FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE DE SÃO

PAULO
FAUUSP

JÉSSICA SILVÉRIO MENDONÇA | NºUSP 8556057
PROFº RICARDO MARQUES DE AZEVEDO

ESTUDO:
O BANHO DE DIANA, DE FRANÇOIS CLOUET
(1559-1560)

SÃO PAULO
2015

obra a ser aqui discutida. François Clouet foi um pintor francês nascido no início do século XVI que. profundos e expressivos diante do espectador. o pintor possui fortes traços adquiridos no trabalho conjunto ao pai. o artista apresentava-se em um ápice. de caráter religioso e mitológico e retratos feitos a crayon e desenhos a lápis."HONNEUR DE NOTRE FRANCE"¹ Cenas de banho envolvendo figuras femininas. embora não possua a fama que os diversos mestres franceses e italianos do Renascimento adquiriram. Já no final da década de 1550. passando o cargo passou para seu filho. prova disso são algumas produções bastante frutíferas do século XIX que abordavam este tema – fugindo um tanto da temática política predominante –. no qual os retratos adquirem olhares mais intensos. Pode-se observar tal característica no Retrato do Marechal de Montjean (1538) (imagem 7). ou mesmo cenas em que o banho seja o tema principal. entre estas podemos citar A Banhista de Valpinçon (1808) (imagem 1) e Banho turco (1862-1863) (imagem 2). Desenvolveu. Porém. Inicialmente. quando morreu. é notável a evolução dos traços e características dos retratos. deixou um legado bastante admirável no campo das artes. Tal mudança pode ser exemplificada pelo Retrato de Maria Stuart em Luto Branco (1560) (imagem 8).FRANÇOIS CLOUET . além de uma série feita por Edgar Degas. recebendo inúmeras . Observando os diversos crayons atribuídos a Clouet. retratista e miniaturista flamengo – na cidade de Tours até o ano de 1523. Woman Drying Her Foot (1885-1886) (imagem 4) e After The Bath. alguns séculos antes a temática já havia sido abordada por François Clouet. tal característica vai se modificando e tornando-se algo bem mais pessoal. Seu pai foi Jean Clouet. foram bastante recorrentes nos diversos períodos que a arte vivenciou no passado. Aliava nestes uma meticulosidade flamenga adquirida durante a experiência com seu pai. pintor oficial do rei Francisco I até 1541. pinturas de nus. tais como The Tub (1886) (imagem 3). Woman Drying Her Neck (1895) (imagem 5). porém. principalmente. com pinturas renascentistas como Dama no banho (1571) (imagem 6) e O banho de Diana (1560). François Clouet trabalhou com o pai – que era retratista. habilidade desenvolvida desde 1528. ambas de Jean-Auguste Dominique Ingres. além da presença do modelo que é retratada de forma intensa. quando ainda era muito jovem.

E não só isso. 2. raros quando comparados à sua retratística habitual. definitivamente. Através da voz de Ronsard. . que atualmente se encontra no Louvre exemplifica essa particularidade na carreira de Clouet. a maestria de François Clouet consagrou-se. Alguns fatores acabam por levar o pintor a uma certa “mudança de ares”. A viagem de Clouet à Itália nos anos de 1549-1550. estão: 1. com figuras nus femininas. contribuindo para que fosse reconhecido como um dos maiores nomes – se não o maior – da arte francesa da segunda metade do século XVI. um dos sete poetas do primeiro movimento “organizado” de poesia francês do século XVI. ¹ Considerado “honra de nossa França” por Pierre de Ronsard. num período de ápice para os pintores renascentistas italianos. que o enxerga com grande confiança e chega a colecionar seus desenhos. Dentre esses fatores. na qual as maneiras florentinas se sobressaem quando comparado aos retratos habituais do pintor. Chega a ser prestigiado até mesmo pela rainha da Espanha que. O frequente contato com os artistas italianos envolvidos nas decorações do Palácio de Fontainebleau – que introduziu na França o maneirismo italiano. E é dessa influência que surgem os quadros de Clouet.encomendas da rainha francesa. A presença de Scipione di Brinbal no ateliê de François Clouet por determinado período. que eram contratados e levados para pintar nos diversos países da Europa. por admirar seus desenhos. O retrato de Pierre Quthe (1562) (imagem 9). e disso surgem seus retratos a óleo. lhe escreve pedindo alguns. e quadros como O banho de Diana – que faz parte dessa abordagem diferencial adotada por Clouet e discutida até aqui – fazem parte da contribuição do pintor à arte francesa. a abordagem históricomitológica também faz referência direta ao Renascimento italiano. nos quais nota-se claramente um estilo italiano que se diferencia dos retratos e crayons produzidos pelo artista. 3.

