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38 | Correio do Vouga | Quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

natal

“Acenda-se Jesus
nos olhos dos meninos!”
Voto de Natal
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.
[…]
Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acenda-se de novo o Presépio nas almas.
Acenda-se Jesus nos olhos dos meus filhos.
David Mourão-Ferreira, Obra Poética

O meu propósito de Advento é este: “Acenda-se Jesus
nos olhos dos meus filhos.” E isto, nos tempos que
correm, é tarefa bem difícil, mesmo para as famílias
cristãs, pois as nossas crianças estão a crescer numa
sociedade que há muito faz do Natal apenas Dezembro,
que vem apagando o Menino da sua própria festa! E
os nossos meninos são invadidos, olhos adentro, por
ilusórias luzes a piscar promessas de presentes, numa
cultura de acumulação e desperdício que descartou
o despojamento de Jesus, nascido nas palhas e semabrigo, trocando-o pelo saco imenso do Pai Natal,
transbordando a plástico chinado…
O meu dilema de Advento é este: como preparar o
coração dos meus filhos para o Natal, quando à nossa
volta — nas ruas, nas casas, nas escolas, nos media —
se omite Jesus dos preparativos, das conversas, do
quotidiano e do tempo natalício? As nossas crianças
são educadas numa cultura em que o burro de olhos
ternos e a vaca de calor maternal foram há muito
substituídos por uma “hipopótama” sexy que promete
diversão (!!) para a noite de Natal e por uma avestruz
benemérita (??) que distribui, num gesto largo e
liberal, sorrisos à pobreza. Vale a pena perguntarmonos, como Jorge de Sena: “Natal de quê? De quem? /
Daqueles que o não têm? / Dos que não são cristãos? /
O de quem traz às costas as cinzas de milhões?”
Não quero que os meus filhos se convençam, por
propaganda e osmose cultural, de que o Natal é isto:
prendas, Popotas e Leopoldinas, e um carnaval de
gente a enfiar na cabeça o barrete vermelho e as hastes
“tão fashion” das renas, quais antenas superficiais

“Fuga para o Egipto”, de Jean Pierre Augier

captando a onda do momento, tão distraídas, afinal,
do essencial: essa noite feliz em que o divino se
humaniza! Neste contexto, impõe-se me a pergunta:
como preparar o nosso coração para acolher Jesus
neste Natal, quando um cortejo, não de pastores, mas
de adereços e animais exóticos vem ocupando esse
lugar tão chão do estábulo de Belém?

Como preparar o coração
dos meus filhos para o
Natal, quando à nossa
volta — nas ruas, nas
casas, nas escolas, nos
media — se omite Jesus
dos preparativos, das
conversas, do quotidiano
e do tempo natalício?

A este propósito, recordo aqui um episódio que se
passou em 2011, tinha o meu filho então 5 anos. Num
dia de Dezembro, quando fui buscar os miúdos ao
infantário, reparei que na parede exterior da sala do
mais velho estava afixado um pequeno cartaz com
as respostas das crianças a duas perguntas: “O que é
para ti o Natal?” e “Porque é que o Natal é especial?”.
As respostas do meu filho destacavam-se das outras
pela sua singularidade: “O Natal é o dia em que Jesus
nasceu” e “É especial porque no Natal vamos visitar os
amigos quando eles estão com saudades”. O que me
surpreendeu foi o facto de a resposta dele ser a única,
em mais de vinte, a associar o Natal a Jesus. Já em
casa, disse-lhe que tinha ficado contente por ele ter
respondido tão bem às perguntas sobre o significado
desta festa. Reforcei a ideia de que o principal no Natal
é o Menino Jesus. E não o Pai Natal e as prendas. O
meu filho, muito compenetrado e a contar pelos
dedos, respondeu: “O mais importante é o pai do
Jesus, a Maria, o Jesus e... o Rudolfo.” Fui apanhada
de surpresa: “O Rudolfo?!!”. “Sim, mãe, o Rudolfo é
importante, porque é a única rena que fala português.”
Não sei onde é que ele foi buscar esta ideia patriótica
em animal importado, mas fico a pensar que, de facto,
é importante que o nosso Natal (e o dos nossos filhos)
fale e celebre (e ofereça…) em português, em vez de ser
assimilado por visitantes da Lapónia e engolido por
embrulhos chineses. E se regressássemos, nas vozes e
nas almas, à nossa “Noite feliz, noite feliz”, em vez de
andarmos num corrupio sob o rumor cintilante de uns
“Jingle bells, jingle bells, jingle all the way”? E por
que não trocamos, nas escolas e nas famílias, a ficção
americanada do Rudolfo pela (verdadeira) história do
tão nosso Manuel, de A Noite de Natal, um magnífico
conto da Sophia que acende uma estrela nos olhos dos
meninos?
Para que seja Natal, e não apenas Dezembro, há
alguns preparativos que fazemos com os nossos filhos
durante o Advento: no início do jantar, seguimos as
propostas diárias de oração partilhada do caderno
“Advento Rezado em Família” (disponível em: http://
apacsjb.org.pt/#). No primeiro domingo, além de um
despojado presépio na sala, os miúdos também gostam
de fazer um outro no seu quarto, que acrescentam
e “humanizam” com os seus animais da quinta de
brincar.
Há dias, fui dar com a mais nova imaginando

