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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS DE RIBEIRÃO
PRETO
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE BACHARELADO EM PSICOLOGIA

O Conceito de Holismo na Psicologia Brasileira
Contemporânea: Uma Análise Epistemológica

Thiago Favaretto Tazinafo

Marina Massimi

Monografia de Conclusão do
Programa Optativo de Bacharelado
em Psicologia, apresentada ao
Departamento de Psicologia e
Educação da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras de
Ribeirão Preto da USP.
RIBEIRÃO PRETO - SP

2009

1
Índice

1. Resumo .................................................................................................................................5
2.
Introdução .............................................................................................................................6

3.
Procedimento ........................................................................................................................9

4. Objetos de Estudo
4.1 Elementos de Filosofia da Ciência
4.1.1 Critérios de Demarcação .....................................................................13

4.1.2 Ceticismo e Objetividade......................................................................17

4.1.3 Ideologia Científica................................................................................22

4.2 O Paradigma Holístico.............................................................................24

5. Análise e Discussão
5.1 Introdução.............................................................................................................28
5.2 Holismo, Informação e Falseabilidade...............................................................31
5.3 O Holismo como Estrutura..................................................................................36
5.4 Incomensurabilidade............................................................................................40
5.5 Elementos do Discurso Holístico

5.5.1 Formulações Edificantes.......................................................................43

5.5.2 Psicologismos..........................................................................................47

5.5.3 Alegações Extraordinárias...................................................................48

5.5.4 Ataque ao Homem de Palha.................................................................50

5.5.5 Apropriações Inadequadas...................................................................52

5.5.6 Articulações Mistas...............................................................................55
6. Conclusões……………………………………………………………………….....……..57

1
7. Bibliografia e Referências……………………………………………………………….60

THIAGO FAVARETTO TAZINAFO

O CONCEITO DE HOLISMO EM HISTÓRIA DA PSICOLOGIA

O PRESENTE TEXTO É A
MONOGRAFIA BASEADA NO TRABALHO
DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA,
FOMENTADO PELA FUNDAÇÃO DE
AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE
SÃO PAULO, VINCULADO À
GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA PELA
FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E
LETRAS DE RIBEIRÃO PRETO DA
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO,
REALIZADO PELO AUTOR - E
DEVIDAMENTE SUPERVISIONADO POR
SUA ORIENTADORA DE PESQUISA - DE
DEZEMBRO DE 2007 A DEZEMBRO DE
2008.

ORIENTADORA: PROFA. DRA. MARINA MASSIMI

3
RIBEIRÃO PRETO

2009

Pelo conhecimento transmitido, expresso
minha gratidão aos docentes da casa, em especial
à professora e orientadora Marina Massimi, pelo
apoio e encorajamento contínuos, e a André
Salles, pela mesma razão. Agradeço, ainda, à
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo, pelo fomento, e ao Centro Holístico
Sanat Kumara, pela gentileza.
1
“A society that thinks the choice between
ways of living is just a choice between equally
eligible ´lifestyles´ turns universities into
academic cafeterias offering junk food for the
mind.”

(Will, G.F.)

3
“E tudo o que acabo de descrever foi feito a
partir da minha mente e da minha memória e
experiência de vida.”

(Weil, P. A Arte de Viver a Vida)

1
Tazinafo, Thiago Favaretto (2009). O Conceito de Holismo na Psicologia Brasileira
Contemporânea: Uma Análise Epistemológica. Monografia de Conclusão do Programa
de Bacharelado do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto.
(Orientadora: Profa. Dra. Marina Massimi).

RESUMO

Na Psicologia contemporânea, há um esforço de reformulação dos modelos atuais de
pesquisa. Nesse meio, o paradigma holístico é visto como alternativa viável à ciência
tradicional. Permeando o debate, verifica-se a existência de uma vertente holística
“pseudocientífica” (na acepção popperiana do termo) impulsionando seu discurso.
Assim, a necessidade de distinguirmos o holismo legítimo de sua versão
pseudocientífica é a base motivadora deste trabalho. Com ele, visamos aos seguintes
objetivos: 1) Resgatar a origem histórica e etimológica do termo “holismo”; 2)
Discriminar os vários usos da palavra, em diferentes campos de conhecimento; 3)
Identificar as principais perspectivas holísticas na Psicologia brasileira contemporânea;
4) Elaborar uma crítica epistemológica às abordagens holísticas em Psicologia, à luz dos
principais conceitos, em Filosofia da Ciência, das teorias de Popper, Canguilhem, Kuhn,
Lakatos, Feyerabend e Chalmers. O método de coleta de dados consistiu em
levantamento bibliográfico, seguido de redação de resenhas das obras lidas; o método
de análise foi o cruzamento de informações entre a bibliografia holística e a
epistemológica, aplicando os critérios de demarcação dos filósofos da ciência nos textos
produzidos pela psicologia holística contemporânea brasileira, a fim de investigarmos a
viabilidade do holismo enquanto paradigma científico inovador. Os resultados parciais
apontaram para uma incomensurabilidade: os textos holísticos selecionados pertencem a
um gênero literário diverso da linguagem científica, sendo melhor caracterizados como
obras de retórica, isto é, pertencentes ao gênero persuasivo e não científico. Sendo
assim, o método de análise teve de ser ampliado, passando a compreender também a
categorização de argumentos e idéias holísticas em tipos de elementos de retórica. Os
textos foram relidos, estudados e classificados parágrafo a parágrafo, revelando um
padrão discursivo recorrente. Foram cinco as principais categorias persuasivas
encontradas: uso ostensivo de psicologismos; recurso a conceitos não-falseáveis;
emprego inadequado de conceitos científicos; apelo às emoções do leitor e descrição
injusta e distorcida de seus objetos de crítica. Consideramos que a visão holística
propõe uma série de questionamentos pertinentes, notadamente quanto às limitações do
modelo biomédico; no entanto, os resultados indicam fortemente que suas propostas
estão orientadas menos a um interesse propriamente científico do que ideológico.
(Agência de fomento: FAPESP)

Área: Filosofia da Psicologia

Palavras-chave: epistemologia – holismo – transpessoal – paradigma

O presente trabalho teve como propósito investigar os usos do conceito de holismo na
história da psicologia, com ênfase na atualidade e no Brasil. Hoje, mais do que nunca, vê-
se fortalecida a construção de um discurso anti-reducionista que procura substituir o
método científico clássico por um paradigma alternativo, dito “holístico”. Nesse contexto,
o termo “holismo” vem a abarcar um conjunto de teorias e perspectivas avessas à visão
científica tradicional; conseqüentemente, essa palavra tem assumido diferentes significados
desde que empregada, pela primeira vez, por Jan Smuts em 1926, no seu livro Holism and
Evolution (Crema, 1995). Esse conflito de visões quanto ao método científico é um
fenômeno mundial e que tem atingido, em maior ou menor escala, todas as disciplinas
científicas. Em psicologia, porém, o choque adquire proporções especialmente relevantes,
seja por abranger não apenas modelos teóricos de psicologia mas, também, a prática
clínica, seja pela natureza complexa do objeto de estudo em psicologia. Acreditamos que
no Brasil, em particular, esse conflito ou antinomia vem adquirindo especial relevância à
medida que a visão holística ganha popularidade e adesão, tanto por parte do público leigo
quanto do meio acadêmico.

Concomitante ao choque de holismo versus “ciência tradicional” per se1, verifica-se a
subjacência de uma matriz ideológica, disfarçada por certo verniz acadêmico,
impulsionando o discurso holístico. Esta motivação ideológica, presumimos, não é
generalizada. Entretanto, a influência dessa motivação, no nosso entender, distorce e
prejudica seriamente o debate sobre uma eventual necessidade de revisão da lógica e do
método científico. Portanto, a fim de esclarecer os usos (e maus-usos) da palavra
“holismo” em Psicologia, precisamos identificar a construção do discurso holístico a fim
de distinguirmos entre o “holismo ideológico” e o “holismo legítimo”. Ou seja, estamos
interessados em separar os casos em que o holismo é utilizado de forma adequada daqueles
em que apenas traduz uma motivação ideológica, não raro apropriando-se, indevidamente,
de conceitos e teorias pertinentes a outros contextos, numa tentativa de revestir sua retórica
de propriedade. Assim, a necessidade de “incidir uma luz” sobre o conceito de
holismo em Psicologia foi a base motivadora de nosso trabalho de pesquisa.

Harwood (1998) vê um renovado interesse pelo holismo por parte dos historiadores
da ciência a partir do fim da década de 80, retomando o debate de intelectuais (muitos dos
quais refugiados da Alemanha nazista) nos anos 50 e 60. Nesta época, esses estudiosos
apontavam para um discurso “anti-modernista” que ganhava força na Alemanha do fim do
século XIX e início do século XX.

1 o termo “ciência tradicional”, aqui, apenas se refere vagamente às visões mainstream de ciência
e será substituído, ao longo do projeto, por um ou mais conceitos mais precisos

3
Harrington (1996) defende a tese de que cientistas alemães estavam motivados a
“reencantar” a ciência, seguindo a afirmação atribuída a Weber de que o modelo
mecanicista teria “desencantado” o mundo, tendo reduzido a vida a meros mecanismos.
Assim, no começo do século XX, cientistas alemães ergueram a bandeira da “totalidade”
(wholeness) a fim de alimentar não apenas a mente, mas também o coração (“to nourish
the heart as well as the brain”) e lutar contra “a Máquina”. Escreve Harrington (1996,
p.3):

“The Machine that haunted holism’s self-consciousness was an entity with a status
much like that of the “Communist threat” that haunted the consciousness of the United
States during the height of the Cold War. That is to say, it is best understood, first and
foremost, as an emotionally charged image of negativity that functioned to define and drive
holism’s positive agenda.”

Em sua empreitada de “reencantamento” da ciência os cientistas alemães, segundo
Harrington (apud Harwood, 1998) lançaram mão de metáforas próximas do vocabulário
anti-modernista para a solução de problemas específicos: por exemplo, o modelo
localizacionista do cérebro, que era incapaz de explicar a capacidade de recuperação
funcional de lesões corticais, fora substituído por um modelo integracionista, “holístico”.
Com a intensificação do sentimento anti-modernista após a Primeira Guerra Mundial, esse
novo vocabulário científico angariou autoridade nos meios intelectuais engajados em
críticas sociais e políticas.

Acreditamos que a penetração do pensamento holista nas esferas política, social e
científica na Alemanha do começo do século XX explique ao menos parcialmente a imensa
variedade de sentidos em que o termo “holismo” é utilizado. Harrington chama atenção
para o caráter “ideologicamente multivalente” do holismo, tendo sido usado tanto a favor
como contra a ciência, por materialistas e não-materialistas, e mesmo entre visões políticas
antagônicas (como a apropriação do holismo pelos nazistas).

Dessa forma, cresce em importância a necessidade de esclarecermos em que sentido
as principais teorias psicológicas são ditas “holísticas”, diferenciando, por exemplo, o
significado de “holismo” referente à Psicologia da Gestalt daquele da Psicologia
Transpessoal, a última constituindo uma abordagem considerada “alternativa” em ciências
da saúde.

Com este estudo, visamos inicialmente a atingir as seguintes metas:

1) Resgatar a origem histórica e etimológica do termo “holismo” e seu significado original;

4
2) Discriminar, conceituando, os vários usos do termo “holismo” em diferentes campos de
conhecimento como biologia, lingüística, epistemologia, filosofia da mente, psicologia e
quaisquer outras áreas em que se identifiquem – no decorrer do estudo – abordagens ditas
“holísticas”;

3) Comparar, apontando diferenças e semelhanças, “holismo” e os conceitos de “anti-
reducionismo” e “molarismo”, bem como quaisquer outros termos que identificarmos
como passíveis de confusão com o conceito em questão;

4) Identificar as principais perspectivas holísticas na Psicologia brasileira contemporânea e
suas origens na História da Psicologia;

5) Elaborar uma crítica epistemológica às abordagens holísticas na Psicologia brasileira à
luz dos principais conceitos, em Filosofia da Ciência, das teorias de Popper, Canguilhem,
Kuhn e Lakatos.

A fim de cumprir este último objetivo, foi dedicada especial consideração aos
seguintes pontos: falseabilidade das teorias holísticas; as noções de “holismo” enquanto
paradigma e como programa de pesquisa; as antinomias decorrentes da adoção do holismo
enquanto paradigma ou programa de pesquisa; o holismo enquanto ideologia científica na
psicologia.

Entendemos, em suma, que o termo holismo encerra toda uma pluralidade de
concepções científicas e filosóficas, e tal variedade conceitual contribui para que o termo
seja empregado ideologicamente. Embasando as alegações de que o modelo de ciência
tradicional deva ser transformado estão apropriações de conceitos científicos as mais
inadequadas, servindo de suporte para verdadeiras ideologias científicas. Acreditamos que
isso seja especialmente relevante na psicologia. Por isso, consideramos importante
investigarmos em que casos o holismo é utilizado de forma cientificamente pertinente, bem
como o oposto, isto é, em que situações o termo tem sido empregado de forma ideológica.

3. Procedimento
Durante os dois primeiros meses do período supracitado, foi feita a leitura integral e
o estudo de algumas obras dos epistemólogos selecionados: “A Lógica da Descoberta
Científica”, de Karl Popper; “A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento”, de Imre
Lakatos e Alan Musgrave (organizadores); “Ideologia e Racionalidade nas Ciências da
5
Vida”, de Georges Canguilhem, e “Contra o Método”, de Paul Feyerabend. As leituras
foram acompanhadas de um registro de anotações sobre as passagens consideradas mais
importantes. Ao término de cada obra, seguiu-se a redação de resenhas com base em tais
anotações.
Ao longo dos estudos, notamos a importância de outro filósofo da ciência, este
mais recente que os demais: Alan Chalmers. Decidimos incluir duas de suas obras à lista
dos textos sobre epistemologia. O primeiro deles é “O que é Ciência, Afinal?”, no qual
Chalmers traça as linhas gerais das obras de Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend. Trata-
se, portanto, de uma leitura secundária, útil para contextualizarmos e articularmos as
leituras primárias. O segundo texto de Chalmers é “A Fabricação da Ciência”, no qual ele
desenvolve suas próprias idéias sobre racionalidade, ceticismo e objetividade em ciência,
com ênfase na contemporaneidade, bem como responde às objeções anárquicas de
Feyerabend.
O mesmo procedimento foi executado com respeito às obras dos principais autores
da Psicologia Holística Brasileira Contemporânea: Pierre Weil, Doutor em Psicologia
(Universidade de Paris) e presidente da Unipaz2; Jean-Yves Leloup, teólogo, Phd em
Psicologia Transpessoal, fundador da Universidade Holística de Paris e orientador no
Colégio Internacional dos Terapeutas; Roberto Crema, psicólogo e antropólogo do Colégio
Internacional dos Terapeutas, educador e vice-reitor da Unipaz. Os textos estudados foram
os seguintes: “Caminhos da Realização: dos Mergulhos no Eu ao Mergulho no Ser” e
“Cuidar do Ser: Fílon e os Terapeutas de Alexandria”, de Jean-Yves Leloup; “Sementes
para uma Nova Era” e “A Arte de Viver a Vida”, de Pierre Weil; “Saúde e Plenitude: um
Caminho para o Ser”, de Roberto Crema, e “Normose: A Patologia da Normalidade”, de
Weil, Leloup e Crema.
O método de seleção dos autores holísticos a serem estudados consistiu em uma
pesquisa via internet de palavras-chave - tais como: “holismo”, “holism”, “anti-
reducionismo”, “terapia holística”, “holistic psychology” etc. – em sítios eletrônicos como
Google3, Google Scholar4 e Wikipedia5, entre outros. Dessa forma, tomamos conhecimento
da Universidade Holística Internacional de Brasília, a Unipaz, e do CIT – Colégio
Internacional dos Terapeutas, a frente dos quais despontam os autores mencionados (essa
pesquisa foi realizada à época da elaboração do projeto de iniciação científica e refeita

2 Um tratamento geral sobre a Unipaz consta da seção “O Paradigma Holístico” (ver Índice)

3 www.google.com (último acesso em maio de 2008)

4 www.scholar.google.com (último acesso em maio de 2008)

5 www.wikipedia.org (último acesso em maio de 2008)

