O que é Filosofia? Fundar o seu pensamento na razão, convencer por meio de argumentos pertinentes (K.-O- Apel)
1. Pto. Prévio: Metodologia de estudo
1.1. Como estudar filosofia?
(a) Da matéria:
• Conhecer o programa.
• Conhecer os critérios de avaliação.
• Informar-se da sequência das matérias.
• Identificar as questões importantes em cada nova unidade.
• Ter à mão um dicionário de filosofia para tirar dúvidas.
(b) Das ideias para melhorar a concentração:
• Estar mesmo comprometido com o trabalho: não fazer duas coisas ao mesmo tempo.
• Colocar um sinal nas matérias que estava a estudar, mas onde se perdeu.
• Tomar nota de novas ideias que ocorram, para mais tarde serem retomadas.
• Quando se sentir cansado, parar durante breves minutos.
• Estar mental e fisicamente apto: Atenção ao ditado “é-se aquilo que se come”.
(c) Dos conselhos para ouvir com atenção:
• Querer ouvir.
• Saber antecipadamente qual a matéria a ser tratada.
• Pensar em perguntas sobre tema.
• Afastar as ideias e problemas pessoais.
• Sentar-se num lugar onde possa ouvir e acompanhar tudo o que se passa na sala.
• Interromper e fazer perguntas quando for pertinente.
1.2. Como tirar notas e apontamentos?
Estilos:
• Categorizar a informação numerando os tópicos
Aplicar o esquema:
Primeiro tópico
A. Escrever a primeira frase significativa:
1. Primeiro exemplo.
2. Segundo exemplo.
B. Escrever a segunda frase significativa(...)
•
•
Exemplo:
As origens da filosofia
A. A filosofia é uma ruptura com o mito:
1. O mito era já uma forma organizada de
pensamento.
2. Nos primeiros filósofos há ainda
estruturas do mito.
B. A filosofia só se emancipa com Sócrates(…)
Formas de tomar notas
- Ser selectivo, só escrever o que é importante:
Ex: “Filosofia v. Ciência. Na origem, até época moderna, não há distinção. A φ nos présocrát. era uma investig. acerca da natureza. A tensão entre explicação e a contempl窺.
foi sentida por todos estes pensadores. A φ continuou a perseguir a linha contemplativa e
especulativa enquanto a ciência desenvolve a via activa e transf. do real, a via da causa
eficiente, sem nunca ¬ a aspiração teorética que encontramos nos 1ºs. pensadores.
- Abreviar as frases e palavras deixando de fora partes desnecessárias.
- Usar símbolos e esquemas sempre que possível.
Exemplos de abreviação nos apontamentos
- Eliminar as vogais quando possível. Ex: pq., sp..
- Eliminar o fim das palavras. Ex: bio, suj..
- Abreviar algumas palavras. Ex: brev.te, mto.
- Usar símbolos conhecidos ou criar os seus. Ex.→ (implica), ∧ (e), ∴(logo), ¬ (não).
F. Rua – Filosofia – 10º Ano: E.S. Pedro Nunes
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e a mais completa possível. • Reconhecer o ponto mais importante da conclusão. em particular. uma reflexão. Princípios (a) A argumentação filosófica obedece às regras gerais da demonstração • Tratar de tudo o que se propõe. A argumentação filosófica Nota Prévia – Todo o texto filosófico deve ser argumentativo. (iv) Rigor colocado nas fontes e na descrição dos factos. Rua – Filosofia – 10º Ano: E. (iii) Desenhar a geografia do argumento: origem e tipologia. (iv) Inserir o argumento nas correntes filosóficas: naquelas onde se filia ou. no entanto. • Reescrever e parafrasear as premissas para tornar o argumento mais claro. Eco: A história de Sigma. pelo dicionário ou pelo contexto. e conferir as ideias e frases que servem de suporte e objecção às premissas. Hofstädter em Gödel. (ii) Esclarecimentos históricos e hermenêuticos: • Partir do que se sabe acerca do autor. Ex. Escher e Bach. ou um ensaio de poucas páginas.2. em anexo 1. O que a seguir vamos dizer aplica-se. (c) Síntese: Qual é a tese? • • • • Qual é o argumento principal? Quais os argumentos secundários? Qual a conclusão? A partir daqui verificar quais as descrições. (v) Rigor conceptual: termos bem definidos e articulados entre si. 2. em anexo 2. F. (vi) Outras. No entanto. há variações. • Definir os termos desconhecidos. (ii) A apresentação da estrutura semântica do argumento de D. ter em conta a extensão do argumento. Ex. de preferência em árvore. • Deve ser coerente. (c) Um texto bem organizado deve expor claramente a sequência lógica do argumento ou dos sub-argumentos.1. • Verificar os indicadores das premissas e da conclusão. a argumentos curtos: normalmente um raciocínio. Pedro Nunes Página 2 de 4 . (i) Qualidade do problema: clareza e originalidade.S. as explicações. por oposição.Metodologia da argumentação filosófica 2. Exemplos: (i) A análise do texto de U. • Ter boa apresentação (b) Deve possuir uma boa qualidade filosófica: consistência e validade Esta é dada por. (b) Análise: Identificação do tema/problema • Reconhecer a estrutura do texto/autor. 2. (ii) Clareza da linguagem: evitar a obscuridade. naquelas que contesta. • Normalmente requer várias leituras e releituras. Deve-se. (iii) Valor das premissas: se são fortes ou fracas. O COMENTÁRIO: o confronto com o texto filosófico (a) Compreensão: Contexto (i) Leitura: • Dever ser cuidada e pausada.
