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:: Verinotio - Revista On-line de Educação e Ciências Humanas.

Nº 5, Ano III, Outubro de 2006, periodicidade semestral – ISSN 1981-061X.

REI LEAR E A INDIVIDUAÇÃO RENASCENTISTA
Danilo Amorim*

Introdução:
O objetivo deste estudo é identificar os principais elementos do drama de
Shakespeare Rei Lear – escrito entre 1605 e 1606 – que expressam as alterações
substanciais

ocorridas

à

época

do

Renascimento.

Parte-se,

assim,

da

compreensão de que este é um momento-chave na reconfiguração das duas
relações básicas que constituem o fundamento de qualquer sociedade humana,
isto é, aquelas relações ligadas ao modo como se efetua o trabalho, ato fundante
da

mundaneidade

humana

a

relação

com

os

meios

de

trabalho

(fundamentalmente a terra, “laboratório natural” da humanidade) e as relações
com os outros homens.
Marx apresenta, logo no início da obra Formações econômicas précapitalistas, o quadro geral em que desemboca o processo iniciado no
Renascimento, como pressuposto para a existência do capital: “o trabalho livre e a
troca de trabalho livre por dinheiro, com o objetivo de reproduzir o dinheiro e
valorizá-lo” e “a separação do trabalho livre das condições objetivas de sua
efetivação – dos meios e do material do trabalho” (Marx, 1991, p. 65). Tratamos,
no entanto, apenas do estágio inicial desse processo: “O prelúdio do
revolucionamento, que criou a base do modo de produção capitalista, ocorreu no
último terço do século XV e nas primeiras décadas do século XVI. Uma massa de
proletários livres como os pássaros foi lançada no mercado de trabalho pela
dissolução dos séqüitos feudais” (Marx, 1984, p. 264), resultado da intensificação
das relações mercantis, que, por sua vez, impulsiona a produção manufatureira.
Lembrando ainda, novamente nas palavras de Marx, que “O revolucionamento do

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a arte e a ciência” (Heller. da “evolução espontânea” em hordas ou tribos. a existência humana ainda está tão ligada à natureza.. enfim. 167). muito menos um período de transformações estritamente artísticas ou científicas. a partir de limitada capacidade produtiva da própria humanidade. p. do mesmo modo que ele é proprietário sob condições que o vinculam ao agregado social. que fazem dele um elo da cadeia comunitária. a existência objetiva do indivíduo como proprietário das condições materiais de trabalho é um pressuposto real. Em uma palavra. por sua vez. 1982./ indivíduo e gênero são imediata e transparentemente inseparáveis (Chasin. estendendo-se da esfera social e econômica onde a estrutura básica da sociedade foi afetada até ao domínio da cultura. dependente desta. /. na manufatura. isto é. antecede e não deriva do trabalho. Alteração estrutural básica que envolve justamente a emergência de um novo modo de produção. na medida em que busca 2 . p. específicas da vida burguesa. 9). como condição da produção de cada um dos indivíduos que existem sob forma subjetiva determinada. as formas de consciência religiosa. envolvendo a vida de todos os dias e as maneiras de pensar. com Agnes Heller e José Chasin. Buscamos esclarecer rapidamente que o Renascimento não pode ser entendido como somente um fenômeno cultural. sendo que esta mesma. entendemos o Renascimento como “um processo social total. A importância dessas transformações no arcabouço societário revela-se na medida em que avaliamos os traços centrais da situação anterior – a manutenção da comunidade humana tal qual legada da condição natural do ser humano.. p. que a comunidade natural é efetivamente condição de produção – único meio através do qual o homem tem acesso à terra – e impõe limites ao desenvolvimento produtivo. ou melhor. Enfim. 7). as práticas morais e os ideais éticos quotidianos. nas equações societárias de tipo comunal. de novas relações sociais. Tipos de formações sociais que se conformam. 2000. aparece igualmente como pressuposto efetivo.modo de produção toma. como ponto de partida a força de trabalho” (1984. “em unidade objetiva com as condições da atividade produtiva”.

