Quarta-feira, 01 de outubro de 2014 | Correio do Vouga | 19

opinião

Borboletas na barriga

JOANA PORTELA
Mãe e Revisora de Texto

As borboletas
Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas
Borboletas brancas
São alegres e francas

com/watch?v=UJrSUHK9Luw)
no vídeo sobre a Orquestra de
Instrumentos Reciclados: sobre pessoas que transformam
lixo em instrumentos musicais;
sobre o poder da música como
elemento de dignificação humana e transformação social; sobre
como se resgata, da mais funda
pobreza, crianças em risco e sons
de beleza. A música é como as
borboletas: há nela o dom da metamorfose.
Tocata e(m) Fuga. Entre
nós, porém, a desafinada batuta do Ministério da Educação
pauta-se unicamente pela “utilidade” do Inglês no 1.º ciclo.
O ensino da música é relegado
para o plano do floreado acessório, enquanto estão em fuga os
apoios estatais ao Ensino Artístico, tornando-o intocável para
a maioria. Ora, sendo um factor

públicas lhe dedicam hoje é uma
surdez com sérias consequências
para o futuro.
Crescendo.
Experiências
conduzidas por investigadores
e neurocientistas têm provado
que aprender música ajuda as
crianças no seu desenvolvimento cognitivo, proporcionando
melhores desempenhos tanto
na aprendizagem da matemática como das línguas. Além disso,
as actividades musicais criativas
não só impulsionam a capacidade musical propriamente dita,
como influenciam, de maneira
marcante, aspectos como competência social, motivação para
aprender e trabalhar, inteligência, capacidade criativa, equilíbrio emocional e habilidade para resolver conflitos. Um estudo
do Laboratório de Neurociência
Cognitiva do Hospital Infantil

mula o cérebro num accelerando
de espiral progressiva...
Molto vivace. Como a espiral
virtuosa de um Bolero de Ravel,
precisamente:
www.youtube.
com/watch?v=8TPsar2kGLs.
Aqui está um inspirado filme de
animação (Sinfonia, de Simon
Brethé) que é um bom ponto de
partitura para, na escola, começar a explorar alguns conceitos
musicais com as crianças. O desenho animado, eivado de notas
humorísticas, funciona como um
concerto didáctico, porque os
diversos instrumentos que integram a orquestra estão individualizados, sendo possível associar
facilmente o som ao respectivo
instrumento em cada movimento da música! É o que acontece
também no clássico Pedro e o
Lobo, de Prokofiev, uma história
infantil contada através da mú-

Sam e o Som (Caminho); A Aula
de Tuba (Gatafunho); A história
secreta de Pedro e o Lobo de Sergei Prokofiev (Assírio e Alvim).
A editora Kalandraka tem duas
colecções (Óperas e Livro-CD)
vocacionadas para o público infantil, que combinam, como numa sinfonia, a literatura, as artes
visuais e a música.
Sinfonia. O pedagogo Daniel
Pennac, no seu livro Mágoas da
Escola, tocado pela harmonia
com que uma professora conduzia a sua turma de jovens imigrantes dos subúrbios, evoca a
relação desejável entre uma sala
de aula e uma orquestra: “Cada
aluno toca o seu instrumento,
não vale a pena contrariá-lo. A
delicadeza está em conhecer bem
os músicos e encontrar a sua harmonia. Uma boa turma não é um
regimento que acerta o passo e a

determinante para o desenvolvimento sadio de crianças e jovens
durante o período escolar, a música devia estar verdadeiramente
integrada, de forma transversal
até, no percurso curricular de
todo o ensino básico. E aprender
música não é, como acontece por
aí em algumas escolas primárias,
cantarolar as canções do Panda
nas escassas horas previstas para
as expressões artísticas! A música é uma linguagem infinitamente mais universal do que qualquer língua franca, mas, por não
ser tecnocrata, Sr. Crato, tem sido demasiado engavetada (e até
engravatada…), em vez de estar
imbuída, como música de fundo
contínua, no currículo das crianças e jovens portugueses. A negligente atenção que muitas escolas

de Boston veio constatar que as
crianças que recebem aulas de
música regularmente amplificam
as suas capacidades cerebrais
para o resto da vida, alcançam
resultados escolares acima da
média, um desempenho superior em desporto e, mais tarde,
em actividades profissionais. A
pesquisa mostrou que os alunos
que recebem aulas particulares
de música revelam maior atividade cerebral nas áreas associadas às funções executivas — ou
seja, os processos cognitivos que
permitem processar e reter informações, resolver problemas e
regular comportamentos. O neurocientista Oliver Sacks (autor de
Musicofilia) afirma que a música, literalmente, molda os nossos
cérebros. Aprender música esti-

sica que bem podia fazer parte
do cânone de obras de leitura
obrigatória do 1.º ciclo. Como,
aliás, o Carnaval dos Animais,
de Saint-Saëns, que tão bem se
presta ao prestissimo e lento andamento dos corpos dos miúdos
numa aula de expressão motora e
fantasia… em sol maior.
Pianissimo. A música habita
o silêncio. O dos livros também,
de onde se soltam, esvoaçantes,
melodias e borboletas. Recorrer
às histórias pode ser uma estratégia para ir musicalizando
o currículo, um movimento de
abertura para outros voos musicais. Proponho alguns arranjos
a quatro mãos (as do educador
e as do aprendiz) com estes instrumentos de leitura: O Piano de
Cauda (Edições Eterogémeas);

marcha, é uma orquestra que estuda a mesma sinfonia. E se herdarmos o pequeno triângulo que
só faz ting-ting, ou o berimbau
que só faz boing-boing, o que
interessa é que o façam no momento certo, o melhor possível,
que se tornem um excelente triângulo, um irrepreensível berimbau, e que se sintam orgulhosos
da qualidade que o seu contributo confere ao conjunto. Como
o gosto da harmonia conduz ao
progresso de todos, o pequeno
triângulo acabará, também ele
por aprender a música, talvez
não tão brilhantemente como o
primeiro violino, mas tocará a
mesma melodia.”
E, às vezes, as borboletas na
barriga são motivo e melodia para o mais belo Magnificat!

Borboletas azuis
Gostam muito de luz
As amarelinhas
São tão bonitinhas
E as pretas, então
Oh, que escuridão
Poema de Vinicius de Morais,
cantado por Adriana
Partimpim

Prelúdio. 1 de Outubro, Dia
Mundial das Borboletas na Barriga! Ou, por outros tons, Dia
Mundial da Música. Sim, sim,
plim, plim, que a música tem
esse dom, tom, tom, de bater de
asa, leve, leve, dentro de meninas e meninos, hinos, hinos!
Allegro. “Quando ouço o som
de um violino, sinto borboletas na
barriga.” Quem o diz é uma menina do bairro pobre de Cateura
(a maior lixeira do Paraguai), que
– num violino feito a partir de lixo ressuscitado – toca Vivaldi e
acorda em nós a Primavera. Vale a pena ouvi-la (www.youtube.