6
durante dezembro de 2007). Navegando pelo sítio da Unipaz6, obtivemos acesso a uma
bibliografia recomendada. Entramos em contato via e-mail com um dos colaboradores da
página, solicitando informação quanto ao acesso a uma biblioteca holística mais próxima
de nossa região. Prontamente, fomos recomendados ao Centro Holístico Sanat Kumara, em
Ribeirão Preto, com o qual entramos em contato. A curadora de sua biblioteca gentilmente
nos recebeu e disponibilizou um acervo para empréstimo. Comparando a bibliografia
recomendada com o acervo, acabamos por selecionar as seis obras supracitadas. O estudo
dos textos holísticos se deu entre janeiro e abril de 2008.
O método de análise, tal qual estipulado previamente, consistiria apenas no
cruzamento de informações entre a bibliografia holística e a epistemológica, aplicando os
critérios de demarcação dos filósofos da ciência nos textos produzidos pela psicologia
holística contemporânea brasileira, a fim de investigarmos a viabilidade do holismo
enquanto paradigma científico inovador, bem como a possibilidade adversa, qual seja, de
que se trate de uma “pseudociência” – na acepção popperiana do termo - ou “ideologia
científica” – como definiu Canguilhem. Isto é, tratar-se-ia de aplicar “filtros”
epistemológicos a tais obras. Os resultados parciais, no entanto, apontaram para uma
incomensurabilidade: os textos holísticos selecionados pertencem a um gênero literário
diverso da linguagem científica, sendo mais bem caracterizados como obras de retórica,
isto é, pertencentes ao gênero persuasivo e não científico. Por isso, notamos que os
critérios de demarcação não se aplicavam a tais obras. Porém, devido a essa mesma
incomensurabilidade, tampouco seria apropriado nos contentarmos em descartar a
Psicologia Holística Brasileira com base exclusiva em uma rápida “constatação de não-
cientificidade”: um enunciado que um não-holista considera não-falseável, por exemplo,
pode corresponder, para um holista, a um dado empírico auto-evidente, que carece da
necessidade de falseadores potenciais, por ser “obviamente” verdadeiro. Dessa forma, uma
análise mais produtiva deveria incluir uma crítica ao holismo em seus próprios termos, isto
é, uma análise interna, pela qual seria possível caracterizar o discurso holístico em termos
de padrões recursivos, a fim de investigarmos a maneira como estão articulados seus
elementos de discurso.
Sendo assim, o método de análise teve de ser expandindo, incluindo agora uma
categorização de argumentos e idéias holísticas em tipos de elementos de retórica. Os
textos foram relidos e, parágrafo a parágrafo, classificamos os trechos quanto à natureza de
sua argumentação e de seu conteúdo em geral. No fim desse procedimento, pudemos
identificar um certo padrão discursivo. Foram cinco as principais categorias persuasivas

6 www.unipaz.org.br (último acesso em dezembro de 2007)

7
identificadas, as quais denominamos: Ataque ao Homem de Palha, Alegações
Extraordinárias, Psicologismo, Formulações Edificantes e Apropriações Inadequadas,
além de Articulações Mistas – passagens que combinam dois ou mais dos cinco elementos.
. Essas categorias diferem daquelas que ora chamamos elementos “neutros”. Os
elementos neutros equivalem ao conteúdo não argumentativo e servem de suporte a este,
tais como citações, referências (que não sejam Apropriações Inadequadas), figuras, tabelas,
poemas e definições, correspondendo a cerca de um terço do conteúdo. Podem também ter
finalidade persuasiva, mas diferem das cinco primeiras pelo fato de serem válidas do ponto
de vista lógico, informativo e/ou conceitual. Os elementos neutros foram por nós utilizados
para construir uma síntese em defesa do pensamento holístico.
Devido à constatação de que os autores fazem freqüentemente referência a
conceitos científicos, em geral físicos, aparentemente no intuito de conferir a sua retórica
certa qualidade científica, julgamos por bem proceder com o estudo de alguns conceitos
basilares da Física e de elementos de História e Filosofia da Física, a fim de melhor
apreciarmos a adequação de certas imagens e analogias propostas entre a teoria holística e
os modelos físicos modernos, o que se passou no decorrer de março e abril de 2008. Então,
seguiu-se a consulta a variados textos da área, sobre conceitos como: desigualdades de
Heisenberg (popularmente conhecidas como “Princípio da Incerteza”), dualidade onda-
partícula, Princípio da Complementaridade, Interpretação de Copenhagen e outros.
Com o objetivo de fundamentar em bases seguras a crítica aos trechos selecionados,
foram feitas consultas a obras que tratam de elementos de lógica e erros de raciocínio
(falácias). Novamente, recorremos a Chalmers: “O que é Ciência, Afinal?”, bem como ao
“Dicionário Oxford de Filosofia”, de Simon Blackburn, e a “O Mundo Assombrado pelos
Demônios”, de Carl Sagan.
Por fim, tomando por base as definições e conceituações de seus autores,
elaboramos uma síntese em defesa do pensamento holístico, a fim de conferir maior
propriedade à crítica subseqüente, e que se encontra na seção “O Paradigma Holístico”,
mais adiante.
Enquanto a primeira etapa de nosso trabalho foi dedicada à caracterização de
nossos objetos de estudo – seis obras holísticas e outras seis de filosofia da ciência – no
segundo semestre foi feita a análise e elaborada a discussão sobre esses objetos. A
expectativa original era a de investir aproximadamente a mesma quantidade de tempo e
esforços tanto à recuperação do termo “holismo” e seu sentido histórico na psicologia
quanto à relação entre o holismo na psicologia brasileira contemporânea e a filosofia da
ciência. Nossa avaliação inicial era de que o segundo objetivo – que na verdade é nossa

8
meta principal desde o início, conforme apresentado em nosso projeto de pesquisa – só
poderia ser plenamente atingido mediante a devida contextualização histórica e
etimológica. Embora isso continue sendo verdadeiro, tal tarefa mostrou-se mais breve do
que supúnhamos. O holismo a que se refere esse trabalho não guarda semelhanças nem faz
referências a outras abordagens psicológicas que poderiam ser consideradas holísticas,
como a Psicologia da Gestalt ou a Abordagem Centrada na Pessoa. Não há uma
continuidade histórica entre o holismo e outras abordagens psicológicas. Mais
especificamente, a origem da psicologia holística estudada é vivencial e não acadêmica, ou
seja, é fruto da experiência de vida e do pensamento isolado dos autores, como ilustra a
epígrafe. Esse “isolamento”, que fique claro, é relativo à história da psicologia apenas, não
significa que os autores geraram suas idéias “a partir do nada”. Entre suas principais fontes
de inspiração destacam-se a visão de mundo dos Terapeutas de Alexandria – tal qual
descrita por Fílon – o hinduísmo em geral e a mecânica quântica. Dedicamos parte de
nossos esforços a compreender os fundamentos desta última porque, alegadamente, a física
moderna ofereceria respaldo científico ao pressuposto holístico de que a consciência
“modela” a realidade.

4. Objetos de Estudo

4.1Elementos de Filosofia da Ciência

4.1.1 Critérios de demarcação

9
Por “critério de demarcação” entendemos o processo racional de delineamento dos
contornos nos quais se inserem as metodologias de pesquisa e seus objetos de estudo, a fim
de definirmos o campo de ação da ciência e seus limites, bem como nos possibilitar decidir
logicamente se um procedimento é ou não científico. Popper, em “A Lógica da Pesquisa
Científica” (1993), ocupa-se, primeiramente, de atacar a suposta fragilidade lógica do
indutivismo. O critério indutivista prescreve a formulação de hipóteses como sendo
enunciados gerais a que se chega através da aplicação de um raciocínio indutivo sobre as
observações naturais de fenômenos particulares. A ciência, para os indutivistas, consiste
em obter fórmulas a partir do reconhecimento de padrões na natureza, o que permite fazer
predições, exprimindo eventos particulares das fórmulas por dedução. À maneira como
fizeram os empiristas britânicos, Popper também reconhece nesse procedimento um erro
lógico7.
Ao encontro desse problema lógico, Popper nos chama a atenção para o humano
por trás do estudo: o cientista não chega à hipótese por acaso, através da observação
desinteressada de eventos aleatórios, que ele acaba por unir pelo reconhecimento de um
padrão matemático, num procedimento exclusivamente lógico. Pelo contrário, o cientista
freqüentemente lança mão de insights e motivações pessoais, raramente partindo à
pesquisa de campo sem conjecturas previamente elaboradas. Ele formula hipóteses
primeiro e depois se propõe a testá-las.
A rejeição do indutivismo é de comum acordo entre a epistemologia popperiana e
os proponentes do Círculo de Viena8. O objetivo de Popper com essa crítica, porém, não
parece ter sido o de meramente repisar em um critério de demarcação cujas limitações já
haviam sido denunciadas de forma tão arrasadora como havia feito Hume em sua época.
Pelo contrário, seu alvo é a teoria da confirmação, defendida pelos positivistas lógicos. As
pesquisas que defendem uma teoria da confirmação ou “princípio de verificação” são
classificadas por Popper como “verificacionistas”. Para um verificacionista, teorias ou
idéias que exprimem proposições cujo conteúdo não admite possibilidade de ser verificado
– como os enunciados metafísicos – são, justamente por isso, destituídas de significado.
Uma das dificuldades de teorias desse tipo consiste na facilidade com que se pode lançar
mão de verificações ad hoc – desde que as procuremos – tornando-a imune a críticas e,
conseqüentemente, irrefutável ou “não-falseável”. Popper sustenta que recorrer a

7 A ilustração clássica é o exemplo dos cisnes brancos: podemos passar meses ou anos a
observar uma lagoa e jamais encontrar um cisne que não seja branco; da mesma forma, porém,
isso jamais me permitiria concluir que todos os cisnes são brancos (Chalmers, 1993).

8 Os positivistas lógicos, também conhecidos como empiristas lógicos ou empiristas científicos
(Blackburn, 1997).

10
proposições irrefutáveis ou formular hipóteses não-falseáveis é um vício ao qual nenhuma
teoria pretensamente científica pode incorrer.
Além disso, a tentativa de comprovar a veracidade inquestionável de uma
proposição, como queriam os empiristas lógicos, dependeria de uma teoria de confirmação
de autoridade logicamente inatingível. Sendo assim, o critério de demarcação dos
positivistas lógicos partilha do mesmo problema do empirismo clássico. Uma das
conclusões de Popper é que proposições científicas devem ser reconhecidas como verdades
provisórias.
Popper não defende que o método indutivo seja banido da prática científica. Sua
tese é de que tanto o indutivismo quanto o verificacionismo falham, seja do ponto de vista
lógico, seja da forma como as pesquisas científicas têm sido praticadas, ou ambas as
coisas. Buscar a confirmação de uma teoria, seja por meio de processos indutivos ou
dedutivos, é sempre desejável, na medida em que a submete a prova. O critério de
demarcação, porém, é que a teoria apresente a possibilidade de ser falseada, ante à
impossibilidade lógica de ser confirmada.
Portanto, na epistemologia popperiana, teorias que não se sujeitam a falsificadores
potenciais não podem ser consideradas científicas. Como exemplo, cita o marxismo e a
psicanálise como pseudociências, ou teorias que se pretendem científicas, mas que não o
são porque, em princípio, seriam consistentes com todas as observações possíveis.
Convém diferenciar sob quais aspectos o critério de falseabilidade é considerado
válido ou eficaz. Como exigência lógica, a condição de falseabilidade de uma teoria é,
segundo Chalmers, aceita ainda hoje pelos filósofos da ciência contemporâneos (1994). No
âmbito da prática científica, porém, é que surgem os problemas, pois nenhuma teoria
científica é descartada por conta de um ou dois resultados experimentais que a viole. Isso
quer dizer que o eventual surgimento de contra-exemplos não implicará, de imediato, a
rejeição de um modelo ou constructo teórico. Ante a anomalias, os cientistas concebem
articulações e encadeamentos de hipóteses auxiliares – às vezes até proposições ad hoc -
para adequar o novo caso à teoria, assim como tendem a pensar que é seu método e seus
dados que estão errados e não seus pressupostos (idem, 1993).
O modelo científico de Kuhn, sem dúvida, procura ajustar-se melhor à realidade
histórica da pesquisa científica, buscando caracterizar o pensamento científico em termos
de sua estrutura e não de um critério de demarcação (Lakatos & Musgrave, 1970). Ele
afirma que Popper fora muito influenciado pelas descobertas extraordinárias na física
durante as primeiras décadas do século XX, notadamente os trabalhos de Einstein de 1905
e a comprovação dramática da teoria da relatividade, como o eclipse de 1919. Kuhn

11
argumenta que um “experimento crucial” de tal magnitude é menos freqüente do que
Popper faz parecer.
Ainda de acordo com Kuhn, o processo de descoberta científica não poderia ser
linear como Popper defende. Ao contrário, a evolução da ciência se dá por marcos de
descontinuidade. A história da ciência, para Kuhn, alterna-se entre períodos de “ciência
normal” e períodos de revolução. A transição se dá por acúmulo de evidências contrárias
ao paradigma da fase de ciência normal. Por paradigma, entenda-se um sistema de
pensamento partilhado por membros de uma comunidade. É uma “visão de mundo”
particular, isto é, um conjunto de pressupostos e valores compartilhados pelos membros de
uma sociedade. No âmbito científico, pode-se dizer que o paradigma fornece modelo ou
tradições particulares de pesquisa. (comparar, como exemplo, o modelo geocêntrico e
aquele que o sucedeu – o heliocêntrico).
Durante a ciência normal a prática científica se resume à solução de problemas do
tipo “quebra-cabeças”. Um modelo de pesquisa entra em regime de atividade “normal”
quando seus pressupostos cessam de apresentar dificuldades, e há a opinião ou o
sentimento geral de que o trabalho vem sendo conduzido sob o enfoque mais promissor. A
fase paradigmática de uma ciência corresponde justamente ao período normal de produção
acadêmica, em oposição ao período de revolução, no qual as anomalias acumuladas de um
paradigma não mais podem ser contornadas sem maiores conseqüências. Nessa fase
histórica, surgem novos conjuntos de fundamentos teóricos e metodológicos.
Eventualmente, novas hipóteses começam a se condensar em torno de pressupostos rivais
ao paradigma vigente, o qual se deteriora, à medida que essa ontologia mais recente
angaria novos partidários. Tal etapa é a chamada fase de “transição paradigmática”.
Enquanto Kuhn procura descrever o modo como a ciência evolui de fato, Popper
parece mais preocupado em demarcar a forma como ela deve ser. Encontramos em Lakatos
uma tentativa de conciliar essas duas teorias, que são, aparentemente – talvez apenas
superficialmente – contraditórias (Idem). Sua teoria busca delinear critérios racionais de
decisão que sejam consistentes com o registro histórico. De acordo com Lakatos, a
pesquisa se desenvolve em torno de um núcleo duro, um conjunto de pressupostos
fundamentais partilhados por uma comunidade científica. Evitam-se deliberadamente as
refutações ao núcleo duro, construindo-se um cinturão de hipóteses auxiliares em seu
redor. A essa estrutura ele deu o nome de programas de pesquisa. As hipóteses auxiliares
não devem ser imediatamente descartadas como sendo ad hoc. Ao invés de decidirmos
sobre a validade ou não de uma teoria, sua veracidade ou falsidade, Lakatos propõe
comparar programas de pesquisa para decidir qual é o melhor. Se a incorporação de

12
hipóteses auxiliares contribui para a descoberta de novos fatos, novas tecnologias e
técnicas experimentais, predições mais acuradas etc., diz-se que o programa de pesquisa é
progressivo. Se, por outro lado, as hipóteses auxiliares prestam-se apenas a salvar o núcleo
duro da refutação, sem quaisquer outras contribuições para o progresso científico e/ou
tecnológico, o programa é dito degenerativo. Mais precisamente, um programa
degenerativo é caracterizado por falta de crescimento ou crescimento do cinturão auxiliar
desacompanhado de progresso científico (novas descobertas etc.).
Vemos, então, na teoria de Lakatos, uma tentativa de salvar o critério de
demarcação popperiano, procurando adequá-lo à realidade histórica e à prática social.
Contudo, uma das críticas freqüentes a seu modelo é a de que ele não fornece critérios
detalhados, nem para que se possa medir a “degeneração” de um paradigma, nem para
determinar o ponto em que o programa de pesquisa deve ser abandonado.
Vimos, por um lado, que tanto os critérios de demarcação indutivistas, quanto os
verificacionistas e falseacionistas, são falíveis e, ademais, seus modelos fornecem uma
descrição pouco convincente da prática científica. Os programas de pesquisa descritos por
Lakatos, por outro lado, não parecem admitir critérios de avaliação de desempenho. Não
acreditamos, no entanto, que uma saída relativista a partir do modelo kuhniano seria a
melhor resposta ou, tampouco, o anarquismo metodológico de Feyerabend, pois a ciência
pode, ainda assim, distinguir-se de “não-ciências” por sua objetividade, ainda que
objetividade enquanto realização prática, como veremos a seguir.