2000. tanto no relacionamento com as condições de trabalho quanto no relacionamento do homem com seus parceiros de atividade em todas as formas da práxis social (Chasin. compreendidas e aceitas como dadas e fixas na tradição. diz Chasin que ela se reproduz reiterando e multiplicando fronteiras. é modo de ser determinado naturalmente.unicamente a produção de valores de uso. de modo que em todas as suas modalidades. Vale ressaltar.. podemos considerar a complexidade das transformações históricas que envolvem justamente o abalo dessas relações básicas.. o fundamento do evolver é a reprodução inalterada das relações entre o indivíduo e gênero. a separação deste das condições de seu trabalho. 2000. Marca da sabedoria helênica. ao contrário. A organização social – de tipo comunal – não é resultado da própria atividade social. Donde provém a decisiva inclinação grega pela medida. o objetivo intrinsecamente limitado dessas formas sociais./ a civilização helênica é o justo império racional dos limites e das limitações (Chasin. a idéia de medida traduz antes de tudo a presença e a consideração permanente dos limites – da comunidade e dos indivíduos. Apenas para demarcar mais firmemente: As maneiras de viver dos homens do Renascimento /. ao tratar das individualidades produzidas nessa situação – sua “satisfação limitada” –. ou mais precisamente pela idealizada justa medida. /./ tinham suas raízes no processo através do qual os primórdios do capitalismo destruíram a relação natural entre o indivíduo e a comunidade. que. isto é. à sua situação social e ao seu lugar previamente definido na 3 . pelo nosso intento.. pp. para reprodução das relações comunitárias e de indivíduos dados. 167-8). como não poderia deixar de ser. dissolveram os elos naturais que ligavam o homem à sua família. na medida em que o principal pressuposto do capital é a “liberdade” do trabalhador.. 168-9). fazem-se limitantes. o que perfaz os contornos de uma existência objetiva que é definitiva e predeterminada. pp. Retomando as primeiras citações de Marx.

desesperadamente. por si. Elas tateiam. senão a totalidade das necessidades. adquirida no intercâmbio universal? O que é. Torna-se necessário aqui. no encalço de um vocabulário adequado” (Berman. etc. a evolução de todos os poderes humanos em si. A ruptura com uma condição estática e limitante converte-se necessariamente em fonte de dinamismo. e o homem ‘não deseja continuar a ser aquilo em que se transformou. 11-2). do início do século XVI até o fim do século XVIII. Os antigos proporcionavam 4 . ou: “com o desenvolvimento do capitalismo. pp.sociedade. senão uma situação em que o homem não se reproduz a si mesmo numa forma determinada. p. e abalaram toda a hierarquia e estabilidade. se desvencilhando do passado e se integrando no movimento absoluto do tornar-se? /.. quando despida de sua estreita forma burguesa. mas sim em sua totalidade. antes vivendo num processo de constante devir’” (Heller. 1989. não medidos por qualquer padrão previamente estabelecido – um fim em si mesmo? O que é a riqueza. limitada./. sem outros pressupostos salvo a evolução histórica precedente que faz da totalidade desta evolução – i. o que é a riqueza. potencialidades produtoras. 11). o caráter positivo do processo que vimos descrevendo: Na verdade. mas em estado de semicegueira. entretanto. mal fazem idéia do que as atingiu. 1982. que esclarece. “na primeira fase [da modernidade]. 1982. 16). para evitar desentendimentos ou incompreensões sobre o que pretendemos afirmar. senão o pleno desenvolvimento do controle humano sobre as forças naturais – tanto as suas próprias quanto as da chamada “natureza”? O que é senão a plena elaboração de suas faculdades criadoras. as pessoas estão apenas começando a experimentar a vida moderna. prazeres. capacidades. tornando as relações sociais fluidas tanto no que se refere ao arranjo das classes e dos estratos sociais como ao lugar dos indivíduos neles (Heller. p.. Basta considerar o fato de que. à medida que a produção de riqueza se transforma na meta a atingir. em impulsionadora de transformações as mais profundas.. a transcrição de uma passagem da Formen. todas as características sociais previamente existentes podem tornar-se e tornam-se restritivas. é. dos indivíduos.

