32 | Correio do Vouga | Quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

natal

O Natal não é magia…
É milagre!
Natal de Évora
O Menino está dormindo
Nas palhinhas, despidinho.
Os anjos Lhe ‘stão cantando:
“Por amor, tão pobrezinho!”
O Menino está dormindo
Nos braços da Virgem pura.
Os anjos Lhe ‘stão cantando:
«Hossana, lá nas alturas».
O Menino está dormindo
Nos braços de São José.
Os anjos Lhe ‘stão cantando:
«Gloria tibi, Domine».
O Menino está dormindo
Um sono de amor profundo.
Os anjos Lhe ‘stão cantando:
«Viva o salvador do mundo!»

O Menino está dormindo… Deus repousando,
humano e frágil, no colo da mãe. É aqui que o Natal
mora. Numa gruta, numa manjedoura. Apetece fazer
silêncio, recolhendo-nos às palavras de Agualusa:
“Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores
costumam ser discretos. Os grandes são secretos.”
Como em Belém, como num embalo de mãe:
E subiu também José da Galileia, da cidade de
Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém
(porque era da casa e família de David), a fim de
alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os
dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu
filho primogénito, e envolveu-o em panos, e deitou-o
numa manjedoura, porque não havia lugar para eles
na hospedaria. (Lc 2: 4-7)
Hoje, vinte séculos de cristianismo depois, a história
repete-se ainda: na nossa sociedade de matriz cristã,
acontece tantas vezes não haver lugar para eles nas
hospedarias das nossas cidades, famílias e corações.
Está tudo sobrelotado!... de renas e Pais Natais e
suas espaçosas comitivas de transbordantes sacos
encarnados. Mais uma vez, portas fechadas a Jesus,
que a entrada, agora, é só pela chaminé!
Sinto, como mãe, uma missão bem difícil neste tempo

de Advento: a minha filha mais nova (5 anos) anda
bastante equivocada, pois ainda não compreendeu
que, no Natal e na vida, não estão ao mesmo nível:
Jesus e o Pai Natal, os anjos e as fadas/duendes; o
milagre e a magia. Convenhamos que o Natal pagão
provoca nas crianças muita confusão! “Vou pedir ao
Pai Natal pós de fada, para conseguir voar no céu como
Jesus” – anuncia-me a minha filha. E penso para mim:
voarás um dia, sim; não por magia, mas porque Deus
se nos deu no milagre de Belém.
Nas escolas, há muito que se trocou o milagre pela
magia, o Natal cristão pelo pagão; apesar de tudo, a
recato de montras e ribaltas, algures persiste “uma
pequena luz bruxuleante / brilhando incerta mas
brilhando” (Jorge de Sena) onde menos se espera. No
Advento do ano passado, enquanto eu escrevia um
texto para a edição de Natal deste jornal – indignandome com as instituições de ensino que apagam Jesus,
por completo, da Sua própria festa –, nesse preciso
momento, no novo infantário da minha filha, sem que
eu soubesse, dezenas de meninos e meninas aprendiam,
ensaiavam e interpretavam, quadro por quadro, figura
por figura, a história discreta do nascimento de Jesus,
para a festa de Natal: Jesus Encarnado nos olhos dos
meninos; os meninos encarnando o Natal, no segredo

de uma manjedoura. Repetição de Belém, afinal…
Maria, José e Jesus. Silêncio e Luz. Anjos. Pastores.
Reis Magos. Pela primeira vez, foi Jesus, divino e frágil,
o centro da festa de Natal numa escola frequentada
pelos meus filhos. E para que a alegria fosse imensa,
não foi preciso haver “zumba natalícia”, nem magias
vazias, nem crianças mascaradas de renas, nem
educadoras desfiguradas de Mãe Natal. Cumpria-se
então o voto do poeta: “Acenda-se Jesus nos olhos dos
meninos!”
Quando, há pouco mais de um ano, nos mudávamos,
de almas e bagagens, de Aveiro para o Alentejo,
estávamos bem longe de imaginar que “em terras de
mouros, ateus e comunistas” – como nos advertiam
alguns amigos antes da mudança – os nossos filhos
iriam encontrar aqui, neste chão quase gentio, nas
respectivas escolas (não privadas, não católicas), uma
ou outra ocasião de viver o Natal dos simples, o de
Jesus, o do milagre discreto.
“Entrai, pastores, entrai! (…) Entre os portais de
Belém / está uma árvore de Jessé, / com três letrinhas
que dizem: / Jesus, Maria, José.” Este ano, é a escola
primária do meu filho que nos surpreende. À quintafeira, o miúdo chega a casa com outro brilho, bem aceso
nos olhos e na voz – um fulgor bem mais adventício do
que as luzes natalícias a piscar promessas ou os sinos do
bulício a tilintar desejos. E tudo isto porque, em pleno
horário lectivo, a sua escola proporciona, aos alunos
interessados, a aprendizagem do cante alentejano e,
ultimamente, estão aprendendo no coro juvenil, quais
vozes de humildes pastores, alguns cantes ao Menino.
O Natal também mora aqui: nos hossanas jubilosos
que anunciam a todo o mundo – a 7 mil milhões de
outros – a alegria da Boa Nova.
Pastores e Reis Magos. Humildes e poderosos
acolheram Jesus, nascido sem-abrigo (e, pouco
depois, também imigrante foragido), com as suas
mãos vazias ou adornadas de presentes. Na história do
Natal de Belém também há presentes, sim; mas o seu
valor é profundamente simbólico, e não superficial; há
também uns magos, sim; mas não há, nesta Epifania,
um grão de magia. Apenas um fulgor, quase secreto.
Pergunto-me que presentes simbólicos nos ajudam,
hoje, a vislumbrar o mistério e o sentido do Natal e
a transmiti-lo, numa linguagem universal, aos nossos
filhos. Em vez de ouro, incenso e mirra, os Reis Magos
do nosso presépio poderiam trazer: uma exposição,
para falar dessa humanidade que Jesus veio salvar; um
filme, para reconhecer um grande e secreto milagre;
um livro, para sentir como, na fragilidade, floresce