4.1.2 Ceticismo e objetividade

A diferenciação da ciência ao longo de sua evolução tem posto em conflito as mais
inflamadas visões, a favor ou contra tanto sua estrutura epistêmica quanto institucional. A
ciência já foi considerada profana mas, também, salvadora. Ela já foi, e continua sendo,
vista como desumanizadora, transformando pessoas – e às vezes povos inteiros - em
ferramentas e objetos de pesquisa e manipulação, tanto quanto, outrossim, como veículo de
nossa emancipação contra a pressão do ambiente e de nossos genes. A ciência pode ser “a
13
Máquina” devoradora de almas (Harrington, apud Harwood, 1998) e, também, “o alimento
do intelecto”. Feyerabend (1977) a compara à prostituição organizada. Sagan (1993) a
compara a uma chama, que ilumina o caminho para além da tirania do obscurantismo .
Os cientistas são, para alguns, sacerdotes de branco, membros de um culto à razão e
à materialidade, cujo estatuto em nada difere dos de uma seita supersticiosa ou mágica.
Para outros, são – ou deveriam ser – os guias de toda civilização moderna, cabendo a eles
representar a sociedade em toda atuação política, jurídica, econômica e, por que não,
também artística, ética etc.
Quando falamos em “diferenciação” da ciência, evocamos a imagem proposta por
Michel de Certeau. Ele ressalta a negligência ou lapso de muitos historiadores ao
identificar a diferenciação, isto é, a gênese de uma instituição, a seu isolamento da
sociedade (2007). Como um corpo vivo em constante maturação, a sociedade tem seus
órgãos remanejados a fim de acomodar um novo órgão que se diferencia. Cada órgão
trabalha sob um regime específico, com transportes e sínteses próprias sem que, no
entanto, deixe de interagir constantemente com as demais partes. Assim, diferencia-se –
porque surge – mas não se isola. A diferenciação do pensamento científico na era
iluminista, através do surgimento de novos espaços acadêmicos, reordenou os papéis
sociais das instituições religiosas, políticas etc. Desde então, tem-se a apreciação da ciência
e a crítica de seu estatuto como conseqüência de um perpétuo remanejamento entre as
partes que se acomodam – mas não se aquietam – num corpo social.
Sempre haverá, quanto a isso, disputa de interesses e conflito entre visões de
mundo, precisamente porque a atividade científica não é – e jamais foi – independente do
corpo social, a despeito do que já se pensou e desejou em contrário.
À parte as disputas quanto a esse ponto, permanece o problema de sabermos se o
mesmo pode ou não ser dito quanto à substância dos fatos científicos em si, isto é, se o
conteúdo de uma teoria é, ele mesmo, de cunho social ou se, ao invés disso, o
conhecimento científico independe de gênero, raça, orientação política e demais
características pessoais ou coletivas. Por fim, mas não menos importante, é preciso
questionar a extensão em que um dado pode ser considerado objetivo, bem como os
diversos posicionamentos a respeito dessa questão.
Quando se fala em objetividade na ciência, a suposição tradicional de seus
defensores é de que ela está protegida da influência de características individuais ou de
grupo, tais como sexo, raça, classe e outras (Chalmers, 1994, p109). A idéia é que um
mesmo dado científico será obtido independentemente por dois indivíduos quaisquer,
sempre que um procedimento experimental idêntico for seguido por ambos. É comum que

14
esse ideal seja encarado com ceticismo no âmbito da sociologia do conhecimento. Quando
se debate a objetividade do ponto de vista sociológico, porém, é necessário recorrer a uma
distinção entre aspectos cognitivos e não-cognitivos da ciência (Ibidem, p110 et seq). Os
primeiros referem-se ao conteúdo teórico propriamente dito e, os segundos, a todos os
demais fatores, como a organização de um espaço acadêmico, seu impacto social em outras
instituições e no meio-ambiente, os desdobramentos tecnológicos advindos de uma
descoberta e a correspondente exploração econômica e política etc.
É consenso que a explicação sociológica seja viável com relação a aspectos não-
cognitivos. Mesmo os mais entusiasmados racionalistas hão de concordar com a validade
de tal explicação e, se já não o fizeram – como afirmamos previamente – isso
provavelmente se deve antes a uma não-distinção dos aspectos supracitados. Em se
considerando a maneira com que desdobramentos científicos suscitam problemas bioéticos
- vide questão do aborto, discussões acerca das pesquisas com células-tronco, avanços da
engenharia genética etc. - além de uma enormidade de outros aspectos, como o impacto da
ação humana sobre o meio ambiente e o desenvolvimento de armas nucleares e biológicas,
para ficar nuns poucos exemplos, encontrar-se-ia em sérias dificuldades aquele que
tentasse rejeitar a explicação sociológica do conhecimento científico. Diante da
importância premente desses e outros fenômenos, sua aceitação é tranqüila, ao menos com
relação a aspectos não-cognitivos.
É com relação ao conteúdo cognitivo da ciência que a necessidade de uma
explicação sociológica encontra dificuldades. Uma das maiores dificuldades à aceitação
dos argumentos dos sociólogos reside na própria descrição que eles fazem de seus
opositores (Chalmers, op. Cit, loc. Cit). A fim de questionar a existência de um estatuto
epistemológico privilegiado, que distingue a ciência das demais formas de conhecimento,
alguns autores recorrem a uma caracterização demasiado simplista, ingênua, desse estatuto,
inadequada mesmo para os epistemólogos mais tradicionais.
A seguinte passagem ilustra a forma como Mulkay, segundo Chalmers, critica o
que ele supõe ser a formulação clássica do estatuto científico:

“Os elementos dessa visão clássica identificada por Mulkay são os seguintes. A ciência
pode estabelecer verdades sobre o mundo natural na forma de leis universais da natureza;
essas leis, são confirmadas lançando-se mão de afirmações factuais determinadas por meio
de uma observação cuidadosa e isenta de preconceitos. Embora certos componentes
teóricos da ciência possam ir além do que a observação pode determinar, pode-se fazer uma
distinção entre os níveis teórico e de observação. Neste último, a ciência apresenta um
crescimento cumulativo. Os critérios pelos quais as exigências de conhecimento devem ser

15
analisadas são universais e a-históricos. As conclusões da ciência são determinadas pelo
mundo físico e não pelo mundo social.” (Ibidem, p138)

Autores como Popper e Lakatos, atualmente, podem tranqüilamente ser
considerados filósofos da ciência “tradicionais” ou “clássicos” para os padrões de hoje.
Ambos dedicam-se à elaboração de critérios de demarcação, os quais possibilitam
distinguir epistemologicamente a ciência de teorias pseudocientíficas, como Popper
denomina, por exemplo, a psicanálise e o marxismo. A caracterização que Mulkay atribui à
defesa “clássica” do estatuto científico diferenciado assume contornos claramente
positivistas. Tanto Popper quanto Lakatos buscam definir métodos e padrões de pesquisa
que sejam a-históricos, universais e amorais, com os quais seja possível diferenciar a
ciência de outros sistemas de conhecimento – um objetivo comum aos positivistas. No
entanto, divergem dos últimos a partir daí, porquanto a crítica ao sistema positivista é um
dos pontos principais da obra de Popper, a qual Lakatos procura retomar e aperfeiçoar.
Ambos os autores apresentam pontos de vista menos ingênuos e mais elaborados do que
aqueles descritos por Mulkay e, segundo Chalmers, também outros (Idem).
Parece faltar, nesse tipo de posicionamento, aquilo que os filósofos chamam de
“caridade”. O Princípio de Caridade, uma espécie de análogo filosófico ao princípio
jurídico da Ampla Defesa, recomenda ao crítico que saiba defender aquilo que pretende
criticar, de forma tão hábil quanto a própria defesa de seus proponentes (Blackburn, 1997).
Com isso, a crítica ganha em substância, é revestida de propriedade e, respeitando a
posição de seu oponente, eleva-se a si mesma. É, pois, uma exigência de honestidade
filosófica, a qual tende a ser negligenciada em tempos de relativismo. Em sua crítica a
Kuhn, Lakatos (1970) atenta para essa questão, ressaltando que a tomada de decisão entre
dois paradigmas tende a restringir-se mais a uma questão retórica do que propriamente
racional. Infelizmente, é comum, segundo Chalmers, que defensores da explicação
sociológica recorram a esse tipo de expediente.
Chalmers afirma que a explicação sociológica dos fatores cognitivos de uma
ciência é possível conquanto se busque identificar as influências sociais atuantes sobre a
determinação de uma meta, bem como as inspirações e os interesses que afetam a trajetória
do pesquisador. Fornece, como exemplo, um interessante trabalho de Freudenthal sobre a
influência com que a transição do regime feudal para uma forma primitiva de capitalismo,
à época de Newton, operou decisivamente sobre alguns dos pressupostos físicos contidos
nos Principia (Chalmers, op. Cit., p138).
Quanto à natureza dos dados empíricos de uma teoria, porém, tal explicação é
injustificada, uma vez que os resultados experimentais são providos pela natureza. A
16
natureza dos dados é dada pelo mundo e independe das características pessoais de quem
quer que esteja envolvido nas pesquisas. Quem quer que reproduza à risca, por exemplo, o
experimento de Hertz de produção de ondas de rádios, fatalmente obterá os mesmos
resultados. A interpretação desses resultados, naturalmente, será diferente porque, como
diremos adiante, esta é teórico-dependente. A física contemporânea é profundamente
diferente daquela que Hertz conhecia e, por isso, as conclusões teóricas seriam diferentes,
já que baseadas em horizontes teóricos distintos. Não obstante, os dados experimentais
decididamente seriam os mesmos, porque é assim que o mundo funciona Citando
Chalmers:

“O mundo natural não se comporta de uma forma para os capitalistas e de outra para os
socialistas, de um modo para as culturas ocidentais e de outro para as culturas orientais.
Uma guerra nuclear em grande escala, que a ciência tornou possível, nos destruiria a todos,
seja qual for a classe, o sexo ou a cultura. No entanto, de lugares-comuns como esse não se
poderia dizer que, estando implícito na ciência a elaboração de generalizações que
caracterizem de modo satisfatório o mundo natural, a suficiência dessa caracterização não
tem nada a ver com as predisposições ou interesses dos indivíduos ou grupo que a elaboram
e adotam?”

Um último fator gerador de ceticismo com relação à racionalidade científica refere-
se à objetividade. É lugar-comum, em círculos intelectuais humanistas, discursar contra a
possibilidade de remoção da interferência subjetiva na produção de resultados
experimentais. Certamente as dificuldades são bem maiores no âmbito das ciências
humanas. Chalmers, prudentemente, evita transferir a discussão para essa área,
restringindo-se ao problema da subjetividade nas ciências naturais que é, na verdade, o
campo em que o debate vivo está de fato instaurado. Convém ressaltar, no entanto – e esse
ponto será desenvolvido mais adiante – que ele não procura defender os empiristas contra o
ataque da filosofia da ciência das últimas décadas. Sua posição é de que as explicações
empiristas não devem ser enfraquecidas mediante o recurso a aspectos subjetivos da
observação. Não obstante, acredita ele, há argumentos mais fortes contra a idéia de que os
sentidos podem proporcionar bases seguras para a ciência.
Chalmers lamenta ter sido mal-compreendido e admite a possibilidade de ser
parcialmente responsável pela disseminação de certa dose de relativismo, conforme
verificara pela popularização desse tipo de discurso em meio a seus alunos. Ele contra-
argumenta que as normas e técnicas de observação empírica visam justamente a eliminar
ou, ao menos, minimizar a interferência de fenômenos subjetivos. É o que diferencia,
segundo ele, a observação científica da observação pelo senso comum. Substituindo a
17
observação comum por experimentos controlados, é possível superar muitos dos elementos
subjetivos da percepção. O erro consiste em atribuir a uma suposta subjetividade o fato de
que as interpretações dos fenômenos são dependentes do conhecimento técnico e teórico
do experimentador e da ciência da época. Por um lado, temos a percepção individual e, por
outro, as interpretações teórico-dependentes, e essas coisas não devem ser confundidas. A
falha da argumentação tradicional contra o empirismo, portanto, consiste em enfatizar
inoportunamente a importância dos aspectos psicológicos da percepção de cada
observador.
Afirmar que a interpretação de resultados é teórico-dependente tem implicações
muito sérias para a filosofia da ciência.
Com relação à observação em si, isso implica uma rejeição do postulado empirista
de que quaisquer dois observadores devem chegar a uma conclusão comum mediante a
mera contemplação de um quadro experimental. A falsidade dessa alegação é evidente,
bastando considerarmos um simples exame de raios-X - onde um técnico experiente vê um
tumor, um observador leigo pode ver nada mais do que manchas brancas sem qualquer
significado.
Seguindo essa linha de raciocínio, somos forçados a nos indagar sobre o que seria,
portanto, um resultado experimental confiável. Já que, seguindo o exemplo prévio, dois
técnicos podem discordar quanto ao resultado de um exame – em função de diferença entre
seus níveis de conhecimento – nada garante que, de modo geral, um dado resultado
cientifico possa ser considerado plenamente confiável. Não obstante, a objetividade existe,
porquanto diferenças subjetivas, como vimos, tendem a ser minimizadas. A conclusão é de
que a objetividade em ciência, para Chalmers, é uma realização prática. Ou seja, ela é
possível de ser atingida em graus variados, que dependem tanto do rigor metodológico
empregado quanto de variáveis teórico-dependentes do observador e do contexto cientifico
da época.
A dependência teórica implica, ainda, uma constante necessidade de revisão dos
resultados experimentais do passado. Se o significado ou a relevância de um conjunto de
dados é estimado no contexto científico de uma determinada época, é de se esperar que
esse mesmo conjunto tenha potencialmente um novo significado em outra época, ou que
venha a ser considerado irrelevante futuramente. Ou seja, os resultados experimentais
devem ser constantemente submetidos a revisões e atualizações. Isso significa que a
ciência não é construída em bases epistemologicamente seguras e, para Chalmers, nem
deve ser. De qualquer forma, essas implicações não têm nada a ver com aspectos
psicológicos ou subjetivos do experimentador.

18
4.1.3 A Ideologia científica

No intuito de delimitar os contornos do objeto de estudo da história da ciência,
Canguilhem observa que, “mais do que um problema de técnica ou método histórico
dirigido ao passado dos conhecimentos científicos, tal como pode ser reconstituído a partir
de documentos ou arquivos”, a historiografia da ciência aborda problemas essencialmente
epistemológicos, questões concernentes à evolução da estrutura científica na história
(Canguilhem, 1970, p90). Não se ocupa, no entanto, com a definição de critérios de
demarcação. Em vez disso, reconhece que o sentido daquilo que se considera científico
muda no tempo. Uma teoria outrora considerada científica, eventualmente, vem sendo
desmerecida, à medida que é gradualmente substituída por modelos teóricos mais
promissores ou eficazes. Canguilhem fala intencionalmente em merecimento, pois
considera a cientificidade “um título” ou “reivindicação de dignidade”. Ele iguala esse
processo de substituição a uma verdadeira evicção, ou seja, à expropriação de um bem
legitimamente adquirido – no caso, o título. Mais ainda, afirma que esse processo é um
padrão que ocorre em toda a historia da ciência.
A implicação disto é que toda ciência é precedida por um outro tipo de teoria, que
compartilha de seus interesses, i.e. apresenta um objeto de estudo semelhante, mas cuja
metodologia é menos rigorosa e poderosa que aquilo que o objeto exige. Diz-se que o
objeto é hiperbólico às suas normas e ferramentas. Essas teorias precedentes são dotadas de
uma ambição explícita de cientificidade e procuram imitar quaisquer modelos científicos
vigentes. A essas teorias, Canguilhem dá o nome de ideologias científicas.
O termo “ideologia” não assume, aqui, a conotação popularizada pela vulgarização
do pensamento marxista. Assim, uma ideologia científica não implica - ou ao menos, não
necessariamente (o autor não foi explícito quanto a essa questão) – uma falsa
conscientização, tal qual o faz uma ideologia política no contexto marxista. No sentido
empregado por Canguilhem, a palavra “ideologia” faz alusão ao fato de que, no âmbito da
não-ciência em que ela atua, já existe um discurso científico, i.e. uma terminologia
científica da qual ela se apropria. Devido a isso, é dito que, nesse estágio, já houve uma
ruptura entre ciência e religião. Canguilhem é enfático ao salientar as diferenças entre uma
ideologia científica e uma “falsa ciência”. As religiões, a magia e as superstições são falsas
ciências. Estas se caracterizam por serem completas, fechadas, de forma a comportar

19
explicações para quaisquer ocorrências imaginárias e estarem virtualmente imunes a
qualquer tipo de refutação9.
Canguilhem cita como exemplo de ideologia científica o atomismo. Escreve ele:

“Demócrito, Epicuro e Lucrécio reivindicam para sua física e sua psicologia o estatuto de
ciência. À anticiência que a religião constitui opõem eles a anti-religião que é a sua ciência.
A ideologia científica é, evidentemente, o desconhecimento das exigências metodológicas e
das possibilidades operatórias da ciência, no setor da experiência que esta procura investir,
mas não é de modo algum a ignorância, o menosprezo ou a recusa da função da ciência.
Isso significa também que de modo algum se deve confundir ideologia científica e
superstição, pois a ideologia ocupa um lugar, ainda que seja por usurpação, no espaço do
conhecimento e não no espaço da crença religiosa.” (Canguilhem, 1970, p95)

Cabe aqui uma complementação importante. Dissemos que a ideologia científica
ocupa o lugar que, um dia, será da ciência. No entanto, não é exatamente o mesmo lugar,
pois ocorre sempre um deslocamento. Posto de forma mais concreta, isso significa que os
reais problemas de que a ciência se ocupa não são os mesmos que a ideologia aponta. Em
virtude de sua deficiência operatória e, conseqüentemente, teórica, a ideologia sinaliza com
os problemas errados, dado que os questionamentos são inevitavelmente elaborados de
maneira equivocada. Como exemplo, o autor cita o conhecimento do átomo no século XIX.
Os problemas com que a química e a física da época se depararam não são de modo algum
os objetos de investigação esperados pelo atomismo, que concebia um modelo atômico
indivisível10. Ou seja, não faz sentido, por exemplo, afirmar que o modelo atomístico de
Platão – com partículas elementares na forma dos cinco sólidos perfeitos fazendo as vezes
de átomos os, quais, por vez, são combinações de triângulos retângulos e eqüiláteros –
possa ser considerado um vislumbre do modelo atômico de Bohr, simplesmente porque os
problemas resolvidos com este não existiam anteriormente à literatura do século XX.
Em síntese: ideologia científica é o termo empregado por Canguilhem ao referir-se
a teorias pretensamente científicas, que se apropriam livremente de conceitos científicos e
têm um objeto de estudo em comum com uma ciência, sem partilhar com essa de suas
exigências metodológicas. É uma teoria com história própria e existência paralela ao de
uma ciência já instituída, a qual procura imitar. Eventualmente, virá a ser substituída por
uma ciência autêntica. Difere do que ele denomina “falsas ciências” – como a magia e a

9 A descrição é compatível com o conceito de “pseudociências”de Popper, às quais ele inclui o
marxismo e a psicanálise (Popper, 1993).

