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Quarta-feira, 24 de julho de 2013 | Correio do Vouga | 21

opinião

“Em nome do Avô, do Neto
e da Brincadeira”

JOANA PORTELA
Mãe e Revisora de Texto

O Futuro Perfeito
A neta explora-me os dentes,
Penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
Meu rosto diverte-a, parda
Imagem dada à inocência.
Finjo que lhe como os dedos,
Fura-me os olhos cansados,
Íntima aos meus próprios medos
Deixa-mos sossegados.
E tira, tira puxando
Coisas de mim, divertida.
Assim me vai transformando
Em tempo da sua vida.
Vitorino Nemésio

Na gramática da vida, o futuro
perfeito é isto: conjugar o verbo
brincar na condição de avô/avó!
(Ou melhor: conjogar, já que
“brincar só tem graça se houver a
possibilidade do erro”, como ensina Rubem Alves.)
Está quase aí o Dia dos Avós,
celebrado a 26 de Julho. É uma
feliz coincidência que o dia calhe
nas férias do Verão, tempo tão
propício ao (re)encontro mais
prolongado e lúdico entre avós
e netos. Mas a verdade é que foi
escolhida esta data por se tratar
do dia de Santa Ana e de São Joaquim, avós de Jesus.
Nem uma nem outro, devido à
sua idade avançada, terão tido a
felicidade de conhecer o neto, de
o divertir na intimidade das brincadeiras, ou dele dizer, como o poeta, “assim me vai transformando
/ em tempo da sua vida”. Santa
Ana não terá ensinado Jesus a ler,
como o fez com Maria, nem São
Joaquim terá aconselhado o neto
na paciência da pesca. Podemos,
contudo, acreditar que os avós de
Jesus foram, por via da humaníssima educação de Maria, absolutamente determinantes na história
do “sim” à Encarnação.

Avô e netos, escultura em Vigeland Park, Oslo
“Se pudesse viver de novo, olharia para meus filhos com olhos de avô.”
(Rubem Alves)

Esta improvável associação de
ideias — avós e Encarnação —
faz-me recordar, de novo, o texto
ousadamente sábio do pedagogo
Rubem Alves: «O Natal anuncia
que Deus fugiu de ser Deus. […]
A teologia cristã dá a isso o nome
de “encarnação”. O Natal é Deus
dizendo que divino, mesmo, é o
humano. Agora os três [Santíssima Trindade] andam pela terra.
Não mais como Pai, Filho e Espírito Santo. Esses ficaram no
Céu. Andam como Avô, Neto e
Brincadeira. Pai não serve. Tem
de ser o avô. E porquê Brincadeira, em vez de Espírito Santo?
Porque o Espírito Santo, na tradição teológica ortodoxa, é o que
acontece entre o Pai e o Filho.
Mas ora, o que acontece entre a
primeira e a segunda pessoas da
Trindade? Ora, o que acontece entre o Avô e o Neto é que
eles brincam. Brincar é a
mais divina de todas as actividades! Assim […] sugiro que a
grave fórmula litúrgica “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo” seja substituída pela leve
(pneumática!) fórmula litúrgica
“Em nome do Avô, do Neto e da
Brincadeira”» (Folha de S. Paulo,
27/12/1998). Que bonita e tão
palpavelmente quotidiana esta
imagem da Santíssima Trindade
andando pela terra como avô e
neto com suas brincadeiras! Afinal, a brincadeira é já um reflexo
antecipado do Paraíso.
“Era uma vez um avô que dizia
ao neto para brincar em vez de
estudar”. Resultado: uma vasta colecção de brinquedos antigos que deu origem ao Museu
do Brinquedo, em Sintra (agora
em risco de fechar). Ora aqui está uma sugestão para o Dia dos
Avós: mostrar aos netos como se
brincava no seu tempo, levando-os a visitar um museu do brinquedo (Vagos*, Seia, Ponte do
Lima). Seria uma boa oportunidade para os miúdos aguçarem a
criatividade com os brinquedos

antigos — alguns semelhantes
até aos que eram fabricados pelos avós —, de ouvir as histórias
e técnicas da sua construção,
de perceber que, afinal, os beyblades de hoje são uma versão
(plastificada e sem perícia) dos
piões de ontem. E, no fim, que tal
desafiar os netos para um verdadeiro campeonato de piões? (É
uma das brincadeiras preferidas
do meu filho com a avó.)
Do pião ao tablet, a viagem no
tempo pode ser nos dois sentidos: ao futuro do passado. Assim, para os netos mais velhos,
uma outra sugestão: linkar(-se)
(a)os avós numa viagem aprendizagem virtual, navegando, por
exemplo, pelo interessante (e
intergeracional) site da portuguesíssima Viarco, à procura dos
lápis de outros tempos (Museu
Virtual), mas também do criativo
tablet do futuro ou do lápis-pião,
brinquedo decerto apetecível para avós e netos.
………………………………
(estes pontinhos representam
uma súbita ausência)
A minha avó, que foi professora primária e decerto usou lápis
Viarco, faleceu há um mês. Os
meus filhos foram ao funeral da
bisavó, mas ainda estão confusos
com a dimensão palpável dessa
ausência:
— Depois do Céu, a bisa vai voltar para a cadeira de rodas, para casa dela? — pergunta a mais
nova.
— Não, filha, já não volta para
casa dela. Nunca mais vamos ver
a bisa…
— Mas podemos telefonar…
— Não, também não podemos
telefonar…
O mais velho espanta-se, de
olhos boquiabertos:
— Mãe, no Céu não há telefone??!!
Telefone não… Mas podemos
falar com ela através do nosso coração — foi a resposta que
me ocorreu, na altura. Depois,

fiquei a matutar nessa forma de
comunicação sem fios, desmaterializada mas virtuosa, algo
como uma inter-neta ou inter-neto, um meio de comunicação
interno — ao-neto. Com fios,
sim; mas os do afecto. E de viva
voz, sim; mas a das recordações.
Como acontece n’O Livro da Avó
(Afrontamento), que, numa belíssima ilustrinarração, “resgata
memórias de ternura: das festas
com coca-cola, das brincadeiras
com os primos, dos passeios e da
varanda com o mar como horizonte”.
Hesitei em interromper o tom
lúdico do texto com este tema.
Mas, tal como o mar, a ausência
dos avós faz parte do horizonte
da vida, da dos netos também.
Por isso, pareceu-me oportuno
partilhá-lo aqui e aproveitar para
sugerir um outro livro, com algumas ideias que podem ajudar a
encarar essa ausência com mais
naturalidade, a encontrar respostas simples para as perguntas que ficam: Para onde vamos
quando desaparecemos? (Planeta Tangerina).
Bom, às vezes, os avós desaparecem somente porque estão a
brincar às escondidas com os netos! Regressemos, então, às brincadeiras e à festa, que o Dia dos
Avós é bom pretexto para isso. E,
agora, uma proposta para os netos: levem os avós à biblioteca e
leiam-lhes, ainda que a soletrar,
um daqueles livros para sonhar,
uma história anti-rugas: Avós
(Kalandraka). E, depois, que tal
desafiá-los para um bailarico?
Com muito rodopio de saias e
piões. Em nome da Brincadeira!

* O Museu do Brincar (em Vagos) seria um bom programa para o Dia dos
Avós, mas está encerrado para obras
até dia 5 de Agosto. Um bom pretexto para, no próximo mês, avós e netos
brincarem ao “faz de conta que hoje é
Dia dos Avós”…