You are on page 1of 1

Quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014 | Correio do Vouga | 23

opinião

Destravar a língua

JOANA PORTELA
Mãe e Revisora de Texto

Aula de Português
A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada de
letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é
quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha
ignorância.
Figuras de gramática,
esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me,
sequestram-me.
Já esqueci a língua em que
comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua
entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro,
mistério.
Carlos Drummond de
Andrade

“Mãe, sem a língua não podemos falar?! O teu trabalho é da
língua, não é? Mas não é estaaaaaa.” Há quem deite a língua de
fora; e há aqueles que querem
deitar as línguas fora, proibindo
o uso das que não são consideradas oficiais. Estima-se que, até
ao final deste século, irão desa-

parecer cerca de 7 mil idiomas
em todo o mundo. Ora, com a extinção de uma língua, é toda uma
cultura que se perde. Para travar
a desvalorização das línguas naturais e promover a diversidade
linguística e cultural, celebra-se,
a 21 de Fevereiro, o Dia Internacional da Língua Materna.
A língua materna é aquela em
que nascemos, em que nos deleitamos, bebendo as primeiras
palavras com o leite da mãe. Por
isso, o modo como pensamos
e sentimos a realidade está, de
forma indelével, moldado pela
nossa língua materna. Nelson
Mandela exprime-o com íntima
sabedoria: “Se falares com um
homem numa língua que ele entenda, a informação vai para a
sua cabeça. Se falares com ele na
sua própria língua, a informação vai para o seu coração”. Na
nossa língua-mãe, todos temos o
coração na boca!
A habilidade na língua materna
é imprescindível para a aprendizagem posterior, uma vez que
constitui a base do pensamento.
Por outro lado, uma destreza incompleta na língua materna dificulta a aprendizagem da leitura,
da escrita e de segundos idiomas.
É que, antes mesmo da gramática da língua, a criança já conhece
muito da gramática da vida. A
linguagem sem as letras: aquela em que come e brinca na rua
e leva pontapés; a das perguntas prontas na ponta da língua;
a música falada em que joga às
escondidas com a palavra alada.
As crianças adquirem espontaneamente a sua língua materna e
usam-na criativamente. Há uma
etapa no seu desenvolvimento –
a chamada fase verbal –, entre os
3 e os 6 anos, na qual constroem
jogos de palavras, são arranjadores de idiomas, inventam vocábulos estrambólicos e esquipáticos, desenvolvendo a linguagem
num sentido puramente lúdico.
As crianças nesta idade são, sem
o saber(mos), verdadeiros poetas
da língua. Nós, adultos, é que já
temos uma consciência linguísti-

ca demasiado padronizada pela
escola e travada pela grafia para
sermos capazes de apreender esse saber/sabor das brincriações
infantis ou, por exemplo, das suas perplexidades santólicas: “O
Papa come papa de bebés?! Mas
então, porque é que se chama
Papa?!” Ou para (nos) alimentarmos (d)as suas metáforas inconscientes que fazem a língua
idioma falar a partir da experiência da língua-corpo: “Mãe, o Sol
é só gema?”
Esta espontaneidade criativa
no manejo da língua materna
acaba frequentemente por perder-se com a entrada na escola e
a consequente passagem de um
conhecimento puramente (corp)
oral da língua para um saber um
tanto espartilhado pela ortografia e pela gramática. Felizmente,
a dimensão da pura oralidade às
vezes ainda aflora, à revelia da
ortografia. No outro dia, à sobremesa, o nosso miúdo começou
a fazer malabarismos com uma
laranja. O pai advertiu-o: “Não
faças isso, que a laranja fica toda amassada.” Segundos depois,
pergunta: “Ó mãe, uma laranja
amassada é uma laranja com
sabor a maçã?” Achei delicioso este malabarismo linguístico: uma fruta amaçada sempre
acrescenta um travo novo à língua. E fiquei a pensar com os
meus botões se os ditados escolares não andam a pôr, nas palavras ditas, os travões das palavras escritas. Quantos erros não
poderiam ser, afinal, vocábulos
errantes em mentes brilhantes?
Contudo, a grande preocupação de pais e professores é a
aquisição da leitura e da escrita,
dessa linguagem na superfície
estrelada de letras. Na escola,
mais do que a língua materna,
ensina-se a língua-padrão (ou
melhor, a língua-travão), que
corresponde apenas a “uma entre as muitas variedades de um
idioma, sempre a mais prestigiosa, porque actua como modelo, como norma, como ideal linguístico de uma comunidade”.

Educação é aquilo que permanece
depois de termos esquecido o que
aprendemos na escola. (A. Einstein)

O pai advertiu-o: “Não
faças isso, que a laranja
fica toda amassada.”
Segundos depois,
pergunta: “Ó mãe, uma
laranja amassada é uma
laranja com sabor a
maçã?” Achei delicioso
este malabarismo
linguístico: uma fruta
amaçada sempre
acrescenta um travo
novo à língua. E fiquei
a pensar com os meus
botões se os ditados
escolares não andam a
pôr, nas palavras ditas,
os travões das palavras
escritas. Quantos
erros não poderiam
ser, afinal, vocábulos
errantes em mentes
brilhantes?

Hão-de concordar com o poeta,
os nossos aprendizes de 6 anos:
O português são dois; o outro,
mistério.
A propósito do ensino da língua, o pedopsiquiatra João do
Santos alertava: “Ora, a linguagem falada é ignorada pelas escolas do nosso país. […] Se o cha-

mado ensino da ‘língua materna’,
que se faz na escola, for confundido com o ensino da língua escrita, desprezam-se, anulam-se,
desperdiçam-se as componentes
básicas da linguagem: as atitudes e a expressão corporal, a
mímica, a pantomima, o gesto e
o dizer particular de cada grupo,
o dizer através do qual o grupo
exprime o seu saber. Este ensino
da língua materna pode tornar-se factor de segregação, em vez
de ser de integração.” Maria Rosa Colaço compreendeu isto tão
bem, que fez com os seus alunos
um notável trabalho de pedagogia da língua materna a partir
das produções orais das próprias
crianças. Vale a pena revisitar A
Criança e a Vida.
Para manter viva a dimensão
lúdica e sonora da(s) língua(s),
aqui ficam três sugestões: o multilingue Trava-Línguas (Planeta
Tangerina), com audiolivro disponível no blogue “Letra Pequena”; Era, não era? (Boca), com
excerto para ouvir aqui: http://
www.boca.pt/era-nao-era.html.
E para a aula de Português do
secundário, um desafio temerário: “Língua”, de Caetano Veloso:
Gosto de sentir a minha língua
roçar a língua de Luís de Camões…
E porque não mostrar às crianças que temos, entre nós, uma
língua materna em risco de extinção – o mirandês? O livro infantil Irmã(o), de Cristina Valadas
e Eugénio Roda, bilingue e (fra)
terno, promove o diálogo entre
as duas línguas irmãs do nosso
território. Abre assim: “Quando
caí em mim pela primeira vez,
dei comigo a falar com o silêncio
das coisas. Decidi procurar alguém que falasse como eu falo,
que me dissesse coisas como as
coisas que eu digo. […] Alguém
que me estendeu a mão para me
levar não sei aonde. Onde talvez
só exista uma equação: ir + mão
= irmão.”
Uma matemática só possível
porque a minha mátria é a língua
portuguesa!