10 É interessante comparar essa constatação com a afirmação de Chalmers de que a
interpretação dos resultados é teórico-dependente (ver seção anterior, “Ceticismo e Objetividade”).

20
religião – pela sua ambição explícita de ser ciência. Distingue-se dessas, ainda, no que
tange a sua historicidade, pois, segundo Canguilhem, as falsas ciências constituem sistemas
completos e irrefutáveis, sendo destituídas, portanto, de história. Uma ideologia científica
tem história própria e paralela ao de uma ciência, cujo prestígio reconhece e a que aspira.
Devido a este paralelismo, ele afirma que a visão da ideologia científica sobre seu objeto
de estudo é um “olhar de soslaio”.

4.2 O Paradigma Holístico

Holismo, em geral, é toda doutrina, visão de mundo ou abordagem que privilegia o
todo em detrimento de suas partes. Como visão de mundo da Nova Era, em particular, o
chamado Paradigma Holístico corresponde ao surgimento de uma nova ontologia. É,
portanto, um conjunto específico de pressupostos e valores, o qual não deve ser confundido
com as demais (várias) acepções do termo. Aqui, usaremos o termo “holismo” como que
designando essa visão de mundo específica.
De acordo com seus proponentes, o holismo é um paradigma de renovação dos
conceitos de consciência, vida e realidade. Aquilo que o chamado pensamento ocidental
tipicamente considera como “realidade” – ou o mundo em si, concebido como algo
independente do indivíduo – na verdade, não seria a realidade última das coisas, mas, pelo
contrário, corresponde apenas à mais superficial das “camadas” da realidade, uma vez que
nosso pensamento recebe o mundo via órgãos sensoriais, os quais são, por excelência,
falhos e limitados. O pensamento ocidental, a seu ver, teria depositado equivocadamente
uma excessiva confiança no uso dos sentidos e da razão em sua maneira de lidar com a
natureza. Esse vício de amparar-se em instrumentos cognitivos e sensoriais tão limitados
teria sua origem – ou, ao menos, supõe-se que deva muito de sua difusão e hipertrofia –
durante a Revolução Científica do século XVII, e em decorrência da mesma. A Revolução
Científica, tal qual os holistas a interpretam, foi uma resposta ao esgotamento do
paradigma anterior, que já havia acumulado inúmeras insuficiências ao lidar com os
anseios e questionamentos de uma época que já não lhe pertencia. O pioneirismo de
cientistas como Galileu, Newton e Bacon, aliado aos adventos do racionalismo, do
Iluminismo e do mecanicismo, foram verdadeiras lufadas de ar fresco para uma sociedade
descontente com os desmandos de um obscurantismo decadente. Da mesma forma, no
século XXI, vivemos à beira de uma nova Revolução das Luzes, pois ora é o paradigma
mecanicista, materialista e reducionista da ciência tradicional quem já não corresponde aos
questionamentos de uma sociedade insatisfeita com o desencanto do mundo, a

21
desumanização da humanidade e o desprezo pela natureza. Ademais, as próprias
formulações científicas mais recentes, segundo os holistas - e mesmo das ciências mais
prestigiadas, como a física – propõem questionamentos que não poderiam mais ser
respondidos à luz do pensamento científico tradicional. Ainda, desdobramentos mais
recentes da física moderna viriam justamente ao encontro das formulações milenaristas das
culturas orientais, às quais os holistas são bastante afeiçoados, pois, a seu ver, têm muito a
nos ensinar, uma vez que privilegiam a intuição e a espiritualidade em detrimento da razão.
O pensamento holístico, dessa forma, pressupõe uma realidade profunda e cheia de
significados, apreensíveis pelo desenvolvimento da consciência. Admite-se que a
consciência de níveis mais profundos de realidade é apreendida não durante o estado de
vigília, mas sim por meio da meditação e do aperfeiçoamento de suas técnicas. Fala-se em
transpessoalidade como que designando os níveis do inconsciente para além do pessoal.
Entenda-se por inconsciente uma instância psíquica à maneira de Freud ou, mais
apropriadamente, Jung. O estado inconsciente, convém notar, faz oposição ao estado de
vigília e não à consciência de que falam os holistas. Tampouco se deve confundir o
transpessoal como aquilo que precede o pessoal quando, na verdade, é justamente o
oposto: o transpessoal está além do ego.
Segundo a psicologia transpessoal dos holistas, é necessário evoluir para além da
mentalidade tipicamente ocidental, uma vez que esta é superficial e esconde a verdadeira
profundidade do universo, concebido como uma unidade cósmica orgânica. Entenda-se
“evolução” no sentido teleológico, ou seja, como que denotando um progresso, no caso,
em direção a um gradiente de espiritualidade, correspondente a um crescendo de auto-
realização, que culmina com o estado de plenitude. A plenitude ou santidade, ao contrário
do que o pensamento ocidental faz parecer – devido justamente à sua atrofia espiritual –
não é virtude de uns poucos “escolhidos”, mas, pelo contrário, existe como potencialidade
em cada pessoa. A possibilidade que o paradigma holístico oferece consiste justamente em
converter essa potência em ato de plena realização.
A busca da plenitude, no entanto, não seria meramente um ato de realização
individual, mas, ao contrário, trata-se de uma questão de sobrevivência. Ao estado de
estagnação espiritual – oposto, portanto, à plenitude – dá-se o nome de normose. Os
holistas classificam como normóticas as crenças, as idéias e as práticas que numa
sociedade são consideradas “normais” e que, por conseguinte, delas partilham seus
membros, sem se darem conta de seu caráter psicopatológico e letal. São, portanto, hábitos
e pressupostos patogênicos os quais, por serem majoritariamente partilhados, não são
percebidos como tal, e que provocam sofrimento e morte. Na psicologia transpessoal,

22
corresponde à terceira grande classe de psicopatologias, ao lado da neurose e da psicose.
Exemplos de normoses seriam: consumo de drogas, violência, machismo, não-
vegetarianismo, materialismo, racionalismo, fundamentalismo (religioso) etc.
Em se atribuindo às crenças e práticas normóticas a alegada crise em que se situa a
humanidade e o planeta, tornou-se imperativa a criação de um programa holístico de
transição do estagnante ao mutante. Na psicologia holística, isso se dá por uma via tríplice:
educação, terapia e meditação.
Uma vez que a concepção de saúde individual é indissociável do âmbito coletivo, o
conceito de terapia, aqui, adquire um significado mais amplo que o mero tratamento de
distúrbios como neuroses e psicoses. Mais que isso, a noção de terapia em holismo
envolve, a um só tempo, a ecologia dos níveis individual, social e ambiental.
No Brasil, a psicologia holística é representada, há cerca de vinte anos, pela Unipaz
– Universidade Holística Internacional de Brasília – que foi fundada como centro holístico
educacional por seu reitor, Pierre Weil e que, atualmente, conta com diversas unidades
espalhadas pelo Brasil e no exterior. Jean-Yves Leloup foi responsável pela criação de sua
unidade terapêutica, o Colégio Internacional dos Terapeutas, inspirado na tradição dos
Terapeutas do Deserto, tal qual descrito por Fílon de Alexandria. No âmbito nacional, o
programa do Colégio Internacional dos Terapeutas tem sido desenvolvido por Roberto
Crema, vice-reitor da Unipaz.
Para os holistas, então, a percepção correta da realidade é somente possível durante
vivências em estados de consciência transpessoais. O estado de vigília permite apenas a
percepção de um nível superficial e enganador da realidade. O terapeuta transpessoal,
sintonizado com esses níveis mais profundos da existência, está apto a captar mensagens
enviadas pelo próprio universo e transmiti-las ao cliente; diz-se que o terapeuta é um
facilitador da “evolução” do indivíduo em direção à plenitude. O processo de facilitação
envolve uma combinação de raciocínio analítico e sintético, como ilustrado pelo seguinte
caso, descrito por Crema:
“Em grande aflição, uma mulher, médica de profissão, que tinha sempre se dedicado
extremamente ao marido e filhos, fala de sua crise familiar. O marido, de forma repentina,
resolveu separar-se dela e está já morando em outro apartamento, para seu total desespero.
Como se não bastasse, o seu filho, com hostilidade, acusa-a por esta situação. O terapeuta
sugere que ela fale com o seu filho, como se ele estivesse sentado na almofada à sua frente
e pudesse ouvi-la. Quando ela inicia o diálogo, o sintetista do terapeuta vê uma rede, na sua
tela psíquica. Então, com suavidade, indaga: ‘O que evoca, para você, uma rede?’. ‘Nada’,
responde a amiga evolutiva. Um instante depois, ela se corrige: ‘Ah, sim! Quando eu tinha
um ano de idade, a rede onde estava dormindo pegou fogo e eu escapei por pouco!
Distraidamente, foi minha mãe que, com um lampião, colocou fogo na rede...” O sintetista,

23
então, ouviu: há quarenta anos! “Há quarenta anos?”, indagou. Depois de uma breve
hesitação, ela responde: “Sim”. O analista do terapeuta, então, faz a leitura interpretativa:
agora, no sentido simbólico, a sua casa está ‘pegando fogo’ e a mãe, por distração, já que
não percebeu a mudança de seu marido e se deixou pegar de surpresa, cuidando de tudo e
de todos, menos de si mesma, está sendo culpada pela situação. O terapeuta, então, afirma:
‘Quando você tinha um ano de idade, não podia fazer nada e estava completamente
impotente na rede incendiada. Você precisou ser salva pelos outros. Agora, você tem 41
anos e pode assumir uma atitude com seu poder pessoal. Você pode sair desta, com
dignidade, aprendendo a se levar em conta e a cuidar de si mesma, adotando-se. Você não
está só: aprenda a se amar!’”(Crema, 1995, p151)

5 Análise e Discussão

5.1Introdução

Em contraste com o termo “holismo”, cujas diversas definições contém significados
bastante específicos, conceitos como tempo, vida e energia, entre outros, exprimem idéias
as quais têm resistido a quaisquer tentativas de defini-las precisamente, mesmo que seus
significados sejam bastante precisos, e o mesmo se dá com a ciência.

24
Para introduzir nosso argumento, consideremos brevemente o conceito de vida. É
comum caracterizarmos os seres vivos em termos de ciclo de vida, reprodutibilidade,
alimentação, interação com o meio etc. Entretanto, é fácil perceber que tal caracterização
permite identificarmos como “vivos” determinadas classes de seres que, preferivelmente,
deveriam ser excluídos de tal definição. Estrelas, de certa forma, pode-se dizer que
nascem, e também que se desenvolvem e, por fim, morrem. Na “morte” de uma estrela, a
onde de choque decorrente da supernova pode, eventualmente, colidir com uma nuvem de
poeira cósmica e, dessa dinâmica, resultar um novo “berçário” de estrelas, de forma que a
capacidade de reproduzir-se é, também, própria de seu ciclo de vida (Gleiser, 2005,
http://marcelogleiser.blogspot.com/2005/03/da-vida-e-das-estrelas.html).

Tanto quanto tranqüila é a admissão de que elas interagem com o cosmo
circundante, de forma gravitacional, nuclear e, predominantemente, eletromagnética. Ao
longo de suas interações com o meio e seu deslocamento espaço-temporal, um corpo
celeste qualquer pode, ocasionalmente, ser atraído para além do ponto sem retorno por um
corpo maior e, conseqüentemente, ser absorvido por este. De modo geral, então, estrelas
podem efetivamente se alimentarem de outras estrelas e de objetos cósmicos de massa
inferior à sua.

Desde que tomemos as idéias de ciclo de vida, reprodução e alimentação em
sentido suficientemente amplo, acabamos por incluir na classe dos seres vivos não só
estrelas, mas também cristais, príons, nanomáquinas (hipotéticas) e outros seres
“indesejáveis” de figurar em nossa definição.

A Segunda Lei da Termodinâmica, ou Lei da Entropia, em seu enunciado moderno,
garante que, num sistema fechado, a entropia tende sempre a aumentar. A entropia, S,
definida por

S = K*ln(n),

onde K é a constante de Boltzmann e n é o número de configurações possíveis num
sistema, é uma medida do grau de desordem de um sistema (Ruelle, 1993, P180). Se, por
exemplo, um sistema apresenta e30 maneiras possíveis de arranjar suas partículas, a
entropia é trinta vezes K. Ou seja, um sistema conservativo (que não interage com o
ambiente, i.e., não faz "trocas”) tende sempre a aumentar sua desordem. Seres vivos são
altamente organizados, razão pela qual são chamados seres “anti-entrópicos”. Obviamente,
porém, isso não viola a Lei da Entropia, pois seres vivos são sistemas abertos, aqueles que
interagem com o meio externo. Mas não são sistemas abertos quaisquer (até porque
25
sistemas fechados rigorosamente não existem na prática). O que os torna tão distintos, na
verdade, é a dependência do meio externo. Estrelas, cristais e nanomáquinas podem nascer,
crescer, reproduzir-se, alimentar-se e morrer, de certa forma, interagindo com o ambiente o
tempo todo, mas essas coisas não dependem desses comportamentos para continuar sendo
o que são. Uma estrela longínqua, que pudesse ser considerada isolada de qualquer outra
coisa, continuaria sendo uma estrela. Seres vivos, porém são diferentes. Esses entes anti-
entrópicos só mantêm seu grau de organização à custa de energia externa. Para obtê-la,
executam processos de captação, distribuição e transformação de energia a que damos o
nome de “alimentação”. A dependência do meio, portanto, é propriedade intrínseca aos
seres vivos, bem como a capacidade de alimentar-se. Se uma ou mais dessas funções é
extirpada, dizemos que o ser é “morto”11. Ou seja, a fim de declarar um óbito, “basta” que
o médico invoque o correspondente aumento na entropia do universo!

É forçoso reconhecer que a definição termodinâmica de vida, embora inequívoca e
elegante, é provavelmente mais artificial do que muitos desejariam que fosse, e talvez
possamos extrair uma lição desse caso. Há outros exemplos, como o conceito de jogo, que
também partilham de dificuldades similares, mas não queremos tratar desses por
suspeitarmos que, talvez, estejamos nos detendo por demais em ilustrações preliminares.
Avancemos, portanto, à consideração almejada, a de que a ciência tem escapulido para
além das mãos de quem a quer enquadrada entre determinados critérios de demarcação. A
importância de decidirmos qual idéia é ou não científica, se houver qualquer relevância
nesse tema, acreditamos que esteja precisamente no combate à ideologia científica, que
visa a explorar a dubiedade dos conceitos de ciência e verdade em defesa de posições
convenientes (Chalmers, 1993, p214).

Por menos que nos ocorra uma delimitação precisa e historicamente satisfatória da
atividade científica, é ponto pacífico que esta vise a proporcionar um entendimento
massivo do mundo, abrangendo a natureza terrena e a cósmica, a composição material do
humano e as vicissitudes da pessoa. Vemos, assim, que estabelecer os objetivos da ciência
é uma tarefa mais fácil que a de descrever a ciência em si. Dividindo os aspectos do
universo por assuntos, dividimos também a ciência em áreas, o que é seguido de um
número indefinido de subdivisões em áreas especializadas, à medida que a compreensão de
determinados aspectos da natureza se acumule em profundidade. Como causa e também

11 Se, por alguma razão, porém, um “gênio maligno” teleportasse uma pessoa ao vácuo e, um
instante depois, trouxesse-a de volta, provavelmente veríamos que ela continua viva – o que
parece refutar a proposição – mas isso dá porque geralmente organismos apresentam reservas de
energia estocadas em seu interior, fato importante, porém apenas contingente.

26
conseqüência desse progresso, o acúmulo epistêmico de uma ciência bem-sucedida
acompanha um progresso na direção do refinamento metodológico.

Até aqui, temos meramente sobrevoado a instituição científica a uma distância
segura, confortavelmente afastados dos ardis epistemológicos que espreitam os visitantes
mais incautos. Nas seções posteriores, procuraremos articular as diferentes concepções de
ciência ao pensamento e à prática do holismo psicológico brasileiro. O que gostaríamos de
ressaltar até aqui é que a concepção geral de ciência como um estudo sistemático da
natureza traz implicações interessantes para o holismo.

Uma dessas conseqüências é a de que, na medida em que os holistas oferecem
explicações sobre a natureza e a dinâmica do planeta, do universo, da realidade, das
pessoas e do psiquismo humano, eles estão partilhando dos mesmos objetivos da ciência.
Afirmar, como fazem os holistas, que a teoria da evolução darwiniana não é aplicável à
espécie humana, por exemplo, é uma afirmação sobre a maneira como uma porção do
mundo funciona. Sendo assim, é uma afirmação científica – no sentido amplo previamente
especificado – e deve ser criticada como tal: “Existe uma ilusão normótica, darwiniana, de
que o ser humano evolui através do acaso e da necessidade, por mutações causais e
competitividade mecanicista em que o mais apto prevalece. Darwin não entendeu a
evolução propriamente humana. Como bom naturalista, entendeu a evolução natural.”
(Weil et al., 2003, p41).

