os mais diversos públicos aos quais presta apoio no sentido de melhorar as suas condições de vida desempenha, deste modo, um papel de extrema importância na prevenção de fenómenos de marginalização numa população pouco escolarizada que, não exercendo uma participação activa na sociedade, está impedida de assumir a sua plena cidadania. Actuar junto desta população numa lógica preventiva, pela via do reconhecimento, validação e certificação de competências, poderá permitir aos indivíduos a promoção da sua empregabilidade, aumentando a sua capacidade para obter e manter um emprego, e evitar situações de desemprego prolongado.
* Licenciada em Economia. Pós-graduada em Políticas de Desenvolvimento dos Recursos Humanos. Coordenadora do Centro de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências da SCML.

BIBLIOGRAFIA

CIDEC (2004), O Impacto do Reconhecimento e Certificação de Competências Adquiridas ao Longo da Vida, Lisboa, DGFV JOSSO, Marie-Christine, “As histórias de vida abrem novas potencialidades às pessoas”, in Aprender ao longo da vida, nº 2, Outubro de 2004, Associação “O Direito de Aprender”, pp 16-23. MTS (2001), Plano Nacional de Acção para a Inclusão 2001-2003, Lisboa, MTS.

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