sendo atacado e abatido por seus cães (imagem 11). Actéon aparece montado em seu cavalo. deusa greco-romana (na Grécia era chamada de Ártemi). na companhia de seus cães de caça. . sendo esta mais influente do que a primeira. que se encontram enfurecidos também pela vontade da deusa. François Clouet deixa claro – e pode-se notar com pouco tempo de observação da obra – que O Banho de Diana (imagem 10) faz parte do conjunto de trabalhos do pintor no qual a influência renascentista italiana demosntra-se fortemente. Trata da morte de Actéon. estão Diana e suas ninfas. Clouet adotou uma linearidade que segue o sentido esquerdadireita pela visão do observador: no canto direito do quadro (ou seja. a história acaba ganhando uma nova versão no século XVI. no canto esquerdo da obra (à direita do observador). A deusa fica enfurecida. porém. tornando-se conhecida como a deusa pura. na Tegonia. Ela então tranforma o caçador em um cervo. Porém. Executado em pintura à oleo sobre madeira. a técnica e a simbologia histórica. à esquerda do observador). Começando pela análise iconográfica da obra. para que se torne presa dos seus próprios cães. a cena faz parte da narrativa escrita por Hesíodo. Na obra. por meio do Livro III das Metamorfoses de Ovídio. durante uma caça. afinal. zelava muito por sua virgindade e rejeitou tão logo pode a ideia de se casar. surpreende Diana (ou Ártemis) e suas ninfas durante o banho em uma nascente. na companhia de dois sátiros. caçador criado pelo centauro Quíron que. O Banho de Diana apresenta uma complexa simbologia que uma breve exploração visual não revela de imediato. Originalmente.A TRIPLA FACE DE O BANHO DE DIANA Ao retratar o grupo feminino na cena mitológica de origem clássica. na parte central. que a auxiliam após o banho. embora apenas essa já seja suficiente para notar a grandiosidade da obra. nenhuma criatura poderia ver Diana nua. a cena retrata uma história mitológica da deusa Diana. uma análise mais aprofundada do contexto histórico-político do seu período de execução deixa aberta a possibilidade de atribuir três diferentes campos de análise: o iconográfico. o autor já retratou Acteon na forma de cervo.

Além disso. que mostrou-se muito mais consistente do que as anteriores. Em 1920. E foi a existência dessas quatro versões que deu partido aos estudos sistemáticos de qual seria a simbologia que a obra trata. já desperta a certeza de uma simbologia histórico-mitológica. As feições das personagens obra eram muito parecidas com retratos da nobreza realizados na época. no segundo plano.Algo que muito acontecia na poesia e na pintura dos séculos XVI e XVII – e que de fato ocorreu no relato ovidiano e também na pintura de Clouet – era que as obras ganhavam duplo sentido e carregavam consigo uma trama de alusões políticas e satíricas. que não estão de acordo com as vestimentas usuais retratadas em quadros de cunho mitológico. Ficava claro o labirinto interpretativo que a obra apresentava ser. Foi só recentemente que Gilles Grandjean escreveu em Musée des Beaux-Arts de Rouen. que se encontra no MASP atualmente e que pertencia a Maurice Métayer. as personagens de Clouet estariam fazendo alusão ao amores de Charles IX (rei da França de 1560 a 1574. a da coleção de Maurice Sulzbach e a do Museu de Tours. A essência das interpretações propostas dependia das diversas possibilidades ao associar as figuras femininas do quadro com figuras da nobreza do período. 9-33) que a obra de François Clouet tratava de uma alegoria dos amores de Henrique II (rei da frança de 1547 até o ano de sua morte. filho de Henrique II e Catarina de Médici). Guide des Collections XVIe – XVIIe siècles (p. Além dela. A composição aqui tratada possui quatro versões conhecidas. na verdade. Uma análise um pouco mais demorada de O banho de Diana.60) uma terceira interpretação. ano de sua morte) e de Marie Touchet (amante do rei Carlos IX. 1559) e de Diana de Poitiers (nobre francesa que viveu nas cortes dos reis Francisco I e Henrique II). . 1-8) que. segundo campo a ser analisado. Todas apresentando variantes notáveis entre si. outro ponto que confirma essa duplicidade de sentidos da cena seria os trajes de Acteon (imagem 12). Salomon Reinach escreve em Diane de Poitiers et Gabrielle d'Estrées (p. já considerando o contexto em que ela foi produzida. e foi onde a obra acabou monstrando-se como um “labirinto interpretativo”. existem também: a do Musée des Beuax-Arts de Rouen. Já André Blum (e também outros que concordam com tal interpretação) escreve em “Le bain de Diane” – essai sur un tableau énigmatique du XVIe siècle (p.