Da mesma forma, a concepção de um mundo cuja “realidade última” só é por nós
apreensível durante estados de consciência diferentes da vigília (Idem, passim) não é
meramente uma crítica metodológica ao uso da razão, da tecnologia e dos sentidos; é,
também, uma hipótese física e, ao mesmo tempo, psicológica sobre a maneira como as
coisas são. Ainda, um mundo em que a memória pode ser herdada em casos especiais é
diferente de um mundo em que isso não é possível em ocasião alguma.

A bem da verdade, não há qualquer pretensão explícita de cientificidade nas obras
holísticas estudadas, mas há muitas passagens em que isso fica sugerido. Além de
inúmeras críticas à ciência contemporânea, os autores se referem a Kuhn para defender
uma transição de paradigma científico em geral para o paradigma holístico (Idem, passim).
Em outro momento, Crema anuncia a mudança de paradigma na mesma medida em que a
ciência aristotélica degenerou e foi substituída pela física moderna (Crema, 1995, p16).

Essas e outras passagens sugerem fortemente a intenção dos autores de reformular
as bases em que se dá a produção científica da psicologia e o pensamento científico como
27
um todo mas, mesmo que não fosse esse o caso, ainda restaria o fato de que a visão de
mundo holística estabelece explicações acerca do psiquismo e da natureza em geral e,
nesse sentido, são hipóteses científicas, ainda que hipóteses de uma ciência “alternativa”.

Com isso em mente, investigamos o pensamento holístico à luz daquelas que
consideramos os principais modelos de ciência da epistemologia moderna, e os resultados
estão contidos nas três seções seguintes. Mais adiante, argumentaremos que isso não
permite uma avaliação justa do holismo e, para tanto, apresentaremos um método de crítica
interna do conteúdo holístico propriamente dito e de seu rigor metodológico.

5.2 Holismo, Informação e Falseabilidade

A Quantidade de Informação I de uma proposição, ou simplesmente Informação, é
dada por:

I = log(n),

onde

n=[n° de eventos possíveis][n° de eventos selecionados]

e a base do logaritmo pode ser escolhida à conveniência. Essa é a definição de informação
proposta por Claude Shannon que serviu de base para o desenvolvimento da Teoria da
Informação (Ruelle, 1993, p180).

Como exemplo elucidativo, considere um daqueles passatempos da série “Onde
está Wally?”. Cada passatempo consiste em uma figura de duas páginas que retrata um
cenário visitado por um indivíduo particularmente chamativo que é Wally. O tema do
cenário varia muito, de civilizações antigas a mundos imaginários, passando por cenas de
nosso cotidiano e projeções futuristas de nossa civilização. Em cada caso, a dificuldade de
se localizar o diminuto Wally na cena é devido à numerosa presença de outros personagens
e objetos em situações cômicas que divertem o leitor. Suponha que uma criança impaciente
esteja tendo dificuldades em encontrar Wally e, a fim de avançar logo para a próxima
figura, pede ajuda a um coleguinha mais versado na brincadeira. O colega dá a dica:

28
“Procure na página da direita.” Nesse caso, foi selecionada ou especificada uma página, ou
seja, um evento selecionado dentre dois eventos possíveis; então,

n = 2/1 = 2

e, utilizando a base 2,

I = log2 (2) = 1 “bit”

Seria possível aumentar a precisão da dica dividindo a figura em quadrantes
e,apontando um deles; nesse caso, teríamos n = 4 e I = 2 (dois bits). Dividindo a figura em
8 quadros e escolhendo 1, n = 8 e I = 3.

Devido à maneira como circuitos eletrônicos são organizados, é conveniente fazer
especificações de forma que n seja múltiplo de 2 e a base logarítmica seja também 2, de
modo que I seja expresso em bits. Assim,

n = 2I

e

I = log2(2)I.

Por exemplo, especificando-se um evento dentre 256 possibilidades, está-se
transmitindo uma quantidade de informação igual a 8 bits, pois

256 = 28, I = 8;

O conjunto de 8 bits é chamado de byte. Em tempo, note que, se nenhuma dica for
transmitida,

n = 2/2 = 1, I = log2(1) = 0,

uma vez que 20 = 1; posto de outra forma, uma tautologia como “Wally está em uma das
duas páginas” contém zero bit, pois meramente repete o que já sabíamos de antemão.

Suponha, agora, a existência de três “Grandes Sábios” os quais, a nós, é dada a
oportunidade de fazer-lhes uma única pergunta sobre qualquer assunto. A esta pergunta,
cada um dos Grandes Sábios dará sua própria resposta, cujo conteúdo será, por nós,
perfeitamente inteligível. A pergunta que faremos é “Onde Está Wally Neste Momento?”,
e suponha que exista realmente esse tal indivíduo específico a que chamamos Wally, mas
que, antes da resposta dada, admitimos que ele possa estar em qualquer lugar do universo,

29
com igual probabilidade, no instante determinado. Chamando os Grandes Sábios de A, B e
C, considere as seguintes respostas:

Sábio A: “Wally está em algum lugar do universo”

Sábio B: “Wally está em algum lugar do Brasil”

Sábio C: “Wally se encontra na terceira coluna e segunda fileira de carteiras
da Sala 01 do Bloco Didático da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Ribeirão Preto”

Com base no exposto até agora, é evidente que a primeira resposta é verdadeira em
quaisquer circunstâncias, dados os pressupostos da pergunta; pela mesma razão, sua
quantidade de informação é nula. A quantidade de informação da resposta C é calculável
mediante algumas suposições simples12. O resultado é:

I(c) = 6,6 ∙ 1078 Bytes

É esperado que a quantidade de informação contida na resposta B seja da mesma
ordem de grandeza, embora menor.

O critério de demarcação de Popper é o de que duas teorias rivais devem ser
comparadas em termos de seus respectivos graus de falseabilidade. Quanto maior for o
número de falsificadores potenciais de uma teoria, melhor. Do exposto acima, não é difícil
perceber de que maneira a falseabilidade de uma teoria se relaciona à sua quantidade de
informação. A proposição A não é falseável e não contém qualquer informação (além,

12 Considerando o universo como uma esfera de 156 bilhões de anos-luz [Jornal da Ciência, 31
de maio de 2004: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=18948], seu volume é
dado por:

Vesfera ,

Sabendo que um ano-luz equivale a 9,5 trilhões de km, então r, em metros, é dado por:

r = (156/2) ∙109∙9,5∙1012∙103 = 7,41∙1026

logo,

Vesfera ≅1,7∙1081m3

Considerando que a resposta C especifica 1m3 dentre os 1,7∙1081m3 possíveis, então V = n
possibilidades. Dividindo V por 256 possibilidades, temos I dada em bytes.

30
naturalmente, da informação metalingüística da linguagem em que se fala). A proposição B
é falseável de muitas maneiras – basta que Wally seja encontrado fora do volume
especificado – e a proposição C é ainda mais falseável. A falseabilidade de um enunciado é
diretamente proporcional à sua quantidade de informação.

A teoria holística encerra uma vasta quantidade de idéias que, se analisadas
independentemente, são altamente falseáveis13. Eis alguns exemplos:

“É no interior da pedra bruta da estupidez que encontraremos o diamante da excelência, da
plenitude, da capacidade incondicional de amar. Caminhar sobre ondas com os pés secos,
levitar, transmutar, são eventos notáveis que, às vezes, precisamos testemunhar para
compreender o alcance do potencial humano. E todos esses dons empalidecem diante do
poder da inocência, da transparência.” (Weil et al., p140)

“[referindo-se aos tulkus, da tradição do budismo tibetano, que “já nascem na condição de
Buda”] O atual Dalai Lama é um bom exemplo dessa condição evolutiva. Esses meninos
especiais são rapidamente reeducados e se lembram de seus discípulos, de seus auxiliares
etc. Tudo isso é evidenciado de todas as formas, testado e comprovado. (Quem viu o filme
O Pequeno Buda deve se lembrar.) Com 12 anos, já estão dirigindo o mosteiro como os
anciãos de setenta anos.” (Ibidem, p180)

“[sobre o conceito de inconsciente familiar] O que fala através de mim não é só o que
conheço e aprendi, não é o resultado de minha pequena infância, mas são todas essas
memórias transgeracionais. Aqui, pode existir uma palavra que existe em mim, que vem de
meus ancestrais. A religião, para alguns, é conectar-se com a sabedoria desses ancestrais.
Entretanto, essas influências nem sempre são benéficas. Às vezes existem fantasmas
destrutivos: posso ser possuído pelos espíritos de minha própria família. Temos de estar
conscientes desse inconsciente familiar.” (Ibidem, p187)

O fato de que os autores estudados aparentemente não se preocupam em
desenvolver procedimentos de teste de suas hipóteses é um problema secundário, pois nada
impede que adeptos do holismo se ocupem futuramente de buscar validação empírica com
base nas idéias desses que podem ser considerados autores pioneiros. Nos termos de
Lakatos, há oportunidades de desenvolvimento de uma heurística positiva holista. Uma
crítica mais forte consiste em reconhecer que afirmações como as mencionadas não são, de
forma alguma, novas, inovadoras ou “ousadas”, como Crema costuma dizer. Hipóteses

13 Ver “Alegações Extraordinárias”, mais adiante.

31
sobre memórias de vidas passadas, possessões por espíritos, homeopatia, tulkus,
transmutação, e outras idéias defendidas pelos autores, não são, de modo algum, novas.
Pelo contrário, boa parte do conteúdo holístico consiste em uma agregação de idéias ditas
“alternativas” que concorreram, em diferentes momentos históricos, com hipóteses
científicas rivais e, eventualmente, foram “derrotadas”. Pode-se argumentar, em contrário,
que o modelo copernicano também havia sido falseado à sua época (Chalmers, 1993, p99),
mas o que queremos evidenciar por ora diz respeito à estrutura quimérica do holismo. Seu
caráter “frankensteiniano” e não-empírico ao menos sugere que o que esteja em questão
seja menos descobrir e explicar fenômenos do que recuperar crenças enfraquecidas pelo
sucesso de programas científicos concorrentes.

À luz do falsificacionismo, a maior fraqueza do holismo refere-se à normose, um de
seus conceitos centrais. O problema aparece em afirmações como a que se segue:

“Um exemplo trágico e chocante: se você tiver uma experiência mística legítima [...] e
contar isso ao médico, ao psicólogo [...] eles dirão que você está doente, que necessita de
tratamento. Para os representantes de uma normose cientificista, muito em voga, não existe
a categoria do numinoso e do espiritual. Para eles, Cristo e Buda são ilusões; ou, pior que
isso, são degenerações, o ópio do povo ignorante, ilusão e alienação patológica.” (Ibidem,
p48)

Se os resultados de um eventual teste parapsicológico, conduzido com o rigor
adequado, contrariasse as expectativas holísticas, é de se esperar que a aptidão e também a
idoneidade dos experimentadores fosse imediatamente colocada sob suspeita, ao menos
com base no tom hostil do trecho citado, e nosso argumento é que a normose tem a função
de facilitar esse tipo de manobra de resguardo, algo que os falsificacionistas tanto rejeitam.

A função da normose é prover substrato teórico para invalidar os falsificadores
potenciais das hipóteses holísticas, e o resultado disso é que suas proposições, outrora
altamente falseáveis, enquanto consideradas independentemente, acabam por tornarem-se
completamente não-falseáveis, porque qualquer crítica pode ser rejeitada desqualificando-
se a integridade psicológica do autor (o fato de que os argumenta ad hominen são
logicamente inválidos apenas enfraquece a posição holista ainda mais). Mas o custo desse
formidável “escudo anti-mísseis” parece caro demais: o conteúdo informativo das
proposições holísticas é reduzido a zero. Com isso, o holismo tem seu alcance restrito ao
campo da retórica, aproximando-se perigosamente da ideologia científica de que fala
Canguilhem.

32
Ao tratarmos da função da normose, não estamos dispostos a crer que os autores
tenham criado esse conceito com o propósito deliberado de salvar suas idéias da refutação,
embora essa seja uma das conseqüências de seu uso. Empregamos intencionalmente o
termo “função” a fim de introduzirmos uma observação importante sobre o sentido dos
conceitos, o que será feito logo a seguir.

5.3 O Holismo como Estrutura

Adotamos a posição defendida por Chalmers de que os sentidos dos conceitos são
predominantemente provenientes dos papéis que estes desempenham dentro de uma teoria
(1993, p110). Este argumento vai de encontro à idéia de que o sentido de um conceito é
estabelecido via definição, de modo que o sentido seja mais preciso quanto mais precisa
for a definição. O problema é que isso tende a levar a um regresso infinito, já que uma
definição expressa um conceito em termos de outros conceitos, os quais também precisam
ser definidos. A ruptura do regresso se dá por conceitos cujos significados já foram
previamente apreendidos por meios externos: “Um dicionário é inútil a menos que já se
conheça o sentido de muitas palavras. Não era possível para Newton definir massa ou força
em termos de conceitos pré-newtonianos. Foi necessário que ele transcendesse os termos
do velho sistema conceitual e desenvolvesse um novo” (Idem).

Se, alternativamente, avaliarmos o sentido em termos da função desempenhada por
um conceito em determinada teoria, segue daí que tanto a ciência (o que quer que ela
seja!), como o holismo ou quaisquer teorias, serão melhor compreendidas enquanto um
todo estruturado, não somente por meio de critérios simples como a falseabilidade;
acreditamos que, por isso, as epistemologias de Kuhn e de Lakatos sejam mais
historicamente corretas que a de Popper.

Seguindo essa concepção, poderíamos esperar que conceitos surgissem de forma
inicialmente vaga e confusa, adquirindo precisão e coerência à medida que a teoria se
desenvolvesse. De fato, exemplos históricos vêm ao encontro dessa posição. A energia,
embora careça de uma definição inequívoca, encerra um sentido bastante preciso em física,
química e biologia, embora não tenha sido sempre assim, como indica o hábito de leigos
associarem energia a um tipo de “princípio vital”, o que talvez seja um resquício da
influência do “magnetismo animal” de Mesmer. Os primeiros conceitos psicanalíticos

33
foram articulados por Freud em termos de metáforas e analogias com a física, como
“tensão”, “carga”, “peso”, “deslocamento”, “pressão” e, também, “energia” (Ibidem,
p111).

Os conceitos holísticos carecem, em certos aspectos, de precisão, o que pode ser
devido, em parte, ao fato de alguns deles serem relativamente recentes. A seguinte
passagem nos fornece um bom exemplo disso.

Seguindo a tipologia de Gurdjieff, citada por Crema (Weil et al., Op. Cit., p140), as
pessoas são distribuídas em sete categorias, dispostas num gradiente de espiritualidade. A
partir do nível quatro estão os seres espiritualizados, ou humanos “propriamente ditos” (no
último patamar situam-se Jesus e Buda). Os três primeiros tipos, instintivo-motor, emotivo
e cognitivo são “seres ordinários, numa mesma condição de adormecidos, de não
evoluídos” (Idem).
Eis o que Crema nos diz sobre as pessoas do tipo “cognitivas”:

“O terceiro [tipo de ser humano] é muito popular em nosso momento histórico. É o
cognitivo: aquele que herdou o dom intelectual. É uma pessoa que pode chegar a ter muita
erudição. Poderá ser uma biblioteca ambulante, até mesmo ganhar um Prêmio Nobel e
ainda não ser humano, no sentido evolutivo.” (Ibidem, p141)

Em que sentido algumas pessoas não são humanas? No sentido evolutivo, sim, mas
de que “evolução” se fala? Por certo é que não a darwiniana. Qual o sentido exato de
“tornar-se humano”? Tornar-se holista, talvez? A função dos conceitos de humanidade e
evolução ao longo das obras estudadas não é tão clara quanto gostaríamos, exceto a função
psicologizante e ad hoc já mencionadas quando nos referimos à normose.
Como vimos, Weil define normose como um hábito ou crença socialmente aceitos e
que provocam sofrimento, doença e morte. Ao longo dos textos analisados, é afirmado
explicitamente que a normose é conseqüência direta do paradigma “racionalista-
cartesiano” em que as culturas ocidentais estão inseridas (Crema, 1995, passim), de modo
que o combate às normoses – a degradação ambiental, o machismo, o abuso de drogas, a
violência etc. – jamais passará de meras intervenções paliativas enquanto nossa visão de
mundo permanecer a mesma: é necessária uma verdadeira transição paradigmática do
modelo atual para o holístico14.

14 Não fica claro se o holismo é o fim ou apenas o meio para se chegar a um fim ideal, o que seria análogo
ao socialismo enquanto meio de transição para o comunismo.