/.. a dissolução da forma comunitária também implica o desaparecimento dos parâmetros representados pela tradição. e mediando para o próximo passo. enquanto o mundo moderno deixa-nos insatisfeitos ou. por outro lado. /. para não adiantar outros elementos de nossa análise. por sua vez. pois os homens.. constitui uma tentativa de apreender. o destino se individua. Iniciemos pela constatação de que. forçados a atuar./. p. o papel da autonomia moral e do caráter pessoal no rumo dos eventos. (Marx. É justamente nesse período que se nota o surgimento da noção de história individual. é válido reafirmar. percebem que são o resultado de suas escolhas. quando parece satisfeito consigo mesmo. p. através de uma autêntica obra de arte.satisfação limitada. Acentua-se. é vulgar e mesquinho. dado que esta intuição era em si própria oposta à convenção e. que 5 . Enfim. Ou seja. 15). 80) É a partir desse contexto que Agnes Heller identifica o conceito renascentista de homem dinâmico. o indivíduo começou a modelar o seu próprio destino. como esse homem dinâmico se põe concretamente. as convenções não podiam servir de base para intuir a tendência do movimento social../ o aspecto essencial consistia em avaliar até que ponto deixara sua marca no mundo /. a dialética do homem e do destino transformou-se na categoria central de um conceito dinâmico de homem (Heller. individuais ou genéricos. pelos costumes.. na medida em que nosso trabalho. são válidos aqui apenas alguns apontamentos acerca propriamente do conceito de homem dinâmico. a rotina burguesa também ainda não se tinha desenvolvido. 1991. além de superação dos limites anteriormente sustentados. e não apenas num sentido ético.. torna-se preciso conhecer as leis objetivas e tendências que permitam um maior êxito em sua ação. à questão de apreender corretamente o dinamismo da sociedade /. no fundo.. 1982. portanto. apresenta a necessidade do conhecimento imanente tanto da sociedade quanto da natureza. Referimonos. portanto. O dinamismo implica escolha individual – que. com mais propriedade. Assim.

343). procurar e encontrar oportunidades para a ação individual no evoluir da realidade. 1982. apreender o ‘tempo’. portanto. 2003. forjam um tipo especial de individualidade. fazem do homem ser dinâmico. é patente a importância que o dinamismo adquire na lógica das novas relações.o dinamismo que tipifica o Renascimento significa um movimento de individuação. pretendemos. a individuação. p. mal 6 . Rei Lear e a individuação renascentista Para além de uma resenha ou um resumo crítico mais ou menos elaborado. p. a individuação é a contrapartida humana mais imediata e fundamental engendrada pelos ventos dinamizadores da Renascença. 2003. Já na temática da obra percebem-se algumas diferenças fundamentais em relação às tragédias da Antigüidade – aliás. é dessa individualidade que pretendemos poder esboçar alguns lineamentos através da análise da peça Rei Lear. que necessariamente individua –. Ventos que ao individuarem. 342). neste processo faz-se consciente de seu papel determinante na construção da história (Chasin. Em linhas gerais. ou ainda. embora se trate do destino de um reino. nas palavras da autora que fornece os principais fundamentos desta parte do texto: “manter-se atento às situações novas. elencar alguns aspectos do drama shakesperiano que nos permitem perceber concretamente as transformações das relações sociais em curso – “o alvorecer do alvorecer da vida burguesa” (Chasin. Tais exigências. em mutação constante. também como ressaltamos na “Introdução”. E se assim o é – se o homem passa a se ser e se pôr a partir da atividade auto-regida. Em poucas palavras. perceptíveis em todos os dramas de Shakespeare. sobressair na crista da onda – e não apenas seguir o movimento dos acontecimentos. das respostas humanas a esse dinamismo – ou seja. p. 164). A seguinte citação é esclarecedora para indicar as exigências desse novo tempo. além. mas também fazê-los mover – evoluir à velocidade do tempo ou até antecipar-se a ele” (Heller. é claro. Por tudo que dissemos na “Introdução”. vale apor esta equação inversa. como já afirmamos.

quais as novas? (p. A personalidade de Lear. Por enquanto. é contar a terrível história de um rei de 80 anos que tem de aprender a ser um homem. como vimos grifando. assevera: 7 .se percebe que ali se decide algo que diga respeito ao bem público. fornece pistas substancias sobre as transformações que pretendemos apreender. 1998. que mais adiante retomaremos. criado de Goneril: Foi ignorância. ou melhor. após tomar conhecimento da suposta trama de seu filho legítimo contra si. aliás. o eixo da trama não gira. propulsor de individuação. profundamente dinâmico. em seus cinco atos. onde aparece incita. de como as singularidades respondem às exigências de seu tempo. grifos nossos) O mesmo Gloucester. p. 143)[1] A mesma linha de reflexão – o eixo temático –. 1998. 7). para tomar um exemplo que também se refere ao destino de um “reino”. “o que Shakespeare faz. E só. na fala de Oswald. Num só momento? Edmundo. inclusive pelo âmbito negativo – pela perda do apoio que era representado pela comunidade: GLOUCESTER Kent banido? E França partido em cólera? O Rei vai hoje? E deixa o seu poder? Fica só com a aparência? E tudo isso. (Shakespeare. que é percebido pelas individualidades das mais variadas formas. Lear divide o reino da Bretanha para livrar-se das suas responsabilidades na velhice. isto é. Tempo. p. Deixá-lo vivo. com Gloucester cegado. é um tema central de nossa reflexão. em torno da busca de solução para o malefício por que passa toda a população de Tebas. na dimensão na qual o poeta o concebe” (Heliodora. Aliás. Os corações contra nós. é válido perceber a diferença que ressaltamos. quando se menciona a população. de forma ainda mais dramática. é nos seguintes termos. Com efeito. como em Édipo Rei. 29. por outro lado. trata-se de um tema profundamente individual.