Quarta-feira, 17 de dezembro de 2014 | Correio do Vouga | 33

Natal

a beleza da nossa existência. Acredito que cada um
destes presentes ajuda a compreender porque Deus se
quis humanizar na fragilidade de Jesus.
Uma exposição: 7 Mil Milhões de Outros (no Museu
da Electricidade) oferece-nos um (auto)retrato real
e actual da humanidade inteira. “Somos convidados
a fazer uma viagem à volta do mundo e ficamos
a conhecer os medos, os sonhos, os problemas e
esperanças de gente tão diferente. Testemunhos sobre
30 temas universais – família, amor, morte, perdão,
clima, natureza, sentido da vida, desafios ou sonhos
de infância – que nos ajudam a encontrar o que nos
separa, mas sobretudo o que nos une.”
Um filme: O Milagre da Vida: www.youtube.com/
watch?v=1hwKIsxs15A
E um livro que é um pequeno prodígio: Vir ao Mundo,
de Emma Giuliani (Edicare), é uma epifania e um lugar
de beleza: “Vir ao mundo num vasto universo, viver
graças ao calor de um outro e retribuir…”. O mistério
do Natal está todo aqui.
Este ano, o meu voto de Natal exprime-se em
palavras recolhidas em Agualusa: ajudar os meus filhos
a vislumbrar “a instalação dos milagres no quotidiano
das pessoas, prodígios domésticos, quase secretos, de
cujo fulgor pouca gente se apercebe”. Como o colo que
acolhe a fragilidade de um milagre, seja em Belém,
seja em Dezembro:
Mulher com filha ao colo, em Dezembro
Onde quer que esteja a mãe
debruçada sobre a filha,
o Natal pousa
e repousa.

A festa
das crianças …
Mas que crianças?!
Neste Natal, se necessário (porque o que há mais por
aí são Herodes), façamos como os Reis Magos do
Oriente, em terras de Belém, voltemos para a nossa
terra por outro caminho.
Neste Natal
Há crianças que riem…
Há crianças que também choram!
Há crianças que não as deixam rir nem chorar…
Há crianças que querem sorrir e não podem!
Há crianças (imagine-se!) que querem nascer e não
as deixam ver a luz do dia!
Há crianças que pedem pão e não lho dão!
Há crianças que querem paz e não a têm!
Há crianças que choram pelo pai e não o encontram...
Há crianças que gritam e choram pela mãe e não a
veem...
O Menino no presépio é natural que também tenha
chorado, mas nunca chorou pela falta da sua mãe, pois
ela esteve sempre ao seu lado, bem como o seu pai.
Também sofreu ao ser obrigado a atravessar montes
e vales calcorreando areias escaldantes do deserto,
para fugir às mãos assassinas de um rei ávido de

sangue humano.
Com que tristeza e preocupação e até com que
emoção tive conhecimento da espectacular mensagem
que uma criança deixou, agarrada às saias da mãe,
por ordem do facínora Hitler, qual Herodes do século
vinte, ia a caminho da câmara de gás, num campo
de concentração e de extermínio nazi, condenada à
morte. Em plena escuridão, uma criança grita: “Mamã,
mamã, eu não me portei mal. Por que está tão escuro
aqui?”
Isto dá que pensar, pois, infelizmente, ainda existem
muitos campos nazis por esse mundo fora onde as
crianças são mortas sem dó nem piedade.
Neste Natal, se necessário (porque o que há mais
por aí são Herodes), façamos como os Reis Magos do
Oriente, em terras de Belém, voltemos para a nossa
terra por outro caminho.
Basílio de Oliveira

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A Junta de Freguesia
de Travassô e Óis da Ribeira

Nos longos dedos da mãe
sobre os cabelos da filha,
o Natal mora
e demora.
Filha dormida na mãe
repetição de Belém:
o Natal feito
e perfeito.

A. M. Pires Cabral
in O Livro dos Lugares e outros Poemas
Joana Portela

deseja a todos os seus habitantes,
residentes, associações, empresas
Feliz Natal
e
Próspero Ano Novo