34
Neste ponto, não poderíamos avançar em nossa análise antes de fazermos uma
importante ressalva. O “Dicionário Oxford de Filosofia” define ideologia como “qualquer
sistema abrangente de crenças, categorias e maneiras de pensar que possa constituir o
fundamento de projetos de ação política e social” (Blackburn, 1997). Nesse sentido, fica
patente o teor manifestamente ideológico de suas idéias, mas isso não deve ser confundido
com o significado inteiramente diferente que Canguilhem confere ao termo na expressão
“ideologia científica”, correspondente à noção de pseudociência em Popper. Julgar a
legitimidade de suas aspirações ideológicas escapa inteiramente à tarefa à qual nos
dispusemos, ainda que, pessoalmente, sejamos simpáticos a elas. Em outras palavras, não é
nosso propósito investigarmos o holismo enquanto ideologia; estamos limitados a estudar
suas idéias psicológicas e, de modo geral, científicas.
Com essa ressalva em mente, voltemos ao conceito de normose. Para fins de
argumentação, vamos admitir como verdadeira a afirmação de que o pensamento
racionalista, nos moldes cartesianos, constitui o pilar central da cultura ocidental moderna
e contemporânea (uma generalização que consideramos, no entanto, apressada). Nesse
caso, seria altamente desejável que os holistas apontassem correlações positivas entre as
normoses e suas conseqüências nefastas. Em alguns casos, isto pode ser bastante fácil,
como o machismo, a degradação ambiental e o abuso de drogas. No entanto, tais práticas já
eram amplamente condenadas pelos padrões morais de nossa época, mesmo antes que os
holistas tivessem qualquer influência e, decididamente, não foram eles que descobriram,
por exemplo, que fumar faz mal, e sim os mesmos “racionalistas” que eles condenam.
Nos casos em que os argumentos holísticos poderiam ser relevantes, as correlações
não são apontadas com clareza: de que maneira a “fantasia dualista” poderia causar
“sofrimento, doença e morte”? Não fica demonstrado como a suposição de que habitamos
um mundo, ao invés de sermos parte dele – algo que, em outras circunstâncias, poderia ser
considerado um fato óbvio – contribui para nossa própria derrocada moral e física.
Precisamos acreditar que somos uma casa, ao invés de morarmos em uma, para evitar que
a depredemos? E por que isso evitaria, já que o suicídio também é uma normose? Talvez
estejamos simplificando o argumento ao limite do ridículo (e talvez não), mas o que
queremos enfatizar é o caráter altamente audacioso de certas proposições holísticas, o que
seria bastante meritório – especialmente para os padrões falsificacionistas – caso esses
argumentos fossem formulados em termos precisos. Há duas razões para que isso não
esteja sendo feito. Uma delas, que já mencionamos e criticamos, diz respeito ao caráter
recente da teoria, e a outra é o estilo deliberadamente lírico dos autores. É parte da
proposta holística privilegiar o uso da intuição e da criatividade em detrimento da razão –

35
entendida aqui como um raciocínio “rígido” e, por isso, limitador (algo de que
discordamos inteiramente) – e essa atitude foi estendida à linguagem de seus livros, como
ilustra a seguinte passagem:

“[...] se o barco em que estamos afundar, não terá sido por causa dos psicóticos e dos
neuróticos, mas dos normóticos que somos! O grande perigo atual, a grande ameaça global
chama-se normose. Precisamos de pessoas “esquisitas”, como as que vejo neste auditório,
nesta mesa de palestrantes e, talvez, no leitor que segue interessando-se por esta temática...
O espanhol é sábio e honra esta palavra tão justa – exquisito – empregando-a para
denominar algo raro, belo, especial, saboroso. Precisamos respeitar a beleza, a virtude, a
grandeza da esquisitice [...]” (Weil et al., 2003, p38)

Embora o entendimento literário não se destaque dentre nossas aptidões acadêmicas
– e talvez por isso mesmo – falhamos em compreender de que maneira um lirismo de boa
qualidade possa limitar nossa capacidade de comunicação, em vez de enriquecê-la 15. O
que, precisamente, Crema pretendia dizer com isso? Estaria ele afirmando seriamente que
o verbete esquisito corresponde ao espanhol exquisito? Se não era sua intenção dizer isso,
por que o fez? Por que não disse outra coisa?16
No intuito de observar o Princípio da Caridade, façamos a suposição adicional de
que uma correlação positiva forte tenha sido demonstrada entre a matriz de pensamento
ocidental e os problemas “normóticos” que nos assolam. Imediatamente, surgiria a
dificuldade adicional de se explicar porque em países não-ocidentais as mesmas normoses
se encontram presentes e de forma freqüentemente exacerbada. Não existe machismo,
miséria, violência, guerras e degradação ambiental também na África, no Leste Europeu,
na Ásia, no Oriente Médio? Nós, ocidentais, não somos especialmente ruins em nenhum
desses quesitos.
Mesmo assim, para o bem da discussão, suspendamos temporariamente a realidade
e admitamos que o paradigma “racionalista-mecanicista” não somente é a matriz do
pensamento ocidental moderno e causa de tanto sofrimento, doença e morte, mas também
que ele se estende com igual força a todo o resto do mundo. Ainda assim, seria necessário
explicar por que já havia tanto sofrimento, doença e morte anteriormente ao paradigma
racionalista-mecanicista.
Somos mais machistas hoje do que na Idade Média, no Japão feudal ou nos tempos
bíblicos? A expectativa de vida só ultrapassou os 40 anos em meados do século XIX
(Sagan, 2006); não seria um avanço? As doenças de hoje fazem proporcionalmente mais

15 para sermos justos, Weil e, sobretudo, Leloup, adotam um estilo muito mais contido e lúcido
que Crema, autor da citação.

16 O trecho supracitado não é, de forma alguma, um caso isolado, e outros exemplos do gênero
estão registrados mais adiante.

36
vítimas do que a varíola ou a peste bubônica? A incidência de câncer tem aumentado, ou
têm melhorado as técnicas de diagnóstico? Somos mais violentos do que a Roma dos
gladiadores, ou a Europa das Cruzadas e da Inquisição? Por quaisquer critérios parece que,
em geral, temos melhorado em termos de civilidade e qualidade de vida, e esses avanços
parecem circunscritos ao que tem sido chamado de paradigma racionalista-mecanicista aos
quais os holistas têm sido tão hostis. Feitas essas considerações, a idéia holística
fundamental de que a visão de mundo ocidental moderna é particularmente “normótica” se
mostra insustentável.

5.4 Incomensurabilidade

Ao mesmo tempo em que partilha com as ciências o objetivo comum de estabelecer
afirmações sobre como o mundo funciona, o holismo parece não se adequar aos modelos
dos autores de filosofia da ciência estudados no presente trabalho. Quando adotadas essas
“lentes” epistemológicas na análise do holismo, este parece adequar-se mais aos diferentes
critérios de pseudociência propostos.

Sob a perspectiva falseacionista, o holismo é pseudocientífico porque suas
afirmações são irrefutáveis, tanto por serem deliberadamente vagas, como por não admitir
críticas ou resultados empíricos negativos. Por essas razões, o conteúdo informativo de
suas proposições é cientificamente nulo.

O critério de demarcação de Kuhn é de que ciências apresentam, na maior parte do
tempo, o regime de atividade normal. O período de atividade normal é aquele em que os
cientistas resolvem problemas do tipo “quebra-cabeças”, sem se preocupar com os méritos
e deméritos do próprio paradigma ou de paradigmas rivais. Nessa fase, a preocupação
maior é a de aumentar o grau de correspondência entre as teorias e a realidade e, para isso,
é necessário um esforço de maior detalhamento de seus conceitos e de crescente
refinamento experimental. Não encontramos qualquer indício de atividade normal nas
obras analisadas. Os autores parecem, em muitos momentos, menos preocupados com os
desdobramentos da teoria holística do que em criticar o paradigma científico. Por essa
razão seria possível, em princípio, supor que o holismo se encontra não na fase normal
mas, sim, na fase de revolução paradigmática. Porém, essa idéia não resiste a uma inspeção
menos desatenta pois, se fosse o caso, os partidários do paradigma rival também estariam
na fase revolucionária. Por mais que sejam presentes as discussões sobre os modelos de
pesquisa e o status da ciência, notadamente na psicologia – o que motivou nosso trabalho –
37
não parece estar havendo um acúmulo de anomalias no paradigma científico que justifique
falarmos em “período de revolução”, o que confere à empreitada holística um sabor
inevitavelmente quixotesco.

Lakatos não chega a propor um critério de demarcação científico novo, mantendo a
noção de falseabilidade popperiana e concentrando-se na tentativa de oferecer um modelo
historicamente adequado de evolução científica (Chalmers, 1993, p175). A formação de
um núcleo duro protegido por um cinturão de hipóteses auxiliares, característica estrutural
dos programas de pesquisa, é facilmente identificável no programa holístico. O núcleo
duro do holismo consiste nos seguintes pressupostos: mente (no sentido espiritualista) e
matéria são compostos de uma mesma substância, denominada energia; a distribuição de
energia no universo permite que ela esteja condensada em diferentes manifestações
materiais, das quais nosso corpo é um exemplo; devido a esta natureza comum, a
consciência está conjugada às leis que regem o comportamento e a estrutura do universo
físico; o auto-conhecimento permite ao indivíduo desperto influenciar o universo de forma
ética. Dentre o conjunto de hipóteses auxiliares, destacam-se as normoses, as medicinas
alternativas, a paranormalidade, a lembrança de vidas passadas e a mediunidade. Claro
está, por esses exemplos, que o holismo tampouco conforma-se à noção de ciência de
Lakatos, cuja metologia exclui a possibilidade de hipóteses ad hoc e proposições não-
falseáveis habitarem o cinturão protetor.

Ainda segundo Lakatos, o progresso de um programa de pesquisas deve ser pautado
por dois sistemas de regras práticas as quais ele denominou heurística negativa e
heurística positiva. A primeira consiste na preservação do núcleo irredutível pelo cinturão
protetor e é bem observada pelos holistas, mais até do que o desejável. A segunda
corresponde ao planejamento estratégico das próximas etapas de pesquisa por parte dos
adeptos do programa, ou seja, é a avaliação de quais problemas teóricos podem render
desdobramentos mais produtivos academicamente. A heurística positiva do holismo está
seriamente comprometida devido ao caráter irrefutável do programa. Embora os autores
sugiram possíveis caminhos de desenvolvimento experimental, não parece que estes
experimentos pudessem realmente contribuir para o progresso do programa, já que é
sabido de antemão que alguma comprovação do holismo poderá ser reivindicada. Os
resultados poderão sempre ser interpretados de modo a favorecer ou a confirmação do
fenômeno que se pretende estudar, ou a confirmação da normose.

Canguilhem afirma que esta é uma das características típicas da anticiência ou
falsa ciência. Para fins práticos, o holismo é um sistema completo e irrefutável, “sem
38
história”, como diria o autor. Difere, assim, da ideologia científica, embora os empréstimos
ilegítimos da terminologia da física nos tenham levado a considerar, em certo momento,
que o holismo guardasse mais semelhanças com esta última, o que não mais parece ser
verdade.

Como se vê, os resultados apontam para uma evidente impossibilidade de se
caracterizar o holismo em termos científicos. Consideramos, no entanto, que se
descartássemos sua legitimidade com base tão somente nesses critérios de demarcação
estaríamos, com isso, reforçando a crença ideológica da cientificidade, algo que
consideramos, no mínimo, improdutivo. Muito embora esse esforço de caracterização
tenha sido necessário - uma vez que o holismo apresenta, de fato, o objetivo comum à
ciência de fazer afirmações sobre o mundo - essa análise não permite apreciar o holismo
adequadamente, porque estamos lidando com aquilo que Feyerabend denomina
incomensurabilidade (Feyerabend, 1977, passim). Ocorre incomensurabilidade entre duas
teorias quando uma delas não pode ser traduzida nos termos da outra, ou seja, teorias
incomensuráveis não apresentam termos correspondentes entre si e não são, por isso,
comparáveis. Nesse caso, acreditamos que holismo e ciência sejam parcialmente
comparáveis, mas somente até o ponto em que nossa análise ora se estende. Por isso, nossa
investigação passou a incluir uma crítica ao holismo em seus próprios termos, isto é, uma
análise interna, pela qual tornou-se possível caracterizarmos o discurso holístico em termos
de padrões discursivos, bem como investigarmos a maneira como estão articulados seus
elementos de discurso.

5.5 Elementos do Discurso Holístico

Como dito, verificamos que os textos holísticos estudados apresentam uma
estrutura geral comum, de modo que suas proposições podem ser classificadas em
determinados padrões discursivos, os quais denominamos “elementos de discurso”. Deste
modo, distribuímos os trechos assinalados entre cinco categorias principais, além de uma
sexta categoria, mista, que fica por envolver enunciados ou articulações que combinam, em
diferentes medidas, dois ou mais elementos de discurso.
As passagens são todas referentes a “Normose: A Patologia da Normalidade”, de
autoria conjunta dos três autores selecionados, e cada passagem é precedida pelo autor e
página correspondentes.
Ao longo do processo de classificação dos parágrafos, um a um, das seis obras,
deparamo-nos com uma dificuldade prática que diz respeito ao número de citações. O
39
trabalho ideal envolveria uma transcrição integral das obras holísticas com nossos
comentários em paralelo. Obviamente, isso é impraticável por limitação de espaço e tempo
e também por questão de direitos autorais. Havíamos optado, assim, por selecionar de dez
a vinte passagens por livro de cada categoria. Ainda assim, porém, seriam entre 300 e 600
citações diretas. Pensamos, então, em reduzir o número de passagens por livro. Nesse caso,
porém, surge um problema adicional, o de que nenhuma das obras ficaria bem
representada; além disso, haveria o risco de deixarmos a impressão desagradável de
seletividade.
A solução que encontramos foi de incluir somente passagens de “Normose”, que é
o texto mais representativo dos seis analisados, pois é mais rico conceitualmente, é mais
recente e foi escrito conjuntamente pelos três autores estudados.

Observação: trechos em itálico são reproduções do que os próprios autores enfatizam em
itálico nos livros.

5.5.1 Formulações edificantes

Esta categoria se refere a construções lingüísticas deliberadamente vagas, que
visam a transmitir uma falsa sensação de profundidade quando, na verdade, os enunciados
são articulados de forma tão livre que acabam por transmitir pouco ou nenhum conteúdo.
Em geral, visam a incitar no leitor sentimentos elevados ou, alternativamente, inspirar
indignação.

(Weil, p21):
“Fiz uma experiência em que procurei colecionar todas as qualidades que se costumam
atribuir às pessoas julgadas anormais. Por exemplo: ele é idiota; ele é irresponsável; ele é
maligno etc. Fiz uma coleção de uns quarenta ou trinta epítetos. Em seguida, traduzi-os ao
seu oposto, pensando que, talvez dessa forma, pudesse definir o que é normal. Para minha
surpresa, saiu uma lista do que é ser santo. Por esse procedimento empírico, um ser normal
seria um santo. Será? Deixo a idéia para reflexão”.

(Weil, p24):
“Nas religiões, o normótico é, muitas vezes, um excelente praticante de rituais e cumpridor
das leis, mas permanece cego e não sabe o que faz. Os crimes da Inquisição perpetuam-se
até nossos dias na terrível violência ritual de algumas seitas satânicas.”
40
(Crema, p36):
“A normose surge quando o sistema se encontra dominantemente desequilibrado e
mórbido. Então, ser normal passa a ser ajustar-se à patologia reinante mantendo, assim, o
status quo. Nesse contexto de normose, a pessoa realmente saudável é aquela dotada da
capacidade de um desajustamento justo, de uma indignação lúcida, de um desespero sóbrio.
[...] É por isso que eu sinto muito respeito pelas pessoas que sofrem de pânico e de outros
sintomas que expressam algo óbvio que os normóticos são incapazes de sentir.”

(Crema, p37):
“Conforme Ed Ayres [...], encontra-se em curso uma extinção em massa das espécies, pior
do que a que determinou a extinção dos dinossauros há milhões de anos. Alguns já falam
em ´Armagedon Ecológico´. O mais incrível é que a maioria das pessoas não se importa,
como se nada disso lhes dissesse respeito... É nesse sentido que o normótico não vê o óbvio
e não responde a ele!”

(Crema, p37):
“[sobre a violência] terapeutas, que deveriam cuidar, violam; sacerdotes violam, fazendo o
papa chorar [...] Crianças são sacrificadas em rituais satânicos, já na terceira geração, nos
Estados Unidos. Crianças estão matando crianças e se matando, macabros sinais de tempos
apocalípticos.”

(Crema, p38):
“Nesta crise da crisálida, a lagarta já morreu e a borboleta ainda não nasceu. É quando se
torna imperativo tratar da normose, a patologia severa revestida de normalidade. Quando a
luz novamente prevalecer, na idade da verdade, poderemos descansar...”

(Crema, p38):
“[...] se o barco em que estamos afundar, não terá sido por causa dos psicóticos e dos
neuróticos, mas dos normóticos que somos! O grande perigo atual, a grande ameaça global
chama-se normose. Precisamos de pessoas “esquisitas”, como as que vejo neste auditório,
nesta mesa de palestrantes e, talvez, no leitor que segue interessando-se por esta temática...
O espanhol é sábio e honra esta palavra tão justa – exquisito – empregando-a para
denominar algo raro, belo, especial, saboroso. Precisamos respeitar a beleza, a virtude, a
grandeza da esquisitice [...]”