traição. “revela-se-nos uma invulgar riqueza de ideais humanos concretos. a instituição de um sistema pluralista de valores. que é a fonte de seu banimento –. qual seja. pouco se deve ao acaso. abordar um outro aspecto próprio do Renascimento. Mais do que todas as mudanças ressaltadas por Gloucester. p. um questionamento a todos os valores vigentes – como a honestidade de Kent. no entanto. com a dissolução do sistema unitário legado do feudalismo.. Com efeito. por outro lado. Manifestações de surpresa e despreparo quanto ao novo mundo são patentes também em diversas passagens do próprio Lear. fraqueza interior. 22). Esse meu vilão se enquadra nessas previsões: é um filho contra o pai. e o nobre e leal Kent banido! Sua ofensa. mesmo assim a natureza se vê açoitada pelas conseqüências: o amo esfria. os irmãos se separam. p. É estranho.. E o ideal humano concreto constitui apenas uma imagem idealizada dos homens concretos” (Heller. procure com cuidado. Após expor as categorias centrais do conceito dinâmico de homem. referimo-nos à alusão a Kent. e quebradas as ligações entre o filho e o pai. Tal coincidência. Já vivemos o melhor de nosso tempo.Esses recentes eclipses do Sol e da Lua não nos prenunciam nada de bom. toda espécie de desordens nos levam inquietos para a cova. 1982. 1982. os amigos brigam. o Rei se afasta do caminho da natureza: é um pai contra a filha. não perderá nada com isso. indicando que a própria noção de homem dinâmico impede a concepção de um ideal unitário – ao inverso. (pp. traições. Edmund. Maquinações. São as personagens que. nos países. são efetivamente as personagens que demonstram mais inapetência à adaptação. a honestidade. discórdias. 33-4) A autêntica manifestação de desespero de Gloucester nos permite. traídas 8 . motins. Embora conhecimento da natureza possa dar estas ou aquelas causas racionais. 22). Voltemos um pouco a Agnes Heller para concretizar melhor esta questão. outra faceta do dinamismo em análise. a autora remete-se à questão acerca de um “ideal” de homem no Renascimento. no fundo. pois “a maneira como os ideais se tornaram pluralistas revela-se mais claramente no aparecimento de um sistema pluralista de valores morais” (Heller. na medida em que a comunidade não é mais capaz de fornecer os parâmetros éticos e a ação é absolutamente dependente da moralidade. nos palácios. Nas cidades. Descubra esse vilão.

mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias. com efeito. bêbados. não constituía uma exceção na época do Renascimento. faz parte da galeria de vilões conscientes das principais obras de Shakespeare – junto de Ricardo III e Iago – e expressa em si as contradições do novo tempo. como se fôssemos vilões por necessidade. 34) Edmund. “viola todas as antigas restrições e aplica sua perversidade a todos e a todas as coisas sem distinção” (Heller. Meu pai se acasalou com minha mãe sob o rabo do Dragão. e o outro. safados. na medida em que se 9 . ou então. recusam os filhos honestos. filhas de Lear. Vale lembrar aqui que sua manipulação não se restringe aos seus familiares. demarca Heller. necessariamente ligado a esse aspecto. Tal objetivo. 176). 177). e meu nascimento deu-se sob a Ursa Maior. e tudo aquilo em que somos maus. (p. “que é sempre o poder e o ganho” (Heller. donde se segue que eu seja grosseiro e libidinoso. como humanização. isto é. a de que quando vai mal nossa fortuna – muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento –. Bah! Eu seria o que sou se a mais casta estrela do firmamento brilhasse no meu bastardamento. Seja porque. O dinamismo que retratamos (pelo desespero das individualidades honradas de um tempo anterior e no abalo dos valores éticos) mostra-se também como individuação. tal como Ricardo. por impacto divino. tolos por compulsão celeste. mas também abarca Goneril e Regan. p. culpamos pelos nossos desastres o Sol. e pagam caro por seu erro – um com seus olhos. seu objetivo principal. a de atribuir às estrelas sua vocação de bode. a Lua e as estrelas. num doloroso processo de aprendizado e crítica à sua própria individualidade. Não importa aqui que o exemplo abaixo represente logo um desvirtuamento da autonomia moral – o importante é que ela é reconhecida: EDMUND Essa é a grande tolice do mundo. Defesa admirável do homem cafetão. 1982. 1982.pelos seus filhos desonestos e interesseiros. ludibriadas pelo vilão como objetos de seu desejo amoroso. p. ladrões e traidores por predominância das esferas.