Quarta-feira, 18 de dezembro de 2013 | Correio do Vouga | 39

natal
uma conversa maternal entre a ovelha da quinta e
o bebé Jesus, inspirada certamente no diálogo do
livro Ovelhinha, dá-me lã (Kalandraka), que tão
bem explora os valores da partilha. Aliás, esta é uma
história que se presta bem a ser teatralizada nas festas
de Natal escolares, nomeadamente naquelas que se
(auto)espartilham com imposições de “neutralidade”
religiosa para não “ferir as susceptibilidades daqueles
pais que não acreditam em Jesus” (!!) – cito ipsis
verbis uma justificação que me foi dada, em tempos,
num estabelecimento de ensino pré-escolar… (“Natal
de quê? De quem? / Daqueles que o não têm? / Dos
que não são cristãos?”)
Neste tempo, também fazemos em conjunto uma
considerável selecção de jogos, brinquedos e livros
para oferecer a outras crianças que não têm e depois
vamos com os nossos filhos às instituições para que
eles próprios (se) dêem do que tinham. Mais do que
fazer deste gesto uma oportunidade de despojamento
e de reflexão sobre a injustiça no Mundo, a ideia é
ajudar os miúdos a “passar de um coração solidário
a um coração comovido”, como um dia ouvi a frei
Fernando Ventura.
É certo que, cada vez mais, vai havendo a preocupação
de sermos solidários (ao menos) no Natal, mas faltanos ainda comover o coração (no fundo, falta-nos
acolher Jesus!). Muitos de nós, com as crianças pela
mão, passamos o mês de Dezembro a entrar em
lojas, em shoppings, em hipermercados. Entramos,
apressados, friorentos. Até contribuímos para o “Natal
Solidário” de algumas instituições e… sorrimos e
acenamos ao Pai Natal enquanto tropeçamos no semabrigo. Visitamos árvores iluminadas, mas ficamos à
porta do Presépio do Mundo…
Este ano, arrisquemos um Natal diferente. Neste
mês de Dezembro, com as crianças pela mão e Jesus
nos olhos dos meninos,
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira,
“Natal, e não Dezembro”, in Cancioneiro de Natal

Joana Portela

Havia pelo menos a introdução de uma nova figura,
que ela própria adquiria com o seu vencimento.

Oportunidade
para estimular
e animar

Nos dias que correm, fazer catequese com
adolescentes e cativá-los para a messe é tarefa árdua,
mas torna-se gratificante quando se colhem alguns
frutos. Geralmente, pela minha experiência, é no
tempo de Natal e nos dias que o antecedem, que melhor
se consegue cativar as camadas mais jovens para as
várias missões da Igreja na paróquia onde trabalho. É
nesta época que os cânticos se tornam mais atrativos,
levando a que os convites personalizados para auxiliar
no grupo coral sejam mais positivos e duradouros, já
que as convocatórias generalistas são inertes. Neste
tempo, os encontros de catequese são mais profícuos
e animados, notando-se um aumento do nível de
interesse e na participação ativa.
Assim também aconteceu comigo e com os amigos
da mesma faixa etária. Foi durante o tempo de
Natal, ao longo de vários anos, que o incentivo para
a participação nas atividades natalícias se deu com
mais fervor. Na paróquia de Veiros, a responsável pela
catequese, D. Armanda Nogueira (hoje a viver num lar
da Murtosa) animava-nos para múltiplas ações, desde
a participação no grupo coral, à preparação das festas
de Natal da catequese ou à elaboração do presépio da
igreja. Era durante a construção do presépio da igreja,
onde mais apreciava as inovações que a D. Armanda
introduzia a cada ano, ora colocava um espelho para
representar a água, ora umas luzes escondidas entre
o musgo, onde os fios elétricos ficavam muito bem
camuflados. As ideias, penso eu, trazia-as de Aveiro ou

de outras paróquias, onde colaborou durante muitos
anos.
Esperávamos sempre com ansiedade pelo dia de
fazer o presépio da igreja, se não houvesse uma
novidade “tecnológica”, havia pelo menos a introdução
de uma nova figura, que ela própria adquiria com o seu
vencimento. Tudo dava, sem receber nada em troca!
Este trabalho durava o dia inteiro de 24 de dezembro
e, era necessário vir a irmã, acompanhada pela tia,
chamá-la à igreja para a consoada. O que importava
mesmo para a D. Armanda era preparar o Natal para
os outros, sem se importar consigo própria. Isto
ficou-me na memória e é este testemunho que guardo
sempre comigo.
Hoje tento aplicar a mesma forma de incentivar ao
grupo de catequese que oriento, a quem convido que
acompanhe e participe na construção do presépio da
igreja, onde já construímos (em anos anteriores), uma
gruta em rocha e um autêntico regato com água… Sinto
que o grupo se vai tornando mais coeso e participativo
a cada dia que passa, não devido propriamente ao que
se constrói, mas a como construímos e ao tempo que
partilhamos juntos…
Aproveitemos este tempo para continuar a lançar
as redes, a estimular e a animar aqueles que nos
estão confiados, aproveitando todos os recursos que
tenhamos à disposição para o efeito.
Que todos tenhamos um Natal abençoado!
Victor Bandeira