pode-se dividir a simbologia da obra em três momentos: o “luto” pela morte de Henrique II. Dessa maneira. coincidindo assim com a data de produção da obra e com a linearidade adotada por François Clouet (imagem 18). Eles estariam fazendo alegoria aos irmãos de Guise – o duque e o cardeal de Lorraine –. Clouet cria um constraste ao compor a cena com nus femininos carregados de elegância lívida. que já podiam ser conhecidos devido aos trabalhos anteriores de Clouet nos quais já havia a retratado. tios maternos de Maria Stuart. tocando seus instrumentos com olhares malignos. Por último. adquiridos do contato com o trabalho de seu pai. . e também é notável a forte influência das técnicas italianas. personagem que inicialmente é associado a Actéon (Henrique II). Brantône. a crítica ao modo de viver dos irmãos Guises e a celebração do casamento de Maria Stuart com Francisco II em 1558. Rainha consorte de Francisco II. é possível enxergar nos traços da ninfa sentada (imagem 14) a fisionomia de Catarina de Medici. poeta e possível amigo de François ² A Escola de Fontainebleau se refere aos dois períodos de produção artística na França que ocorreram durante o final do Renascimento. típicos da Escola de Fontainebleau² com a forte reminiscência flamenga já citada. que estaria chorando a morte acidental do marido (imagem 15). que pode ser identificada como a duquesa de Guise. Maria Stuart vai ao trono e é saudada como “a nova Diana”. além da influência da pintura francesa do século XVI. ou seja. com centro no Château de Fontainebleau (onde Clouet teve contato com diversos artistas italianos). A cena retratada por Clouet pode ser vista como uma miscigenação dos diversos estilos com os quais o pintor teve contato. em 1559. que aparece ao fundo montado em seu cavalo. apresenta elementos cromático-decorativos segundo o padrão de tapeçarias flamengas do século XV. Os sátiros presentes na cena (imagem 16) parecem estar felizes assistindo a dor da ninfa (Catarina Médici). principalmente do maneirismo.Grandjean relacionava os traços de Diana à Maria Stuart (imagem 13). possível motivo para ter sido associado a Actéon. Os irmãos de Guise eram de uma das mais poderosas famílias aristocratas francesa e odiados por sempre estarem envolvidos em diversas intrigas políticas. Analisando essa interpretação. Ainda há também a ninfa que passa o manto nupcial romano (chamado de flammeum) para Diana (imagem 17). Henrique II – o rei possuía o apelido de “Cervo Real”. Seguindo essa linha de pensamento. tratando-se da técnica da obra.