“No entanto. Das tuas terras. pois é dos temas principais da obra de Shakespeare – o conflito entre essência e aparência. veja-se a distância que separa tudo isto do Rei Lear. introduz um tema que já permeia nossa discussão. és minha deusa. Por que havia eu. aliás.dá a secularização da vida. a comunidade deixa de ser a justificação (real ou imaginária. É uma boa palavra. testemunha a veracidade de nossa reflexão é o próprio Edmund: Tu. Que meu irmão? Bastardo? Inferior? As minhas proporções são tão corretas. Pois legítimo Edgar. p. Cresço e prospero. E agora. 1982. 167). É que sirvo. numa hierarquia muito clara. E ficar pobre em razão só de leis. Pois se esta carta prosperar. exterior e interior. /. A auto-realização – que abarcava o êxito. 28-9) Nosso vilão./. E eu futricar bastante. legítimo. Edmund. no que se refere à ação dos homens. Cobre o legítimo. O amor paterno. boa a forma.. essa. “legítimo”. Quem. o baixo. Natureza. afastando-se das possibilidades genéricas. extraterrena) dos homens: estes passam a buscar sua autorealização. do Timon de Atenas. a ti. ou até do final desesperadamente feliz de Tudo está bem quando acaba bem! Nestas peças o êxito.. religiosa. aja Deus pelos bastardos! (pp. contendo o êxito. Um problema qualitativamente distinto a partir do Renascimento – quando apresenta uma 10 . o dinheiro e o poder são cegos e automutilantes por princípio” (Heller. É igual pro legítimo e o bastardo. assim. a fama e o dinheiro. Quanto o produto da madame honesta. Minha mente tão fina. De respeitar a praga do costume. a fama e a conquista de bens materiais – vai se ligando cada vez mais tão-somente aos interesses particulares. eu preciso. Por ser um ano ou pouco mais moço.

já traído por suas filhas. cria-se também a competição entre os homens. tudo isso teve lugar no século XVI. (p. p. Fiquemos. num momento em que a interioridade e a subjetividade já se tinham desenvolvido. Tornou-se assim possível apreender o problema em toda a sua complexidade. a dissolução das antigas tradições.contradição ética específica. pois a acumulação primitiva. revelam bem essas tentativas (Heller. portanto. têm de ‘desempenhar um papel’” (Heller. e desde o Renascimento clássico é perceptível o surgimento do “desempenhar um papel” e da hipocrisia como atitude. 171). o declínio das restrições feudais e a reestruturação de valores. quando seu mundo está literalmente ruindo. pois. em particular. inicialmente. 1982. Dessa forma. 173). de tudo o que vimos afirmando. de dissimulação ativa – resultado. Kent havia sido ainda mais expressivo – já que no meio de uma dissimulação: 11 . Passamos a tocar. culpas ocultas. gritem Pedindo graças aos céus. fazem-no contra outros – são muitas vezes obrigados. E as obras de Bacon e Shakespeare. p. 99) Momentos antes. enfim. freqüentemente. No início da cena da tempestade. com passagens nas quais as personagens constatam a factibilidade da divergência entre o interior e o exterior. diz Lear: abalai Quem escondido e com semblante puro Atentou contra a vida. quando os indivíduos lutam por alcançar um lugar no mundo – e. na medida em que se dissolve a comunidade e o homem passa a depender de si. na importante questão do conhecimento dos homens. Rompendo as capas que as protegem. têm de mostrar-se aos outros como se fossem diferentes daquilo que de fato são. 1982. já que “de fato. a possibilidade. para que possam atingir os seus fins. da dissimulação é um elemento que percorre toda a tragédia em questão. a disfarçar as suas intenções. ou até mesmo a necessidade.