F.S. Que os exemplos que ilustrem as premissas não sejam contraditórios ou questionáveis. Que qualquer conceito novo ou importante deva ser definido e explicado: ex.Metodologia da argumentação filosófica 3. DIAGRAMA para a construção de um bom argumento Introdução: Começar com uma premissa que não seja controversa: • Premissa A • Premissa B • Premissa C Identificar o argumento e/ou a sua tese principal Explicitar em linhas gerais o desenvolvimento do argumento sob a forma de um plano de resposta Considerar os argumentos presentes nas premissas A. uso de uma palavra de forma diferente ou não habitual. 3. B e C Considerar as opiniões e/ou soluções anteriores Elaborar uma crítica pessoal do problema Conclusão Pto. 5. 4. ÚNICO: Alguns conselhos para uma boa redacção de um argumento: 1. Que a conclusão seja clara. Que as conclusões secundárias apoiem a conclusão principal. Que as premissas apoiem a conclusão. Pedro Nunes Página 3 de 4 . Rua – Filosofia – 10º Ano: E. 2.
a mais humana. Karl. Elas dão-nos a oportunidade de prevenir o infortúnio evitável e de experimentar. porventura o mais elevado de todos os valores sociais e individuais. da música. a civilização mais autocrítica e mais reformista do mundo. da poesia. Em relação a quase todos os valores que deveriam ser realizados pela sociedade. de apreciar criticamente e. e orientais. da ciência e da democracia. aos doentes. É a melhor porque a mais predisposta ao aperfeiçoamento. pois. existem outros valores que com eles vão colidir.Conclusão F. em 1981. Por toda a parte na terra os homens têm criado novos universos culturais. pelo menos desde Rousseau. a melhor de que temos conhecimento na história da humanidade. da protecção e auxílio às crianças. o choque de culturas.Contexto . 20. e como tal foi sentido..” Popper. característica da actual civilização ocidental. aperfeiçoar as reformas. Uma sociedade perfeita não é possível como facilmente se poderá constatar.1989. Conferência do autor. Análise de um argumento filosófico: Popper (Ficha de trabalho de casa) “O meu interesse pelo choque de culturas prende-se com o interesse por um problema importante: o problema da singularidade e da origem da nossa civilização europeia. da economia. (.S. na medida em que a liberdade do João pode muito facilmente entrar em colisão com a liberdade do Pedro. E com ela a exigência de igualdade perante a lei por forma a evitar ao máximo o recurso à violência. esta questão é. Fonte Expresso. se lhe possa censurar. ou quase todos..Tese .04.) Mas será a civilização ocidental algo de bom. E a civilização grega – um fenómeno sem paralelo – resultou de um cho que de culturas – das culturas do mediterrâneo oriental. com razão. deve ser restringida.Objecções . das ferramentas. pela ordem. e muito especialmente por jovens sempre em busca de algo melhor. Antes de me debruçar sobre o meu terra. (.. A ordem constitui o equivalente necessário da liberdade.Problema . (. gostaria de responder a esta questão. Sou pois um defensor da sociedade ocidental.Metodologia da argumentação filosófica 4. Só na nossa civilização ocidental é que a exigência moral da liberdade individual é amplamente reconhecida e posta em prática. O mesmo se passa com todos. muitas vezes perfeitamente distintos: os universos do mito. aos incapacitados e outros necessitados.) A liberdade tem infelizmente de ser limitada pela lei. da arte. Identifique: . Até mesmo a liberdade. se necessário. os valores que desejaríamos de ver implantados. do direito. Pedro Nunes Página 4 de 4 . os universos da moral... Foi o primeiro grande embate entre culturas ocidentais. em Viena.) E sabido que também a nossa civilização é muito imperfeita. a mais justa. Uma resposta parcial a esta questão parece-me encontrar-se no facto de a nossa civilização ocidental derivar da civilização grega. apesar de tudo o que.Argumentos das premissas . Isto resulta particularmente evidente. algo que mereça ser aclamado? Esta questão tem sido colocada repetidamente. é a mais livre. da técnica. Creio que a nossa civilização ocidental. Rua – Filosofia – 10º Ano: E. os universos dos meios de produção..