(Crema, p41):
“Quem é capaz de dizer à normose, a essa estrada confortável e fácil, quem é capaz de
dizer: ´Não, eu não vou por aí! Não, eu não vou fazer esse curso só porque tem mercado.
Não, eu não me venderei; não sou alugável, não sou objeto, não sou mercadoria!´”

41
(Crema, p64):
“Na Unipaz, há quinze anos temos buscado implementar outras formas de avaliação que
não utilizem a comparação. Comparar é absurdo! O bom educador é como um bom
jardineiro. Você já viu um jardineiro comparar um jasmim a uma flor de maracujá: E exigir
o mesmo currículo de ambos?”

(Leloup, p67):
“A consciência do ego sem a consciência do Self pode levar ao desespero e ao suicídio, à
inflação e à megalomania – tomar-se por Deus. É preciso mantê-las juntas, espiritualidade e
psicologia, para que a árvore esteja em boa saúde.”

(Crema, p110):
“´Em cada passo, dance. Vida!´ Dançar o instante, com leveza. Não nos levar muito a sério.
Aqui, estamos brincando de participar de um simpósio, de um retiro. E, se brincarmos bem,
ajudaremos uns aos outros nesse processo de despertar. ´De cada dor, renasça. Calvário!´
Talvez esse telefone que toca seja o mais difícil de atender. Renascer da dor. Graças a
Deus, graças à dor!”

(Crema, p105):
“Assim como não vemos todo o rio, apenas alguns trechos dele, o ser humano também não
pode ser apreendido no mistério de sua totalidade. Por isso, os grandes mestres sempre nos
aconselharam a não julgarmos. O julgamento é a falência da compreensão. Somente os
nossos atos nos julgarão.”

(Crema, p125):
“Na história da psicologia já foi denunciada a repressão da sexualidade, do poder e do
sentido, com suas nefastas conseqüências. Agora, precisamos também denunciar, com
clareza e vigor, a repressão da luz, a repressão do que temos de maior e mais elevado: o
potencial humano de lograr qualidade total, de florescer plenamente.”

(Crema, p140):
“Amar é uma alquimia do encontro que ninguém pode ensinar a ninguém e que ninguém
pode aprender sozinho... Talvez na grande magia dos caminhos, de todos os caminhos, o
milagre maior seja o do encontro. Estamos aqui porque ainda não sabemos amar vasta e
totalmente. No fundo, algo dentro de nós sabe que esse milagre é possível. Nós só
buscamos o que já encontramos.”

(Crema, p177) [respondendo a um ouvinte sobre o significado do falar e do pensar corretos, “uma vez que
tudo é relativo”]:
“Inclusive esta afirmação, certamente. [...] Pensar corretamente talvez tenha a ver com a
arte de silenciar, com a arte da pausa. [...] Se formos capazes de pausa, de uma pausa

42
mental, se formos capazes de silêncio interior, certamente o pensar será correto, o falar será
construtivo. O silêncio é a mãe de todo pensamento justo, de toda palavra sábia, de toda
ação correta.”

(Crema, p177):
“É à medida que você se retira do caminho que estará dando passagem para uma
inteligência mais vasta que sua razão e para um amor mais amplo do que seu coração é
capaz. Essa é a lição do bambu que, por ser oco, torna-se flauta.
Quando você é capaz de se esvaziar do ontem e do amanhã, as forças curativas da natureza
atuarão e a canção do Ser poderá se expressar através de você. Sendo o ego constituído de
passado, apenas a esfera do Self, um ponto zero, uma vacuidade fértil, poderá orientar seus
pensamentos, palavras e atitudes.”

(Crema, p194):
“É sempre o retorno dessa mensagem antiga, a mensagem de Buda: cada um deve caminhar
sobre os próprios pés; os budas apenas apontam o caminho! É também a mensagem de
Cristo: o reino está no interior de nós mesmos.”

(Crema, p203):
“Buda, Krishna, Cristo, Maomé, Bahá’u’lláh, Zoroastro, Moisés, são todos diferentes fases
de uma mesma lua. Outro exemplo é o sol, outra analogia que ajuda a entender esse
processo. O sol nasce pela manhã, e eu digo que está frio. Às nove horas, digo que
esquentou um pouco mais, e, quando ele se encontra no zênite, digo que está muito quente.
Foi o sol que mudou? Absolutamente. Mudou a percepção que eu tenho dele. Mudou a
minha posição em relação a ele; como eu me coloco diante dos diferentes componentes
espectrais que passaram pelos filtros, dos componentes desse único sol, que é sempre o
mesmo.”

5.5.2 Psicologismos

No campo da Filosofia da Lógica, o psicologismo é um ponto de vista pelo qual as
categorias lógicas não têm efeito normativo, porquanto fazem parte do pensamento
humano (Blackburn, Op. Cit., p325). Isto é, para um “psicologista”, os enunciados lógicos
fazem nada mais que exprimir categorias que os humanos utilizam para pensar. Numa
versão ingênua ou rudimentar, o psicologismo pode corresponder a um reducionismo
ideológico ao qual se recorre na tentativa de minimizar ou invalidar a argumentação
adversária num debate. Diz-se que Freud lançou mão de tal expediente para livrar-se de
críticas à psicanálise, acusando seus detratores de possuírem “motivações inconscientes”
para repudiarem sua teoria. Num caso como esse, um argumento “psicologizante” é uma
43
falácia ad-hominem que visa a manter uma posição inatacável, uma vez que qualquer
objeção é automaticamente desqualificada. Atualmente, podemos citar argumentos da
forma “tudo é relativo” como exemplos de psicologismo ingênuo: se o relativismo vale
para os dois lados de uma disputa retórica, nada se conclui e, sendo unilateral, é falacioso.
Há poucas passagens presentes em forma pura dessa categoria, mas não porque esse
elemento de persuasão é pouco utilizado nos textos holísticos estudados; pelo contrário,
seu uso é predominantemente conceitual e corresponde ao próprio conceito de normose
pois, se fulano não é holista, então, por definição, é normótico. Segundo a tipologia de
Gurdjieff já mencionada, as pessoas são distribuídas em sete categorias, dispostas num
gradiente de espiritualidade. A partir do nível quatro estão os seres espiritualizados, ou
humanos “propriamente ditos”. Os três primeiros tipos, instintivo-motor, emotivo e
cognitivo são “seres ordinários, numa mesma condição de adormecidos, de não evoluídos”
(Weil, Leloup e Crema, Op. Cit., p140). Fica evidente, a partir daí, que qualquer crítico do
holismo é, necessariamente, normótico.
Convém notar que o holismo é, acima de tudo, um paradigma anti-reducionista.
Ironicamente, porém, alguns de seus conceitos fundamentais consistem justamente em
reducionismos ingênuos.

(Crema, p141):
“O terceiro [tipo de ser humano] é muito popular em nosso momento histórico. É o
cognitivo: aquele que herdou o dom intelectual. É uma pessoa que pode chegar a ter muita
erudição. Poderá ser uma biblioteca ambulante, até mesmo ganhar um Prêmio Nobel e
ainda não ser humano, no sentido evolutivo.”

(Weil, p58) [alguém na palestra pergunta sobre a normose do suicídio] :
“O que a pergunta evoca é uma normose localizada em certas culturas, como, por exemplo,
a cultura japonesa e, atualmente, uma subcultura islâmica fundamentalista, em que se
considera natural o suicídio em nome de uma causa. Também o culto do haraquiri cometido
pelos kamikazes japoneses [...] e, agora, os “kamikazes” islâmicos, que se suicidam
atacando e matando judeus em vários pontos de Israel..”

(Crema, p140):
“A ‘estupidologia’ é uma ciência que precisamos estudar, se quisermos realmente
transcender a normose. A estupidez se diferencia da imbecilidade, que é inofensiva, pela
racionalidade. Alguém pode ser altamente racional e totalmente estúpido! O fracasso da
conferência ambiental, Rio +10, é uma boa e triste ilustração. Nós podemos, com discursos

44
técnicos muito elegantes, fazer como alguém que serra o galho da árvore em que ele
próprio está sentado...”

(Weil, p158):
“[...] não só na Casa do Sol, mas, ultimamente, em muitos outros educandários, notam-se
crianças fora do comum. Aumenta o número das que já são vegetarianas desde o
nascimento. Elas passam mal se comem carne, não toleram mentira e demonstram uma
verdadeira e precoce sabedoria.”

5.5.3 Alegações extraordinárias

Citando Carl Sagan de forma anedótica: “Alegações extraordinárias exigem
evidências extraordinárias”. Há incomensurabilidade entre a exigência de falseadores
potenciais por parte de teorias científicas, por um lado e, de outro, o fato de ontologias que
se auto-sustentam fornecerem elementos evidentes por si mesmos àqueles que partilham de
seus pressupostos, mas que não o são, de forma alguma, evidentes para aqueles de fora.
Como procuramos demonstrar, proposições altamente falseáveis, como seriam estas
alegações extraordinárias em princípio, são bastante desejáveis do ponto de vista
falsificacionista, por conterem grande quantidade de informação, desde que acompanhadas
do devido tratamento experimental. Na linha de Chalmers, diríamos que tais proposições
são desejáveis se as respectivas oportunidades objetivas fossem aproveitadas, o que
infelizmente não é o caso, conforme discutimos anteriormente. Na medida em que essas
alegações extraordinárias são amparadas por proposições ad hoc e argumentos
psicologizantes, seu conteúdo informativo tende a zero.
Alguns exemplos:

(Leloup) P27: “Primeiramente, há o desejo e o medo do nascimento. Sente-se essa dupla realidade: a ânsia
e o temor de nascer. Porque, para nascer, perde-se um certo estado de consciência, o estado
de ser com o qual estávamos identificados. Nascer implica entrar num estado de dualidade.
Pode acontecer, então, uma fixação, uma nostalgia da fusão , passível de manifestar-se
como busca da dissolução. A fixação pode conduzir a sintomas como a drogadição ou
alguma outra forma de regressão ao estado fusional, anterior à dualidade, que impede o
avanço evolutivo para além dessa fase.”

(Leloup) P29: “Nas tradições espirituais observa-se o seguinte princípio: Tudo o que é composto será
decomposto. O choro do bebê [na fase anal] durante a noite pode estar ligado à vivência
desse processo.”

45
(Leloup) P67: “Não se deve separar o que Deus uniu; não se pode separar a dimensão material da
dimensão espiritual no ser humano.”

(Weil) P94: “[...] demonstramos [num artigo] que essas vivências [regressão a vidas passadas] se
acumulam graças a pesquisas tanatológicas, oníricas e outras verificadas in loco, por
diferentes meios: milhares de crianças que se lembram de outras existências, terapias
regressivas em adultos ou investigações experimentais sob hipnose consciente, sem
nenhuma indução de conteúdo.”

(Weil) P94: “Tudo indica que a regressão não se detém no nascimento. Existe uma memória intra e pré-
uterina denominada palingenésica. O que nos chamou a atenção, inicialmente, para essa
realidade, foi a existência dos tulkus tibetanos, a reencarnação de uma mesma sabedoria ao
longo de uma linhagem especial.”

(Weil) P123: “Quando uma pessoa pensa em se suicidar e vem a mim, costumo dizer: ´Você é livre para
se suicidar. Só que você matará apenas o seu corpo; as razões do seu desespero e desse ato
extremo serão levadas para depois da morte, muito aumentadas, porque não existirão mais
as limitações e os amortecedores do seu corpo!´”

(Crema) P140: “É no interior da pedra bruta da estupidez que encontraremos o diamante da excelência, da
plenitude, da capacidade incondicional de amar. Caminhar sobre ondas com os pés secos,
levitar, transmutar, são eventos notáveis que, às vezes, precisamos testemunhar para
compreender o alcance do potencial humano. E todos esses dons empalidecem diante do
poder da inocência, da transparência.”

(Weil) P158: “[referindo-se aos tulkus, da tradição do budismo tibetano, que “já nascem na condição de
Buda”] O atual Dalai Lama é um bom exemplo dessa condição evolutiva. Esses meninos
especiais são rapidamente reeducados e se lembram de seus discípulos, de seus auxiliares
etc. Tudo isso é evidenciado de todas as formas, testado e comprovado. (Quem viu o filme
O Pequeno Buda deve se lembrar.) Com 12 anos, já estão dirigindo o mosteiro como os
anciãos de setenta anos.”

(Leloup) P187: “[sobre o conceito de inconsciente familiar] O que fala através de mim não é só o que
conheço e aprendi, não é o resultado de minha pequena infância, mas são todas essas
memórias transgeracionais. Aqui, pode existir uma palavra que existe em mim, que vem de
meus ancestrais. A religião, para alguns, é conectar-se com a sabedoria desses ancestrais.
Entretanto, essas influências nem sempre são benéficas. Às vezes existem fantasmas
destrutivos: posso ser possuído pelos espíritos de minha própria família. Temos de estar
conscientes desse inconsciente familiar.”

46
(Leloup) P189: “Também existe o inconsciente angelical. Novamente, há muito que falar, porque existem
diferentes níveis: o anjo guardião, os arcanjos, os tronos, as potências, os querubins, os
serafins – todos nos lembram que, assim como existem os intermediários entre o mundo
humano e o mundo mineral, vegetal ou animal, existem, entre o mundo divino e o humano,
todos esses mundos intermediários.”

5.5.4 Ataque ao homem de palha

Esta categoria abrange passagens em que as regras fundamentais de argumentação
filosófica são particularmente desrespeitadas. A falácia do homem de palha consiste em
caracterizar uma posição filosófica adversária de forma injustamente fraca, de modo a
facilitar a crítica. Trata-se da não observação do chamado Princípio de Caridade, termo
cunhado por Neil Wilson (1958-59) e disseminado por Quine e Davidson em diferentes
formulações17. Em várias de suas versões, tal princípio constrange o intérprete de um
determinado enunciado a conferir-lhe o grau máximo de racionalidade, de modo a excluir
interpretações menos convincentes. Posto de outra forma, consiste em, antes da crítica,
elaborar uma defesa do conteúdo a ser criticado que seja tão boa quanto a defesa por parte
de um de seus proponentes. Tal exercício de honestidade filosófica foi o que nos
propusemos a fazer na seção “O Paradigma Holístico”.

(Crema) P48: “Um exemplo trágico e chocante: se você tiver uma experiência mística legítima [...] e contar
isso ao médico, ao psicólogo [...] eles dirão que você está doente, que necessita de
tratamento. Para os representantes de uma normose cientificista, muito em voga, não existe
a categoria do numinoso e do espiritual. Para eles, Cristo e Buda são ilusões; ou, pior que
isso, são degenerações, o ópio do povo ignorante, ilusão e alienação patológica.”

(Crema) P51: “Por terem desenvolvido [Cristo e Buda], além da razão, a plenitude da inteligência do
coração e da consciência noética, dando testemunhos belos e paradigmáticos de amor e de
fraternidade total, foram banidos das escolas, das universidades e da academia, que apenas
reconhecem os gênios menores.”

(Weil) P79: “Tudo aponta, também, para a demonstração de que o estado de consciência de vigília não
corresponde, absolutamente, a um real despertar: encontra-se na própria origem da fantasia
da separatividade, por estar dominado pelos limitados cinco sentidos e pelo insuficiente
raciocínio lógico formal. A ciência moderna é um conhecimento baseado exclusivamente
nesse estado de consciência. Podemos indagar até que ponto a fantasia da

17 http://en.wikipedia.org/wiki/Principle_of_charity, acessado em maio de 2008.

47
separatividade, sob a forma do dualismo e da suposta objetividade científica, não constitui a
raiz da desumanização da ciência, da tecnologia, da educação e do declínio ético.”

(Weil) P80: “O princípio exclusivo da objetividade, em ciência, provê uma espécie de selo oficial: a
fantasia torna-se um dogma quase inviolável. Felizmente, nos últimos anos multiplicaram-
se os colóquios sobre ciência e consciência que estão denunciando esse caráter ilusório e
nefasto.”

(Crema) P102: [definição de especialista] “uma pessoa exótica, que sabe quase tudo sobre quase nada,
dotada de uma certa imbecilidade funcional, que se orgulha da unilateralidade de sua visão
e de sua ação, dotada de uma viseira elegante que lhe impossibilita a visão ampla. Assim,
ela conduz a carroça, sem saber de onde nem para onde...”

(Weil) P122: “O primeiro extremo é acreditar que existe, como última realidade, alguma coisa concreta,
tangível. O outro extremo, no qual podemos cair, é dizer que não existe nada. O primeiro
extremo, em filosofia, chama-se materialismo, já postulado na Antigüidade grega por
Demócrito: a crença de que existe uma partícula sólida. O outro extremo é o niilismo,
proveniente do latim, nihil, que significa “nada”: a crença de que não há nada. Niilismo
seria o mesmo que nadismo.”

(Leloup) P136: “A Normose do Determinismo – Essa é justamente a normose do século passado, segundo
a qual todas as coisas podem ser explicadas. E, quando é possível explicar todas as coisas,
não há razão para crer. Tudo é evidente. Para tudo há uma explicação.
Então, Jesus nos lembra de que não há explicação para tudo, de que sempre há algo que nos
escapa. Ao olharmos e reconhecermos aquilo que nos escapa, vemos despertar em nós uma
qualidade de liberdade.”