fazendo parte da paisagem. Um recente exame da obra de Rouen revelou o semblante do cavalheiro. mas que é atravessada historicamente pelo personagem equestre (Actéon). despertando uma memória remota giorgione-tizianesca. coleção Sulzbach e Tours) foram objetos de diversas hipóteses quanto à sua cronologia. como também certa afinidade com a pintura veneziana. já que ele não faz parte da composição em frisa reservada à alegoria mitológica. Com relação às versões Sulzbach e Tours. qual seria a primeira produção e quais seriam as posteriores. Já Béguin deixa escrito em “François Clouet” in Le XVIe Siécle. documenta em um de seus poemas o culto à pele muito branca como traço distintivo da nobreza. LABIRINTO INTERPRETATIVO O labirinto interpretativo – título que muito bem classifica a obra – que foi e ainda é. afinal. porém. houve divergências quanto aos outros quadros.Clouet. O Banho de Diana. sua argumentação é falha por três motivos: o primeiro deles é que ele determina que o cavalheiro que aparece na versão do MASP seja Henrique II. o primeiro quadro da série é o nosso objeto principal de análise. enquanto a bronzeada era associada ao mundo do trabalho. revelando . Européen Peintures et Dessins dans les Collections Publiques Françaises (p. Para Blum (1921). quando já sabemos atualmente que se trata de Francisco II. Tal característica também tratava de uma forma de diferenciação de classes. em suas quatro versões (MASP. em um segundo plano. existe um consenso de que foram criadas posteriormente. Porém. já que as fisionomia do cavaleiro representado é certamente de Henrique IV. que pode ser observada na disposição em frisa dos nus e na divisão horizontal do quadro entre os espaços da alegoria mitológica e da paisagem. degradante e inferior. a terceira e ultima é a mais importante e que determina sua falha. a pele muito branca era associada à superioridade. que atualmente se encontra no MASP. o segundo é que a identificação do cavalheiro na versão de Rouen é impossível de ser feita já que seu semblante se encontra borrado. Não só o contraste é perceptível. Rouen. 59) que a primeiro quadro seria o de Rouen. mas sim ao fundo.

Enquanto isso. IMAGENS DE AUXÍLIO À ANÁLISE Obras de Jean-Auguste Dominique Ingres: Imagem 1 . a versão do MASP foi confirmada pela literatura ulterior. muito diferente de qualquer outro que esperaria ser associado. para que a definição iconográfica da obra seja feita da melhor e inequívoca maneira possível. É possível reconhecer traços fisionômicos de Francisco I.A Banhista de Valpinçon Imagem 2 – Banho Turco (1808) (1862-63) . morto em 1549. Sabe-se que um novo estudo que aborde essa questão deve ser feito.um outro rosto. novas curvas e muros seriam adicionadas ao labirinto interpretativo. Se essa hipótese fosse confirmada. e a datação da obra também acabaria revista e alterada.

A banheira Imagem 4 – Mulher secando seu pé (1886) (1885-1886) Imagem 4 – Depois do banho.Obras de Edgar Degas: Imagem 3 . secando seu pescoço (1895) .

Obras de François Clouet: Imagem 6 – Dama no Banho (1571) Imagem 7 – no Retrato do Marechal de Montjean Imagem 8 – Retrato de Maria Stuart em luto branco (1538) (1560) .

Imagem 9 – Retrato de Pierre Quthe (1562) Imagem 10 – O banho de Diana (1559-1560) .

Imagem 11 Imagem 12 Imagem 13 – Comparação de Diana com Retrato de Maria Stuart Imagem 14 – Ninfa sentada e miniatura de Catarina de Médici. de Clouet. .

Imagem 15 Imagem 16 – Sátiros/ irmãos de Guise Imagem 17 – Duquesa de Guise Imagem 18 – datas dos acontecimentos Símbolos 1558 1559 1558 .

. Gilles. Ettore. 1-8 p. Petit Palais. nº 21. Paris: catálogo da exposição. 1988 pp. Diane de Poitiers et Gabrielle d'Estrées. 1956. 1965. Reinach. Béguin. Pietro Maria. <http://www.wga. Blum. The Arts in Brazil. ”François Clouet” in Le XVIe Siécle. 15-18 p. del Milione. Marques. Luiz (org). Sylvie.br/servicoeducativo/assessoriaaoprofessor-mai08. 1988. 9-33 p. Grandjean.php> acesso em 5 de janeiro de 2013.art.html> acesso em 10 de janeiro de 2013. 60 pp. <http://masp. 1992. Tresors du Musée d'Art de São Paulo: Da Raphael a Corot (catálogo da exposição). Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand: Arte Francesa e Escola de Paris. 5e pér. 1998. Milão: Ed. Européen Peintures et Dessins dans les Collections Publiques Françaises. Salomon (1920).BIBLIOGRAFIA Bardi. 179 pp. São Paulo: Prêmio.hu/frames-e. Camesasca. Gazette de Beaux-Arts. 59 p.html?/html/c/clouet/francois/index. Studium. Martigny: Fondation Pierre Gianadda. Paris: RMN. Musée des Beaux-Arts de Rouen: Guide des Collections XVIe – XVIIe siècles. ”Le bain de Diane” – essai sur un tableau énigmatique du XVIe siècle. André (1921).