nasce uma troca verbal. Sigrna é levado a precisar o tipo de dor. Eco: A história de Sigma O Senhor Sigma ou a indispensabilidade da linguagem §1 Suponhamos que o senhor Sigma. §8 Mas por agora o que nos interessava ressaltar era como um indivíduo normal. Pedro Nunes Página 5 de 4 . O médico agora apalpa o estôrnago e o fígado de Sigma. Rua – Filosofia – 10º Ano: E. Visto que tenciona comunicar as suas dores a um médico. a consulta rege-se pela possibilidade. culturaliza-os. isto é. outros mais directamente envolvidos com atitudes que definiremos como 'ideológicas'. se a sociedade e a cultura o não tivessem humanizado como animal capaz de elaborar e comunicar signos?». da parte de ambos. fundamentais em relação aos fins da interacção social e a ponto de nos perguntarmos se os signos permitem a Sigma viver em sociedade ou se a sociedade na qual Sigma vive e se constitui corno ser humano não é mais do que um complexo sistema de sistema de signos. para um andar preciso num edifício. pp.Metodologia da argumentação filosófica Anexo 1: A análise do texto de U. Lisboa: Editorial Presença. Faz perguntas. Procura na lista telefónica de Paris: signos gráficos precisos dizem-lhe quem é médico e como encontrá-lo. que não é a língua de Sigma. O endereço é um signo que remete para uma posição precisa na cidade. U. […] Tenta dar um nome a estímulos imprecisos: dando-lhes um nome. durante uma estadia em Paris. para urna porta precisa desse andar. O Signo. §4 […] Sigma marca o número: um novo som diz-lhe que o número está livre. Sigma. Agora o médico marcou-lhe uma consulta e deu-lhe um endereço. a posição.murmura – ‘O senhor não bebe um pouco de mais?' Sigma admite: 'Como conseguiu sabê-lo?' .Pergunta ingénua. o médico está a interpretar sintomas como se fossem signos muito eloquentes: ele sabe a que corresponde urna certa mancha. começa a sentir dores na 'barriga'. teria havido para Sigma consciência racional da própria dor. e tenta explicar-lhe o que compreendeu naquela manhã: “J’ai mal du ventre”. […] §5 Está finalmente sentado diante do médico. mas não se fia: não está seguro de que Sigma tenha indicado com as palavras certas a sensação precisa. ele sabe que poderá usar a palavra (que o médico está à altura de compreender) em lugar da dor (que o médico não sente e talvez jamais tenha sentido). §2 Agora encontrou a palavra que lhe parece certa: esta palavra está pela dor que ele sente. […] §3 O senhor Sigma decide marcar uma consulta num médico. […] §7 Agora o médico olha as palmas das mãos de Sigma e vê-as manchadas irregularmente de vermelho: 'Mau sinal' . possibilidade de pensá-la e classificá-la. posto diante de um problema tão espontâneo e natural como uma comum 'dor de barriga'. um certo inchaço. §6 O médico compreendeu as palavras. Enfim. é constrangido a entrar imediatamente numa apertada rede de sistemas de signos: alguns ligados à possibilidade de efectuar operações práticas. para marcar a consulta (e também depois quando explicar ao médico o que sente). de se referenciarem a um sistema de signos de uso universal. 7 a 11 F. E finalmente ouve uma voz: esta voz fala em francês. deve passar de um código para outro. de algum modo.S. tenta assim dar à uma sua experiência pessoal uma qualificação que a torne semelhante a outras experiências já denominadas nos livros de medicina ou nos artigos de jornal. Todos. Eco. resume aquilo que era um fenómeno natural em precisas rubricas 'codificadas'.
S.Metodologia da argumentação filosófica Análise estrutural da dor de barriga do Sr. Rua – Filosofia – 10º Ano: E. Pedro Nunes Página 6 de 4 . Sigma ESTÍMULOS Rubricas Experiência Fenómeno codificadas pessoal natural Jornal 1º§ Livro de medicina Palavra “dor” 2º§ Médico 3º e 4º§§ Marcação de consulta Lista/Livro Nome Fala francês Tradução? 5º§ Som Fala com o médico Número de telefone Endereço Consulta Sintomas Verdadeiro? Investigação 6º§ Gestos Tipo de Dor Localização nos órgãos Palma da mão Sinais Manchas Sintomas 7º§ Álcool Sigma não compreende Médico Interpreta os sinais Doença Sistema de Signos 8º§ F.
S. Pedro Nunes Página 7 de 4 . em Hofstädter em Gödel. F. Escher e Bach (1979).Metodologia da argumentação filosófica Operações práticas Atitudes Consciência da dor Anexo 2: A estrutura semântica do argumento de D. Rua – Filosofia – 10º Ano: E.