(Crema) P200: “Às vezes ouço, confesso que com certo cansaço, alguns psicólogos afirmarem que
meditação não é psicologia, que o transpessoal não é psicologia. Na minha percepção, isso
denota pouco conhecimento acerca da psicologia e total ignorância no que diz respeito à
meditação e ao fator transpessoal.”

5.5.5 Apropriações inadequadas

Esta categoria envolve passagens nas quais os autores interpretam de forma
equivocada conceitos científicos e epistemológicos, os quais eles invocam, para além de
seus devidos contextos, e os extrapolam, em alguns casos chegando a conclusões non-
sequitur. Falácias de definição - nas quais o argumentador define um termo de forma
48
particular, de modo que isso favoreça sua posição na discussão - são freqüentes. No caso
das apropriações da física, há também falácias ad-verecundiam, em que se apela
ilicitamente à autoridade de um especialista fora de sua área.
Exemplo notável, que citamos novamente a fim criticá-lo, desta vez, do ponto de
vista lógico:
“Existe uma ilusão normótica, darwiniana, de que o ser humano evolui através do acaso e
da necessidade, por mutações causais e competitividade mecanicista em que o mais apto
prevalece. Darwin não entendeu a evolução propriamente humana. Como bom naturalista,
entendeu a evolução natural.” (Weil et al., Op. Cit., p41)

Trata-se de uma falácia de definição (não é isso o que a teoria darwiniana ou neo-
darwiniana estabelecem), seguida de argumentum ad-hominem (“Darwin não entendeu...”),
e outra falácia de definição (os termos “evolução” são empregados em acepções
diferentes), presente também na última sentença.
Outra passagem especialmente importante é a que segue (Weil, p79):

“Entretanto, a física quântica nos demonstrou que a eliminação do sujeito é um engano; é
impossível dissociar o sujeito observador do objeto observado. Mais ainda, ela evidencia
que todos os sistemas são feitos de energia, da mesma energia. O ser humano e o universo
são feitos da mesma energia e, portanto, resulta artificial separá-los.”

Essa interpretação da mecânica quântica, recorrente ao longo da obras holísticas
analisadas, é inteiramente incorreta. Weil está se referindo ao Princípio da Incerteza, que
postula a existência de grandezas físicas conjugadas, como energia/ tempo e posição/
momento linear (Eisberg & Resnick, 1979, passim). Segundo o Princípio da Incerteza, o
produto dessas grandezas conjugadas assume um valor mínimo que é dado pela constante
de Planck (Idem). A conseqüência é que, se desejarmos especificar um valor exato para a
posição de um corpo físico, seu momento tende a infinito, e vice-versa. O mesmo se dá
com a relação energia-tempo. Como a magnitude da constante de Planck é bastante
diminuta, essa desigualdade é somente apreciável para corpos muito pequenos, como
partículas subatômicas. Para que um observador detecte um corpo a fim de identificar-lhe
a posição, é necessário haver uma interação com este. Ao iluminar um elétron, por
exemplo, o fóton absorvido fará com que seu momento aumente; por esta razão é que não
se pode precisar simultaneamente a posição e a velocidade de um elétron.
O erro de Weil consiste no sentido conferido ao termo “observador” que, num
laboratório, será um detector de elétrons e não um ser consciente. Na mecânica quântica, a
observação não tem qualquer relação com a consciência.
49
Quanto a sua interpretação igualmente equivocada de energia, resta dizer que a
energia, na física e na química, nada mais é que uma ferramenta matemática, portanto
abstrata, desprovida de existência física. É, pois, uma propriedade abstrata de entes físicos.
Além do mais, afirmar que seres físicos possuem energia é completamente diferente de
dizer que eles são feitos de energia, mas Weil parece não notar a diferença. Ainda que nada
disso fosse falso, restaria o fato de que a mecânica quântica (que, inadvertidamente, Weil
denomina “física quântica”, a qual se refere à teoria quântica mais antiga) não se ocupa de
considerações metafísicas.
Outros exemplos:

(Crema) P42:
“É muita ingenuidade achar que um São Francisco de Assis é pura obra da mutação ao
acaso e da seleção natural! Como afirma Erwin Laszlo, criador e presidente do Clube de
Budapeste, é evidente que as mutações aleatórias e o teste da seleção natural seriam
incapazes de gerar espécies complexas. ´Em relação ao ritmo e ao modo de evolução, a
teoria de Darwin está caindo por terra´, afirma Laszlo.”

(Crema) P47:
“Como afirmava Max Planck, segundo Thomas Kuhn em seu notável livro sobre
revoluções científicas, um novo paradigma é implantado não porque os cientistas da antiga
visão do mundo abram mão, desapegadamente, de suas certezas. Acontece que todos nós
morremos... e a juventude, de mente aberta e receptiva, acolhe a nova ordem, o aprender a
aprender. Felizmente, os ferrenhos equivocados também morrem e, de enterro em enterro,
de berço em berço, um novo paradigma é implantado e floresce.”

(Crema) P47:
Os grandes representantes da ciência do século XIX, refletindo o espírito da época,
postularam determinismos variados, centrados na competitividade. Darwin apontou para o
determinismo biológico e competição entre as espécies; Marx, para o determinismo
econômico e competição entre classes; Freud, para o determinismo psíquico e competição
entre as potências psicológicas. Ninguém falou de cooperação, solidariedade, fraternidade e
sinergia.”

(Weil) P78:
“Até recentemente, a ciência aceitava a separatividade [entre natureza e indivíduo] como
um dogma [...] A objetividade era considerada uma condição essencial do método
científico, o que resultou na eliminação do sujeito. Essa é uma crença normótica que,

50
juntamente com a consideração exclusiva do estado de consciência de vigília, podemos
denominar de superstição cientificista, segundo as evidências da física contemporânea.”18

(Weil) P122:
“Os dois extremos [materialismo e niilismo] estão sendo refutados pela física quântica.
Atualmente, sabemos que uma partícula subatômica é, ao mesmo tempo, uma onda. A
crença em alguma coisa sólida como última realidade, do ponto de vista científico, desabou.
De outro lado, a microfísica está nos mostrando, também, que o espaço vazio, o vazio
absoluto, não existe. Nesse conceito, a ciência e a tradição espiritual convergem
maravilhosamente. Assim, podemos afirmar que alguma coisa e o nada foram eliminados,
definitivamente. É preciso evitar cair nesses extremos, o que muitos não conseguem. Entre
o alguma coisa do materialismo e o nada do niilismo há algo: nem nada nem alguma coisa,
mas algo que é muito mais que isso. Quem cai no extremo do materialismo, cai no apego e
em todas as suas conseqüências. Quem cai no extremo do niilismo, cai no desespero e, às
vezes, no suicídio.”

(Crema) P200:
“São alguns representantes notáveis da física que afirmam que não existe mais física
enquanto tal, mas modelos físicos, uma física dos físicos, uma física dos possíveis. Existirá,
então, uma psicologia? Muitos mal-entendidos seriam evitados se os referidos psicólogos se
tocassem e deixassem transparecer seus pressupostos antropológicos.”

5.5.6 Articulações mistas

Formulação Edificante, Alegação Extraordinária e Homem de Palha (citado por Weil)
P52: [relato de Nancy Puhlmann]: “Pertenço a uma família em que, em três gerações, as
mulheres suicidaram-se no mesmo dia, na mesma hora, do mesmo jeito. Eu não tive bisavó,
não tive avó, não tive mãe. Fui violentada física e emocionalmente. Estava totalmente
perdida quando encontrei alguém. Era um homem que não tinha nenhum diploma; era
representante de uma sociedade nativa. Ele olhou nos meus olhos e disse: “Ninguém pode
machucar o seu espírito, exceto você!” E tudo o que eu sei, aprendi com esse homem.
Depois fiz um doutorado para vocês me escutarem.”

Alegação Extraordinária, Psicologismo e Homem de Palha (Weil):
P93: “O mesmo afirmo com relação à rejeição preconceituosa da possibilidade de terapias
de existências passadas por parte das metodologias regressivas ou por rigorosas pesquisas,

18 A noção de objetividade apresentada por Crema demonstra-se notavelmente falaciosa,
uma vez comparada com a discussão apresentada na seção 3.1.2.

51
como a de Stevenson. Essa atitude preconceituosa é a normose responsável por
psicoterapias e análises intermináveis, devido às reações contratransferenciais dos
terapeutas que bloqueiam a regressão da pessoa ou a rotulam como patológica por não
poder compreendê-la.”

Apropriação Inadequada, Psicologismo e Homem de Palha (Weil):
P92: “Estou cada vez mais convencido de que a rejeição, por parte de terapeutas de certas
subculturas acadêmicas, aos fenômenos paranormais constitui uma normose. Essa patologia
pode lesar muitas pessoas, apressadamente taxadas de psicóticas e alucinadas quando, na
realidade, vivenciam outros estados de consciência. Estou certo de que as rejeições das
evidências da parapsicologia e da psicologia transpessoal constituem uma normose
pseudocientífica.”

Formulação Edificante, Psicologismo e Homem de Palha (Crema)
P113: “Conheço pessoas que, se estivessem empregando, nos caminhos meditativos e
evolutivos, o tempo, a energia e a economia que destinam à aplicação de cremes e aos
exercícios físicos, meramente para manter uma estética de acordo com um padrão imposto
pela mídia, já se teriam iluminado!”

Psicologismo e Alegação Extraordinária (Crema)
P113: “Essa postura [barriga para dentro e peito para fora] estrangula o hara, o centro
localizado no ventre, tão precioso na tradição zen e para quem pratica autênticas artes
marciais. [...] O automatismo na ginástica, que se circunscreve a uma musculação
meramente mecânica, mesmo sendo algo melhor do que ficar estagnado no sedentarismo,
reforça uma normose da mecanicidade.”

Formulação Edificante, Psicologismo e Homem de Palha (Crema)
P124: “Então, creio que nossas reflexões estejam colaborando no sentido de desmistificar a
palavra santidade, ou plenitude, como prefiro, que representa uma herança potencial em
cada um de nós. Na normose, através do Complexo de Jonas, a possibilidade de
florescimento evolutivo é projetada em apenas algumas pessoas, veneradas como se fossem
supra-humanas. Isso é uma alienação comodista e irresponsável.”

Alegação Extraordinária e Apropriação Inadequada (Leloup)
P132: “Que tipo de felicidade estamos procurando? Freqüentemente confundimos
felicidade com segurança, seja ela material, afetiva ou intelectual. Queremos as coisas bem
certas, e a atitude de Jesus é, de certa forma, muito próxima àquilo que é do conhecimento
dos cientistas de hoje em dia. Porque nada é certo, nada é sólido; tudo está em constante
mudança. Aquilo que tomamos como corpúsculo tem também uma realidade ondulatória.”

Alegação Extraordinária, Psicologismo e Homem de Palha (Weil)
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P160: “Educar as Mídias – Outro cuidado, ainda praticamente inexistente e tremendamente
importante, é a educação das mídias. Em um simpósio que organizamos, elaboramos um
pequeno documento cujo tema é a mídia como o quarto poder. Atualmente, quase todas as
mídias são utilizadas como veículo de transmissão da normose, de um paradigma esgotado,
da mentalidade masculinista, de uma cultura estreita e violenta. Mais ainda: quando surgem
reportagens e entrevistas de cunho espiritual ou, sobretudo, com pessoas genuinamente
paranormais, há uma tendência ao ridículo, ao menosprezo e até mesmo à calúnia.
Evidentemente, a maioria dos profissionais da área de comunicação está despreparada para
abordar este tema de forma consciente e responsável.”

Psicologismo e Homem de Palha (Crema)
P193: “É típico do movimento de transição paradigmática, quando transitamos de um
aprender a aprender já esgotado para outro inusitado, a aparição de dois fenômenos, como
foi muito bem descrito no livro de Pierre Weil, Os Mutantes. De um lado, temos o
estagnante: aquele que teme o desconhecido e se agarra às antigas verdades, resistindo ao
novo e combatendo, às vezes de forma violenta e retrógrada, a emergência de um novo
saber para um novo existir. Do outro lado está o mutante, aquele que se abre para a
renovação e acolhe a manhã que desponta, fazendo-se porta-voz do novo dia.”

6. Conclusões

Para os holistas, a realidade é disposta em níveis ligados ao grau de percepção do
indivíduo que a vivencia. O estado de vigília permite apenas a percepção do nível mais
superficial da realidade. Níveis mais profundos podem ser percebidos durante estados de
consciência ditos transpessoais. Os níveis transpessoais podem ser atingidos mediante o
auto-conhecimento, a prática da meditação e os ensinamentos holísticos em si.
À medida que estabelecem afirmações sobre como o mundo é, a teoria holista
compartilha dos mesmos objetivos da ciência. Dessa forma, suas alegações devem
competir com afirmações científicas e, por isso, devem estar igualmente sujeitas a uma
crítica rigorosa.
No intuito de conferir embasamento científico a suas alegações, recorre-se
constantemente à mecânica quântica, notadamente ao Princípio da Incerteza e à Dualidade
Onda-Partícula. A interpretação desses postulados da física moderna é surpreendentemente
equivocada. Weil chega a usar o princípio da dualidade onda-partícula como argumento
contrário à existência de dualidades (Weil, 2001, p168). Conceitos como energia e
evolução são utilizados de forma arbitrária, sem nenhum comprometimento com as teorias
científicas das quais estes termos foram emprestados.
Tentativas de caracterizar o holismo de acordo com os modelos epistemológicos
estudados apontam para a incomensurabilidade entre holismo e ciência. Essas teorias são
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essencialmente incompatíveis entre si porque o holismo depende da vivência direta, de
modo que as noções científicas de confirmação, verificação, experimentação ou
falseabilidade não são aplicáveis. A chave para a compreensão dessa incomensurabilidade
é clara em passagens como a que segue:

“E tudo o que acabo de descrever [sobre níveis de realidade] foi feito a partir da minha
mente e da minha memória e experiência de vida. Quem escreve sobre esses níveis de
conhecimento do real precisaria sempre lembrar que, assim mesmo, apesar de todos os
esforços, ainda estão falando de um plano intelectual para a mente dos seus leitores. [...] É
possível vivenciar a realidade como ela é, por cima de todas essas definições habilidosas
que apenas convencem o nosso intelecto?”
(Weil, Op. Cit., p169)

Concordamos com Weil em que os malabarismos semânticos que transcrevemos
são somente “definições habilidosas que apenas convencem o nosso intelecto”, exceto por
elas não serem habilidosas a ponto de convencer o nosso intelecto. Diferente do autor,
discordamos da idéia de que afirmações válidas sobre o mundo possam consistir
simplesmente em anotar os próprios pensamentos, e citar “de cabeça” as idéias científicas
de terceiros é investir na própria memória uma confiança da qual não somos obrigados a
compartilhar.
A obrigatoriedade da “vivência direta” aniquila totalmente qualquer possibilidade
de diálogo entre holismo e ciência; a incomensurabilidade é completa. Toda a
argumentação e a pretensão de fundamentação científica são meras “definições habilidosas
que apenas convencem o nosso intelecto”. As Alegações Extraordinárias não são
convincentes por si mesmas e, por isso, são amparadas em Apropriações Inadequadas.
Elas provavelmente não resistiriam a investigações experimentais, mas o Psicologismo e as
proposições ad hoc as protege. Os Ataques ao Homem de Palha visam a diminuir a
importância de idéias rivais, criando uma ilusão de ampliação da força das Alegações
Extraordinárias, enquanto as Formulações Edificantes tornam o convite à vivência mais
atraente.
Aparentemente, é altamente contraditória a doutrina da vivência direta com o
esforço de embasamento das Apropriações Inadequadas. Na verdade, a contradição
desaparece quando deixamos de prestar atenção nos argumentos e nos focamos em suas
intenções. De fato, a argumentação holística parece a nós insuperavelmente falaciosa, pois
não encontramos um único argumento original que fosse logicamente válido em seis livros,
talvez por seguirem uma “lógica própria” (Ibidem, p168), ou talvez por termos nos
dessensibilizado após seqüências tão exaustivas de apropriações indevidas. Como quer que
54
seja, a maioria dos argumentos é de uma fragilidade absolutamente fascinante, mesmo se
partissem de indivíduos iletrados, o que obviamente não é o caso. Pelo contrário, são
autores conhecidos por sua erudição.
Claro está que esses paradoxos desaparecem ao considerarmos que a origem da
incomensurabilidade se estende à própria intenção dos autores. Os textos holísticos não
pertencem à literatura científica e sim à retórica. As afirmações sobre o mundo e as
apropriações, concluímos, não têm função explicativa, e sim persuasiva.
Não vemos razão para que os autores holistas estudados se considerem isentos da
responsabilidade de observar as regras elementares de argumentação filosófica, sobretudo
porque eles se dirigem a um público em geral leigo em relação a física, lógica e
metodologia científica. Esta responsabilidade não é atenuada por juízos de valor, por mais
que se considerem louváveis suas preocupações com o ambiente e a promoção de saúde, e
mesmo que a suspeita de desonestidade intelectual se afaste por completo, já que os
autores, freqüentemente, são reputados como pessoas íntegras, altruístas, competentes e
responsáveis. As qualidades morais de uma pessoa, por mais que sejam valorizadas, não
diminuem a diferença que pode haver entre uma verdade e aquilo que ela gostaria que essa
verdade fosse.

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7. Bibliografia e Referências

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Zahar, 1997.
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