Porém ele sempre se conheceu muito pouco. demonstram um relativo conhecimento dos homens. era em si e por si o tipo de caráter mais atraente aos olhos do dramaturgo inglês. As grandes catástrofes causadas pela falta de conhecimento dos homens. permitia o triunfo do mal (Heller. 1982. Já tivemos oportunidade de comentar aqui o preço que pagaram Gloucester e Lear pelos seus erros. fundamentalmente não compreenderem seus próprios filhos. 1982. Analisando a presença das personagens honestas. p. desse tempo dinâmico está justamente aperfeiçoar o conhecimento sobre os homens. Mas ele viu claramente – e num grau cada vez maior – que esse tipo de caráter já não estava adaptado a este mundo – não tanto por se prestar a desgostos. 12 . da sua individualidade – é percebido inclusive pelas filhas que o traem – que também. que encontramos muitas vezes em Shakespeare. (p. abra esta bolsa e tome O que contém. 179). portanto. ou melhor. mas porque. incapaz de jogar com as pessoas ou de as experimentar. em outros momentos. Aqueles que não se tornaram conscientes deste jogo duplo (porque se mantinha estranho à sua natureza moral) sofriam extraordinários choques e desapontamentos. 172). O caráter problemático da ingenuidade de Lear – portanto. 98) Entre as exigências. embora ambas não percebam os verdadeiros interesses de Edmund. devido à sua confiança ingênua. p. Agnes Heller constata uma postura de benevolência por parte do autor: a psique insuspeita. honesta.Pra confirmar que sou bem mais que mostra O meu aspecto. não percebam até que ponto este chegaria na defesa de seus interesses: REGAN São as fraquezas da idade. nas obras de Shakespeare. mas ingênuas. são reflexo de um problema que afetou a vida de todos (Heller. não tocada por um intelecto calculista.

“o processo de aprendizado é extraordinariamente doloroso e é em função dele que tem de ser compreendido o Bobo da tragédia. 27-8) Diz Agnes Heller: No início da tragédia. depois de ter conhecido o sofrimento (Heller. com esse tolo honesto Faço o que quero.GONERIL O melhor e mais firme de sua vida sempre foi impensado. 1998. o próprio mundo em via de se consolidar não concebe a possibilidade da existência de tais personalidades grandiosas. Resolvi o caso: Sem berço. Lear surge como um velho obstinado. quem manipula jamais erra. mas esperto. temos de esperar de sua velhice não só as imperfeições já enraizadas em sua condição. por essa razão. p. ao ponto que sua ingenuidade perde também o valor moral. depois da crise na tempestade. vale 13 . mais do que a de ser engraçado. Tanto que a “consciência” de Lear é o Bobo. a função do personagem é a de servir de consciência de Lear até este. a inadequação ao mundo das individualidades ingênuas. 1982. Esclarecedora a seguinte fala de Edmund: Tenho um pai crédulo e um irmão nobre. Pra mim. A mudança da postura de Shakespeare demonstra. Lear adora a lisonja – uma falha de caráter – e. nas palavras da tradutora do texto para o português. Portanto. o tipo de ingenuidade de Lear é moralmente suspeito desde o início. mas com essas os caprichos imprevisíveis que os anos coléricos e instáveis hão de trazer consigo. 180). pego a terra. (p. Lear só se eleva a um plano de candura moral e humano quando enfrenta o mal que a sua obstinação produziu. De natureza tão alheia ao mal Que nem lhe ocorre. compreendida por Shakespeare. p. 37) Na realidade mais profunda. 8). É avisado – o que não acontecera a Otelo – de que sua confiança nas duas filhas é infundada e errada. Temos aqui. toma por desdém a abertura e sinceridade de Cordélia. Assim. (pp. enfim. passar a ter ele mesmo consciência de seus atos” (Heliodora.

tais personagens resvalam na misantropia. são infelizes – pois o desprezo pelas pessoas é um sentimento frio e desapaixonado. da qual o conhecimento dos homens é tão-somente um efeito. Ainda sobre esse aspecto. vejamos. é muito mais profunda. Heller que. 14 . a característica comum a todos eles é a negação da existência e do poder da virtude à face da terra” (Heller. traídos. O único aspecto comum a ambos os tipos de personagens é tão-somente a “não aceitação dos valores humanos”. 1982. e frise-se o fundamental. porém. p. pois não se trata mais de um mundo caótico – como em Eurípedes – no qual os homens perdem todos os seus referenciais. desiludidos. 182). 181) – ao observar que. as personagens ingênuas “perdem sempre a medida certa”. com Lear. Ao contrário. ressalta A. segundo o qual “Pra mim. é um mundo dado. Diferenciam-se dos ingênuos pelo conhecimento que nutrem dos homens. na qual seu mundo desaba. então. Esse mesmo desdém pela humanidade é perceptível também nos vilões inteligentes. 1982. “Mas qualquer que seja a raiz do desdém destes homens. 182).ressaltar. “os vilãos sentem-se em casa num mundo que pensam destituído de quaisquer valores. sob o qual os homens devem agir e ao qual deveriam se adaptar. o que os capacita a jogar com outros – com efeito. No entanto. p. principalmente os tragediógrafos da Antigüidade. já demonstramos sua revolta quanto ao fato de ser excluído por ser bastardo –. enquanto o ódio é apenas o amor invertido” (Heller. não confiam nas pessoas quando estaria certo fazê-lo” (Heller. como na cena da tempestade. p. de modo que mantêm. A contraposição entre os dois tipos de personagem. enquanto os heróis ingênuos. socialmente construído. perdem a confiança na humanidade. em Shakespeare. A respeito vale lembrar. Como afirma: “não perdem a sua confiança nas situações em que deveriam fazê-lo. o desprezo pelos homens. 1982. há pouco citamos uma fala emblemática de Edmund. quem manipula jamais erra”. Trata-se igualmente de pessoas que em algum momento se desiludem com a humanidade – no caso de Edmund. Senão. uma postura substancialmente distinta da assumida por autores de períodos anteriores.

Ainda há pouco tempo. diz o próprio Gloucester. Se o encontrar. Hoje afastado. dê-lhe isto. em outro momento. A dor me ensandeceu. louco guiar cego”. quando percebe o interesse de sua outra irmã por Edmund. Mais ainda. ao ser advertido por Kent (disfarçado) de que Lear perde a sanidade: E há de culpá-lo? (Continua a tempestade. Também emblemática é a seguinte fala do pai de Edmund. Gloucester: “É mal dos tempos.) O querem morto as filhas. Isso é por demais patente em Rei Lear. Edmund e eu Falamos. então. amigo. Pobre banido. p. bom Kent. por si só demais simbólica. Que eu ‘stou quase louco. Aqueles que desprezam os homens são forçados a reconhecer que ainda existem no mundo valores humanos que se opõem à sua perversidade” (Heller. Ao ter por si notícias disso tudo.novamente. quem manipula jamais erra” –. e pra ele a minha mão É melhor que a dela.. Imploro a Sua Graça. ambos os tipos estão enganados. Ele quis matar-me. eu o amava. Frente à fidelidade e sagacidade de 15 . “Com efeito. a assertiva de Edmund mais atrás repetida – “Pra mim. Mais que outros pais. e diz ao criado desta: Portanto. pra falar a verdade. Pense nisso. Que noite é esta. por sua vez. (p. 110) Como apontou Heller. Ah. e eu digo. voltar nossos olhos a Regan. uma das filhas que expulsam Lear. Podemos. à sua ama. 143) A recusa – ou inadequação – dos ingênuos ao mundo cruel é. ainda. ele previu tudo isso! Diz que o rei enlouquece. 1982. Diga que eu peço que seja sensata: Passe bem. Tinha um filho. perceptível em diversas passagens da obra. 182). eu recomendo que repare: ‘Stá morto o meu senhor. (p.

mesmo num tempo “desarranjado”. de que forma o dramaturgo inglês constrói um tipo de comportamento adequado. Também esse tipo de herói é proeminente em Rei Lear. enfim. Ambos são obrigados à dissimulação ativa. o cão. que logo morre enforcada. E tu sem vida? Tu não voltas mais. Mas bem depressa. também os grandes heróis ingênuos ‘sofrem uma decepção’. Lear percebe a honestidade de Cordélia. 188-9). mantendo. Mandem logo. seu desespero frente 16 . sem se tornarem misantropos ou desdenhosos. antes. a sua existência adquire um novo significado e uma nova justificação” (Heller. na figura de Kent e Edgar – nobres injustamente punidos e expulsos de seus lares. Heller apresenta-nos. Nunca. na seqüência: Já não respiro. 1982. até o derradeiro combate com Edmund. Revogar no castelo a minha ordem contra a vida de Lear e Cordélia. fica patente que. O seu aspecto é de que há algo mais. e farei algum bem Apesar de mim mesmo. não há vida! Por que vive o cavalo. “Shakespeare apresenta vezes sem conta este tertium datur. nunca. 182). /. nunca (pp. E talvez traga bem. pois estão aptos a reconhecer tanto o bem como o mal” (Heller. (p. golpe fatal no velho rei: Enforcado o meu bem! Não. encontram-se a si próprias nesta segunda ‘desilusão’. “Do mesmo modo.Edgar.. mas continue. 184) Continuando a análise./. efetivamente. 1982. nunca. p. este mesmo assume: Tocou-me a sua fala. mas que mantêm a fidelidade e a lealdade. A. 183).. porém. em todo o seu desespero. o rato. no entanto. após este narrar de que forma se disfarçara e guiara seu pai cego. sob a forma de heróis que aprenderam a conhecer o mundo através de sua própria experiência e são capazes de viver racionalmente. nunca. (p. p. ou então. a sua essência sempre reservada – e são exemplo as manifestações de Edgar de como era duro continuar o fingimento junto a seu pai cego. um meio termo entre a ingenuidade e a malvadez. 181) E.

aqueles que podem reconhecer e seguir o justo meio entre o cinismo e a confiança cega. repito. e tão-somente na ação. de se realizarem e reconhecerem-se na ação. p. e mais. O mesmo Kent demonstra perceber a sina dos homens. O conforto possível será dado A essa ruína. e de considerar esse conhecimento um valor ético” (Heller. aos olhos de Shakespeare. são aqueles que na sua verdadeira natureza podem suportar um mundo cujas normas estão a se dissolver. Também Kent mostrara seu elevado conhecimento acerca dos homens – por exemplo. o “melhor juiz dos outros homens”. maridos das duas filhas de Lear. Qual. constata A. 188). (p. Heller que este é “capaz de se aperceber do bem e do mal e de elevar o conhecimento dos homens tornando-o um meio. e os inimigos Hão de beber a taça que merecem (p. quando o conde de Albany. 1982. Mostrastes méritos. 164) Tratando de Hamlet. desvelada toda a história e avisado da morte de Edmund. 1982. abstraindo de outros aspectos da questão – foram eles que nasceram para o mundo e que nasceram para governar (Heller. E ainda mais. Os amigos todos Terão paga a virtude. a conclusão que podemos tirar de Rei Lear. p. entre a ingenuidade e o desprezo pelos homens. sabeis nosso intento. e a honras acrescidas. Enquanto inda viver o velho Rei. nós abdicamos. diz: Razão e duração de minha vida. 185). ao perceber a existência de desentendimentos entre os dois duques. Conhecerei na batalha renhida. sinteticamente. De nosso poder: (a Edgar e Kent) A vossos direitos. Nobres e amigos. inclusivamente um meio de fazer justiça. 17 . De modo que. senão essa. 187). Deste ponto de vista – e.à loucura do rei. confirma: Isso aqui pouco importa.

Editorial Presença. Estudos e Edições Ad Hominem. [1] Todas as citações da obra. Lacerda Editores. K. M. Rio de Janeiro. 3 – Política. São Paulo. 1989. II. Rei Lear. * Aluno do curso de Ciências Sociais do Centro Universitário Fundação Santo André. Lacerda Editores. de Barbara Heliodora. l. Formações econômicas pré-capitalistas. I. são retiradas dessa edição. J. Paz e Terra. W. SHAKESPEARE. I. São Paulo. CHASIN. Rio de Janeiro. 1984. _____. 1998. 1998. São Paulo.Referências Bibliográficas: BERMAN. 2000. São Paulo. 1 t. 1982. 18 . Tudo o que é sólido desmancha no ar. “O futuro ausente”. “Introdução” in SHAKESPEARE. W. Tese (doutoramento em História Social) apresentada à USP. Trad. de Barbara Heliodora. Rei Lear. na seqüência desse trabalho. O homem do Renascimento. São Paulo. Trad. 2003. CHASIN. 1991. Lisboa. Abril Cultural. HELLER. MARX. Agnes. B. Monteverdi – humana melodia. O capital – crítica da economia política. Ensaios Ad Hominem n. Companhia das Letras. HELIODORA. t.